Os três Garridebs

Arthur Conan Doyle

Os três Garridebs

Título original: The Three Garridebs
Publicado pela primeira vez na Collier’s Weekly
em Outubro de 1924, com 3 ilustrações de John Richard Flanagan
e na Strand Magazine, em Janeiro de 1925
com 5 ilustrações de Howard K. Elcock.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Three Garridebs publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VII,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Tanto podia ter sido uma comédia como uma tragédia. A um homem custou a perda da razão, a mim custou um pouco de sangue e a um terceiro custou as penas da lei. Entretanto, houve em tudo um elemento de comédia. O leitor que julgue por si mesmo.

Recordo-me bem da data, pois foi no mesmo mês em que Holmes recusou um título honorífico que lhe foi oferecido por serviços que talvez algum dia sejam descritos. Só me refiro ao assunto de passagem, porque na minha qualidade de sócio e confidente vejo-me obrigado a evitar qualquer indiscrição. Mas repito que isso me habilita a fixar a data, que foi em fins de junho de 1902, pouco depois do término da Guerra dos Bôeres. Holmes passara vários dias na cama, como fazia de vez em quando, porém, naquela manha, apareceu com um longo documento em papel almaço na mão, piscando divertidamente os olhos cinzentos, de resto geralmente austeros.

— Amigo Watson — disse-me —, há uma oportunidade para você ganhar dinheiro. Já ouviu alguma vez o nome Garrideb?

Confessei que nunca tinha ouvido esse nome.

— Pois bem. Se puder pôr as mãos num Garrideb, ganha dinheiro.

— Por quê?

— Ah, essa é uma história comprida e também um tanto estrambólica. Creio que, em todos os mergulhos que temos dado nas profundezas da alma humana, ainda não deparamos com nada tão singular. O sujeito virá aqui para o interrogatório, por isso não quero encetar o assunto antes que ele chegue. Mas, no entanto, é esse o nome de que precisamos.

A lista telefônica estava em cima da mesa, a meu lado, e eu folheei-a sem grande esperança de encontrar o que desejava. Mas fiquei admirado de ver no devido lugar o estranho nome. Dei um grito de triunfo.

— Aqui o tem, Holmes! Ei-lo.

Holmes tirou-me o livro das mãos.

— “Garrideb, N.” — leu —, “Littie Ryder Street, 136, W.” Sinto causar-lhe uma decepção, meu caro Watson, mas este é o próprio homem. É o endereço que vem na carta. Precisamos de outro para emparelhar com ele.

Nesse momento entrou a Sra. Hudson com um cartão numa bandeja. Peguei-o e olhei-o.

— Epa, olhe para isto! — exclamei, admirado. — Trata-se de uma inicial diferente. John Garrideb, advogado, Moorville, Kansas, EUA.

Holmes sorriu ao olhar para o cartão.

— Creio que você vai ter de fazer mais um esforço, Watson — disse ele. — Este cavalheiro também já está na trama, embora eu não esperasse vê-lo esta manhã. Todavia, acha-se em condições de nos revelar muita coisa que precisamos saber.

Um minuto depois, ele estava no aposento. O sr. John Garrideb, advogado, era um homem robusto, de baixa estatura, de rosto redondo, fresco e escanhoado, característico de tantos americanos que se dedicam aos negócios. O efeito geral que aquele indivíduo causava era o de uma coisa roliça, quase infantil, parecendo-nos bastante jovem e sorridente. Contudo, seus olhos eram cativantes. Raramente vi numa criatura humana olhos que revelassem uma vida interior tão intensa, tão vívidos eles eram, tão vigilantes, tão prontos em responder a cada mudança de pensamento. O sotaque era americano, sem que no entanto fosse acompanhado de qualquer excentricidade de linguagem.

— Sr. Holmes? — indagou, olhando de relance para um e outro de nós. — Ah, sim! Seus retratos parecem-se bastante com o senhor, se assim posso dizer. Acredito que o senhor tenha recebido um carta de meu homônimo, o sr. Nathan Garrideb, não?

— Queira sentar-se — disse Sherlock Holmes. — Creio que teremos muito o que conversar. — Pegou suas folhas de papel almaço. — O senhor é, sem dúvida, o sr. John Garrideb mencionado neste documento. Mas certamente está na Inglaterra há algum tempo, não?

— Por que diz isso, sr. Holmes? — Pareceu-me ler uma sombra de suspeita naqueles olhos expressivos.

— Seu traje é todo inglês.

O sr. Garrideb esforçou-se por sorrir.

— Pela leitura dos jornais, conheço suas artimanhas, sr. Holmes, mas nunca pensei que seria objeto delas. De onde o senhor tirou essa conclusão?

— O corte do ombro do seu casaco, o bico dos sapatos… alguém poderia ter dúvidas a esse respeito?

— Bem, bem, eu não fazia idéia de estar assim tão inglesado. Mas os negócios me trouxeram para cá há algum tempo, e por isso, segundo o senhor me diz, meu traje é quase todo londrino. Todavia, o seu tempo é, como suponho, valioso, e não nos encontramos aqui para falar de moda. Que diz esse papel que tem na mão?

Holmes tinha aborrecido de algum modo o nosso visitante, cujo rosto rechonchudo tomara uma expressão bem menos amável.

— Tenha paciência, Sr. Garrideb! — disse meu amigo em tom conciliatório. — O Dr. Watson aqui lhe dirá que essas minhas pequenas digressões às vezes, no fim, mostram ter algum valor com referência ao assunto. Mas por que é que o Sr. Nathan Garrideb não veio com o senhor?

— E por que é que o envolveu neste negócio? — perguntou nosso visitante, num súbito assomo de ira. — Que diabo tinha o senhor a ver com isto? Só havia aqui um pequeno negócio profissional entre dois cavalheiros, e afinal, por que iria um deles pedir ajuda a um detetive? Estive com ele hoje de manhã, e ele me falou nessa louca jogada que me armou, e é por isso que estou aqui. Mas, mesmo assim, não achei graça.

— Não houve segundas intenções a seu respeito, Sr. Garrideb. Foi simplesmente zelo da parte dele, a fim de atingir o objetivo comum aos dois… objetivo esse que é, segundo me consta, de capital importância para ambos. Ele sabia que eu tinha meios de obter informações, e, portanto, era muito natural que se dirigisse a mim.

O semblante irado de nosso visitante pouco a pouco foi se desanuviando.

— Bem. Se é assim, a coisa se modifica — disse. — Quando o procurei, hoje de manhã, e ele me disse que tinha mandado chamar um detetive, imediatamente lhe perguntei seu endereço e vim aqui. Não quero que a polícia se intrometa num negócio particular. Mas se o senhor se dispõe a descobrir o homem, não vejo nenhum mal nisso.

— Pois é exatamente o que acontece — disse Holmes.

— E agora, cavalheiro, uma vez que o senhor se encontra aqui, gostaríamos muito de ouvir, de sua própria boca, informações exatas. Meu amigo aqui não sabe de nenhum dos pormenores.

O Sr. Garrideb examinou-me com um olhar não muito amistoso.

— E precisa saber? — perguntou.

— Nós geralmente trabalhamos juntos.

— Bem. Não há razão para que se faça segredo do assunto. Vou lhes referir os fatos o mais sucintamente que puder. Se o senhor fosse do Kansas, eu não precisaria lhe dizer quem era Alexander Hamilton Garrideb. Ele fez fortuna em imóveis e depois ganhou dinheiro na venda de trigo em Chicago, mas empregou-o comprando tanta terra, ao longo do rio Arkansas, a oeste de Fort Dodge, que daria para formar um condado inglês. É terra de pastagem, terra de madeira, terra arável, terra de minerais, enfim, toda espécie de terra que rende dólares ao homem que a possui. Não .tinha parentes nem amigos, ou se os tinha, nunca ouvi falar deles. Mas nutria certo orgulho pela extravagância de seu nome. Foi isso o que nos reuniu. Eu estava advogando em Topeka, e um dia recebi uma visita do velho, que dava um dedo da mão para encontrar outro homem com o mesmo nome. Era uma fantasia sua, e ele estava resolvido a descobrir se havia no mundo outros Garridebs. “Encontre-me outro”, disse ele. Respondi-lhe que era um homem ocupado e que não podia passar a vida correndo mundo à procura de Garridebs. “Seja como for”, acrescentou, “é justamente o que meu amigo vai fazer, se as coisas saírem de acordo com os meus cálculos.” Pensei que o homem estivesse brincando, mas suas palavras foram ditas a sério, como não tardei a descobrir, pois ele morreu um ano depois de tê-las proferido e deixou um testamento. Era o testamento mais estapafúrdio que já deu entrada nos cartórios do Estado do Kansas, Suas propriedades estavam divididas em três partes, devendo tocar-me uma delas, com a condição de que eu encontrasse dois Garridebs para partilharem o restante. São cinco milhões de dólares para cada um, nem um cent menos, mas não podemos pôr um dedo neles enquanto não estivermos os três em fila.

“Era uma oportunidade tão tentadora que pus de lado minhas causas e saí em busca de Garridebs. Nos Estados Unidos não há um sequer. Meti-me nisso, Sr. Holmes, como quem procura agulha num palheiro, e nunca cheguei a descobrir um único Garrideb. Vim então tentar a sorte no Velho Mundo. Pois não é que lá estava o nome, na lista telefônica de Londres? Fui procurá-lo há dois dias e expliquei-lhe o caso tintim por tintim. Ele, porém, é como eu, um homem solteiro, com alguns parentes, mas todos mulheres. No testamento está estipulado: três homens adultos. Como o senhor vê, temos ainda uma vaga, e, se o senhor puder nos ajudar a preenchê-la, estaremos prontos a pagar-lhe por isso.

— Muito bem — disse Holmes, sorridente —, eu não disse que a questão era um tanto fantástica? Não seria boa tática, cavalheiro, o senhor colocar um anúncio nos jornais, na seção de Desaparecidos?

— Já o fiz, Sr. Holmes, e não houve resposta.

— Sim, senhor! Trata-se realmente de um probleminha difícil. Em minhas horas de lazer, vou ver se dou um pouco de atenção a isso. A propósito, é curioso que o senhor tenha vindo de Topeka. Tive lá um correspondente já falecido… o velho dr. Lysander Starr, que foi prefeito por volta de 1890.

— Excelente pessoa, o velho Dr. Starr! — disse nosso visitante. O nome dele ainda é respeitado. Bem, Sr. Holmes, suponho que o que nos compete é ficar em contato com o senhor e inteirá-lo dos progressos que venhamos a fazer. Calculo que voltaremos a procurá-lo dentro de um ou dois dias.

Feita essa última observação, nosso americano inclinou-se e partiu.

Holmes acendera o cachimbo, e permaneceu algum tempo pensativo, com um sorriso enigmático nos lábios.

— Então? — indaguei por fim.

— Estou curioso, Watson, realmente curioso.

— A respeito de quê?

Holmes tirou o cachimbo da boca.

— Estou curioso por saber, Watson, com que intuito esse homem veio aqui desfiar aquele rosário de mentiras.

Estive quase para perguntar a ele, pois há ocasiões em que um ataque brutal e direto é a melhor política, mas achei melhor deixá-lo supor que nos tinha enganado. Surge-nos aqui um homem com um casaco gasto no cotovelo e com joelheiras nas calças já com um ano de uso, e contudo, segundo este documento e por seu próprio testemunho, é um provinciano da América recentemente chegado a Londres. Não saiu nenhum anúncio nos jornais. A seção dos Desaparecidos é a minha leitura favorita, é onde descubro a minha caça, e não havia de ser um faisão dourado como esse que iria me escapar. Nunca conheci nenhum Dr. Lysander Starr, de Topeka. Onde quer que o toquemos, o homem é falso. Para mim, é realmente americano, mas já poliu o sotaque com alguns anos aqui à beira do Tamisa. Qual é, pois, o seu jogo, e que motivo se esconde por trás dessa busca de Garridebs? Merece a nossa atenção, porque, supondo que o homem seja um patife, é sem dúvida nenhuma um indivíduo engenhoso. Cumpre-nos agora averiguar se o nosso outro correspondente também é um trapaceiro. Ligue para ele, Watson.

Cumpri a ordem, e ouvi do outro lado da linha uma voz fina e trêmula.

— Sim, senhor, sou Nathan Garrideb. O Sr. Holmes está em casa? Desejaria muito dizer-lhe duas palavras.

Meu amigo pegou o fone, e ouvi o habitual diálogo entrecortado.

— Sim, esteve aqui, sim senhor. Suponho que o senhor não o conheça… Há quanto tempo?… Apenas dois dias!… Sim, sim, não há dúvida que é uma proposta tentadora. O senhor estará em casa hoje à tardinha? Espero que seu homônimo não esteja aí… Muito bem, então aí estaremos, pois eu preferiria conversar com o senhor sem a presença dele… O Dr. Watson irá comigo… Pelo seu bilhete, fiquei sabendo que o senhor não sai muito de casa… Pois então apareceremos aí mais ou menos às seis. Não é preciso que diga nada ao advogado americano… Muito bem. Até logo.

Era o crepúsculo de um lindo dia primaveril, e a Littie Ryder Street, uma das menores travessas da Edgware Road, a dois passos da velha Tyburn Tree de funesta memória, parecia de ouro e maravilhosa aos raios oblíquos do sol poente. A casa para a qual nos dirigíamos era um edifício grande, antiquado, da primeira fase da época georgiana, de fachada lisa de tijolos, interrompida apenas por duas janelas salientes no andar térreo. Nosso cliente vivia nesse andar, e as duas janelas baixas formavam exatamente a frente da ampla sala em que ele passava suas horas de vigília. Ao chegarmos, Holmes indicou a pequena placa de latão que ostentava o estranho nome.

— Já conta alguns anos, Watson — observou, mostrando a superfície descolorida da placa. — Pelo menos esse é seu nome verdadeiro, o que é digno de nota.

A casa tinha uma escada comum, e viam-se vários nomes pintados no vestíbulo, uns indicando escritórios e outros, simplesmente residências. Não era bem um prédio residencial, a moradia de solteirões boêmios. Nosso cliente abriu ele mesmo a porta, desculpando-se com o pretexto de que a criada saía às quatro horas. O sr. Nathan Garrideb era um homem alto e desengonçado, de costas redondas, magro e calvo, de mais de sessenta anos. Sua fisionomia era lívida, tendo a pele sem vida das pessoas para quem o exercício é desconhecido. Grandes óculos redondos e uma saliente barbicha de bode acrescentavam à sua postura encurvada um ar de marcada excentricidade. O efeito geral, entretanto, apesar de estranho, não desagradava.

O aposento era tão singular como o ocupante. Parecia um pequeno museu. Era vasto e fundo, rodeado de armários cheios de espécimes geológicos e anatômicos. Caixas com borboletas e mariposas ladeavam a entrada. Uma mesa grande, ao centro, estava abarrotada de coisas, ao passo que o tubo alto de latão de um potente microscópio sobressaía de todo o resto. Dando uma vista de olhos geral, fiquei surpreso com a universalidade dos interesses do homem. Havia aqui uma caixa com moedas antigas, ali um armário com instrumentos de sílex. Atrás da mesa central, via-se um enorme armário com ossos de fósseis. Em cima, alinhava-se uma série de crânios de gesso, com inscrições como “Neanderthal”, “Heideiberg”, “Cromagnon”. Via-se que o homem era um estudioso de vários assuntos. Quando surgiu à nossa frente, segurava na mão direita um pedaço de camurça com o qual polia uma moeda.

— Siracusana, e do melhor período — explicou ele, erguendo-a. — Degeneraram notavelmente no fim do período. As do apogeu são as que eu melhor reputo, se bem que alguns prefiram as da escola de Alexandria. Há aí uma cadeira, Sr. Holmes. Deixe-me tirar os ossos que estão em cima dela. E o senhor, cavalheiro… ah, sim, Dr. Watson, tenha a bondade de pôr para o lado o vaso japonês… Os senhores podem ver à minha volta os pequenos interesses da minha vida. O médico ralha comigo porque não saio de casa, mas como sair se há aqui tanta coisa que me prende? Posso lhes garantir que a catalogação adequada de um só destes armários me tomaria uns bons três meses.

Holmes lançou os olhos em torno com curiosidade.

— O senhor disse que nunca sai? — perguntou ele.

— De vez em quando, vou de carro até a Sotheby’s ou a Christie’s. A não ser isso, raramente deixo meus aposentos. Não sou muito forte, e minhas pesquisas são muito absorventes. Mas deve imaginar, sr. Holmes, que choque terrível, agradável mas terrível, foi para mim saber dessa incomparável boa sorte. Falta apenas mais um Garrideb para completar o trio, e certamente haveremos de encontrá-lo. Eu tinha um irmão, mas morreu, e parentes mulheres não servem. Mas é impossível que não haja outros no mundo. Ouvi dizer que o senhor tem tratado de casos estranhos, e foi por isso que mandei chamá-lo. Naturalmente, esse cavalheiro americano tem razão, e eu devia ter falado primeiro com ele, mas procedi com a melhor das intenções.

— Creio que o senhor agiu acertadamente — disse Holmes. — Mas está realmente desejoso de ter propriedades na América?

— Não, de jeito nenhum. Nada no mundo conseguiria me afastar de minha coleção. Mas aquele cavalheiro assegurou-me que adquirirá a minha parte logo que possamos reivindicar o que nos pertence. Falou-se em cinco milhões de dólares. Há presentemente no mercado uns doze espécimes que preencherão lacunas na minha coleção e que não posso comprar por falta de algumas centenas de libras. Imagine o senhor o que eu não poderia fazer com cinco milhões de dólares! Já tenho um bom começo de coleção nacional. Serei o Hans Sloane do meu tempo.

Seus olhos cintilaram por trás dos grandes óculos. Era evidente que o Sr. Nathan Garrideb não pouparia trabalho para descobrir um homônimo.

— Vim aqui simplesmente para travar conhecimento com o senhor, e não há razão para que eu interrompa seus estudos — disse Holmes. — Prefiro estabelecer contato pessoal com aqueles com os quais trato. São poucas as perguntas que preciso fazer, pois tenho no bolso sua narrativa, que é muito clara, e preenchi as lacunas quando aquele americano foi à minha casa. Pelo que sei, até esta semana o senhor ignorava que ele existia.

— Sim. Ele esteve aqui na terça-feira passada.

— Ele lhe falou da nossa entrevista de hoje?

— Sim. Veio imediatamente falar comigo. Ficou muito zangado.

— Por que teria ficado zangado?

— Parecia um tanto aborrecido, como se houvessem duvidado de sua palavra. Mas já se mostrava outra vez alegre, quando voltou.

— Propôs algum plano de ação?

— Não.

— Recebeu do senhor ou pediu-lhe algum dinheiro?

— Não.

— O senhor não vê a possibilidade de ele ter em vista alguma outra coisa?

— Nenhuma! A não ser aquilo que declarou.

— O senhor lhe falou de nossa conversa telefônica marcando a presente visita?

— Sim, falei-lhe.

Holmes perdeu-se em cogitações. Percebi que estava embaraçado.

— O senhor tem objetos de valor em sua coleção?

— Não, senhor… Não sou rico. Trata-se de uma boa coleção, mas não é valiosa.

— Não tem medo de ladrões?

— Não, nenhum.

— Há quanto tempo mora aqui?

— Há cerca de cinco anos.

O interrogatório de Holmes foi interrompido por uma enérgica pancada na porta. Nem bem nosso cliente a abrira, o advogado americano entrou alvoroçadamente na sala.

— Está aqui! — gritou ele, agitando um papel acima da cabeça. — Ainda bem que cheguei a tempo de apanhá-los. Sr. Nathan Garrideb, meus parabéns! O senhor é um homem rico. Felizmente, nosso negócio está concluído e coroado de êxito. Quanto ao senhor, Sr. Holmes, só podemos dizer que sentimos ter-lhe dado um incômodo inútil.

Entregou o papel ao nosso cliente, que fixou os olhos no anúncio sublinhado. Holmes e eu curvamo-nos para a frente e, por sobre o ombro do Sr. Nathan Garrideb, lemos o que se segue:

HOWARD GARRIDEB

Construtor de máquinas para a lavoura.

Atadeiras, ceifeiras, arados

manuais e a vapor, semeadeiras,

grades, carretas para trabalhos rurais

e agrícolas em geral.

Orçamentos para poços artesianos.

Grosvenor Buildings, Aston.

— Esplêndido! — exclamou o dono da casa. — Temos então o nosso terceiro homem.

— Eu tinha mandado proceder a investigações em Birmingham — observou o americano —, e meu agente naquela cidade mandou-me este anúncio de um jornal de lá. Temos de nos mexer para levar a coisa a bom termo. Escrevi ao homem dizendo que o senhor o procurará em seu escritório amanhã, às quatro horas da tarde.

— O senhor quer que eu o procure?

— Que diz a isso, Sr. Holmes? Não acha que seria mais prudente? Eu, um americano nômade, com uma história mirabolante… Será que ele acreditaria no que digo? Mas o senhor é um inglês com sólidas referências, e ele seria obrigado a dar atenção ao que o senhor diz. Eu podia ir com o senhor se fizesse questão, mas acontece que amanhã tenho um dia muito cheio. Contudo, poderei ir em seu auxílio, caso haja algum contratempo.

— É que há anos não faço uma viagem dessas.

— Nada mais simples, Sr. Garrideb. Fiz um roteiro completo de sua viagem. O senhor parte ao meio-dia, e deve chegar lá pouco depois das duas. Assim, pode estar de volta à noite. A única coisa que tem a fazer é procurar o homem, expor-lhe o caso e obter uma certidão oficial de que ele existe. Que diabo! — acrescentou com calor —, considerando que vim lá do coração da América, é bem pouco o senhor andar cento e sessenta quilômetros para terminar o negócio.

— De acordo — disse Holmes. — É a pura verdade o que este cavalheiro diz.

O Sr. Garrideb encolheu os ombros com ar de desconsolo.

— Bem, já que o senhor insiste, irei — disse ele. — Para mim, certamente é difícil recusar-lhe qualquer coisa, à vista do clarão de esperança que o senhor veio acender em minha vida.

— Então está combinado — disse Holmes —, e sem dúvida o senhor, logo que puder, vai me dizer como tudo correu.

— Eu me incumbirei dessa parte — disse o americano. — Bem — acrescentou, consultando o relógio —, tenho de ir andando. Virei amanhã, Sr. Nathan, à hora do trem de Birmingham, para o seu bota-fora. Saímos juntos, Sr. Holmes? Então, adeus. É possível que amanhã à noite tenhamos novas para o senhor,

Reparei que o semblante de meu amigo se desanuviou depois que o americano saiu do aposento, e que sua expressão de perplexidade se desvaneceu.

— Desejaria dar uma olhadela em sua coleção, Sr. Garrideb — disse ele. — Em minha profissão, toda espécie de conhecimentos, ainda que desordenados, é útil, e esta sua é um repositório deles.

Nosso cliente ficou radiante, e seus olhos faiscaram por trás das enormes lentes.

— Sempre ouvi dizer que o senhor é um homem inteligente — disse ele. — Eu poderia lhe mostrar algumas coisas agora, se o senhor dispuser de tempo.

— Infelizmente, não disponho. Mas esses espécimes estão tão bem rotulados e classificados que quase não necessitam de sua explicação pessoal. Se eu puder vir aqui amanhã, presumo que o senhor não se oponha a que dê uma vista de olhos nestes objetos, não?

— De modo algum. Estão aqui ao seu dispor. Naturalmente, a sala estará fechada, mas a Sra. Saunders fica no subsolo até as quatro horas, e pode deixá-lo entrar com a chave dela.

— Muito bem. Por acaso amanhã à tarde estarei livre. Se o senhor disser uma palavrinha à Sra. Saunders, tudo estará em ordem. Por falar nisso, quem é o locador deste prédio?

Nosso cliente admirou-se ao ouvir a inopinada pergunta.

— Holioway & Steele, na Edgware Road. Mas por quê?

— Também tenho um pouco de arqueólogo quando se trata de casas — disse, rindo, Holmes. — Estava desejoso de saber se este prédio é da época da rainha Ana ou do período georgiano.

— Do último, sem dúvida.

— Realmente. Eu devia ter refletido um pouco mais. Identifica-se logo. Bem, até outra vez, Sr. Garrideb. Desejo-lhe pleno êxito em sua viagem de amanhã.

O escritório do locador ficava próximo, mas já o encontramos fechado, de modo que dirigimos nossos passos para a Baker Street. Holmes só voltou ao assunto depois do jantar.

— Nosso pequeno problema está quase resolvido — disse ele. — Você com certeza já delineou a solução.

— Para mim, não tem pé nem cabeça.

— A cabeça já está à vista, e o pé deverá aparecer amanhã. Não notou nada de especial naquele anúncio?

— Notei que estava escrito “plow” em vez de “plough” [1].

— Oh, notou realmente? Está melhorando, Watson. Sim, isso é mau inglês, mas bom americano. O tipógrafo pôs como estava. Também havia lá uma buckboard [2] que é puramente americana. Além disso, poços artesianos são mais de lá do que daqui. Era um anúncio tipicamente americano, com a intenção de parecer de uma firma inglesa. Que é que você conclui daí?

— Só posso conjeturar que foi esse advogado americano quem o fez publicar no jornal. Qual o seu intuito é que não sei.

— Há mais de uma explicação. Em todo caso, o que está fora de dúvida é que ele quis levar aquele bom fóssil a Birmingham. Estive quase para lhe dizer que não fosse, pois ia perder tempo e dinheiro, mas, pensando melhor, pareceu-me preferível que ele se ausentasse, deixando-nos o campo livre. O dia de amanhã, Watson, sim, o dia de amanhã nos dirá tudo.

Holmes levantou-se cedo e saiu. Quando voltou para o almoço, notei que estava preocupado.

— O assunto é mais sério do que eu pensava, Watson — disse ele. — Prefiro usar de franqueza, embora saiba que será mais uma razão para que você queira se meter de corpo inteiro no perigo. Já o conheço bem, meu caro Watson. Como quer que seja, há perigo, e é bom que você saiba.

— Não é a primeira vez que arriscamos a pele juntos, Holmes, e espero que não seja a última. Que perigo especial há desta vez?

— Estamos diante de um caso muito difícil. Identifiquei o Sr. John Garrideb, advogado. Não é outro senão Evans, o Matador, de reputação sinistra e assassina.

— Creio que estou na mesma.

— É que não faz parte de sua profissão ter na memória uma lista de todos os criminosos de Londres. Estive na Yard com meu amigo Lestrade. É possível que aquela gente não seja um portento de imaginação e intuição, mas não há no mundo quem os ultrapasse em exatidão e método. Lembrei-me de que podíamos procurar nos registros deles a pista de nosso amigo americano. Dito e feito: lá estava, na Galeria de Retratos Célebres, sorrindo para mim, seu rosto gorducho, James Winter, também conhecido por Morecroft, também conhecido por Evans, o Matador, segundo a inscrição abaixo da fotografia. — Holmes tirou do bolso um envelope. — Tirei algumas notas do dossiê dele. Idade: quarenta e quatro anos. Natural de Chicago. Consta haver matado a tiro três homens nos Estados Unidos. Escapou da penitenciária por influência política. Chegou a Londres em 1893. Alvejou um homem com quem jogava cartas num cabaré da Waterloo Road, em janeiro de 1895. O homem morreu, tendo-se provado que foi ele o agressor na briga. O morto foi identificado como sendo Rodger Prescott, famoso em Chicago como moedeiro falso e trapaceiro. Evans, o Matador, foi posto em liberdade em 1901. A partir daí, tem estado sob vigilância da polícia, mas, tanto quanto é possível saber, tem levado vida honesta. Homem muito perigoso, geralmente usa arma, estando preparado para utilizá-la. É esse o nosso pássaro, Watson, um espertalhão, há de convir.

— Mas o que é que ele pretende?

— Bem. O caso começa a se definir. Estive no escritório dos locadores do prédio. Nosso cliente, conforme ele mesmo nos disse, mora lá há cinco anos. Antes dele, a parte que agora ocupa esteve alugada durante um ano. O inquilino anterior era um cavalheiro, senhor do seu nariz, chamado Waldron. No escritório, recordam-se bem da aparência de Waldron. Desapareceu de repente, e não se teve mais notícias dele. Era um homem alto, usava barba e era muito moreno. Ora, Prescott, o homem a quem Evans, o Matador, assassinou era, de acordo com a Scotland Yard, um homem alto, moreno, de barba. Como hipótese que nada tem de absurda, penso que podemos supor que Prescott, o criminoso americano, residia no mesmo aposento que nosso inocente amigo agora consagra ao seu museu. Dessa forma, obtemos um elo da corrente, como você vê.

— E o outro elo?

— Bem. Temos de ir procurar agora.

Tirou um revólver da gaveta e me entregou.

— Levo comigo a minha velha arma favorita. Se o nosso amigo do oeste selvagem não quer deslustrar a alcunha, devemos ir preparados para o enfrentar. Concedo-lhe uma hora para a sesta, Watson. Depois disso penso que terá chegado o momento da nossa aventura na Ryder Street.

Eram quatro horas em ponto quando chegamos ao singular apartamento do Sr. Nathan Garrideb. A criada, a Sra. Saunders, estava se preparando para sair, mas não hesitou em nos franquear a entrada, pois a porta fechava-se com um trinco de mola e Holmes prometeu que deixaria tudo em ordem antes de sairmos. Pouco depois a porta da rua foi fechada, a touca da criada passou pela janela saliente, e verificamos que estávamos sós no andar térreo da casa. Holmes fez um rápido exame no interior. Havia num canto escuro um armário que sobressaía um pouco da parede. Foi atrás dele que nós finalmente nos agachamos, enquanto Holmes, num sussurro, explicava as suas intenções.

— Ele precisava afastar o nosso amável amigo deste aposento. Isso é claríssimo. E como o colecionador nunca saía, era necessário descobrir um meio de o fazer sair. Toda essa invenção de Garrideb não tem evidentemente outro fim. Devo dizer, Watson, que há nisso qualquer engenho infernal, mesmo admitindo-se que o nome estrambólico do inquilino tenha oferecido ao americano um ensejo que ele mal podia esperar. O homem armou o seu plano com admirável sagacidade.

— Mas que quer ele?

— Amigo Watson, é para isso que estamos aqui, isto é, para sabermos o que ele intenta. Segundo interpreto a situação, o plano de Evans nada tem a ver com o nosso cliente. É alguma coisa que está ligada ao homem que ele matou… homem que talvez tenha sido seu aliado no crime. Deve existir neste recinto algum segredo reprovável. Assim interpreto os acontecimentos. De início pensei que o nosso amigo tivesse na sua coleção, sem o saber, algo de mais valor, que chamasse a atenção de um grande criminoso. Mas o fato de ter Rodger Prescott, de infausta memória, morado nestes aposentos indica uma razão mais profunda. Bem, Watson, só nos resta ter paciência e ver o que nos reserva a próxima hora.

Essa hora não tardou muito a soar. Ainda nos encolhemos mais na sombra quando ouvimos a porta externa abrir-se e fechar-se. Soou depois o ruído metálico de uma chave, e o americano estava no aposento. Depois de fechada mansamente a porta, o homem relanceou os olhos em redor para ver se estava bem seguro, tirou o casaco e caminhou para a mesa do centro com a desenvoltura de quem sabe perfeitamente o que vai fazer e como fazê-lo. Empurrou a mesa para um lado, puxou o tapete quadrado sobre o qual ela repousava, enrolou-o bem enrolado e, em seguida, tirando do bolso interno um pé-de-cabra curto, ajoelhou-se e pôs-se a trabalhar vigorosamente no chão. Daí a pouco, ouvimos o som de tábuas sendo arrancadas do lugar, e um instante depois estava feito um quadrado no soalho. Evans, o Matador, riscou um fósforo, acendeu um toco de vela e desapareceu da nossa vista.

Evidentemente, nosso momento chegara. Holmes deu-me um toque no punho como sinal, e juntos nos dirigimos o mais discretamente possível para junto do alçapão aberto. Apesar de termos andado de mansinho, o velho soalho deve ter estalado debaixo de nossos pés, porque a cabeça do americano, espreitando ansiosamente em torno, emergiu subitamente do espaço aberto. Virou para nós o rosto, em que se estampava ódio e raiva, mas pouco a pouco suas feições foram se abrandando e abriram-se num sorriso cínico, quando ele percebeu que duas pistolas estavam apontadas para a sua cabeça.

— Bem, bem! — disse com frieza ao subir com dificuldade para a superfície. — Desconfio que o senhor foi mais esperto que eu, Sr. Holmes. Percebeu o meu jogo, segundo creio, e tratou-me desde o princípio como um trouxa. Dou a mão à palmatória: o senhor me venceu e… Num instante, sacou do peito um revólver e deu dois tiros. Senti de súbito um calor como se um ferro em brasa tivesse passado sobre a minha coxa. Ouviu-se uma pancada na cabeça do homem. Vi-o vagamente estatelar-se no chão, com o rosto banhado em sangue, enquanto Holmes o revistava para desarmá-lo. Em seguida, os vigorosos braços de meu amigo enlaçaram-me e arrastaram-me para uma cadeira.

— Você não está ferido, Watson? Pelo amor de Deus, diga que não está ferido!

Valia bem um ferimento — valia vários ferimentos — a constatação da profunda lealdade e da afeição que se escondiam sob aquela máscara de frieza. Seus olhos claros e severos se turvaram por um momento, e os lábios firmes tremiam. Por uma única vez — aquela — eu vi de relance um grande coração e também um grande cérebro. Todos os meus anos de colaboração humilde mas leal culminaram naquele momento de revelação.

— Não é nada, Holmes. É um simples arranhão.

Ele rasgara as minhas calças com o seu canivete.

— Tem razão — disse, com um suspiro de imenso alívio. — É superficial. — O seu rosto parecia de pedra quando fitou o nosso prisioneiro que começava a sentar-se com uma expressão aturdida.

— O senhor teve mais sorte do que merece. Se tivesse matado Watson, não sairia vivo deste aposento. E agora, cavalheiro, que tem a dizer para se justificar?

Ele não tinha justificação possível. Com a fisionomia carregada, deixou-se ficar onde estava. Apoiei-me ao braço de Holmes e juntos olhamos para a pequena cave que tinha sido descoberta pelo alçapão secreto. Ainda estava iluminada pela vela que Evans levara consigo ao descer. Os nossos olhos deram com uma massa de máquinas enferrujadas, grandes rolos de papel, uma porção de frascos em desordem, e, muito bem arrumadas sobre uma mesinha, várias pilhas de pequenos pacotes.

— Uma tipografiazinha manual… os apetrechos de um falsário — comentou Holmes.

— Sim, senhor — confirmou o nosso prisioneiro, erguendo-se lentamente e a cambalear, e deixando-se logo cair pesadamente na cadeira. — O maior moedeiro falso que já houve em Londres. Aquilo é a “guitarra” de Prescott e aqueles pacotinhos em cima da mesa são duas mil notas no valor de cem libras cada uma e prontas para circular em qualquer parte. Sirvam-se, cavalheiros. Façamos uma transaçãozinha e deixem que eu vá embora.

Holmes riu-se.

— Nós não fazemos coisas dessas, Sr. Evans. Para o senhor não há neste país esconderijo que valha. Foi o senhor que atirou contra esse tal Prescott, não foi?

— Fui, sim senhor, e por causa disso gramei cinco anos, embora tivesse sido ele quem me provocou. Cinco anos… quando eu devia receber uma medalha do tamanho de um prato de sopa. Não havia quem pudesse distinguir entre Prescott e o Banco de Inglaterra, e se eu não o tivesse eliminado ele inundaria Londres de notas falsas. Era eu a única pessoa no mundo que sabia onde ele as fabricava. É de admirar que, quando descobri esse pobre maníaco de nome extravagante, que não arredava pé daqui de maneira alguma, é de admirar, repito, que eu fizesse tudo para afastá-lo daqui? Talvez tivesse sido mais prudente despachá-lo deste mundo. Nada seria mais fácil, mas sou um sujeito de bom coração, que não tem coragem de dar um tiro, a não ser que o outro homem também tenha uma arma. Mas, afinal, diga-me, Sr. Holmes, que fiz de mal? Não usei isto aqui. Não fiz um arranhão nesse colecionador tonto. Para onde o senhor me leva?

— Que me conste, há contra o senhor apenas isto: tentativa de homicídio — disse Holmes. — Isso, porém, não é nosso ofício, pertence a outra alçada. O que queríamos de momento era justamente a sua mansa pessoa. Por favor, Watson, dê um telefonema à Yard. Creio que não será totalmente inesperado para eles.

Foram, então, esses os fatos referentes a Evans, o Matador, e à sua esplêndida invenção dos três Garridebs. Viemos a saber depois que o nosso pobre amigo não se refez mais do choque ao se dissiparem seus sonhos. Quando caiu o castelo que ele tinha erguido no ar, ele o sepultou debaixo das ruínas. A última notícia que tivemos dele é que estava numa casa de saúde em Brixton.

Na Yard, foi um dia alegre quando se descobriu o material de Prescott, pois, embora se soubesse da sua existência, nunca se havia conseguido, após a morte do homem, saber onde estava. Evans realmente prestara um grande serviço, contribuindo para que vários dos respeitáveis componentes do Departamento de Investigação Criminal dormissem mais tranqüilos, porquanto o falsário, na sua terrível especialidade, é um perigo permanente para o público. Eles concordariam de boa vontade com a concessão daquela medalha do tamanho de um prato de sopa a que aludira o criminoso, mas o tribunal, que não sabia dar o justo valor às coisas, foi de opinião menos favorável, e o Matador tornou às sombras de onde pouco antes havia emergido.

[1] “Arado.” (N. do T.)

[2] “Carreta.” (N. do T.)

1927
Histórias de Sherlock Holmes

1. A pedra Mazarino § 2. A ponte de Thor
3. O homem que andava de rastos § 4. O vampiro de Sussex
5. Os três Garridebs § 6. O cliente ilustre
7. As três empenas § 8. O rosto lívido
9. A juba do leão § 10. Josiah Amberley
11. A inquilina do rosto coberto § 12. O velho solar de Shoscombe

Ilustrações: Howard Elcock, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock