A tragédia do “Gloria Scott”

Arthur Conan Doyle

A tragédia do “Gloria Scott”

Título original: The “Gloria Scott”
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Abril de 1893 e com 7 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The “Gloria Scott” publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

— Tenho aqui alguns papéis — disse meu amigo Sherlock Holmes quando nos sentamos certa noite de inverno ao lado da lareira. — Creio, realmente, que vale a pena examiná-los. São os documentos do extraordinário caso do Gloria Scott. E aqui está a mensagem que encheu de terror o juiz de paz Trevor quando a leu.

Tirou da gaveta um rolo, e, desatando uma fita que o envolvia, passou-me uma breve nota rabiscada numa meia folha de papel cor de ardósia:

“A provisão de caça para Londres está há muito terminada”, rezava a nota. “O guarda-chefe Hudson, segundo supomos, disse que arranjou tudo; quero que fuja a mosca para que possa salvar o faisão; sua prole tem vida.”

Quando ergui os olhos da mensagem enigmática, vi Holmes rindo entre dentes da expressão de meu rosto.

— Você parece um tanto confuso — disse ele.

— Não posso compreender como semelhante mensagem pôde inspirar horror. Parece-me mais grotesca do que qualquer outra coisa.

— É muito provável. Mas a verdade é que seu leitor, homem robusto e atilado, ficou totalmente dominado por ela, como se fosse uma coronhada de pistola.

— Você despertou minha curiosidade — disse eu. — Mas por que me disse só agora que há razões particulares para que me interesse pelo caso?

— Porque foi o primeiro em que me empenhei a fundo.

Várias vezes me esforcei para descobrir por que meu companheiro se dedicara às pesquisas criminais, mas nunca o apanhara num humor comunicativo. Inclinou-se então para a frente de sua cadeira de braços e espalhou os documentos sobre os joelhos. Em seguida, acendeu o cachimbo e começou a soltar fumaças e a revirar os papéis.

— Nunca me ouviu falar em Victor Trevor? — perguntou ele. — Foi o único amigo que arranjei durante os dois anos em que estive na universidade. Não fui uma criatura muito sociável. Preferia meditar em meus aposentos, pondo em prática meus próprios métodos de pensamento. Por isso, nunca me misturava muito com os outros. Pela esgrima e pelo boxe tinha certo gosto atlético. Minha linha de estudo era, nessa altura, inteiramente distinta da de meus colegas. Portanto, não mantinha com eles nenhum contato. Trevor foi o único homem que conheci, e ainda assim porque seu bull-terrier me agarrou o calcanhar certa manhã em que descia à capela.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“Foi uma maneira prosaica de fazer amizade, mas eficaz. Fiquei de molho uns dez dias, e Trevor costumava vir saber de mim. A princípio, era uma conversa de apenas cinco minutos. Mas logo suas visitas se prolongaram, e antes de terminar o período éramos amigos íntimos. Era um rapaz de coração nobre, com espírito e energia, e o verdadeiro oposto de mim em muitos aspectos. Mas descobrimos que tínhamos coisas em comum, e houve um laço de união entre nós quando verifiquei que, da mesma forma que eu, não tinha amigos. Finalmente, convidou-me a ir à casa de seu pai em Donnithorpe, em Norfolk, e aceitei a hospitalidade durante um mês das férias longas.

“O velho Trevor era, evidentemente, homem de posses e prestígio. Era juiz de paz e proprietário de terras. Donnithorpe é um lugarejo exatamente ao norte de Langmere, no distrito de Broads. A casa era um edifício de madeira de carvalho e tijolos, de estilo antigo e um tanto esparramado. Uma bonita avenida, ladeada de tílias, dava-lhe acesso. Havia nas lagoas excelente pato-bravo para se caçar, uma pescaria admiravelmente boa, uma biblioteca pequena, mas selecionada, comprada, como soube depois, ao primeiro morador, e um cozinheiro tolerável. De modo que, se alguém não passasse ali um mês agradável, seria uma pessoa muito exigente.

“Trevor era viúvo. Meu amigo era seu único filho. Tivera uma filha, ouvi dizer, mas morrera de difteria quando de visita a Birmingham. O pai interessou-me extremamente. Era de pouca cultura, mas com uma admirável força rude, tanto física como mental. Não apreciava livros; porém, viajara muito, vira muita coisa do mundo e lembrava-se de tudo o que aprendera. Era atarracado, corpulento, com um tufo de cabelos grisalhos, tez morena e marcada pelo tempo, olhos azuis com um brilho de ferocidade. Gozava todavia de boa reputação, e era conhecido pela justiça de suas sentenças no tribunal.

“Uma noite, logo depois de minha chegada, estávamos sentados, após o jantar, para tomar um copo de vinho do Porto, quando o jovem Trevor começou a falar dos hábitos de observação e dedução que eu reduzira a um sistema, embora não tivesse avaliado ainda a importância que teriam em minha vida. O velho pensou, naturalmente, que o filho exagerava a descrição de uma ou duas façanhas que eu realizara.

“— Acontece, Sr. Holmes — disse ele, sorrindo com bom humor —, que sou um excelente sujeito, se o senhor quiser deduzir alguma coisa a meu respeito.

“— Receio que não haja muito — respondi eu. — Podia, no entanto, sugerir que o senhor tem andado com medo de um ataque pessoal nestes últimos doze meses.

“O sorriso morreu-lhe nos lábios, e olhou para mina com grande surpresa.

“— Bem, está certo — disse ele. — Sabe, Victor — disse, voltando-se para o filho —, descobrimos aquele bando de gatunos, e eles juraram apunhalar-nos. E Sir Edward Hoby foi realmente atacado. Desde então, fiquei sempre de atalaia. Mas não percebo como o senhor o sabe.

“— O senhor possui uma bonita bengala. Pela inscrição, observei que não a tem há mais de um ano. Ora, teve o trabalho de furá-la a fim de lhe deitar no buraco chumbo derretido, de modo que viesse a ser uma arma terrível. Concluo que não tomaria tais precauções se não tivesse um perigo a recear.

“— Alguma coisa mais? — perguntou sorrindo.

“— O senhor praticou muito o boxe em sua juventude.

“— Está certo outra vez. Como o sabe? Meu nariz está um pouco achatado?

“— Não — disse eu, — São suas orelhas. Apresentam o achatamento e a espessura que distinguem o boxeador.

“— Alguma coisa mais?

“— O senhor trabalhou muito nas minas, vê-se pêlos seus calos.

“— Fiz todo o meu dinheiro nas minas de ouro.

“— O senhor esteve na Nova Zelândia.

“— Exatamente.

“— O senhor visitou o Japão.

“— É verdade.

“— O senhor esteve intimamente associado a alguém cujas iniciais eram J. A., e que depois procurou ansiosa mente esquecer.

“O Sr. Trevor levantou-se lentamente, fixou em mim seus grandes olhos azuis com uma expressão selvagem e caiu para a frente, o rosto entre as castanhas que juncavam a toalha, num desfalecimento mortal.

“Deve calcular, Watson, como ficamos chocados, tanto eu como o filho. Entretanto o acesso não durou muito, porque, quando lhe desabotoamos o colarinho e lhe borrifamos o rosto com a água de um dos lavatórios, ele deu um ou dois suspiros e sentou-se.

“— Ah!, rapazes — disse ele, forçando um sorriso. — Espero não os ter assustado. Forte como pareço, há um ponto fraco no meu coração, e não é preciso muito para me abater. Não sei como o senhor faz isso, Sr. Holmes, mas parece-me que todos os detetives verdadeiros e falsos são crianças em suas mãos. Sua vocação é essa, e pode aceitar a palavra de quem já viu alguma coisa no mundo.

“Aquela recomendação, com a apreciação exagerada de minhas capacidades, foi, Watson, se me quiser crer, a principal prova de que uma profissão podia nascer daquilo que fora, até ali, simples mania. Entretanto, eu estava no momento tão preocupado com a doença de meu hospedeiro que não podia pensar em mais nada.

“— Espero que não lhe tenha dito nada que o ofendesse — disse eu.

“— Não há dúvida que tocou em meu ponto fraco. Posso saber como o senhor sabe, e quanto sabe?

“Falava agora em tom de brincadeira, mas uma sombra de terror ocultava-se ainda no fundo de seus olhos.

“— É muito simples — respondi. — Quando ergueu o braço para puxar aquele peixe para dentro do barco, vi que as iniciais J. A. tinham sido tatuadas na curva de seu cotovelo. As letras estavam ainda legíveis. Mas era perfeitamente claro, pela sua aparência manchada e pela maceração da pele em volta delas, que se tinham feito esforços para apagá-las. Era claro, portanto, que essas iniciais lhe tinham sido muito familiares, e que depois quis esquecê-las.

“— Que olho o senhor tem! — gritou, com um sorriso de alívio. — É exatamente como o senhor diz. Porém, não falemos mais nisso. De todos os fantasmas, os de nossos velhos amores são os piores. Venham à sala de bilhar para fumar um charuto calmamente.

“Desde esse dia, apesar de toda a cordialidade, havia sempre uma leve suspeita em relação a mim nas maneiras do Sr. Trevor. Até o filho o notou: — Você impressionou tanto meu pai — disse-me ele — que nunca mais terá a certeza do que você sabe e do que não sabe. — Não queria mostrar suas suspeitas, mas obcecavam-no de tal maneira que se revelavam em cada uma de suas ações. Finalmente, convenci-me de que estava lhe provocando preocupação, e pus fim à minha visita. Entretanto, no dia da minha partida, um pouco antes de deixá-lo, ocorreu um incidente que, devido ao que se seguiu, mostrou ser de grande importância.

“Nós três estávamos sentados sobre a relva nas cadeiras de jardim, desfrutando o calor do sol e admirando a paisagem dos Broads, quando a criada veio dizer que estava à porta um homem que queria ver o Sr. Trevor.

“— Como se chama? — perguntou meu hospedeiro.

“— Não quis dizer.

“— Que quer então?

“— Diz que conhece o senhor, e queria apenas conversar um momento.

“— Mande-o vir até aqui.

“Um instante depois apareceu uma criaturinha magra, com maneiras estranhas e um modo de andar arrastando os pés. Usava um casaco aberto, com uma mancha de alcatrão na manga, camisa xadrez vermelha e preta, calça de lã e pesadas botas, bastante gastas. O rosto era magro, moreno e malicioso, ostentando um perpétuo sorriso que mostrava uma linha irregular de dentes amarelos, e as mãos enrugadas estavam meio fechadas, naquele gesto característico dos marinheiros. Quando entrou, curvado, no jardim, ouvi Trevor soltar uma espécie de soluço gutural e, pulando da cadeira, ele correu para dentro de casa. Voltou um instante depois, e senti o cheiro forte do licor quando passou por mim.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— Bem, meu homem, o que posso fazer por você?

“O marinheiro olhou para ele com olhos injetados e o mesmo sorriso irônico nos lábios.

“— Não me reconhece? — perguntou.

“— Sem dúvida! Agora vejo que é Hudson, com certeza — disse o Sr. Trevor em tom de espanto.

“— É Hudson, sim, senhor. Bem, faz mais de trinta anos que o vi pela última vez. Aqui está o senhor em sua casa. Mas eu continuo tirando minha carne salgada da salgadeira.

“— Basta! Vai ver que não esqueci os velhos tempos — exclamou o Sr. Trevor e, aproximando-se do marinheiro, disse-lhe qualquer coisa em voz baixa.

“— Vá à cozinha — continuou em voz alta —, e encontrará de comer e beber. Não tenho dúvidas de que lhe arranjarei um emprego.

“— Muito obrigado, senhor — disse o marinheiro, passando a mão pela grenha. — Acabo de sair de um navio cargueiro de oito nós, depois de uma viagem de mais de dois anos com falta de gente, e preciso de descanso. Pensei que o conseguiria com o Sr. Beddoes ou com o senhor.

“— Ah!… — gritou o Sr. Trevor —, sabe onde mora o Sr. Beddoes?

“— Valha-me Deus! Sei onde estão todos os meus velhos amigos — disse o homem com um sorriso sinistro.

Baixou a cabeça e seguiu a criada até a cozinha.

“O Sr. Trevor contou-nos qualquer coisa sobre ter sido companheiro de navio do homem quando voltou às minas, e, deixando-nos no jardim, entrou em casa. Uma hora depois, quando entramos, encontramo-lo completamente bêbado, estendido no sofá da sala de jantar. Todo o incidente me deixou a mais revoltante impressão, e foi sem tristeza que no dia seguinte deixei Donnithorpe, pois sentia que minha presença devia ser um embaraço para meu amigo.

“Tudo isso ocorreu durante o primeiro mês das férias longas. Subi a meus aposentos de Londres, onde passei sete semanas realizando algumas experiências de química orgânica. Um dia, quando o outono já se aproximava e as férias chegavam ao fim, recebi um telegrama de meu amigo implorando meu regresso a Donnithorpe e dizendo que tinha grande necessidade de meu conselho e minha assistência. Abandonei tudo, é claro, e dirigi-me mais uma vez para o norte.

“Ele me esperava na estação com uma charrete, e vi num relance que os últimos dois meses haviam sido penosos para ele. Estava magro e preocupado, e perdera aquela maneira espalhafatosa e jovial que lhe era peculiar.

“— Meu pai está à morte! — foram suas primeiras palavras.

“— Impossível! — gritei. — O que tem ele?

“— Apoplexia. Choque nervoso. Seu fim está próximo. Duvido que o encontremos vivo.

“Fiquei, como pode imaginar, horrorizado com essas notícias inesperadas.

“— Qual foi a causa? — perguntei.

“— Ah!, eis a questão. Suba e conversaremos a esse respeito pelo caminho. Lembra-se daquele indivíduo que chegou na véspera de sua partida?

“— Perfeitamente.

“— Sabe quem admitimos em nossa casa naquele dia?

“— Não faço a menor idéia.

“— Foi o Demônio, Holmes! — exclamou ele.

“Olhei-o com espanto.

“— Sim. Foi o Diabo em pessoa. Não tivemos mais uma hora de paz, nem uma. Meu pai nunca mais levantou a cabeça desde aquela noite. E agora a vida foge-lhe e seu coração extingue-se, por causa daquele maldito homem.

“— Que poder tem ele, então?

“— Ah! É o que eu gostaria muito de saber. Meu bondoso, caridoso e nobre pai! Como teria caído nas garras de tal rufião? Mas estou contente por você ter vindo, Holmes. Confio muito em seu parecer e discrição, e sei que me dará o melhor conselho.

“Corríamos por uma estrada plana e branca, com a longa extensão dos Broads à nossa frente, brilhando sob a luz vermelha de um sol poente. De um pequeno bosque, à esquerda, já podíamos divisar as altas chaminés e o mastro de bandeira que assinalavam a habitação do nobre.

“— Meu pai contratou-o como jardineiro — disse meu companheiro —, e então, como isso não o contentasse, promoveu-o a mordomo. A casa parecia estar à sua mercê, andava por toda parte e fazia o que queria. As criadas queixavam-se de seus hábitos de ébrio e de sua linguagem vil. Meu pai aumentou o salário de todos para compensá-los do incômodo. O malandro queria o barco e a melhor espingarda de meu pai para se ocupar com pequenas festas de tiro ao alvo. E tudo isso com uma cara tão zombeteira, tão maliciosa que eu o teria espancado vinte vezes, se fosse um homem da minha idade. Afirmo-lhe, Holmes, que tive de me dominai constantemente, e agora pergunto a mim próprio se não deveria ter ido um pouco mais longe.

“Bem, o assunto foi de mal a pior, e Hudson, esse animal, tornou-se cada vez mais intruso, até que um dia, vendo-o dar uma resposta insolente a meu pai, em minha presença, agarrei-o pelo ombro e expulsei-o da sala. Fugiu de esguelha, com uma cara lívida e olhos venenosos, que proferiam mais ameaças do que a própria boca. Não sei o que se passou entre meu pobre pai e ele depois disso. Mas meu pai procurou-me no dia seguinte e perguntou-me se eu não queria pedir desculpas a Hudson. Recusei, como deve imaginar, e perguntei a meu pai como ele podia admitir que semelhante homem tomasse tais liberdades com ele e com sua família.’

“— Ah!, meu filho, é fácil falar, mas não sabe de minha posição. Mas acabará sabendo, Victor! Providenciarei para que saiba, aconteça o que acontecer! Não quereria a ruína de seu pobre pai, não é? — Ficou muito comovido e fechou-se no escritório todo o dia, onde pude vê-lo pela janela, a escrever rapidamente.

“Nessa noite veio o que parecia ser um grande alívio, porque Hudson disse que ia nos deixar. Entrou na sala quando nos sentamos depois do jantar e anunciou sua intenção com a voz grossa de um sujeito bastante bêbado.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— Já estou cheio de Norfolk — disse ele. — Irei para casa de Beddoes, em Hampshire. Ele ficará tão contente por me ver como os senhores ficaram, suponho.

“— Não vai embora zangado, Hudson, não é? — perguntou meu pai, com uma humildade que me fez ferver o sangue.

“— Não me apresentaram desculpas — respondeu com azedume, olhando em minha direção.

“— Victor, você há de reconhecer que tratou este digno homem com muita grosseria — disse meu pai, voltando-se para mim.

“— Pelo contrário, acho que ambos lhe mostramos extraordinária paciência — respondi.

“— Oh, mostraram? — rosnou ele. — Muito bem, camarada. Resolveremos isso depois! — E, arrastando-se pesadamente, saiu da sala. Uma hora depois partia, deixando meu pai num miserável estado de nervos. Noite após noite ouvi-o andar de um lado para outro em seu quarto. E exatamente quando estava se restabelecendo veio o golpe fatal.

“— E como? — perguntei com ansiedade.

“— Da forma mais extraordinária. Ontem à noite, meu pai recebeu uma carta com o carimbo de Fordingbridge. Leu-a, pôs as duas mãos na cabeça e começou a correr pelo quarto, descrevendo pequenos círculos como alguém que tivesse perdido o uso da razão. Quando finalmente o arrastei para o sofá, tinha a boca e as pálpebras contraídas para um lado. Vi então que sofrera um ataque apoplético. O Dr. Fordham foi chamado imediatamente, e nós o colocamos na cama. Mas a paralisia espalhou-se e ele não deu o menor sinal de recuperar a consciência. Creio que não o encontraremos vivo.

“— Você me horroriza, Trevor! — gritei. — O que podia conter a carta para produzir efeito tão medonho?

“— Nada. Aí está o detalhe inexplicável. A mensagem era absurda e trivial. Ah!, meu Deus, aconteceu o que eu receava!

“Quando dizia estas palavras, fazíamos a curva da avenida e vimos, pela luz esvaecente, que todas as vidraças da casa estavam fechadas. Quando nos precipitamos para a porta, vi o rosto de meu amigo convulsionado de dor. Da casa saiu então um senhor de preto.

“— Quando foi, doutor? — perguntou Trevor.

“— Quase imediatamente depois que o senhor saiu.

“— Ele recobrou os sentidos?

“— Por um instante, antes do fim.

“— Há alguma mensagem para mim?

“— Apenas que os papéis estão na gaveta do fundo da escrivaninha japonesa.

“Meu amigo subiu com o médico ao quarto do morto, enquanto eu permanecia no escritório, recordando toda a história e sentindo-me triste como nunca em minha vida. Qual teria sido o passado desse Trevor, pugilista, viajante, mineiro de ouro? E como teria caído nas mãos daquele marinheiro mal-encarado? Por que desfalecera à alusão das iniciais meio apagadas em seu braço, e por que morrera de susto ao receber uma carta de Fordingbridge? Recordei-me de que Fordingbridge fica em Hampshire e esse sr. Beddoes, que o marinheiro fora visitar, presumivelmente para chantagem, morava, segundo fora mencionado, em Hampshire, também. A carta podia, portanto, ter vindo de Hudson, o marinheiro, declarando que traíra o segundo criminoso que parecia existir, ou podia ter vindo de Beddoes, advertindo o velho aliado de que tal traição estava iminente. Até ali parecia-me bastante claro. Mas, então, como a carta podia ser inofensiva e grotesca, como dissera o filho? Ele devia tê-la lido mal. Se era tão inofensiva, devia estar redigida num desses engenhosos códigos secretos que servem para fazer uma mensagem significar uma coisa quando parece querer dizer outra. Precisava ver essa carta. E, se nela houvesse algum significado oculto, estava certo de que poderia decifrá-lo. Fiquei meditando no escuro durante uma hora, até que uma criada trouxe, chorando, uma lamparina, e atrás dela entrou meu amigo Trevor, pálido mas composto, com estes mesmos papéis que tenho agora em meus joelhos, segurando-os com avidez. Sentou-se à minha frente, puxou a luz para a borda da mesa e entregou-me uma nota mal escrita, como pode ver, numa folha de papel cinzento, e que diz:

“A provisão de caça para Londres está há muito terminada. O guarda-chefe Hudson, segundo supomos, disse que arranjou tudo; quero que fuja a mosca para que possa salvar o faisão; sua prole tem vida’.

“Acho que fiquei tão confuso como você, quando li pela primeira vez essa mensagem. Depois, reli-a com muito cuidado. Era evidente a minha suposição, e devia haver um segundo sentido naquela estranha combinação de palavras. Ou seria o caso de haver um significado preestabelecido para certas expressões, como ‘quero que fuja a mosca’ e ‘faisão’? Tal significado seria arbitrário, e de modo nenhum poderia ser deduzido. Todavia, custava-me acreditar que era esse o caso; a presença da palavra ‘Hudson’ parecia mostrar que o assunto da mensagem era o que eu supusera e parecia mais de Beddoes que do marinheiro. Experimentei invertê-la, mas a combinação ‘o faisão salvar’ não era encorajante. Tentei então alternar as palavras, mas nem ‘para’ nem a ‘provisão da caça’ prometiam esclarecer o enigma. Mas, de súbito, a chave do enigma apareceu em minhas mãos, pois verifiquei que a última palavra de cada grupo de três dava mesmo uma mensagem que podia levar Trevor ao desespero.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“Era uma breve e concisa advertência, conforme li para meu companheiro:

“A caça está terminada. Hudson disse tudo; fuja para salvar sua vida’.

“Victor Trevor mergulhou o rosto nas mãos trêmulas.

“— Deve ser isso mesmo, suponho — disse ele. — Mas é pior do que a morte, porque significa desgraça também. E afinal, qual o significado desse ‘guarda-chefe’ e de ‘faisão’?

“— Nada significam para a mensagem, mas para nós podem significar muito se não tivermos outro meio de descobrir o expedidor. Veja você que ele começa escrevendo ‘A caça está…’, e assim por diante.

Depois, para conseguir o código preestabelecido, tinha de encher cada espaço com duas palavras. Naturalmente usou as primeiras que lhe vieram à mente, e a presença, entre elas, de tantas palavras que se relacionam com a caça leva a crer, até certo ponto, que é bom atirador ou se interessa por criação. Sabe alguma coisa desse Beddoes?

“— Ora essa, agora que o menciona — disse ele —, lembro-me de que meu pai costumava ser convidado para caçar em suas propriedades durante todo o outono.

“— Então, sem dúvida alguma, o bilhete é dele — respondi. — Resta-nos descobrir que segredo era esse graças ao qual o marinheiro Hudson parece dominar esses dois homens ricos e respeitáveis.

“— Ah! Holmes, receio que seja de pecado e vergonha! — exclamou meu amigo. — Mas para você não tenho segredos. Aqui está a declaração que foi escrita por meu pai quando descobriu que o perigo se tornava iminente. Encontrei-a na escrivaninha japonesa, como ele disse ao médico. Tome-a e leia-a, porque não tenho forças nem ânimo para fazê-lo.

“São exatamente estes papéis, Watson, que ele me entregou, e vou lê-los como os li para ele naquela noite. Por fora estão classificados como vê: ‘Alguns pormenores da viagem do barco Gloria Scott. Desde sua saída de Falmouth, no dia 8 de outubro de 1855, até sua destruição na latitude N 15° 29′, longitude W 25° 14′, a 6 de novembro’. Tem a forma de uma carta, e desenrola-se assim:

“Meu querido filho:

Agora que a desgraça vindoura começa a nublar os anos finais de minha vida, posso escrever toda a verdade e com toda a honestidade. Posso afirmar que não é o terror da lei, nem a perda de minha posição no conselho da comarca, nem minha derrota aos olhos de todos os que me conhecem, que me confrange o coração. Mas é o pensamento de que meu filho há de envergonhar-se de mim, você, que me ama, que jamais, assim o espero, teve motivo para não me tratar com respeito. Mas se a tormenta, que está sempre pendente sobre mim, vier a desabar, queria então que lesse isto para saber diretamente como tenho estado longe da culpa. Por outro lado, se tudo correr bem (que o bondoso Deus o conceda!), então, se por qualquer acaso este papel não for destruído e vier a cair em suas mãos, peco-lhe, por tudo o que considera sagrado, pela memória de sua querida mãe e pelo amor que sempre houve entre nós, que o jogue ao fogo, e nunca mais pense nele. Se seus olhos continuarem a ler estas linhas, sei que já estarei exposto e longe de meu lar, ou, como é mais provável — pois sabe que meu coração é fraco —, jazendo com os lábios selados para sempre na morte. Em qualquer caso, o tempo para a omissão já passou, e toda palavra que lhe disser é a nua verdade; com a mesma certeza com que juro-o, espero misericórdia.

Meu nome, querido filho, não é Trevor. Eu era James Armitage nos dias de minha mocidade. E agora pode compreender qual não foi meu choque quando, algumas semanas atrás, seu amigo e colega me dirigiu palavras que pareciam indicar que ele adivinhara meu segredo. Foi como Armitage que entrei numa casa bancária de Londres, e como Armitage fui preso por não respeitar as leis de meu país, e sentenciado ao degredo. Não me julgue muito severamente, meu filho. Era uma dívida de honra, assim chamada, que eu tinha de pagar, e servi-me do dinheiro que não era meu para saldá-la, na certeza de que poderia repô-lo antes da possibilidade de a sua falta ser notada. Mas o mais terrível azar perseguiu-me. O dinheiro que esperava nunca me veio parar às mãos, e um exame prematuro das contas revelou o meu déficit. O caso podia ter sido tratado com indulgência, mas as leis eram mais implacavelmente aplicadas trinta anos atrás do que agora. E, no meu vigésimo terceiro ano, vi-me na cadeia como réu, com trinta e sete outros prisioneiros, no convés do navio Gloria Scott, com destino à Austrália.

Era o ano de 1855, quando a Guerra da Criméia estava no auge e os velhos navios de prisioneiros estavam sendo largamente empregados como transporte no mar Negro. O governo foi obrigado a usar os barcos menores e adaptá-los ao transporte de seus prisioneiros. O Gloria Scott seguia a rota chinesa do chá. Era um navio antiquado, bojudo e muito largo, e os novos navios de marcha rápida tinham-no substituído. Era de quinhentas toneladas, e além dos seus trinta e oito “engaiolados” tinha uma tripulação de vinte e seis marinheiros, dezoito soldados, um capitão, três pilotos, um médico, um capelão e quatro carcereiros. Levava quase cem almas quando saímos de Falmouth.

As divisões entre as celas dos prisioneiros, em vez de serem de grosso carvalho, como é costume nos navios de prisioneiros, eram muito mais finas e frágeis. O homem que ficou perto de mim foi aquele que notei de maneira particular quando nos fizeram descer ao cais. Era jovem, de rosto claro e imberbe, de nariz longo e fino, e com unhas de quebra-noz. Caminhava de cabeça altiva, tinha um modo de andar altaneiro e era acima de tudo notável por sua extraordinária altura. Creio que nenhuma de nossas cabeças lhe chegaria ao ombro, e estou certo de que não podia medir menos de dois metros. Era estranho, entre tantas fisionomias tristes e cansadas, ver alguém cheio de energia e resolução. Sua presença era para mim como um fogo numa tempestade de neve. Fiquei alegre, portanto, ao descobrir que era meu vizinho, e mais alegre ainda quando, nas horas mortas da noite, ouvi um cochicho perto de meu ouvido e verifiquei que ele fizera uma abertura na tábua que nos separava.

— Olá, colega! — disse ele. — Qual é o seu nome e por que está aqui?

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Respondi-lhe, e por minha vez perguntei com quem estava falando.

— Sou Jack Prendergast — disse-me —, e juro que há de aprender a abençoar meu nome antes de me ver pelas costas.

— Lembro-me de ter ouvido falar em seu caso, porque causou imensa sensação em todo o país, um pouco antes de minha prisão. — Era um homem de boa família e grande capacidade, mas de hábitos incuravelmente maus, que obtivera, devido a um engenhoso sistema de fraude, enorme soma de dinheiro dos principais comerciantes de Londres.

— Ah! Você se lembra do meu caso? — perguntou ele com orgulho.

— Na verdade, lembro-me muito bem.

— Então, talvez se lembre de alguma coisa original a esse respeito.

— Qual era, então?

— Eu tinha quase um quarto de milhão, não tinha? — prosseguiu.

— Assim disseram.

— E nenhum dinheiro foi recuperado, hein?

— Não.

— Onde supõe que esteja? — perguntou então.

— Não faço a menor idéia — disse eu.

— Aqui mesmo, entre meu indicador e o polegar! — gritou ele. — Juro que tenho mais libras em meu nome do que você tem cabelos na cabeça. Quem tem dinheiro e sabe administrá-lo e distribuí-lo, pode fazer alguma coisa! Ora, acha que um homem que pode fazer alguma coisa vai gastar as calças sentado numa prisão fedorenta, no porão velho e bolorento de um costeiro chinês, cheio de baratas e ratos de tripa vazia? Não, meu caro! Pode ficar certo disso. Pode confiar nele. Pode beijar a Bíblia, porque esse homem há de conduzi-lo com segurança.

Era essa sua maneira de falar, e a princípio pensei que nada significava. Mas pouco depois, quando me pôs à prova e jurou que dizia a verdade, com toda a solenidade possível, fui levado a perceber que tinha realmente um plano para se apossar do comando do navio. Uma dúzia de prisioneiros preparara o plano antes mesmo do embarque: Prendergast era seu líder, e o dinheiro, o meio principal.

— Tenho um sócio — disse ele —, um homem rato e bom, tão fiel como a coronha para o cano. Já conseguiu o dinheiro. E onde pensa que ele está no momento? Ora essa, é o capelão — sim, o capelão, sem tirar nem pôr! Embarcou com uma capa preta, os papéis em ordem e com bastante dinheiro na pasta para comprar tudo, desde a quilha até o mastro principal. A tripulação é seu corpo e alma. Pôde comprá-la facilmente por ser em dinheiro à vista. E fê-lo mesmo antes que dessem por isso. Comprou dois dos carcereiros e a cumplicidade do segundo-piloto, e compraria o próprio capitão se julgasse que valia a pena.

— O que devemos fazer então? — perguntei.

— O que pensa você? — respondeu. — Deixaremos as costas de alguns desses soldados mais vermelhas do que fez o alfaiate [1].

— Mas eles estão armados — objetei.

— E nós também estaremos, meu rapaz. Há braçadas de pistolas para cada filho de nossa mãe. E, se não pudermos carregar este navio com a tripulação às costas, é melhor voltarmos para a escola primária. Fale com seu companheiro da esquerda à noite, e veja se merece confiança.

Assim fiz, e descobri que meu outro vizinho era um jovem na mesma situação que eu, e seu crime fora de falsificação. Seu nome era Evans, mas depois mudou-o, como eu, e agora é um homem rico e próspero no sul da Inglaterra. Foi muito pronto em unir-se à conspiração, como único meio de salvação. Antes da travessia da baía, havia apenas dois prisioneiros que não conheciam o segredo. Um deles era fraco e demente, pelo que não confiamos nele, e o outro estava com icterícia, não tendo nenhuma utilidade.

Desde o princípio, não havia realmente nada que nos impedisse de tomar posse do navio. A tripulação era um grupo de rufiões escolhidos especialmente para a tarefa. O falso capelão entrava em nossas celas para nos exortar, carregando uma pasta preta que se supunha cheia de rezas; e veio tantas vezes que no terceiro dia cada um de nós já arrumara aos pés da cama uma lima, uma braçada de pistolas, meio quilo de pólvora e vinte balotes. Dois dos carcereiros eram agentes de Prendergast, e o segundo-piloto, seu braço direito. O capitão, os outros dois pilotos, dois carcereiros, o tenente Martin, seus dezoito soldados e o médico, era tudo o que tínhamos contra nós.

Todavia, seguros como estávamos, tínhamos resolvido não desprezar nenhuma precaução e fazer nosso ataque repentinamente, à noite. Ele deu-se, porém, mais depressa do que esperávamos, e da maneira seguinte:

Uma noite, mais ou menos três semanas depois de nossa partida, o médico desceu para ver um dos prisioneiros que adoecera e, ao meter a mão no fundo da tarimba, apalpou os contornos de uma pistola. Se tivesse guardado silêncio, teria desbaratado tudo; mas era um indivíduo nervoso, deu um grito de surpresa e ficou pálido, de modo que o doente descobriu num instante o que ele agarrara. Foi amordaçado antes de dar alarme e amarrado em cima da tarimba. Ele destrancara a porta que dava para o convés, e saímos precipitadamente. As duas sentinelas foram logo abatidas a tiro, e o mesmo aconteceu ao cabo que veio correndo ver o que acontecia. Havia mais dois soldados à porta da sala dos oficiais; suas armas pareciam estar descarregadas, porque não atiraram e foram alvejados enquanto tentavam fixar as baionetas. Precipitamo-nos então para a cabina do capitão. Mas, quando abrimos com ímpeto a porta, veio de lá de dentro uma explosão: lá estava a cabeça do capitão tombada sobre o mapa do Atlântico pregado à mesa, e o capelão, com a pistola ainda fumegante, permanecia de pé a seu lado. Os dois pilotos tinham sido agarrados pela turba, e tudo parecia liquidado.

A sala dos oficiais ficava perto da cabina, e aí nos reunimos, caindo nos sofás, falando ao mesmo tempo, porque estávamos delirantes com a sensação de que éramos livres mais uma vez. Havia armários ao redor, e Wilson, o falso capelão, arrombou um deles e de lá tirou uma dúzia de garrafas de xerez. Quebramos os gargalos das garrafas, despejamos seu conteúdo em copos grandes sem pé, e no momento exato em que nos levantávamos em sinal de regozijo, sem advertência, chegou a nossos ouvidos o troar de mosquetões, e o salão encheu-se tanto de fumaça que não podíamos ver o outro lado da mesa. Quando clareou outra vez, a sala parecia um matadouro. Wilson e mais oito homens retorciam-se uns sobre os outros no soalho, e a visão do sangue e do xerez tinto em cima daquela mesa ainda me arrepia quando penso nela. Ficamos tão acovardados com o que vimos que creio que teríamos abandonado a luta, não fosse Prendergast. Ele berrou como um touro e precipitou-se para a porta com todos os que tinham ficado vivos atrás de si. Corremos para fora, e na popa estava o tenente com dez homens. A luz dos astros abriu uma clareira, e eles alvejaram-nos. Atiramo-nos a eles antes que pudessem carregar; bateram-se como homens, mas prevalecemos, e em cinco minutos estava tudo acabado. Meu Deus! Terá havido um matadouro como aquele navio? Prendergast rugia como um demónio e, agarrando os soldados como se fossem crianças, lançava-os ao mar, vivos ou mortos. Havia um sargento terrivelmente ferido que mesmo assim nadou duramente longo tempo, até que alguém, num ato de misericórdia, lhe fez saltar os miolos. Quando a luta cessou, não havia mais nenhum inimigo, exceto os carcereiros, os pilotos e o médico.

Foi por causa deles que se deu a discórdia. Havia muitos que já estavam bastante alegres com a conquista da liberdade, e não tinham o menor desejo de se tornarem assassinos. Uma coisa era abater soldados de mosquetões em punho, e outra era a solidariedade com a matança a sangue-frio. Oito de nós, cinco prisioneiros e três marinheiros, dissemos que não se devia matá-los. Mas nada demovia Prendergast e os que estavam com ele. — Nossa única oportunidade de salvação está em fazermos um serviço completo — dizia ele, e não deixaria uma língua capaz de depor no banco de testemunhas. Quase nos coube a mesma sorte dos reféns. Afinal disse que, se quiséssemos, podíamos pegar um bote e fugir. Apanhamos a ocasião com ambas as mãos, porque já estávamos fartos daqueles sanguinários, e vimos que seria pior se não aceitássemos. Deram-nos fardas de marinheiro, um barril de água, duas barricas, uma de carne-seca e outra de biscoitos, e uma bússola. Prendergast atirou-nos um mapa, disse-nos que éramos marinheiros naufragados cujo navio se afundara na latitude 15° N e longitude 25 W, e em seguida cortou-nos a amarra e deixou-nos ir.

E agora vem a parte mais surpreendente de minha história, meu querido filho. Os marinheiros, durante o motim, tinham puxado a verga da mezena, mas quando os deixamos tinham-na posto outra vez no lugar certo e, como houvesse vento leve do norte e do leste, o navio começou lentamente a afastar-se de nós. Nosso bote ficou subindo e descendo ao sabor da ondulação, e Evans e eu, os mais educados do grupo, sentamo-nos na escotilha para estudar nossa posição e escolher a costa a que nos devíamos dirigir. Era uma questão delicada, pois Cabo Verde ficava a cerca de oitocentos quilômetros ao norte, e a costa africana, a cerca de mil e cem quilômetros a leste. Em resumo, como o vento soprava para o norte, pensamos que Serra Leoa seria melhor. E voltamos então a proa de nosso barco naquela direção, estando o navio naquele momento com a proa quase voltada para nosso quarto estibordo. De repente, quando olhávamos para o navio, vimos a eclosão de uma nuvem preta que dele irrompeu, e se ergueu como uma árvore monstruosa sobre o horizonte. Uns segundos mais tarde, um estrondo, como de trovão, chegou a nossos ouvidos, e, quando a fumaça diminuiu, já não existia nenhum sinal do Gloria Scott. Rapidamente, voltamos a proa de nosso barco e remamos com força para o local onde a escuridão, pairando ainda sobre a água, marcava a cena da catástrofe.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Demorou uma longa hora antes que a alcançássemos, e a princípio receamos ter chegado tarde demais para salvar alguém. Um bote lascado e um certo número de corpos e pedaços de mastros que cavalgavam as ondas, subindo e descendo, mostraram-nos onde o navio se afundara, mas não havia nenhum sinal de vida. Regressávamos desesperados quando ouvimos um grito de socorro, e à distância distinguimos um destroço do naufrágio com um homem estendido sobre ele. Quando o arrastamos para dentro do bote, verificamos que era um jovem marinheiro, de nome Hudson, tão queimado e exausto que não nos pôde fornecer nenhum relato do ocorrido até a manhã seguinte.

Parece que, depois que os deixamos, Prendergast, com seu bando, começou a matança dos cinco reféns restantes: os dois carcereiros foram abatidos a tiro e lançados ao mar, e o mesmo fizeram ao terceiro-piloto. Prendergast desceu ao convés e, com sua própria mão, cortou a garganta do infeliz médico. Restava apenas o primeiro-piloto, um homem ousado e ativo. Quando viu o prisioneiro aproximar-se dele com a faca sanguinária em punho, afastou as cadeias que, de algum modo, conseguira soltar, e, precipitando-se convés abaixo, mergulhou no porão.

Doze prisioneiros, que desceram com pistolas à sua procura, encontraram-no com uma caixa de fósforos na mão, sentado em cima de uma barrica de pólvora, uma das cem levadas a bordo, jurando que mandaria tudo pêlos ares se fosse atacado. Um instante depois deu-se a explosão. Hudson supôs que foi ocasionada pela bala extraviada de um prisioneiro, e não pelo fósforo do piloto. Seja como for, foi o fim do Gloria Scott e da canalha que se apossou de seu comando.

Tal é, meu querido filho, em poucas palavras, a história desse caso terrível em que me envolvi. No dia seguinte fomos apanhados pelo brigue Hotspur, que rumava para a Austrália, cujo capitão não teve dificuldades em acreditar que fôssemos sobreviventes de um navio de passageiros naufragado. O navio de carga Gloria Scott fora dado como perdido pelo Almirantado, e nem uma palavra jamais foi publicada quanto a seu verdadeiro destino. Depois de uma excelente viagem, o Hotspur fundeou em Sydney, onde eu e Evans mudamos de nome e entramos para as minas. Aí, entre multidões reunidas de todas as nações, não tivemos dificuldades em perder nossa primeira identidade.

O resto não é preciso contar. Prosperamos, viajamos e voltamos à Inglaterra como colonos ricos, adquirindo então propriedades no interior. Há mais de vinte anos levamos uma vida útil e pacífica. Julgávamos que nosso passado já estivesse sepultado para sempre. Imagine, então, o que senti quando reconheci, no marinheiro que nos visitou, o homem que tínhamos apanhado no naufrágio! Tem-nos seguido por toda parte, resolvido a viver de nossos receios. Compreenderá agora por que me esforcei por me conservar em paz com ele, e de certo modo há de partilhar dos receios que me angustiam, agora que ele já me trocou por outra vítima, com sua ameaça na boca.’

“Abaixo estava escrito, mas com mão tão trémula que a letra se tornara quase ilegível:

” Beddoes escreveu em código para dizer que H. revelou tudo.

Boníssimo Senhor, tem misericórdia de nossas almas!’

“Foi essa a narrativa que li naquela noite ao jovem Trevor. E penso, Watson, que naquelas circunstâncias foi realmente dramática. O bom moço ficou angustiado, e foi plantar chá em Terai, onde, segundo fui informado, está fazendo fortuna. Quanto ao marinheiro e Beddoes, nunca mais se ouviu falar deles depois daquele dia em que foi escrita a carta de aviso. Desapareceram ambos por completo. Nenhuma queixa foi apresentada à polícia. É provável que Beddoes tomasse a ameaça por realidade. Hudson foi visto espreitando nas redondezas e a polícia acreditou que ele tivesse liquidado Beddoes, fugindo depois. Quanto a mim, creio que aconteceu justamente o contrário. Penso que é muito mais provável que Beddoes, levado pelo desespero e julgando-se traído, tenha se vingado de Hudson e fugido do país com tanto dinheiro quanto pôde levar. São estes os fatos, doutor. Se forem úteis à sua coleção, posso afirmar que estão inteiramente a seu dispor.”

[1] Alusão à antiga farda vermelha do exército inglês. (N. do T.)

1894
Memórias de Sherlock Holmes

1. Estrela de Prata § 2. A caixa de papelão
3. A face amarela § 4. O escriturário da corretagem
5. A tragédia do “Gloria Scott” § 6. O ritual Musgrave
7. O enigma de Reigate § 8. O corcunda
9. O paciente internado § 10. O intérprete grego
11. O tratado naval § 12. O problema final

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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