O intérprete grego

Arthur Conan Doyle

O intérprete grego

Título original: The Greek Interpreter
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Setembro de 1893 e com 8 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Greek Interpreter publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Durante minha longa e íntima convivência com Sherlock Holmes, nunca o ouvi referir-se a seus parentes ou a sua vida passada. Essa sua atitude aumentou o efeito sobre-humano que sua personalidade exercia sobre mim. Por isso, fui levado a considerá-lo um fenômeno isolado, um cérebro sem coração, tão deficiente em simpatia humana como eficiente em inteligência. A aversão às mulheres e a falta de inclinação para formar novas amizades eram atributos típicos de seu caráter insensível. Porém, mais típica ainda era a completa supressão de qualquer referência à própria família. Cheguei a acreditar que fosse órfão, sem quaisquer parentes vivos. Entretanto, um dia, para grande surpresa minha, começou a falar a respeito do irmão.

Foi depois do chá, numa tarde de verão. A conversa vagara de maneira um tanto incoerente, dos clubes de golfe às causas da obliqüidade da elíptica, e chegou afinal à questão do atavismo e das aptidões hereditárias. A questão em discussão era: até que ponto uma característica especial de um indivíduo se devia a seus antepassados ou, por outro lado, ao condicionamento anterior.

— No seu caso — disse eu —, a julgar pelo que me tem contado, parece óbvio que sua capacidade de observação e a facilidade peculiar para a dedução se devem a seu próprio treino sistemático.

— Até certo ponto — respondeu pensativamente. — Meus antepassados eram proprietários rurais, e parecem ter levado vida comum à sua classe. Apesar disso, esta minha inclinação está em minhas veias, e pode ter vindo da minha avó, que era irmã de Vernet, o artista francês. A arte no sangue está sujeita a tomar as formas mais estranhas.

— Ora, como sabe que é hereditariedade?

— Porque meu irmão Mycroft a possui num grau ainda mais elevado do que eu.

— Isso é, realmente, uma grande novidade para mim. Se existe, na Inglaterra, outro homem com tais dotes, como se explica que nem a polícia nem o público já ouviram falar nele? — Fiz a pergunta de maneira a sugerir que a modéstia de meu companheiro o fazia reconhecer o irmão como superior. Holmes sorriu com a sugestão.

— Meu caro Watson — disse ele —, não posso concordar com aqueles que incluem a modéstia no grupo das virtudes. Para o lógico, todas as coisas devem ser vistas exatamente como são. Ora, subestimar-se é afastar-se tanto da realidade como exagerar os dotes pessoais. Portanto, quando lhe afirmo que Mycroft tem melhores dons de observação do que eu, pode estar certo de que digo a verdade exata e literal.

— Ele é mais novo que você?

— Sete anos mais velho.

— Então por que é desconhecido?

— Bem, ele é muito conhecido em seu próprio círculo.

— Qual é?

— No Clube Diógenes, por exemplo.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Jamais ouvira falar de tal instituição, e minha expressão deve ter dito muito mais, porque Holmes tirou o relógio.

— O Clube Diógenes é o mais bizarro de Londres, e Mycroft, um dos homens mais estranhos. Está sempre lá das quinze para as cinco às vinte para as oito. São seis horas, agora. Se quiser dar um passeio nesta bonita tarde, ficarei muito contente por apresentá-lo a essas duas curiosidades.

Cinco minutos depois estávamos na rua, caminhando na direção do Regent Circus.

— Admira-me — disse meu companheiro — que Mycroft não empregue seus dotes no trabalho de detetive. Mas é incapaz disso.

— Eu pensei que você houvesse dito…

— Eu disse que ele é superior a mim em observação e dedução. Se a arte de um detetive começasse e acabasse num raciocínio feito numa cadeira, meu irmão seria o maior agente criminal que já existiu. Mas não tem ambição nem energia. Não se afasta de sua rotina nem sequer para verificar suas próprias conclusões, e prefere considerar-se errado a entrar na luta para provar que está certo. Tenho-lhe constantemente apresentado problemas e recebido uma explicação que depois se verifica ser a única certa; todavia, é incapaz de lograr os pontos práticos que devem ser apreendidos, antes de um caso ser levado perante um juiz ou um júri.

— Então não é essa sua profissão?

— De forma nenhuma. O que para mina é forma de vida, para ele é mera mania de. diletante. Possui uma extraordinária aptidão para os números, e faz a verificação dos livros de alguns departamentos do governo. Mycroft mora na Pall Mall, contorna a esquina em “Whitehall todas as manhãs e, de regresso, todas as tardes. Do princípio ao fim do ano não faz qualquer outro exercício, e não é visto em parte alguma exceto no Clube Diógenes, bem diante de sua casa.

— Sim, realmente não me lembro do nome.

— É natural. Há muitos homens em Londres que, ora por acanhamento, ora por misantropia, não querem o convívio dos semelhantes. No entanto, eles não têm aversão a uma confortável cadeira e aos últimos jornais. Para sua conveniência, e de outros como ele, criou o Clube Diógenes, que abriga agora os homens mais insociáveis e inagregáveis da cidade. Não se permite que nenhum membro dê a menor atenção a qualquer outro. São proibidas as conversas, seja em que caso for, salvo na Sala dos Estranhos. E com três faltas, levadas ao conhecimento da direção, o tagarela fica sujeito a expulsão. Meu irmão foi um dos fundadores, e eu próprio acho que o clube tem uma atmosfera calma.

Enquanto conversávamos, tínhamos chegado à Pall Mall e estávamos quase ao fim da St. James. Sherlock Holmes parou a uma porta, a pequena distância do Carlton, e, prevenindo-me de que não falasse, seguiu para o vestíbulo.

Através das placas de vidro, divisei uma sala grande e luxuosa, onde havia um número considerável de homens sentados a ler jornais, cada um no seu próprio cantinho. Holmes introduziu-me numa sala que dava para a Pall Mall e, deixando-me então por um minuto, voltou com um companheiro que, como eu já sabia, só podia ser seu irmão.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Mycroft Holmes era muito mais alto e corpulento do que Sherlock. Seu corpo era realmente volumoso, mas o rosto, embora maciço, mantinha qualquer coisa da agudeza de expressão que tornava tão notável o do irmão. Os olhos, de um cinzento particularmente leve, pareciam conservar sempre aquela aparência longínqua e introspectiva que eu observava em Sherlock quando exercia seus plenos poderes.

— Muito prazer em conhecê-lo — disse, estendendo-me a mão ampla e chata como a barbatana de uma foca. — Ouço falar de Sherlock por toda parte desde que o senhor se tornou seu cronista. A propósito, Sherlock, esperava vê-lo a semana passada para conversar com você sobre aquele caso da Manor House. Pensei que você não tivesse feito progressos.

— Já o resolvi — disse meu amigo sorrindo.

— Era Adams, não é mesmo?

— Sim, era Adams.

— Estava certo disso desde o princípio.

Sentaram-se ambos no peitoril da janela do clube.

— Este é o lugar ideal para quem quiser estudar a humanidade — disse Mycroft. — Olhe para aqueles tipos magníficos! Olhe, por exemplo, para aqueles dois homens que vêm em nossa direção.

— O jogador de bilhar e o outro?

Pararam os dois em frente da janela. Algumas marcas de giz no bolso do colete eram os únicos sinais de bilhar que se podia ver num deles. O outro era um indivíduo trigueiro, muito baixo, com o chapéu puxado para trás e diversos pacotes debaixo do braço.

— Vejo que é um antigo militar — disse Sherlock.

— E que teve baixa há pouco tempo — observou o irmão.

— Serviu na Índia.

— E é um oficial não comissionado.

— Da artilharia real, suponho — disse Sherlock.

— É viúvo.

— Mas com um filho.

— Filhos, meu caro, filhos.

— Caramba — disse eu sorrindo —, assim é demais.

— De fato — respondeu Holmes —, não é difícil descobrir que um homem com aquele porte, aquela expressão de autoridade e aquela pele queimada pelo sol é um militar. É mais graduado que um soldado raso, e chegou há pouco da Índia.

— Ele não deixou há muito o exército, pois ainda usa botas de munição, como se diz — observou Mycroft.

— Não tem o porte da cavalaria, mas usa o chapéu de um lado só, como se nota pela pele mais clara daquele lado da testa. O peso mostra que não é um sapador. Está na artilharia.

— E o luto pesado prova que perdeu alguém muito querido. O fato de andar fazendo suas próprias compras faz supor que foi a mulher que morreu. Percebe-se ainda que tem andado comprando coisas para crianças. Há um chocalho que demonstra que uma delas é ainda muito pequena. A esposa provavelmente morreu de parto. O fato de trazer um livro de gravuras debaixo do braço indica que há outra criança ainda em que pensar.

Comecei então a perceber o que meu amigo queria dizer quando afirmou que o irmão possuía faculdades muito mais vivas do que ele. Sherlock olhou para mim e sorriu. Mycroft tirou uma pitada de tabaco de uma caixa de tartaruga e, com um lenço de seda vermelha, sacudiu do casaco alguns grãos que tinham caído.

— A propósito, Sherlock — disse ele —, tenho um caso curioso, um problema muito singular, que foi submetido a meu julgamento. Não tive energia para investigá-lo, exceto de um modo muito incompleto, mas forneceu-me base para especulações bastante agradáveis. Se quiser ouvir o que se passou…

— Meu caro Mycroft, ficaria satisfeitíssimo.

O irmão rabiscou uma nota numa folha de bloco e, tocando a campainha, entregou-a ao empregado.

— Pedi ao sr. Melas que viesse encontrar-nos — disse. — Mora no andar acima do meu, e tenho uma certa intimidade com ele. Isso permitiu que, na sua perplexidade, este senhor me viesse procurar. Melas é grego de nascimento, creio, e é um notável lingüista. Ganha a vida em parte como intérprete, em parte servindo de guia aos abastados orientais que freqüentam os hotéis da Northumberland Avenue. Mas é melhor deixá-lo contar a seu modo sua estranha experiência.

Alguns minutos depois juntou-se a nós um homem baixo, corpulento, cujo rosto de azeitona e cabelo preto como carvão proclamavam a origem meridional, embora na pronúncia fosse a de um inglês educado. Apertou calorosamente a mão de Sherlock, e os seus olhos pretos cintilaram de prazer quando compreendeu que tal especialista estava ansioso por ouvir sua história.

— Não creio que a polícia me dê crédito; palavra de honra que não acredito — disse, numa voz de lamento. — Precisamente porque ainda não ouviram nada semelhante, pensam que tal não pode suceder. Só sei que não terei paz de espírito enquanto não descobrir o que foi feito de meu pobre homem de rosto enfaixado.

— Sou todo atenção — disse Sherlock Holmes.

— Hoje é quarta-feira — disse o sr. Melas. — Bem, então foi na noite de segunda-feira, há apenas dois dias, que tudo aconteceu. Sou intérprete, como meu vizinho talvez já lhe tenha dito. Traduzo todas as línguas… ou quase todas, mas como sou grego de nascimento e com nome grego, é principalmente com esta língua que trabalho. Tenho sido, desde há muitos anos, o principal intérprete grego em Londres, e meu nome é muito conhecido nos hotéis.

“Sucede com freqüência ser procurado por estrangeiros que se encontram em dificuldades ou por viajantes que chegam tarde e querem meus serviços. Não fiquei portanto surpreso quando, segunda-feira à noite, um tal sr. Latimer, ainda novo, vestido no rigor da moda, apareceu lá em casa e me pediu para acompanhá-lo a um cabriole que esperava à porta. Tinha chegado um grego para lhe falar de negócios, dizia ele, e como não sabia outra língua além da sua, os serviços de um intérprete eram indispensáveis. Deu-me a entender que morava perto, em Kensington, e parecia estar com muita pressa, empurrando-me mesmo para dentro do cabriole mal chegamos à rua.

“Digo cabriolé mas fiquei logo na dúvida se não seria antes uma carruagem. Era com certeza mais espaçoso do que a miséria vergonhosa de quatro rodas que circula em Londres, e as guarnições, embora usadas, eram de rica qualidade. O sr. Latimer sentou-se na minha frente. Pusemo-nos então em marcha através da Charing Cross até a Shaftesbury; pensei comentar que não era aquele o caminho para Kensington, mas minhas palavras foram contidas pelo estranho comportamento do meu companheiro.

“Começou por tirar do bolso um bastão de aspecto formidável e carregado de chumbo, manobrando-o para a frente e para trás como se lhe avaliasse o peso e a resistência. Depois, sem uma palavra, colocou-o sobre o assento, a seu lado. Feito isso, fechou as vidraças. E foi então que descobri, com espanto, que estavam forradas de papel para impedir que se visse através delas.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— Sinto cortar-lhe a vista — disse ele. — Mas, para falar a verdade, é minha intenção que o senhor não veja os lugares por onde passamos. É possível que me venha a ser necessário que o senhor não encontre este caminho outra vez.

“Como devem calcular, fiquei completamente embaraçado com essas palavras. Meu companheiro era um homem novo, corpulento, espadaúdo e, mesmo sem considerar a arma, eu não teria a menor chance numa luta com ele.

“— Seu procedimento é muito estranho, sr. Latimer — gaguejei. — O senhor deve compreender que o que está fazendo é ilegal.

“— É um pouco abusivo, não há dúvida, mas daremos um jeito nisso. Entretanto, devo adverti-lo, sr. Melas, de que, se a qualquer hora desta noite tentar dar um alarme ou proceder contra meus interesses, verá que a coisa fica muito séria. Peço-lhe que se lembre de que ninguém sabe onde o senhor está e de que, nesta carruagem ou em minha casa, está em meu poder.

“Suas palavras eram calmas, mas a maneira áspera de falar tornava-o ameaçador. Sentei-me em silêncio, pensando por que razão ele me raptara daquela maneira extraordinária. Fosse o que fosse, era mais que evidente que eu não tinha possibilidade de resistir, e apenas me restava aguardar o que iria acontecer. Andamos cerca de duas horas, sem que eu tivesse o menor indício do lugar para onde nos dirigíamos. Às vezes, o trepidar das pedras indicava um caminho pavimentado, outras, nosso rodar suave e silencioso sugeria asfalto. Porém, salvo esta variação, nada havia que me pudesse auxiliar a formar uma idéia de onde estávamos. O papel que forrava as duas janelas era impenetrável à luz, e uma cortina azul fora descida sobre a vidraça da frente. Eram sete e quinze quando saímos da Pall Mall, e meu relógio indicava dez para as nove quando, por fim, paramos. Meu companheiro desceu a vidraça, e eu pude então enxergar um vão de porta baixo e arqueado, com uma lâmpada acesa por cima. Fui empurrado da carruagem para a porta, que se abriu de repente, e achei-me no interior da casa. Entrei com a vaga sensação de ter passado por um relvado ladeado de árvores.

“Dentro havia um candeeiro a gás colorido, tão baixo que apenas me permitia ver que o vestíbulo era amplo e que nas paredes havia quadros. À luz fosca, pude descobrir que a pessoa que abrira a porta era um homem baixo, de meia-idade, aspecto mesquinho e ombros encurvados. Quando virou para nós o feixe de luz, reparei que usava óculos.

“— É o sr. Melas, Harold? — perguntou.

“— É.

“— Muito bem! Muito bem! Conto com sua boa vontade, sr. Melas, pois não podíamos prosseguir sem o senhor. Se proceder bem comigo, não terá razão de queixa; mas se tentar algum truque, Deus o ajude!

“Falava aos supetões, com risadas escarninhas, mas causou-me mais medo do que o outro.

“— O que quer de mim? — perguntei.

“— Quero apenas que faça algumas perguntas a um cavalheiro grego que está de visita, e que nos dê as respostas. Mas não diga mais do que perguntarmos, ou — aqui apareceu de novo a zombaria nervosa — melhor seria não ter nascido.

“À medida que ia falando, abriu a porta e indicou o caminho para uma sala que parecia ser luxuosamente mobiliada — mas também iluminada por uma única luzinha fraca. A sala era certamente muito grande, e a maneira como meus pés se afundaram no tapete, quando entrei, sugeriu-me riqueza. Tive uma rápida visão de cadeiras guarnecidas de veludo, de um alto consolo de lareira, em mármore branco, e, ao lado, o que parecia ser uma armadura japonesa. Havia uma cadeira precisamente debaixo do candeeiro, e o velho fez sinal para que me sentasse nela. O mais novo deixou-nos, mas voltou de repente, por outra porta, acompanhando um cavalheiro que trajava uma espécie de roupão solto e se moveu lentamente para nosso lado. Quando entrou no círculo da luz frouxa, que me permitiu vê-lo mais claramente, senti um estremecimento de horror perante sua aparência. Estava mortalmente pálido e terrivelmente macilento, com os olhos brilhantes e salientes de um homem cujo espírito é maior do que sua resistência. Porém, mais do que qualquer outro sinal de fraqueza física, chocou-me o fato de seu rosto se encontrar grotescamente enfaixado em linhas cruzadas, e um grande pedaço dessa bandagem tapava-lhe a boca.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— Tem aí a lousa, Harold? — perguntou o mais velho, quando aquele estranho ser mais caiu do que se sentou na cadeira. — Tem as mãos soltas! Então dê-lhe um giz. O senhor deve fazer as perguntas, sr. Melas, e ele escreverá as respostas. Pergunte-lhe, antes de tudo, se está preparado para assinar os papéis.

“Os olhos do homem lançaram chispas de fogo.

“— Nunca — escreveu ele, em grego, na lousa de ardósia.

“— Sob nenhuma condição? — perguntei, por ordem de nosso tirano.

“— Só se a vir casar, na minha presença, por um sacerdote grego que conheço.

“O homem sorriu nervoso, de modo maligno.

“— Sabe o que o espera, então?

“— Não me importo comigo.

“Essa é uma amostra das perguntas e respostas que, meio ditas e meio escritas, foram feitas a nosso estrangeiro. Eu tinha que lhe perguntar constantemente se queria dar-se por vencido e assinar o documento. E de novo vinha a mesma resposta indignada. Mas, nesse momento, ocorreu-me uma idéia feliz. Passei a acrescentar pequenas frases a cada pergunta — inocentes a princípio, para ver se algum de meus companheiros percebia alguma coisa, e então, como não mostrassem sinal de compreender, arrisquei um jogo perigoso. Nossa conversa passou a decorrer mais ou menos assim:

“— Não há vantagem nenhuma nessa obstinação. Quem é o senhor?

“— Não me importo. Um estrangeiro em Londres.

“— Tem seu destino sobre sua cabeça. Há quanto tempo está aqui?

“— Que seja. Há três semanas.

“— A propriedade nunca poderá ser sua. O que o aflige?

“— Não será de bandidos. Estão me matando de fome.

“— Ficará livre se assinar. Que casa é esta?

“— Nunca assinarei. Não sei.

“— O senhor não está lhe prestando qualquer benefício. Como se chama?

“— Quero ouvi-la dizer isso. Kratides.

“— Se assinar, vê-la-á. De onde é o senhor?

“— Então nunca a verei. Atenas.

“Com mais cinco minutos, sr. Holmes, eu teria arrancado toda a história, bem nas barbas deles. Minha próxima pergunta poderia ter esclarecido o assunto, mas nesse momento a porta se abriu e uma mulher entrou na sala. Pelo que pude ver àquela luz, reparei que era alta e muito graciosa, de cabelos pretos, e vestia uma espécie de roupão branco e solto.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— Harold! — disse ela com uma má pronúncia do inglês. — Eu não podia continuar lá longe. É tão solitário lá em cima, só com… Oh! meu Deus, é Paulo.

“Estas últimas palavras foram pronunciadas em grego e, no mesmo instante, o homem, com um esforço convulsivo, arrancou a faixa que lhe tapava a boca e gritou: — Sofia! Sofia! — E precipitou-se para os braços da mulher. No entanto, seu abraço durou apenas um instante, pois o mais novo agarrou a mulher e arrastou-a para fora do aposento, enquanto o mais velho subjugava facilmente a vítima macilenta, arrastando-a por outra porta. Por momentos, eu podia, de certo modo, conseguir um indício da casa onde me encontrava. Mas não dei um passo sequer porque, olhando para cima, vi que o mais velho permanecia de pé no vão da porta, os olhos fitos em mim.

“— Basta por hoje, sr. Melas — disse ele, — O senhor compreende que o consultamos para um negócio muito especial. Não o teríamos incomodado se nosso amigo que fala grego e que começou estas negociações não tivesse sido forçado a regressar ao Oriente. Era absolutamente necessário descobrir alguém que tomasse seu lugar e, por isso, ficamos satisfeitos quando ouvimos falar em suas qualidades.

“Eu lhe fiz uma vênia.

“— Aqui tem cinco soberanos — disse ele, dirigindo-se a mim. — Penso que é suficiente. Mas lembre-se — acrescentou, batendo-me de leve no peito e rindo à socapa —, se falar nisso a alguém… a uma só alma que seja… Deus tenha compaixão da sua!

“Não posso dar-lhe uma idéia justa da repulsa e horror que aquele homem de aspecto insignificante me inspirou. Pude vê-lo melhor, naquele momento, quando a luz do candeeiro brilhou sobre ele. Suas feições eram macilentas e pálidas, e a barba, pequena e pontiaguda, malcuidada. Inclinava a cara para a frente ao falar, e os lábios e pálpebras contorciam-se continuamente, como os de quem sofre da dança de São Vito. Não podia deixar de pensar que seu risinho pérfido era também sintoma de uma doença nervosa, mas o terror do semblante concentrava-se nos olhos cor de aço, friamente brilhantes, com uma crueldade maligna e inexorável em suas profundezas.

“— Se o senhor falar, saberemos — disse ele. — Temos nossos próprios meios de informação. Pronto, a carruagem está à espera e meu amigo cuidará do senhor durante o caminho.

“Precipitei-me para o vestíbulo, e depois para dentro do veículo, captando outra vez uma visão rápida de árvores e um jardim. O sr. Latimer seguiu rente a meus calcanhares e instalou-se à minha frente sem dizer palavra. Em silêncio, tornamos a percorrer aquela interminável distância, as janelas cerradas, até que, por fim, pouco depois da meia-noite, a carruagem parou.

“— Tem que descer aqui, sr. Melas — disse meu companheiro. — Sinto deixá-lo tão longe de casa, mas não há outra alternativa. Qualquer tentativa de sua parte para seguir o carro só poderá trazer-lhe dissabores.

“Abriu a porta enquanto falava; mal saltei, o cocheiro chicoteou o cavalo e a carruagem partiu trepidando. Olhei em volta com espanto. Estava numa espécie de terreno cheio de urzes e moitas de arbustos. Ao longe, estendia-se uma linha de casas, com uma luz aqui e acolá nas janelas mais altas. Do outro lado viam-se as luzes vermelhas da sinalização de uma via férrea.

“A carruagem que me trouxera já se perdera de vista. Eu continuava de pé, olhando em volta e pensando onde estaria, quando alguém na escuridão se encaminhou para mim. Reparei então que era o guarda da linha.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— Pode dizer-me que lugar é este? — perguntei.

“— Wandsworth Common — respondeu.

“— Posso apanhar aqui um trem para a cidade?

“— Se andar um quilômetro e meio, mais ou menos, até o entroncamento de Clapham, chegará precisamente a tempo de tomar o último para Victoria.

“E assim termina minha aventura, sr. Holmes. Não sei onde estive, nem com quem falei. Sei apenas o que lhe contei, e que alguém está cometendo uma patifaria. Se pudesse, gostaria de ajudar aquele infeliz. Contei toda a história ao sr. Mycroft Holmes, esta manhã, e depois à polícia.”

Todos ficamos em silêncio perante tão extraordinária narrativa. Passados alguns momentos, Sherlock Holmes olhou de viés para o irmão.

— Haverá alguma coisa a fazer? — perguntou.

Mycroft apanhou o Daily News, que estava sobre uma mesa, a nosso lado.

— “Quem fornecer informações sobre o paradeiro de um cavalheiro grego chamado Paulo Kratides, de Atenas, que não sabe falar inglês, será recompensado. Igual recompensa será dada a quem prestar informações sobre uma senhora grega, cujo primeiro nome é Sofia. X 2473.” Isto saiu em todos os jornais. Nenhuma resposta.

— E quanto à legação grega?

— Perguntamos. Não sabem nada.

— E um telegrama para o comando da polícia de Atenas?

— Sherlock possui toda a energia da família — disse Mycroft, voltando-se para mim. — Encarrega-se sem dúvida do caso. — E, dirigindo-se ao irmão: — Se houver alguma coisa a fazer, diga-me.

— Com certeza — respondeu meu amigo, levantando-se da cadeira. — E informarei ao sr. Melas também. Entrementes, sr. Melas, se fosse o senhor, ficaria de sobreaviso, já que eles devem saber por estes anúncios que foram traídos.

Ao voltarmos para casa, Sherlock parou no telégrafo e expediu diversos telegramas.

— Como vê, Watson — observou —, nossa tarde não foi de todo desperdiçada. Alguns de meus casos mais interessantes surgiram-me por intermédio de Mycroft. O caso que acabamos de ouvir, embora só possa admitir uma explicação, tem ainda características especiais.

— Espera resolvê-lo?

— Sabendo o que sabemos, seria estranho se fracassássemos na descoberta do resto. Você próprio já deve ter formado uma hipótese para explicar os fatos que acabamos de ouvir.

— Sim, mas de maneira vaga.

— Então qual é sua idéia?

— Parece-me evidente que essa jovem grega foi raptada pelo jovem inglês que se chama Harold Latimer.

— Raptada de onde?

— De Atenas, talvez.

Sherlock abanou a cabeça negativamente.

— Aquele rapaz não sabe uma palavra de grego; a moça fala sofrivelmente inglês; conclusão: ela está na Inglaterra há algum tempo, e ele nunca esteve na Grécia.

— Bem, então temos que admitir que ela veio visitar a Inglaterra, e que esse Harold convenceu-a a fugir com ele.

— É o mais razoável.

— Então o irmão, porque creio que deve ser esse o parentesco, veio da Grécia para interferir. Imprudentemente, caiu em poder do jovem e do sócio mais velho, que o agarraram e empregaram mesmo a violência para obrigá-lo a assinar alguns papéis, transferindo a fortuna da moça para eles. Ele, que talvez até fosse o procurador da irmã, recusou cumprir o que lhe exigiam. Entretanto, para negociarem com o grego, os dois sócios foram obrigados a arranjar um intérprete, e procuraram o sr. Melas, depois de utilizar um outro. A moça, entretanto, não foi informada da chegada do irmão, vindo a descobri-lo por mero acidente.

— Excelente, Watson — exclamou Holmes. — Parece-me que você não está longe da verdade. Vê que temos todas as cartas, e só podemos temer algum oculto ato de violência da parte deles. Se nos derem tempo, nós os apanharemos.

— Mas como descobriremos onde fica a casa?

— Ora, se nossa conjetura estiver certa, o nome da moça é, ou era, Sofia Kratides; não teremos, nesse caso, dificuldade em seguir-lhe a pista. Deve ser essa nossa principal esperança, porque o irmão é um perfeito estrangeiro, completamente desconhecido. É claro que já deve ter se passado algum tempo, desde que esse tal Harold estabeleceu relações com a moça… algumas semanas, pelo menos, o suficiente para que o irmão, na Grécia, soubesse e viesse para cá. Se, durante esse tempo, moraram no mesmo lugar, é provável que tenhamos resposta ao anúncio de Mycroft.

Assim conversando, chegamos à nossa casa da Baker Street. Holmes, que subiu a escada à minha frente, deu um grito de surpresa quando abriu a porta. Olhando por cima de meu ombro, fiquei igualmente cheio de espanto. Seu irmão Mycroft lá estava fumando, sentado numa poltrona.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Entre, Sherlock! Entre, senhor — disse amavelmente, sorrindo de nossas caras pasmadas. — Não esperava tal energia de mim, não é verdade, Sherlock? Mas este caso atrai-me um bocado.

— Mas como você veio até aqui?

— Adiantei-me a vocês tomando uma carruagem de aluguel.

— E há alguma novidade?

— Recebi uma resposta ao anúncio.

— Ah, sim?!

— Chegou alguns minutos depois de saírem.

— E o que é?

Mycroft puxou uma folha de papel.

— Ei-la — disse —, escrita com pena J em papel creme-real, mas por um homem de meia-idade e de compleição fraca. “Senhor, em resposta ao anúncio com data de hoje, quero informá-lo de que conheço muito bem a jovem em questão. Se me quiser visitar, dar-lhe-ei alguns pormenores de sua dolorosa história. Presentemente, ela mora em The Myrties, Beckenham. Ao seu dispor, J. Davenport.” “Escreve da Lower Brixton”, disse Mycroft Holmes. “Não acha que podíamos ir visitá-lo já, Sherlock, para conhecermos esses pormenores?”

— Meu caro Mycroft, a vida do irmão tem mais valor do que a história da irmã. Sou de opinião que devemos chamar o inspetor Gregson da polícia e seguirmos direto para Beckenham. Sabemos que esse homem corre o risco de ser morto, e cada hora que passe pode ser vital.

— É melhor ir buscar o sr. Melas, a caminho — sugeri —, pois podemos precisar de um intérprete.

— Ótimo — disse Sherlock Holmes. — Mande o rapaz chamar um carro, e sairemos imediatamente. — Enquanto falava, abriu a gaveta da secretária e notei que, secretamente, meteu o revólver no bolso. — Sim — disse em resposta a meu olhar —, pelo que ouvimos, creio que se trata de um bando particularmente perigoso.

Já era quase noite quando chegamos à Pall Mall, à casa do sr. Melas. Um cavalheiro já o havia procurado, e ele saíra.

— Pode me dizer para onde? — perguntou Mycroft Holmes.

— Não sei, senhor — respondeu a mulher que abrira a porta. — Sei apenas que ele partiu com um cavalheiro, numa carruagem.

— O cavalheiro deu o nome?

— Não, senhor.

— Não era um rapaz alto, bonito e moreno?

— Oh, não, senhor; era um senhor baixo, de óculos, magro de rosto, mas de maneiras muito agradáveis porque sorria sempre, enquanto falava.

— Vamos! — gritou Sherlock Holmes, abruptamente.

— Isto está ficando sério! — observou, quando nos dirigíamos para a Scotland Yard. — Eles apanharam o sr. Melas outra vez, e Melas não é homem de grande coragem física, como eles muito bem viram pela experiência da outra noite. Esses malandros vão aterrorizá-lo assim que ele chegar à sua presença. Não há dúvida de que querem seus serviços profissionais; mas, depois de se utilizarem dele, são capazes de querer puni-lo pelo que consideram uma traição.

Nossa esperança era chegar a Beckenham antes da carruagem, tomando o trem. Passamos pela Scotland Yard, onde perdemos mais de uma hora para descobrir o inspetor Gregson e completar as formalidades que nos habilitariam a entrar na casa. Já era um quarto para as dez quando chegamos à Ponte de Londres, e quatro e meia quando descemos na estação de Beckenham. Uma corrida de oitocentos metros levou-nos a The Myrties — uma casa grande e escura, construída no meio de um extenso terreno. Aí, dispensamos o carro e seguimos pelo caminho.

— As janelas estão todas escuras — observou o inspetor. — A casa parece desabitada.

— Nossos pássaros bateram asas e deixaram o ninho vazio — disse Holmes.

— Por que diz isso?

— Uma carruagem pesadamente carregada de bagagem passou por aqui há uma hora.

O inspetor sorriu. — Vejo os rastos das rodas à luz do candeeiro do portão, mas onde está a bagagem?

— Pode-se observar os mesmos rastos de rodas seguindo o outro caminho, mas os que partiram daqui são muito mais fundos, tanto que podemos dizer, sem errar, que havia um peso considerável na carruagem.

— O senhor ultrapassa-me um pouco — disse o inspetor, encolhendo os ombros. — A porta não será fácil de forçar, mas experimentaremos se não encontrarmos alguém que a abra.

Martelou fortemente a aldraba e tocou a sineta, mas sem resultado. Holmes afastou-se um pouco, regressando quase em seguida.

— Abri uma janela — disse ele.

— É uma sorte que o senhor esteja ao lado da lei, e não contra ela, sr. Holmes — observou o inspetor, notando a maneira hábil como meu amigo forçou as costas da tramela. — Bem, creio que em tais circunstâncias podemos entrar sem esperar convite.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Uns atrás dos outros, entramos numa grande sala, que evidentemente era a mesma em que estivera o sr. Melas. O inspetor acendeu sua lâmpada, e pudemos ver as duas portas, a cortina, o candeeiro e a armadura japonesa, tal como ele os havia descrito. Em cima da mesa estavam dois copos, uma garrafa de aguardente vazia e os restos de uma refeição.

— O que é isso? — perguntou Holmes de repente.

Todos nos imobilizamos e ouvimos. Um som baixo, gemente, vinha de algum lugar por cima de nossas cabeças. Holmes dirigiu-se para a porta e entrou no vestíbulo. O barulho triste vinha de cima. Sherlock precipitou-se para lá; o inspetor e eu seguimos-lhe os passos, enquanto o irmão, Mycroft, nos seguia tão depressa quanto lhe permitia sua corpulência.

No segundo andar, deparamos com três portas; no entanto, era da porta do meio que vinham aqueles sons sinistros, que ora mergulhavam num pesado resmungo, ora se erguiam, de novo, num lamento penetrante. Estava trancada, mas a chave ficara do lado de fora. Holmes abriu-a e entrou; saiu precipitadamente, rápido, com as mãos na garganta.

— É carvão! — gritou. — Dêem-lhe tempo. Vai se dissipar.

Espreitando para dentro, podíamos ver que a única luz do quarto provinha de uma chama frouxa e azul que tremeluzia num trípode de bronze, ao centro. Projetava um círculo estranho e lívido sobre o soalho, enquanto na sombra, mais além, víamos a silhueta vaga de duas figuras, agachadas junto da parede. Da porta aberta saiu uma exalação horrível e venenosa, que nos fazia arfar e tossir. Holmes correu para o vértice da escada para respirar ar fresco; depois, atirando-se para dentro da sala, abriu a janela e arremessou o trípode de bronze para o jardim.

— Poderemos entrar dentro de um minuto — arfou, correndo para fora outra vez. — Onde está a vela? Duvido que possamos acender um fósforo nesta atmosfera. Segure a luz, aqui à porta, para nós os tirarmos dali, Mycroft. Agora!

De um salto, alcançamos os homens envenenados e arrastamo-los para o terraço. Ambos tinham os lábios azuis e insensíveis, as faces inchadas e congestionadas e os olhos saídos das órbitas. Na verdade, tão desfigurados estavam seus traços que, se não fosse a barba preta e a corpulenta figura, não seríamos capazes de reconhecer num deles o intérprete grego, que se separara de nós algumas horas antes, no Clube Diógenes.

Tinha as mãos e os pés fortemente atados, e ostentava, sobre os olhos, a marca de um violento soco. O outro, amarrado da mesma forma, era alto e estava na última fase do emagrecimento; além disso, várias tiras de bandagem estavam grotescamente grudadas na parte superior do seu rosto. Deixou de gemer quando o desamarramos, mas, num relance, reparei que para ele nosso auxílio tinha chegado demasiadamente tarde. Entretanto, o sr. Melas ainda vivia e, em menos de uma hora e graças ao emprego de aguardente e amoníaco, tivemos a satisfação de vê-lo de olhos abertos e verificar que, pela minha mão, se libertara do vale da sombra, onde todos os caminhos se encontram.

A história que tinha para contar era simples, e confirmou nossas deduções. Seu visitante, ao entrar em sua casa, tirou da manga um bastão carregado de chumbo e impressionou-o de tal modo com a ameaça de uma morte instantânea e inevitável que, tirando partido de seu pavor, o raptou pela segunda vez. Com efeito, era quase magnético o poder que aquele rufião zombeteiro exercia sobre o infortunado lingüista, já que não era capaz de falar nele sem que suas mãos tremessem e ele empalidecesse. Fora levado rapidamente para Beckenham, e atuara como intérprete numa segunda entrevista, ainda mais dramática do que a primeira, e na qual os dois ingleses haviam ameaçado seu prisioneiro de morte instantânea caso não concordasse com suas exigências. Por fim, achando-o irredutível contra a ameaça, arremessaram-no para aquela prisão, censurando depois Melas por sua traição, evidente devido ao anúncio nos jornais. Deram-lhe então uma forte bengalada, e não se lembrava de mais nada até nos encontrar ali curvados sobre ele.

E foi este o singular caso do intérprete grego; sua explicação continua envolvida em mistério. Pudemos descobrir, por uma conversa com o cavalheiro que respondera ao anúncio, que a infortunada moça pertencia a uma rica família grega e estivera de visita a alguns amigos, na Inglaterra. Encontrara então um jovem chamado Harold Latimer, que adquiriu ascendência sobre ela, chegando a convencê-la a fugir com ele. Os amigos, chocados com o acontecimento, limitaram-se a informar o irmão, em Atenas, e lavaram as mãos em relação ao assunto. Por sua vez, o irmão, ao chegar à Inglaterra, colocara-se imprudentemente sob o domínio de Latimer e seu cúmplice, cujo nome era Wilson Kemp — um homem com os piores antecedentes. Os dois, descobrindo que, pela ignorância da língua, ele era impotente em suas mãos, conservaram-no prisioneiro e esforçaram-se, servindo-se de crueldade e inanição, para obrigá-lo a assinar a desistência de sua propriedade e da de sua irmã.

Tinham-no depois mantido preso naquela casa, sem que a irmã o suspeitasse, e a bandagem no rosto destinava-se a dificultar seu reconhecimento caso ela viesse a encontrá-lo. No entanto, a intuição da moça levou-a a reconhecê-lo por trás de tal disfarce quando, por ocasião da primeira visita do intérprete, o viu acidentalmente. Mas a moça era também uma prisioneira, já que mais ninguém vivia naquela casa, exceto o homem que desempenhava o papel de cocheiro e sua mulher, ambos cúmplices dos bandidos. Descobrindo que seu segredo já era conhecido e que o prisioneiro se mostrava irredutível, os dois meliantes, levando a moça, fugiram da casa que tinham alugado, tendo-se antes vingado, como pensavam, tanto do homem que os desafiara como do que os traíra.

Meses depois, chegou-nos de Budapeste um curioso recorte de jornal. Contava como dois ingleses, que viajavam com uma mulher, haviam encontrado um trágico fim. Parece que tinham sido apunhalados, e a polícia húngara era de opinião que se feriram um ao outro mortalmente durante uma luta. Creio, porém, que Holmes pensa diferentemente, sustentando até que, se alguém pudesse falar com a jovem grega, saberia como seus sofrimentos e os de seu irmão chegaram a ser vingados.

1894
Memórias de Sherlock Holmes

1. Estrela de Prata § 2. A caixa de papelão
3. A face amarela § 4. O escriturário da corretagem
5. A tragédia do “Gloria Scott” § 6. O ritual Musgrave
7. O enigma de Reigate § 8. O corcunda
9. O paciente internado § 10. O intérprete grego
11. O tratado naval § 12. O problema final

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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