O tratado naval

Arthur Conan Doyle

O tratado naval

Título original: The Naval Treaty
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine, em duas partes:
a primeira em Outubro de 1893, com 8 ilustrações de Sidney Paget
e a segunda parte em Novembro de 1893, com 7 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Naval Treaty publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

O mês de julho, logo a seguir a meu casamento, tornou-se memorável por três casos de interesse, devido aos quais tive o privilégio de me associar a Sherlock Holmes e ao estudo de seus métodos. Encontrei-os registrados em minhas notas, sob os títulos de A aventura da segunda mancha, O tratado naval e A aventura do capitão cansado. A primeira dessas histórias, porém, trata de tão importantes interesses e envolve tantas das principais famílias do reino, que sua publicação será impossível por muitos anos. Não obstante, nenhum outro caso tratado por Sherlock Holmes ilustra tão eloqüentemente o valor de seus métodos analíticos ou impressiona tão fortemente os que com ele se associaram. Conservo ainda, quase palavra por palavra, uma reportagem com a entrevista em que ele esclareceu os verdadeiros fatos do caso a M. Dubuque, da polícia de Paris, e a Fritz von Waldbaum, o célebre especialista de Dantzig, que tinham gasto suas energias no que veio a ser apenas um resultado parcial. Mas, quando se puder contar a história em segurança, certamente já terá chegado o novo século, Enquanto isso, passo à segunda história de minha lista, a qual também se revelou de extrema importância, vindo a ficar marcada Por diversos incidentes que lhe dão um caráter único.

Durante meu tempo de escola, tive como amigo íntimo um rapaz chamado Percy Phelps, quase da mesma idade que eu, embora estivesse dois anos mais adiantado. Era um menino muito brilhante e alcançou todos os prêmios que a escola tinha para oferecer, coroando suas façanhas ao ganhar uma bolsa de estudos que lhe permitiu continuar em Cambridge sua série de triunfos. Pertencia, lembro-me perfeitamente, a uma família muito boa e, ainda pequenos, já sabíamos que o irmão de sua mãe era lorde Holdhurst, o grande político conservador. Este brilhante parentesco trouxe-lhe, no entanto, poucas vantagens na escola; parecia-nos até divertido bater nele, no campo de jogos, e golpear-lhe as canelas com o taco de críquete. Mas quando saiu para o mundo, tudo se tornou diferente. Ouvi dizer que suas aptidões e a influência que exercia sua família lhe haviam granjeado uma boa colocação no Ministério do Exterior, e então perdi-lhe o rasto até que a carta que se segue me relembrou sua existência.

“Briarbrae, Woking

Meu caro Watson,

Não tenho dúvidas de que ainda deve se lembrar de ‘Tadpole’ [1] Phelps, que freqüentava o quinto ano quando você estava no terceiro. É até possível que tenha ouvido dizer que, por influência de meu tio, consegui uma ótima colocação no Ministério do Exterior. Estava realmente num lugar de confiança, de honra mesmo, quando uma horrível desgraça me destruiu a carreira.

Não vale a pena descrever os pormenores deste terrível acontecimento; no entanto, se aceder a meu pedido, terá possivelmente de ouvi-los. Acabo de me restabelecer de uma febre cerebral que durou nove semanas, e estou ainda excessivamente fraco. Acha que seria possível trazer seu amigo, o sr. Holmes, para uma visita? Gostaria de saber a opinião dele sobre o caso, embora as autoridades me assegurem que nada mais se pode fazer. Procure trazê-lo tão depressa quanto possível. Cada minuto parece uma hora para quem vive nesta horrível incerteza. Assegure-lhe que, se não pedi conselho mais cedo, não foi por desconhecer seus talentos, mas porque tenho estado positivamente fora de mim desde que o caso estourou. Agora já estou consciente, embora não me atreva a pensar muito no assunto, com medo de uma recaída. Ainda estou tão fraco que sou obrigado a ditar, como vê, minhas cartas. Tente trazê-lo.

Seu antigo colega,

Percy Phelps.”

Havia alguma coisa, nessa carta, que me tocou quando a li, algo lamentável nos reiterados apelos para levar Holmes. Tão comovido fiquei que decidi que tentaria; mas certamente eu sabia que Holmes amava tanto sua arte que estava sempre pronto a prestar seu auxílio quando o cliente dele necessitava. Minha mulher concordou em que não se podia perder um momento para apresentar o caso a Sherlock Holmes. Assim, uma hora depois do café da manhã, eu já me encontrava, uma vez mais, na antiga casa da Baker Street.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Holmes ainda estava de roupão, sentado junto à mesa e duramente empenhado numa experiência química. Uma grande retorta fervia furiosamente sobre a chama azulada de um bico de Bunsen. Gotas destiladas iam se condensando numa medida de dois litros. Meu amigo quase nem me olhou quando entrei, e eu, vendo que a experiência devia ser de muita importância, sentei-me numa poltrona e esperei. Ele pegava nesta ou naquela garrafa, tirando de cada uma algumas gotas com sua proveta de vidro. Finalmente, tirou de cima da mesa um tubo de ensaio contendo uma solução; tinha na mão direita uma tira de papel de tornassol.

— Você chegou no momento crítico, Watson — disse. — Se este papel continuar azul, tudo está bem. Se ficar vermelho, significa a vida de um homem. — Mergulhou-o na proveta e a tira enrubesceu-se imediatamente, num vermelho pesado e sujo.

— Hum! Já calculava — exclamou. — Estarei às suas ordens num instante, Watson.

Voltou para a escrivaninha e rabiscou alguns telegramas que entregou ao rapaz. Atirou-se então para uma cadeira em frente da minha e levantou os joelhos até conseguir entrelaçar os dedos, abraçando as pernas longas e delgadas.

— Um pequeno assassinato, bem vulgar — disse ele. — Parece-me que você descobriu algo melhor, Watson. O que é?

Passei-lhe a carta, que leu com a mais concentrada atenção.

— Mas não nos diz muita coisa, não é verdade? — observou ao devolvê-la.

— Quase nada.

— No entanto, a caligrafia é interessante.

— Mas não é a dele.

— Evidentemente. É de mulher.

— É de homem, sem dúvida alguma — exclamei.

— Não. É de mulher, e de mulher de raro caráter. Você sabe, no início de uma investigação já é alguma coisa saber que o cliente está em íntimas relações, para o bem ou para o mal, com alguém de natureza excepcional. Meu interesse pelo caso já foi despertado. Se estiver pronto, partiremos imediatamente para Woking, a fim de visitarmos esse diplomata metido num caso tão sério e essa senhora a quem ele dita suas cartas.

Tivemos sorte, porque não tardamos a encontrar um trem em Waterloo, e em pouco menos de uma hora rodávamos entre os pinheirais e as charnecas de Woking. Briarbrae era uma mansão grande e isolada, no centro de extensas propriedades, a poucos minutos da estação. Ao entregarmos nossos cartões de visita, fomos introduzidos numa espaçosa sala de estar, elegantemente mobiliada. Fomos recebidos por um homem robusto, de encantadora hospitalidade. Devia ter cerca de. quarenta anos, mas ao mesmo tempo suas bochechas eram tão vermelhas e seus olhos, tão alegres que lembrava um grande menino rechonchudo e travesso.

— Sua presença nesta casa dá-me muita alegria — disse, apertando-nos as mãos efusivamente. — Percy tem perguntado pêlos senhores toda a manhã. Ah, pobre rapaz, agarra-se a qualquer tábua de salvação. Os pais dele pediram-me que recebesse os senhores, porque a simples menção do assunto lhes é penosa.

— Nada sabemos ainda — observou Holmes. — Vejo, no entanto, que o senhor não pertence à família.

O sujeito pareceu surpreso e, baixando os olhos, começou a rir.

— Naturalmente, o senhor viu meu monograma, J. H., em minha medalha — disse. — Por momentos, pensei que tivesse usado um truque. Meu nome é Joseph Harrison e, como Percy vai casar com minha irmã, seremos contraparentes pelo casamento. Encontrará minha irmã no quarto dele, pois é ela que o tem tratado durante estes últimos dois meses. Talvez seja melhor irmos já; Percy está impaciente.

O aposento onde entramos era no mesmo andar. Estava mobiliado como sala e como quarto. Nos cantos, havia flores dispostas com gosto. Um rapaz muito pálido e abatido estava deitado num sofá, perto de uma janela aberta, por onde entrava a fragrância do jardim e do ar embalsamado de verão. Uma jovem, sentada junto dele, levantou-se quando entramos.

— Quer que me retire, Percy? — perguntou ela.

Ele agarrou-lhe a mão para detê-la.

— Como está, Watson? — disse cordialmente. — Não seria capaz de reconhecê-lo com esse bigode. Esse, creio eu, deve ser seu famoso amigo Sherlock Holmes.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Apresentei-os em poucas palavras, e ambos nos sentamos. O jovem robusto saíra, mas a irmã ficou ainda com a mão na do doente. Era uma mulher de aparência atraente, um pouco baixa e gorda — talvez por uma questão de proporção —, mas de bela compleição, olhos italianos, grandes e negros, e um cabelo maravilhoso, de um preto profundo. Suas belas cores tornavam ainda mais desbotado e macilento, por comparação, o rosto branco e magro de seu companheiro.

— Não abusarei de seu tempo — disse ele, erguendo-se no sofá. — Entrarei sem mais preâmbulos no assunto, sr. Holmes. Eu era um homem feliz e muito bem-sucedido, e estava em vésperas de me casar quando a desgraça me arruinou todas as perspectivas de vida.

“Trabalhava, como talvez Watson já lhe tenha dito, no Ministério do Exterior, e, por influência de meu tio, lorde Holdhurst, subi rapidamente a uma posição de responsabilidade. Quando meu tio passou a ministro do Exterior, encarregou-me de diversas missões de confiança, e, visto que eu as levei sempre a uma conclusão feliz, acabou por confiar inteiramente em minha habilidade e tato.

“Há quase dez semanas — para ser mais exato, no dia 23 de maio —, meu tio chamou-me a seu gabinete privado e, depois de me felicitar pelo bom trabalho que havia feito, informou-me de que me reservara uma nova missão.

“— Isto — disse ele, tirando um rolo de papel cinzento da gaveta de sua secretária — é o original do tratado secreto entre a Inglaterra e a Itália, em relação ao qual, sinto dizer, circulam na imprensa algumas indiscrições. É necessário que nada mais transpire. As embaixadas russa e francesa pagariam uma soma imensa para saber o conteúdo destes papéis. Não sairiam da minha secretária se não fosse necessário copiá-los. Você tem uma escrivaninha em seu escritório?

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— Tenho, senhor.

“— Então, leve o trabalho e feche-o à chave. Darei ordens para que você fique depois de os outros saírem, de modo a que possa copiá-lo à vontade sem receio de ser espiado. Quando acabar, torne a fechar o original e a cópia em sua escrivaninha, e entregue-os pessoalmente a mim, amanhã de manhã.

“Peguei nos papéis e…”

— Um momento — interrompeu Holmes. — Estiveram sós durante a conversa?

— Sem dúvida nenhuma.

— Numa sala grande?

— Nove metros de cada lado.

— Estavam no centro?

— Sim, mais ou menos.

— E falando baixo?

— A voz de meu tio é sempre baixa, e eu não disse uma palavra.

— Muito obrigado — disse Holmes, fechando os olhos. — Continue, por favor.

— Fiz exatamente o que tinha recomendado e esperei até que os outros saíssem. Um deles, que trabalha em minha sala, Charles Gorot, tinha uma tarefa atrasada, de modo que o deixei lá e fui jantar. Quando regressei, ele já se fora. Eu estava ansioso para adiantar o trabalho, porque sabia que Joseph Harrison, que os senhores viram agora mesmo, estava em Londres e viria para Woking no trem das onze, que eu também queria alcançar.

“Quando iniciei a cópia do tratado, verifiquei logo que era de tal importância que meu tio não exagerara no que dissera. Sem entrar em pormenores, posso dizer que definia a posição da Grã-Bretanha para com a Tríplice Aliança, e esclarecia a atitude do país na eventualidade de a frota francesa ganhar completa ascendência sobre a Itália no Mediterrâneo. Os assuntos de que tratava eram puramente navais, e encontravam-se no fim as assinaturas dos altos dignitários.

“Era um documento muito longo: vinte e seis artigos distintos, escritos em francês. Eu copiava tão depressa quanto me era possível, mas às nove horas não copiara mais de nove artigos, de modo que me pareceu inútil tentar apanhar o trem das onze. Sentia-me sonolento e obtuso, em parte por causa do jantar, em parte devido a um longo dia de trabalho. Uma xícara de café me aclararia as idéias. Um guarda passa a noite num pequeno compartimento junto da escada, e costuma fazer café em sua espiriteira para qualquer funcionário que faça horas extraordinárias. Portanto, toquei a campainha para chamá-lo, e grande foi minha surpresa quando uma mulher apareceu.

“Era uma velha alta, grande, de semblante grosseiro, e vestia um avental. Explicou-me que era a mulher do guarda, e fazia a limpeza. Pedi-lhe então o café.

“Copiei ainda mais dois artigos, e comecei a sentir-me tão sonolento que me levantei e andei para cá e para lá na sala para desentorpecer as pernas. O café ainda não viera e eu pensava qual seria a causa da demora. Abri a porta e desci pelo corredor para investigar. É um corredor retilíneo, única saída da sala onde eu estava trabalhando, e que terminava em uma escada em curva, com o compartimento do guarda ao fundo. A meio caminho dessa escada, há um patamar onde se entronca outra passagem em ângulo reto. Uma segunda escada conduz então a uma porta lateral, utilizada pêlos contínuos e pelo pessoal que entra pela Charles Street. Eis uma planta grosseira do local.”

Ilustração original da edição brasileira

Ilustração original da edição brasileira

— Muito obrigado. Compreendo perfeitamente.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— É da máxima importância que o senhor note esse ponto. Desci a escada e entrei no compartimento, onde encontrei o guarda profundamente adormecido em sua cadeira, a chaleira fervendo com estrépito sobre a chama da espiriteira. Estendi a mão e ia sacudir o homem, quando a campainha retiniu sobre sua cabeça e ele acordou com um susto.

“— Sr. Phelps! — disse, olhando-me, atrapalhado.

“— Desci para ver se meu café estava pronto.

“— Eu estava fervendo a água quando adormeci, senhor.

“Olhou para mim e depois para a campainha, que continuava a tinir; em seu rosto estampava-se um espanto crescente.

“— Se o senhor está aqui, quem estará tocando a campainha? — perguntou.

“— Que campainha? — disse eu.

“— A da sala onde o senhor está trabalhando.

“Tive a sensação de que uma mão gelada me apertava o coração. Alguém estava na sala onde, sobre uma mesa, jazia meu trabalho. Corri como louco escada acima e ao longo do corredor. Ninguém no corredor, sr. Holmes. Ninguém na sala. Estava tudo exatamente como eu deixara, exceto os documentos deixados ao meu cuidado, que haviam desaparecido de sobre a mesa. A cópia estava lá, mas o original…”

Holmes levantou-se e esfregou as mãos. Reparei que o assunto já o fascinava.

— E o que o senhor fez então? — murmurou.

— Deduzi num instante que o ladrão utilizara a escada da porta lateral. Se tivesse vindo pelo outro caminho, eu o teria encontrado.

— O senhor convenceu-se de que ele não poderia ter se ocultado na sala ou até no corredor, que descreveu como fracamente iluminado?

— Era absolutamente impossível. Nem um rato poderia se esconder na sala ou no corredor. Não há lugar que possa servir de esconderijo.

— Muito obrigado. Continue, por favor.

— O guarda, notando pela palidez de meu rosto que se passava algo de muito grave, seguira-me escada acima. Corremos então ambos pelo corredor e descemos a escada que dá para a Charles Street. A porta da rua estava fechada mas destrancada. Abrimo-la e saímos. Lembro-me muito bem de que o sino de uma igreja vizinha dava, nesse momento, três badaladas. Faltava um quarto para as dez.

— Isso é da maior importância — disse Holmes, tomando nota no punho da camisa.

— A noite estava muito escura, e caía uma chuva quente e fina. Não se via vivalma na Charles Street, mas na Whitehall havia o grande movimento de costume. Caminhamos ao longo da calçada, tal como estávamos, sem chapéu, e à esquina encontramos um policial.

“— Acabaram de cometer um roubo — arfei. — Um documento de imenso valor foi roubado do Ministério do Exterior. Reparou se alguém passou por aqui?

“— Estou aqui há um quarto de hora, senhor, e vi apenas uma mulher alta, já de idade, com um xale escocês.

“— É minha mulher — exclamou o guarda. — Não passou mais ninguém?

“— Mais ninguém.

“— Então o larápio foi pelo outro caminho — disse o guarda, puxando-me pelo braço.

“Mas não me convenci, e as tentativas que ele fez para me levar dali aumentaram minhas suspeitas.

“— Que caminho tomou a mulher? — interpelei.

“— Não sei. Apenas a vi passar, e como não tinha nenhum motivo especial para observá-la não reparei. Mas parecia que ia com pressa.

“— Há quanto tempo foi isso?

“— Cinco minutos, no máximo.

“— O senhor está perdendo tempo, e cada minuto agora é de extrema importância — exclamou o guarda. — Acredite quando lhe digo que minha velha nada tem a ver com isso, e corramos ao outro extremo da rua. Se o senhor não quiser ir, irei eu. — E, dizendo isso, precipitou-se na direção oposta.

“Mas num instante eu estava junto dele, e agarrei-o por um braço.

“— Onde o senhor mora?

“— Ivy Lane, 16, Brixton; mas não se deixe levar por uma falsa suposição, sr. Phelps. Venha até o fim da rua e vejamos se conseguimos descobrir alguma coisa.

“Nada se perdia em seguir-lhe o conselho. Descemos ambos apressadamente. O policial acompanhava-nos. Porém, vimos apenas uma rua cheia de trânsito. Uma multidão ia e vinha, desejosa de encontrar um abrigo naquela noite chuvosa. Ninguém parecia estar ali há tempo suficiente para nos dizer quem teria vindo da Charles Street.

“Voltamos então ao escritório e revistamos a escada e o corredor, sem resultado. O corredor é coberto por uma espécie de oleado, que mostra com muita facilidade qualquer impressão. Examinamo-lo com o máximo cuidado, mas não encontramos qualquer traço revelador.”

— Estava chovendo há muito tempo?

— Desde as sete.

— Como se explica, então, que a mulher, ao entrar na sala às nove horas, não tenha deixado marcas de suas botas molhadas?

— Estou contente por ter levantado essa questão. Ocorreu-me naquela altura. Mas as mulheres da limpeza têm o hábito de tirar as botas no cubículo do guarda e calçar chinelos.

— Está bem. Não havia, portanto, qualquer sinal, apesar da noite de chuva! Essa série de acontecimentos é realmente de extraordinário interesse. O que fez em seguida?

— Examinamos também a sala. Não havia possibilidade de uma porta secreta, e as janelas ficam todas a nove metros do chão. Além disso, ambas estavam fechadas por dentro. O tapete não permite a existência de qualquer alçapão, e o forro é do tipo comum, branco de cal. Aposto minha vida que quem roubou os papéis só pode ter entrado pela porta.

— E a lareira?

— Não há lareira. Há uma estufa. A corda da campainha é presa a um arame que fica bem à direita de minha secretária. Para tocá-la é necessário ir até junto da secretária. Mas por que esse desejo de tocar a campainha? É um mistério insolúvel.

— Não há dúvida de que o caso é pouco comum. Mas quais foram seus passos seguintes? Quer dizer, examinou a sala para ver se o intruso deixara vestígios? Pontas de cigarro, uma luva esquecida, um alfinete ou qualquer outra coisa?

— Não havia nada.

— Nem cheiro?

— Nunca pensei nisso.

— Um cheiro de fumo seria de grande valor para nós, numa tal investigação.

— Como nunca fumei, creio que, por isso mesmo, o teria sentido. Mas não havia qualquer espécie de indício. O único fato tangível era a mulher do guarda, a sra. Tangey, que abandonara o local. Ele não soube dar explicação para o fato, a não ser a de que a mulher costumava voltar para casa àquela hora. O policial e eu, supondo que a mulher tivesse tirado os papéis, concordamos em que o melhor seria alcançá-la antes que ela se desfizesse deles.

“Nessa altura, o alarme já chegara à Scotland Yard, e o detetive Forbes veio imediatamente e tomou conta do caso com muita energia. Alugamos um carro fechado e, em meia hora, estávamos no endereço que nos fora dado. Uma moça que nos abriu a porta provou ser a filha mais velha da sra. Tangey. Sua mãe ainda não voltara. Entramos, pois, na sala da frente, e esperamos.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“Dez minutos depois, bateram à porta, e aqui cometemos um erro grave, de que aliás me culpo. Em vez de nós a abrirmos, permitimos que a moça o fizesse. Ouvimo-la dizer: ‘Mãe, dois homens estão à sua espera’. E imediatamente ouvimos uma correria desorientada pelo corredor. Forbes empurrou de repente a porta, e ambos nos precipitamos para a cozinha. Mas a mulher chegara primeiro e olhava-nos com ar de desafio. Entretanto, reconheceu-me, e uma expressão de profundo espanto estampou-se em seu rosto.

“— Ora, é o sr. Phelps, do escritório! — exclamou.

“— Vamos, vamos, quem pensou que éramos quando fugiu de nós? — perguntou o detetive.

“— Julguei que eram os cobradores — disse. — Temos algumas dificuldades com um comerciante.

“— Isso não esclarece7 o suficiente — respondeu Forbes, — Temos motivos para suspeitar de que a senhora se apoderou de um documento de grande importância no ministério, e que entrou aqui correndo com o fim de escondê-lo. Tem de vir conosco à Scotland Yard para ser interrogada.

“Em vão a mulher protestou e resistiu. Chamou-se uma carruagem e voltamos, depois de procedermos a um exame da cozinha, e especialmente do fogão, para ver se ela teria se livrado dos documentos naquele instante em que estivera sozinha. Não havia, porém, sinais de cinza ou fragmentos. Quando chegamos à Scotland Yard, a mulher foi logo confiada a uma funcionária para ser revistada. Esperei, na agonia da incerteza, que esta voltasse com os papéis, mas nem sinal deles.

“Então, pela primeira vez, todo o horror da minha situação desabou sobre mim. Até aquela altura eu agira, e a ação entorpecera-me o pensamento. Estava tão esperançado em reaver os documentos que nem ousara pensar no que aconteceria no caso de fracassar. Mas, naquele momento, nada mais havia a fazer, e tive tempo para avaliar minha situação. Foi horrível. Watson pode dizer como eu era uma criança nervosa e sensível na escola. É minha maneira de ser. Pensei em meu tio e em meus colegas. E na vergonha que cairia sobre ele, sobre mim e sobre todos os que se relacionavam comigo. Que importava que eu fosse a vítima de um extraordinário acidente? Não há desculpa para acidentes quando os interesses diplomáticos estão em jogo. Estava arruinado, escandalosa e desgraçadamente arruinado. Não tenho a menor idéia do que fiz, mas não duvido que tenha dado um espetáculo. Lembro-me, de modo vago, de um grupo de funcionários que me rodearam, esforçando-se por me acalmar. Um deles veio mesmo comigo, num carro, até Waterloo, e meteu-me no trem para Woking. Julgo que teria vindo todo o caminho comigo se o dr. Ferrier, que mora aqui perto, não viesse no mesmo trem. O médico foi muito simpático comigo e ainda bem que assim sucedeu, porque tive uma vertigem na estação e, quando cheguei a casa, parecia um louco.

“O senhor pode imaginar como ficou esta casa quando, aos insistentes toques de campainha do médico, todos se levantaram e me viram naquele estado. A pobre Annie e minha mãe ficaram angustiadas. O dr. Ferrier falara com o detetive na estação, de modo que podia dar uma idéia do que se passara. Mas seu relato não melhorou as coisas. Era evidente que eu ia ficar doente por muito tempo, de modo que Joseph saiu deste alegre quarto, que passou a servir de enfermaria para mim. Aqui fiquei na cama, sr. Holmes, por mais de nove semanas, inconsciente e delirando. Se a srta. Harrison não tivesse estado aqui e se não fosse o cuidado do médico, não estaria agora falando com o senhor. Ela cuidava de mim durante o dia, e uma enfermeira durante a noite, porque nos acessos de loucura eu era capaz de tudo. Lentamente minha razão foi voltando, mas foi só nestes últimos dias que recuperei a memória completamente. Às vezes, preferia que nunca tivesse voltado. A primeira coisa que fiz foi telegrafar ao sr. Forbes, encarregado do caso. Veio aqui e assegurou-me que, embora se tivesse feito tudo, não se descobrira o menor indício. O guarda e a mulher haviam sido interrogados de todas as formas, sem que se esclarecesse nada do assunto.

“As suspeitas da polícia recaíram então sobre o jovem Gorot, que, como o senhor deve lembrar, ficara no escritório para um serviço extraordinário, naquela noite. Sua permanência ali e o nome francês eram realmente os dois únicos pontos que podiam levantar suspeitas. Mas a verdade é que eu só comecei a trabalhar depois de ele ter saído. A família dele é de origem huguenote e, por simpatia e tradição, tão inglesa como o senhor e eu. Nada se descobriu que o implicasse e, assim, desistiu-se do caso. Apelo agora para o senhor, sr. Holmes, como minha última esperança. Se o senhor me desiludir, minha honra e minha posição ficarão, para sempre, perdidas.”

O doente mergulhou nas almofadas, esgotado pela longa narrativa, e a enfermeira ministrou-lhe um estimulante. Em silêncio, Holmes recostou-se na cadeira, os olhos fechados, numa atitude que para um estranho poderia significar distração, mas que eu reconhecia ser de profunda meditação.

— Sua narrativa foi tão explícita — disse por fim — que poucas perguntas me resta fazer. Mas há uma muito importante. Contou a alguém que tinha esse trabalho em mãos?

— A ninguém.

— Nem à srta. Harrison, por exemplo?

— Não. Eu não voltei a Woking depois de ter recebido a ordem e começado a executá-la.

— Nenhum de seus familiares foi, por acaso, visitá-lo?

— Nenhum.

— Sabiam alguns dos caminhos que davam para seu escritório?

— Sim, todos sabiam.

— Bem, mas realmente, se não falou a ninguém a respeito desse trabalho, todas estas perguntas são inúteis.

— Eu nada disse, na verdade.

— Sabe alguma coisa do guarda?

— Nada, a não ser que foi militar.

— De que regimento?

— Ouvi dizer que era o Coldstream Guards.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Muito obrigado. Tenho certeza de que conseguirei mais pormenores de Forbes. As autoridades são exímias na obtenção de informações, embora nem sempre as utilizem de forma proveitosa. Que coisa adorável é a rosa!…

Dirigiu-se para a janela aberta e colheu uma bela rosa pendente, de cálice e haste musgosos, e demorou-se a admirar seu matiz vermelho e verde. Era para mim uma nova característica, porque nunca o vira interessar-se verdadeiramente pelas coisas da natureza.

— Não há nada em que a dedução seja mais necessária como na religião — disse, apoiando-se na vidraça da janela, — Pelo raciocínio, pode ser construída como uma ciência exata. No entanto, nossa mais elevada certeza da bondade da Providência parece repousar nas flores. Todas as outras coisas, nossos dons, nossos desejos, nosso alimento, são realmente necessários à existência, essenciais mesmo. Mas esta rosa é uma coisa extra; seu perfume e sua cor são um encanto, não uma condição de vida. Só a bondade é que cria seres extras e, por isso, parece-me que temos muito a esperar das flores.

Durante esta tirada, Percy Phelps e a enfermeira olharam-se com surpresa, e uma expressão de desapontamento estampou-se em seus rostos. Holmes caíra num devaneio, com uma rosa cheia de espinhos entre os dedos. Passados minutos, a moça o interrompeu, com aspereza.

— O senhor vê alguma possibilidade de resolver esse mistério, sr. Holmes?

— Oh! O mistério! — respondeu Sherlock, voltando de repente à realidade. — É impossível negar que o caso é muito obscuro e complicado. Mas prometo examinar o assunto e mante-los a par dos detalhes que interessam.

— O senhor vê alguma pista?

— A senhorita forneceu-me sete. Mas tenho, é claro, que estudá-las bem antes de me pronunciar sobre seu valor.

— Suspeita de alguém?

— Suspeito que eu mesmo…

— Que diz?

— …possa chegar a conclusões precipitadas.

— Vá então a Londres examinar suas conclusões.

— Seu conselho é excelente, srta. Harrison — disse Holmes, levantando-se. — Parece-me, Watson, que é o melhor que temos a fazer. Entretanto, não se deixe animar com falsas esperanças, sr. Phelps. O assunto é muito complicado.

— Esperarei ansiosamente pelo senhor — exclamou O diplomata.

— Voltarei amanhã, no mesmo trem, embora seja mais provável que meu relatório venha a ser negativo.

— Deus lhe pague a promessa de vir — disse nosso cliente. — O fato de saber que está se fazendo alguma coisa dá-me novo alento. A propósito, recebi uma carta de lorde Holdhurst.

— Sim? E o que diz?

— Ele foi frio, mas não severo. Estou convencido de que é meu estado de saúde que o impediu de ser agressivo. Frisou que o assunto é da maior importância, e acrescentou que nenhum passo será dado em relação a meu futuro — o que significa, logicamente, minha demissão — até que me restabeleça e possa reparar minha desgraça.

— Bem, foi razoável e indulgente — disse Holmes, que acrescentou dirigindo-se a mim: — Vamos, Watson, temos à nossa frente um dia cheio.

O sr. Joseph Harrison levou-nos de carro até a estação. Durante a volta, no trem de Portsmouth, Holmes manteve-se mergulhado em profunda meditação, e não abriu a boca até passarmos o entroncamento de Clapham.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— É muito agradável entrar em Londres por estas linhas construídas sobre viadutos, do alto dos quais se podem ver casas como estas.

Pensei que brincava porque, para falar a verdade, a vista era muito sórdida, mas ele se apressou a explicar:

— Olhe para aqueles grupos de edifícios que se erguem acima dos telhados, como ilhas de tijolos sobre um mar cor de chumbo.

— Os internatos?

— Faróis, meu velho! Faróis do futuro! Cápsulas contendo centenas de sementes brilhantes, onde surgirá uma Inglaterra mais sábia e melhor, para o futuro. Acha que Phelps bebe?

— Acho que não.

— Eu também; mas tenho que levar em conta todas as probabilidades. Não há dúvida de que o pobre-diabo se afundou em águas muito perigosas, e resta-nos a questão de saber se poderemos arrastá-lo para a margem. Que pensa você da srta. Harrison?

— Uma moça de temperamento forte.

— É certo. E de boa classe, se não me engano. Ela e o irmão são os únicos filhos de um industrial do ferro, com fábrica perto da estrada de Northumberland. Phelps ficou noivo durante uma viagem que fez, no inverno passado, e ela veio agora para ser apresentada à família. O irmão foi encarregado de acompanhá-la. Sobreveio então a catástrofe, e ela ficou para cuidar do amado, enquanto o irmão, sentindo-se à vontade, acabou por ficar também. Estou fazendo algumas investigações independentes, compreende? Mas hoje é que deve ser uma dia cheio, em matéria de investigações.

— Minha clínica… — comecei.

— Bem, se você acha seus casos mais interessantes do que os meus… — interrompeu Holmes com aspereza.

— Eu ia dizendo que minha clínica pode muito bem passar sem mim um dia ou dois; esta é a pior época do ano.

— Excelente — respondeu, recobrando o bom humor.

— Nesse caso, iremos estudar juntos essa questão. Creio que devíamos começar fazendo uma visita a Forbes. Talvez possa fornecer os pormenores que nos faltam para sabermos por onde atacar o problema.

— Você disse que tinha uma pista.

— Certo. Temos até diversas, mas só poderemos provar sua validade com outra investigação. O crime mais difícil de se desvendar é o que não revela seu objetivo. Ora, este tem um objetivo, e até bem claro. Mas quem está se aproveitando dele? Temos a embaixada francesa, temos a russa, há a pessoa que poderia estar interessada em vender os documentos a qualquer delas, e há lorde Holdhurst.

— Ora essa! Lorde Holdhurst!

— Custa acreditar que um estadista se encontre numa situação como essa e não pareça lamentar muito a desaparição do documento.

— Mas um estadista com a bela folha de serviços de lorde Holdhurst!

— Bem, é uma probabilidade que não podemos desprezar. Iremos hoje mesmo visitar o nobre senhor, para ver se ele tem alguma coisa a dizer. Nesse ínterim, minhas investigações já estarão em andamento.

— Já?

— Sim. Expedi alguns telegramas da estação de Woking para todos os vespertinos de Londres. Eis o texto que aparecerá em todos eles.

Tirou um pedaço de papel da sua agenda. Nele estava rabiscado a lápis:

“Dez libras de gratificação. O número do carro de aluguel que deixou um passageiro à porta ou perto da porta do Ministério do Exterior, na Charles Street, às quinze para as dez da noite de 23 de maio. Dirigir-se à Baker Street, 221-B”.

— Está convencido de que o ladrão utilizou um carro de aluguel?

— Se não utilizou, não haverá nenhum mal nisso. Mas se o sr. Phelps diz a verdade ao declarar que não há esconderijos na sala ou nos corredores, então é forçoso que a pessoa que lá esteve tenha vindo de fora. No entanto, não deixou vestígios de umidade no oleado, que foi examinado cinco minutos depois de sua passagem. Logo, é muito provável que tenha utilizado um carro.

— Pelo menos, é plausível.

— É um dos indícios, de que falei, suscetível de nos levar a uma conclusão. E vem então a campainha… que é o pormenor mais esquisito do caso. Por que razão soou aquela campainha? Teria sido o ladrão, por bravata? Ou alguém que estava junto com o ladrão e quis impedir o roubo? Ou simplesmente um acidente? Ou seria… — E mergulhou num profundo e impenetrável mutismo. Porém, acostumado como estava àquelas reações, pareceu-me que uma nova possibilidade se lhe revelara de súbito.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Eram três e vinte quando terminamos nosso trajeto. Logo após um almoço apressado, fomos à Scotland Yard. Holmes já telegrafara para Forbes, de modo que não estranhamos que este estivesse à nossa espera. Era um homem baixo, manhoso, de expressão severa e maneiras pouco amáveis. Assumiu uma atitude de frieza, especialmente quando soube da finalidade de nossa visita.

— Já ouvi falar em seus métodos, sr. Holmes — disse com brusquidão. — O senhor está sempre pronto a utilizar todas as informações que a polícia põe à sua disposição para resolver os casos sozinho e lançar o descrédito sobre nossa organização.

— Pelo contrário — respondeu Holmes. — De cinqüenta e três casos, meu nome só apareceu em quatro, enquanto a polícia colheu todos os louros nos outros quarenta e nove. Não o censuro por não sabê-lo, já que ainda é novo e inexperiente, mas aviso-o de que, se quiser progredir em suas novas funções, terá que trabalhar comigo e não contra mim.

— Ficarei satisfeito com uma ou duas sugestões — disse o detetive, mudando de atitude. — Não há dúvida de que, até agora, não tive o menor êxito neste caso.

— Que passos deu o senhor?

— Tenho mantido sob vigilância Tangey, o guarda, mas o homem tem uma boa folha de serviços, e nada descobrimos contra ele. Já a mulher é diferente; creio até que sabe mais do que dá a entender.

— Tem mandado segui-la?

— Pusemos uma de nossas agentes em seu encalço. Ela bebe, mas embora nossa agente a tenha encontrado, já por duas vezes, completamente bêbada, não conseguiu arrancar-lhe nada.

— Fui informado de que receberam a visita de cobradores.

— É verdade, mas eles foram pagos.

— E de onde veio o dinheiro?

— Estava tudo certo, ela estava para receber sua pensão; eles não deram nenhum sinal de possuir fundos.

— Que explicação deu a mulher por ter atendido a campainha quando o sr. Phelps pediu o café?

— Disse que o marido estava muito cansado, e ela queria ajudá-lo.

— Isso condiz com o fato de ele ter sido encontrado adormecido, mais tarde. Nada há portanto contra eles, a não ser o caráter da mulher. Perguntou-lhe por que passou correndo naquela noite, a ponto de o policial de serviço ter reparado em sua pressa?

— Explicou que estava mais atrasada do que de costume, e queria chegar logo a casa.

— O senhor chamou-lhe a atenção para o fato de que o senhor e Phelps, que saíram do ministério vinte minutos depois de ela partir, chegaram lá antes dela?

— Ela nos lembrou a diferença que existe entre um ônibus e um carro de praça.

— E explicou por que motivo correu para a cozinha, mal chegou a casa?

— Disse que era lá que guardava o dinheiro para os cobradores.

— Bem, pelo menos tem resposta para tudo. Perguntou-lhe se ela, ao sair para casa, encontrou alguém ou viu alguém na Charles Street?

— Diz que só viu o policial.

— Enfim, parece-me que o senhor fez-lhe um interrogatório completo. E que outras providências tomou?

— O funcionário Gorot tem sido seguido durante estas últimas nove semanas, mas nada pudemos apurar contra ele.

— Mais alguma coisa?

— Não. Não temos mais por onde seguir.

— Outra coisa: o senhor formulou alguma hipótese sobre o fato de a campainha ter tocado?

— Não. Sou obrigado a confessar que isso me desnorteia. Seja quem for, era um temerário para dar um alarme daqueles.

— Tem toda a razão. É muito estranho. Bem… obrigado por tudo o que me contou. Se puder colocar o homem em suas mãos, terá notícias minhas. Vamos, Watson.

— E agora, para onde? — perguntei.

— Vamos entrevistar lorde Holdhurst, ministro do gabinete e futuro primeiro-ministro da Inglaterra.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Tivemos sorte em encontrar lorde Holdhurst em seus aposentos da Downing Street. Quando Holmes lhe enviou seu cartão de visita, mandaram-no logo entrar. O estadista recebeu-nos com aquela velha cortesia que lhe era peculiar, e ofereceu-nos duas luxuosas poltronas junto da lareira. De pé, entre nós, com sua figura alta e frágil, a fisionomia concentrada e viva e o cabelo louro prematuramente embranquecido, parecia representar aquele tipo não muito corriqueiro de um nobre que é realmente nobre.

— Seu nome me é muito familiar, sr. Holmes — disse sorrindo. — É evidente que não posso pretender ignorar o objetivo de sua visita. Apenas um fato passado nestes escritórios poderia ter despertado sua atenção. Posso saber em nome de quem o senhor está agindo?

— No do sr. Phelps — respondeu Holmes.

— Ah! Meu infeliz sobrinho. O senhor deve compreender que nosso parentesco só serve para dificultar-lhe minha proteção. Receio que o incidente venha a ter um efeito muito nocivo para sua carreira.

— E se o documento for encontrado?

— Isso já modificaria sensivelmente as coisas.

— Tenho uma ou duas perguntas que gostaria de lhe fazer, lorde Holdhurst.

— Terei todo o prazer em prestar as declarações que desejar.

— Foi nesta sala que o senhor deu as instruções relacionadas com a cópia dos documentos?

— Sim, foi nesta sala.

— Não poderia, por acaso, ter sido ouvido?

— De modo nenhum.

— Disse a alguém que tencionava mandar copiar o tratado?

— Não, nunca.

— Está absolutamente certo disso?

— Absolutamente.

— Nesse caso, se nem o senhor, nem o sr. Phelps falaram do tratado a ninguém, então a presença do ladrão na sala foi puramente acidental. Quer dizer, ele viu a oportunidade e resolveu não deixá-la escapar.

O estadista sorriu.

— O senhor está me levando além de minhas possibilidades.

Holmes pensou um pouco.

— Há outro ponto muito importante que gostaria de discutir — disse, por fim. — O senhor receia, segundo creio, que, se alguns itens desse tratado se tornarem conhecidos, advenham graves conseqüências…

Uma sombra perpassou pelo semblante expressivo do estadista.

— Sim, com efeito. Conseqüências muito graves.

— E já ocorreram?

— Ainda não.

— Mas se o tratado tivesse chegado, digamos, ao conhecimento do governo francês ou russo, esperaria ouvir alguma coisa sobre isso?

— Sem dúvida alguma — disse lorde Holdhurst, tenso.

— Entretanto, já se passaram quase dez semanas e continua o silêncio dos meios oficiais; portanto, é lícito concluir que, por uma razão ou outra, o tratado não chegou ainda ao conhecimento deles.

Lorde Holdhurst encolheu os ombros.

— Mas tampouco podemos supor que o ladrão tivesse levado o tratado para emoldurá-lo e pendurá-lo na parede.

— Talvez esteja à espera de um preço melhor.

— Se esperar muito tempo, não obterá preço algum. Dentro de poucos meses, o tratado deixará de ser secreto.

— Isso é muito importante — disse Holmes. — Também é uma hipótese admissível que o ladrão tenha sido atacado por uma doença repentina…

— Um ataque de febre cerebral, por exemplo? — perguntou o estadista, olhando para seu interlocutor, rápido como um relâmpago.

— Eu não disse isso — retorquiu Holmes, sem se perturbar. — E agora, lorde Holdhurst, já lhe tomamos demasiado de seu precioso tempo. Desejamos-lhe um bom dia.

— Desejo-lhe êxito completo em suas investigações, seja quem for o criminoso! — exclamou o nobre quando, já à porta, fazíamos nossa vênia de despedida.

— Excelente homem — disse Holmes ao sairmos para a Whitehall. — Mas luta para se manter à altura de sua posição. Está longe de ser rico e tem muitas obrigações. Notou com certeza que as botas que usava já tinham sido consertadas. Agora, Watson, não quero afastá-lo por mais tempo de seu legítimo trabalho. Hoje não terei mais nada a fazer, a não ser que haja resposta a meu anúncio sobre o carro de praça. Mas eu lhe ficarei extremamente grato se você puder ir comigo amanhã a Woking, no mesmo trem que tomamos hoje.

Na manhã seguinte, encontramo-nos conforme tínhamos combinado, e viajamos juntos para Woking. O anúncio não tivera resposta. Nenhuma luz nova fora projetada, de fora, sobre o caso. Holmes assumia, sempre que desejava, uma imobilidade facial completa, tornando-se impossível concluir, por sua expressão, se estava ou não satisfeito com o andamento do caso. A conversa, lembro-me bem, versou sobre o sistema de medidas de Bertillon, e ele manifestou admiração pelo sábio francês. Encontramos nosso cliente ainda sob os devotados cuidados de sua enfermeira, mas parecendo bastante melhor do que no dia anterior. Até levantou-se do sofá e cumprimentou-nos quando entramos.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Novidades? — perguntou com ansiedade.

— Meu relatório, como previra, é negativo — disse Holmes. — Falei com Forbes e com seu tio, e pus em andamento duas séries de investigações que talvez possam me levar a algo positivo.

— Não perdeu o ânimo, então?

— De modo nenhum.

— Deus lhe pague por isso! — exclamou a srta. Harrison. — Se conservarmos a coragem e a paciência, a verdade surgirá.

— Entretanto, temos mais para contar ao senhor do que o senhor a nós — disse Phelps, voltando a sentar-se no divã.

— Esperava isso mesmo.

— Sim, tivemos uma aventura durante a noite que podia ter sido muito grave.

Sua expressão ia se tornando séria, à medida que falava, e a máscara de qualquer coisa parecida com o medo desenhava-se em seu rosto e, de modo flagrante, nos olhos.

— Sabe — disse —, começo a acreditar que sou o centro inconsciente de uma monstruosa conspiração política, e que não só minha honra está em perigo como também minha vida.

— Sim!? — exclamou Holmes.

— Parece incrível porque, até onde me é dado saber, não tenho inimigos no mundo. Todavia, a experiência da noite passada…

— Queira fazer o favor de contá-la.

— Bem, primeiro é preciso que saiba que a noite passada foi a primeira em que dormi sem enfermeira no quarto. Estava tão bem que resolvi dispensá-la. No entanto, fiquei com uma luz acesa. Por volta das duas horas da madrugada, caí num sono leve, mas, de repente, acordei com um pequeno ruído, semelhante ao de um rato quando está roendo uma tábua. Fiquei à escuta durante algum tempo, sem perceber de que se tratava. O ruído tornou-se então mais alto e, subitamente, veio da janela um estalido metálico. Sentei-me, espantado; já não podia haver dúvidas quanto aos sons: os fracos tinham sido causados por alguém que tentava introduzir um instrumento na fenda dos caixilhos, e os mais fortes, pela pressão no trinco.

“Houve então uma pausa de cerca de dez minutos, como para verificar se o barulho me teria acordado. Depois, ouvi um ranger suave quando a janela foi aberta. No estado de nervos em que me encontro, não pude suportar aquilo por mais tempo e, saltando da cama, corri à janela e abri as persianas. Um homem estava agachado à janela, mas mal o vi, porque fugiu com a rapidez de um raio. Percebi, no entanto, que estava embuçado numa espécie de capa que lhe cobria a parte inferior do rosto. Mas de uma coisa estou certo: tinha uma arma na mão, uma comprida faca, talvez. Vi-lhe distintamente o brilho quando se voltou para fugir.”

— Isso é muito interessante — disse Holmes. — E o que fez então, por favor?

— Se estivesse mais forte eu o teria perseguido, saltando pela janela aberta. Mas limitei-me a tocar a campainha e acordar toda a casa. Levou um certo tempo, porque a sineta está instalada na cozinha e os criados dormem lá em cima. Então gritei, e isso alertou Joseph, que acordou os outros. Ele e o criado descobriram rastros nos canteiros de flores, do lado de fora da janela, mas o tempo tem estado tão seco que acharam inútil seguir o rastro na relva. No entanto, dizem eles, há um lugar na cerca de madeira que ladeia a estrada que mostra sinais, como se alguém a tivesse pulado, quebrando-lhe a ponta ao fazê-lo. Nada disse ainda à polícia local, porque pensei que seria melhor ouvir primeiro sua opinião.

Essa narrativa parece ter exercido um extraordinário efeito sobre Sherlock Holmes, que se levantou da cadeira e começou a andar pelo quarto numa excitação incontrolável.

— Uma desgraça nunca vem só — disse Phelps sorrindo, embora fosse evidente que a aventura tinha qualquer coisa que o perturbava.

— O senhor acha que está em condições de me acompanhar numa inspeção em volta da casa? — perguntou, por fim, Sherlock Holmes.

— Com certeza. Até gostaria de apanhar um pouco de sol. Joseph virá também.

— E eu também — disse a srta. Harrison.

— Receio que não — atalhou Holmes, sacudindo a cabeça. — Sou obrigado a pedir que fique sentada precisamente onde está.

A jovem, com um trejeito de desagrado, retomou sua cadeira; entretanto, o irmão juntou-se a nós e saímos os quatro. Contornamos a relva que se estendia junto à janela do jovem diplomata; havia, na verdade, sinais no canteiro de flores, mas desesperadamente apagados e vagos. Holmes curvou-se sobre eles por um instante, mas, levantando-se, encolheu os ombros.

— Não creio que se possa concluir muita coisa por aqui. Vamos circundar a casa para ver se descobrimos por que foi precisamente esta a janela que o ladrão escolheu. As janelas da sala de jantar, maiores, parecem-me muito mais apropriadas para um assaltante.

— Mas são mais visíveis da estrada — sugeriu Joseph Harrison.

— Sim, é verdade. Mas há aqui uma porta que poderia ter sido forçada. Para que serve?

— É uma entrada de serviço que, como é natural, fica trancada à noite.

— Já sofreram algum outro assalto como este?

— Nunca — respondeu nosso cliente.

— Possuem prataria em casa ou alguma coisa que atraia ladrões?

— Não há nada de valor.

Holmes prosseguiu sua inspeção ao redor do edifício, as mãos nos bolsos, com seu habitual ar displicente.

— A propósito — disse Joseph Harrison —, há um lugar onde se pode verificar que o sujeito escalou a cerca. Venham até aqui.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

O jovem levou-nos até um lugar onde a parte de cima da grade de madeira estava fendida e um pedaço de tábua ficara solto. Holmes arrancou-o e examinou-o com atenção.

— Está convencido de que isso foi feito a noite passada? Parece antigo, não é verdade?

— Sim, realmente parece.

— Para aquele lado também não há sinais, de modo que creio que não encontraremos mais nada por aqui. Voltemos ao quarto para discutir o assunto.

Percy Phelps andava muito devagar, apoiando-se ao braço de seu futuro cunhado; Holmes, pelo contrário, quase correu através da relva, de maneira que, quando os outros chegaram, nós já estávamos à janela do quarto.

— Srta. Harrison — começou Holmes com veemência —, é necessário que a senhora fique onde está, durante todo o dia. Que nada a desvie do lugar onde agora se encontra.

É da mais vital importância.

— Com certeza, se o exige, sr. Holmes — respondeu a moça, surpresa.

— Quando for se deitar, tranque a porta deste quarto pelo lado de fora e guarde a chave. Prometa que o fará.

— Mas e Percy?

— Irá conosco para Londres.

— Então tenho que ficar aqui?

— Faça-o por ele. A senhorita pode auxiliá-lo. Vamos! Prometa!

Ela fez um gesto de assentimento, na ocasião precisa em que os outros entravam.

— Por que razão está aí tão triste, Annie? — interpelou o irmão. — Venha apanhar um pouco de sol.

— Não, obrigada, Joseph. Estou com uma ligeira dor de cabeça, e este quarto é tão fresco e confortável!…

— O que o senhor propõe agora? — inquiriu nosso cliente.

— Que não percamos de vista nossa principal investigação. Seria muito conveniente se o senhor pudesse vir conosco a Londres.

— Já?

— Logo que possa; digamos, dentro de uma hora.

— Já me sinto mais forte. Talvez lhe seja útil.

— Muito útil, sr. Phelps.

— Acha que eu devo passar lá a noite?

— Estava pensando nisso mesmo.

— Quer dizer, se meu amigo noturno vier me fazer nova visita, descobrirá que o pássaro fugiu. Estamos todos em suas mãos, sr. Holmes; dê-nos as instruções que quiser. Talvez prefira que Joseph venha conosco para tomar conta de mim.

— Não, não é necessário. Meu amigo Watson é médico, como sabe, e se encarregará do senhor. Almoçaremos aqui, se nos permitir, e então iremos os três para a cidade.

Tudo se arranjou como Holmes sugerira, incluindo a srta. Harrison, que se recusava a deixar o quarto. Era impossível descobrir qual o objetivo da manobra de meu amigo. Talvez quisesse conservar a moça longe de Phelps, que, animado com a perspectiva de ação, almoçou conosco na sala de jantar. Entretanto, Holmes reservava-nos uma surpresa ainda mais chocante, pois ao levar-nos à estação e depois de nos ver dentro do trem, anunciou-nos calmamente que não tinha a menor intenção de deixar Woking.

— Há um ou dois pequenos pontos que gostaria de esclarecer antes de partir — explicou —, e sua ausência, sr. Phelps, deve ser um precioso auxílio. Quanto a você, Watson, eu lhe ficaria muito grato se, quando chegarem a Londres, for logo para a Baker Street com nosso amigo e ficar com ele até que eu chegue. É uma sorte que sejam amigos e antigos colegas, porque assim terão muito o que conversar. O sr. Phelps poderá ocupar o quarto de hóspedes, esta noite. Amanhã, no desjejum, estarei com vocês, pois há um trem que me deixa em Waterloo às oito.

— Mas, e nossa investigação em Londres? — lamentou-se Phelps.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Vamos deixar para amanhã. Creio que, no momento, sou de maior utilidade aqui.

— Importa-se de dizer em Briarbrae que espero voltar amanhã à noite? — gritou Phelps, quando o trem se pôs em marcha.

— Não tenciono voltar a Briarbrae — respondeu Holmes, acenando-nos alegremente enquanto o trem se afastava.

Phelps e eu falamos sobre o assunto durante toda a viagem, mas nenhum de nós podia atinar com a razão daquelas novas medidas.

— Por mim, estou convencido de que ele procura descobrir algum indício do ladrão da noite passada, se é que se trata realmente de um ladrão. Mas não me parece que seja um gatuno comum.

— Qual é então sua opinião?

— Você pode achar que é por causa de meus nervos fracos, mas dou-lhe minha palavra de honra que acredito que uma profunda intriga política se armou em torno de mim. Por razões que excedem meu entendimento, minha vida está sendo visada pêlos conspiradores. Pode parecer absurdo e bombástico, mas considere os fatos! Por que razão o ladrão escolheria a janela de um quarto onde não havia nada para roubar, e por que vinha de faca em punho?

— Tem certeza de que não era um pé-de-cabra?

— Absoluta; era uma faca. Vi distintamente o faiscar da lâmina.

— Mas por que diabo você havia de ser perseguido com tal violência?

— Essa é a questão.

— Então, partindo do princípio de que Holmes é da mesma opinião, a atitude dele fica explicada, não é assim? Presumindo que sua hipótese esteja certa, se ele deitar a mão ao gatuno da noite passada, não terá de ir muito longe para descobrir quem roubou o tratado naval. É absurdo pensar que você tenha dois inimigos: um que o rouba e outro que lhe ameaça a vida.

— Mas o sr. Holmes disse que não voltaria a Briarbrae.

— Já o conheço há um certo tempo — disse eu —, e nunca o vi dar passos que não tivessem um motivo justo e plausível.

Com essas palavras, nossa conversa desviou-se para outros assuntos.

Aquele dia foi fatigante para mim. Phelps estava ainda muito fraco, e suas desditas tinham-no tornado nervoso e lamuriento. Em vão me esforcei por interessá-lo pelo Afeganistão, pela Índia, por questões sociais, por tudo enfim que pudesse afastá-lo de sua aventura. Mas voltava sempre ao tratado perdido, imaginando, adivinhando, especulando sobre o que Holmes estaria fazendo, que medidas lorde Holdhurst iria tomar, que notícias teria na manhã seguinte.

Com o lento cair da noite, sua excitação tornou-se quase insuportável.

— Você tem uma fé incondicional em Holmes, não é verdade?

— Já o vi realizar coisas admiráveis — respondi.

— Mas já o viu projetar um pouco de luz num assunto tão obscuro como este?

— Sem dúvida. Tenho-o visto resolver questões que apresentavam ainda menos pistas que a sua.

— Mas com tão grandes interesses em jogo?

— Isso não sei. Mas sei que ele atuou em benefício de três casas reinantes da Europa, em assuntos vitais.

— Mas você conhece bem Holmes, Watson. É um sujeito esquisito, com o qual não sei lidar. Acha que ele tem esperança de resolver o caso com êxito?

— Bem, ele não disse nada.

— É mau sinal.

— Muito pelo contrário. Tenho verificado que é quando está longe da pista que não pára de falar. Mas quando a encontrou e não está ainda bem seguro de si, fica taciturno. Agora, meu caro, de nada adianta ficar com os nervos nesse estado, de modo que é preferível ir deitar-se e esperar calmamente o que suceder amanhã.

Consegui, por fim, persuadir meu companheiro a seguir meu conselho, embora soubesse que, devido à sua extrema excitação, era pouco provável que chegasse a dormir. Sua disposição de espírito era mesmo contagiosa, porque eu próprio passei metade da noite em claro, pensando no estranho problema e inventando centenas de hipóteses, cada uma delas mais impossível que a outra. Por que teria Holmes ficado em Woking? Por que exigiu que a srta. Harrison ficasse no quarto do doente, o dia inteiro? Por que não informara às pessoas de Briarbrae sua intenção de ficar na localidade? Quando caí no sono, já altas horas, estava completamente esgotado, e tão confuso como no princípio.

Eram sete horas quando acordei. Fui logo ao quarto de Phelps, e encontrei-o pálido e exausto após uma noite de insônia. Sua primeira pergunta foi se Holmes ainda não chegara.

— Ele virá, como prometeu — respondi —, nem um instante mais cedo, nem mais tarde.

Minhas palavras estavam corretas porque, pouco depois das oito horas, ouvimos um carro de praça que estacava à porta, trazendo certamente nosso amigo. Assomamos à janela e pudemos ver que tinha a mão esquerda enfaixada e que seu semblante estava muito sombrio e pálido. Entrou, mas só pouco depois é que subiu.

— Tem o aspecto de um homem vencido — disse Phelps.

Fui forçado a confessar que concordava com ele.

— Mas, apesar de tudo — acrescentei —, é possível que a chave do caso se encontre aqui na cidade.

Phelps deu um gemido.

— Eu sei como é — suspirou —, mas esperava tanto de seu regresso! A mão dele ontem não estava assim. Que terá acontecido?

— Você está ferido, Holmes? — perguntei, quando meu amigo entrou no quarto.

— Nada de importância; apenas uma esfoladela em conseqüência de minha própria estupidez — respondeu, dando-nos bom-dia com um aceno de cabeça. E continuou, sem interrupção: — Este seu caso, sr. Phelps, para falar a verdade, é um dos mais obscuros que me foi dado investigar.

— Receia que esteja para além de seu alcance?

— Não, está sendo uma experiência admirável.

— Essa atadura faz pensar em peripécias — interrompi. — Não nos conta o que aconteceu?

— Depois do desjejum, meu caro Watson. Lembre-se de que, esta manhã, respirei cinqüenta quilômetros do ar puro de Surrey. Suponho que não houve resposta a meu anúncio sobre o cocheiro. Bem, não posso ter a pretensão de conseguir sempre resultados positivos.

A mesa já estava posta e, no momento exato em que íamos tocar a sineta, a sra. Hudson entrou com o chá e o café. Poucos segundos depois, voltou com as travessas cheias, e então dirigimo-nos para a mesa. Holmes estava esfomeado, eu, curioso, e Phelps, no mais sombrio estado de depressão.

— A sra. Hudson portou-se à altura do momento — disse Holmes, destapando uma travessa de galinha com molho. — Sua arte culinária é um tanto limitada, mas, como escocesa, ela tem um bom conceito do que seja um desjejum. Que quer você, Watson?

— Presunto com ovos.

— Ótimo. E o senhor, sr. Phelps? Galinha com molho, ovos, ou quer servir-se à vontade?

— Obrigado. Sou incapaz de comer seja o que for.

— Oh! Vamos! Experimente o prato que está à sua frente.

— Obrigado. Não. Não me apetece nada.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Bem, então — disse Holmes, com uma piscadela de olho maliciosa —, apesar de não querer comer, creio que não fará objeções se lhe pedir para me servir.

Phelps levantou a tampa. Mas, com um grito, ficou lívido, olhando para o prato que acabara de destapar. Bem no centro jazia um rolo de papel cinzento. Agarrou-o e devorou-o com os olhos. Depois dançou, como um doido, pela sala, apertando-o contra o peito e gritando de alegria. Por fim, caiu numa poltrona, tão pálido e exausto devido às emoções que foi necessário meter-lhe na garganta um gole de aguardente para que não desmaiasse.

— Pronto! Pronto! — disse Holmes, dando-lhe palmadas no ombro. — Reconheço que foi uma triste idéia restituir-lhe os documentos assim, mas Watson pode confirmar que não sei resistir à tentação do dramático.

Phelps agarrou-lhe a mão e beijou-a.

— Deus lhe pague! — exclamou. — O senhor salvou minha honra.

— É verdade, mas a minha também estava em jogo — respondeu Holmes. — Garanto-lhe que a mim é tão penoso fracassar num caso, como o é ao senhor cometer um erro crasso numa missão que lhe foi confiada.

Phelps meteu o precioso documento no bolso de dentro do casaco.

— Sinto que não devia voltar a interromper seu desjejum, mas morro de curiosidade para saber como conseguiu os papéis, e onde estavam eles.

Sherlock Holmes engoliu uma xícara de café e atacou, em seguida, um prato de presunto com ovos. Por fim, levantou-se da mesa, acendeu o cachimbo e sentou-se numa poltrona.

— Primeiro, direi o que fiz, depois, como fiz — começou Holmes. — Depois de deixá-los na estação, fui dar um passeio encantador, através dos campos maravilhosos de Surrey, até um lugarejo chamado Ripley, onde tomei meu chá numa pensão e me preveni com um embrulho de sanduíches e uma provisão em minha garrafa. Fiquei por ali até a tardinha, altura em que me pus, de novo, a caminho de Woking. Cheguei à estrada de Briarbrae precisamente ao pôr-do-sol, esperei até que ficasse deserta… o que não foi difícil, já que aqueles caminhos são pouco frequentados, e saltei a cerca da propriedade.

— O portão estava aberto, sem dúvida — exclamou Phelps.

— Sim, mas tenho um gosto especial por essas andanças. Escolhi os três pinheiros e, atrás desse esconderijo natural, dominava tudo sem a menor probabilidade de ser visto, de onde quer que fosse. Depois, agachei-me entre os arbustos e fui me arrastando de uns para os outros, como se pode ver pelo estado lastimável dos joelhos de minhas calças, até alcançar o grupo de azáleas que fica bem em frente à sua janela. Uma vez ali, acocorei-me e esperei pêlos acontecimentos.

“A cortina de seu quarto ainda não estava corrida, de modo que podia ver a srta. Harrison lendo à mesa. Eram dez e um quarto quando ela fechou o livro, cerrou a persiana e se retirou. Ouvi-a fechar a porta e, pelo som, fiquei seguro de que a trancava à chave.”

— À chave! — exclamou Phelps.

— Exatamente. Eu dera instruções à srta. Harrison para trancar a porta e levar a chave consigo quando fosse se deitar. Ela executou à risca todas as minhas recomendações, e pode ficar certo de que, sem sua cooperação, o senhor não teria agora esses papéis no bolso. Sua noiva apagou a luz, e eu me deixei ficar em meu esconderijo, na moita de azáleas. A vigia era fatigante, apesar de a noite estar linda. Eu sentia aquela espécie de nervosismo que os caçadores devem sentir quando esperam, junto dos cursos de água, que sua presa vá matar a sede. Passou muito tempo… quase tanto, Watson, como quando você e eu estivemos naquela sala medonha que nos daria a solução do problema da “faixa malhada”.

“Havia um relógio, numa igreja de Woking, que batia os quartos de hora, e mais de uma vez cheguei a supor que parara. Por fim, cerca das duas da madrugada, ouvi de repente o som suave de um ferrolho que alguém puxava e o ranger de uma chave. Um momento depois, a porta de serviço abriu-se e, na soleira, distingui à luz da lua o sr. Joseph Harrison.”

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Joseph?! — exclamou Phelps.

— Estava sem chapéu, mas levava uma manta preta, atirada sobre os ombros, de modo a que pudesse ocultar rapidamente o rosto em caso de alarme. Quando chegou à janela da sala onde o senhor tem dormido, meteu uma faca de lâmina comprida pêlos interstícios dos caixilhos e puxou o trinco para trás. Abriu a vidraça e, colocando a faca na fenda da persiana, levantou o fecho. De meu esconderijo, eu tinha uma visão completa do interior do quarto e de cada um de seus movimentos. Harrison acendeu duas velas que estavam no consolo da lareira e começou a afastar o canto do tapete do lado da porta. Depois, abaixou-se e retirou um pedaço quadrado de tábua, semelhante aos que se usam para os encanadores chegarem às juntas dos tubos de gás. Essa tampa cobria, de fato, uma junta em T que liga o cano da cozinha, embaixo. Então, nosso homem tirou de lá um pequeno rolo de papel, tornou a colocar a tábua no lugar e arranjou o tapete. Depois, apagou as velas e encaminhou-se direto para meus braços, pois eu ficara à espera dele, do lado de fora da janela.

“Foi então que ele se revelou muito mais violento do que eu imaginava. Lançou-se sobre mim com a faca, a tal ponto que me vi obrigado a prostrá-lo duas vezes na relva. Foi nessa altura que me feri nos nós dos dedos. Quando terminamos a luta, Harrison tinha o aspecto de um assassino, agravado pelo fato de lhe sobrar apenas um olho em condições de ver. Ouviu porém as razões que lhe dei e, reconsiderando, renunciou aos papéis. Já com os documentos em meu poder, deixei-o em liberdade, mas telegrafei a Forbes fornecendo-lhe todos os pormenores.

“Se ele for rápido apanhará o pássaro são e salvo! Mas se, como suspeito, encontrar o ninho vazio quando chegar, tanto melhor para o governo. Parece-me que tanto lorde Holdhurst como o senhor, sr. Phelps, preferem que o assunto não vá além dos meios policiais.”

— Meu Deus! — arfou nosso cliente. — O senhor está dizendo que, durante estas dez longas semanas de agonia, os papéis roubados estiveram em meu próprio quarto? Ali, sempre comigo?

— Exato.

— E Joseph! Joseph, um malandro, um ladrão!

— Hum! Receio que o caráter dele seja mais complicado e mais perigoso do que se poderia julgar pela aparência. Pelo que me contou, esta manhã, sou levado a concluir que perdeu muito em ações na Bolsa, e que está pronto a fazer seja o que for para recuperar suas perdas. Sendo um indivíduo extremamente egoísta, deitou a mão à primeira oportunidade que se lhe deparou, sem levar em conta a felicidade da irmã ou sua reputação.

Percy Phelps afundou-se na cadeira.

— Suas palavras atordoam-me — gemeu.

— A dificuldade desse caso — observou Holmes em seu tom didático — estava no fato de haver muitas evidências que ocultavam o essencial e faziam sobressair o insignificante. De todos os fatos apresentados, tive de selecionar os que considerava vitais, pô-los em ordem e reconstituir essa cadeia notável de acontecimentos. Eu já começara a suspeitar de Joseph pelo simples fato de você ter dito que desejava ir para casa com ele, na noite do roubo; era, pois, muito provável que ele, por sua vez, conhecendo bem o Ministério do Exterior, passasse por lá para buscá-lo. Depois, quando ouvi dizer que alguém estivera ansioso por entrar em seu quarto, onde ninguém mais senão Joseph poderia ter escondido qualquer coisa, se nos lembrarmos a maneira como você o desalojou de lá quando veio com o médico, todas as minhas suspeitas se transformaram em certezas. E quando houve a primeira tentativa para entrar em seu quarto, precisamente na noite em que a enfermeira estava ausente, demonstrando que o intruso estava familiarizado com os costumes da casa, foi uma confirmação.

— Como tenho sido cego!…

— Olhe, o caso, segundo a reconstituição pêlos fatos que apurei, apresenta-se assim: Joseph Harrison entrou em seu escritório pela porta da Charles Street e, conhecendo o caminho, entrou na sala justamente no momento em que você se ausentara. Não encontrando ninguém, tocou prontamente a campainha, mas, nesse instante, seus olhos caíram sobre os papéis que estavam na mesa. Um simples relance mostrou-lhe que o acaso o colocara perante documentos de Estado do mais alto valor e, num relâmpago, meteu-os no bolso e foi-se embora. Como deve lembrar, passaram-se alguns minutos até que o guarda ensonado lhe chamasse a atenção para a campainha, tempo mais do que suficiente para o ladrão fugir.

“Então, ele foi para Woking no primeiro trem que con- seguiu e, examinando melhor os papéis, verificou sua enorme valia e o lucro que daí lhe adviria. Resolveu escondê-los num lugar que considerava muito seguro, com a intenção de retirá-los dentro de um ou dois dias e levá-los à embaixada francesa ou aonde quer que lhe pagassem um bom preço. Mas, nessa altura, dá-se seu regresso repentino e a troca de quartos, sem advertência, e sua presença lá o impedia de recuperar o tesouro. A situação devia ser de enlouquecer, até que, por fim, julgou chegada sua oportunidade. Tentou roubá-los, mas viu seus desejos frustrados por sua insônia; o senhor deve lembrar-se de que não tomara sua beberagem habitual naquela noite.”

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Perfeitamente.

— Por mim, estou convencido de que ele providenciou para que o senhor tomasse uma dose substancial, e agiu inteiramente seguro de seu estado de inconsciência. É claro que vi logo que ele repetiria a tentativa, desde que pudesse fazê-lo com segurança, e sua saída do quarto ofereceu-lhe a oportunidade desejada. Conservei a srta. Harrison lá durante todo o dia para que ele não se antecipasse a nós, mas, tendo-o convencido de que o caminho estava livre, pus-me de atalaia, como já descrevi. Eu sabia, quase sem possibilidade de errar, que os documentos estavam escondidos naquele quarto, mas não estava disposto a arrancar todo o assoalho e os rodapés à procura deles. Deixei que ele os tirasse do esconderijo, e assim poupei-me um mar de dificuldades. Resta mais algum ponto por esclarecer?

— Por que Harrison, na primeira vez, tentou a janela, quando podia entrar pela porta? — perguntei.

— Por que, para chegar à porta, teria de passar por sete quartos. Por outro lado, em caso de fuga precipitada, seria infinitamente mais fácil e seguro fugir pelo jardim. Alguma coisa mais?

— O senhor não acha — perguntou Phelps — que ele tinha intenções assassinas? A faca seria apenas um instrumento para forçar ferrolhos?

— Talvez tivesse — respondeu Holmes, encolhendo os ombros. — Mas o que posso dizer com certeza é que o sr. Joseph Harrison é um cavalheiro em cuja clemência eu dificilmente confiaria.

[1] Sapinho, rãzinha. (N. do T.)

1894
Memórias de Sherlock Holmes

1. Estrela de Prata § 2. A caixa de papelão
3. A face amarela § 4. O escriturário da corretagem
5. A tragédia do “Gloria Scott” § 6. O ritual Musgrave
7. O enigma de Reigate § 8. O corcunda
9. O paciente internado § 10. O intérprete grego
11. O tratado naval § 12. O problema final

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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