O cão dos Baskervilles – Capítulo 6

Arthur Conan Doyle

O cão dos Baskervilles
Capítulo sexto

Título original: The Hound of the Baskervilles
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1901-02.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Hound of the Baskervilles publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo sexto: Baskerville Hall

Sir Henrv Baskerville e o dr. Mortirner estavam prontos no dia aprazado. Conforme tínhamos combinado, seguimos para Devonshire. Sherlock Holmes levou-me à estação e fez-me as suas últimas recomendações.

— Não quero deixá-lo de sobreaviso, sugerindo teorias ou suspeitas, Watson disse. — Quero apenas que me faça o relatório dos fatos da maneira mais completa possível. Pode deixar as conclusões por minha conta.

— Que espécie de fatos? perguntei.

— Qualquer coisa que possa ter relação, mesmo indireta, com o caso, e principalmente as relações entre o jovem Baskerville e seus vizinhos, ou qualquer novidade a respeito da morte de Sir Charles. Eu próprio investiguei nestes últimos dias, mas temo que os resultados tenham sido negativos. Apenas uma coisa parece certa, e é isto: James Desmond, o próximo herdeiro, é um senhor de idade, muito afável, de modo que não pode ser o responsável por essa perseguição. Creio realmente que podemos eliminá-lo dos nossos cálculos. Restam as pessoas que vivem à volta da casa de Sir Henrv, na charneca.

— Não seria preferível, em primeiro lugar, livrarmo-nos do casal Barrymore?

— Claro que não! Não poderia haver erro maior. Se eles estivessem inocentes, seria uma cruel injustiça, e, se tossem culpados, estaríamos perdendo a oportunidade de desmascará-los. Não, não, eles continuam na nossa lista de suspeitos. Há um cavalariço na mansão, se bem me lembro. Há dois fazendeiros na charneca. Há o nosso amigo, dr. Mortimer, em cuja honestidade acredito piamente, e há sua esposa, de quem nada sabemos. Há o naturalista Stapleton e a irmã: esta, ao que dizem, é uma jovem atraente. Temos ainda o Sr. Frankland, de Lafter Hall, que também é um fator desconhecido, e mais dois ou três vizinhos. Essas pessoas devem ficar sob a sua severa observação.

— Farei o possível.

— Leva armas, não?

— Sim, achei melhor.

— Sem dúvida. Conserve o revólver ao seu lado noite e dia e nunca se esqueça de tomar as devidas precauções.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Nossos amigos já tinham reservado lugares num vagão de primeira classe e nos esperavam na plataforma.

— Não, não temos novidade nenhuma — disse o dr. Mortimer em resposta à pergunta de Holmes. — Mas posso jurar unia coisa: que não fomos seguidos nestes dois dias. Estivemos sempre atentos, e pessoa alguma nos teria escapado.

— Suponho que tenham andado sempre juntos.

— Exceto ontem à tarde. Em geral, reservo um dia só para divertimentos, quando venho à cidade, de modo que passei a tarde no museu do Colégio dos Cirurgiões.

— E eu fui ver o povo no parque — disse Baskerville. Mas não tivemos aborrecimento de espécie alguma.

— De qualquer maneira, foi imprudência — observou Holmes, sacudindo a cabeça com ar grave. — Suplico-lhe, Sir Henry, que não saia só. Urna grande desgraça o atingirá, se não for prudente. Conseguiu descobrir o outro sapato?

— Não, senhor. Está irremediavelmente perdido.

— Interessante. Então, adeus — disse Holmes, quando o trem começou a deslizar ao longo da plataforma. — Lembre-se de umas frases da velha lenda que nos leu o dr Mortimer e evite atravessar a charneca naquelas sombrias horas cm que os puderes do mal estão exaltados.

Segundos depois, olhei para a plataforma, já muito longe, e ainda vi o vulto alto e austero dc 1 Holmes, de pé, olhando para nós.

A viagem foi rápida e agradável. Procurei travar conhecimento mais íntimo com os meus dois companheiros e brinquei um pouco com o cão do dr. Mortimer. Dentro de poucas horas, a terra parda tinha se tornado vermelha, os tijolos haviam sido substituídos por granito e vacas avermelhadas pastavam ciii campos cercados por sebes altas, onde a relva verde e a vegetação luxuriante falavam de um clima mais rico, embora mais úmido. O jovem Baskerville olhou avidamente pela Janela e deixou escapar exclamações de satisfação, quando reconheceu os traços familiares do cenário de Devonshire.

— Tenho viajado pelo mundo desde que saí daqui, dr. Watson — disse ele. — Mas nunca encontrei lugar que se comparasse a este.

— Nunca vi um natural de Devonshire que não jurasse pelo seu condado — observei.

— Depende da raça dos homens, tanto como da região disse o dr. Mortimer. — Um olhar aqui ao nosso amigo me revela a cabeça redonda dos celtas, que encerra o entusiasmo e o dom de fidelidade desse povo. Mas o senhor saiu muito criança dc Baskerville, não foi?

— Sim, é verdade, por ocasião da morte de meu pai, e, mesmo assim, nunca tinha visto a mansão, pois morávamos num chalé na costa sul. Depois disso fui diretamente para a América, para a casa de um amigo. Para mim, a mansão é uma novidade tão grande como para o dr, Watson, e estou eu curioso por ver a charneca.

— Está mesmo? Então, é desejo fácil de ser satisfeito; ei Ia que surge disse o di. Mortimer, apontando para fora do vagão.

Acima dos quadrados verdes dos campos e de uma pequena elevação, erguia se, a alguma distância, uni morro cinzento e melancólico, de topo estranhamente recortado, impreciso, como paisagem de sonho. Baskerville ficou durante muito tempo em contemplação, e vi no seu rosto o quanto significava para ele aquele estranho lugar, que os homens do seu sangue tinham dominado durante tanto tempo, deixando tão profundas marcas. Ficou ali sentado, com o seu terno de tweed e seu sotaque americano, no canto do prosaico vagão. Apesar disso, ao olhar para seu rosto escuro e expressivo, eu sentia cada vez mais ser ele um verdadeiro descendente daquela longa linhagem de homens impetuosos, ardentes e dominadores. Havia orgulho, bravura e força nas espessas sobrancelhas, nas narinas sensíveis e nos grandes olhos castanhos. Se naquela charneca assustadora tios esperasse algum perigo, pelo menos ali estava um camarada com o qual nos aventuraríamos a correr riscos, na certeza de que ele os compartilharia com bravura.

O trem parou numa estaçãozinha. Descemos. Do lado de fora, além da cerca baixa e branca, esperava-nos uma carruagem com urna parelha. A nossa chegada era sem dúvida um acontecimento, pois o chefe da estação e os carregadores nos cercaram para levar a nossa bagagem. Era um lugarzinho simples e tranquilo, mas fiquei admirado de ver, perto do portão, dois homens de uniforme escuro, apoiados em carabinas curtas, que nos olharam atentamente quando passamos. O cocheiro, sujeitinho nodoso, de rosto duro, saudou Sir Henry, e dali a pouco seguíamos velozmente pela larga estrada branca. Víamos os pastos, de cada lado, e velhas casas com empenas altas espiavam-nos do meio da folhagem, mas, por trás da paisagem pacífica e ensolarada, divisava-se a curva sombria e ameaçadora da charneca, quebrada pelo sinistro recorte dos morros.

A carruagem entrou numa estrada lateral, e subimos por uma trilha estreita calcada pelo atrito de milhares de rodas, vendo-se, de cada lado, elevações cobertas de musgo úmido. Fetos avermelhados e sarças espalhadas brilhavam sob os últimos raios de sol. Subindo ainda, passamos por uma ponte de granito e contornamos um riacho barulhento, que descia, rápido e espumante, no meio de seixos acinzentados. Tanto a estrada como o riacho enveredavam por um vale cheio de abetos e carvalhos anões.

A cada curva do caminho, Baskerville soltava uma exclamação de prazer, olhando avidamente à volta e fazendo inúmeras perguntas. A seus olhos, tudo parecia belo, mas, para mim, havia um toque de melancolia na paisagem, que tinha a marca do ano que findava. Folhas amarelas atapetavam as veredas, esvoaçando quando passávamos. O ruído das rodas morreu, quando entramos em trechos cobertos de vegetação apodrecida: triste dádiva, ao que me pareceu, que a natureza atirava diante da carruagem do herdeiro de Baskerville, na ocasião do seu regresso.

— Olá! — exclamou o dr. Mortimer. — Que é isso?

Uma elevação de terra, coberta de urze, surgiu pouco adiante de nós. No topo, rígido e nítido como estátua equestre no seu pedestal, vimos, a cavalo, um soldado sombrio e de ar severo, com a espingarda apoiada no antebraço. Estava de guarda à estrada por onde viajávamos.

— Que é isso, Perkins? — perguntou o dr. Mortimer.

O cocheiro virou-se um pouco para nós.

— Fugiu um sentenciado de Princetown, senhor. Há três dias que está fugido. Os guardas vigiam todas as estradas e estações, mas o homem ainda não foi visto, nem de longe. Os fazendeiros daqui não estão gostando nada disso.

— Ouvi dizer que ganharão cinco libras, se derem alguma informação.

— Sim, senhor, mas a probabilidade das cinco libras é pouca coisa comparada com o perigo de se ter a garganta aberta. Esse sentenciado é diferente dos outros. É homem que não vacila perante coisa alguma.

— Quem é ?

— Selden, o assassino de Notting HilI.

Lembrava-me muito bem do caso, pois era um dos que tinham despertado o interesse de Holmes, por causa da ferocidade do crime e da brutalidade que caracterizara todos os atos do assassino. A comutação da pena de morte dera-se por causa de certas dúvidas quanto à sua sanidade mental, tão atroz fora a sua conduta. Nossa carruagem subira urna elevação, e diante de nós estendia-se a charneca, com os seus amontoados de pedras fantásticas. Um vento frio vinha de lá, fazendo-nos estremecer. Em algum lugar daquela planície desolada estava o monstro, escondido numa toca como um animal selvagem, o coração cheio de veneno contra a humanidade que decretara a sua segregação. Só faltava isso para completar aquele quadro sombrio e estéril. Até Baskerville ficou em silêncio, apertando mais o sobretudo à volta do corpo.

Tínhamos deixado para trás as terras férteis. Olhamos por cima do ombro e vimos os raios enviesados do sol poente transformando os riachos em filetes de ouro e brilhando na terra vermelha, revolvida pelo arado. A estrada à nossa frente tornava-se mais sombria e mais selvagem, acima de rampas vermelhas e cor de azeitona, salpicadas de enormes seixos.

De vez em quando, passávamos por um chalé todo de pedra, sem nenhuma folhagem ou trepadeira para alegrar-lhe a fachada. De repente, vimos uma depressão do terreno, em forma de taça, salpicada de abetos e pequenos carvalhos quebrados e retorcidos pela fúria de muitos anos. Duas torres altas e estreitas erguiam-se acima das árvores. O cocheiro apontou com o chicote.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— Baskerville Hall — disse ele.

O dono da mansão erguera-se e olhava para a casa com olhos brilhantes e faces coradas. Minutos depois, chegávamos aos portões de entrada, de ferro forjado com fantástico desenho, ladeados por pilares envelhecidos, cobertos de líquen e encimados por cabeças de javali, símbolo da família Baskerville. A portaria era uma ruína de granito negro, com vigas à mostra, mas em frente havia um novo edifício, inacabado, o primeiro fruto do ouro africano de Sir Charles.

Atravessando os portões, entramos na alameda, onde o ruído das rodas foi de novo amortecido pelas folhas; as velhas árvores formavam, com os seus galhos, um túnel sombrio sobre as nossas cabeças. Baskerville estremeceu quando olhou para a casa, que brilhava como um fantasma, no fim da alameda longa e negra.

— Foi aqui? — perguntou em voz baixa.

— Não, senhor. A Alameda de Teixos fica do outro lado.

O jovem herdeiro olhou em volta, com o rosto sombrio.

— Não é de admirar que o meu tio achasse que ia lhe acontecer algo de mal num lugar como este disse ele.

— Assusta qualquer pessoa. Farei com que instalem uma fileira de lâmpadas elétricas aqui, dentro de seis meses, e ninguém reconhecerá a alameda com lâmpadas de mil velas Swan and Edison diante da porta de entrada.

A alameda alargava-se numa extensão de turfa, e a casa estava agora diante de nós. À luz crepuscular, vi que o centro era um bloco pesado, de onde se projetava um pórtico. Toda a frente era coberta de hera, com manchas claras aqui e ali, nos pontos onde uma janela ou brasão quebrava o véu escuro. Nesse bloco central erguiam-se as torres gêmeas, antigas, com ameias e seteiras. À direita e à esquerda das torres, havia alas mais modernas, de granito negro. Uma luz mortiça vazava pelas janelas fortemente gradeadas, e da alta chaminé que saía do telhado inclinado subia uma coluna de fumaça.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— Seja bem-vindo, Sir Henry! Bem-vindo a Baskerville Hall!

Um homem alto saíra das sombras do pórtico para abrir a porta da carruagem. Um vulto de mulher desenhava-se contra a luz amarela do saguão. Ela se aproximou e ajudou o homem a pegar as nossas malas.

— Não se importa que eu vá diretamente para casa, Sir Henry? — perguntou o dr. Mortimer. — Minha mulher está à minha espera.

— Mas naturalmente o senhor vai ficar para jantar…

— Não; preciso ir. Com certeza encontrarei trabalho à minha espera. Gostaria de ficar para lhe mostrar a casa, mas Barrymore é melhor guia do que eu. Até logo, e, se precisar de mim, não hesite em mandar me chamar, a qualquer hora do dia ou da noite.

O ruído da carruagem foi morrendo na alameda, enquanto Sir Henry e eu entrávamos no saguão, fechando-se a porta atrás de nós, pesadamente. Vimo-nos numa sala bonita, espaçosa, de pé-direito alto, com grandes vigas de carvalho enegrecidas pelo tempo. Na lareira grande e antiga, as achas de lenha crepitavam. Sir Henry e eu procuramos aquecer as mãos ali, pois estávamos enregelados após a longa viagem. Depois, em volta, vimos a janela alta e estreita de vitral colorido, os lambris de carvalho, as cabeças de veado, as armaduras nas paredes, tudo sombrio e triste, à luz fraca do candeeiro central.

— Exatamente como eu imaginava — disse Sir Henry. — Não é mesmo o lar típico de uma família antiga? E pensar que esta sala é a mesma onde, durante quinhentos anos, viveu a minha gente! Fico todo compenetrado, só de pensar nisso.

Vi o seu rosto moreno iluminar-se com entusiasmo juvenil, enquanto ele olhava ao redor. A luz lhe incidia na cabeça, mas as longas sombras que manchavam as paredes pareciam um negro dossel à sua volta. Barrymore fora levar as nossas malas aos quartos e voltara. Estava diante de nós, com o ar respeitoso de um criado bem-treinado. Era um sujeito de aparência extraordinária, alto, bonito, com uma barba preta, quadrada, e feições pálidas e distintas.

— Quer que o jantar seja servido imediatamente, senhor?

— Está pronto?

— Dentro de alguns minutos. Os senhores encontrarão água quente nos quartos. Minha mulher e eu, Sir Henry, teremos muito prazer em ficar com o senhor até que tenha organizado o serviço, mas verá que, sob as novas condições, a casa precisará de um grande número de empregados.

— Que novas condições?

— Quero dizer, senhor, que Sir Charles levava uma vida muito retirada e que nós dois dávamos conta de tudo. O senhor, naturalmente, vai querer companhia, e precisará modificar o serviço.

— Quer dizer que você e sua mulher pretendem sair?

— Somente quando for da sua conveniência, senhor.

— Mas a sua família está conosco há várias gerações, não está? Eu sentiria muito, se começasse a minha vida aqui quebrando uma velha tradição.

Creio ter distinguido sinais de emoção no rosto pálido do mordomo.

— Também penso assim, senhor, e o mesmo se dá com minha mulher. Mas, para dizer a verdade, éramos muito dedicados a Sir Charles; a sua morte nos causou um grande choque e fez com que este local se tornasse penoso para nós. Creio que jamais teremos tranquilidade em Baskerville Hall.

— Mas o que pretende fazer?

— Pensamos em nos estabelecer com qualquer negócio. A generosidade de Sir Charles nos dá essa oportunidade. E agora, senhor, talvez seja melhor acompanhá-los aos quartos.
Uma galeria quadrada corria por cima do hall, à qual se tinha acesso por duas escadas. Daquele ponto central, dois grandes corredores se alongavam por toda a extensão do edifício, e para eles davam todos os quartos. Estes pareciam muito mais modernos do que a parte central da casa, e o papel vivo e os numerosos candelabros conseguiram afastar a sombria impressão que eu tivera ao chegar.

Mas a sala de jantar, que dava para o saguão, era um lugar de sombras e melancolia. Era longa, com um degrau separando o tablado onde a família se sentava da parte mais baixa, reservada aos seus dependentes. Numa das extremidades, havia urna galeria para os músicos. Sobre as nossas cabeças, vigas negras e um teto enegrecido pela fumaça. Com uma fileira de tochas iluminando-a e o colorido da rude hilaridade dos banquetes antigos, poderia parecer mais acolhedora; mas agora, com dois cavalheiros de preto sentados no pequeno círculo de luz feito pela lâmpada velada, era deprimente; a nossa voz instintivamente se abaixava, e sentíamos o ânimo abatido. Uma galeria de antepassados, em grande variedade de trajes, desde o cavalheiro elisabetano até o peralvilho da Regência, fitavam-nos e intimidavam-nos com a sua silenciosa companhia. Falamos pouco, e eu, pelo menos, fiquei satisfeito quando a refeição terminou e pudemos ir para a moderna sala de bilhar, a fim de fumar um cigarro.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— Palavra que não é um lugar muito alegre disse Sir Henry. Com certeza a gente há de acabar por se habituar, mas, no momento presente, sinto-me desnorteado. Não me admiro que meu tio ficasse um pouco assustado, vivendo sozinho numa casa como esta. Em todo caso, se lhe convier, podemos nos retirar cedo hoje à noite; talvez, amanhã tudo pareça mais alegre.

Antes de me deitar, afastei as cortinas da janela e olhei para fora. A janela abria-se sobre o relvado que ficava diante da porta de entrada. Mais adiante, vi dois grupos de árvores, que gemiam e balançavam ao vento que começara a soprar. Uma meia lua surgiu por entre nuvens velozes. À luz fria, vi para além das árvores uma franja irregular de rochas e a curva longa e baixa da charneca melancólica. Fechei a cortina, sentindo que a minha última impressão estava de acordo com o resto.

Porém não seria a última. Estava cansado, mas, apesar disso, continuava acordado, revirando-me na cama, em busca de um sono que não vinha. Ao longe, um relógio bateu o quarto de alguma hora, mas, a não ser por isso, reinava absoluto silêncio na casa. De repente, no meio da noite, chegou aos meus ouvidos um som claro, ressoante e inconfundível. Era um soluço de mulher; som abafado, engasgado, de quem está presa de invencível emoção. Sentei-me na cama e fiquei atentamente à escuta. O barulho não podia vir de muito longe; não havia dúvida que era ali na casa. Esperei durante meia hora, com todos os nervos alerta, mas não ouvi nada, a não ser o ruído do relógio e o raspar da hera na parede.

The Hound of the Baskervilles, 1902

Capítulo 1: Sherlock Holmes § Capítulo 2: A maldição dos Baskervilles
Capítulo 3: O problema § Capítulo 4: Sir Henry Baskerville
Capítulo 5: Três fios partidos § Capítulo 6: Baskerville Hall 
Capítulo 7: Os Stapletons da Casa Merripit § Capítulo 8: Primeiro relatório do dr. Watson
Capítulo 9: Segundo relatório do dr. Watson – Luz na charneca
Capítulo 10: Extratos do diário do dr. Watson § Capítulo 11: O homem na rocha
Capítulo 12: Morte na charneca § Capítulo 13: Armando a rede
Capítulo 14: O cão dos Baskervilles § Capítulo 15: Retrospecto

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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