O cão dos Baskervilles – Capítulo 7

Arthur Conan Doyle

O cão dos Baskervilles
Capítulo sétimo

Título original: The Hound of the Baskervilles
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1901-02.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Hound of the Baskervilles publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo sétimo: Os Stapletons da Casa Merripit

A bela frescura da manhã seguinte conseguiu apagar a sombria impressão que tínhamos tido na véspera. Sentados é mesa do café, Sir Henry e eu vimos o sol penetrar pelas janelas fortemente gradeadas. Os lambris escuros brilhavam como bronze aos aios dourados, e era difícil admitir que estávamos na mesma sala que na noite anterior nos tornara tio melancólicos.

— Creio que a culpa é nossa e não da casa disse o baronete. Estávamos cansados e com frio por causa da viagem, de modo que vimos tudo sob um prisma acinzentado. Agora estamos descansados, e tudo parece alegre outra vez.

— E, no entanto, não era só questão de imaginação— disse eu. Não ouviu alguém, uma mulher, creio, soluçar no meio da noite?

— E curioso, pois, quando eu estava meio adormecido, tive a impressão de ouvir qualquer coisa assim. Esperei durante muito tempo, mas o ruído não se repetiu, de modo que pensei que tivesse sonhado.

— Pois eu ouvi distintamente, e tenho certeza de que eram soluços de mulher.

— Precisamos indagar imediatamente.

Tocou a campainha e perguntou a Barrymore se podia dar uma explicação para o fato. Pareceu-me que as feições pálidas do mordomo se tornaram ainda mais pálidas, ao ouvir a pergunta do patrão.

— Só há duas mulheres nesta casa, Sir Henry — disse ele. — Uma é a criada, que dorme na outra ala. A outra é minha mulher, e posso garantir que não foi ela.

E no entanto era mentira, pois aconteceu que, depois do café, encontrei a Sra. Barrymore no corredor, com o sol batendo-lhe em cheio no rosto. Era uma mulher grande, imponente, de feições pesadas e boca firme, dura. Mas os olhos reveladores estavam vermelhos e olharam-me de relance por entre as pálpebras inchadas. Fora então ela que chorara no meio da noite, e o marido devia sabê-lo. Apesar de tudo, o mordomo arriscara-se a ser desmentido, ao dizer que não fora ela. Por que agita assim? E por que chorara a mulher tão amargamente? A volta daquele homem pálido, bonito, de barba preta, já havia uma atmosfera de mistério e de tristeza. Fora ele quem descobrira o corpo de Sir Charles, e dependíamos de sua palavra para todas as circunstâncias da morte do velho. Seria possível que Barrymore fosse o homem que víramos no carro, na Regent Street? A barba podia ser a mesma. O cocheiro descrevera um homem mais baixo, mas essa impressão podia ser errônea. Como poderia eu esclarecer de uma vez esse ponto? Evidentemente, a primeira coisa a fazer seria procurar o agente do telégrafo, em Grimpen, e indagar se o telegrama fora realmente entregue ao próprio Barrymore. Fosse qual fosse a resposta, pelo menos teria alguma coisa para contar a Sherlock Holmes.

Sir Henry tinha inúmeros documentos para examinar, de modo que a ocasião era propícia à minha excursão. Foi uma agradável caminhada de seis quilômetros ao longo da sebe que nos separava da charneca. Cheguei a um lugarejo onde sobressaíam dois prédios maiores, sendo um a estalagem e o outro a casa do dr. Mortimer. O homem do telégrafo, que era também o vendeiro da vila, lembrava-se perfeitamente do telegrama.

— Certamente, senhor, fiz com que o telegrama fosse entregue ao Sr. Barrymore exatamente como fora determinado.

— Quem o entregou?

— Este meu filho. James, foi você que entregou o telegrama ao Sr. Barrymore, em Baskerville Hall, a semana passada, não foi?

— Sim, pai, fui eu.

— Entregou-o a ele próprio?

— Bem, ele estava no sótão, na ocasião, de modo que não pude entregar-lhe o telegrama pessoalmente, mas dei-o à Sra. Barrymore, e ela prometeu entregar-lhe imediatamente.

—  Você viu o Sr. Barrymore?

— Não, senhor, ele estava no sótão.

— Bem, a mulher devia saber onde ele estava — disse o agente do telégrafo, com impertinência. — Ele não recebeu o telegrama? Se houve engano, compete ao Sr. Barrymore reclamar.

Parecia inútil continuar, mas era evidente que, apesar da esperteza de Holmes, não tínhamos provas de que Barrymore não tivesse ido a Londres naquela ocasião. Suponhamos que o último homem a ver Sir Charles vivo fosse o mesmo que seguiu o novo herdeiro quando este chegou à Inglaterra. E então? Seria ele agente de outros, ou teria algum plano sinistro inteiramente seu? Que interesse teria em perseguir a família Baskerville? Lembrei-me do estranho aviso, feito com recortes do Times. Seria trabalho seu, ou de alguém que pretendia lhe anular os planos? O único motivo concebível era o sugerido por Sir Henry, isto é, se os donos ficassem afastados da mansão, o casal Barrymore teria vida folgada e confortável. Mas esse motivo seria absurdo para explicar o plano complexo e sagaz, que parecia tecer uma rede invisível à volta do baronete. O próprio Holmes dissera que não conhecera caso mais complexo na longa série de sensacionais investigações a que se dedicara. Ao voltar para casa, pela estrada longa e cinzenta, rezei para que meu amigo depressa se visse livre das preocupações e pudesse me aliviar do fardo que me pesava sobre os ombros.

De repente, meus pensamentos foram interrompidos pelo som de pés que corriam atrás de mim e por uma voz que chamava pelo meu nome. Virei-me, esperando ver o dr. Mortimer, mas percebi, com surpresa, que se tratava de um estranho. Era um homem baixo, magro, afetado, de rosto barbeado, que aparentava ter entre trinta e quarenta anos de idade e usava um terno cinza e chapéu de palha. Trazia ao ombro uma caixa de estanho para carregar espécimes de botânica e nas mãos uma rede de caçar borboletas.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— Espero que me desculpe a presunção, dr. Watson — disse ele. — Aqui na charneca somos pessoas simples e não esperamos por apresentações formais. Talvez o senhor tenha ouvido o meu nome dos lábios do nosso amigo comum, Mortimer. Sou Stapleton, da Casa Merripit.

— A rede e a caixa teriam me dito o mesmo repliquei, pois sabia que o Sr. Stapleton era naturalista. — Mas como é que me reconheceu?

— Fui visitar Mortimer, e ele me mostrou n senhor, quando passava pela janela do consultório. Como o nosso caminho é o mesmo, achei que poderia alcançá-lo e apresentar-me. Espero que Sir Henry não se tenha cansado muito ia viagem.

— Vai muito bem, obrigado.

— Estávamos com medo, após a trágica morte de Sir Charles, que o novo baronete se recusasse a vir viver aqui. É exigir muito de um homem rico que venha se enterrar num lugar como este, mas não preciso lhe dizer o quanto significa para o povo daqui. Espero que Sir Henry não seja supersticioso.

— E provável que não.

— Naturalmente o senhor conhece a lenda do cão feroz que persegue a família, não?

— Sim, já me contaram.

— Extraordinário como os camponeses daqui são crédulos Qualquer deles á capaz de jurar que já viu tal criatura no campo. — O homem falava com um sorriso, mas percebi, pelos seus olhos, que levava o caso mais a sério. — A história causou grande impressão sobre Sir Charles e não duvido que o tenha levado àquela trágica morte.

— Mas como?

— Os nervos dele estavam tão abalados que o aparecimento de qualquer cão poderia ter efeito fatal sobre o seu coração. Creio que viu realmente qualquer coisa nesse gênero, na sua última noite na Alameda de Teixos. Eu tinha medo que lhe acontecesse alguma desgraça, pois gostava muito do velho e sabia que ele tinha uma lesão cardíaca.

— Como soube disso?

— Pelo meu amigo Mortimer.

— Acha, então, que qualquer cão perseguiu Sir Charles e que ele morreu de medo?

— O senhor tem alguma explicação melhor?

— Ainda não cheguei a conclusão alguma.

— E Sherlock Holmes?

Essas palavras me deixaram sem fala durante alguns instantes, mas um olhar ao rosto pálido e aos olhos firmes do meu companheiro provaram-me que ele não tivera intenção de me surpreender.

— É inútil fingir que não o conhecemos, dr. Watson — disse ele. — As histórias sobre o seu amigo detetive chegaram até nós, e o senhor não poderia torná-lo célebre sem ficar também conhecido. Quando me disse o seu nome, Mortiner não pôde negar a sua identidade. Já que o senhor se encontra aqui, então quer dizer que Sherlock Holmes se interessa pelo caso, e naturalmente estou curioso por saber qual o seu ponto mie vista.

— Receio não poder responder a essa pergunta.

— Posso indagar se ele nos honrará com uma visita?

— No momento, não pode sair de Londres. Está tratando de outros casos.

— Que pena! Talvez pudesse lançar uma luz neste caso, que á tão obscuro pai a nós! Quanto às suas investigações, dr. Watson, se eu puder servi-lo em alguma coisa estou à sua disposição. Se eu soubesse qual a natureza das suas suspeitas, ou de que maneira pretende investigar o assunto talvez pudesse dar-lhe ajuda ou conselho.

— Asseguro-lhe que estou aqui apenas em visita a Sir Henrv e que não preciso de auxílio dc espécie alguma.

— Ótimo! — exclamou Stapleton. — Tem todo o direito de ser cauteloso e discreto. Sinto-me justamente censurado pelo que considero uma injustificável intromissão, e prometo que não falarei mais no assunto.

Tínhamos chegado ao ponto onde um estreito caminho de relva saía da estrada e enveredava pela charneca. A direita havia um morro íngreme salpicado de seixos, que antes fora uma pedreira. À frente, virada para nós, havia urna rocha escura, com fetos e sarças crescendo nos seus nichos. De um ponto alto, ao longe, erguia-se uma coluna de fumaça.

— Uma caminhada regular por esta vereda nos leva a Merripit — disse ele. — Talvez o senhor possa dispor de uma hora; terei então o prazer de apresentá-lo à minha irmã.

Meu primeiro pensamento foi que devia me manter ao lado de Sir Hlenr. Mas lembrei-me da quantidade mie documentos e papéis que cobriam a sua escrivaninha. Sabia que, nesse ponto, não poderia ajudá-lo. E Holmes me recomendara expressamente que observasse os moradores da charneca. Aceitei o convite de Stapleton, e tomamos a vereda.

— Lugar maravilhoso, a charneca — disse ele, olhando para os morros ondulados, grandes rolos verdes com cristas de granito recortado em curvas fantásticas. —- Nós nunca nos cansamos dela —  continuou . — Não se podem imaginar os maravilhosos segredos que encerra. E tão vasta, tão deserta, tão misteriosa!

— Conhece-a bem, então? — perguntei.

— Estou aqui há apenas dois anos. Os moradores com certeza me consideram recém-chegaclo. Viemos logo depois que Sir Charles se instalou. Mas o interesse pela botânica me levou a explorar cada recanto da região, e creio que poucos homens conhecem a charneca como eu.

—  E assim tão difícil de se conhecer?

— Muito difícil. Veja, por exemplo, aquela grande planície, ali ao norte, com os estranhos morros que surgem de repente. Nota alguma coisa de extraordinário?

— Seria um ótimo lugar para se galopar.

— É natural que assim pense, e isso já custou a vida a muita gente. Vê aqueles brilhantes pontinhos verdes, espalhados por todos os lados?

— Vejo. Parecem muito férteis.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Stapleton riu.

— Aquilo é o grande atoleiro de Grimpen — disse ele. —Um passo em falso ali significa morte para um homem ou um animal. Ontem mesmo, vi um dos potrinhos do brejo cair ali. Não saiu mais. Vi-lhe a cabeça durante muito tempo acima da lama, mas também ela foi finalmente sugada. Mesmo durante a seca é perigoso passar por ali; mas depois destas chuvas de outono é um lugar terrível. Apesar disso, sou capaz de ir até o coração da charneca e voltar são e salvo! Por Deus, lá está outro daqueles pobres potros!

Alguma coisa marrom se debatia no meio das junças verdes. Vi um pescoço comprido torcer-se desesperadamente; um grito pavoroso ecoou na planície. Fiquei horrorizado, mas os nervos do meu companheiro pareciam mais fortes do que os meus.

— Foi-se! — disse ele. — A lama tragou-o. Dois, em dois dias…. e mais, talvez, pois eles têm o hábito de ir lá na seca e nada percebem até se afundarem. Lugar perigoso, o grande atoleiro de Grimpen.

— E o senhor diz que pode penetrar ali?

— Sim, há dois ou três caminhos por onde um homem muito ágil pode passar. Fui eu que os descobri.

— Mas por que desejou entrar em lugar tão horroroso?

Está vendo aqueles morros, lá longe? São na realidade ilhas das quais ficamos isolados pelo impraticável atoleiro que se insinuou à volta dos morros com o correr dos anos. E lá que estão as plantas e as borboletas, se tivermos habilidade de encontrá-las.

— Um dia destes vou experimentar.

O homem me olhou, admirado.

— Pelo amor de Deus, tire essa ideia da cabeça! — disse ele. — A responsabilidade pela sua morte pesaria sobre mim. Asseguro-lhe que não teria a mínima probabilidade de sair com vida. Só pelo fato de me lembrar de certos marcos complexos é que consigo me orientar.

— Oh! — exclamei. — O que é isso?

Um gemido longo, incrivelmente triste, ecoou por toda a planície. Encheu o ar, e no entanto não se podia dizer de onde vinha. De um murmúrio surdo, transformou-se em profundo rugido e voltou a ser de novo um soluçante murmúrio. Stapleton me olhou com curiosa expressão.

— Lugar estranho, a charneca! disse ele. Mas que foi aquilo?

— Mas que foi aquilo?

— Os camponeses dizem que é o cão de Baskerville, chamando pela sua presa. Já ouvi isso uma ou duas vezes, mas nunca assim tão alto.

Olhei em volta, com um frio no coração, e vi a imensa planície, com as suas manchas de caniços verdes. Nada se movia naquela grande extensão, a não ser um par de corvos grasnando num outeiro atrás de nós.

— O senhor é um homem educado. Não acredita em tamanha tolice, não? — disse eu. — Qual a causa, na sua opinião, de som tão esquisito?

— Os charcos têm às vezes estranhos ruídos. A lama ao assentar, ou a água a jorrar, ou qualquer outra coisa.

— Não, não; o que ouvimos foi a voz de um ser vivo.

— Pois bem, talvez seja. Já ouviu o barulho que faz o alcaravão?

— Não, nunca.

— E um pássaro raro, quase extinto agora na Inglaterra, mas tudo pode acontecer na charneca. Não ficaria admirado de saber que o que acabamos de ouvir foi o grito do último aos alcaravões.

— E a coisa mais espantosa, mais horrível que jamais ouvi em minha vida.

— De fato, é um lugar misterioso, sobrenatural. Olhe a encosta daquele morro, lá adiante. O que me diz?

A encosta íngreme estava coberta por círculos de pedra cinzenta.

— Que é aquilo? — perguntei. — São redis?

—  Não; simplesmente as moradias dos nossos dignos antepassados. O homem pré-histórico vivia na charneca, e, (orno ninguém morou lá desde então, encontramos os seus apetrechos exatamente como foram deixados. Aquelas são is suas casas, sem os telhados. Poderá ver o fogão e o lugar onde dormiam, se se der ao trabalho de ir até lá.

— Mas é uma cidade! Quando é que foi habitada?

— No tempo do homem neolítico. Não há data.

— Que fazia ele?

— Fazia o gado pastar nestas encostas e aprendeu a extrair estanho, quando a espada de bronze começou a sobrepujar o machado de pedra. Olhe para aquele fosso, no morro oposto. É a sua marca. Sim, o senhor encontrará muita coisa singular na charneca, dr. Watson. Oh, desculpe-me um instante. Não há dúvida de que é uma cyclopides.

Uma pequena mosca ou mariposa esvoaçou à nossa frente, e imediatamente, com extraordinária energia, Stapleton correu atrás dela. Vi, com consternação, o bichinho dirigir-se para o grande atoleiro, mas o meu companheiro não vacilou nem por um instante, pulou de uma moitinha para a outra, sacudindo no ar a sua rede. Suas roupas cinzentas e os movimentos bruscos, irregulares, em ziguezague, faziam com que também ele parecesse urna mariposa. Eu estava observando a perseguição, com um misto de admiração pela sua extraordinária agilidade e medo de vê-lo cair no traiçoeiro atoleiro, quando ouvi som de passos. Virando-me, notei urna mulher perto da estrada. Ela viera da direção onde eu vira a fumaça que indicava a Casa Merripit, mas a curva da charneca a escondera até ela chegar muito perto.

Não duvidei de que se tratasse da Srta. Stapleton, de quem tinham me falado, já que devia haver poucas senhoras na planície, e lembrei me de que a tinham descrito como sendo uma beleza. A mulher que se aproximava era bela, sem a menor dúvida, e de tipo pouco comum. Não podia haver maior contraste do que o existente entre irmão e irmã, pois Stapleton possuía cor indefinida, com cabelos claros e olhos cinzentos, e ela era a mais trigueira das morenas que eu já vira na Inglaterra. Alta, esbelta e elegante. Tinha o rosto imponente e bem-feito, tão regular que poderia parecer inexpressivo, se não fosse pela boca sensível e pelos olhos escuros, lindos e ardentes. Com o seu corpo perfeito e o vestido elegante, era de fato uma estranha aparição, num caminho deserto da planície. Estava com os olhos no irmão, quando me virei; depois, dirigiu-se vivamente para onde eu estava. Ergui o chapéu e ia me apresentar, quando as suas palavras desviaram os meus pensamentos para outro lado.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— Volte! — disse ela. Volte imediatamente para Londres, imediatamente.

Não pude deixar de fitá-la, surpreso. Os seus olhos luziam, e ela bateu com o pé no chão, impacientemente.

— Por que hei de voltar? — perguntei.

— Não posso explicar. — Ela falava em voz baixa, ardente, com um curioso ciciar. Mas, pelo amor de Deus, faça o que lhe peço. Volte e nunca mais venha à charneca.

— Mas acabei de chegar!

— Homem, homem! — exclamou. — Não percebe, quando lhe dão um aviso para o seu bem? Volte para Londres! Volte hoje! Saia a todo custo deste lugar. Silêncio, meu irmão vem aí! Nem uma palavra sobre o que eu disse. Quer fazer o favor de me apanhar aquela orquídea, ali adiante? Temos lindas orquídeas na charneca, embora, naturalmente, seja muito tarde para o senhor apreciar as belezas do lugar.

Stapleton abandonara a perseguição e voltou vermelho e ofegante.

— Olá, Beryl! — disse ele, e pareceu-me que a sua saudação não foi muito cordial.

— Olá, Jack, parece estar com calor.

— Sim, andei correndo atrás de urna cyclopides. E rara e quase não se encontra no fim do outono. Que pena tê-la deixado escapar!

Ele falava despreocupadamente, mas seus olhinhos claros iam incessantemente do rosto da irmã para o meu.

— Vejo que se apresentaram disse ele.

— Sim, eu estava dizendo a Sir Henry que é muito tarde para ele apreciar as belezas da charneca.

—  Oh, quem supôs que eu fosse?

— Pensei que fosse Sir Henry Baskerville.
— Não, não — disse eu. — Sou um simples cidadão, amigo de Sir Henry. Sou o dr. Watson.

Um rubor envergonhado cobriu o rosto expressivo da jovem.

— Houve um mal-entendido — disse ela.

— Oh, mas não tiveram muito tempo para conversar — replicou o irmão, sempre com os mesmos olhares interrogadores.

— Falei como se o dr. Watson residisse aqui, em vez de ser apenas um visitante —  disse ela. — Pouco lhe importará que seja cedo ou tarde para as orquídeas. Mas não quer vir até Merripit?

Uma caminhada curta levou-nos até a casa erma, que fora morada de algum negociante de gado nos tempos prósperos, e havia sido transformada em residência moderna. Cercava-a um pomar, mas as árvores, como acontece na charneca, eram mirradas e crestadas, e o efeito era desagradável e melancólico. Fomos recebidos por um criado velho, criatura estranha, encarquilhada, de casaco desbotado, que parecia combinar com a casa. Mas dentro havia salas grandes, mobiliadas com elegância, pela qual julguei reconhecer o gosto da dona da casa. Ao olhar pelas janelas, para a imensa planície, não pude deixar de pensar no motivo que poderia ter induzido um homem tão culto e uma tão linda mulher a viverem num lugar daqueles.

— Lugar estranho para se escolher, não é? — disse ele, como que respondendo ao meu pensamento. — Apesar disso, conseguimos ser felizes, não é, Beryl?

— Muito felizes — respondeu ela, mas não havia convicção na sua voz.

— Tive uma escola no norte — disse Stapleton. — O trabalho, para um homem do meu temperamento, era mecânico e desinteressante, mas o privilégio de conviver com a mocidade, de ajudar a moldar aqueles cérebros jovens e a impressioná-los com o nosso caráter e os nossos ideais erame muito caro. Houve uma séria epidemia na escola, e três rapazes morreram. Nunca me conformei, e parte do meu capital ficou irremediavelmente comprometido. Apesar disso, e malgrado a perda da agradável companhia dos jovens, cheguei a regozijar-me com o meu revés, pois, com meu gosto pela botânica e a zoologia, encontro aqui um campo ilimitado de trabalho. Minha irmã também ama a natureza. Digo- lhe tudo isso, dr. Watson, por ter visto a sua expressão, ao olhar a planície, pela janela.

— Não há dúvida de que achei que devia ser um pouco monótono… menos para o senhor, talvez, do que para sua irmã.

— Não, nunca acho monótono — replicou ela vivamente.

— Temos os nossos livros, os nossos estudos, e vizinhos interessantes, O dr. Mortimer, no seu ramo, é muito culto. O pobre Sir Charles também era um companheiro agradável. Nós o conhecíamos muito bem, e sinto a falta dele mais do que digo. Acha que seria indiscreto da minha parte se fosse hoje à tarde travar conhecimento com Sir Henry?

— Tenho certeza de que ele ficaria encantado.

Então, talvez fosse bom o senhor avisá-lo. Talvez possamos, de maneira modesta, facilitar-lhe as coisas, até que se habitue à nova vida. Quer subir, dr. Watson, para ver a minha coleção de lepidópteros? Creio que é a mais completa do sudoeste da Inglaterra. Depois que a tiver examinado, o almoço deverá estar pronto.

Mas eu estava ansioso por voltar para o lado de Sir Henry. A melancolia da charneca, a morte do infeliz potro, o estranho som que fora associado à lenda da família Baskerville, todas essas coisas tinham me entristecido. Acima dessas impressões mais ou menos vagas, estava o aviso firme da Srta. Stapleton, dado com tanta convicção que eu não podia duvidar de que fora ditado por uma razão grave e profunda. Recusei o convite insistente para almoçar e pus-me de novo a caminho, seguindo a mesma vereda por onde viera.

Parecia, no entanto, que devia haver algum atalho, pois, antes de ganhar a estrada, tive a surpresa de ver a Srta. Stapleton sentada numa rocha. Seu rosto estava lindamente rosado pelo exercício.

— Corri multo para alcança-lo, dr. Watson —  disse ela. Nem tive tempo de pôr o meu chapéu. Não posso me demorar para que meu irmão não note a minha ausência. Queria dizer-lhe que sinto o estúpido engano que cometi, pensando que o senhor era Sir Henry. Por favor, esqueça as minhas palavras, que de forma nenhuma se aplicam ao senhor.

— Mas não posso esquecê-las, Srta. Stapleton — expliquei. — Sou amigo de Sir Henry e me interesso muito por ele. Diga-me, por que estava ansiosa para que ele voltasse para Londres?

— Capricho de mulher, dr. Watson. Depois que me conhecer melhor, compreenderá que nem sempre posso dar razões para o que digo ou faço.

— Não, não. Lembro-me da emoção da sua voz. Lembro-me da expressão dos seus olhos. Por favor, seja franca comigo, Srta. Stapleton, pois desde que aqui cheguei tenho sentido sombras à minha volta. A vida se tornou uma espécie de grande atoleiro de Grimpen, com manchas verdes por roda parte, que podem nos tragar a qualquer momento, sem um guia para nos indicar o caminho. Conte-me o que queria dizer, e prometo transmitir o aviso a Sir Henry.

Pelo rosto da jovem passou uma expressão irresoluta, mas seus olhos se endureceram de novo, quando ela me respondeu:

— O senhor dá valor exagerado ao que eu disse, dr. Watson. Meu irmão e eu ficamos muito chocados com a norte de Sir Charles. Nós o conhecíamos intimamente, poiso seu passeio favorito era vir pelo campo até nossa casa. Ele estava profundamente impressionado com a maldição que pesava sobre a família, e, quando aconteceu a tragédia, claro que achei que devia haver fundamento para os seus receios. Fiquei fora de mim, quando outro membro da família veio morar aqui, e senti que devia avisá-lo do perigo que corre. Foi tudo o que eu quis dizer.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— Mas qual o perigo?

— Conhece a história do cão?

— Não acredito nessas tolices.

— Mas eu acredito, Se o senhor tiver alguma influência sobre Sir Henry, leve-o embora de um lugar que sempre foi fatal à sua família. O mundo é vasto. Por que haveria ele de querer morar num lugar de perigo?

— Porque é um lugar de perigo. Sir Henry é assim. Receio que, a não ser que me dê informações mais definidas, seja impossível fazê-lo sair daqui.

— Nada posso dizer de definido, porque nada sei de definido.

— Vou lhe fazer mais uma pergunta, Srta. Stapleton. Se não pretendia dizer mais do que isso quando falou comigo pela primeira vez, por que não quis que seu irmão a ouvisse? Não há nada a que ele possa objetar… ele ou qualquer outra pessoa.

— Meu irmão faz questão de que a mansão continue habitada, pois acha que seria para o bem dos pobres da região. Ficaria muito zangado se soubesse que eu disse alguma coisa que pudesse induzir Sir Henry a partir. Mas agora cumpri meu dever e nada mais direi. Preciso ir embora, senão ele dará pela minha falta e desconfiará que vim falar com o senhor. Adeus!

Virou-se e, dali a pouco, desapareceu no meio das rochas esparsas. Quanto a mim, com o coração cheio de apreensão, tomei o caminho de Baskerville.

The Hound of the Baskervilles, 1902

Capítulo 1: Sherlock Holmes § Capítulo 2: A maldição dos Baskervilles
Capítulo 3: O problema § Capítulo 4: Sir Henry Baskerville
Capítulo 5: Três fios partidos § Capítulo 6: Baskerville Hall
Capítulo 7: Os Stapletons da Casa Merripit § Capítulo 8: Primeiro relatório do dr. Watson
Capítulo 9: Segundo relatório do dr. Watson – Luz na charneca
Capítulo 10: Extratos do diário do dr. Watson § Capítulo 11: O homem na rocha
Capítulo 12: Morte na charneca § Capítulo 13: Armando a rede
Capítulo 14: O cão dos Baskervilles § Capítulo 15: Retrospecto

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock