O cão dos Baskervilles – Capítulo 5

Arthur Conan Doyle

O cão dos Baskervilles
Capítulo quinto

Título original: The Hound of the Baskervilles
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1901-02.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Hound of the Baskervilles publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo quinto: Três fios partidos

Sherlock Holmes tinha o extraordinário poder de abstrair-se de um fato, quando assim o desejava. Durante duas horas, pareceu esquecer o estranho caso em que estávamos envolvidos e interessar-se exclusivamente pelos quadros dos modernos mestres flamengos. Só falou em arte, de que muito pouco entendia, desde que saímos da galeria até chegarmos ao Northumberland Hotel.

— Sir Henry Baskerville está lá em cima à sua espera — disse o empregado da recepção. Pediu-me que os conduzisse assim que chegassem,

— Permite que eu olhe o registro do hotel? — perguntou Holmes.

— Oh, pois não, às ordens.

O livro mostrou-nos que dois nomes haviam sido registrados, após o de Baskerville. Um era: Theophilus Johnson e família, de Newcastle; o outro: Sra. Oldmore e empregada, de High Lodge, Alton.

— Deve ser aquele Johnson que conheci — disse Holmes ao empregado do hotel. — Um advogado, não é, de cabelos grisalhos, que coxeia um pouco?

— Não, senhor, esse é o Sr. Johnson, dono de uma mina de carvão, homem muito ativo e que não deve ser mais velho do que o senhor.

— Não terá se enganado a respeito da ocupação dele?

— Não, senhor, ele é freguês deste hotel há anos e muito conhecido de todos nós.

— Ah, então não insisto. A Sra. Oldmore também… Parece que o nome me é familiar. Desculpe a minha curiosidade, mas muitas vezes acontece que, ao visitar um amigo, a gente encontra outro.

— Ela é inválida, senhor. Seu marido foi, há tempos, prefeito de Gloucester. Ela nos procura sempre, quando vem Londres.

— Muito obrigado; não posso dizer que a conheça.

Virando-se para mim, quando nos dirigimos para cima, Holmes disse em voz baixa:

— Com essas perguntas, Watson, estabelecemos um fato importante. Sabemos agora que as pessoas que se mostram tão interessadas pelo nosso amigo não se encontram hospedadas neste hotel. Isso significa que, embora estejam ansiosas por segui-lo, como já verificamos, estão igualmente desejosas de não serem vistas. É muito sugestivo.

— Que é que sugere?

— Sugere. . . Olá, amigo, que houve?

Sidney Paget, 1901

Sidney Paget, 1901

Quando chegamos ao topo da escada, demos com Sir Henry Baskerville. Estava rubro de cólera e trazia na mão um sapato velho e empoeirado. Estava tão furioso que nem podia falar, e, quando o fez, foi com sotaque do oeste, muito mais acentuado do que o que lhe tínhamos ouvido de manhã.

— Parece que estão me fazendo de tolo neste hotel — disse ele. — Verão que estão enganados a meu respeito, se não tiverem cuidado. Com os diabos, se aquele sujeito não conseguir encontrar o meu sapato, vai haver barulho. Sei aguentar uma brincadeira como qualquer outro, Sr. Holmes, mas desta vez foram longe demais.

— Ainda anda procurando o sapato?

— Sim, senhor, e pretendo encontrá-lo.

— Creio que me disse que era um sapato marrom, novo.

— E de fato era. Mas agora é um sapato preto, velho.

— Quê?! Quer dizer…

— É exatamente o que quero dizer. Eu só tinha três pares: os marrons novos, os pretos, já muito usados, e estes de verniz, que trago agora. Ontem à noite, levaram-me um dos marrons; hoje, roubam-me um dos pretos.

Virou-se para um criado alemão, que surgiu naquele momento, e perguntou:

— Então, encontrou? Fale, homem, não fique aí olhando!

— Não, senhor. Perguntei a todos no hotel, mas ninguém sabe de nada.

— Pois bem, ou esse sapato aparece antes do anoitecer, ou vou procurar o gerente para lhe dizer que saio imediatamente deste hotel.

— Será encontrado, senhor; garanto-lhe que, se tiver um bocadinho de paciência, será encontrado.

— Faça com que o seja, porque será a última coisa que perderei neste covil de ladrões. Bem, bem, Sr. Holmes, desculpe-me incomodá-lo por uma coisa tão insignificante.

— Acho que vale a pena incomodar-se por isso.

— Oh, o senhor leva o caso a sério!

— Como é que explica uma coisa dessas?

— Não procuro explicá-la. E a coisa mais louca, mais estranha que jamais me aconteceu.

— A mais estranha, talvez — disse Holmes, pensativo.

— Que opinião tem o senhor a respeito dela?

— Pois bem, não tenho a pretensão de saber. Este caso é muito complexo, Sir Henry. Considerado em relação à morte de seu tio, não sei se haverá, entre os quinhentos casos importantes que investiguei, um que me pareça tão profundo. Mas temos vários fios nas mãos, e há probabilidades de que um, ao menos, nos leve à verdade. Podemos perder tempo seguindo o errado, mas cedo ou tarde chegaremos ao certo.

Tivemos um almoço agradável, no qual pouco falamos do assunto que ali nos reunira. Na saleta particular para onde depois nos retiramos, Holmes perguntou a Baskerville quais eram as suas intenções.

— Irei para Baskerville Hal!.

— Quando?

— No fim da semana.

— Pensando bem, acho que é uma decisão acertada —disse Holmes. — Tenho certeza de que está sendo seguido aqui em Londres, e, no meio de milhões de pessoas, é difícil descobrir quem é essa gente e quais os seus planos. Se as intenções deles são más, podem prejudicá-lo, Sir Henry, e não estaríamos em condições de protegê-lo. Sabia, dr. Mortinier, que foram seguidos quando saíram dc minha casa, hoje de manhã?

O dr. Mortimer teve um violento sobressalto.

— Seguidos? Por quem?

— Infelizmente não posso informá-lo. Há entre os seus conhecidos, em Dartmoor, algum homem que tenha barba negra e cerrada?

— Não. Ah, espere… Sim, Barrymore, o mordomo de Sir Charles, tem barba preta e cerrada.

— Ah! Onde está Barrymore?

— Está tomando conta da mansão.

— E melhor que nos certifiquemos se realmente ele se encontra lá, ou se há a possibilidade de estar em Londres.

— Como poderemos saber?

— Dê-me um impresso telegráfico. “Está tudo preparado para receber Sir Henry?” Creio que basta isso. Mande para o Sr. Barrymore, em Baskerville Hall. Qual é o posto telegráfico mais próximo? Grimpen. Muito bem. Mandaremos outra mensagem para o agente do telégrafo de Grimpen. “O telegrama para o sr. Barrymore tem de ser entregue em mãos. Se ele não for encontrado, é favor devolver o telegrama para Sir Henry Baskerville, Northumberland Hotel.” Com isso ficaremos sabendo, antes do anoitecer, se Barrymore está no seu posto, em Devonshire, ou não.

— Isso mesmo — disse Baskerville. — Antes que eu me esqueça, dr. Mortimer, quem é esse Barrymore?

— E o filho do velho caseiro, já falecido. Há quatro gerações que a família trabalha para os Baskervilles. Pelo que me consta, ele e a mulher são de toda a confiança.

— Ao mesmo tempo, não há dúvida de que têm uma vida folgada, enquanto ninguém da família Baskerville mora lá.

— E verdade.

— Barrymore ganhou alguma coisa com a morte de Sir Charles?

— Ele e a mulher receberam quinhentas libras cada um.

— Ah! E sabiam desse legado?

— Sabiam. Sir Charles gostava muito de falar sobre as cláusulas do testamento.

— Muito interessante.

— Espero que não olhe com suspeita todas as pessoas que receberam um legado de Sir Charles — disse o dr. Mortimer. — Também eu recebi mil libras.

— Ah, sim! E mais alguém?

— Havia quantias insignificantes a várias pessoas e muitos donativos a instituições de caridade. O resto ficou para Sir Henry.

— E a quanto montava o resto?

— A setecentas e quarenta mil libras.

Holmes ergueu as sobrancelhas, admirado.

— Não imaginei que fosse uma quantia tão grande — disse ele.

— Sir Charles tinha fama de ser rico, mas nunca imaginamos que fosse tanto, até examinarmos os seus papéis. O total chegava quase a um milhão.

— Deus do céu! É realmente uma parada pela qual um homem faria um jogo desesperado. Mais uma pergunta, dr. Mortimer: suponhamos que alguma coisa aconteça aqui ao nosso amigo (o senhor há de me desculpar a desagradável hipótese!)… quem herdaria?

— Já que Rodger Baskerville, o irmão mais novo de Sir Charles, morreu solteiro, a herança iria para os Desmonds, uns primos afastados, James Desmond é um clérigo idoso, de Westmorland.

— Obrigado. Esses pormenores são de grande interesse. Conhece o sr. james Desmond?

— Conheço; urna vez ele foi visitar Sir Charles. E um homem respeitável, que leva uma vida santa. Lembro-me de que recusou a oferta de Sir Charles, que queria fazer-lhe uma doação.

— E esse homem de gostos tão simples seria o herdeiro de tão grande fortuna?

— Seria o herdeiro da propriedade, que está vinculada. herdaria também o dinheiro, a não ser que o proprietário atual fizesse testamento em contrário, como é de seu direito.

— E o senhor já fez testamento, Sir Henry?

— Não, Sr. Holmes, não fiz. Não tive tempo, pois somente ontem fiquei ciente dos acontecimentos. De qualquer maneira, acho que o dinheiro deve ir para quem herdar a propriedade. Era essa a opinião de meu pobre tio. Como poderia o dono restaurar a grandeza de Baskerville Hall se não tivesse dinheiro nem mesmo para mantê-la? Casa, terra e dinheiro devem ficar juntos.

— Perfeitamente. Muito bem, Sir Henry. Estou de acordo com o senhor, quando diz que quer ir para Devonshire sem demora. Há apenas urna precaução que desejo tomar. O senhor não deve, de forma alguma, ir só.

— O dr. Mortimer vai comigo.

— Mas o dr. Mortimer tem a sua clientela, e a casa dele fica a quilômetros de distância de Baskerville. Por maior que seja a sua boa vontade, talvez não possa ajudá-lo. Não, Sir Henry, precisa levar alguém com o senhor, um homem de confiança, que ficará sempre a seu lado.

— Seria possível ir o senhor, Sr. Holmes?

— Se houvesse uma crise, eu iria pessoalmente; mas o senhor compreende que, com a minha vasta clientela e com as constantes chamadas que me vêm de todas as partes, é-me impossível deixar Londres por tempo indeterminado. Neste momento, um dos nomes mais respeitados da Inglaterra está sendo enlameado por um chantagista, e só eu poderei impedir um escândalo. O senhor bem vê que me é impossível ir agora a Baskerville.

— Quem é, então, que o senhor me recomenda?

Holmes pôs a mão no meu ombro.

— Se o meu amigo quiser ir, não há melhor companheiro para se ter ao lado, numa aflição. Ninguém melhor do que eu pode afirmá-lo.

Sidney Paget, 1901

Sidney Paget, 1901

A proposta apanhou-me de surpresa, mas, antes que eu tivesse tempo de responder, Baskerville pegou-me a mão e sacudiu-a calorosamente.

— Oh, é muita gentileza sua, dr. Watson — disse ele.

— O senhor sabe tanto do caso como eu. Se me acompanhar a Baskerville Hall, jamais me esquecerei.

A expectativa da aventura sempre me fascinou, e fiquei lisonjeado com as palavras de Holmes e o entusiasmo com que o baronete me aceitou por companheiro.

— Irei com prazer — respondi. — Não conheço melhor maneira de empregar o tempo.

— E depois me mandará relatórios minuciosos — disse Holmes. — Quando chegar o momento de crise, dir-lhe-ei como agir. Espero que sábado já esteja tudo preparado!
— Assim lhe convém, dr. Watson? — perguntou-me Sir Henry.

— Perfeitamente.

— Então sábado, a não ser que o avise do contrário, devemos nos encontrar em Paddington, para tomar o trem das dez e trinta.

Tínhamos nos levantado para partir, quando Baskerville soltou uma exclamação de triunfo. Avançando para um dos cantos do quarto, tirou de dentro do armário entreaberto um sapato marrom.

— O sapato perdido! — exclamou.

— Pudessem as nossas preocupações dissipar-se com igual facilidade! — disse Sherlock Holmes.

— É singular — observou o dr. Mortimer. — Antes do almoço, revistei cuidadosamente este quarto.

— E também eu — declarou Baskerville. Palmo a palmo.

— Então o criado deve ter colocado o sapato aí, enquanto almoçávamos.

O alemão foi chamado, mas jurou não saber do que se tratava, e, por mais que indagássemos, nada se conseguiu apurar. Outro caso foi acrescentado à série de mistérios, aparentemente sem sentido, que tão rapidamente se tinham sucedido. Pondo de lado a triste história da morte de Sir Charles, tínhamos uma série de incidentes, no espaço de dois dias, que incluía o recebimento da carta, o espião de barba preta, a perda do sapato marrom, novo, o desaparecimento do sapato velho, preto, e agora a reaparição do sapato marrom. Ao voltarmos para a Baker Street, Holmes ia em silêncio no carro — e eu sabia, pelas sobrancelhas contraídas e pelo rosto sério, que a sua mente, assim como a minha, estava ocupada em desenhar um quadro onde pudessem caber todos esses episódios estranhos e aparentemente desconexos. Ficou até tarde sentado, fumando, pensativo. Antes do jantar, chegaram dois telegramas. Dizia o primeiro:

“Acabo de saber que Barrymore está na mansão Baskerville”.

O segundo:

“Visitei vinte e três hotéis, mas sinto dizer que não consegui encontrar a página do Tirnes — Cartwright”.

— Assim se partem dois dos meus fios, Watson — disse Holmes. — Nada mais estimulante do que um caso onde tudo está contra. Temos de procurar outra pista.

— Resta o cocheiro que conduziu o espião — disse eu.

— Exatamente. Telegrafei para o registro oficial para saber o seu nome e endereço. Não ficaria admirado se fosse essa a resposta à minha pergunta.

O toque da campainha provou que se tratava de coisa ainda mais satisfatória do que uma resposta, pois a porta abriu-se e entrou um sujeito de aparência rude, que evidentemente era o próprio cocheiro.

— Recebi um recado da gerência de que um senhor neste endereço andava indagando sobre o 2704 — disse ele. Guio o meu carro há sete anos e jamais houve queixa contra mim. Vim diretamente da estação para cá para lhe perguntar cara a cara o que tem contra mim.

— Não tenho nada contra o senhor, amigo — disse Holmes. — Pelo contrário, tenho aqui meio soberano para lhe dar se me responder com franqueza.

— Então estou com sorte hoje — disse o homem, com um sorriso. — Que é que o senhor deseja saber?

— Em primeiro lugar, o seu nome e endereço caso venha de novo a precisar de você.

— John Clayton, Turpey Street, 3, Borough — disse o homem. — O meu carro fica sempre diante do Shipley’s Yard, perto da Estação Waterloo.

Sherlock Holmes tomou nota.

Sidney Paget, 1901

Sidney Paget, 1901

— Agora, Clayton, fale-me do passageiro que veio espiar esta casa, hoje, às dez horas da manhã, e que depois seguiu os dois senhores que saíram daqui.

O homem pareceu surpreso e um tanto embaraçado.
— Bom, não adianta fugir, porque o senhor parece saber tanto quanto eu. A verdade é que o homem me disse que era detetive e que eu não devia falar dele a ninguém.

— Meu amigo, este caso é muito sério e você poderá ver-se em maus lençóís, se tentar esconder de mim alguma coisa. Então o seu passageiro disse que era detetive?

— Sim, senhor, disse.

— Quando foi isso?

— Quando me deixou.

— Disse mais alguma coisa?

— O seu nome.

Holmes olhou-me com expressão de triunfo.

— Oh, ele disse o nome? Que imprudência! Que nome disse ele?

— Disse chamar-se Sr. Sherlock Holmes.

Nunca, em toda a vida, vi o meu amigo mais desconcertado do que naquele momento. Ficou sentado, em silêncio. Depois desatou a rir.

— Toque de mestre, Watson, toque de mestre! — disse Holmes. Vejo um florete tão sutil e rápido como o meu. Ele passou-me a perna desta vez. Então, disse que se chamava Sherlock Holmes.

— Sim, senhor, é esse o nome dele.

— Ótimo! Conte-me onde o apanhou e tudo o que aconteceu.

— Apanhei-o às nove e meia, na Trafalgar Square. Disse que era detetive e ofereceu-me dois guinéus, se eu o servisse o dia todo, sem fazer perguntas. Concordei, com prazer. Em primeiro lugar, fomos para o Northumberland Hotel, e ali esperamos até que saíssem dois senhores e tomassem um carro em frente. Seguimos o carro até parar aqui perto.

— Diante desta porta — disse Holmes.

— Bom, não posso ter certeza, mas me parece que o meu passageiro sabia o que estava se passando. Ficamos parados aqui perto e esperamos durante hora e meia. Depois, os dois senhores passaram por nós, conversando, nós os seguimos pela Baker Street.

— Sei disso — interrompeu Holmes.

— …. até descermos três quarteirões da Regent Street. Aí o passageiro abriu o tejadilho e gritou-me que fosse imediatamente para a Estação Waterloo, o mais depressa possível. Chicoteei a égua e lá chegamos em menos de dez minutos. Então pagou-me os dois guinéus e entrou na estação. Mas, antes, virou-se para mim e disse; “Talvez você tenha interesse em saber que hoje teve como passageiro Sherlock Holmes”.

— Muito bem. E não o viu mais?

— Não, não o vi mais, depois que entrou na estação.

— E como você descreveria o Sr. Sherlock Holmes?

O cocheiro coçou a cabeça.

— Bom, não é um cavalheiro muito fácil de se descrever. Parecia ter uns quarenta anos, altura mediana, cinco ou seis centímetros mais baixo que o senhor. Estava muito bem vestido, tinha barba preta, quadrada, e rosto pálido. Não creio que possa dizer mais do que isso.

— A cor dos olhos?

— Não sei.

— Nada mais?

— Não, senhor; nada mais.

— Muito bem, aqui está meio soberano. Fica outro à sua espera, se me trouxer novas informações. Boa noite.

— Boa noite, senhor, e muito obrigado.

John Clayton saiu, todo satisfeito. Holmes voltou-se para mim com um encolher de ombros e um sorriso triste.

— Lá se vai o nosso terceiro fio, e terminamos onde começamos —  disse ele. — Sujeito esperto! Conhecia a nossa casa, sabia que Sir Henry Baskerville me consultaria, reconheceu-me na Regent Street, calculou que eu anotaria o número do carro e falaria com o cocheiro, e mandou-me este audacioso recado. Garanto-lhe, Watson, que desta vez temos uma adversário digno de nós. Fui derrotado em Londres. Só posso desejar ter melhor sorte em Devonshire. Mas não estou tranquilo no que se refere a Sir Henry.

— A respeito de quê?

— De deixá-lo ir, Watson. É um caso perigoso, muito perigoso, e, quanto mais o examino, menos o aprecio. Sim, caro amigo, pode ir, mas dou-lhe a minha palavra de que ficarei muito satisfeito quando o vir de regresso à Baker Street são e salvo.

The Hound of the Baskervilles, 1902

Capítulo 1: Sherlock Holmes § Capítulo 2: A maldição dos Baskervilles
Capítulo 3: O problema § Capítulo 4: Sir Henry Baskerville
Capítulo 5: Três fios partidos § Capítulo 6: Baskerville Hall
Capítulo 7: Os Stapletons da Casa Merripit § Capítulo 8: Primeiro relatório do dr. Watson
Capítulo 9: Segundo relatório do dr. Watson – Luz na charneca
Capítulo 10: Extratos do diário do dr. Watson § Capítulo 11: O homem na rocha
Capítulo 12: Morte na charneca § Capítulo 13: Armando a rede
Capítulo 14: O cão dos Baskervilles § Capítulo 15: Retrospecto

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock