O cão dos Baskervilles – Capítulo 8

Arthur Conan Doyle

O cão dos Baskervilles
Capítulo oitavo

Título original: The Hound of the Baskervilles
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1901-02.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Hound of the Baskervilles publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo oitavo: Primeiro relatório do dr. Watson

Daqui por diante, seguirei o curso dos acontecimentos, transcrevendo as minhas cartas a Sherlock Holmes, que estão na mesa à minha frente. Falta uma página, mas, a não ser por isso, mostram exatamente os meus sentimentos e suspeitas na ocasião, com muito mais força do que se eu o fizesse de memória, embora ainda me lembre de tudo com clareza.

“Baskerville Hall, 13 de outubro.

Caro Holmes,
Meus telegramas e minhas cartas anteriores puseram-no bem a par de tudo o que ocorreu neste lugar esquecido de Deus. Quanto mais se fica aqui, mais o espírito da charneca nos invade a alma, com a sua melancolia, a sua vastidão e o seu sombrio encanto. Quando nela penetramos, temos a sensação de ter deixado atrás de nós os vestígios da moderna Inglaterra, mas ao mesmo tempo sentimos em toda parte o trabalho do homem pré-histórico. Vemos, por todos os lados, os lares dessa gente esquecida, com os seus túmulos e vastos monólitos, que, ao que dizem, são marcos de templos. Ao olhar para as cabanas de pedra cinzenta, nos velhos morros, deixamos a nossa para trás, e, se víssemos algum homem peludo, metido numa pele de animal feroz, sair agachado de cima das portas baixas, empunhando arco e flecha, acharíamos a sua presença mais natural do que nossa. O estranho é que tantos tenham podido viver num lugar que sempre deve ter sido árido. Não entendo do assunto, mas imagino que devia ser um povo pacífico e despojado, que se viu obrigado a aceitar aquilo que nenhum outro quereria para si.

Tudo isso, no entanto, nada tem a ver com a missão de que me incumbiu e talvez seja pouco interessante, caro Holmes, para quem tem a sua mentalidade prática. Lembro-me ainda da sua completa indiferença pelo fato de o Sol girar em volta da Terra ou a Terra em volta do Sol. Deixe-me, portanto, voltar aos fatos relativos a Sir Henry Baskerville.

Se não mandei nenhum relatório nos últimos dias, é porque nada houve de importante para relatar. Depois, aconteceu um fato interessante, que lhe contarei oportunamente. Mas, em primeiro lugar, preciso pô-lo a par de outros acontecimentos.

Um deles, do qual pouco falei, é o caso do preso que fugiu de Princetown. Acredita-se agora que ele conseguiu escapar definitivamente, e isso não deixa de ser uni alívio para o pessoal do distrito. Já há quinze dias que fugiu e, durante esse tempo, não foi visto nem se ouviu falar nele. E inconcebível que tenha permanecido na charneca todo esse tempo. Claro que, sob o ponto de vista de esconderijo, não haveria dificuldades. Qualquer dessas cabanas de pedra serviria. Mas nada há para comer, a não ser que ele pegasse e matasse um dos carneiros da charneca. Parece, portanto, que ele foi embora, e os fazendeiros agora dormem mais tranquilos.

Somos quatro homens robustos aqui em casa, de modo que poderíamos nos defender, mas confesso que tenho ficado apreensivo, ao pensar nos Stapletons. Estão a quilômetros de distância de qualquer auxílio. Vivem lá apenas uma criada, um criado velho e os dois irmãos, e Stapleton não é muito forte.

Estariam perdidos, nas mãos de um facínora como aquele de Notting Hill, se o homem conseguisse entrar na casa deles. Tanto Sir Henry como eu ficamos preocupados, e foi aventada a hipótese de Perkins, o cocheiro, ir dormir lá, mas Stapleton não quer ouvir falar nisso. A verdade é que o baronete começa a mostrar grande interesse pela bela vizinha. Não é de admirar, pois neste lugar deserto o tempo custa a passar, principalmente para um homem tão ativo; além disso, a jovem é de fato fascinante. Há nela algo de exótico e tropical, que forma um singular contraste com o irmão, frio, pouco emotivo. Apesar disso, suspeita-se nele a existência de um fogo latente. Não há dúvida de que tem grande influência sobre a irmã, pois tenho a visto olhar constantemente para ele quando fala, como se pedisse a sua aprovação. Espero que ele seja bom para ela. Há nos olhos dele um brilho seco e uma expressão firme nos seus lábios finos, que indicam um homem de temperamento positivo e talvez brutal. Você o consideraria um interessante objeto de estudo.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Ele veio visitar Baskerville no primeiro dia, e, no seguinte, foi mostrar-nos o lugar onde parece ter tido origem a lenda do cruel Hugo Baskerville. Foi uma excursão de alguns quilômetros através da charneca, a um lugar tão lúgubre que pode ter sugerido a história. Encontramos, entre rochedos, um valezinho que leva a um espaço coberto de relva. No meio, erguiam-se duas grandes pedras, gastas e tão afiladas nas pontas que pareciam as garras corroídas de alguma fera monstruosa. Correspondia, em todos os pontos, à descrição do local da tragédia. Sir Henry ficou muito interessado e, mais de uma vez, perguntou a Stapleton se realmente acreditava na possibilidade de interferência sobrenatural nos assuntos humanos. Falava despreocupadamente, mas via-se que levava aquilo a sério. Stapleton respondia cautelosamente, mas era fácil perceber-se que dizia menos do que pensava, ou que não dizia tudo, em consideração ao baronete. Falou-nos de casos semelhantes, onde certas famílias tinham sofrido influência malévola, e deixou-nos com a impressão de que compartilhava da opinião popular a respeito do assunto.

No regresso, paramos para almoçar em Merripit, e foi aí que Sir Henry conheceu a Srta. Stapleton. Desde o momento em que a viu, pareceu profundamente atraído pela sua beleza, e parece-me que o sentimento é recíproco. Sir Henry falou de novo nela quando voltamos para casa, e desde então não se passou um dia sem que víssemos um dos dois irmãos. Eles vêm jantar aqui hoje à noite, e fala-se em irmos lá na semana seguinte. Era de se supor que um casamento fosse do agrado de Stapleton, mas, mais de uma vez, notei um olhar de grande desaprovação no seu rosto, quando Sir Henry dá muita atenção à jovem. Provavelmente o irmão é muito dedicado à irmã, e levaria uma vida isolada se ela o deixasse, mas seria o cúmulo do egoísmo procurar impedir um casamento tão brilhante. Apesar disso, tenho a certeza de que ele não deseja que a simpatia se transforme em amor, e várias vezes observei que se dá ao trabalho de evitar um tête-à téte. Por pensar nisso, as suas instruções a respeito de eu não deixar Sir Henry sair sozinho serão muito mais difíceis de cumprir, se um caso de amor vier se juntar às nossas dificuldades. Minha popularidade seria imediatamente prejudicada, caso eu seguisse ao pé da letra as suas ordens.

Outro dia — quinta-feira, para ser exato —, o dr. Mortimer almoçou conosco. Esteve escavando um túmulo em Long Down e descobriu um crânio pré-histórico, o que o encheu de alegria. Nunca vi entusiasta igual! Os Stapletons apareceram depois, e o bom dr. Mortirner nos levou até a Alameda de Teixos, a pedido de Sir Henry, para nos mostrar exatamente como tudo ocorrera na noite fatídica, E um passeio lúgubre, esse pela Alameda de Teixos, onde há duas altas sebes aparadas, com uma fina faixa de relva dc cada lado. Na outra extremidade, existe uma estufa em ruínas. A meio caminho, vê-se o portão que dá para a charneca, onde o velho acendeu o seu cigarro. E um portão branco, de madeira, com trinco. Do outro lado, estende-se a vasta planície. Lembrei-me da sua teoria sobre o caso e procurei imaginar como tudo ocorrera. Ao ficar ali parado, o velho viu qualquer coisa surgir da charneca, algo que o aterrorizou a ponto de fazê-lo perder a cabeça e correr, correr, até tom bar morto de medo e de exaustão. Ali estava o túnel longo e sombrio por onde fugira. Mas de quê? De algum cão pastor? Ou de um cão espectral, negro, silencioso, monstruoso? Hlaveria algum agente humano no caso? Saberia o pálido e vigilante Barryrnore mais do que quisera contar? Tudo muito vago, mas sempre havia, no fundo, a sombra do crime.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Fiquei conhecendo outro vizinho, depois que lhe escrevi: o Sr. Frankland, de Lafter Hall, que vive uns seis quilômetros ao sul da mansão. É um homem idoso, de rosto vermelho, cabelos brancos e ar colérico. Tem paixão pela lei inglesa e gastou grande parte da sua fortuna em demandas. Briga pelo simples prazer de brigar e está pronto a assumir qualquer lado da questão, de modo que não é de admi rar que tenha aprendido ser esse um divertimento caro. Às vezes fecha uma estrada e desafia a paróquia a tornar a abri-la. De outras, com as suas próprias mãos, derruba o portão de entrada de outra propriedade, dizendo que existiu ali uma estrada desde tempos imemoriais, e incita o dono a acioná-lo por transgressão. É entendido em direito senhorial e direito comunal, e às vezes aplica os seus conhecimentos a favor dos aldeões de Fernworth, e outras, contra. Por isso, periodicamente é carregado em triunfo pela rua da vila, ou então queimam a sua efígie, conforme a última atuação. Dizem que no momento presente está envolvido em sete demandas. Provavelmente engolirão o resto da sua fortuna, tirando-lhe o veneno e tornando-o inofensivo. A não ser por essa mania pelas leis, é um homem bondoso, bem-humorado, e só o menciono porque disse que mandasse a descrição das pessoas que nos cercam. Atualmente, tem uma curiosa ocupação. Como é astrônomo amador, possui um bom telescópio, com o qual, do telhado da sua casa, varre a planície o dia todo, na esperança de descobrir o condenado evadido. Se fosse só isso, muito bem, mas corre o boato de que pretende mover ação contra o dr. Mortimer por ter aberto um túmulo sem o consentimento do parente mais próximo do falecido, pois o dr. Mortinier descobriu um crânio da Idade da Pedra num túmulo de Long Down. Ele impede que a nossa vida se torne monótona e fornece uma nota cômica, que alivia a tensão.

E agora, depois de lhe ter apresentado o condenado evadido, os Stapletons, o dr. Mortinier e Frankland, de Lafter HalI, deixe-me falar-lhe mais a respeito dos Barrymores e, especialmente, dos surpreendentes acontecimentos da noite passada.

Em primeiro lugar, falarei dos telegramas que mandou como teste, para se certificar se Barrymore se encontrava na mansão. Já expliquei que o testemunho do agente do telégrafo provou que o teste não tinha valor, e não possuíamos outra prova. Contei a Sir Henry o que acontecera e imediatamente, com o seu jeito franco, ele chamou o mordomo e lhe perguntou se recebera pessoalmente o telegrama. Barrymore respondeu que sim.

— O menino entregou-lhe pessoalmente o telegrama? — perguntou Sir Henry.

Barrymore pareceu surpreso e ficou pensando alguns segundos.

— Não — disse. — Eu estava no sótão e minha mulher foi levar-me o telegrama.

— Foi você mesmo que respondeu?

— Não, senhor; disse a minha mulher o que devia responder, e ela desceu para escrever.

À noite, ele próprio voltou ao assunto.

— Não compreendi bem o objetivo do seu interrogatório hoje de manhã, Sir Henry — disse ele. — Espero que não signifique que fiz alguma coisa que desmereça a sua confiança!

Sir Henry viu-se obrigado a garantir lhe que não e apaziguou-o, dando-lhe considerável parte do seu guarda-roupa, pois já tinham chegado as encomendas de Londres.

A Sra. Barrymore me interessa bastante. E uma mulher pesada, sólida, muito limitada, profundamente respeitável e inclinada a ser puritana. Não se pode imaginar pessoa menos emotiva, já lhe contei que, na primeira noite após a minha chegada, ouvi-a soluçar amargamente, e depois disso mais de uma vez vi traços de lágrimas no seu rosto. Alguma profunda mágoa lhe dilacera o coração. Às vezes, fico pensando se terá algum remorso; outras, suspeito que Barrymore seja um tirano. Sempre achei que havia algo de singular e dúbio no caráter desse homem, e a aventura de ontem à noite fez com que se concretizassem as minhas suspeitas.

Apesar de tudo, talvez seja uma coisa sem importância. Você sabe que não durmo pesadamente, e, desde que estou de guarda aqui nesta casa, meu sono se tornou mais leve ainda. A noite passada, mais ou menos às duas da madrugada, acordei com passos furtivos diante do meu quarto. Levantei-me, abri a porta e espiei. Uma grande sombra negra manchava o chão do corredor, projetada por um homem que andava de mansinho, de calça e camisolão, e pés descalços. Só vi o vulto, mas a altura me provou que se tratava dc Barrymore. Ele andava lentamente e muito circunspecto, e havia algo de incrivelmente culpado e furtivo na sua atitude.

Já lhe disse que o corredor é interrompido pela galeria que circunda o saguão, mas recomeça do outro lado. Esperei até perdê-lo de vista e depois fui no seu encalço. Quando dei a volta à galeria, ele chegara ao fim do outro corredor; pude ver, pela claridade que vinha da porta aberta, que ele entrara num dos quartos. Ora, todos esses quartos estão sem mobília e desocupados, de modo que a expedição noturna se tornou ainda mais misteriosa. A luz brilhava calmamente, como se ele estivesse imóvel. Deslizei o mais mansamente possível pelo corredor e fui espiar à porta.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Vi Barrymore agachado perto da janela, com a vela contra a vidraça. Estava meio de perfil para mim e tinha o rosto rígido de expectativa, os olhos fixos na planície. Por alguns minutos, ficou em atenta observação. Depois, soltou um gemido profundo e, com um gesto impaciente, apagou a vela. Voltei imediatamente para o meu quarto; dali a instantes, ouvi de novo os passos furtivos, voltando. Muito mais tarde, quando já pegara no sono, ouvi uma chave girar cm alguma fechadura, mas não pude distinguir de onde vinha o som. Não sei o que tudo isso possa significar, mas há qualquer coisa secreta aqui nesta casa sombria, e, cedo ou tarde, teremos de averiguar. Não quero aborrecê-lo com as minhas teorias, pois só me pediu que lhe relatasse fatos. Tive uma longa conversa com Sir Henry hoje de manhã, e fizemos um plano de campanha, baseados nas minhas observações de ontem à noite. Não falarei nele agora, mas creio que isso tornará o meu próximo relatório interessante.”

The Hound of the Baskervilles, 1902

Capítulo 1: Sherlock Holmes § Capítulo 2: A maldição dos Baskervilles
Capítulo 3: O problema § Capítulo 4: Sir Henry Baskerville
Capítulo 5: Três fios partidos § Capítulo 6: Baskerville Hall
Capítulo 7: Os Stapletons da Casa Merripit § Capítulo 8: Primeiro relatório do dr. Watson
Capítulo 9: Segundo relatório do dr. Watson – Luz na charneca
Capítulo 10: Extratos do diário do dr. Watson § Capítulo 11: O homem na rocha
Capítulo 12: Morte na charneca § Capítulo 13: Armando a rede
Capítulo 14: O cão dos Baskervilles § Capítulo 15: Retrospecto

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock