O cão dos Baskervilles – Capítulo 11

Arthur Conan Doyle

O cão dos Baskervilles
Capítulo décimo primeiro

Título original: The Hound of the Baskervilles
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1901-02.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Hound of the Baskervilles publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo décimo primeiro: O homem na rocha

O trecho do meu diário que formou o último capítulo levou a minha narrativa ao dia 18 de outubro, data em que os estranhos acontecimentos começaram a avançar para o seu terrível desenlace. Os incidentes do dia seguinte estão indelevelmente gravados na minha memória, e posso narrá-los sem recorrer às notas que tomei na ocasião. Começarei, então, pelo dia seguinte àquele em que ficaram estabelecidos dois fatos de grande importância: o primeiro, que Laura Lyons escrevera a Sir Charles Baskerville, marcando encontro no lugar e na hora em que ele morreu; o segundo, que o homem que se escondia na charneca fora encontrado nas cabanas de pedra, na encosta do morro. De posse desses dois fatos, achei que ou a minha inteligência ou a minha coragem seriam deficientes se não conseguisse lançar uma luz nesses pontos obscuros.

Não tinha tido oportunidade de contar a Sir Henry, na noite anterior, o que soubera a respeito de Laura Lyons, pois o dr. Mortimer ficara jogando com ele até tarde. Mas na hora do café, no dia seguinte, informei-o da minha descoberta e perguntei-lhe se desejava acompanhar-me a Coombe Tracy. A princípio ele mostrou um grande desejo de ir, mas, refletindo melhor, achamos que talvez eu obtivesse mais resultados se fosse sozinho. Quanto mais formal fosse a visita, menos informações obteríamos. Deixei Sir Henry em casa, não sem dor de consciência, e parti.

Ao chegar a Coombe Tracy, eu disse a Perkins que desse descanso aos cavalos e fui procurar saber o endereço da senhora que eu desejava interrogar. Não tive dificuldades em encontrar a sua residência, que era no centro, bem localizada. Uma criada introduziu-me sem cerimônia. Quando entrei na sala, a senhora que estava sentada diante de uma Remington levantou-se vivamente, com um sorriso de boas-vindas. Sua expressão mudou, quando viu que se tratava de um estranho.

Sentou-se novamente e perguntou-me qual o fim da minha visita.

A primeira impressão que ela causava era de grande beleza. Seus olhos e seus cabelos possuíam o mesmo belo tom castanho, e as faces, embora manchadas de sardas, tinham o colorido das morenas, o avermelhado que vive no coração de uma rosa. A minha primeira impressão foi, pois, de admiração. A segunda, de crítica. Havia qualquer coisa de sutilmente errado naquele rosto, uma vulgaridade de expressão, uma dureza no olhar, talvez um descair dos lábios, que faziam com que a beleza perfeita ficasse prejudicada. Mas, naturalmente, esses pensamentos foram posteriores. Naquela altura eu sabia apenas que estava na presença de uma mulher extremamente bela, que me perguntava o objetivo da minha visita. Até aquele momento, eu ainda não compreendera o quanto era delicada a minha missão.

— Tenho o prazer de conhecer seu pai — disse eu. Foi uma desastrada introdução, e a jovem fez-me sentir isso.

— Nada há de comum entre mim e o meu pai — disse ela. — Nada lhe devo, e os seus amigos não são meus amigos. Se não fosse devido ao falecido Sir Charles Baskerville e a outros corações generosos, eu poderia ter morrido de fome, que a ele pouco importava.

— É para falar sobre Sír Charles Baskerville que vim procurá-la.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

As sardas sobressaíram mais ainda no rosto da sr. Lyons.

— Que lhe posso dizer dele? — perguntou, batendo nervosamente com as pontas dos dedos na máquina de escrever.

— A senhora o conhecia, não conhecia?

— Já disse que devo muito à sua bondade. Se hoje sou capaz de me sustentar, devo-o, em grande parte, ao interesse que ele mostrou pela minha infeliz situação.

— Correspondia-se com ele?

A mulher ergueu vivamente a cabeça, com um brilho colérico nos olhos castanhos.

— Qual o objetivo dessas perguntas?

— Evitar um escândalo. É melhor perguntar agora do que mais tarde, quando o caso já não estiver nas nossas mãos.

Ela ficou em silêncio, muito pálida. Finalmente ergueu os olhos, com expressão de desafio.

— Bem, responderei. Quais são as perguntas?

— Correspondia-se com Sir Charles?

— Escrevi-lhe uma ou duas vezes, para agradecer a sua delicadeza e generosidade.

— Sabe a data dessas cartas?

— Não sei.

— Teve encontros com ele?

— Sim, uma ou duas vezes, quando veio a Coombe Tracy. Era muito reservado e preferia fazer o bem sem aparecer.

— Mas, se lhe escreveu tão raramente e se ele a viu tão poucas vezes, como se explica que conhecesse os seus problemas a ponto de ajudá-la, como a senhora diz que a ajudou?

Ela esclareceu esse ponto imediatamente.

— Muitos cavalheiros conheciam a minha triste história e uniram-se para me auxiliar. Um deles foi o sr. Stapleton, vizinho e íntimo amigo de Sir Charles. E muito bondoso, e foi por seu intermédio que Sir Charles ficou sabendo da minha situação financeira.

Eu já sabia que Sir Charles encarregara várias vezes Stapleton de distribuir seus donativos, de modo que as palavras de Laura Lyons pareciam verdadeiras.

— Escreveu alguma vez a Sir Charles, marcando um encontro com ele?

De novo ela corou, encolerizada.

— Realmente, senhor, é uma pergunta extraordinária.

— Sinto muito, minha senhora, mas sou obrigado a insistir.

— Então respondo: claro que não.

— Nem mesmo no dia da morte de Sir Charles?

O rubor do rosto foi substituído por uma palidez mortal. Os lábios secos não puderam pronunciar o “não” que eu mais vi do que ouvi.

— Com certeza a sua memória a engana disse eu. — Posso mesmo citar um trecho da carta: “Por favor, por favor, se for um cavalheiro, queime esta carta e esteja no portão, às dez horas”.

Pensei que ela fosse desmaiar, mas dominou-se com um supremo esforço.

— Será que neste mundo não existe um cavalheiro? — exclamou, ofegante.

— Está sendo injusta para com Sir Charles — repliquei. — Ele queimou a carta. Mas às vezes uma carta pode continuar legível, mesmo depois de queimada. Confessa que a escreveu?

— Sim, escrevi — respondeu ela, desabafando a alma numa torrente de palavras. Escrevi. Por que hei de negá-lo? Não tenho do que me envergonhar. Queria que ele me ajudasse. Achava que, se conseguisse uma entrevista, Sir Charles me ouviria, de modo que pedi que viesse ao meu encontro.

— Mas por que àquela hora?

— Porque acabava de saber que ele ia para Londres no dia seguinte e poderia ficar fora meses… Havia razões que me impediam de ir até lá mais cedo.

— Mas por que uma entrevista no jardim, em vez de uma visita à mansão?

— Acha que uma mulher poderia ir só, àquela hora, à casa de um homem solteiro?

— Pois bem, que aconteceu quando lá chegou?

— Não fui.

— Sra. Lyons!

— Não fui, juro pelo que tenho de mais sagrado. Não fui. Houve um impedimento.

— Que impedimento foi esse?

— É um assunto particular. Não posso dizer.

— Reconhece, então, que marcou um encontro com Sir Charles à hora e no local da sua morte, mas nega que tenha comparecido?

— É essa a verdade.

Fiz-lhe muitas outras perguntas, mas não consegui apanhá-la em contradição. Ergui-me, dizendo:

— Sra. Lyons, a senhora está assumindo uma grande responsabilidade e colocando-se numa posição falsa, não contando tudo o que sabe. Se eu pedir o auxílio da polícia, verá como está seriamente comprometida. Se é inocente, por que negou, a princípio, que tivesse escrito a Sir Charles?

— Temi que tirassem conclusões errôneas e eu me visse envolvida num escândalo.

— E por que fazia tanta questão de que Sir Charles destruísse a carta?

— Se a leu, o senhor deve saber por quê.

— Não li a carta toda.

— Citou um trecho — disse ela.

— Citei o post scriptum. A carta, como já disse, fora queimada, e não era toda legível. Pergunto-lhe mais urna vez por que fazia tanta questão de que Sir Charles destruísse a carta que recebeu no dia da sua morte!

—  É um assunto particular.

— Mais uma razão para querer evitar uma investigação pública.

— Vou contar-lhe, então. Se é que ouviu alguma coisa sobre a minha infeliz história, deve saber que me casei sem pensar bem e que tive razões para me arrepender disso.

— Foi o que me contaram.

— Minha vida tem sido uma constante perseguição por parte de um marido que detesto. A lei está do lado dele, e todos os dias entrevejo a possibilidade de ele querer me forçar a voltar para a sua companhia. Quando escrevi a Sir Charles, eu soubera que havia a probabilidade de recuperar a liberdade, se pudesse arcar com as despesas. Isso significava tudo para mim. . . tranquilidade de espírito, felicidade, auto-respeito… tudo, enfim. Conhecia a generosidade de Sir Charles, e achei que, se ele ouvisse a minha história dos meus próprios lábios, me ajudaria.

— Então por que não foi à entrevista?

— Porque, nesse meio tempo, recebi auxílio de outro lado.

— Então por que não escreveu a Sir Charles, explicando-lhe o que acontecera?

— É o que teria feito, se não visse a notícia de sua morte no jornal, no dia seguinte.

A história era coerente, e nenhuma das minhas perguntas conseguiu fazer com que a mulher caísse em contradição. Eu só poderia tirar a prova verificando se de fato ela instituíra processo de divórcio contra o marido, na ocasião da tragédia.

Não era possível ela afirmar que não fora a Baskerville, se tivesse ido. Para isso precisaria ter tomado urna charrete, e não poderia ter voltado para Coombe Tracy antes do amanhecer. Tal excursão não se manteria secreta. A probabilidade, portanto, era de a sra. Lyons estar dizendo a verdade, ou, pelo menos, parte da verdade. Saí de lá perplexo e esmorecido. Mais uma vez chegara a um muro alto, que parecia obstruir todos os caminhos, quando tentava atingir o objetivo de minha missão.

Apesar disso, quanto mais me lembrava do rosto da sra. Lyons, mais forte se tornava a minha impressão de que ela me ocultara qualquer coisa. Por que ficara tão pálida? Por que se recusara a dizer a verdade, até eu conseguir arrancá-la dos seus lábios? Por que ficara calada na ocasião da tragédia? Com certeza a explicação não era tão inocente como ela desejaria que eu acreditasse. Naquele momento, eu não podia avançar nessa direção, e tinha de me voltar para a outra pista, que parecia existir nas cabanas de pedra dos morros.

E isso era muito vago. Foi o que compreendi quando, ao voltar, vi, em vários morros, sinais de que lá vivera um povo antigo. Barrymore dissera apenas que o homem desconhecido morava numa daquelas casinhas abandonadas e havia centenas espalhadas pelos morros. Mas eu tinha a minha própria experiência por guia, já que vira o homem no cume de Black Tor. Ali, portanto, iniciaria a minha busca. Depois, exploraria todas as cabanas, uma a uma, até encontrar o que procurava. Se o homem estivesse lá dentro. eu faria com que me contasse (sob a ameaça de um revólver, se preciso) quem era ele e por que nos perseguia há tanto tempo. Ele poderia fugir no meio do povo, na Regent Street, mas seria mais difícil escapar ali na charneca deserta. Por outro lado, se eu encontrasse a cabana e o ocupante estivesse ausente, ficaria ali, por mais longa que fosse a espera, até que ele voltasse. Holmes perdera-o de vista, em Londres. Seria um triunfo, para mim, desmascará-lo, depois de o meu mestre ter fracassado.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

A sorte estivera contra nós desde o princípio, mas finalmente veio em meu auxílio. O mensageiro da boa sorte não foi outro senão o sr. Frankland, que, rubro e de suíças grisalhas, estava de pé no portão do seu jardim, que dava para a estrada principal por onde eu ia passar.

— Bom dia, dr. Watson — exclamou, com desusado bom humor. — Precisa dar descanso ao cavalo. Entre para tornar um copo de vinho e felicitar-me.

Meus sentimentos estavam longe de lhe ser favoráveis, depois que eu soubera da sua maneira de tratar a filha, mas estava aflito para mandar Perkins e a carruagem para casa. de modo que a ocasião me pareceu propícia. Desci e mandei dizer a Sir Henry que voltaria a pé e chegaria a tempo para o jantar. Depois, acompanhei Frankland até a sala de jantar.

— É um grande dia para mim, senhor, um dos maiores da minha vida! — exclamou ele, estalando a língua. — Consegui realizar dois feitos. Quero ensinar a essa gente que lei é lei e que há aqui um homem que não tem medo de fazer com que seja respeitada. Consegui estabelecer o uso público de um caminho no meio do parque do velho Middleton, bem no meio, dr. Watson, a cem metros da porta da casa dele! Que me diz? . . . Isso ensinará esses magnatas a não desprezar os direitos dos pobres, que diabo! E fechei o bosque, onde o pessoal de Fernworthy costumava fazer piqueniques. Essa gente pensa que não existe direito de propriedade e que pode fervilhar por toda parte, com suas garrafas e papéis de embrulho. Os dois casos resolvidos, dr. Watson, e ambos a meu favor. Não tive outro dia mais feliz, desde que apanhei Sir John Morland como transgressor, por ter caçado nas suas próprias terras!

— Mas como diabo conseguiu isso?

— Veja o processo, vale a pena lê-lo. Frankland contra Morland, Tribunal de Queen’s Bench. Custou-me duzentas libras, mas consegui o meu veredicto.

— Teve alguma vantagem?

— Não, senhor, nenhuma. Sinto orgulho em dizer que não tinha o menor interesse no caso. Ajo inteiramente por dever cívico. Não duvido, por exemplo, de que o povo de Fernworthy queime hoje a minha efígie. A última vez que fizeram isso, eu disse à polícia do condado que devia pôr fim a essas vergonhosas exibições. A polícia do condado anda em mísero estado, senhor, e não me oferece a proteção que me é devida. O caso Frankland contra Regina chamará a atenção do público. Eu disse à polícia que eles haviam de se arrepender da sua maneira de me tratar. . . e as minhas palavras já estão se tornando realidade.

— Como assim? — perguntei.

O velho exibiu uma expressão astuta.

— Porque eu poderia dizer-lhes aquilo que estão loucos por saber; mas nada me induzirá a ajudar de novo aqueles miseráveis.

Eu procurava uma desculpa para escapar àquele falatório, mas então fiquei com vontade de ouvir mais. Conhecia suficientemente o velho pecador para saber que a maneira mais certa de interromper suas confidências seria mostrar interesse.

— Caso de caça em terreno proibido, com certeza? — perguntei com displicência.

— Ah, ah! meu rapaz, muito mais importante do que isso! O que me diz do condenado, na charneca?

Tive um sobressalto.

— Não vai me dizer que sabe onde ele está?

— Talvez não saiba exatamente onde está, mas poderia ajudar a polícia a prendê-lo. Nunca pensou que a melhor maneira de apanhar aquele homem seria descobrir onde arranja comida e, depois, acompanhar a pessoa que fosse levá-la?

Não havia dúvida de que, para nosso desconforto, o velho estava chegando perto da verdade.

— Tem razão; mas como sabe que ele está na charneca?

— Sei, porque vi com os meus próprios olhos o mensageiro que vai lhe levar comida.

Fiquei frio, pensando em Barrymore. Era coisa séria estar nas garras daquele velho, intrometido e despeitado. Mas sua observação seguinte me tirou um peso do coração.

— O senhor ficará admirado ao saber que quem lhe leva comida é um menino. Tenho-o visto todos os dias com o meu telescópio, lá do telhado. Passa pelo mesmo caminho e à mesma hora, e a quem levaria ele comida, a não ser ao condenado?

Eu estava com sorte, não havia dúvida! Apesar disso, não demonstrei o mínimo interesse. Uma criança! Barrymore dissera que o desconhecido era servido por um menino. Frankland estava na pista desse desconhecido, não na do condenado. Se eu conseguisse que me desse informações, ver-me-ia livre de uma busca provavelmente longa e cansativa. Mas a incredulidade e a indiferença eram as minhas armas mais fortes.

— Acho que seria mais natural tratar-se do filho de um pastor, que levasse comida ao pai.

A menor sombra de oposição inflamava o velho. Seus olhos me fitaram venenosamente, e as suíças grisalhas estremeceram como o bigode de um gato.

— Sim, senhor! — exclamou, apontando para a charneca. — Está vendo, lá adiante, o Black Tor? Vê o morro baixo, mais longe? E a parte mais rochosa da charneca. E para ali que um pastor levaria o seu rebanho? Sua sugestão, senhor, é verdadeiramente absurda.

Respondi mansamente que falara sem conhecer os fatos. A minha submissão agradou-lhe e levou-o a novas confidências.

— Pode ter certeza de que só falo com base — declarou ele. — Vi o garoto inúmeras vezes, com os seus pacotes. Frequentemente duas vezes por dia… Mas, espere um momento, dr. Watson, meus olhos se enganam ou algo se move neste momento por aquela encosta?

Estávamos a quilômetros de distância, mas consegui distinguir um pontinho negro contra a elevação cinzenta.

— Venha, venha! — exclamou Frankland, correndo para cima. — Verá com os seus próprios olhos e julgará por si mesmo.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

O telescópio, formidável instrumento sobre um tripé, ficava na parte chata do telhado de ardósia, Frankland soltou um grito de satisfação.

— Depressa, dr. Watson, depressa, antes que ele desapareça!

Lá estava, sem a menor dúvida, um garoto com um embrulho nos ombros, subindo lentamente o morro. Quando chegou ao cume, vi sua silhueta contra o céu azul. Ele olhou à volta, com um jeito furtivo, como se temesse ser seguido. Depois desapareceu.

— Então? Não tinha razão?

— Sem a menor dúvida, e o rapaz parece cumprir uma missão secreta.

— E essa missão secreta poderia ser descoberta até mesmo por um guarda rural! Mas nem uma só palavra ouvirão de mim, e obrigo-o ao sigilo, dr. Watson. Nem um pio, está ouvindo? Compreende?

— Como quiser.

— Eles me trataram vergonhosamente, vergonhosamente. Quando os fatos ficarem conhecidos, no caso Frankland contra Regina, creio que um murmúrio de indignação percorrerá todo o país. Nada me induzirá a ajudar a polícia, aconteça o que acontecer. Pela polícia, o povo poderia me queimar, em lugar da minha efígie! Mas não vá embora já, tão cedo! Precisa me ajudar a esvaziar a garrafa, em honra deste grande dia!

Resisti ao convite e consegui dissuadi-lo, quando se propôs a me acompanhar até a mansão. Continuei pela estrada, enquanto calculava que os seus olhos me seguiam; depois, entrei na charneca e me dirigi para o morro, onde vira desaparecer o garoto. Tudo estava a meu favor; jurei que, se perdesse a oportunidade que o destino me dava, não seria por falta de energia ou de perseverança.

O sol morria, quando cheguei ao cume do morro. havia uma leve neblina na linha do horizonte, onde sobressaíam as formas fantásticas de Belliver e Vixen Tor. Na planície, não havia som ou movimento. Um grande pássaro, urna gaivota, talvez, voou contra o céu azul. O pássaro e eu parecíamos os únicos seres vivos, entre o vasto céu e a charneca deserta. O cenário estéril, a sensação de solidão, o mistério e a urgência da minha missão fizeram com que eu sentisse um frio na alma. Não via o garoto cm parte alguma. Mas lá embaixo, numa fenda dos morros, havia um círculo de velhas cabanas de pedra, e, no meio, notei unia que tinha uma parte suficiente de telhado para servir de proteção. Meu coração pulou de alegria. Devia ser ali o abrigo do desconhecido. Final mente eu estava com o pé na soleira do esconderijo: seu segredo estava ao alcance das minhas mãos.

Ao me aproximar, caminhando cautelosamente, como faria Stapleton ao perseguir uma borboleta com a sua rede, verifiquei que a cabana estava de fato sendo utilizada como habitação. Uma vereda maldefinida, no meio dos seixos, levava a uma abertura dilapidada, que servia de porta. Dentro, silêncio. Um desconhecido poderia estar ali, à espreita, ou talvez andasse rondando pelo campo. Meus nervos vibraram com a sensação de aventura. Jogando fora o cigarro, apertei o cano do revólver e, caminhando rapidamente até a porta, olhei para dentro. A cabana estava vazia.

Mas havia amplos sinais de que eu não seguia uma pista falsa. Indubitavelmente era ali que se abrigava o homem. Alguns cobertores e unia capa de borracha estavam em cima da laje, onde outrora dormira o homem neolítico. No fogão grosseiro, havia cinzas. Ao lado, utensílios de cozinha e um balde meio cheio de água. Urna pilha de latas vazias indicava que o lugar já estava habitado havia algum tempo e. quando os meus olhos se habituaram àquela luz fraca, vi um copo de metal e urna garrafa dc bebida alcoólica, a uni canto. No meio da cabana, uma pedra chata que servia de mesa e, em cima, urna sacola de pano — provavelmente aquela que víramos, pelo telescópio, no ombro do garoto. Dentro havia um pão, uma língua em conserva e duas latas de compota de pêssegos. Quando larguei o embrulho, após o exame, meu coração deu uni salto, pois embaixo havia uni papel com qualquer coisa escrita. Ergui-o e li, em letra rabiscada: “O dr. Watson foi a Coombe Tracy”.

Fiquei por um momento com o papel nas mãos, procurando descobrir o sentido de tão curta mensagem. Era então eu, e não Sir Henry, o homem perseguido pelo misterioso indivíduo. Ele não me seguira, mas pusera um cúmplice — o garoto, provavelmente — no meu encalço, e ali estava o seu relatório. Com certeza todos os meus passos tinham sido observados, desde que viera de Londres. Estava explicada aquela sensação de força oculta, de rede fina a nos cercar com habilidade e delicadeza, prendendo-nos tão levemente, que só num momento supremo compreenderíamos que estávamos sendo envolvidos pelas suas malhas.

já que havia um relatório, devia haver outros, e por isso dei uma busca na cabana. Mas não havia sinal de coisa alguma desse gênero, nem descobri objetos que servissem de indício quanto às intenções do homem que vivia num lugar tão singular. Percebi apenas que tinha hábitos espartanos e que não devia se importar com conforto. Quando me lembrei das chuvas pesadas e olhei para o teto furado, compreendi como devia ser forte e imutável o objetivo que o trouxera para aquele lugar Inóspito. Seria ele nosso inimigo, ou, por acaso, anjo da guarda? Jurei não sair da cabana antes de saber a resposta.

Lá fora, o sol morria, tingindo o céu de rubro e ouro. Seus reflexos formavam manchas escuras nas poças distantes, no centro do atoleiro de Grimpen. Lá estavam as duas torres de Baskerville Hall; e um pouco de fumaça, ao longe, indicava a aldeia de Grimpen. Entre as duas, atrás do morro, ficava a casa de Stapleton. Tudo suave e tranquilo, à luz dourada da tarde, mas a minha alma não compartilhava da paz da natureza. Estremeci, ao pensar no vago e terrível encontro que se aproximava. Com os nervos à flor da pele, mas uma vontade férrea, sentei-me a um canto escuro da cabana e esperei, com sombria paciência, a chegada do seu ocupante.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Finalmente, ouvi-o. Ao longe, o som de uma bota, batendo na pedra. Depois, outro e mais outro. Encolhi-me no canto mais escuro, com o revólver pronto, metido no bolso, disposto a não me denunciar até ter oportunidade de ver o desconhecido. Houve uma longa pausa, indicando que ele parara. Depois, passos novamente, e uma sombra obscureceu a entrada da cabana.

— Linda tarde, caro Watson — disse uma voz muito conhecida. — Acho que se sentirá mais confortável aqui fora do que aí dentro.

 

 

 

The Hound of the Baskervilles, 1902

Capítulo 1: Sherlock Holmes § Capítulo 2: A maldição dos Baskervilles
Capítulo 3: O problema § Capítulo 4: Sir Henry Baskerville
Capítulo 5: Três fios partidos § Capítulo 6: Baskerville Hall
Capítulo 7: Os Stapletons da Casa Merripit § Capítulo 8: Primeiro relatório do dr. Watson
Capítulo 9: Segundo relatório do dr. Watson – Luz na charneca
Capítulo 10: Extratos do diário do dr. Watson § Capítulo 11: O homem na rocha
Capítulo 12: Morte na charneca § Capítulo 13: Armando a rede
Capítulo 14: O cão dos Baskervilles § Capítulo 15: Retrospecto

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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