O cão dos Baskervilles – Capítulo 12

Arthur Conan Doyle

O cão dos Baskervilles
Capítulo décimo segundo

Título original: The Hound of the Baskervilles
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1901-02.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Hound of the Baskervilles publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo décimo segundo: Morte na charneca

Por um ou dois minutos, fiquei de respiração suspensa, mal podendo acreditar nos meus ouvidos. Depois, voltei a mim, e o peso da responsabilidade pareceu de repente ter sido retirado dos meus ombros. Aquela voz fria, incisiva, irônica, só podia pertencer a um homem neste mundo.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— Holmes! — exclamei. — Holmes!

— Venha – disse ele. E, por favor, cuidado com o revólver.

Agachei-me sob o batente tosco e lá estava ele, sentado numa pedra, com um brilho divertido nos olhos cinzentos, que fitavam meu rosto atônito. Estava magro e abatido, mas firme e alerta, com o rosto queimado pelo sol e enrijecido pelo vento. De terno de tweed e boné de pano, parecia um turista qualquer, e conseguira, com o amor à limpeza que era uma das suas qualidades características, manter o rosto tão bem barbeado e a roupa tão limpa como se estivesse em Londres.

— Nunca senti maior prazer em ver uma pessoa — disse eu, apertando-lhe a mão.

— Nem maior espanto, hein?

— Confesso que sim.

— Pois a surpresa não foi só do seu lado, garanto. Não imaginei que você tivesse descoberto o meu retiro, menos ainda que me esperasse aqui dentro, a não ser quando cheguei a seis metros da porta.

— As minhas pegadas, com certeza?

— Não, caro Watson, creio que não poderia reconhecer as suas pegadas, entre todas as pegadas do mundo. Se quiser mesmo me despistar, precisa mudar de marca de tabaco, pois, quando vejo um toco de cigarro Bradoley, Oxford Street, sei que meu amigo Watson está nas redondezas. Pode encontrá-lo ali no caminho. Você o jogou fora, com certeza, no momento em que investiu contra a cabana.

— Exatamente.

— Foi o que pensei, e, conhecendo a sua admirável tenacidade, fiquei convencido de que estava de emboscada, com uma arma na mão, esperando o regresso do ocupante da cabana. Então, pensou mesmo que eu era o criminoso?

— Não sabia quem você era e estava decidido a descobrir.

— Excelente, Watson! E como foi que me localizou? Com certeza me viu, na noite em que perseguiram o condenado, quando cometi a imprudência de deixar a lua se erguer atrás de mim?

— Sim, foi então que o vi.

— E com certeza examinou todas as cabanas, até chegar a esta, não?

— Não, seu garoto foi visto e me forneceu a pista.

— O velho do telescópio, provavelmente. Não sabia o que era, quando pela primeira vez vi a luz a brilhar nas lentes. — Holmes ergueu-se e olhou para dentro da cabana.

— Ah, vejo que Cartwright trouxe mantimentos. Que papel é este? Então você foi a Coombe Tracy?

— Fui.

— Para falar com Laura Lyons?

— Exatamente.

— Muito bem! Nossa busca tem seguido linhas paralelas, pelo que vejo, e, quando juntarmos os resultados, espero ter um conhecimento completo do caso.

— Pois bem, alegro-me do fundo do coração por vê-lo aqui, pois a responsabilidade e o mistério estavam se tornando excessivos para os meus nervos. Mas como é que você apareceu por aqui e o que andou fazendo? Pensei que estivesse na Baker Street, tratando daquele caso de chantagem.

— Era o que eu queria que pensasse.

— Então, você me utiliza, mas não confia em mim! — exclamei, com certa amargura. — Pensei que merecesse mais consideração, Holmes.

— Caro amigo, você foi de um valor incalculável neste caso, como em todos os outros, e peço-lhe que me perdoe, se lhe preguei uma peça. Para falar a verdade, foi em parte por sua causa que agi assim, e foi o fato de avaliar o perigo que você corria que me fez vir até aqui. Se eu estivesse hospedado com você e Sir Henry, evidentemente o meu ponto de vista seria o de vocês e a minha presença teria feito com que o nosso poderoso inimigo se pusesse em guarda. Estando aqui, pude me movimentar com uma liberdade que não teria se estivesse na mansão, e permaneci um fator desconhecido, pronto a jogar todo o meu peso no momento crítico.

— Mas por que guardar segredo de mim?

— O fato de você saber de nada adiantaria, e poderia levar à minha descoberta. Você poderia querer me contar algum fato, ou, com a sua bondade, lembrar-se de me trazer qualquer coisa para o meu conforto, e assim correríamos um risco desnecessário. Trouxe comigo Cartwright, lembra-se, o garoto do Expresso? E ele tem cuidado das minhas simples exigências: um pedaço de pão e um colarinho limpo. De que mais precisa o homem? Ele me fornece um par extra de olhos e um ativo par de pés, e isso tem sido de valor incalculável.

— Então os meus relatórios têm sido inúteis! — Minha voz tremia, ao lembrar-me do trabalho e do orgulho com que os escrevera.

Holmes tirou do bolso um monte de papéis.

— Aqui estão os seus relatórios, caro amigo, e bem manuseados, pode ter certeza. Tomei sérias providências, que só têm o atraso de um dia. Preciso felicitá-lo pela sua inteligência e pelo zelo demonstrados num caso tão difícil e extraordinário.

Eu ainda estava melindrado com a peça que me pregara Holmes, mas o calor do seu elogio fez com que minha cólera desaparecesse. No fundo, reconhecia que ele tinha razão e que era de fato preferível eu não ter sabido que ele se encontrava na charneca.

— E melhor assim disse ele, vendo que a minha expressão se desanuviava. — Agora, conte-me o resultado da sua visita a Laura Lyons. . . Não me é difícil saber que foi lá para vê-la. Além disso, é a única pessoa em Coombe Tracy que pode nos servir. Para ser exato, se você não tivesse ido lá hoje, com toda a certeza eu iria amanhã.

O sol se escondera e as sombras invadiam a planície. Esfriara. Entramos na cabana em busca de calor. Ali sentados, ao lusco-fusco, contei a Holmes minha conversa com a tal senhora. Tão interessado ele estava, que tive que repetir um ou dois trechos.

— Isso é muito importante — disse ele, quando terminei. — Faz desaparecer uma lacuna que eu não tinha podido preencher, em caso tão complexo. Sabe, provavelmente, que existe grande intimidade entre essa senhora e Stapleton, não?

— Não sabia disso.

— Não existe a menor dúvida. Encontram-se, escrevem-se, há um entendimento entre eles. Isso nos fornece uma arma poderosa. Se eu pudesse usá-la para afastar dele a mulher.

— Mulher?!

— Dou-lhe agora uma informação, em troca de todas as que me deu. A jovem que passou aqui por irmã de Stapleton é, na realidade, mulher dele.

— Deus do céu, Holmes! Tem certeza? Como é que ele permitiu que Sir Henry se apaixonasse por ela?

— A paixão de Sir Henry não poderia prejudicar ninguém, a não ser ele próprio. Stapleton teve o cuidado de não permitir que Sir Henry desse à jovem provas de amor, como você próprio observou. Garanto que ela é mulher dele e não irmã.

— E para que essa farsa?

— Porque ele viu que ela lhe seria muito mais útil como mulher livre.

Minhas vagas suspeitas tomaram corpo, centralizando-se no naturalista. Naquele homem impassível, incolor, de chapéu de palha e rede de caçar borboletas, tive a impressão de ver algo de terrível: uma criatura de infinita paciência e sagacidade, de rosto sorridente e coração assassino.

— Então é ele o nosso inimigo, o homem que nos perseguiu em Londres?

— E assim que interpreto o enigma.

— E aquele aviso. . . deve ter partido dela?

— Exatamente.

O espectro da monstruosa vilania, semivista, semi-adivinhada, saiu das sombras que durante tanto tempo a tinham envolvido.

— Mas tem certeza disso, Holmes? Como sabe que é mulher dele?

— Porque ele se distraiu a ponto de contar a você parte de sua biografia, quando se encontraram pela primeira vez. Garanto que se arrependeu muito disso, desde então. Ele foi mestre-escola no norte da Inglaterra. E nada mais fácil do que descobrir a pista de um mestre-escola. Há agências escolares onde se pode identificar um homem que exerceu a profissão. Urna pequena investigação me provou que, numa determinada escola, houve uma tragédia, e que o dono da escola (o nome era diferente) desaparecera com a mulher. A descrição de ambos combinava com a dos dois Stapletons. Quando eu soube que o desaparecido era apaixonado por entomologia, a identificação ficou completa.

O véu se erguia sobre o mistério, mas ainda havia sombras.

— Se essa mulher é de fato sua esposa, qual o papel de Laura Lyons? — perguntei.

— E esse um dos pontos sobre o qual a sua investigação lançou um pouco de luz. Sua entrevista com a tal senhora esclareceu bastante a situação. Eunão sabia do projetado divórcio entre ela e o marido. Nesse caso, considerando Stapleton solteiro, com certeza ela esperava se casar com ele.

— E quando ela souber?

— Ah, talvez então encontremos uma aliada. Nossa primeira obrigação será procurá-la amanhã … juntos. Não acha, Watson, que abandonou por muito tempo o seu protegido? O seu lugar é em Baskerville Hall.

A noite baixara sobre a charneca. Algumas estrelas começavam a brilhar no céu violeta.

— Mais uma pergunta, Holmes — disse eu, erguendo-me. —  Certamente não há necessidade de segredo entre nós. Que significa tudo isso? Atrás de que anda ele?

Holmes baixou a voz, ao responder.

— É assassinato, Watson, assassinato frio, deliberado, refinado. Não me peça pormenores. Minha rede está se fechando em volta dele como a dele em volta de Sir Henry, e, com o seu auxílio, meu amigo, depressa ele estará nas nossas mãos. Somente uni perigo nos ameaça, isto é: ele poderá (lar O seu golpe antes de estarmos prontos para dar o nosso. Mais um dia… dois, no máximo, e o meu caso estará completo. Até lá, vigie o seu protegido, como mãe carinhosa que zelasse pelo filho doente. Sua missão justificou-se hoje, mas eu gostaria que não o tivesse abandonado… Escute!

Um grito terrível, um prolongado grito de horror e angústia, quebrou o silêncio do campo. O sangue gelou-me nas veias.

— Meu Deus! —— exclamei. — Que é isso? Que significa?

Holmes pusera-se de pé. Vi sua silhueta escura, atlética, à porta da cabana, os ombros dobrados, a cabeça para a frente, os olhos espiando a escuridão.

— Psiu! — murmurou ele. — Psiu!

O grito soara alto, por sua veemência, mas viera de longe, da planície em sombras. Soou então mais perto, mais alto e mais urgente.

— Onde foi? — murmurou Holmes.

Percebi, pela vibração de sua voz que aquele homem de ferro estava profundamente abalado.

— Onde foi, Watson? — insistiu ele.

— Ali, creio — respondi, apontando para a escuridão.

— Não; mais para lá!

De novo o grito agoniado quebrou o silêncio da noite, mais alto e cada vez mais perto. A ele se juntou outro som, um rosnar profundo, musical e, apesar disso, ameaçador, subindo e descendo como o murmúrio baixo e constante do mar.

— O cão! — exclamou Holmes. Venha, Watson, venha! Deus do céu, se chegarmos tarde demais…

Começou a correr pela charneca, e fui no seu encalço. Diante de nós, de algum ponto do terreno acidentado, subiu um último grito desesperado, depois ouvimos o ruído de uma queda. Nenhum outro som quebrou o pesado silêncio da noite parada.

Vi Holmes passar a mão pela testa como que aturdido. Bateu o pé no chão, dizendo:

— Ele tornou a dianteira, Watson. É tarde demais.

— Não diga isso!

— Que tolo fui em adiar o golpe! E você, Watson, veja o que aconteceu por ter abandonado o seu protegido! Mas, por Deus, se o pior tiver acontecido, saberei vingá-lo!

Saímos às cegas pela noite escura, batendo em pedras, penetrando nas moitas de urzes, ofegantes ao galgar colinas, correndo ao descê-las, sempre nos dirigindo para o ponto de onde haviam partido os pavorosos sons. Todas as vezes em que subia uma colina, Holmes olhava ansioso em volta, mas as sombras eram profundas e nada se movia nos campos que nos cercavam.

— Vê alguma coisa?

— Nada.

— Mas, preste atenção, o que é isso?

Um gemido baixo nos ferira o ouvido. Ali à nossa esquerda! Daquele lado, uma cadeia rochosa terminava num penedo íngreme, que dominava uma rampa salpicada de pedras. Ali, esparramada no chão, estava uma massa escura, irregular. Para lá corremos, e o vago contorno se definiu. Um homem estava caído de bruços, com a cabeça dobrada sob o corpo num ângulo terrível, os ombros arredondados, todo ele encolhido, como que preparado para um salto. Tão grotesca era a atitude, que no momento não compreendi que o gemido que ouvimos fora o seu último suspiro. O vulto negro sobre o qual nos debruçamos estava imóvel e absolutamente silencioso. Holmes apalpou-o e soltou um grito de horror. A luz do fósforo que acendeu brilhou nas roupas úmidas e na poça horrível que se formava ao lado, com o sangue que lentamente escorria do crânio esmagado da vítima. Nosso coração por um momento deixou de bater: era o corpo de Henry Baskerville!

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Nenhum de nós poderia ter esquecido aquele tipo singular de tweed avermelhado do terno com que Sir Henry nos visitara pela primeira vez, na Baker Street. Nós o vimos de relance; depois, o fósforo se apagou e também a esperança desapareceu dos nossos corações. Holmes gemeu, e seu rosto brilhou na escuridão.

— Miserável! Selvagem! — gritei, comprimindo as mãos. Oh, Holmes, nunca me perdoarei por tê-lo deixado por conta do destino.

— Sou mais culpado do que você, Watson. Para que o caso ficasse completo, permiti que meu cliente perdesse a vida. É o maior golpe de toda a minha carreira. Mas como poderia eu saber, como poderia eu saber que ele arriscaria a vida na charneca, à noite, apesar de todas as minhas advertências?

— Termos ouvido os seus gritos… meu Deus, que gritos! E não podermos salvá-lo! Onde está o maldito cão que o matou? Talvez esteja à espreita, atrás de uma rocha, neste momento. E Stapleton, onde está ele? Há de pagar por isso.

— Pagará. Deixe por minha conta. Tio e sobrinho foram assassinados; um morreu de susto, ao ver a fera que ele julgava sobrenatural, o outro caiu, ao fugir desesperadamente do perigo. Mas agora temos de provar a relação entre o homem e o animal. A não ser pelo que temos ouvido, não podemos nem mesmo jurar que a fera exista, uma vez que Sir Henry evidentemente morreu da queda. Mas juro!… por mais astuto que ele seja, o miserável estará em meu poder antes que se passe mais um dia!

Ficamos, amargurados, ao lado do corpo mutilado, abalados pelo desastre súbito e irreparável em que haviam culminado todos os nossos esforços. Depois, como surgisse a lua, subimos ao cume do morro de onde caíra o nosso amigo e de lá olhamos a planície meio prateada, meio cm sombras. Muito longe, na direção de Grimpen, brilhava uma luz única, firme e amarelada. Só poderia ser na solitária casa dos Stapletons. Soltando uma blasfêmia, sacudi o punho naquela direção.

— Por que não havemos de apanhá-lo imediatamente?

— Nosso caso não está completo. O homem é astuto e cauteloso ao máximo. Não basta o que sabemos, mas sim o que temos de provar. Se dermos um passo em falso, o bandido talvez escape.

— O que podemos fazer?

— Haverá muito o que fazer, amanhã. Hoje, só podemos prestar os últimos serviços ao nosso amigo.

Descemos e nos aproximamos do corpo, negro e nítido contra as pedras prateadas. A dor demonstrada por aqueles membros contraídos me cortou o coração, e meus olhos se umedeceram de lágrimas.

— Precisamos pedir auxílio, Holmes! Não podemos carregá-lo até a mansão. Deus do céu, está louco?

Holmes soltara um grito, debruçado sobre o corpo. Dançava agora, rindo e apertando-me a mão. Seria aquele o meu amigo frio e comedido? Fogo latente, com certeza!

— Barba! O homem tem barba!

— Barba?

— Não é o baronete… É… o meu vizinho, o condenado.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Viramos febrilmente o corpo, e a barba úmida apontou para a lua fria. Não podia haver dúvida quanto à testa abaulada, os olhos fundos e animalescos. Era. na verdade, o mesmo rosto que nos espiara à luz da vela, na fenda do rochedo: o rosto de Selden, o assassino.

Num instante, tudo ficou claro. Lembrei-me de que o baronete me contara que dera as suas roupas a Barrymore. Este passara-as para Selden, a fim de ajudá-lo a fugir. Sapatos, camisa, boné: tudo pertencera a Sir Henry. A tragédia ainda existia, mas pelo menos esse homem merecera a morte, de acordo com as leis do seu país. Contei o fato a Holmes com o coração cheio de alegria e gratidão.

— Então as roupas foram a causa da morte do desgraçado — disse ele. Não há dúvida de que deram ao cão urna peça de roupa de Sir Henry… provavelmente o sapato roubado no hotel, e ele perseguiu este homem, guiado pelo faro. Há uma particularidade: como é que Selden percebeu, no escuro, que o cão estava no seu encalço?

— Ouviu o, com certeza.

— Ouvir um cão, no campo, não deixaria um homem frio como o condenado em tal estado de pânico, a ponto de se arriscar a ser capturado e a gritar daquela maneira por socorro. Pelos gritos, deve ter corrido muito depois de ter percebido que o cão o perseguia. Como é que soube?

— Para mim, o maior mistério é que o cão, presumindo-se que as nossas conjecturas estejam certas…

— Não presumo coisa alguma.

— Pois bem, como é que o cão estava solto hoje à noite? Suponho que não ande em liberdade todas as noites. Stapleton não o soltaria, a não ser que julgasse que Sir Henry viria à charneca.

— A minha dificuldade é maior, pois creio que depressa teremos a explicação da sua, ao passo que a minha talvez permaneça para sempre um mistério. A questão agora é: o que faremos com o corpo do desgraçado? Não podemos abandoná-lo aqui, aos corvos e às raposas.

— Acho que devemos deixá-lo numa das cabanas, até avisarmos a polícia.

— Isso mesmo. Creio que nós dois poderemos levá-lo até lá. Atenção, Watson, o que é isto? É o homem, com a sua incrível audácia! Nem uma palavra sobre as nossas suspeitas… nem uma palavra, ou meus planos cairão por terra!

Um vulto se aproximava pela charneca. Vi o brilho rubro de um cigarro. O luar caiu sobre ele, e distingui o vulto baixo e o andar saltitante do naturalista. Parou quando nos viu, depois continuou.

— Olá, dr. Watson, é o senhor, não é? É o último homem que eu pensaria encontrar no campo, a uma hora destas. Mas, Deus meu, o que é isso? Uma pessoa ferida? Não… não me diga que é o nosso amigo Sir Henry.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Passou correndo perto de mim e inclinou-se sobre o morto. Ouvi urna exclamação ofegante, e o cigarro caiu dos seus dedos.

— Quem… quem é ele? — balbuciou.

— É Selden, o homem que fugiu de Princetown.

Stapleton voltou para nós o rosto lívido, mas com um supremo esforço conseguiu disfarçar o espanto e o desapontamento. Olhou vivamente de Holmes para mim.

— Deus meu! Que coisa horrorosa! Como é que morreu?

-— Parece que quebrou o pescoço, ao cair de urna dessas rochas. Meu amigo e eu passávamos pela charneca, quando ouvimos um grito.

— Também ouvi um grito. Foi o que me trouxe aqui. Estava inquieto a respeito de Sir Henry.

Não pude deixar de perguntar:

— Por que de Sir Henry em particular?

— Porque tinha sugerido que fosse nos visitar. Como não apareceu, fiquei apreensivo, e, naturalmente, ao ouvir gritos, alarmei-me. Por falar nisso. . . — e olhou para Holmes. . . — ouviram mais alguma coisa além dos gritos?

— Não respondeu Holmes. O senhor ouviu?

— Não.

— Por que pergunta, então?

— Oh, os senhores conhecem as histórias que contam os camponeses a respeito de um cão fantasma. Dizem que é ouvido à noite, na planície. Fiquei pensando se teria havido qualquer coisa nesse sentido, hoje.

— Não ouvimos nada — disse eu.

— Qual a sua teoria sobre a morte do pobre homem?

— Tenho certeza de que foi a ansiedade e o medo de ser recapturado que o puseram fora de si. Correu como louco pelos campos e caiu, quebrando o pescoço.

— Parece razoável — disse Stapleton, com um suspiro que me pareceu de alívio. — O que diz a isso, sr. Holmes?

Meu amigo inclinou-se, felicitando-o.

— O senhor é rápido nas identificações disse ele. Estamos à sua espera desde que o dr. Watson veio para cá. Chegou a tempo de presenciar uma tragédia.

— Sim, realmente. Tenho certeza de que as declarações do meu amigo bastarão no inquérito. Quanto a mim, levarei recordações desagradáveis, quando voltar para Londres, amanhã.

— Ah, vai voltar para Londres?

— É a minha intenção.

— Espero que sua visita tenha lançado um raio de luz nas ocorrências que nos têm deixado tão perplexos.

Holmes encolheu os ombros.

— Nem sempre podemos ter o sucesso que esperamos. Um investigador precisa de fatos, não de lendas e boatos. Não foi um caso satisfatório.

Meu amigo falava de maneira franca e despreocupada. Stapleton continuava a fitá-lo com firmeza. Depois, voltou- se para mim.

— Poderia sugerir que levassem o infeliz para minha casa, mas minha irmã ficaria tão assustada que não me julgo com o direito de fazê-lo. Acho que, se lhe cobrirmos o rosto, não haverá perigo em ficar aqui até amanhã.

Assim fizemos. Recusando a hospitalidade de Stapleton, Holmes e eu nos dirigimos para Baskerville, deixando que o naturalista voltasse para casa sozinho. Ao olhar para trás, vimos o vulto caminhar lentamente em direção à larga planície e divisamos, atrás dele, uma mancha escura, no chão prateado, no ponto onde estava o homem que encontrara morte tão horrenda.

— Tiremos as luvas, agora — disse Holmes, enquanto caminhávamos. — Que sangue-frio tem o sujeito! Como se dominou diante daquilo que deve ter sido um tremendo choque, ao ver que outra pessoa fora vítima de sua armadilha! Já lhe disse em Londres, Watson, e digo-lhe outra vez agora, que nunca tivemos inimigo mais digno de cruzar armas conosco.

— Sinto que ele o tenha visto.

— Também senti, a princípio. Mas não se podia ter evitado.

— Que influência acha que terá sobre os planos dele o fato de saber que você .está aqui?

— Poderá fazer com que se torne mais cauteloso, ou poderá levá-lo a tomar medidas desesperadas, imediatamente. Como a maioria dos criminosos inteligentes, é possível que tenha absoluta confiança na sua inteligência e julgue que nos enganou completamente.

— Por que não o prendemos imediatamente?

— Caro Watson, você nasceu para homem de ação. Seu instinto é fazer sempre qualquer coisa enérgica. Mas suponhamos, só como hipótese, que o prendêssemos hoje à noite. De que nos adiantaria? Nada podemos provar contra ele. Aí está a sua diabólica astúcia! Se ele agisse através de um ser humano, poderíamos conseguir provas, mas se trouxéssemos esse enorme cão à luz do dia, isso não nos ajudaria a pôr uma corda no pescoço do seu dono.

— Certamente temos um caso.

— Nem sombra de caso… apenas suspeitas e conjecturas. Ririam de nós, no tribunal, se aparecêssemos com semelhante história e tais provas.

— E a morte dc Sir Charles?

— Ele foi encontrado morto sem o menor sinal de violência. Você e eu sabemos que morreu de susto, e sabemos também o que foi que o assustou; mas como conseguir que doze jurados criteriosos acreditem nisso? Que sinais há de um cão? Onde estão as marcas das patas? Claro que sabemos que um sabujo não morde um cadáver, e que Sir Charles estava morto antes de a fera ter chegado a seu lado. Mas temos de provar isso, e não estamos em condições de fazê-lo.

— Pois bem, e agora, esta noite?

— Não estamos muito mais adiantados. Também não há, desta vez, ligação direta entre o cão e a morte do condenado. Nem vimos o cão. Apenas o ouvimos, mas não podemos dizer que andava no encalço desse homem. Há uma falta completa de motivo. Não, caro amigo; temos de compreender que, no momento presente, não temos um caso, e que vale a pena correr qualquer risco para conseguirmos estabelecer um.

— E de que maneira pretende consegui-lo?

— Tenho uma grande esperança no auxílio da sra. Laura Lyons, quando ficar inteirada dos fatos. E também tenho um plano. Por hoje, chega de tragédia; mas espero que não se passe outro dia sem que eu consiga, finalmente, dominar a situação.

Não consegui que me dissesse mais nada. Mergulhados nos nossos pensamentos, chegamos aos portões de Baskerville.

— Vai entrar? perguntei.

— Vou. Não há razão para me esconder. Mas, uma última palavra, Watson. Não diga nada a Sir Henrv a respeito do cão. Deixe que ele pense que Selden morreu acidentalmente, como Stapleton quis que pensássemos. Assim terá os nervos em melhor estado para suportar a prova por que terá de passar amanhã, quando for jantar com aquela gente, como está combinado, conforme você me contou no seu relatório.

— Ele e eu.

— Então apresente as suas desculpas, porque ele precisa ir sozinho. Será fácil. E agora, já que nos atrasamos para o jantar, creio que estamos prontos para a ceia.

The Hound of the Baskervilles, 1902

Capítulo 1: Sherlock Holmes § Capítulo 2: A maldição dos Baskervilles
Capítulo 3: O problema § Capítulo 4: Sir Henry Baskerville
Capítulo 5: Três fios partidos § Capítulo 6: Baskerville Hall
Capítulo 7: Os Stapletons da Casa Merripit § Capítulo 8: Primeiro relatório do dr. Watson
Capítulo 9: Segundo relatório do dr. Watson – Luz na charneca
Capítulo 10: Extratos do diário do dr. Watson § Capítulo 11: O homem na rocha
Capítulo 12: Morte na charneca § Capítulo 13: Armando a rede
Capítulo 14: O cão dos Baskervilles § Capítulo 15: Retrospecto

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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