O cão dos Baskervilles – Capítulo 14

Arthur Conan Doyle

O cão dos Baskervilles
Capítulo décimo quarto

Título original: The Hound of the Baskervilles
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1901-02.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Hound of the Baskervilles publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo décimo quarto: O cão dos Baskervilles

Um dos defeitos de Sherlock Holmes, se é que se pode chamar isso de defeito, era não comunicar os seus planos integralmente até o momento de pô-los em prática. Com certeza, isso vinha em parte do seu gênio dominador, que gostava de dirigir e surpreender os que se encontravam à sua volta. E em parte inha da sua cautela profissional, que o incitava a não se arriscar. Mas o resultado era muito irritante para aqueles que trabalhavam como seus agentes e assistentes. Eu mesmo tenho sofrido muito com isso, mas nunca tanto como naquela longa caminhada pela escuridão. A maior prova estava à nossa frente; íamos finalmente fazer um último esforço, e, apesar disso, Holmes nada dizia e eu apenas podia imaginar qual seria o seu plano de ação. Os meus nervos vibravam de ansiedade, até que, finalmente, o vento frio que nos batia no rosto e os espaços negros de cada lado da vereda nos provaram que estávamos de novo na charneca. Cada passo dos cavalos e cada volta das rodas nos levavam para mais perto da suprema aventura.

Nossa conversa era prejudicada pela presença do cocheiro do carro alugado, de modo que tínhamos de falar dc assuntos triviais, numa altura em que nossos nervos estavam tensos de emoção e expectativa. Senti um alívio quando, após aquele constrangimento, passamos pelo portão da casa de Frankland e vi que chegávamos perto de Baskerville e do terreno de ação. Não fomos de carro até a porta; descemos perto do portão da alameda. Pagamos cocheiro, mandamos que ele regressasse a Coombe Tracy e enveredamos pelo caminho que levava a Merripit.

— Está armado, Lestrade?

O pequeno detetive sorriu.

— Enquanto estiver de calças, tenho o meu bolso do lado, e, enquanto tiver o meu bolso do lado, tenho uma coisa dentro dele.

— Muito bem! Watson e eu também estamos preparados para qualquer emergência.

— Está sendo muito reservado a respeito desse assunto, sr. Holmes. Qual é o jogo?

— Jogo de espera.

— Por Deus, não é um lugar muito alegre — disse o detetive com um estremecimento, olhando para as lúgubres encostas dos morros e para o grande véu de neblina sobre o atoleiro de Grimpen. — Vejo à nossa frente as luzes de uma casa.

— E a Casa Merripit, e o final da nossa jornada. Peço-lhes que andem nas pontas dos pés e não falem a não ser por murmúrios.

Caminhamos cautelosamente pela vereda, como se nos dirigíssemos para a casa, mas Holmes nos deteve quando nos achávamos a duzentos metros.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— Até aqui, basta — disse ele. — Aquelas rochas à direita servem de ótimo esconderijo.

— Vamos esperar?

— Sim, ficaremos aqui de emboscada. Entre nesse buraco, Lestrade. Você conhece a casa por dentro, não conhece, Watson? Sabe a posição dos quartos? Que janelas são aquelas, de grade, do lado de cá?

— Creio que são as da cozinha.

— E a outra, onde brilha urna luz tão forte?

— É da sala de jantar.

— As cortinas estão erguidas. Você conhece melhor o terreno. Vá até lá de mansinho e veja o que estão fazendo, mas, pelo amor de Deus, não deixe que percebam que os está observando!

Fui na ponta dos pés até o muro baixo que cercava o pomar mirrado. Caminhando pela sombra, cheguei a um ponto de onde podia ver através das janelas sem cortinas.

Só havia dois homens na sala, Sir Henry e Stapleton. Estavam de perfil para mim, um de cada lado da mesa redonda. Ambos fumavam charutos, tendo à frente vinho e café. Stapleton falava com animação, mas o baronete estava pálido e distraído. Talvez pensasse, com apreensão, na volta solitária pela planície aziaga.

Stapleton ergueu-se e saiu da sala, enquanto Sir Henry enchia de novo o copo e se reclinava na cadeira, fumando. Ouvi o ruído de uma porta e o som áspero de sapatos no chão de pedra. Os passos repercutiam no caminho do outro lado do muro, atrás do qual eu me escondia. Espreitando por cima, vi o naturalista parar diante da porta de uma casinha, ao fundo do pomar. Uma chave girou na fechadura. Quando ele entrou, ouvi um ruído estranho lá dentro. Demorou-se apenas um minuto, depois ouvi de novo a chave girar e vi-o entrar novamente na casa. Vi-o ainda reunir se ao convidado, e fui então para perto dos meus amigos, contar o que presenciara.

— Quer dizer que a jovem não estava lá? — perguntou Holmes, quando acabei de falar.

— Não.

— Onde poderá estar, já que não há outra luz a não ser na cozinha?

— Francamente, não sei.

Já contei que havia uma neblina densa sobre o atoleiro de Grimpen. Vinha na nossa direção, e daquele lado formava uma parede baixa, mas pesada e bem definida. A lua brilhava, fazendo com que parecesse um campo de gelo, vendo-se ao longe, imprecisarnente, os montes rochosos. Holmes olhou para lá e resmungou com impaciência.

— Dirige-se para o nosso lado, Watson.

— Acha isso sério?

— Muito sério, a única coisa que poderia perturbar os nossos planos. Ele não poderá demorar, agora. Já são dez horas Nosso êxito e a vida do nosso amigo talvez dependam de ele sair de lá antes que a neblina atinja a vereda.

A noite estava bela e límpida sobre as nossas cabeças. As estrelas brilhavam e a meia-lua banhava o cenário com uma luz suave, incerta. Diante de nós erguia-se a casa, com as suas chaminés e o seu telhado denteado bem definido contra o céu prateado. Largas barras de luz dourada, vindas das janelas do andar térreo, desenhavam-se no chão, no pomar e no pântano. lima dessas lutes se apagou. Os empregados tinham saído da cozinha. Restava a lâmpada da sala de jantar, onde dois homens, o anfitrião assassino e o condenado in consciente, ainda conversavam, fumando.

A neblina aproximava-se cada vez mais. Já os primeiros tufos se encaracolavam sobre o quadrado de ouro da janela iluminada. A parede do fundo do pomar se tornara invisível, e as árvores pareciam surgir dc um redemoinho de vapor esbranquiçado. Coroas de nevoa vieram, arrastando-se em volta de ambos os cantos da casa, juntar-se lenta mente e formar uma densa nuvem, até que o andar superior e o telhado se transformaram numa espécie de navio estranho num mar sombrio. Holmes bateu com a mão na rocha à sua frente, raivosamente.

— Se ele não sair dentro de um quarto de hora, a vereda ficará coberta. E daqui a meia hora já no poderemos ver nem as próprias mãos à nossa frente.

— Vamos nos afastar um pouco, para um ponto mais alto?

— Sim, acho melhor.

Afastamo-nos até uns oitocentos metros da casa, mas, apesar disso, o mar denso e branco, com o friso prateado em cima, refletido pela lua, continuava lenta e inexoravelmente a vir para o nosso lado.

— Estamos nos afastando demais — disse Holmes. Não podemos correr o risco de vê-lo atacado antes que nos alcance. Temos de ficar aqui a todo custo. — Holmes ajoelhou-se e pôs o ouvido no chão. — Graças a Deus, creio que o ouço aproximar-se.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

O som de passos rápidos quebrou o silêncio da charneca. Agachados no meio das pedras, perscrutamos a muralha à nossa frente. Os passos se tornaram mais fortes e, do meio da névoa, como que através de uma cortina, saiu o homem pelo qual esperávamos. Olhou em volta, admirado, quando entrou na noite clara e iluminada. Depois, caminhou rapidamente pela vereda, passou perto do ponto onde estávamos escondidos e continuou, subindo a longa rampa atrás de nós. Olhava continuamente por cima do ombro, como quem não se sentisse à vontade.

— Alerta! — disse Holmes, e no mesmo instante ouvi o ruído de um revólver engatilhado. — Olhem! Vem ali!

Percebemos um som de patas, fraco, contínuo, dentro da cortina de névoa, que estava agora a cinquenta metros do ponto onde nos encontrávamos. Olhamos para lá, os três, sem saber qual o horror que dali sairia. Eu estava ao lado de Holmes e por um momento olhei para o seu rosto. Vi-o pálido e exultante, com olhos que brilhavam ao luar. Mas, de repente, seu olhar ficou parado, seus lábios se entreabriram, admirados. No mesmo instante, Lestrade soltou um grito de pavor e atirou-se de bruços no chão. Dei um salto, com o revólver na mão inerte, a mente paralisada, ao ver a coisa horrível que pulava para nós, saindo da neblina. Era um sabujo, sim, um enorme e negro de caça, mas de um tipo jamais visto por olhos humanos. Saía fogo da sua boca aberta, seus olhos tinham um fulgor estranho, o focinho chamejava. Nunca, nem mesmo no delírio da loucura, se poderia conceber coisa mais selvagem, mais aterradora, mais diabólica do que aquele vulto escuro, de focinho chamejante, que surgiu da cortina de névoa.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Com grandes pulos, o ser negro e enorme cobria a vereda, seguindo no encalço do nosso amigo. Ficamos paralisados, com tal aparição, a ponto de permitir que passasse por nós sem que recuperássemos o sangue frio. Depois, Holmes e eu atiramos ao mesmo tempo — e o animal soltou um rugido pavoroso, indicando que, pelo menos, fora atingido. Apesar disso, não parou. Vimos Sir Henry, mais adiante, olhar para trás, de rosto lívido, ao luar, com as mãos erguidas num gesto horrorizado, olhando impotente para a coisa selvagem que o perseguia.

Mas o grito de dor da fera dissipara todos os nossos receios, Já que era vulnerável, era mortal; e, já que tínhamos podido feri-la, poderíamos matá-la. Nunca vi um homem correr como Holmes correu naquela noite. Sou reconhecida- mente ligeiro, mas ele me ultrapassou, assim como eu passei à frente do detetive profissional. Ouvíamos diante de nós os gritos de Sir Henry e o rosnar profundo do cão. Cheguei a tempo de ver o animal pular sobre a vítima, derrubá-la e atirar-se à sua garganta. No momento seguinte Holmes descarregava nele cinco balas de revólver. Com um último grito de dor e uma raivosa reviravolta no ar, o cão caiu de costas, com as quatro patas movendo-se furiosamente; depois, imobilizou-se. Parei, ofegante, e encostei o revólver à cabeça do animal, mas não foi preciso apertar o gatilho. O cão gigantesco estava morto.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Sir Henry estava inerte onde caíra. Abrimos-lhe o colarinho, e Holmes balbuciou uma prece de gratidão, quando verificou que ele não fora ferido e que havíamos chegado a tempo. As pálpebras de Sir Henry estremeceram, e ele fez um pequeno esforço para se mover. Lestrade enfiou-lhe entre os dentes seu frasco de conhaque; dali a segundos, dois olhos aterrorizados nos fitaram.

— Meu Deus! — murmurou Sir Henry. — O que era? Em nome de todos os deuses, o que era aquilo?

— Está morto, seja o que for disse Holmes. — Acabamos com o fantasma da família, de uma vez para sempre.

O animal que jazia a nossos pés era terrível, em tamanho e força. Não era um cão de caça puro, e também não era um mastim puro. Parecia uma combinação dos dois: magro, selvagem e do tamanho de um leãozinho. Mesmo agora, na imobilidade da morte, das mandíbulas imensas parecia sair urna chama azul, e os olhos pequenos e cruéis estavam cercados de fogo. Pus a mão no focinho reluzente, e, quando a ergui, também os meus dedos brilharam na escuridão.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— Fósforo — disse eu.

— Uma fórmula hábil — observou Holmes, cheirando o animal morto. — Sem odor, para não interferir com o faro. Devemos-lhe urna desculpa, Sir Henry, por tê-lo exposto a esse pânico. Eu estava preparado para ver um cão, mas não uma coisa destas. E a neblina deu-nos pouco tempo para percebê-lo.

— Os senhores me salvaram a vida.

— Expondo a primeiro ao perigo. Écapaz de ficar de pé?

— Dê-me mais um gole daquele conhaque e estarei pronto para tudo. Agora! Se quiserem me ajudar… Que pretendem fazer?

— Deixá-lo aqui. Não está em condições de novas aventuras hoje à noite. Se quiser esperar, um de nós lhe fará companhia até a mansão.

Ele tentou ficar de pé, mas ainda estava lívido e trêmulo. Nós o ajudamos a ir até uma rocha, onde se sentou, escondendo o rosto nas mãos.

— Vamos deixá-lo aqui — disse Holmes. — Precisamos completar nosso trabalho, e cada minuto é precioso. Temos agora o nosso caso, e só nos falta o homem.

— Pode-se apostar um contra mil que ele não estará em casa — continuou Holmes, quando nos dirigimos rapidamente para Merripit. — Aqueles tiros devem ter-lhe provado que chegou o fim.

— Estávamos a certa distância e talvez a neblina tenha abafado o som repliquei.

Garanto que ele seguiu o cão, para chamá-lo. Não; desta vez, fugiu! Mas vamos dar uma busca na casa, para ter certeza.

A porta da frente estava aberta. Entramos e percorremos rapidamente os quartos, um por um, para espanto do velho criado, que nos encontrou no corredor. Não havia luz, a não ser na sala de jantar, mas Holmes pegou o candeeiro e não deixou um único canto sem ser revistado. Não havia sinal do homem que procurávamos. No andar de cima, um dos quartos estava fechado.

— Há alguém aqui! — exclamou Lestrade. — Ouço movimentos. Abra esta porta!

De dentro, veio um gemido abafado. Com a sola do sapato Holmes deu uma pancada acima da fechadura, e a porta abriu-se. De revólver em punho, entramos os três no quarto.

Mas não havia ali sinal do homem mau e violento que pensávamos encontrar. Em vez disso, demos com um objeto estranho e inesperado, que por um momento ficamos olhando, atônitos.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

O aposento era uma espécie de museu e as paredes eram cobertas de caixas tampadas com vidro, cheias de borboletas e insetos que tinham sido a distração daquele homem de gênio perigoso e complexo. No centro, havia uma viga em pé, que em qualquer época fora ali colocada como reforço do apodrecido vigamento do forro. A esse poste estava presa urna pessoa, tão completamente coberta pelos lençóis usados para amarrá-la, que, no primeiro momento, nau se podia dizer se era homem ou mulher. Uma toalha estava passada em volta do pescoço dela e presa atrás do pilar. Outra cobria a parte de baixo do rosto. Acima, dois olhos negros — cheios de dor, de vergonha e de horrorizada interrogação olhavam para nós. Arrancamos imediatamente a mordaça e desatamos os laços. A sra. Stapleton caiu no chão, diante de nós. Sua bela cabeça tombou sobre o peito, e vi o nítido vergão feito por um chicote no pescoço.

— Que bruto! exclamou Holmes. — Depressa, Lestrade, o seu frasco de conhaque! Faça-a sentar-se numa cadeira! Desmaiou por exaustão e maus-tratos.

A mulher abriu os olhos.

— Ele está bem? — perguntou. — Escapou?

— Ele não poderá nos escapar, minha senhora.

— Não, não, não falo de meu marido. Sir Henry? Está bem?

— Sim, está. E o cão?

— Morto.

Ela soltou um longo suspiro de satisfação.

— Graças a Deus! Graças a Deus! Oh, o miserável! Vejam como me tratou!

Puxou as mangas, e vimos, horrorizados, que estava cheia de manchas e equimoses.

— Mas isto não é nada! Torturou-me e corrompeu-me a mente e a alma. Eu podia ter suportado tudo: maus-tratos, solidão, uma vida de desenganos, tudo, contanto que ainda acreditasse no seu amor. Mas agora sei que também nisso fui ludibriada e apenas lhe servi de instrumento.

Rompeu em soluços.

— A senhora não precisa ter boa vontade com ele. — disse Holmes. — Conte-nos, então, onde poderemos encontrá-lo. Se o ajudou no mal, procure reabilitar se, ajudando-nos agora.

— Só há um lugar para onde pode ter fugido — disse ela. —  Há uma velha mina de estanho numa ilha, no coração cio atoleiro. Era lá que ele guardava o cão, pois preparara-a para ser um refúgio, em caso de necessidade. Deve ter fugido para lá.

A neblina parecia neve branca contra a janela. Holmes ergueu o candeeiro.

— Vejam — disse ele. — Ninguém poderia se orientar no atoleiro de Grimpen, hoje à noite.

Ela riu e bateu palmas. Os seus olhos e cientes brilharam com feroz alegria.

— Ele pode encontrar o caminho para entrar, mas nunca para sair — disse ela. Como poderia descobrir as varinhas, hoje à noite? Nós as colocamos juntos, ele e eu, para marcar o caminho pelo atoleiro. Oh, se eu tivesse podido arrancá-las hoje! Então, sim, os senhores o teriam em suas mãos.

Era evidente que qualquer perseguição seria impossível até a neblina desaparecer. Deixamos Lestrade tomando conta da casa e Holmes e eu acompanhamos o baronete até a mansão. Já não podíamos ocultar lhe a história dos Stapletons, mas ele recebeu corajosamente o golpe, quando soube a verdade a respeito da mulher que amava. Porém, o choque das aventuras daquela noite tinha lhe abalado os nervos, e, antes do amanhecer, estava delirando, com o dr. Mortimer à sua cabeceira.

Ambos iriam dar a volta ao mundo, e só depois disso Sir Henry voltaria a ser o homem forte e alegre que fora, antes de herdar a malfadada propriedade.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Chego agora à rápida conclusão desta narrativa, na qual tentei fazer com que os leitores participassem dos negros terrores e das vagas conjecturas que perturbaram as nossas vidas durante tanto tempo, culminando de maneira tão trágica. Na manhã seguinte à morte do cão, a neblina desaparecera e a sra. Stapleton nos levou ao ponto onde tinham feito um caminho através do charco. Compreendemos o horror da vida daquela mulher, quando vimos com que entusiasmo e alegria ela nos pôs na pista do marido. Deixando-a em terreno firme, penetramos no lodaçal. Uma varinha enfiada aqui, outra ali, indicavam o caminho em ziguezague, de moita em moita, no meio das fétidas poças esverdeadas. Caniços e viscosas plantas aquáticas exalavam um vapor pesado e um cheiro de coisas apodrecidas. Um passo em falso mais de uma vez nos fez mergulhar na lama trêmula e escura, que durante alguns passos se sacudia em suaves ondulações sob os nossos pés. Suas garras obstinadas nos apanhavam os calcanhares enquanto caminhávamos, e, quando nos desviamos do caminho, era como se mão maligna nos puxasse para perversas profundezas, tão fortemente nos prendia.

Somente uma vez vimos o sinal de que alguém passara por aquele perigoso caminho antes de nós. Um objeto sobressaía numa moita. Holmes afundou-se até a cintura quando saiu do caminho para apanhar o objeto, e, se não estivéssemos ali para puxá-lo, nunca mais teria posto os pés em terra firme. Ele ergueu o sapato preto do nosso amigo Sir Henry, que fora roubado.

— Atirado aí por Stapleton, na fuga.

— Exatamente. Ficou com ele na mão, depois de ter posto o cão no encalço da vítima. Fugiu, quando percebeu que chegara o fim, ainda com o sapato na mão. E atirou-o fora, nesse ponto. Pelo menos sabemos que até aqui chegou são e salvo.

Nada mais do que isso conseguiríamos apurar, embora muito pudéssemos supor. Não havia a mínima probabilidade de se encontrarem pegadas na lama, mas, quando finalmente chegamos a terra firme, além do charco, procuramos avidamente por elas. Se a terra estivesse contando a verdade, então Stapleton nunca alcançara a ilha do refúgio, para onde se dirigira através da neblina, naquela noite. Em algum ponto, no coração do grande atoleiro de Grimpen, no meio do lodo fétido, estava aquele homem frio e cruel, enterrado para sempre.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Encontramos muitos vestígios dele na ilha onde escondera o selvagem aliado. Uma enorme roda de máquina e um galpão cheio de lixo indicavam a posição da mina abandonada. Ao lado, em ruínas, havia as cabanas dos mineiros, que provavelmente tinham fugido do cheiro desagradável do paul. Numa delas, encontramos uma corrente e uma grande quantidade de ossos, indicando onde vivera o animal. E ainda um esqueleto, com um monte de pêlos castanhos.

— Um cão! — exclamou Holmes, — Por Deus, um cachorrinho de pêlo crespo. O pobre Mortimer nunca mais verá o seu querido animalzinho. Pois bem, parece-me que este lugar já não tem segredos para nós. Ele podia esconder o cão, mas não podia calar sua voz, e daí os uivos, que mesmo de dia nada tinham de agradável. Numa emergência, ele guardava o cão na casinha do quintal, em Merripit, mas era sempre arriscado, e somente no último dia, que ele considerou a coroação dos seus esforços, ousou levá-lo para lá. Esta pasta aqui na lata deve ser a mistura fosforescente com que untava o animal. Naturalmente ela lhe foi sugerida pela história do cão fantasma da família e pelo desejo de assustar Sir Charles. Não é de admirar que o pobre condenado corresse e gritasse (assim como o nosso amigo Sir Henry e como nós poderíamos ter feito) quando viu semelhante ser correndo pelo pântano, no seu encalço. Foi uma ideia astuta, essa do assassino, pois, além de ajudar a causar a morte da vítima, impedia a aproximação dos camponeses. Qual deles ousaria chegar perto para examinar essa coisa, mesmo que a visse na charneca, como muitos a viram? Eu disse em Londres, Watson, e repito agora, que nunca tivemos inimigo mais perigoso do que aquele que lá está…

Ao dizer isso, Holmes apontou o braço comprido para o lodaçal manchado de verde, que se estendia até chegar às rampas avermelhadas da charneca.

The Hound of the Baskervilles, 1902

Capítulo 1: Sherlock Holmes § Capítulo 2: A maldição dos Baskervilles
Capítulo 3: O problema § Capítulo 4: Sir Henry Baskerville
Capítulo 5: Três fios partidos § Capítulo 6: Baskerville Hall
Capítulo 7: Os Stapletons da Casa Merripit § Capítulo 8: Primeiro relatório do dr. Watson
Capítulo 9: Segundo relatório do dr. Watson – Luz na charneca
Capítulo 10: Extratos do diário do dr. Watson § Capítulo 11: O homem na rocha
Capítulo 12: Morte na charneca § Capítulo 13: Armando a rede
Capítulo 14: O cão dos Baskervilles § Capítulo 15: Retrospecto

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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