O cão dos Baskervilles – Capítulo 15

Arthur Conan Doyle

O cão dos Baskervilles
Capítulo décimo quinto

Título original: The Hound of the Baskervilles
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1901-02.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Hound of the Baskervilles publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo décimo quinto: Retrospecto

Fins de novembro. Numa noite fria e nevoenta, Holmes e eu estávamos sentados perto do fogo, na nossa saleta na Baker Street. Depois do final trágico da nossa visita a Devonshire, ele se dedicara a dois casos de suma importância. No primeiro, desmascarara a atroz conduta do coronel Upwood em relação ao escândalo no jogo, no Clube Nonpareil; no segundo, defendera a infeliz Mme Montpensier, acusada do assassinato de sua enteada Mlle Carrère, que, seis meses mais tarde, surgiu viva e casada em Nova York. Meu amigo estava muito animado com o sucesso de casos tão difíceis e importantes, de modo que consegui induzi-lo a discutir os pormenores do caso Baskerville. Esperara pacientemente por essa oportunidade, pois sabia que ele não permitia que um caso ultrapassasse o seu tempo. A mente clara e lógica de Holmes não gostava de se abstrair de um caso presente para se deter em lembranças do passado. Mas Sir Henry e o dr. Mortimer estavam em Londres, a caminho da longa viagem recomendada para o restabelecimento dos nervos do baronete. Tinham vindo nos visitar naquela tarde, de modo que era natural que o assunto viesse à baila.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

— O curso dos acontecimentos, sob o ponto de vista de um homem que se chamava Stapleton, foi simples e direto — disse Holmes. — Mas, para nós, que não tínhamos meios de saber os motivos dos seus atos e conhecíamos apenas parte dos fatos, tudo parecia muito complexo. Tenho sobre você a vantagem de ter conversado duas vezes com a sra. Stapleton, e o caso agora está tão claro, que acho que não tem para nós nenhum segredo. Poderá encontrar algumas notas no meu fichário na letra B.

— Talvez queira me fazer um resumo, de memória.

— Sem dúvida, embora não possa garantir que tenha todos os fatos na cabeça. O advogado que tem seu caso na ponta da língua, e é capaz de discutir com um perito sobre a especialidade deste, vê que uma ou duas semanas dedicadas a outro processo bastam para fazer com que se esqueça de tudo. Assim também, cada um dos meus casos afasta o outro, e o de Mlle Carrère apagou as minhas recordações do caso Baskerville. Amanhã, outro problema me ocupará o cérebro e por sua vez tomará o lugar do caso da linda francesa e do infame Upwood. Quanto ao caso do cão dos Baskervilles, vou lhe narrar os acontecimentos da melhor maneira possível, e você poderá apontar qualquer coisa que eu tenha esquecido.

Holmes continuou:

— Minhas pesquisas indicaram que, sem a menor dúvida, o retrato de família não mentira e que o sujeito era de fato um Baskerville. Era filho de Rodger Baskerville, irmão mais novo de Sir Charles, aquele que, devido à sua má reputação, fugiu para a América do Sul, onde, diziam, morrera solteiro. Mas na verdade casara-se e tivera um filho, que conhecemos como Stapleton e que na realidade tinha o mesmo nome do pai. O filho casou-se com Beryl Garcia, uma das beldades da Costa Rica. Tendo roubado considerável quantia de dinheiro público, mudou o nome para Vandeleur e fugiu para a Inglaterra, onde montou uma escola, a leste de Yorkshire. A razão para isso foi ter conhecido a bordo um professor tuberculoso, aproveitando-se da habilidade desse homem para obter êxito. Frazer, o professor, morreu, e a escola, que começara tão bem, decaiu, tornando-se mal-afamada. Os Vandeleurs acharam preferível mudar o nome para Stapleton. O homem trouxe o resto da sua fortuna, os planos para o futuro e o gosto por entomologia para o sul da Inglaterra. Fiquei sabendo, no Museu Britânico, que ele era uma autoridade no assunto, e que o nome Vandeleur foi mesmo dado a um tipo de inseto descoberto por ele, em Yorkshire.

“Chegamos agora ao ponto em que os seus atos provaram ser de tanto interesse para nós. O sujeito certamente andara indagando e descobriu que somente duas vidas se interpunham entre ele e a propriedade. Creio que, quando foi para Devonshire, seus planos eram muito vagos, mas evidentemente suas intenções não eram boas desde o princípio, pois fez a esposa passar por irmã. A ideia de utilizá-la como isca estava clara no seu espírito, embora talvez não tivesse certeza quanto aos pormenores do plano. Pretendia conseguir a herança e estava pronto a usar todos os meios e instrumentos para atingir seu objetivo. Seu primeiro ato foi instalar-se perto da mansão e o segundo, cultivar a amizade de Sir Charles e dos vizinhos.

“Sir Charles contou-lhe a lenda do cão e assim preparou o caminho para a própria morte. Stapleton, continuarei a chamá-lo assim, sabia que o velho sofria do coração e que um choque o mataria. A informação lhe fora dada pelo dr. Mortimer. Soubera também que Sir Charles era supersticioso e que levava a sério a sinistra lenda. Sua imaginação engenhosa logo lhe sugeriu um meio de causar a morte do baronete sem que o crime lhe pudesse ser imputado.

“Feito o plano, começou a tratar da sua execução com grande sutileza.

“Qualquer pessoa comum se contentaria com um cão selvagem. O emprego de meios artificiais para tornar o animal diabólico foi um rasgo genial da sua parte. Comprou o cão em Londres, de Ross and Mangles, na Fulham Road. Era o mais forte e o mais selvagem que eles possuíam. Stapleton levou-o pela linha North Devon e fez uma grande caminhada pelo pântano, para levá-lo para casa sem provocar comentários. Nas suas excursões à procura de insetos, aprendera a andar pelo atoleiro de Grimpen e conhecia um bom esconderijo para o animal. Ali o deixou, esperando a oportunidade.

“Esta levou tempo a chegar. O velho não podia ser atraído para longe de casa, à noite. Várias vezes Stapleton ficou à espreita, com o cão, mas sem resultado. Foi durante uma dessas inúteis excursões que ele, ou antes, o seu aliado, foi visto pelos camponeses, e a lenda do cão diabólico foi confirmada. Ele esperava que sua mulher conduzisse Sir Charles ao desastre, mas viu-a inesperadamente independente. Ela não quis atrair o velho a uma aventura sentimental que o deixaria à mercê do inimigo. Nem ameaças nem, sinto dizê-lo, pancadas puderam demovê-la. Ela não quis ajudar o marido, e Stapleton ficou mais ou menos de mãos atadas.

“Mas descobriu uma oportunidade quando Sir Charles, que simpatizara com ele, o tornou seu intermediário num caso de caridade, o da pobre sra. Lyons. Passando por solteiro, Stapleton adquiriu grande influência sobre aquela senhora, dando-lhe a entender que se casariam, se ela obtivesse o divórcio. Os planos correram o risco de malograr quando ele soube que Sir Charles ia deixar a mansão, a conselho do dr. Mortimer. Precisava agir imediatamente, senão a vítima lhe fugiria. Insistiu portanto com a sra. Lyons para que escrevesse a carta, implorando ao velho uma entrevista na noite anterior à partida para Londres. Depois, com um argumento especioso, impediu-a de ir e, assim, obteve a oportunidade desejada.

“Ao voltar de Coombe Tracy, teve tempo de ir buscar o cão, untá-lo com o preparado fosforescente e levá-lo ao portão, tendo quase certeza de que o velho estaria lá esperando. Incitado pelo dono, o cão saltou sobre a cerca e perseguiu o infeliz baronete, que fugiu aos gritos pela Alameda de Teixos. Naquele túnel sombrio, devia ter sido realmente um espetáculo pavoroso o animal imenso e negro soltando fogo pela boca e pelos olhos e correndo atrás da vítima. Sir Charles caiu morto no fim da alameda. O animal conservava-se na faixa de relva, enquanto Sir Charles corria, de modo que não havia sinal de patas. Ao vê-lo caído, provavelmente o animal se aproximou para cheirá-lo, mas afastou-se ao vê-lo morto. Foi aí que deixou as marcas vistas pelo dr. Mortimer. O cão foi chamado pelo dono, que o levou às pressas para o atoleiro de Grimpen, e o mistério deixou perplexas as autoridades, alarmou a região e finalmente fez com que o caso viesse parar em nossas mãos.

“Isso quanto à morte de Sir Charles. Você percebe a diabólica astúcia, pois seria quase impossível provar a culpa do verdadeiro assassino. O único cúmplice jamais poderia traí-lo, e a natureza grotesca, inconcebível, da massa fosforescente serviu para tornar mais eficaz o truque. Ambas as mulheres ligadas ao caso, a sra. Stapleton e a sra. Lyons, suspeitaram de Stapleton. Sua mulher sabia que ele tinha planos a respeito do velho e sabia da existência do cão. A sra. Lyons não sabia dessas coisas, mas ficara impressionada com a morte ocorrida à hora de uma entrevista cancelada e só dele conhecida. Apesar disso, ambas estavam sob sua influência, e ele nada tinha a temer por esse lado. A primeira metade do seu plano fora coroada de êxito, mas restava a mais difícil.

“É possível que Stapleton não soubesse da existência de um herdeiro no Canadá. De qualquer maneira, viria logo a saber disso por intermédio do seu amigo, o dr. Mortimer, que lhe contou os pormenores da chegada de Sir Henry. A primeira ideia de Stapleton foi que havia possibilidade de acabar com Sir Henry em Londres, antes que fosse para Devonshire. Não confiava na esposa, desde que ela se recusara a preparar uma armadilha para o velho, e não ousava deixá-la só por muito tempo, com medo de perder a influência que tinha sobre ela. Foi por esse motivo que a trouxe para Londres. Fiquei sabendo que se hospedaram no Mexborough Private Hotel, na Graven Street, que foi um dos visitados por Cartwright quando procurava o jornal. Ali deixou a mulher presa no quarto e, disfarçando-se com uma barba postiça, seguiu o dr. Mortimer até nossa casa e depois ao Northumberland Hotel. Sua mulher desconfiava dos planos, mas tinha tanto medo do marido, medo baseado em maus-tratos, que não ousou escrever com sua letra o aviso que enviou ao homem cuja vida ela sabia em perigo. Se a carta caísse nas mãos de Stapleton, ela própria não estaria segura. Adotou, como sabemos, o método de recortar do jornal palavras que formassem um aviso, e sobrescritou o envelope com uma letra disfarçada. A carta chegou às mãos do baronete e foi o primeiro sinal de perigo.

“Era imprescindível a Stapleton conseguir uma peça de roupa de Sir Henry para que, se utilizasse o cão, este pudesse guiar-se pelo faro. Com sua presteza e sua audácia características, pôs-se imediatamente em campo, e não podemos duvidar de que um dos empregados do hotel tenha sido subornado para roubar o sapato. Por coincidência, o primeiro sapato roubado era novo, de modo que de nada lhe valeria. Fez com que fosse devolvido e obteve outro… incidente muito elucidativo, pois convenceu-me de que estávamos lidando com um cão verdadeiro, pois nenhuma outra suposição explicaria o desejo de obter um sapato velho e a indiferença demonstrada por um novo. Quanto mais grotesco é um incidente, mais merece ser examinado, e o ponto que parece complicar um caso é em geral o mais propício a elucidá-lo, quando devida e cientificamente examinado.

“Depois, recebemos a visita dos nossos amigos no dia seguinte e vimos que foram seguidos por um homem, de carro. Pelo fato de Stapleton conhecer a nossa residência e a minha pessoa, assim como pela sua conduta em geral, quero crer que sua carreira criminosa não se limitara a esse caso Baskerville. Fiquei sabendo que, nos últimos três anos, houve quatro grandes roubos na região a oeste, e que o criminoso nunca foi preso. O último roubo, em maio, em Folkestone, chamou a atenção pelo sangue-frio com que assassinaram um dos lacaios, que surpreendeu o ladrão mascarado. Não duvido de que Stapleton tenha melhorado suas anêmicas finanças desse modo e que, durante anos, tenha sido um homem perigoso.

“Tivemos um exemplo de seu sangue-frio e de seus recursos naquela manhã, quando nos escapou tão brilhantemente, e também da sua audácia ao dar o meu nome ao cocheiro, como sendo eu. Desde aquele momento, achou que eu aceitara o caso em Londres e que, portanto, aqui não havia esperanças de êxito. Voltou para Dartmoor e esperou pela chegada de Sir Henry.”

— Um momento! — disse eu. — Não há dúvida de que você descreveu com exatidão os fatos, mas há um ponto que deixou sem explicação. Que acontecia com o cão quando o dono estava em Londres?

— Pensei nisso, e é certamente importante. Não há dúvida de que Stapleton tinha um confidente, embora não seja plausível que ele tenha se colocado nas suas mãos contando-lhe os planos. Havia um velho criado na Casa Merripit chamado Anthony. Verifiquei que estava a serviço do casal havia vários anos, desde os tempos em que o homem tinha a escola, de modo que devia saber que o patrão e a patroa eram casados. Esse homem desapareceu do país. Repare que Anthony não é nome comum na Inglaterra, ao passo que Antonio é muito comum nos países espanhóis ou hispano-americanos. Assim como a sra. Stapleton, ele falava bem o inglês, mas com certo sotaque. Eu próprio vi esse criado atravessar o atoleiro e tomar o caminho marcado por Stapleton. E, pois, muito provável que, na ausência do patrão, tratasse do cão, embora nunca tivesse chegado a saber para que servia o animal.

“Os Stapletons foram para Devonshire, sendo logo seguidos por você e por Sir Henry. Uma palavra agora quanto à minha posição naquele momento. Talvez você se lembre de que, ao examinar o papel onde tinham sido coladas as palavras, procurei com atenção uma marca qualquer. Ao fazê-lo, conservei o papel a pequena distância dos olhos e percebi um ligeiro perfume, conhecido como jasmim branco. Existem setenta e cinco perfumes, e é necessário que o especialista em crimes saiba distinguir um do outro. Mais de uma vez um caso dependeu do pronto reconhecimento de um odor. O perfume sugeriu a presença de uma dama, e minha atenção se voltou para os Stapletons. Assim sendo, indaguei a respeito de um cão, e, antes mesmo de ir para a charneca, já adivinhara quem era o criminoso.

“Era o meu papel vigiar Stapleton. Evidentemente não podia fazê-lo se estivesse com vocês, pois iria pô-lo imediatamente em guarda. Enganei a todos, portanto, inclusive você, e para lá fui secretamente, enquanto me julgavam em Londres. O meu desconforto não foi tão grande como pensaram, e, mesmo que fosse, essas pequenas coisas não devem interferir na investigação de um crime. Fiquei a maior parte do tempo em Coombe Tracy, e só ia para a cabana da charneca quando via necessidade de estar perto do terreno de ação. Cartwright me acompanhou e, disfarçado de menino do campo, muito auxiliou. Era quem me levava comida e roupa limpa. Quando eu vigiava Stapleton, Cartwright geralmente ficava observando você, de modo que eu me mantinha a par de tudo.

“já lhe disse que seus relatórios me chegavam logo às mãos, sendo mandados imediatamente da Baker Street para Coombe Tracy. Muito me valeram, principalmente aquele trecho a respeito da vida de Stap!eton como professor. Isso me permitiu estabelecer a identidade do homem e ela mulher; finalmente vi cm que pé estava. O caso fora excessivamente complicado, até então, pela fuga do condenado e pelas relações entre ele e os Barrymores. Também esse ponto você esclareceu com muita inteligência, embora eu já tivesse chegado às mesmas conclusões.

“Quando você me descobriu na charneca, eu já tinha um conhecimento total do caso, mas não podia apresentar o assunto ao júri. Nem mesmo o atentado de Stapleton contra Sir Henry, naquela noite, que redundou na morte do infeliz condenado, nos ajudou a provar que era ele o criminoso. Parecia não haver óutra alternativa a não ser apanhá-lo em flagrante, e para isso tínhamos de expor Sir Henry ao perigo, como isca e aparentemente desprotegido. Foi o que fizemos, e, a custo de um grande choque para o nosso cliente, conseguimos fechar o caso e levar Stapleton à destruição. Confesso que expor Sir Henry daquela maneira foi uma falha na minha maneira de conduzir o caso, mas não tínhamos meios de imaginar o espetáculo terrível e paralisador que seria dado pela fera iluminada, nem podíamos contar com a neblina que surgiu tão inesperadamente. Conseguimos nosso resultado a um preço que tanto o dr. Mortimer como o especialista garantem que será passageiro. Uma longa viagem Permitirá ao nosso amigo não somente ficar bom dos nervos como esquecer a mágoa sentimental. Seu amor pela dama era profundo e sincero, e, para ele, a parte mais triste da história toda foi ter sido enganado por ela.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

“Resta dizer qual o papel representado pela sra. Stapleton. Não há dúvida de que o marido tinha sobre a mulher uma influência que pode ter tido como causa o amor ou o medo, ou talvez ambos, já que não são incompatíveis esses sentimentos. Foi, pelo menos, eficaz. Por ordem do marido, ela consentiu em passar por sua irmã, embora tivesse reagido quando ele tentou torná-la sua cúmplice num crime de morte. Estava pronta a prevenir Sir Henry, contanto que não denunciasse o marido, e mais de uma vez tentou fazê-lo. Parece que Stapleton era capaz de ter ciúme, pois, quando viu o baronete cortejando sua mulher, embora isso fizesse parte do plano, não pôde deixar de protestar ferozmente, revelando assim o gênio violento que o autodomínio tão habilmente ocultava. Encorajando a intimidade entre ambos, conseguiu fazer com que Sir Henry frequentasse a casa e viu que, cedo ou tarde, teria a sua oportunidade. Mas, no dia decisivo, a mulher se voltou repentinamente contra ele. Ouvira qualquer coisa sobre a morte do condenado, e sabia que o cão estava na casinha, no quintal, na noite em que Sir Henry ia jantar. Acusou o marido de premeditação, e seguiu-se uma cena violenta, tendo ele pela primeira vez contado que havia uma outra, uma rival. A fidelidade da mulher se transformou de repente em ódio, e ele percebeu que seria traído. Amarrou-a, portanto, para que não pudesse prevenir Sir Henry, esperando, evidentemente, que todos atribuíssem a morte de Sir Henry à maldição da família. Depois do fato consumado, esperava reconquistar a mulher e conseguir que se calasse. Creio que neste ponto ele se enganou e que, mesmo que não tivéssemos feito com que o plano malograsse, sua ruína seria inevitável. Uma mulher de sangue espanhol não perdoa facilmente esse tipo de ofensa. E agora, caro Watson, sem consultar as minhas notas, não posso lhe dar mais pormenores do curioso caso. Creio que nada de essencial ficou sem explicação.”

— Ele poderia não matar Sir Henry de susto, como aconteceu com o tio ao ver o cão fantasma observei.

— O animal era selvagem e estava meio faminto. Se sua aparência não bastasse para matar a vítima, pelo menos impediria qualquer resistência.

— Sem dúvida. Mas há outro ponto. Se Stapleton viesse reclamar a herança, como poderia explicar que ele, o herdeiro, vivera tão perto da propriedade, com um nome falso, sem se dar a conhecer? Como poderia se apresentar sem causar suspeitas e investigações?

— O argumento é de fato tremendo, e creio que é esperar demais me pedir que resolva esse ponto. O passado e o Presente me dizem respeito, mas adivinhar o que faria um homem no futuro é muito difícil. A sra. Stapleton ouviu o marido falar sobre isso muitas vezes, Havia três caminhos. Ele poderia reclamar a propriedade, lá da América do Sul, provando a sua identidade às autoridades britânicas locais, e assim entrar na posse da fortuna sem vir à Inglaterra; poderia adotar um disfarce no curto período em que tivesse de ficar em Londres; ou então poderia dar a um cúmplice os seus documentos, estabelecendo-o como herdeiro e reclamando parte dos rendimentos. Não podemos duvidar, conhecendo-o como o conhecemos, de que encontraria um meio de sair da dificuldade. E agora, caro Watson, tivemos várias semanas de trabalho intensivo e podemos, por uma noite, pensar um pouco em nos distrair. Tenho um camarote para Les huguenots. Já ouviu De Reske? Posso então lhe pedir que esteja pronto dentro de meia hora para jantarmos no Marcini a caminho do teatro?

The Hound of the Baskervilles, 1902

Capítulo 1: Sherlock Holmes § Capítulo 2: A maldição dos Baskervilles
Capítulo 3: O problema § Capítulo 4: Sir Henry Baskerville
Capítulo 5: Três fios partidos § Capítulo 6: Baskerville Hall
Capítulo 7: Os Stapletons da Casa Merripit § Capítulo 8: Primeiro relatório do dr. Watson
Capítulo 9: Segundo relatório do dr. Watson – Luz na charneca
Capítulo 10: Extratos do diário do dr. Watson § Capítulo 11: O homem na rocha
Capítulo 12: Morte na charneca § Capítulo 13: Armando a rede
Capítulo 14: O cão dos Baskervilles § Capítulo 15: Retrospecto

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

4 respostas para O cão dos Baskervilles – Capítulo 15

  1. elaine reis disse:

    Entre Um estudo em vermelho, O signo dos quatro e o Vale do terror, certamente, O cão dos Baskervilles é um dos meus romances preferidos!!
    :)

  2. Valmir disse:

    Totalmente excelente! Obrigado pelo ótimo trabalho.

  3. Gabriel disse:

    É uma história ótima, fiquei apavorado, mas é boa mesmo ainda mais a parte do inicio e a do
    Finalzinho. Holmes e Watson começam por uma bengala e terminam com um cachorro gigante, muito bom.

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