O signo dos quatro – Capítulo 1

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo primeiro

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo primeiro: A ciência da dedução

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— O meu cérebro — disse Sherlock Holmes — se revolta contra a estagnação. Dê-me problemas, dê-me trabalho, dê-me o mais abstruso criptograma, ou a mais intrincada análise, e estarei no meu elemento. Detesto a rotina monótona da existência. Preciso ter a mente em efervescência. E por isso que escolhi a minha profissão especial, ou melhor, criei-a, porque sou o único no mundo a exercê-la.

— O único detetive particular? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.

— O único detetive particular consultivo — redargüiu ele. — Sou o mais alto tribunal de apelação em matéria de pesquisa criminal. Quando Gregson, ou Lestrade, ou Athelney Jones se vêem em maus lençóis, como aliás é o seu estado normal, o assunto é apresentado a mim. Examino os dados como um técnico e dou um parecer de especialista. Não procuro honras nesses meus trabalhos, o meu nome não aparece nos jornais. O trabalho em si, o prazer de encontrar um campo para as minhas faculdades específicas, é a única recompensa que pretendo. De mais a mais, você já teve algum contato com os meus métodos de trabalho no caso de Jefferson Hope.

— É verdade — confirmei com entusiasmo. — E me impressionaram de tal modo, que até condensei o assunto numa pequena brochura com o título meio fantástico de Um estudo em vermelho.

Holmes abanou a cabeça tristemente.

— Passei os olhos por ela — disse ele. — Sinceramente, não posso felicitá-lo. A investigação é, ou devia ser, uma ciência exata e, como tal, tratada de maneira fria e sem a menor emoção. Você procurou lhe dar certo colorido romântico, o que produz o mesmo efeito de uma história de amor ou de um rapto transformados na quinta proposição da geometria euclidiana.

— Mas havia algo de novelesco — repliquei. — Eu não podia alterar os fatos.

— Deviam ter sido suprimidos alguns fatos, ou, pelo menos, tratados com um justo senso de proporção. Em todo esse caso, o único ponto que merecia referência é o curioso raciocínio analítico dos efeitos até as causas, por meio do qual eu consegui desvendá-lo.

Essa crítica a um trabalho feito especialmente para lhe agradar me aborrecia muito. Confesso também que me irritava aquele seu egoísmo, que parecia exigir que todas as linhas do meu livro fossem dedicadas exclusivamente às suas proczas. Mais de uma vez, durante os anos vividos com Holmes na Baker Street, tive ocasião de observar que uma pequena vaidade se escondia sob as suas maneiras discretas e didáticas. Não fiz, todavia, qualquer comentário, e continuei calado na minha cadeira, ocupado em tratar da minha perna ferida. Havia algum tempo que a bala de um mosquete afegão a tinha atravessado de lado a lado, e, embora eu pudesse caminhar, ela me doía bastante sempre que o tempo mudava.

— A minha clientela está se estendendo pela Europa — disse Holmes, após alguns momentos, enchendo o seu velho cachimbo de raiz de roseira. — Fui consultado na semana passada por François le Villard, que ultimamente, conforme você talvez saiba, tem adquirido algum renome no serviço francês de investigações. Ele possui a rápida intuição dos celtas, mas falta-lhe a grande bagagem de conhecimentos exatos, essencial para um maior desenvolvimento da sua arte, O caso relacionava-se com um testamento e tinha alguns aspectos interessantes. Tive oportunidade de relacioná-lo com dois casos paralelos, um em Riga, em 1857, e outro em St. Louis, em 1871, os quais lhe sugeriram a solução exata. Aqui está a carta que recebi esta manhã, agradecendo o meu auxílio.

Ao dizer isso, atirou-me uma folha amarrotada de papel de carta estrangeiro. Passei os olhos por ela, notando os abundantes pontos de exclamação e os “magnifiques”, “coups de maître” e “tours de force” que a pontilhavam, tudo denotando a ardente admiração do francês.

— Fala como de aluno para mestre — observei.

— Oh!, ele valoriza demasiado a minha assistência — disse Sherlock Holmes com indiferença. — Também ele tem um apreciável talento. Possui duas das três qualidades necessárias para um detetive ideal. Tem a capacidade de observação e a de dedução. Só lhe faltam os conhecimentos, que poderá adquirir com o tempo. Está traduzindo para o francês os meus pequenos trabalhos.

— Os seus trabalhos?

— Oh! você não sabia? — perguntou Holmes, rindo. — Sim, sou culpado de várias monografias. Todas versam sobre assuntos técnicos. Esta, por exemplo, intitula-se: “Da diferença entre as cinzas de vários tabacos”. Nela enumero cento e quarenta tipos de tabaco usados em charutos, cigarros e cachimbos, com lâminas coloridas que ilustram a diferença entre as cinzas. E um ponto que vem constantemente à baila nos processos criminais e que às vezes é de suprema importância como indício. Se você puder dizer positivamente, por exemplo, que determinado crime de morte foi praticado por um homem que estava fumando um charuto de tabaco indiano, é óbvio que isso reduz o campo das pesquisas. Para um olho experimentado, há tanta diferença entre as cinzas pretas de um Trichinopoly e as brancas de um Caporal como entre uma couve e um tomate.

— Você tem um gênio extraordinário para as minúcias — observei.

— Apenas avalio a sua importância. Eis aqui a minha monografia sobre o levantamento de pegadas, com algumas notas sobre as impressões. Este, por exemplo, é um curioso trabalhinho sobre a influência do ofício na forma da mão, com litografias das mãos de ardosieiros, marujos, corticeiros, compositores, tecelões e lapidadores de diamantes. E um assunto de grande interesse prático para o detetive científico. . . principalmente nos casos de corpos não-identificados, ou para descobrir os antecedentes dos criminosos. Mas estou aborrecendo-o com a minha mania.

— De modo algum — contestei sinceramente. — Isso é do maior interesse para mim, principalmente depois que tive a oportunidade de lhe observar a aplicação prática. Mas você falava há pouco de observação e dedução. Até certo ponto uma implica a outra, não é verdade?

— Não, senhor. Só raramente — respondeu ele, recostando-se voluptuosamente na sua cadeira, e tirando do cachimbo finos anéis de fumaça azulada. — Por exemplo, a observação me mostra que você esteve esta manhã na agência postal da Wigmore Street, mas a dedução me faz saber que, ao chegar lá, expediu um telegrama.

— Correto — exclamei. — Correto em ambos os pontos! Mas confesso não perceber como possa ter chegado a isso. Foi uma coisa que de repente me deu na telha, e não a mencionei a ninguém.

— Pois é a própria simplicidade — afirmou ele, rindo da minha surpresa. Tão absurdamente simples que torna supérflua qualquer explicação. Contudo, pode servir para definir os limites da observação e da dedução. A observação me diz que você tem um pequeno torrão avermelhado preso à sola do sapato. Exatamente em frente à agência postal da Wigmore Street, abriram a calçada, deixando um pouco de terra no caminho, de forma que é difícil não pisá-la ao entrar. A terra é de um vermelho típico, que, até onde sei, não se encontra em qualquer outro lugar das redondezas. Tudo isso é observação. O resto é dedução.

— Como deduziu, então, que mandei um telegrama?

— Ora, evidentemente, eu sabia que não tinha escrito uma carta, uma vez que passei toda a manhã sentado à sua frente. Vejo, além disso, que há uma folha de selos na sua escrivaninha e um grosso maço de postais. Para que iria, então, à agência postal, senão para mandar um telegrama? Elimine todos os outros fatores, e o que restar deve ser a verdade.

— Nesse caso, não há dúvida de que é assim — repliquei, depois de meditar um instante. — Trata-se, como diz, de uma coisa muito simples. Seria impertinência minha se submetesse as suas teorias a uma prova mais rigorosa?

— Pelo contrário — respondeu ele. — Isso me impediria de ficar entediado algum tempo. Terei o maior prazer em examinar qualquer problema que me apresente.

— Já ouvi dizer que é difícil um homem ter consigo um objeto de uso diário sem deixar nele a marca da sua individualidade, de tal modo que um observador experimentado é capaz de interpretá-la. Pois tenho aqui um relógio que veio recentemente parar às minhas mãos. Quer ter a bondade de me dar a sua opinião sobre o caráter e os hábitos do último proprietário?

Entreguei-lhe o relógio não sem uma certa malícia, pois julgava impossível semelhante prova, e pretendia que isso lhe servisse de lição contra o tom um tanto dogmático que ele às vezes assumia. Holmes avaliou o peso do relógio com a mão, olhou atentamente o mostrador, abriu a tampa traseira e examinou o mecanismo, primeiro a olho nu e depois com uma poderosa lente convexa. Mal pude reprimir um sorriso diante do seu rosto descoroçoado quando finalmente o devolveu a mim.

— Quase não há elementos — observou ele. — O relógio foi limpo recentemente, o que me roubou os fatos mais sugestivos.

— Tem razão — disse eu. — Fizeram uma limpeza geral antes de o enviarem a mim.

No íntimo, eu acusava o meu companheiro de esconder o seu fracasso sob a mais comum das desculpas. Que elementos poderia ele encontrar num relógio sujo?

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— Apesar de pouco satisfatória, a minha pesquisa não foi de todo infrutífera observou ele, fitando o teto com os olhos sonhadores e sem brilho. — Se não me disser o contrário, julgo que o relógio pertenceu ao seu irmão mais velho, que o herdou de seu pai.

— Deduziu-o, sem dúvida, do “H. W.’ gravado nas costas?

— Exatamente. O W. sugere o seu nome. A data do relógio é de cinqüenta anos atrás, e as iniciais são quase tão antigas como o relógio: logo, foi usado pela última geração. As jóias geralmente passam para o filho mais velho, e é muito provável que este tenha o mesmo nome do pai. Seu pai, se bem me lembro, faleceu há muitos anos. Por conseguinte, o relógio estava nas mãos do seu irmão mais velho.

— Até aqui, tudo certo — disse eu. — Alguma coisa mais?

— Ele era um homem de hábitos desordenados… muito desordenados e descuidados. Iniciou a vida com boas perspectivas, mas desperdiçou as oportunidades, viveu algum tempo na pobreza, com intervalos ocasionais de prosperidade, e por fim, entregando-se à bebida, faleceu. Isto é tudo o que posso deduzir.

Pulei da minha cadeira e pus-me a coxear impacientemente pela sala. Aquilo me fazia doer o coração.

— Isso não é digno de você, Holmes — disse eu. — Nunca o teria imaginado capaz de descer tanto. Decerto andou fazendo indagações sobre a história do meu infeliz irmão, e agora finge ter deduzido de um modo abstruso aquilo que já sabia. Você não pode esperar que eu acredite nas suas palavras quando me diz que leu tudo isso nesse velho relógio! E cruel e, para falar com toda a franqueza, raia ao charlatanismo.

— Meu caro doutor — disse ele afavelmente —, queira aceitar o meu pedido de desculpas. Encarando o assunto como um problema abstrato, esqueci que era uma coisa íntima e dolorosa. Asseguro-lhe, todavia, que nem ao menos sabia da existência do seu irmão até o momento em que examinei o relógio.

— Mas então, em nome de tudo quanto é fantástico, como obteve esses fatos? São absolutamente corretos em todos os pormenores.

— Ah! Isso foi sorte. Só expus o saldo das probabilidades. Não esperava tamanha precisão.

— Mas não foi apenas pura adivinhação?

— Não, não. Jamais arrisco um palpite. Isso é um hábito chocante… fatal para a capacidade de raciocinar logicamente. O que lhe parece estranho o é apenas porque você não acompanhou a linha do meu pensamento nem observou pequenos fatos dos quais se podem tirar grandes deduções. Por exemplo, comecei por certificar-me de que seu irmão era descuidado. Observando a parte inferior da caixa desse relógio, notará que ela não está gasta apenas em dois lugares, mas está toda amassada e arranhada: conseqüência do hábito de guardar objetos duros, tais como chaves ou moedas, no mesmo bolso. Decerto, não é grande façanha supor que um homem que trata tão desdenhosamente um relógio de cinqüenta guinéus seja um homem descuidado. Também não é muito rebuscada a dedução de que uma pessoa que herda um objeto de tamanho valor não esteja bem provida noutros sentidos.

Inclinei a cabeça para mostrar que acompanhava o seu raciocínio.

— Nas casas de penhor da Inglaterra é muito comum gravarem o número da caução, com um alfinete, na parte interna da tampa. É mais prático do que uma etiqueta, e não há perigo de que o número seja trocado ou perdido. Há pelo menos quatro desses números visíveis para a minha lente, no interior dessa tampa. Dedução principal: seu irmão via-se freqüentemente em apuros financeiros. Dedução secundária: ocasionalmente melhorava de vida, pois, do contrário, não poderia resgatar o penhor. Finalmente, peço-lhe que olhe para a tampa interna, onde fica o buraco da chave. Veja os milhares de arranhões em torno dele… são marcas deixadas pela chave, ao escorregar. A mão firme de um homem sóbrio nunca teria feito esses sulcos. Mas podem-se vê-los sempre no relógio de um bêbado. Quando lhe dá corda, à noite, tem a mão insegura. Onde está o mistério disso tudo?

— É claro como o dia — respondi. — Lamento a injustiça que lhe fiz. Devia ter tido mais fé nas suas maravilhosas faculdades. Posso perguntar-lhe se atualmente tem alguma pesquisa em mãos?

— Nenhuma. Não posso viver sem trabalho mental. Haverá outra coisa pela qual valha a pena viver? Olhe para a janela. Já houve um mundo tão vazio, tão cinzento e deprimente? Veja como o nevoeiro rola pelas ruas, entremostrando as casas desbotadas. Haverá algo mais irremediavelmente prosaico e material? De que me vale ter essas faculdades, doutor, quando não há onde exercê-las? O crime é banal, a existência é banal, e as outras qualidades, exceto as que sejam banais, não têm função na face da terra.

Abri a boca para contestar essa tirada, quando, após uma decidida pancada na porta, a nossa senhoria entrou com um cartão de visita numa salva de bronze.

— Uma jovem deseja vê-lo — disse ela, dirigindo-se ao meu companheiro.

— Srta. Mary Morstan — leu ele. — Hum! Não me lembro desse nome. Diga à jovem que entre, sra. Hudson. Não se retire, doutor. Prefiro que fique aqui.

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock