O signo dos quatro – Capítulo 11

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo décimo primeiro

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra

Nosso prisioneiro ia sentado no camarote, diante da caixa de ferro que tanto fizera e esperara por obter. Era um tipo de olhos inquietos, queimado do sol, com uma rede de linhas e rugas que lhe cortavam as feições morenas em todas as direções, denotando uma vida dura ao ar livre, O queixo singularmente forte indicava um homem que não se afasta com facilidade dos seus propósitos. De idade, andaria pelos cinqüenta anos, pois o cabelo preto e crespo estava bastante entremeado de fios grisalhos. Seu rosto, quando em repouso, não era desagradável, embora as sobrancelhas cerradas e o queixo agressivo lhe dessem, como eu tinha visto, uma expressão terrível nos momentos de cólera. Estava sentado, agora, com as mãos algemadas sobre os joelhos, mirando com seus olhos vivos e pestanej antes a arca que tinha sido a causa dos seus delitos. Parecia-me haver mais tristeza que raiva no seu semblante severo e reservado. Em dado momento, olhou-me com um brilho algo divertido nos olhos.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— Muito bem, Jonathan Small — disse Holmes, acendendo um charuto. Lamento que a coisa tenha acabado assim.

— Também eu, cavalheiro — respondeu ele francamente. — Não acredito que possa me livrar desta, juro-lhe sobre a Bíblia que nunca levantei a mão contra o sr. Sholto. Foi aquele cão do inferno, Tonga, que lhe atirou um dos seus malditos espinhos. Não tive parte nisso, cavalheiro. Fiquei tão aborrecido como se ele fosse meu parente. Açoitei o perverso com a ponta solta da corda, mas o que estava feito não se podia desfazer.

— Tome um charuto disse Holmes. — E aceite um gole do meu frasco, já que está todo molhado. Como podia esperar que um homem tão fraco e pequeno como era o seu negrinho pudesse dominar o sr. Sholto e segurá-lo, enquanto você subia pela corda?

— O senhor parece saber de tudo como se houvesse estado lá. A verdade é que eu não esperava encontrar ninguém na sala. Conhecia bem os hábitos da casa, e era a hora em que o sr. Sholto costumava descer para jantar. Não farei segredo do que aconteceu. A melhor defesa que posso apresentar é dizer a verdade. Agora, se fosse o velho major, teria dado cabo dele com a maior satisfação. Enfiava-lhe a faca como estou fumando este charuto. Mas é muito duro ter de ir para as grades por causa daquele jovem Sholto, com o qual eu não tinha nenhum desentendimento.

— Você está sob os cuidados do sr. Athelney Jones, da Scotland Yard. Ele vai levá-lo à minha casa, e eu lhe pedirei um relato completo sobre o assunto. Se não me esconder nada, é possível que ainda o ajude em qualquer coisa. Creio que posso provar que o veneno age tão rapidamente que o homem já estava morto antes de você ter entrado na sala.

— E estava mesmo, cavalheiro. Nunca levei um susto tão grande na minha vida como quando o vi rindo daquela maneira para mim, com a cabeça caída para o ombro, no momento em que entrei pela janela. Foi uma surpresa dos diabos. Quase matei Tonga por aquilo, se o diabinho não tivesse escapulido. Foi por isso que ele deixou cair o porrete e alguns dos seus espinhos, que devem ter servido para o senhor procurar o nosso rastro, embora eu não consiga entender como foi que o descobriu. Não lhe quero mal por isso. Mas não deixa de ser engraçado — acrescentou ele, com um sorriso amargo — que eu, com todo o direito a meio milhão de libras, tenha passado metade da vida construindo um quebra-mar na Andaman, e agora, muito provavelmente, passe a outra metade cavando esgotos em Dartmoor. Maldito o dia em que pus os olhos no mercador Ahmet e me meti com o tesouro de Agra, que nunca trouxe outra coisa senão desgraça para o homem que o possuísse. Para ele, trouxe a morte. Para o major Sholto, medo e culpa. Para mim, escravidão por toda a vida.

Nesse instante, Athelney Jones enfiou a cabeça e os ombros na escotilha do pequeno camarote.

— Uma festinha em família, bem? — observou ele. Acho que também preciso de um gole dessa garrafa, Rolmes. Bem, creio que todos podemos nos felicitar. Pen que não apanhássemos o outro vivo, mas não havia alternativa. Escute, Holmes, você tem de confessar que teve sorte. A nossa lancha por pouco não ficava para trás.

— Bem está o que bem acaba — disse Holmes. — Mas eu realmente ignorava que a Aurora corresse tanto.

— Smith diz que é uma das mais rápidas do Tâmisa, e que, se ele tivesse outro homem para ajudá-lo na máquina, nunca a teríamos alcançado. Ele jura que não sabia nada desse assunto de Norwood.

— E não sabia mesmo — exclamou o nosso prisioneiro —, nem uma palavra! Escolhi a lancha dele porque ouvi dizer que era ligeira. Não lhe dissemos nada. Ele apenas foi bem pago e ia receber uma bela quantia se alcançássemos o nosso navio, o Esmeralda, em Gravesend, que estava de partida para o Brasil.

— Bem, se ele não fez nada de mal, trataremos de evitar que algum mal lhe aconteça. Apanhamos os nossos homens num relance, mas não temos tanta pressa assim em condená-los.

Era divertido observar como o importante jones já começava a se dar ares, agora que a captura estava feita. Vendo o ligeiro sorriso que brincava nos lábios de Sherlock Holmes, observei que aquela tirada não lhe escapara.

— Chegaremos à Ponte de Vauxhall daqui a pouco — disse Jones —, e lá o desembarcaremos com o tesouro, dr. Watson. Não preciso lhe dizer que estou assumindo uma grande responsabilidade ao fazer isso. Está completamente fora das normas, mas é evidente que acordo é acordo. Contudo, é minha obrigação mandar um inspetor acompanhá-lo, uma vez que o senhor leva uma carga tão preciosa. Irá de carro, sem dúvida?

— Sim, tomarei um carro.

— E uma pena não termos a chave, a fim de fazermos primeiro um inventário, O senhor terá de arrombá-lo. Onde está a chave, Small?

— No fundo do rio — respondeu o outro secamente.

— Hum! Não havia necessidade de nos dar mais esse trabalho. Você já nos deu muito o que fazer. De qualquer maneira, doutor, não preciso aconselhá-lo a ter cuidado. Leve a caixa com o senhor quando voltar para a Baker Street. Lá nos encontrará, de passagem para a chefatura.

Desembarcaram-me em Vauxhall, com a minha pesada caixa de ferro e um inspetor que era um simpático brutamontes. Quinze minutos depois, estávamos na casa da sra. Cecil Forrester. A criada pareceu surpresa com aquela visita tardia. A sra. Cecil Forrester, explicou ela, tinha saído e só voltaria muito tarde. A srta. Morstan, porém, estava na sala de estar. Entrei pois no aposento, com a caixa na mão, deixando o gentil inspetor no carro.

Ela estava sentada junto da janela aberta, com um vestido branco, diáfano, e uma fita escarlate no pescoço e na cintura. A luz suave de um candeeiro de mesa, no momento em que se inclinava para trás na cadeira de balanço, incidia- lhe sobre o rosto grave e doce, emprestando tons metálicos aos belos caracóis do seu opulento cabelo. A mão branca repousava num braço da cadeira, e toda a sua postura e fisionomia falavam de uma absorvente melancolia. Ao som dos meus passos, porém, ergueu-se rapidamente, e um leve rubor de surpresa e satisfação coloriu-lhe as faces pálidas.

— Ouvi uma carruagem chegar — disse ela. — Julguei que a sra. Forrester tivesse voltado mais cedo, mas nem imaginei que pudesse ser o senhor. Que notícias me traz?

— Touxe-lhe algo melhor que notícias — disse eu, depondo a caixa sobre a mesa e falando jovialmente, embora o coração me pesasse no peito. — Trouxe-lhe uma coisa que vale por todas as notícias do mundo. Trouxe-lhe uma fortuna.

Ela relanceou os olhos para a caixa.

— É o tesouro, então? — perguntou-me com certa frieza.

— Sim, é o grande tesouro de Agra. Metade é seu e metade de Thaddeus Sholto. Cada um ficará com um quarto de milhão. Pense nisso! Uma renda anual de dez mil libras. Haverá poucas garotas mais ricas na Inglaterra. Não é estupendo?

Creio que exagerei minha satisfação, e que ela percebeu certo ar desenxabido nas minhas congratulações, pois ergueu um pouco as sobrancelhas e olhou-me de um modo curioso.

— Isso tudo devo-o ao senhor.

— Não, não — respondi. — Não a mim, mas ao meu amigo Sherlock Holmes. Nem que eu tivesse a maior boa vontade do mundo, jamais poderia ter encontrado uma pista que em certo momento chegou até a desafiar o seu gênio analítico. Mesmo assim, quase a perdemos no último instante.

— Por favor, sente-se e conte-me tudo, dr. Watson.

Narrei resumidamente o que tinha ocorrido desde que eu a vira pela última vez. O novo método de pesquisa aplicado por Holmes, a descoberta da Aurora, o aparecimento de Athelney Jones, a nossa expedição noturna e a movimentada caçada pelo Tâmisa. Ela ouvia o relato das nossas aventuras com os lábios entreabertos e os olhos brilhantes. Quando falei no dardo que por tão pouco não nos atíngira, ficou tão pálida que receei que fosse desmaiar.

— Não é nada — disse ela, quando me apressei em lhe servir um copo de água. — Já estou bem. Levei um susto ao pensar no terrível perigo a que expus os meus amigos.

— Agora tudo está acabado —- disse eu. — Não foi nada. Não lhe contarei outros pormenores sinistros. Tratemos de algo mais alegre. Aqui está o tesouro. Haverá coisa mais alegre do que isso? Consegui autorização para trazê-lo, julgando que teria interesse em ser a primeira pessoa a vê-lo.

— Realmente tenho o maior interesse — disse ela.

Não havia, contudo, nenhuma ansiedade na sua voz.

Ocorrera-lhe, sem dúvida, que poderia parecer indelicadeza da sua parte mostrar-se indiferente àquilo que tanto nos custara encontrar.

— Que linda arca! — disse ela, inclinando-se para a caixa. — É um trabalho indiano, não?

— Sim, é serralheria de Benares.

— E tão pesada! — exclamou ela, tentando soerguê-la.

— Só a caixa já deve ser valiosa. Onde está a chave?

— Small atirou-a ao Tâmisa — respondi. — Preciso usar o atiçador da sra. Forrester.

O cadeado, grande e pesado, tinha a forma de um Buda sentado. Enfiei-lhe a ponta do atiçador e torci-o como uma alavanca. O cadeado abriu-se com um forte estalo. De mãos trêmulas, levantei a tampa. Ambos ficamos olhando, atônitos. A caixa estava vazia!

Não admirava que fosse tão pesada. O trabalho de metal que a cobria tinha mais de um centímetro de espessura. Era uma arca maciça, sólida, construída para conter coisas de grande valor, mas dentro dela não havia sequer vestígio de ouro ou jóias. Estava absoluta e inteiramente vazia.

— Perdeu-se o tesouro — disse a srta. Morstan calmamente.

Ouvindo estas palavras e compreendendo o que elas significavam, pareceu-me que uma grande sombra deixava enfim a minha alma. Só avaliei bem quanto aquele tesouro de Agra me pesava quando o tiraram dos meus ombros. Era egoísmo, sem dúvida, era injusto e desleal, mas eu não podia pensar em nada que não fosse o desabamento daquela muralha de ouro que se erguera entre nós.

— Graças a Deus! — exclamei do fundo do coração.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Ela voltou-se para mim com um rápido sorriso de interrogação.

— Por que diz isso? — perguntou-me.

— Porque você está novamente ao meu alcance — respondi, tomando-lhe a mão. Ela não a retirou. — Porque a amo, Mary, tanto como jamais um homem amou uma mulher. Porque esse tesouro, essa riqueza, selava os meus lábios. Agora que ele desapareceu, posso lhe dizer o quanto a amo. Foi por isso que disse “Graças a Deus!”

— Então eu também digo “Graças a Deus!” — sussurrou ela quando a puxei para junto de mim.

Se alguém perdera um tesouro, eu naquela noite havia ganho um.

 

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock