O signo dos quatro – Capítulo 12

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo décimo segundo

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

O inspetor que me esperava no carro era um homem muito paciente, pois levei muito tempo para voltar para junto dele. Ficou de rosto anuviado quando lhe mostrei a caixa vazia.

— Lá se vai a gratificação! — disse ele melancolicamente. — Onde não há dinheiro não há recompensa. Esta noite de trabalho valia bem uma nota de dez para mim e outra para Sam Brown, se o tesouro estivesse aqui.

— O sr. Thaddeus Sholto é um homem rico disse eu. — Ele o gratificará, com ou sem tesouro.

Mas o inspetor sacudiu tristemente a cabeça.

— Não repetiu ele —, isso não está certo. E o sr. Athelney Jones será da mesma opinião.

A previsão foi correta, porque o detetive pareceu desconsolado quando cheguei à Baker Street e lhe mostrei a caixa vazia. Tinham acabado de chegar, Holmes, ele e o prisioneiro, pois haviam alterado os seus planos e passado em primeiro lugar pela chefatura. Meu companheiro se reclinava na sua poltrona, com a expressão desatenta que lhe era habitual, e tinha sentado diante de si o impassível Small, com a perna de pau cruzada sobre a sã. Quando exibi a caixa vazia, o perneta atirou-se para trás e desatou a rir.

— Isso é coisa sua, Small — disse Athelney Jones, furioso.

— É, sim. Guardei-o onde o senhor nunca lhe porá a mão — exclamou ele, exultante. O tesouro me pertence, e, se não posso ficar com ele, ninguém mais ficará. Afirmo- lhe que ninguém tem direito a ele, exceto três homens que estão no presídio de Andaman e eu. Sei agora que não posso dispor dele, e que eles também não podem. Tudo o que fiz foi tanto por mim como por eles. Sempre agi sob o signo dos quatro. Pois bem, sei que eles esperavam de mim exatamente o que fiz: atirar o tesouro no Tâmisa antes que ele fosse parar nas mãos dos parentes de Sholto ou Morstan. Não foi para enriquecê-los que fizemos o que fizemos a Ahmet. O senhor encontrará o tesouro no mesmo lugar onde está a chave e o pequeno Tonga. Quando vi que a sua lancha ia nos alcançar, guardei a presa em lugar seguro. Não há rupias para o senhor nesta viagem.

— Você tenta nos enganar — disse Athelney Jones gravemente. — Se quisesse lançar o tesouro no Tâmisa, seria mais fácil tê-lo atirado com caixa e tudo.

— Seria mais fácil para mim jogá-lo e mais fácil para os senhores o encontrarem — respondeu ele, com um olhar astuto e enviesado. — O homem que foi bastante esperto para me descobrir também o é para tirar uma caixa de ferro do fundo do rio. Agora que tudo está espalhado por oito ou dez quilômetros, talvez seja um trabalho mais custoso. Mas creiam que me doeu o coração fazer aquilo. Fiquei quase louco ao ver que me alcançavam. De qualquer maneira, lamúrias não adiantam nada. Já passei por muitos altos e baixos nessa vida, e aprendi a não chorar sobre o caldo entornado.
— Isto é um assunto muito sério, Small — disse o detetive da Scotland Yard. Se você auxiliasse a justiça em vez de dificultá-la dessa maneira, teria melhores probabilidades no seu julgamento.

— Justiça! — escarneceu o ex-sentenciado. — Bela justiça! De quem seria o tesouro, senão nosso? Que justiça é essa que me obriga a cedê-lo aos que nunca fizeram nada para ganhá-lo? Quer saber como eu o ganhei? Com vinte longos anos passados num pântano cheio de febres, trabalhando o dia inteiro nos mangues, passando as noites acorrentado numa choça imunda, picado pelos mosquitos, consumido pela maleita, maltratado pelos guardas negros que gostavam de se vingar nos brancos. Foi assim que ganhei o tesouro de Agra, e o senhor me fala em justiça porque não posso deixar que outro vá gozar aquilo que me custou esse alto preço! Prefiro ser enforcado dez vezes, ou fincar na pele um daqueles espinhos de Tonga, a viver na cela de um sentenciado sabendo que outro homem mora num palácio com o dinheiro que devia ser meu.

Small despojara-se da sua máscara de estoicismo, e tudo isto lhe saíra aos borbotões, ao passo que os seus olhos fuzilavam e as algemas retiniam com os seus gestos violentos. Compreendi, ao ver a fúria daquele homem, que não fora infundado nem estranho o medo que se apoderara do major Sholto ao saber que aquele presidiário ludibriado estava no seu encalço.

— Você se esquece de que não sabemos de nada — exclamou Holmes tranqüilamente. — Ainda não ouvimos a sua história, e por isso não podemos dizer até que ponto a justiça estava inicialmente do seu lado.

— Bem, o senhor tem falado comigo com delicadeza, apesar de eu ver muito bem que não devo agradecer a outro estes braceletes que tenho nos pulsos. Mas não lhe guardo rancor por isso. O que passou, passou. Se quer ouvir a minha história, não tenho necessidade de escondê-la. O que lhe direi é a pura verdade, palavra por palavra. Muito obrigado, pode deixar o copo aqui ao meu lado, que é para eu beber se ficar com a garganta seca.

“Sou de Worcestershire, nascido perto de Pershore. Aposto que encontrará um bando de Smalls se for por lá. Sempre tive vontade de fazer uma visita ao meu condado, mas a verdade é que nunca fui uma honra para a família, e duvido que se alegrassem com a minha presença. Todos eles eram gente séria, pequenos fazendeiros, indo sempre à igreja, conhecidos e respeitados pelas redondezas, ao passo que eu sempre fui meio levado da breca. Mas por fim, quando eu andava pelos dezoito anos, não lhes dei mais trabalho, porque arranjei uma complicação com uma moça e só pude me safar assentando praça no 3.° de Infantaria que estava de partida para a Índia.

“Mas o meu destino não era levar muito tempo a vida de soldado. Acabava de entrar, e mal tinha aprendido a manejar o mosquete quando tive a loucura de ir me banhar no Ganges. Por sorte, o sargento da minha companhia, John Holder, também estava dentro da água e era um dos melhores nadadores do exército. Um crocodilo me atacou quando eu estava no meio do rio, abocanhou a minha perna direita e cortou-a com mais destreza que um cirurgião, logo abaixo do joelho. Com o susto, a dor e a perda de sangue, desmaiei ali mesmo, e teria morrido afogado se Holder não me levasse para a praia. Estive cinco meses no hospital, e, quando pude sair, coxeando, com este pedaço de pau amarrado à perna, estava fora do exército, inválido para o serviço militar e para qualquer ocupação ativa.

“Como podem imaginar, a sorte não me ajudava nessa época, pois ainda não tinha feito vinte anos e já era um aleijado inútil. Mas a minha desventura não era mais que uma bênção disfarçada. Um homem chamado Abel White, que tora para lá como plantador de índigo, queria um feitor para cuidar dos seus homens e fazê-los trabalhar. Aconteceu que era amigo do nosso coronel e que o coronel tinha se interessado por mim desde o acidente. Bem, para não alongar a história, o coronel recomendou-me muito para esse emprego e, como a maior parte do serviço tinha que ser feita a cavalo, a minha perna não era um grande obstáculo, porquanto me sobrara joelho suficiente para me manter firme na sela. Meu serviço era passear a cavalo pela plantação, não perder os homens de vista e apontar os que não trabalhavam. O pagamento era bom, eu tinha um alojamento confortável e estava disposto a passar o resto da minha vida na plantação de índigo. O sr. Abel White era um homem bondoso, e de vez em quando aparecia na minha casinha e fumava uma cachimbada comigo, porque lá os brancos se tratavam melhor do que aqui.

“Mas a sorte nunca me durou muito. De repente, sem mais nem menos, estourou o grande motim. Num mês a Índia parecia tão pacífica e tranqüila como Kent ou Surrey, e no mês seguinte duzentos mil diabos negros estavam à solta, e o país se transformava num inferno. Naturalmente os senhores sabem tudo o que aconteceu. . . e muito melhor do que eu, visto que a leitura não é o meu forte. Só sei o que vi com os meus olhos. A nossa plantação ficava num lugar chamado Mutra, perto da fronteira da província do Noroeste. Todas as noites o céu ficava vermelho com o incêndio dos bangalôs, e todos os dias pequenos grupos de europeus passavam pelas nossas terras com as suas mulheres e filhos, a caminho de Agra, onde estavam as nossas tropas mais próximas. O sr. Abel White era um homem teimoso. Metera na cabeça que as notícias eram exageradas e que a revolta acabaria tão de repente como tinha começado. Ficava sentado na varanda, bebendo uísque e fumando charutos, enquanto ao redor dele todo o país estava em chamas. E claro que não o abandonamos, eu e Dawson, que, juntamente com a mulher, fazia a escrita e geria a plantação. Bem, um belo dia a coisa estourou. Eu tinha ido a uma plantação distante e voltava a trote descansado para casa, quando notei uma coisa toda amontoada no fundo de um barranco a pique. Meti o cavalo devagar para ver o que era, e o sangue gelou em minhas veias quando reconheci a mulher de Dawson, toda cortada no sentido das costelas e meio comida pelos cães nativos e chacais. Um pouco mais adiante, na estrada, estava o próprio Dawson, de bruços, morto, com um revólver vazio na mão e quatro sipaios tombados uns sobre os outros na frente dele. Esporeei o cavalo, sem saber para onde ir, mas nesse momento avistei um grosso rolo de fumaça na direção do bangalô de Abel White, e, em seguida, as chamas, que começavam a lamber o telhado. Compreendi que já não podia ajudar o meu patrão, e que perderia à toa a minha vida se me metesse naquilo. De onde estava podia ver centenas de diabos negros, ainda com a túnica vermelha nas costas, dançando e berrando em volta da casa incendiada. Dois ou três deles apontaram para mim, e um par de balas passou assobiando acima da minha cabeça; larguei a galope pelos arrozais, e altas horas da noite estava seguro dentro dos muros de Agra.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

“Como se viu depois, ali também não havia grande segurança. Todo o país estava sendo saqueado. Onde quer que os ingleses pudessem se reunir em pequenos bandos, defendiam o terreno que as suas armas cobriam. Nos outros lugares, eram fugitivos desamparados. Era uma luta de milhões contra centenas; e a parte mais cruel era aqueles homens contra os quais lutávamos — infantes, cavalheiros e artilheiros, nossas tropas escolhidas, que tínhamos ensinado e treinado — estarem manejando as nossas armas e dando os nossos toques de clarim. Em Agra, tínhamos o 3.° Regimento de Fuzileiros de Bengala, alguns siques, duas companhias de cavalaria e uma bateria de artilharia. Um corpo de voluntários de caixeiros e comerciantes tinha sido organizado, e nele me alistei, com perna de pau e tudo. Saímos para fazer frente aos rebeldes em Shahgunge, em princípios de julho, e os repelimos durante algum tempo, mas nossa pólvora acabou e tivemos de recuar para a cidade.

“De todos os lados só nos chegavam as piores notícias. . . o que não era para admirar, pois, se olharem o mapa, verão que estávamos no centro do país. Lucknow está a uns bons cento e sessenta quilômetros para leste, e Kampur outro tanto para o sul. Em todos os pontos cardeais só havia tortura, assassinato e violência.

“A cidade de Agra é um grande lugar, que fervilha de fanáticos e ferozes adoradores do Diabo de todas as marcas. Nosso punhado de homens via-se perdido nas ruas estreitas e tortuosas. Nosso comandante atravessou o rio, por conseguinte, e tomou posição no antigo Forte de Agra. Não sei se algum dos senhores já leu ou ouviu alguma coisa a respeito desse velho forte. E um lugar muito esquisito… o mais esquisito em que já estive, e olhem que tenho andado por lugares bem estranhos. Em primeiro lugar, é enorme. Sua área deve ter muitos hectares. Há uma parte moderna, que deu e sobrou para alojar a nossa guarnição, mais as mulheres, crianças, munições, víveres e tudo. Mas essa parte moderna não tem o tamanho da antiga, aonde ninguém vai, e que fica entregue aos escorpiões. É toda cheia de salas imensas e desertas, de passagens tortuosas e compridos corredores que dão voltas e mais voltas, de maneira que é muito fácil a gente perder-se. Por esse motivo é que quase ninguém se aventurava a ir lá, embora de vez em quando um ou outro grupo saísse a explorá-la com archotes.

“O rio passa ao longo do forte, protegendo-o pela frente, mas atrás e dos lados há muitas portas, e elas naturalmente tinham de ser guardadas, tal como as da parte nova, onde estavam as tropas. A nossa gente era escassa, e mal tí nhamos soldados suficientes para guarnecer os ângulos da construção e manobrar os canhões. Por isso, não era possível destacar uma forte guarda para cada uma das inúmeras portas. O que fizemos foi organizar uma casa da guarda central no meio do forte e deixar cada porta sob a vigilância de um branco e dois ou três nativos. A mim coube guardar, durante certas horas da noite, uma pequena porta isolada que dava para a ala sudoeste do edifício. Dois soldados siques foram postos sob o meu comando, e recebi ordens para disparar o mosquete se houvesse qualquer coisa de anormal, de forma que assim podia contar com o auxílio imediato da guarda central. Mas, como ela ficava a uns duzentos passos através de um labirinto de passagens e corredores, eu duvidava que pudessem chegar a tempo de nos ajudar, se houvesse de fato um ataque.

“Pois eu estava muito orgulhoso de ter recebido aquele pequeno comando, uma vez que era um recruta recente e, ainda por cima, aleijado de uma perna. Durante duas noites, montei guarda com os meus homens. Eram dois homens fortes e mal-encarados, chamados Muhammad Sing e Abdullah Khan, ambos guerreiros veteranos, que tinham pegado em armas contra nós em Chilian Wallah. Falavam inglês muito bem, mas eu pouco podia tirar deles, porque preferiam passar a noite conversando na sua algarivia sique. Quanto a mim, costumava ficar do lado de fora da porta, olhando para o rio largo e sinuoso e para as luzes bruxuleantes da grande cidade. O troar dos tambores, o matraquear dos tantãs e os berros e guinchos dos rebeldes, entorpecidos de ópio e haxixe, eram suficientes para nos lembrar, durante toda a noite, os perigos vizinhos da outra margem do rio. De duas em duas horas, o oficial da noite rondava os postos a fim de se certificar de que tudo ia bem.

“A terceira noite da minha guarda estava escura e feia, com uma chuvinha fina e penetrante. Era enfadonho ficar de sentinela do lado de fora da porta, horas a fio, com um tempo daqueles. Tentei várias vezes puxar assunto com os siques, mas não tive o menor resultado. As duas da manhã, passou a ronda, interrompendo um pouco a monotonia da noite. Vendo que meus companheiros não queriam conversa, tirei o meu cachimbo e larguei o mosquete para riscar um fósforo. Num ápice, os dois siques saltaram em cima de mim. Um deles apanhou a minha arma e a apontou para a minha cabeça, enquanto o outro me encostava um facão no pescoço e jurava que o enterraria se eu desse um passo.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

“O meu primeiro pensamento foi que aqueles sujeitos estavam de combinação com os rebeldes, e que aquilo era o começo de um assalto. Se a nossa porta caísse nas mãos dos sipaios, o forte não resistiria, e as mulheres e crianças seriam tratadas como o foram em Kampur. Talvez os senhores pensem que procuro impressioná-los a meu favor, mas dou-lhes a minha palavra de honra que, quando pensei nisso, apesar de sentir a ponta da faca no pescoço, abri a boca com a intenção de dar um grito, ainda que fosse o óltimo, para avisar a guarda principal.

“Mas o homem que me subjugava pareceu adivinhar o meu pensamento, pois cochichou antes mesmo de eu tornar alento: ‘Não grite, O forte não corre perigo. Não há nenhum cão rebelde nesta margem do rio’. Havia um ar de verdade no que ele dizia, e se eu erguesse a voz seria um homem morto. Esperei, por isso, em silêncio, para ver o que queriam de mim.

“‘Escute, sahib’, disse o mais alto e de pior aparência, o que chamavam de Abdullah. ‘Você ou fica do nosso lado ou lhe fecharemos a boca para sempre. A coisa é muito grande, e não podemos hesitar. Ou fica de corpo e alma conosco, jurando sobre a cruz dos cristãos, ou esta noite o seu cadáver será lançado ao fosso, e passaremos para os nossos irmãos do exército rebelde. Não há meio caminho. Então. . . vida ou morte? Só podemos dar-lhe três minutos para resolver, porque o tempo corre e tudo tem de ser feito antes de a ronda aparecer outra vez.’

“‘Como posso resolver?’, perguntei. ‘Vocês não me disseram o que querem de mim. Mas se for qualquer coisa contra a segurança do forte, não esperem nada de mim, e é melhor cravar essa faca de uma vez.’

‘Não é nada contra o forte’, disse ele. ‘Só lhe pedimos que faça aquilo que os seus compatriotas vêm fazer na nossa terra. Pedimos-lhe que enriqueça. Se ficar conosco esta noite, juramos pela faca nua e pelo juramento triplo, que até hoje nenhum sique quebrou, que você terá um justo quinhão na presa. Uma quarta parte do tesouro será sua: Melhor não podemos oferecer.’

‘Mas que tesouro é esse?’, perguntei. ‘Tenho tanta vontade de enriquecer como vocês, mas ao menos me digam o que tenho que fazer.’

“‘Jure então’, disse ele, ‘pelos ossos de seu pai, pela honra de sua mãe, pela cruz de sua fé, não levantar a mão nem dizer uma palavra contra nós, agora ou depois.’

“‘Juro’, respondi, ‘uma vez que o forte não fique em perigo.’

“‘Então, o meu camarada e eu juraremos que você terá um quarto do tesouro, que será dividido igualmente entre nós quatro.’

‘Mas somos três’, disse eu.

‘Não. Dost Akbar também deve ter a sua parte. Podemos contar-lhe a história toda enquanto os aguardamos. Fique na porta, Muhammad Singh, e avise quando eles chegarem. A coisa é a seguinte, sahib, e vou dizê-la porque sei que um juramento é sagrado para os europeus e posso confiar em você. Se fosse um hindu mentiroso, embora tivesse jurado por todos os falsos deuses dos seus templos, o sangue dele já estaria nesta faca e o seu corpo, na água. Mas o sique conhece o inglês e o inglês conhece o sique. Escute, pois, o que tenho a dizer. Há um rajá nas províncias do norte que é muito rico, apesar de serem poucas as suas terras. Ele herdou muito por parte do pai, e juntou mais ainda, porque é de natureza mesquinha e guarda o seu ouro em vez de gastá-lo. Quando estourou a revolta, ele quis ficar bem com o leão e com o tigre. . . com os sipaios e as tropas da rainha. Mas pouco depois pareceu-lhe que o fim dos brancos tinha chegado, porque de toda parte só vinham notícias da morte e derrota deles. Contudo, sendo um homem cauteloso, fez os seus planos para o que desse e viesse, de maneira a salvar ao menos metade da sua fortuna. O que era ouro e prata ele guardou nos subterrâneos do seu palácio, mas as jóias mais preciosas, as pérolas mais raras que tinha, meteu-as numa caixa de ferro e confiou-a a um fiel criado para que este, disfarçado de mercador, a depositasse no Forte de Agra, onde ficaria até que a paz voltasse. Assim, se os rebeldes triunfassem, ele ficaria com o seu dinheiro; mas se as tropas da rainha vencessem, as suas jóias estariam salvas. Depois de assim dividir sua fortuna, passou-se para os sipaios, visto que nas suas fronteiras eles eram mais fortes. E procedendo dessa maneira, note bem, sahib, a sua propriedade passa a pertencer aos que souberam defender a sua bandeira. Esse falso mercador, que viaja sob o nome de Ahmet, está agora na cidade de Agra, e deseja chegar ao forte. Tem como companheiro de viagem o meu irmão de leite, Dost Akbar, que conhece o segredo. Dost Akbar prometeu conduzi-lo esta noite a uma porta lateral do forte, e escolheu precisamente a nossa. Chegará dentro em pouco e aqui encontrará Muhammad Singh e eu à espera dele, O lugar é solitário, e ninguém o verá chegar. O mundo nada mais saberá do mercador Ahmet, mas o grande tesouro do rajá será dividido entre nós. Que diz a isso, sahib?’

“Em Worcestershire a vida de um homem parece uma coisa sagrada e importante, mas tudo é muito diferente quando a gente se encontra num mar de sangue e fogo e se habitua a ver a morte a cada instante. Que Ahmet, o mercador, continuasse vivo ou morto, era coisa que pouco se me dava, mas a história do tesouro foi direta ao meu coração, e pensei no que não faria na minha terra com ele, e como a minha gente não esbugalharia os olhos quando visse o doido voltar com os bolsos cheios de dobrões de ouro. Estava, por conseguinte, inteiramente decidido àquilo. Abdullah Khan, entretanto, pensando que eu hesitasse, insistia no assunto.

“‘Lembre-se sahib’, disse ele, ‘de que se esse homem for apanhado pelo comandante, será enforcado ou fuzilado, e as suas jóias, confiscadas pelo governador, de forma que ninguém verá uma rupia a mais no seu bolso. Ora, uma vez que seremos nós a apanhá-lo, por que não fazer também o resto? As jóias ficarão tão bem conosco como nos cofres do regimento. Haverá o suficiente para que nos tornemos ricos e importantes. Ninguém ficará sabendo nada, porque aqui estamos longe do mundo. Diga então, sahib, se continua do nosso lado ou se devemos considerá-lo um inimigo.’

“‘Estou de corpo e alma com vocês.’

“‘Muito bem’, disse ele, devolvendo-me o mosquete. ‘Veja, confiamos em você, porque, como nós, não faltará à sua palavra. Agora só nos résta esperar um pouco o meu irmão e o mercador.’

‘O seu irmão sabe então o que faremos?’

“‘O plano é dele. Foi ele que o traçou. Vamos até a porta para montar guarda com Muhammad Singh.’

“A chuva continuava a cair insistentemente, pois estávamos no começo da estação chuvosa. Nuvens pesadas e escuras encobriam o céu; era difícil enxergar alguém além de alguns metros. Um profundo fosso ficava diante da nossa porta, mas em certos lugares a água tinha secado, permitindo fácil passagem. Era estranho eu estar ali com aqueles dois ferozes pendjabis, à espera de um homem que viria para morrer.

“De repente divisei o débil clarão de um lampião velado do outro lado do fosso. Sumiu atrás de uns montes de terra, e depois reapareceu, avançando lentamente na nossa direção.

“‘Aí vêm eles!’, exclamei.

“‘Brade alerta, sabib, como de praxe’, cochichou Abdullah. ‘Não os assuste. Mande-os falar conosco, e faremos o resto, enquanto você continua de guarda. Esteja preparado para descobrir o lampião, a fim de termos certeza de que são eles.’

“A luz continuava a aproximar-se, ora detendo-se, ora avançando, até que pude ver dois vultos escuros à beira do fosso. Deixei-os escorregar pelo declive, patinhar pelo lodo e subir até meio caminho da nossa porta, e então gritei em voz abafada:

“‘Quem vem lá?’

“‘Amigos’, foi a resposta.

“Descobri o lampião e iluminei-os em cheio. O primeiro era um enorme sique, com uma barba negra que quase lhe chegava à cintura. A não ser nas feiras, nunca havia visto um homem tão alto. O outro era rechonchudo e baixote, com um grande turbante amarelo, e um volume na mão, envolto num xale. Parecia muito assustado, pois suas mãos tremiam como se ele estivesse doente, e virava a cabeça para a esquerda e para a direita, com dois olhinhos vivos e piscos, como um camundongo que está para sair do seu refúgio. Arrepiei-me ante a idéia de matá-lo, mas pensei no tesouro e senti o coração duro como pedra. Quando ele viu o meu rosto branco, soltou um gritinho de alegria e correu para mim.

‘Proteção, sabib’, arfou ele, ‘a sua proteção para o pobre mercador Ahmet. Atravessei todo o Rajput em busca do abrigo do Forte de Agra. Fui roubado, espancado e insultado porque sou amigo do governo. Abençoada seja esta noite em que me encontro novamente em segurança. . . eu e as minhas pobres coisas.’

“‘Que tens aí?’, perguntei-lhe.

‘Uma caixa de ferro’, respondeu ele, ‘que contém uma ou duas coisas de família, sem nenhum valor para os outros, mas que eu sentiria muito se perdesse. Não sou contudo nenhum mendigo, sahib, e poderei recompensá-lo, assim como ao seu comandante, se ele me der o abrigo que venho pedir.’

“Estaria perdido se continuasse a falar com o homem. Quanto mais eu olhava para a sua cara gorda e assustada, mais cruel me parecia que fôssemos matá-lo a sangue-frio. O melhor era acabar com aquilo.

‘Levem-no à casa da guarda’, disse eu.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

“Os dois siques aproximaram-se dele, um de cada lado, e o gigante tomou a retaguarda. Assim entraram e marcharam em direção ao corredor escuro. Nunca um homem se viu tão cercado pela morte. Fiquei na porta com o lampião.

“Seus passos cadenciados ressoavam nos corredores solitários. De repente cessaram, e ouvi uni rebuliço, vozes e o ruído de pancadas. Um momento depois senti, horrorizado, um rumor de passos precipitados que vinham na minha direção e o resfolegar de um homem correndo. Ergui o lampião para iluminar o corredor, e lá vinha o gorducho, correndo como uma lebre, com uma mancha de sangue no rosto. Rente aos seus calcanhares, saltando como um tigre, vinha o gigantesco sique barbudo, com um punhal reluzindo na mão. Nunca vi um homem correr tanto como aquele mercador baixote. Já levava a dianteira em relação ao sique, e era evidente que, se passasse por mim e alcançasse o descampado, ainda conseguiria salvar a pele. Tive pena dele, mas de novo a idéia do tesouro me tornou duro e cruel. Atirei-lhe o mosquete por entre as pernas quando ele passou, e o homem caiu dando duas voltas, como uma lebre chumbada. Antes que pudesse se erguer, o sique estava em cima dele e dava-lhe duas punhaladas nas costas. O homem não soltou um pio nem moveu um músculo, ficando ali mesmo onde tinha caído. Para mim, ele quebrara o pescoço na queda. Como os senhores vêem, ctou mantendo minha promessa. Estou lhes contando tintim por tintim tudo o que aconteceu, seja ou não a meu favor.”

O estranho narrador deteve-se e estendeu as mãos algemadas para o copo de uísque que Holmes lhe servira. Quanto a mim, confesso que nessa altura já concebera um grande horror pelo homem, não apenas devido àquele crime a sangue-frio do qual havia participado, mas ainda mais pela maneira petulante e desinteressada como o tinha narrado. Fosse qual fosse o castigo que lhe estivesse reservado, eu não podia sentir compaixão por ele. Sherlock Holmes e Jones continuavam sentados, com as mãos nos joelhos, profundamente interessados na história, mas a mesma repulsa estava escrita nos seus rostos. Talvez ele o notasse, pois havia uma nota de desafio na sua voz e na maneira como prosseguiu.

— Aquilo não era nada bom, sem dúvida — disse ele. — Gostaria de saber quantos sujeitos no meu lugar teriam recusado um quinhão do tesouro sabendo que lhe cortariam o pescoço se mostrasse escrúpulos. Além disso, depois que ele entrou no forte, era a minha vida ou a dele. Se ele tivesse escapado, dentro em pouco saberiam de tudo, e eu seria submetido a conselho de guerra e muito provavelmente fuzilado; porque numa época como aquela não havia muita contemplação.

— Continue com a sua história — disse Holmes.

— Pois muito bem. Depois, Abdullah, Akbar e eu o carregamos. Apesar de baixote, ele não era nada leve. Muhammad Singh ficou de guarda na porta. Nós o levamos para um lugar que os siques já tinham preparado. Ficava a certa distância, através de uma passagem tortuosa, numa grande sala vazia cujas paredes de tijolos estavam caindo aos pedaços. A terra do chão afundara num ponto, formando uma sepultura natural, de modo que ali deixamos o mercador Ahmet, depois de cobri-lo com tijolos soltos. Feito isso, voltamos ao tesouro.

“A caixa estava onde ele a tinha deixado cair quando fora atacado pela primeira vez. Era essa mesma que aí está aberta na sua mesa. Tinha uma chave pendurada por um cordão de seda na alça lavrada. Nós a abrimos, e, à luz do lampião, resplandeceu uma coleção de jóias como as das histórias que eu lia quando garoto em Pershore.

“A gente cegava ao olhar para elas. Depois de deliciarmos os nossos olhos, nós as tiramos todas e fizemos uma lista. Havia cento e quarenta e três diamantes de primeira água, inclusive um que chamavam, se bem me lembro, de ‘Grão-Mongol’, e diziam que era a segunda pedra em tamanho existente no mundo. Havia mais noventa e sete esmeraldas belíssimas e cento e setenta rubis, mas alguns deles eram muito pequenos. Havia quarenta carbónculos, duzentas e dez safiras, sessenta e uma ágatas e uma grande quantidade de berilos, ônix, olhos-de-gato, turquesas e outras pedras cujos nomes eu naquela época nem sabia, mas que agora conheço melhor. Além disso, quase trezentas pérolas finíssimas, doze das quais engastadas numa grinalda de ouro. A propósito, estas últimas foram tiradas da caixa; não estavam lá quando a recuperei.

“Depois de contar toda essa riqueza, tornamos a colocá-la na caixa e a levamos para a porta, a fim de mostrá-la a Muhammad Singh. Então repetimos solenemente o nosso juramento de confiar uns nos outros e guardar o nosso segredo. Combinamos esconder a nossa presa num lugar seguro até que o país estivesse de novo em paz e pudéssemos dividi-la igualmente entre nós. Não era conveniente reparti-la na ocasião, porque, se um de nós fosse encontrado com pedras preciosas, causaria suspeitas, e no forte não havia reserva nem tínhamos outro lugar onde guardá-las. Lewimos então a caixa para a mesma sala onde tínhamos enterrado o corpo, e lá, debaixo de uns tijolos, na parede mais bem conservada, fizemos um buraco e pusemos o nosso tesouro. Tomamos nota do lugar, e no dia seguinte tracei quatro plantas, uma para cada um de nós, e pusemos o nosso signo, o signo dos quatro, abaixo delas, porque tínhamos jurado que sempre haveríamos de proceder em nome e a favor dos quatro, para que nenhum tivesse mais que os outros. Quanto a esse juramento, posso pôr a mão no coração e dizer que nunca faltei a ele.

“Bem, é desnecessário dizer-lhes como terminou o grande motim. Depois que Wilson tomou Delhi e Sir Colin aliviou Lucknow, a espinha da revolta estava quebrada. Tropas novas começaram a chegar, e o próprio Nana Sahib atravessou a fronteira. Uma coluna avançada, sob o comando do coronel Greathed, entrou em Agra e expulsou os sipaios. A paz parecia voltar ao país, e nós quatro já tínhamos esperanças de que estava próximo o momento de sairmos em segurança com a nossa presa. Mas de repente essas esperanças foram frustradas pela nossa inesperada prisão como assassinos de Ahmet.

“Aconteceu assim: quando o rajá pôs as suas jóias nas mãos de Ahmet foi por saber que ele era um homem de confiança. Mas os orientais são muito desconfiados, de forma que esse rajá não hesitou em despachar um segundo criado, ainda mais fiel, para seguir o primeiro. Este segundo homem tinha ordem de não perder Ahmet de vista, e por isso o seguia como a sua sombra. Naquela noite, vinha atrás dele e viu-o entrar pela nossa porta. Naturalmente, pensou que o outro havia se refugiado no forte, e no dia seguinte, pediu abrigo lá, mas não encontrou nenhum sinal de Ahmet. Isso lhe pareceu tão estranho que falou ao sargento da guarda, e a coisa foi parar nos ouvidos do comandante. Deram imediatamente uma busca rigorosa, e o corpo foi descoberto. Assim, precisamente quando já nos julgávamos seguros, nós quatro fomos presos e julgados por crime de morte: três, porque guardávamos a porta naquela noite, e o quarto, por ter sido visto na companhia da vítima. Nenhuma palavra sobre as jóias surgiu durante o julgamento, pois o rajá tinha sido deposto e exilado, de maneira que ninguém tinha interesse em saber o fim que havia levado. Mas ficou bem claro que o homem fora assassinado, e era evidente que devia ter sido obra nossa. Os três siques pegaram uma sentença de trabalhos forçados por toda a vida, e eu fui condenado à morte, mas depois comutaram a minha pena e tive a mesma sorte dos outros.

“Estávamos portanto numa situação bem estranha. Lá nos víamos os quatro amarrados por uma perna, com pouquíssimas probabilidades de um dia escapar, e cada um de nós possuindo um segredo que nos daria um palácio se pudéssemos fazer alguma coisa com ele. Era de roer as entranhas ter de agüentar os cascudos e pontapés de qualquer guarda idiota, passar a arroz e água, quando aquela esplêndida fortuna estava lá fora à nossa espera. Eu podia ter enlouquecido, mas sempre fui um homem cabeçudo, e ali fiquei, dando tempo ao tempo.

“Por fim, pareceu chegar a minha oportunidade. Fomos transferidos de Agra para Madrasta, e de lá para Blair, que é uma das ilhas Andaman. Havia muito poucos sentenciados brancos nesse estabelecimento, e, como desde o princípio eu sempre me portara bem, logo consegui certos privilégios. Deram-me uma choça em Hope Town, que é um lugarejo do sopé do monte Harriet, e deixavam-me quase entregue a mim mesmo. E um lugar terrível, com malária por toda parte, e, pouco além das nossas pequenas clareiras, infestado de canibais sempre prontos a atirar um espinho envenenado, quando havia oportunidade. Havia muito o que cavar, valas a abrir e inhame a plantar, e uma dúzia de outras coisas a fazer, de maneira que trabalhávamos o dia inteiro. A noite, contudo, sobrava-nos algum tempo. Entre outras coisas, aprendi a aviar remédios para o cirurgião, e também alguma coisa do ofício dele. Andei durante todo o tempo à procura de uma oportunidade para fugir; mas a ilha fica a centenas de quilômetros de qualquer outra terra, e naqueles mares o vento é pouco ou nenhum, de modo que escapar era quase impossível.

“O cirurgião, dr. Somerton, era um rapaz alegre e folgazão, e os outros oficiais jovens reuniam-se à noite no alojamento dele para jogar cartas. A farmácia, onde eu manipulava as minhas drogas, ficava ao lado da sala dele, com uma janelinha entre nós. Muitas vezes, quando me sentia muito só, apagava a luz da farmácia e ficava ouvindo as conversas deles e olhando para o jogo. Não desdenho uma partida de cartas, e ver os outros jogando era quase tão bom como estar com o baralho na mão. Lá iam o major Sholto, o capitão Morstan e o tenente Bromley Brown, que comandavam a guarnição de soldados nativos; e, além do cirurgião, havia dois guardas graduados do presídio, que eram duas raposas com as cartas e jogavam com astúcia e segurança. Formavam uma rodinha discreta e matavam o tempo.

“Ora, desde o começo notei uma coisa curiosa, isto é, que os soldados perdiam sempre e os civis ganhavam. Não que houvesse trapaça, mas era assim. Aqueles camaradas da prisão não tinham feito outra coisa senão jogar cartas desde que estavam nas ilhas, e um conhecia o jogo do outro de cor e salteado, ao passo que os outros só jogavam por passatempo, e baixavam as cartas a esmo. Cada noite os soldados ficavam mais pobres, e quanto mais perdiam mais queriam jogar. O major Sholto era quem estava com prejuízo maior. A princípio pagava em notas e moedas de ouro, mas em breve começou a assinar letras, e as somas não eram pequenas. Às vezes ganhava alguma coisa, o que só servia para entusiasmá-lo, e depois a sorte virava-se contra ele ainda mais do que antes. Durante todo o dia, andava trançando as pernas, com a cara mais feia do que noite sem lua, e começou a beber mais do que lhe convinha.

“Uma noite perdeu uma quantia bem maior do que costumava. Eu estava sentado à porta da minha choça, quando ele e o capitão Morstan passaram cabisbaixos a caminho dos seus alojamentos. Eram amigos sinceros, aqueles dois, e onde andava um andava o outro. O major ia reclamando das suas perdas.

“‘Está tudo acabado, Morstan’, dizia ele, ao passarem por mim. ‘Tenho de deixar o exército. Estou arruinado.’

“‘Tolice, meu velho!’, disse o outro, dando-lhe uma palmada no ombro. ‘A minha sorte também anda negra, mas eu…‘ Foi tudo quanto ouvi, mas era o suficiente para me fazer pensar.

“Dois ou três dias mais tarde, o major Sholto andava caminhando pela praia, de maneira que aproveitei a oportunidade para falar com ele.

‘Preciso dos seus conselhos, major’, comecei.

‘Que há, Small?’, perguntou ele, tirando o charuto da boca.

‘Queria lhe perguntar, major, quem é a pessoa indicada para eu entregar um tesouro escondido. Sei onde está um que vale meio milhão, e, como não posso fazer nada dele, pensei que o melhor seria entregá-lo às autoridades competentes, pois assim talvez diminuíssem a minha pena.

‘Meio milhão, Small!’, exclamou ele, cravando-me os olhos para ver se eu estava falando sério.

‘É verdade, major… em jóias e pérolas. Está à espera de quem vá buscá-lo. E a coisa mais esquisita é que o verdadeiro dono está exilado, de modo que o tesouro pertence a quem chegar primeiro.’

‘Pertence ao governo, Small’, balbuciou ele, ‘ao governo.’

“Mas disse isto com muita hesitação, e tive certeza de que o apanhara.

“‘Então o senhor acha que devo informar o governador-geral?’, perguntei tranqüilamente.

‘Bem, você não deve fazer nada precipitado, que é para depois não se arrepender. Conte-me isso primeiro, Small. Exponha-me os fatos.’

“Contei-lhe toda a história, com pequenas alterações, para que não pudesse identificar os lugares. Quando terminei, ficou mudo e pensativo. Eu via pelos seus lábios torcidos que estava lutando consigo próprio.

“‘É um assunto muito importante, Small’, disse ele por fim. ‘Não diga uma palavra a ninguém, que depois venho falar com você.’

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

“Dois dias depois, ele e seu amigo, o capitão Morstan, vieram à minha choça na calada da noite com um lampião.

‘Quero que você conte aquela história ao capitão Morstan’, disse-me ele.

“Repeti-a com as mesmas palavras.

‘Parece ser verdade, não?’, acrescentou. ‘Valerá a pena levá-la a sério?’

“O capitão Morstan concordou com um aceno.

‘Escute, Small’, disse o major. ‘Estivemos falando a esse respeito, o meu amigo e eu, e chegamos à conclusão de que o assunto não é da conta do governo, mas do seu interesse particular, de maneira que, sem dúvida alguma, você pode dispor dele como bem entender. Agora a questão é esta: que preço pede por ele? Talvez possamos ir buscá-lo, ou ao menos ver do que se trata, se nos entendermos quanto às condições.’

“Ele procurava falar de um modo desinteressado e indiferente, mas seus olhos brilhavam de alvoroço e cobiça.

“‘Ora, quanto a isso, major’, respondi, querendo mostrar a mesma indiferença, mas sentindo-me tão nervoso como ele, ‘só há um negócio que na minha situação um homem possa fazer. Quero que me ajudem a recuperar a liberdade, e a dos meus três companheiros. Nós lhes daremos sociedade no tesouro, com direito a um quinto, para dividirem entre os dois.’

‘Hum’, fez ele. ‘Um quinto! Isso não é muito tentador.’

“‘Seriam umas cinqüenta mil libras para cada um’, disse eu.

‘Mas como o ajudaríamos a recuperar a liberdade? Você sabe muito bem que está pedindo o impossível.’

“‘Nada disso’, respondi. ‘Já pensei em tudo com todos os pormenores. A única coisa que impede a nossa fuga é não termos um barco apropriado para a viagem, nem provisões para tanto tempo. Há muitas embarcações em Calcutá ou Madrasta, pequenos iates ou chalupas, que nos serviriam muito bem. Tragam uma para cá. Entraremos a bordo de noite, e, se nos deixarem em qualquer ponto da costa indiana, terão cumprido a sua parte no negócio.’

“‘Se ao menos fosse um só’, disse ele.

“‘Ou todos ou nenhum’, respondi. ‘Fizemos um juramento. Nós quatro devemos estar sempre juntos.’

‘Você vê, Morstan?’, disse ele. ‘Small é um homem de palavra. Não quer faltar aos seus amigos. Acho que podemos confiar nele.’

“‘Ë um negócio sujo’, respondeu o outro. ‘Mas, como você diz, o dinheiro salvará os nossos postos.’

“‘Muito bem, Small’, disse o major. ‘Acho que podemos aceitar as suas condições. Mas é claro que primeiro temos de comprovar a veracidade da sua história. Diga-me onde está escondida a caixa, que eu pedirei licença e irei à índia no barco deste mês a fim de ver o assunto.’

‘Não pode ser assim tão depressa’, disse eu, ficando mais indiferente à medida em que ele se entusiasmava. Preciso do consentimento dos meus três camaradas. Já lhe disse que conosco é quatro ou nenhum.’

‘Tolice!’, exclamou ele. ‘Que é que três indianos têm a ver com o nosso acordo?’

‘Pretos ou azuis’, disse eu, ‘eles estão comigo, e vamos todos juntos.’

“Bem, o assunto terminou com uma segunda entrevista, à qual Muhammad Singh, Abdullah Khan e Dost Akbar estiveram presentes. Tratamos de tudo novamente e por fim chegamos a um acordo. Ficamos de fornecer aos oficiais dois mapas daquela parte do Forte de Agra e marcar o lugar da parede onde o tesouro estava escondido. O major Sholto iria à índia para comprovar a nossa história. Se encontrasse a caixa, devia deixá-la no mesmo lugar, mandar-nos um pequeno iate abastecido para a viagem, que ficaria ao largo da ilha Rutland, onde o tomaríamos, e depois voltaria para o seu posto. O capitão Morstan pediria então uma licença, para nos encontrar em Agra, e lá faríamos a divisão final do tesouro, dando-lhe também a parte do major. Tudo isso foi selado com os juramentos mais solenes que a mente podia formar e os lábios dizer. Passei toda a noite lidando com papel e tinta, e de manhã tinha dois mapas prontos e marcados com o signo dos quatro, isto é, Abdullah, Akbar, Muhammad e eu.

“Bem, cavalheiros, estou cansando-os com esta história tão comprida, e sei que o meu amigo sr. Jones está ansioso por me ver dançar na ponta da corda. Vou terminar o mais depressa possível. O patife do Sholto embarcou para a índia, mas fez a viagem do corvo. Pouco tempo depois, o capitão Morstan mostrou-me o nome dele numa lista de passageiros de um vapor. Morrera um tio dele, deixando-lhe uma fortuna, e ele pedira demissão do exército; mas mesmo assim teve a baixeza de tratar cinco homens da maneira como os tratou. Morstan foi a Agra pouco depois e verificou, como esperávamos, que o tesouro tinha desaparecido. O canalha tinha-o roubado sem cumprir uma só das condições sob as quais lhe havíamos revelado o segredo. Desde esse dia só vivi para a vingança. Pensava nisso o dia todo e à noite ainda mais. Tornou-se a minha obsessão. Pouco me importava a lei… ou a forca. Fugir, encontrar Sholto, meter-lhe as mãos no pescoço… era esse o meu único pensamento. Até o tesouro de Agra já não tinha tanto valor como a morte dele pelas minhas mãos.

“Bem, como disse, sou teimoso, e nunca resolvi fazer uma coisa para depois voltar atrás. Mas passaram-se muitos e tristes anos antes que chegasse a minha oportunidade. Já lhes disse que tinha aprendido alguma coisa de medicina. Um dia, quando o dr. Somerton estava doente, um pequeno selvagem da ilha foi encontrado no mato por um grupo de sentenciados. Estava à morte, e tinha escolhido um lugar solitário para morrer. Dei-lhe a mão, embora ele fosse tão venenoso como uma serpente, e, depois de uns dois meses, consegui pô-lo de pé. Ele afeiçoou-se a mim e nem quis voltar para o mato. Vivia rondando a minha choça. Aprendi um pouco da língua dele, o que ainda aumentou o apego dele por mim.

“Tonga, assim se chamava, era um excelente barqueiro e possuía uma canoa grande e boa. Quando percebi que me era dedicado e faria qualquer coisa que eu quisesse, vi minha oportunidade de fugir. Combinei a coisa com ele. Tonga devia trazer a sua canoa até um molhe abandonado, onde não havia sentinela, e ir me buscar ali certa noite. Dei-lhe instruções para arranjar várias cabaças com água e uma boa quantidade de cocos, inhame e batatas.

“Ele era fiel e constante, o pequeno Tonga. Ninguém jamais teve um amigo tão devotado. Na noite combinada, encostou a canoa ao molhe. Mas aconteceu que um dos guardas do presídio estava lá. . . um malvado que nunca perdia a oportunidade de me insultar e maltratar. Eu tinha jurado vingança, e agora a sorte me favorecia. Era como se o destino o tivesse posto no meu caminho para que eu cobrasse a minha dívida antes de deixar a ilha. Ele estava na praia com a carabina a tiracolo, de costas para mim. Procurei uma pedra para lhe esmagar a cabeça, mas não pude encontrar nenhuma.

“Então veio-me uma idéia sobre uma arma esquisita que eu podia ter à mão. Sentei-me no escuro e desamarrei a minha perna de pau. Com três pulos, eu estava em cima dele. Ainda levou a arma ao ombro, mas eu o atingi em cheio e afundei-lhe a testa. Podem ver a marca na minha perna de pau, aqui onde falta uma lasca. Caímos os dois juntos porque eu não pude manter o equilíbrio, mas, quando me levantei, ele ficou estendido na areia. Tonga tinha trazido consigo todos os seus bens terrenos, suas armas e seus deuses. Entre outras coisas, tinha uma comprida lança de bambu e algumas esteiras de palha de coqueiro com que fiz uma espécie de tocha. Durante dez dias, andamos vagando a esmo, confiando na sorte, e no décimo primeiro fomos recolhidos por um cargueiro que ia de Cingapura para Jiddah com uma leva dc peregrinos malaios. Era uma gente esquisita, e Tonga e eu nos demos muito bem com eles. Tinham uma boa qualidade, isso tinham: deixavam a gente em paz e não faziam perguntas.

“Mas se eu fosse contar todas as aventuras por que eu e o meu pequeno camarada passamos, seria um nunca acabar, e ficaria aborrecendo-os até amanhã de manhã. Andamos vagueando pelo mundo, aqui e ali, e sempre havia qualquer coisa que nos impedia de vir para Londres. Mas durante todo esse tempo eu não perdia de vista o meu objetivo. Chegava a sonhar com Sholto. Matei-o mais de cem vezes em sonhos. Finalmente, depois de uns três ou quatro anos, chegamos à Inglaterra. Não tive grande dificuldade em descobrir onde Sholto morava, e logo tratei de saber se ele tinha vendido o tesouro ou ainda o conservava. Fiz-me amigo de alguém que podia me ajudar, cujo nome não digo porque não preciso meter ninguém em apuros, e em seguida descobri que ainda tinha as jóias. Então procurei chegar até ele de muitas maneiras, mas o homem era ladino, e além disso tinha dois guarda-costas, mais os filhos e o seu kbitmutgar para protegê-lo.

“Um dia, contudo, fui informado de que estava moribundo. Corri para lá imediatamente, pulei o muro e cheguei ao jardim, doido de raiva porque ele fugia daquela maneira das minhas garras. Olhando pela janela, vi-o na cama, com um filho de cada lado. Eu teria entrado mesmo assim e arriscado a minha sorte contra os três, se não visse que naquele momento o queixo lhe pendia e ele entregava a alma ao Diabo. Penetrei no quarto dele nessa mesma noite e rebusquei os seus papéis para ver se havia alguma indicação a respeito do lugar onde tinha escondido as jóias. Não encontrei um só indício e saí tão amargurado e furioso quanto um homem pode ficar. Mas antes de sair pensei que, se algum dia encontrasse os meus amigos siques, seria uma satisfação poder dizer-lhes que tinha deixado um sinal do nosso ódio. Assim, garatujei o signo dos quatro num pedaço de papel, como tinha posto nos mapas, e pendurei-o sobre o peito dele. Não era possível que fosse para a cova sem levar o menor sinal dos quatro homens que tinha roubado e enganado.

“Nessa época, nós ganhávamos a vida nas feiras e em outros lugares onde eu exibia o pobre Tonga como um canibal feroz. Ele comia carne crua e dançava a sua dança de guerra, de maneira que tínhamos sempre um punhado de moedas no fim do dia. Eu continuava a saber de tudo o que se passava em Pondicherry Lodge, e durante alguns anos não houve nenhuma notícia, a não ser que estavam à procura do tesouro. Mas finalmente veio o que havia tanto tempo esperávamos. O tesouro fora encontrado. Estava no teto da casa, em cima do laboratório químico do sr. Bartholomew Sholto.

“Fui lá imediatamente e dei uma vista d’olhos pelo lugar, mas vi que nunca poderia subir até aquela janela com a minha perna de pau. Fiquei sabendo, contudo, que havia um alçapão no telhado e qual a hora em que o sr. Sholto descia para o jantar. Pareceu-me então que poderia arranjar a coisa facilmente por intermédio de Tonga. Trouxe-o comigo e enrolei uma comprida corda à sua cintura. Ele subia como um macaco, e logo chegou ao telhado e entrou pelo alçapão; mas quis a nossa má sorte que Bartholomew Sholto, para sua infelicidade, ainda estivesse na sala.

“Tonga pensou que tivesse feito uma bela coisa ao matá-lo, pois, quando subi pela corda, encontrei-o cheio de si, orgulhoso como um pavão. Muito espantado ficou quando comecei a surrá-lo com a corda, praguejando contra seus instintos selvagens. Apanhei a caixa do tesouro e arriei-a pela corda. Depois, escorreguei por ela, deixando o signo dos quatro em cima da mesa, para mostrar que as jóias tinham por fim voltado a quem tinha mais direito a elas. Tonga puxou a corda, fechou a janela e saiu por onde tinha entrado.

“Acho que não tenho mais nada a lhes dizer. Ouvi um marinheiro falar da velocidade da lancha de Smith, a Aurora, e achei que seria uma ótima embarcação para a nossa fuga. Contratei o serviço com o velho Smith e fiquei de lhe dar uma boa quantia se chegássemos sãos e salvos ao navio. Ele sem dúvida desconfiou que havia qualquer coisa, mas não foi informado do nosso segredo. Tudo isso é a pura verdade, e se a estou contando não é para divertir os senhores, porque o que me fizeram não é nada bom, mas por acreditar que a minha melhor defesa é não esconder nada, e para que todos fiquem sabendo que o major Sholto procedeu mal comigo e que estou inocente da morte do filho dele.”

— Ë um relato notável — disse Sherlock Holmes. — Isso põe fim de maneira apropriada a um caso muitíssimo interessante. Não há nada de novo para mim na última parte da sua narrativa, exceto que trouxe a corda com você. Isso eu não sabia. A propósito, julgava que Tonga tivesse perdido todos os seus dardos, mas ele conseguiu nos atirar um da lancha.

— E tinha-os perdido mesmo, menos um, que estava na sua zarabatana.

— Ah, sim! — disse Holmes. — Não tinha pensado nisso.

— Há mais alguma coisa que o senhor deseje saber? — perguntou afavelmente o sentenciado.

— Não, creio que não. Muito obrigado — respondeu o meu companheiro.

— Bem, Holmes — disse Athelney Jones —, você é um homem a quem temos de fazer a vontade e, todos nós sabemos, um perito em criminologia, mas obrigação é obrigação, e já fui longe demais em fazer o que você e o seu amigo me pediram. Ficarei mais descansado depois de aferrolhar o nosso contador de histórias. O carro ainda está à nossa espera, e há dois inspetores lá embaixo. Estou muito agradecido a ambos pelo auxílio. Naturalmente, serão chamados a depor durante o julgamento. Boa noite para os senhores.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— Boa noite, cavalheiros — disse Jonathan Small.

— Vá na frente, Small — mandou o prudente Jones.

— Tomarei o maior cuidado para que não me esmague a cabeça com a sua perna de pau, como disse ter feito com o homem lá nas ilhas.

— Bem, e aqui termina o nosso pequeno drama — disse eu, depois de ficarmos fumando um pouco em silêncio.

— Receio que esta seja a última investigação em que tive a oportunidade de estudar os seus métodos. A srta. Morstan deu-me a honra de me aceitar como seu futuro marido.

Holmes emitiu um resmungo lúgubre.

— Eu temia isso — disse ele. — Francamente, não posso felicitá-lo.

Fiquei um tanto magoado.

— Tem alguma razão para não concordar com a minha escolha?

— Nenhuma. Acho que ela é uma das jovens mais encantadoras que já encontrei, e que ainda poderia ser muito útil num trabalho como o que acabamos de fazer. Tem faro para isso, haja vista como guardou o mapa de Agra entre todos os papéis de seu pai. Mas o amor é uma coisa emotiva, e o que quer que seja emotivo é contrário a esse raciocínio frio e correto que ponho acima de tudo. Nunca me casarei, para evitar que isso perturbe o meu raciocínio.

—  Confio — disse eu, rindo — em que o meu possa sobreviver a essa prova. Mas você parece muito cansado.

— Sim, é a reação que chega. Ficarei imprestável por uma semana.

— É estranho — observei — como aquilo a que em outro homem eu chamaria preguiça se alterna em você com acessos de esplêndida energia e vigor.

— Sim — respondeu ele —, tenho suficiente propensão para ser um grande preguiçoso e tendência não menor para ser um sujeito dos mais ativos. Freqüentemente me ocorrem estas linhas de Goethe:

Schade, dass die Natur nur einen Mensch aus dir schuf, Denn zum würdigen Mann war und zum Schelmen der Stoff” [1].

“Mas, ainda a propósito desse assunto de Norwood, viu como ele tinha um aliado dentro da casa? Não pode ser outro senão Lal Rao, o mordomo, de maneira que Jones realmente teve o mérito indiscutível de apanhar um peixe nesta grande rede.”

— Esta divisão não me parece justa — observei. Você é que fez todo o trabalho neste caso. Eu arranjei uma esposa, Jones fica com o mérito, e você… que lhe resta?

— Para mim — disse Sherlock Holmes — resta sempre a expectativa de recomeçar, a cada momento, um novo caso.

[1] “Pena que a natureza fizesse de ti um só indivíduo, / porque havia matéria para um homem digno e para um patife.” (N. do T.)

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock