O signo dos quatro – Capítulo 3

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo terceiro

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo terceiro: À procura de uma solução

Já eram cinco e meia quando Holmes voltou. Estava alegre, animado, e com excelente disposição de espírito, um estado que nele se alternava com crises da mais profunda depressão.

— Não há grande mistério neste assunto — disse ele, pegando a xícara de chá que eu acabava de lhe servir. — Os fatos parecem admitir somente uma explicação.

— O quê? Você já o solucionou?

— Bem, isso seria dizer demais. Descobri um fato sugestivo, e é tudo. É, todavia, muito sugestivo. Acabo de verificar, ao consultar a coleção do Times, que o major Sholto, de Upper Norwood, pertencente ao 34.° Regimento de Infantaria de Bombaim, faleceu a 28 de abril de 1882.

— Talvez eu seja muito obtuso, Holmes, mas não vejo o que isso possa sugerir.

— Não? Você me surpreende. Encare-o, então, desta maneira: o capitão Morstan desaparece. A única pessoa em Londres a quem ele pode ter visitado é o major Sholto. O major Sholto afirma não saber que o seu amigo estava em Londres. Uma semana após a sua morte, a filha do capitão Morstan recebe um valioso presente, que é repetido a cada ano e agora culmina com uma carta que diz que ela sofreu um dano. A que dano poderá referir-se, exceto ao de a terem privado do pai? E por que motivo os presentes começariam logo após a morte de Sholto, a menos que o herdeiro de Sholto, sabendo do mistério, desejasse oferecer uma compensação? Sugere alguma outra hipótese que apresente o mesmo dilema e enquadre os fatos?

— Mas que compensação mais estranha! E oferecida de maneira igualmente estranha! Por que motivo, também, escreveria ele uma carta agora, e não há seis anos? Além disso, a carta fala em fazer-lhe justiça. Que justiça lhe podem fazer? É demais supor que o pai ainda esteja vivo. E, ao que se sabe, não há outra injustiça no caso dela.

— Há algumas dificuldades… certamente há — disse Holmes, pensativo. — Mas a nossa expedição desta noite vai resolvê-las todas. Olhe, lá está o carro com a srta. Morstan. Está pronto? Então é melhor irmos descendo, pois já passa um pouco da hora.

Peguei o chapéu e a minha bengala mais grossa, mas observei que Holmes tirava o seu revólver da gaveta e o enfiava no bolso. Pensava, evidentemente, que o nosso trabalho noturno talvez fosse sério.

A srta. Morstan estava abrigada numa capa escura, e o seu rosto delicado mostrava-se sereno mas pálido. Ela não seria mulher se não sentisse certo desassossego perante a estranha empresa em que nos íamos meter, mas mesmo assim estava perfeitamente senhora de si, e respondeu com presteza a algumas perguntas adicionais que Sherlock Holmes lhe fez.

— O major Sholto era amigo íntimo de meu pai — disse ela. — Suas cartas estão cheias de referências ao major. Ele e meu pai comandavam a guarnição das ilhas Andaman, de forma que estavam em freqüente contato. A propósito, na escrivaninha de meu pai foi encontrado um papel curioso, que ninguém pôde entender. Não me parece que tenha a menor importância, mas pensei que talvez o senhor quisesse vê-lo, de modo que o trouxe comigo. Ei-lo.

Holmes desdobrou o papel cuidadosamente e alisou-o sobre um dos joelhos. Depois, muito metodicamente, examinou-lhe toda a superfície com a sua lente dupla.

— Foi fabricado na Índia — observou. — Esteve algum tempo pregado numa prancha. O diagrama nele traçado parece ser parte da planta de uma grande construção, com inúmeros saguões, corredores e passagens. Num determinado ponto, há uma pequena cruz feita com tinta vermelha, e acima dela: “3.37 vindo da esquerda”, escrito a lápis, quase apagado. No canto esquerdo, há uma espécie de hieróglifo formado por quatro cruzes em linha, com os braços ligados. Ao lado está escrito, em caracteres muito grosseiros: “O signo dos quatro: Jonathan Small, Muhammed Singh, Abdullah Khan, Dost Akbar”. Não, confesso que não vejo qual a relação disto com o assunto. Contudo, é evidentemente um documento importante. Estava cuidadosamente guardado dentro de uma agenda de bolso, porque uma face está tão limpa como a outra.

— Foi na agenda de bolso dele que o encontramos.

— Guarde-o cuidadosamente então, srta. Morstan, pois talvez esse papel nos seja útil. Começo a suspeitar que este assunto talvez seja mais profundo e sutil do que a princípio supus. Devo reconsiderar as minhas idéias.

Holmes recostou-se no assento do carro, e logo os olhos vagos e a expressão sombria do seu rosto me indicaram que se embrenhara em seus pensamentos. A srta. Morstan e eu tagarelávamos a meia voz sobre a nossa presente expedição e os seus possíveis resultados, mas o nosso companheiro manteve a sua impenetrável reserva até o final da viagem.

Era uma noite de setembro, e, apesar de ainda não serem sete horas, já estava bastante escuro devido ao denso nevoeiro que, após um dia sombrio, envolvia agora a grande cidade. Nuvens cor de barro desciam melancolicamente sobre as ruas enlameadas. No Strand, os lampiões eram apenas manchas nevoentas de luz difusa, lançando uma fraca reverberação circular no pavimento viscoso. O clarão amarelado das vitrines refletia-se no ar vaporoso, projetando uma luz lôbrega e inconstante sobre as calçadas apinhadas. Para mim, havia qualquer coisa de espectral e amedrontador na interminável procissão de rostos que assomavam e desapareciam naqueles estreitos fachos de luz: rostos tristes e alegres, abatidos e risonhos. Como todo o gênero humano, passavam da sombra para a luz e voltavam novamente para a sombra. Não me impressiono facilmente, mas a noite fosca e melancólica, aliada à estranha missão que nos levava, combinavam-se para me tornar nervoso e deprimido. As maneiras da srta. Morstan davam-me a entender que ela também experimentava o mesmo sentimento. Somente Holmes podia pairar acima das influências comezinhas. Tinha o seu caderno de apontamentos aberto sobre os joelhos, e de quando em quando garatujava cifras e notas à luz da sua lanterna de bolso.

No Lyceum Theatre, o público já se apinhava diante das entradas laterais. Pela fachada principal, rumorejava um contínuo desfile de carruagens, que ali deixavam a sua carga de homens de peito engomado e mulheres com capas e diamantes. Logo após termos chegado à terceira coluna, que era o nosso ponto de encontro, um homem baixo, moreno, empertigado, vestido de cocheiro, aproximou-se de nós.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— São as pessoas que vêm com a srta. Morstan? perguntou ele.

— Sou a srta. Morstan, e estes dois cavalheiros são meus amigos — disse ela.

O recém-chegado observou-nos com olhos admiravelmente penetrantes.

— Desculpe-me, senhorita — disse ele, de modo um tanto rude —, mas preciso que me dê sua palavra de que nenhum dos seus companheiros é agente da polícia.

— Dou-lhe a minha palavra de honra a esse respeito — respondeu ela.

O homem soltou um assobio agudo e, ato contínuo, um rapazinho maltrapilho encostou um cupê à nossa frente e abriu a porta. O homem subiu para a boléia, e nós fomos para os nossos lugares. Mal acabávamos de nos sentar, o cocheiro fustigou o cavalo, e arrancamos numa vertiginosa corrida através das ruas nevoentas.

A situação era curiosa. Dirigíamo-nos para um lugar ignorado, em missão igualmente ignorada. Contudo, ou aquele convite não passava de uma burla — o que era uma hipótese inconcebível —, ou então tínhamos bons motivos para pensar que a nossa viagem teria conseqüências importantes. A atitude da srta. Morstan continuava tão resoluta e composta como antes. Tentei alegrá-la e diverti-la com reminiscências das minhas aventuras no Afeganistão; mas, para dizer a verdade, eu próprio estava tão excitado com a nossa situação, e tão curioso quanto ao nosso destino, que as minhas histórias sofreram certa confusão. Ainda hoje ela afirma que eu lhe contei um emocionante caso de um mosquete que olhou para a minha barraca altas horas da noite e no qual dei um tiro com um filhote de tigre de dois canos. A princípio, tinha uma certa noção do rumo que tomávamos, mas, em seguida, com aquela correria, o nevoeiro e o meu escasso conhecimento de Londres, perdi a orientação e não sabia mais nada, exceto que o caminho parecia muito longo. Sherlock Holmes, entretanto, ia perfeitamente à vontade, sussurrando os nomes enquanto o cupê atravessava praças e entrava e saía por tortuosas travessas.

— Rochester Row disse ele. — Agora é a Vincent Square. Sairemos na Vauxhall Bridge Road. Aparentemente, vamos para os lados de Surrey. Sim, era o que eu pensava. Estamos sobre a ponte. Entrevê-se o rio de quando em quando.

Com efeito, vimos ligeiramente uma nesga do Tmisa, com os lampiões refletindo-se na água escura e silenciosa; mas o nosso carro seguiu adiante, e logo se embrenhou no labirinto das ruas da margem oposta.

— Wandsworth Road — disse o meu companheiro. Priory Road. Lakhall Lane. Stockwell Place. Robert Street. Coldharbour Lane. A nossa investigação não parece nos levar a zonas muito elegantes.

Tínhamos, realmente, alcançado um bairro duvidoso e mal-afamado. Longos conjuntos de casas sombrias, com fachadas de tijolos, eram apenas aliviados pelo clarão incerto das tavernas nas esquinas. Seguiram-se depois ruas e ruas de casas com um jardinzinho à frente, e novamente os intermináveis conjuntos de construções novas com suas gritantes fachadas de tijolo. . . tentáculos monstruosos que a cidade gigantesca ia lançando para o campo. Por fim, o cupê se deteve diante da terceira casa de uma rua recém-aberta. Nenhuma das outras casas estava habitada, e a que tínhamos à frente estava tão escura como as vizinhas, exceto por um bruxulear na janela da cozinha. Ao batermos, porém, a porta foi imediatamente aberta por um criado indiano, de turbante amarelo, roupas brancas e folgadas, e uma faixa também amarela. Havia algo de estranhamente incoerente naquela figura oriental enquadrada na porta comum de uma residência suburbana de terceira categoria.

— O sahib os espera — disse ele, mas simultaneamente ouviu-se uma voz alta e aguda que vinha de alguma sala interior.

— Traga-os aqui, khitmutgar [1] — gritou ele. — Traga-os imediatamente à minha presença.

[1] “Criado”, em hindi. (N. do T.)

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock