O signo dos quatro – Capítulo 5

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo quinto

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge

Eram quase onze horas quando chegamos a essa fase final da nossa aventura noturna. Tínhamos deixado para trás o úmido nevoeiro da grande cidade, e a noite não estava má. Uma brisa quente soprava de oeste, e pesadas nuvens atravessavam lentamente o céu, deixando nesgas por onde espiava a lua minguante. Estava claro o suficiente para que pudéssemos enxergar, mas Thaddeus Sholto, tirando um dos lampiões da carruagem, iluminou melhor nosso caminho.

Pondicherry Lodge erguia-se no centro de um vasto terreno e era cercada por um altíssimo muro de pedra encimado por cacos de vidro. Uma porta estreita, guarnecida de ferro, era a única entrada. O nosso guia bateu da forma característica dos carteiros.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— Quem é? — gritou de dentro uma voz mal-humorada.

— Sou eu, MacMurdo. Já devia conhecer a minha maneira de bater.

Ouviu-se um resmungo e um tinir de chaves. A porta girou pesadamente nos gonzos, e um homem baixo, de peito encovado, assomou à luz amarelada de um lampião, que brilhava à altura do seu rosto saliente e dos olhos estremunhados e desconfiados.

— Ë o sr. Thaddeus? Mas quem são os outros? Não tenho ordens do patrão para mandá-los entrar.

— Não, MacMurdo? Você me surpreende. Ontem à noite eu disse ao meu irmão que traria alguns amigos.

— Ele hoje não saiu de sua sala, sr. Thaddeus, e eu não recebi qualquer ordem. O senhor sabe muito bem que não posso deixar entrar ninguém sem ordem O senhor pode entrar, mas os seus amigos que fiquem onde estão.

Aquilo era um obstáculo inesperado. Thaddeus Sholto olhou em volta de si, perplexo, sem saber o que fazer.

— Está procedendo muito mal, MacMurdo! — disse ele. — Eu respondo por eles, e é quanto lhe basta. Há uma senhorita conosco. Ela não pode ficar esperando na rua a esta hora da noite.

— Sinto muito, sr. Thaddeus — disse o porteiro, inexoravelmente. — Eles podem ser seus amigos, mas não amigos do patrão. Ele me paga muito bem para eu cumprir a minha obrigação, e a minha obrigação é esta. Não conheço nenhum dos seus amigos.

— Conhece, sim, MacMurdo — exclamou Sherlock Holmes jovialmente. — Creio que você ainda não me esqueceu. Não se lembra do amador que disputou três rounds com você no Alison, à noite, em seu benefício, há quatro anos?

— Será o sr. Sherlock Holmes? — trovejou o boxeador. — Deus do céu! Como é que não o reconheci? Se, em vez de ficar aí quieto, o senhor tivesse avançado com um daqueles seus golpes de raspão no meu queixo, eu o teria reconhecido imediatamente. Ah! O senhor é um dos que desperdiçaram uma grande capacidade! Se tivesse ficado no boxe, hoje quem sabe onde já não estaria.

— Está vendo, Watson, se tudo o mais me falhar, ainda me resta uma das profissões científicas — disse Holmes, rindo. — O nosso amigo não vai nos deixar ao relento, estou certo.

— Entre, como não?… O senhor e os seus amigos também — respondeu ele. — Sinto muito, sr. Thaddeus, mas as ordens são muito severas. Eu precisava saber quem eram os seus amigos antes de os deixar entrar.

Lá dentro, uma vereda de saibro serpenteava através do terreno desolado até uma vasta construção maciça, quadrada e prosaica, toda imersa na sombra, exceto uma janela do sótão, a um canto, que refletia palidamente um raio de luar. As enormes proporções do edifício, a escuridão e o silêncio mortal faziam gelar o coração. Até Thaddeus Sholto não parecia muito à vontade, e a lanterna tremia em sua mão.

— Não posso compreender — disse ele. — Deve haver algum engano. Eu disse claramente a Bartholomew que viríamos aqui, e apesar disso não vejo luz na sua janela. Não sei o que pensar disso.

— Ele mantém sempre a casa vigiada dessa maneira? — perguntou Sherlock Holmes.

— Sim, adotou o costume de meu pai. Era o filho predileto, e às vezes penso que talvez meu pai lhe tenha dito muito mais coisas do que a mim. Aquela janela, onde bate o luar, é a de Bartholomew. Está bastante clara, mas não me parece que haja luz lá dentro.

— Nenhuma — disse Holmes. — Mas vejo o reflexo de uma luz naquela janelinha ao lado da porta.

— Ah! Esse é o quarto da governanta. É onde está a sra. Bernstone. Ela deve poder nos dizer alguma coisa. Mas talvez seja melhor esperarem aqui um momento, porque, se formos todos juntos e ela não souber da nossa vinda, é capaz de se assustar. Psiu! Escutem! Que é isso?

Ergueu a lanterna, e sua mão tremia de tal modo que o círculo de luz oscilava em torno de nós. A srta. Morstan aferrou-se ao meu pulso, e todos ficamos quietos, com o coração aos pulos, apurando o ouvido. Do casarão escuro, vinha, através do silêncio da noite, o mais triste e lastimoso dos sons: o choro entrecortado e agudo de uma mulher amedrontada.

— É a sra. Bernstone — disse Sholto. — É a única mulher da casa. Esperem aqui. Voltarei num instante.

Correu até a porta e bateu da sua maneira característica. Vimos que uma velha alta lhe abriu a porta, quase pulando de contentamento ao dar com ele.

— Oh!, sr. Thaddeus, que bom que o senhor veio! Ah! É um alívio vê-lo aqui, sr. Thaddeus!

Nós a ouvimos repetir sua satisfação até que a porta se fechou e a sua voz se perdeu num, tom abafado e uniforme. O nosso guia nos deixara a lanterna. Holmes, movendo-a lentamente em torno, olhou atentamente para a casa e para os grandes montes de lixo que atravancavam o terreno. A srta. Morstan e eu ficamos juntos, e sua mão continuava na minha. Coisa maravilhosa e sutil é o amor, pois ali estávamos os dois, sem que nunca nos tivéssemos visto até aquele dia, e sem que tivéssemos trocado sequer uma palavra ou um olhar afetuoso, e agora, num momento de perigo, as nossas mãos se buscavam instintivamente. Mais tarde, espantei- me com isso, mas naquele instante me parecia a coisa mais natural do mundo ficar a seu lado; e, como ela tantas vezes me disse depois, também o seu instinto era se voltar para mim à procura de consolo e proteção. Ficamos, pois, de mãos dadas, como duas crianças, e, apesar de todas as coisas tenebrosas que nos cercavam, sentíamos uma grande paz no coração.

— Que lugar estranho! — disse ela, olhando em torno.

— Parece que soltaram aqui todas as toupeiras da Inglaterra. Já vi uma coisa parecida no flanco de uma colina, perto de Ballarat, onde os mineiros tinham feito escavações.

— E à procura da mesma coisa — disse Holmes. — O que vemos aqui são os vestígios das buscas do tesouro. Lembre-se de que andaram seis anos procurando-o. Não admira, pois, que o terreno esteja todo revolvido.

Nesse momento, abriu-se a porta, e Thaddeus Sholto saiu correndo na nossa direção, com as mãos erguidas, de olhos esgazeados.

— Aconteceu qualquer coisa a Bartholomew! — gritou ele. — Estou apavorado! Meus nervos não resistem a isso.

Estava, com efeito, quase chorando de medo, e seu rosto débil e cheio de trejeitos, sobressaindo da enorme gola de astracã, tinha a expressão suplicante e desamparada de uma criança assustada.

— Entremos na casa! — disse Holmes, no seu tom firme e incisivo.

— Sim, venham, por favor! — suplicou Thaddeus Sholto. — Não estou em condições de tomar nenhuma deliberação.

Seguimo-lo até o quarto da governanta, que ficava à esquerda do corredor. A velha andava de um lado para outro, com um olhar assustado, inquieta, torcendo as mãos, mas a presença da srta. Morstan pareceu sossegá-la um pouco.

— Deus abençoe o seu rosto calmo e bonito! — exclamou ela, com um soluço nervoso. — Faz-me muito bem. Oh! As coisas por que hoje passei!

A nossa companheira bateu-lhe de mansinho na mão magra e maltratada pelo trabalho, murmurando-lhe algumas palavras de bondoso e feminino consolo, que logo a fizeram recuperar as cores do rosto, até então pálido e descomposto.

— O patrão fechou-se na sua sala e não responde quando eu bato — explicou ela. — Muitas vezes ele gosta de ficar só, mas hoje esperei o dia todo e ele não apareceu. Há cerca de uma hora, porém, receei que tivesse acontecido qualquer coisa, e por isso subi e espreitei pelo buraco da fechadura. Suba lá, sr. Thaddeus, suba e veja o senhor mesmo. Já tenho visto o sr. Bartholomew Sholto triste e alegre, durante dez longos anos, mas nunca o vi com uma cara daquelas.

Sherlock Holmes pegou o candeeiro e saiu à frente, porque os dentes de Thaddeus Sholto batiam com força. Tão abalado se achava, que tive de lhe pegar o braço ao subirmos a escada. Duas vezes, enquanto subíamos, Sherlock Holmes tirou a sua lente do bolso e examinou cuidadosamente umas marcas que para mim não passavam de informes manchas de pó na esteira de palma que servia de passadeira. Ele avançava lentamente, passo a passo, abaixando o candeeiro e dardejando olhares rápidos à esquerda e à direita. A srta. Morstan ficara embaixo com a governanta.

O terceiro lanço da escada terminava num estreito corredor de certa extensão, com uma grande tapeçaria indiana na parede à direita e três portas à esquerda. Holmes avançou da mesma maneira lenta e metódica, e nós o seguimos de perto, projetando compridas sombras. A terceira porta era a que buscávamos. Holmes bateu sem receber resposta, e depois girou o trinco e empurrou-a. Mas a porta estava trancada por dentro, e com um forte trinco, conforme verificamos ao erguer o candeeiro. Todavia, como tinham girado a chave na fechadura, o buraco não estava de todo fechado. Sherlock Holmes curvou-se para olhar e quase imediatamente se ergueu com uma exclamação de pasmo.

— Isso é diabólico, Watson! — disse ele, no tom mais emocionado que eu jamais lhe ouvira. — Que pensa disso?

Curvando-me, espiei pelo buraco e recuei aterrorizado. O luar entrava no aposento, iluminando-o de modo vago e cambiante. Olhando diretamente para mim, e como se estivesse suspenso no ar, porque tudo embaixo era sombra, flutuava um rosto. . . o mesmo rosto do nosso companheiro Thaddeus. Era a mesma cabeça pontuda e reluzente, a mesma orla de cabelos ruivos e eriçados, a mesma tez pálida. As feições, porém, estavam fixas num sorriso horrível, um sorriso estranhamente imóvel, que naquela peça silenciosa e banhada de luar era mais horripilante do que qualquer esgar ou careta. Aquele rosto era de tal modo idêntico ao do nosso amigo, que me voltei para ele a fim de verificar se realmente estava conosco. Lembrei-me então de que ele nos dissera ser irmão gêmeo de Bartholomew.

— Isso é terrível! — disse eu a Holmes. — Que faremos?

— Vamos derrubar a porta — respondeu ele, e, atirando-se a ela, descarregou todo o peso do corpo contra a fechadura.

A porta estalou mas não cedeu. Juntos, lançamo-nos novamente a ela, que dessa vez se escancarou com estrondo, e achamo-nos no aposento de Bartholomew Sholto.

A sala parecia ter sido equipada como um laboratório químico. Uma dupla fileira de frascos com tampas de vidro corria ao longo da parede oposta à porta, e a mesa estava cheia de bicos de Bunsen, tubos de ensaio e retortas. Nos cantos viam-se garrafões de ácido metidos em cestos de vime. Um deles parecia estar quebrado, pois dali corria um fio de líquido escuro, e o ar estava impregnado de um cheiro particularmente acre, como o do alcatrão. A um lado da sala, havia um estrado com degraus, no meio de um entulho de estuque e sarrafos; e por cima dele via-se uma abertura no teto, suficientemente grande para deixar passar um homem. Do lado do estrado, uma comprida corda fora atirada descuidadamente.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Junto à mesa, numa poltrona, o dono da casa estava mal sentado, com a cabeça pendente para o ombro esquerdo e aquele sorriso espectral e indecifrável no rosto. Estava rígido e frio, e evidentemente havia muitas horas que morrera. Pareceu-me que não só as feições como também os seus membros estavam contorcidos de um modo estranho. Sobre a mesa, ao lado da sua mão, via-se um instrumento estranho. . . um pedaço de pau marrom, de veias cerradas, rematado numa cabeça de pedra, semelhante à de um martelo, toscamente amarrada com uma corda grossa. Junto dele, estava uma folha de papel, rasgada de um bloco de anotações, na qual se viam umas garatujas. Holmes relanceou os olhos por ela, passando-a a mim em seguida.

— Veja — disse ele, erguendo significativamente as sobrancelhas.

À luz do candeeiro, li com um arrepio de terror: “O signo dos quatro”.

— Em nome de Deus, que significa tudo isso? — perguntei.

— Significa assassinato — respondeu ele, curvando-se sobre o morto. — Ah! Eu esperava por isto. Olhe aqui!

Dizendo isso, apontou para alguma coisa que parecia um espinho comprido e escuro cravado na pele do morto, pouco acima da orelha.

— Parece um espinho — disse eu.

— E é mesmo. Pode tirá-lo. Mas tenha cuidado porque está envenenado.

Apanhei-o entre o polegar e o indicador. Saiu tão facilmente da pele que quase não deixou marca. Um simples pontinho de sangue indicava o lugar da picada.

— Isso é um mistério insolúvel para mim — disse eu. — Torna-se cada vez mais obscuro em vez de se esclarecer.

— Pelo contrário — respondeu Holmes —, a cada instante mais se esclarece. Preciso apenas de alguns elos para ter todo o caso perfeitamente concatenado.

Quase nos tínhamos esquecido da presença do nosso companheiro desde que entráramos no aposento. Ele ainda se encontrava no limiar da porta, e era a própria imagem do terror, torcendo as mãos e gemendo baixo. Subitamente, porém, lançou um grito agudo e queixoso.

— O tesouro desapareceu! — exclamou. — Roubaram o tesouro! Ali está o buraco por onde o havíamos tirado! Eu próprio o ajudei. Fui a última pessoa que o vi! Deixei-o aqui a noite passada e ouvi-o trancar a porta enquanto descia as escadas.

— A que horas?

— Às dez. E agora ele está morto, e a polícia virá aqui, e eu serei suspeito de ter participado nisso. Oh! Sim, estou convencido. Mas os senhores não pensam assim, não, cavalheiros? Com toda a certeza não pensam que fui eu! Se fosse eu, por que haveria de trazê-los aqui? Oh!, meu Deus, meu Deus! Sei que vou enlouquecer!

Pôs-se a agitar os braços e a bater os pés numa espécie de frenesi convulsivo.

— O senhor nada tem a recear, sr. Sholto — disse Holmes bondosamente, pondo-lhe a mão no ombro. — Aceite o meu conselho: tome o seu cupê, vá até o posto policial e comunique o fato às autoridades. Ofereça-se para ajudá-los em tudo. Nós esperaremos aqui até que volte.

O homenzinho obedeceu, meio estupefato, e logo começamos a ouvir os seus passos incertos na escada às escuras.

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock