O signo dos quatro – Capítulo 7

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo sétimoo

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo sétimo: O episódio do barril

A polícia tinha trazido um carro, e nele acompanhei a srta. Morstan a casa. Como é hábito do feitio angélico das mulheres, ela enfrentara os acontecimentos com serenidade enquanto havia alguém mais fraco para consolar, de forma que a encontrei plácida e bem-disposta ao lado da governanta assustada. No carro, porém, teve um ligeiro desmaio e depois rompeu em soluços… tanto a tinham abalado as aventuras da noite. Disse-me ela, mais tarde, que nessa viagem eu lhe parecera frio e distante. Mal suspeitava a luta que me ia no peito, ou o esforço que fazia para me conter. Meus sentimentos de simpatia e amor buscavam-na instintivamente, assim como, no jardim, a minha mão buscou a sua. Muitos anos de convenções sociais não poderiam me ensinar a conhecer melhor a sua doce e corajosa natureza do que naquele único dia de estranhas ocorrências. Todavia, dois pensamentos selavam nos meus lábios as palavras afetuosas. Ela estava fraca e desamparada, com o espírito e os nervos abalados. Seria desleal aproveitar-me disso para lhe impor cálidos sentimentos. Pior ainda, ela era rica. Se as pesquisas de Holmes fossem bem-sucedidas, viria a ser uma herdeira. Era justo, era honroso que um cirurgião a meio soldo tirasse partido de uma intimidade provocada pelo acaso? Não me olharia ela como a um vulgar caçador de dotes? Não queria sequer pensar no risco de que semelhante idéia lhe passasse pela mente. Aquele tesouro de Agra erguia-se entre nós como uma barreira intransponível.

Eram quase duas horas quando chegamos à residência da sra. Cecil Forrester. Os criados já tinham se recolhido havia muitas horas, mas a sra. Forrester ficara tão interessada na estranha mensagem recebida pela srta. Morstan que ainda aguardava o seu regresso. Ela própria abriu a porta. Era uma mulher de meia-idade, graciosa, e tive a satisfação de ver com que carinho o seu braço enlaçou a cintura da minha companheira, e como era maternal a voz com que a saudou. A srta. Morstan, evidentemente, não era tida como uma simples empregada, mas estimada como uma amiga. Fui apresentado, e a sra. Forrester me suplicou que entrasse para lhe contar as nossas aventuras. Expliquei-lhe, todavia, a importância da minha missão, e prometi-lhe que sem falta voltaria para relatar qualquer progresso que fizéssemos no caso. Ao me retirar, olhei furtivamente para trás, e ainda me lembro do que vi na escada: as duas graciosas figuras enlaçadas, a porta entreaberta, a luz do saguão filtrando-se pelos vitrais, o barômetro e os reluzentes varões da passadeira. Fazia bem ao espírito ver, ainda que de relance, aquele tranqüilo lar inglês num intervalo do tenebroso assunto que nos tinha absorvido.

E quanto mais eu pensava no que tinha acontecido, mais tenebroso me parecia. Passei em revista toda aquela extraordinária série de fatos enquanto o cupê corria pelas ruas silenciosas e iluminadas pelos lampiões a gás. Havia o problema original: esse, pelo menos, agora estava bem claro. A morte do capitão Morstan, a remessa das pérolas, o anúncio, a carta. . . tínhamos feito luz sobre todos esses acontecimentos. Contudo, eles nos haviam conduzido a um mistério mais profundo e ainda mais trágico. O tesouro indiano, a curiosa planta encontrada na bagagem do capitão Morstan, a estranha cena da morte do major Sholto, a redescoberta do tesouro imediatamente seguida pelo assassinato do descobridor, as singularíssimas circunstâncias desse crime, as pegadas, as armas impressionantes, as palavras garatujadas no pedaço de papel, idênticas às que se liam na planta do capitão Morstan. . . eis um verdadeiro labirinto no qual um homem menos excepcionalmente dotado que o meu companheiro de apartamento talvez desesperasse de encontrar uma pista.

A Pinchin Lane era um conjunto de casas velhas, com fachadas de tijolos, na parte baixa de Lambeth. Tive de bater repetidas vezes no número 3 antes que aparecesse alguém. Por fim, uma vela bruxuleou atrás da vidraça e um rosto assomou a uma janela de cima.

— Vá andando, seu beberrão — disse o rosto. — Se continuar com essa barulheira, abro os canis e solto quarenta e três cachorros nas suas pernas.

— Se soltar um só, é precisamente o que eu desejo — respondi.

— Suma! — gritou a voz. — Senão, jogo-lhe este raspador na cabeça!

— Mas eu quero um cachorro — gritei.

— Não quero saber de conversas! — berrou o sr. Sherman. — Saia daí, porque, quando eu disser “três”, lá vai o raspador.

— O sr. Sherlock Holmes… — comecei a dizer.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Essas palavras tiveram um efeito aparentemente mágico, porque a janela imediatamente se fechou com estrondo e num minuto a porta estava destrancada e aberta. O sr. Sherman era um velho alto e magro, de ombros caídos, pescoço descarnado e óculos azuis.

— Um amigo do sr. Sherlock é sempre bem-vindo — disse ele. — Entre, por favor. Cuidado com o texugo, porque ele morde. Seu malcriado! Pretende tirar um pedaço deste cavalheiro?

Essas ultimas palavras foram dirigidas a um arminho que metera o focinho perverso por entre as grades da sua jaula.

— Não se importe com ele, cavalheiro — continuou o velho. — É inofensivo, pois já não tem as presas. Deixo-o solto porque come os escaravelhos. Não fique ressentido por eu ter sido um pouco rude. É que a garotada me importuna. As vezes eles vêm a esta rua só para me acordar. Que é que o sr. Sherlock Holmes deseja?

— Ele mandou pedir um dos seus cães.

— Ah! Então deve ser o Toby.

— Sim, foi Toby o nome que ele me deu.

— Toby mora no número , à esquerda daqui.

O velho avançou lentamente com a sua vela por entre uma curiosa família de animais que reunira em torno de si. A luz incerta e fraca, eu distinguia os pares de olhos reluzentes que nos espiavam de todos os cantos. Até os barrotes que ficavam acima das nossas cabeças eram ocupados por aves solenes, que preguiçosamente mudavam de pé quando as nossas vozes as tiravam da modorra.

Finalmente, apareceu Toby: um animal feio, peludo, de orelhas caídas, metade sabujo, metade perdigueiro, entre baio e branco, de andar feio e pesado. Aceitou, depois de alguma hesitação, o torrão de açúcar que o velho me pusera na mão, e, selando desse modo a nossa aliança, seguiu-me até o carro e não opôs dificuldade em fazer-me companhia. Acabava de bater três horas no carrilhão do Palace quando cheguei novamente a Pondicherry Lodge. O ex-pugilista MacMurdo, ao que eu soube, fora preso como cúmplice, e tanto ele como o sr. Sholto já tinham sido conduzidos para a chefatura. Dois agentes guardavam a estreita entrada, mas deixaram-me passar com o cão quando mencionei o nome do detetive.

Holmes estava na soleira da porta, com as mãos nos bolsos, fumando o seu cachimbo.

— Ah!, trouxe-o! — disse ele. — Otimo cão! Athelney Jones já foi embora. Tivemos uma vasta demonstração de energia depois que você saiu. Ele prendeu não apenas o nosso amigo Thaddeus, como o porteiro, a governanta e o criado indiano. Estamos sozinhos na casa, exceto pelo sargento lá em cima. Deixe aqui o cão e venha comigo.

Amarramos Toby à mesa do saguão e subimos mais uma vez as escadas, O aposento estava como o havíamos deixado, à exceção do lençol, que agora cobria a figura central. Um sargento da polícia, de aspecto cansado, estava sentado a um canto da sala.

— Empreste-me a sua lanterna, sargento — disse o meu companheiro. — Watson, amarre-me este pedaço de papel no pescoço, de modo que fique pendurado à minha frente. Assim. Obrigado. Agora tenho de tirar os sapatos e as meias. Quer levá-los para baixo, Watson? Vou fazer uma pequena escalada. E mergulhe o meu lenço no creosoto. Pronto. Agora suba comigo à mansarda.

Passamos pelo buraco do teto. Holmes virou mais uma vez a sua lanterna para as pegadas no pó.

— Insisto em que você observe cuidadosamente estas marcas — disse ele. — Vê nelas alguma coisa digna de nota?

— Pertencem — respondi — a uma criança ou a uma mulher.

— Mas, além do tamanho, não há mais nada?

— Parecem pegadas como outras quaisquer.

— Nada disso. Olhe aqui! Esta é a marca de um pé direito no pó. Agora vou deixar ao lado dela a marca do meu pé descalço. Qual é a diferença mais evidente?

— Os seus dedos são juntos. Os outros aparecem nitidamente separados.

— Exatamente. É esse o ponto. Guarde-o na memória. Agora, quer me fazer o favor de ir até aquela abertura e cheirar o quadro de madeira?

Fiz o que ele me pedia e imediatamente senti um cheiro forte, semelhante ao do alcatrão.

— Foi aí que ele pousou o pé ao sair. Se você pode senti-lo, creio que Toby não terá a menor dificuldade. Agora desça ao andar térreo, solte o cão, e espere pela chegada do Ruivo.

Quando cheguei ao jardim, Sherlock Holmes já estava no telhado, parecendo-me um enorme vaga-lume rastejando muito lentamente pela cumeeira. Perdi-o de vista atrás de um conjunto de chaminés, mas dali a pouco reapareceu, e depois sumiu mais uma vez do lado oposto. Quando dei volta à casa, encontrei-o sentado numa das calhas do telhado.

— É você, Watson? — gritou ele.

— Sou.

— É aqui o lugar. O que é isso preto aí embaixo?

— Um barril.

— Tem tampa?

— Tem.

— Não há nenhum sinal de escada?

— Não.

— Diabo de sujeito! É um lugar para quebrar o pescoço. Se ele pôde subir por aqui, eu também posso descer. Os canos de água parecem firmes. Seja como for, lá vou eu.

Houve um arranhar de pés, e a lanterna começou a descer pela parede num movimento uniforme. Depois, com um pequeno salto, Holmes caiu sobre o barril e em seguida pisava o chão.

— Foi fácil segui-lo — disse ele, calçando as meias e os sapatos. — As telhas estavam frouxas durante toda a pista, e ele, com a pressa, deixou cair isto. É uma coisa que confirma o meu diagnóstico, como dizem vocês, médicos.

O objeto que ele me entregou era uma pequena bolsa tecida com palhas de diversas cores e cercada de contas vistosas. Em forma e tamanho, não era muito diferente de uma cigarreira. Dentro havia meia dúzia de espinhos pretos, agudos numa ponta e arredondados na outra, como o que tínhamos encontrado em Bartholomew Sholto.

— São armas infernais! — disse ele. — Cuidado, não se pique. Estou muito satisfeito por tê-los encontrado, pois é muito provável que sejam todos os que ele possuía. Dessa forma não precisamos recear que de um momento para outro nos espetem um na pele. Quanto a mim, prefiro enfrentar a bala de um “Martini”. Você será capaz de agüentar uma esticada de uns seis quilômetros, Watson?

— Decerto — respondi.

— A sua perna resistirá?

— Sem dúvida.

— Ah! Olhe o meu cachorrinho! Aqui, Toby! Toby, Toby! Cheire isto, Toby, cheire!

Ao dizer isso, Holmes esfregou o lenço embebido em creosoto no focinho do cão, enquanto o animal abria as patas, inclinando comicamente a cabeça, como um conhecedor cheirando o bouqaet do vinho de uma colheita famosa. Holmes arremessou o lenço para longe, amarrou uma grossa corda à coleira do sabujo e conduziu-o até o barril de água. O animal imediatamente rompeu numa série de latidos agudos e trêmulos, e, com o focinho no chão, o rabo espetado no ar, atirou-se ao rastro com uma rapidez que esticava a corda e nos fazia andar o mais depressa que podíamos.

O nascente fora clareando aos poucos, e agora podia-se enxergar até certa distância à luz cinzenta da madrugada. O casarão maciço e quadrado, com suas janelas negras e vazias, seus muros altos e nus, erguia-se triste e soturno atrás de nós. O nosso caminho seguia reto pelo terreno, acima e abaixo dos poços e trincheiras que o desfiguravam. Tudo aquilo, com os montes de lixo aqui e ali, os arbustos raquíticos, tinha um aspecto sinistro e agourento que se casava perfeitamente com a negra tragédia que sobre ele pairava.

Ao atingir o muro que delimitava a propriedade, Toby pôs-se a correr ao longo dele, ganindo ansiosamente, e por fim deteve-se num canto encoberto por uma pequena faia. No ângulo em que os dois muros se encontravam, vários tijolos tinham sido quebrados, e os buracos feitos estavam desgastados na parte inferior, como se freqüentemente servissem de escada. Holmes subiu por eles e, tirando-me o cão das mãos, passou-o para o outro lado.

— Aqui está a marca da mão do perna-de-pau — observou ele quando eu subia o muro por minha vez. — Há uma ligeira mancha de sangue no reboco branco. Que sorte não ter chovido! O rastro está bastante fresco, apesar das oitenta e quatro horas que eles nos levam de vantagem.

Confesso que tive as minhas dúvidas quando pensei no intenso tráfego londrino verificado naquele intervalo. Mas em breve os meus receios desapareciam. Toby não hesitava um instante sequer e continuava a avançar no passo ondulante que lhe era peculiar. Evidentemente, o cheiro acre do creosoto destacava-se entre os demais que houvesse.

— Não imagine — disse Holmes — que o meu êxito neste caso possa depender do fato de que um daqueles sujeitos tenha pisado casualmente no creosoto. Já tenho elementos para segui-los de muitas maneiras diferentes. Esta, porém, é a mais fácil, e, desde que a sorte colocou-a em nossas mãos, seria estúpido não utilizá-la. Além disso, evitou que o caso se transformasse no pequeno problema intelectual que a princípio parecia ser. Se não fosse esta pista demasiado palpável, devia haver certo mérito em desvendá-lo.

— Mas há mérito para dar e vender — disse eu. — Afirmo-lhe, Holmes, que estou maravilhado com os meios pelos quais você está obtendo seus resultados neste caio, mais ainda do que no crime de Jefferson Hope. Este caso me parece ainda mais difícil e inexplicável.

— Ora, meu caro! E a própria simplicidade. Não quero assumir ares teatrais. Tudo é claro e evidente por si mesmo. Dois oficiais que comandam a guarnição de um presídio vêm a descobrir um importante segredo a respeito de um tesouro enterrado. Um inglês chamado Jonathan Small desenha-lhes um mapa. Lembre-se de que vimos esse nome na planta que estava em poder do capitão Morstan. Jonathan assinou-o por si e pelos seus sócios… o signo dos quatro, como ele o chaniou com certa dramaticidade. Com o auxílio dessa planta, os oficiais… ou um deles… apanha o tesouro e o traz para a Inglaterra, deixando de cumprir, suponhamos, qualquer condição sob a qual o recebeu. Mas, então, por que não apanhou o próprio Jonathan o tesouro? A resposta é óbvia. A planta tem a data da época em que Morstan entrou em contato com os sentenciados. Jonathan Small não apanhou o tesouro porque ele e os seus sócios também eram sentenciados e não podiam sair de onde estavam.

— Mas isso é mera conjectura — observei.

— É muito mais do que isso. E a única hipótese que explica os fatos. Vejamos como ela se enquadra na seqüência dos mesmos. O major Sholto passa tranqüilamente alguns anos, feliz por estar de posse do tesouro. Depois recebe uma carta da India que lhe causa um grande susto. Que seria?

— Uma carta informando que os homens a quem ele ludibriara tinham sido soltos.

— Ou fugido. Isso é muito mais provável, pois ele devia saber qual era a duração da pena. Do contrário, não se surpreenderia. Que faz ele então? Acautela-se contra um homem de perna de pau… um homem branco, note bem, porque o confunde com um vendedor branco a ponto de lhe dar um tiro de pistola. Ora, na planta figura o nome de um único homem branco. Os outros são hindus ou muçulmanos. Não há outro homem branco. Por conseguinte, podemos dizer com certeza que o homem da perna de pau e Jonathan SmaIl são a mesma pessoa. Esse raciocínio lhe parece falso?

— Não; é claro e conciso.

— Pois bem. Agora coloquemo-nos no lugar de Jonathan Small. Encaremos a coisa pelo seu ponto de vista. Ele vem à Inglaterra com a dupla intenção de reaver o que julgava de seu direito e de se vingar do homem que o tinha ludibriado. Descobriu onde Sholto morava e, muito possivelmente, estabeleceu ligações com alguém da casa. Há aquele mordomo, Lal Rao, que não vimos. A sra. Bernstone está longe de descrevê-lo como uma boa pessoa. Small não pôde, contudo, descobrir onde estava escondido o tesouro, pois ninguém jamais o soube, exceto o major e um fiel criado que tinha morrido. Subitamente, Small é informado de que o major está moribundo. Em pânico, cheio de medo de que o segredo do tesouro morra com o major, desafia os guardas e consegue chegar até a janela do agonizante, e só não entra porque a presença de seus dois filhos o impede. Mas nessa mesma noite, doido de raiva contra o morto, entra no seu quarto e remexe seus papéis particulares na esperança de descobrir algum memorando referente ao tesouro, e finalmente deixa um sinal da sua visita num breve escrito. Sem dúvida, planeara-o de antemão; se tivesse matado o major, também teria deixado um escrito semelhante sobre o corpo, como sinal de que aquilo não era um assassinato comum, mas, sob o ponto de vista dos quatro associados, algo parecido com um ato de justiça. Conceitos estranhos e caprichosos dessa espécie são comuns nos anais do crime, e geralmente fornecem valiosas indicações quanto ao criminoso. Está me acompanhando?

— Perfeitamente.

— Então, o que poderia fazer Jonathan Small? Simplesmente vigiar em segredo os esforços para descobrirem o tesouro. Talvez ele saia da Inglaterra e só volte a intervalos certos. Segue-se, depois, a descoberta do tesouro na mansarda, e ele é imediatamente informado. Novamente sentimos a presença de um cúmplice na casa. Jonathan, com sua perna de pau, é absolutamente incapaz de galgar o altíssimo aposento de Bartholomew Sholto. Todavia, leva consigo um cúmplice muito curioso, que afasta essa dificuldade, mas mergulha o pé no creosoto, e daí resulta Toby e uma esticada de seis quilômetros para um oficial a meio soldo com um tendão de Aquiles avariado.

— Mas foi o cúmplice, e não Jonathan, que cometeu o crime.

— Não há dúvida. E com grande desagrado para Jonathan, a julgar pela maneira como pisou o soalho quando entrou no aposento. Ele não guardava nenhum rancor contra Bartholomew Sholto, e teria preferido simplesmente amarrá-lo e amordaçá-lo. Não queria expor o pescoço à forca. Mas não havia mais remédio: os instintos selvagens do seu companheiro tinham se manifestado. Jonathan deixou o seu escrito, pegou o tesouro e desapareceu com ele. Foi essa a seqüência dos acontecimentos, até onde posso decifrá-la. Quanto à sua aparência pessoal, está claro que deve ser um homem de meia-idade e queimado pelo sol, depois de tantos anos no forno que são as ilhas Andaman. A sua estatura é facilmente calculável pelo tamanho dos passos, e sabemos que era barbudo. Aliás, esse pormenor foi o único ponto que impressionou Thaddeus Sholto quando o viu à janela. Não sei se há mais alguma coisa.

— E o cúmplice?

— Ah! Não há grande mistério nisso. Mas em breve saberá bastante a esse respeito. Como está agradável o ar da manhã! Veja aquela nuvenzinha que flutua como uma pena rosada caída de um gigantesco flamingo. Agora o disco vermelho do sol atira-se contra a massa nevoenta de Londres. Brilha sobre muita gente, mas, ouso apostar, não sobre quem ande em missão mais estranha do que a nossa. Como nos sentimos pequenos, com as nossas mesquinhas lutas e ambições, na presença de grandes forças elementares da natureza! Está bem a par do seu Jean-Paul [1]?

— Sofrivelmente. Li-o pelas referências de Carlyle.

— Isso equivale a acompanhar o regato até o lago de onde brota. Ele faz uma observação curiosa mas profunda. É que a verdadeira grandeza do homem reside na percepção da sua própria pequenez. Alega, como vê, uma capacidade de comparação e apreciação que é em si mesma uma prova de nobreza. Em Richter há muita coisa que faz pensar. Trouxe o seu revólver?

— Tenho a minha bengala.

— É possível que precisemos de alguma coisa parecida, se chegarmos ao covil deles. Quanto a Jonathan, deixo-o com você, mas, se o outro vier com as suas, meto-lhe uma bala na cabeça.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Ao dizer isso, tirou o revólver, pôs duas balas no tambor e guardou-o no bolso direito do casaco.

Durante esse tempo, tínhamos seguido a orientação de Toby através de uma área meio rural, com ruas ladeadas por vivendas, que conduziam à cidade. Agora, entretanto, começávamos a passar por ruas contínuas, onde trabalhadores e homens das docas já iam para o trabalho e mulheres desalinhadas varriam os degraus das portas. Nas esquinas de sobrados quadrados, começava o movimento dos bares: homens mal-encarados apareciam esfregando as mangas nas barbas, após o seu gole matinal. Cães estranhos surgiam de súbito e ficavam nos olhando admirados, mas o nosso inimitável Toby não olhava nem para a direita nem para a esquerda, e continuava a trotar para a frente, com o focinho no chão, ocasionalmente ganindo um pouco mais alto, quando o rastro era mais forte.

Tínhamos atravessado Streatham, Brixton, Camberwell, e agora nos encontrávamos na Kennington Lane, dirigindo- nos para leste da cidade, que atingimos por ruas transversais. Os homens que seguíamos pareciam ter feito um curioso caminho em ziguezague, talvez com o intuito de não serem seguidos. Jamais passavam por uma rua principal, quando havia uma paralela que lhes servisse. Na entrada da Kennington Lane tinham virado à direita, passando pela Bond Street e pela Miles Street. No ponto em que esta última envereda para a Knight’s Place, Toby cessou de avançar e começou a correr para a frente e para trás, com uma orelha em pé e a outra caída: a própria imagem da indecisão canina. Depois, começou a trotar em círculos, olhando de quando em quando para nós, como se pedisse desculpas pelo seu embaraço.

— Que diabo terá esse cachorro? resmungou Rolmes. — Eles com certeza não tomaram um carro nem subiram num balão.

— Talvez tivessem ficado um pouco por aqui — lembrei.

— Ah! Está tudo bem. Lá vai ele de novo — disse o meu companheiro em tom de alívio.

Lá ia ele, com efeito, pois, tendo fungado aqui e ali, tomou subitamente uma resolução e lançou-se para a frente, com uma energia e numa determinação que ainda não havia ostrado. O rastro parecia muito mais forte do que antes, porque ele nem sequer precisava pôr o focinho no chão, e esforçava-se por se livrar da corda para correr, O brilho nos olhos de Holmes dizia-me que ele supunha estarmos próximos do fim da nossa jornada.

Continuamos no mesmo rumo, descendo a Nine Elmes, até que chegamos a um grande depósito de madeira de Broderick e Nelson, pouco além da Taverna da Águia Branca. Em frenético alvoroço, o cão entrou por um portão lateral no recinto onde os serradores já estavam trabalhando. Por sobre aparas e lascas de madeira, depois por uma alameda, ao longo de um corredor, entre duplas pilhas de tábuas, lá foi ele quase correndo até que, finalmente, com um latido triunfante, saltou para cima de um tonel que ainda não haviam descarregado da zorra. Com a língua de fora, piscando os olhos, Toby continuou empoleirado no tonel, olhando- nos, à espera de algum sinal de apreciação. As bordas do tonel e as rodas da zorra estavam lambuzadas de um líquido preto, e tudo cheirava fortemente a creosoto.

Sherlock Holmes e eu nos fitávamos confusos, e depois, simultaneamente, desatamos num irreprimível ataque de riso.

[1] Johann Paul Friedrich Richter, dito Jean-Paul, escritor alemão (1763-1825), alia a sensibilidade ao humor e à ironia. (N. do T.)

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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