O signo dos quatro – Capítulo 8

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo oitavo

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street

— E agora? — perguntei. — Toby perdeu a sua fama de infalível.

— Ele procedeu de acordo com o que tinha — disse Holmes, tirando-o de cima do tonel e dirigindo-se para a saída. — Se você pensar na quantidade de creosoto que é transportada em Londres num só dia, não admira que o nosso rastro tenha sido cortado por outro. Usa-se muito creosoto agora, principalmente para curar a madeira, O pobre Toby não tem culpa.

— Voltamos ao rastro principal, então?

— Sim. E felizmente não temos grande distância a percorrer. E evidente que o cão ficou embaraçado na esquina da Knight’s Place porque havia ali dois rastros correndo em direções opostas. Seguimos o falso, Só o que temos a fazer é seguir o outro.

Com efeito, não houve dificuldade a esse respeito. Reconduzido à praça onde tinha cometido aquele engano, Toby farejou um largo círculo e finalmente largou em nova direção.

— Devemos evitar que ele nos leve ao lugar de onde veio o tonel de creosoto — observei.

— Já tinha pensado nisso. Mas repare que ele se mantém no passeio, e que o tonel passou pelo meio da rua. Não, desta vez estamos no rastro certo.

O rumo era agora para os lados do rio, cortando a Belmont Place e a Prince’s Street. No fim da Broad Street, voltava-se diretamente para a beira da água, onde havia um pequeno armazém de madeira. Toby levou-nos até o final deste e ali ficou ganindo, olhando para a corrente turva embaixo.

— Estamos sem sorte — disse Holmes. — Eles tomaram um barco aqui.

Meia dúzia de pequenas chatas e caíques estavam amarrados às estacas do armazém. Levamos Toby a cada um deles, mas, apesar de farejar com veemência, não deu nenhum sinal de satisfação.

Perto do tosco embarcadouro, havia uma casinha de tijolos, com uma tabuleta pendurada na segunda janela. “Mordecai Smith”, lia-se nela em letras graúdas, e, mais abaixo: “Alugam-se barcos por dia ou por hora”. Um segundo letreiro, na porta, informou-nos de que também havia uma lancha a vapor. . . anúncio que era confirmado por uma grande pilha de carvão sobre o armazém. Sherlock Holmes olhou vagarosamente em torno, e seu rosto assumiu uma expressão de desânimo.

— Mau, mau — disse ele. — Aqueles sujeitos são mais vivos do que eu esperava. Parece que tiveram o cuidado de não deixar rastro. Receio que aqui tenha havido alguma coisa preparada de antemão.

Aproximava-se ele da casa, quando a porta se abriu e um garotinho de uns seis anos saiu correndo, seguido de uma mulher gorda e vermelha, com uma enorme esponja na mão.

— Venha para o banho, Jack! — gritou ela. — Volte aqui, menino endiabrado. Quando o seu pai voltar a encontrá-lo assim, já sabe o que vai acontecer.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— Venha cá, rapazinho! — continuou Holmes, diplomaticamente. — Que garoto mais forte! Ouça, Jack, quer que eu lhe dê uma coisa?

O menino pensou um instante.

— Eu queria um xelim — disse ele.

— Não há nada de que goste mais?

— Gosto mais de dois xelins — respondeu o prodígio, depois de pensar um pouco.

— Aqui os tem, então! Tome! Que garoto esperto, sra. Smith!

— Chega a ser esperto demais, senhor. Quase não o agüento, principalmente quando o meu marido passa dias fora de casa.

— Está ausente? — disse Holmes, numa voz desapontada. — Que pena! Eu desejava falar com o sr. Smith.

— Ele saiu ontem de manhã. E, para lhe dizer a verdade, começo a ficar assustada. Mas, se desejava um barco, talvez eu possa servi-lo.

— Quero alugar a lancha a vapor.

— Ora veja! Foi justamente na lancha que ele saiu. Por isso é que não compreendo. A lancha só tinha carvão para ir quando muito até Woolwich e voltar. Se ele tivesse ido na chata, eu não me incomodava, porque muitas vezes já ficou em Gravesend, apesar da distância, e mais de um dia quando havia muito o que fazer. Mas de que serve uma lancha a vapor sem carvão?

— Talvez ele tenha comprado um pouco rio abaixo.

— Pode ser, mas não costuma fazer isso. Ele vive reclamando contra o preço que os depósitos de lá cobram por meia dúzia de saquinhos. Além disso, não me agrada a cara daquele perna-de-pau com fala esquisita. Ele não tem nada que andar sempre por aqui.

— Um homem com perna de pau? — disse Holmes, com ingênua surpresa.

— Sim, um tipo queimado de sol, com cara de macaco, que já andou muitas vezes atrás do meu marido. Foi ele que o acordou ontem à noite, mas o meu marido decerto estava à espera dele, porque a lancha já tinha pressão. Não, senhor, como lhe digo, isso não me cheira bem.

— Mas, minha cara sra. Smith — disse Holmes, encolhendo os ombros —, a senhora está se assustando por nada. Aliás, como sabe que foi um homem com perna de pau a pessoa que veio ontem à noite? Não compreendo como é que pode estar certa disso.

— Pela voz dele, senhor. Conheço aquela voz presa, encatarrada. Bateu na janela… mais ou menos às três. “Pule da cama, patrão”, disse ele. “Está na hora do seu quarto.” Meu marido acordou Jim, que é o meu filho mais velho, e lá se foram eles sem me dizer nada. Ouvi a perna de pau batendo nas pedras.

— E esse homem da perna de pau veio sozinho?

— Não sei, acho que sim. Não ouvi mais ninguém.

— É uma pena, sra. Smith, porque eu precisava de uma lancha a vapor, e deram-me boas informações sobre a… Como é o nome dela?

— Aurora, senhor.

— Ah! Sim. Não é uma lancha verde com uma lista amarela na linha-d’água, com a proa larga?

— Não, nada disso. É estreita como nenhuma outra no rio. Acaba mesmo de ser pintada. É preta, com duas listas vermelhas.

— Muito obrigado. Espero que o sr. Smith volte depressa. Vou descer o rio, e, se encontrar a Aurora, digo ao seu marido que a senhora está um pouco inquieta. Chaminé preta, não é?

— Não, senhor. Preta com uma listra branca.

— Isso mesmo, O costado é que é todo preto. Passe um bom dia, sra. Smith. Ali está um barqueiro, Watson. Vamos atravessar o rio com ele.

“O principal com gente dessa espécie”, disse Holmes, quando nos sentamos nos bancos da catraia, “é dar-lhes a entender que não temos o menor interesse nas suas informações. Do contrário, fecham-se como ostras. Mas, se os ouvimos com uma espécie de má vontade, é muito provável virmos a saber o que desejamos.”

— Nosso trabalho agora parece-me bastante claro — observei.

— Que faria você, então?

— Alugaria uma lancha e desceria o rio à procura da Aurora.

— Meu caro amigo, isso seria um nunca acabar. A lancha pode ter atracado em qualquer armazém, numa ou noutra margem, daqui até Greenwich. Depois da ponte, há um perfeito labirinto de embarcadouros que se estende por vários quilômetros. Levaria dias e dias a percorrê-los, se fosse sozinho.

— Empregue a polícia, então.

— Não. Provavelmente chamarei Athelney Jones no último instante. Ele não é mau sujeito, e eu de modo nenhum gostaria de prejudicá-lo profissionalmente. Mas creio que posso ir para a frente sozinho, agora que já chegamos até este ponto.

— Não poderíamos pôr um anúncio nos jornais, pedindo informações aos donos dos armazéns?

— Pior ainda! Os nossos homens saberiam que tinham alguém no encalço e logo deixariam o país. Aliás, é bem provável que o deixem, mas, enquanto se julgarem seguros, não terão muita pressa. A energia de Jones será útil para nós três, porque a sua maneira de ver o caso sem dúvida aparecerá na imprensa diária e os fugitivos pensarão que todos estão na pista falsa.

— Que faremos então? — perguntei, quando desembarcamos na outra margem, próximo da penitenciária de Miiibank.

— Vamos tomar esse carro, ir para casa comer alguma coisa e dormir algumas horas. É muito provável que esta noite tenhamos trabalho novamente. Pare numa agência telegráfica, cocheiro! Ficaremos com Toby, pois talvez ele ainda nos possa ser útil.

Paramos na agência da Great Peter Street, e Holmes despachou o seu telegrama.

— Para quem supõe que o enviei? — perguntou ele, ao reiniciarmos a viagem.

— Confesso que não faço a menor idéia.

— Lembra-se do meu destacamento policial irregular da Baker Street, o que empreguei no caso de Jefferson Hope?

— E daí? — disse eu rindo.

— Pois este é justamente um caso no qual aqueles garotos desocupados podem prestar um serviço inestimável. Se eles falharem, tenho outros recursos. O telegrama foi para o meu esfarrapado tenente Wiggins; tomara que ele e o seu bando nos esperem.

Eram agora cerca de nove horas, e eu começava a sentir os efeitos da noite passada em claro, em meio a tantos alvoroços. Estava cansado, com a perna doendo, o espírito entorpecido e o corpo fatigado. Não tinha o entusiasmo profissional que impelia o meu companheiro, nem podia olhar o assunto como um mero problema intelectual. No tocante à morte de Bartholomew Sholto, pouca coisa boa ouvira dizer dele, e não podia sentir uma intensa antipatia por seus assassinos. O tesouro, no entanto, era um assunto diferente. Pertencia, pelo menos em parte, à srta. Morstan. Enquanto houvesse uma possibilidade de recuperá-lo, estava disposto a devotar a minha vida a esse único objetivo. Na verdade, se o encontrasse, ele provavelmente a poria fora do meu alcance. Contudo, seria mesquinhez e egoísmo deixar-me influenciar por semelhante idéia. Se Holmes podia trabalhar para encontrar os criminosos, eu tinha dez vezes mais razão em fazê-lo para descobrir o tesouro.

Um banho na Baker Street e roupas limpas deixaram- me em excelente disposição. Quando voltei à sala, encontrei a mesa servida e Holmes tomando o seu café.

— Aqui está — disse ele, rindo e apontando para um jornal aberto. — O enérgico Jones e o repórter ubíquo resolveram tudo. Mas você já está farto de saber como foi. É melhor tomar primeiro o seu café.

Peguei o jornal e li a breve notícia que se intitulava: “Fato misterioso em Upper Norwood”.

“Cerca da meia-noite de ontem”, dizia o Standard, “o sr. Bartholomew Sholto, da Pondicherry Lodge, em Upper Norwood, foi encontrado morto em seu aposento, em circunstâncias que indicam uma ação criminosa. Até onde sabemos, nenhum sinal de violência foi encontrado na pessoa do sr. Sholto, mas uma valiosa coleção de gemas indianas que o falecido cavalheiro havia herdado do seu progenitor tinha desaparecido. O fato foi inicialmente constatado pelo sr. Sherlock Holmes e pelo dr. Watson, que chegavam de visita em companhia do sr. Thaddeus Sholto, irmão do falecido. Por um feliz acaso, o sr. Athelney Jones, conhecido membro da corporação de detetives da cidade, encontrava-se no posto policial de Norwood, e compareceu no local meia hora depois de ser sido dado o alarme, O sr. Jones concentrou imediatamente a sua consumada habilidade e os seus dotes excepcionais no esclarecimento do fato, com o satisfatório resultado de que o irmão, Thaddeus Sholto, já foi detido, juntamente com a governanta, sra. Bernstone, um mordomo indiano chamado Lal Rao, e um porteiro, chamado MacMurdo. Ficou comprovado que o referido ladrão ou ladrões conheciam bem a casa, pois o sr. Jones, com os seus renomados conhecimentos técnicos e a sua faculdade de observação minuciosa, provou que os assaltantes não poderiam ter entrado pela porta ou pela janela, mas sim pelo telhado da casa, e daí por um alçapão que conduzia à sala onde foi encontrado o corpo. Essa circunstância, que ficou perfeitamente esclarecida, demonstra que o roubo não foi feito ao acaso. A ação pronta e enérgica das autoridades acentua a grande vantagem que é, em tais ocasiões, poderem contar com um espírito vigoroso e ágil. Parece-nos que este é mais um argumento em favor dos que desejam ver o nosso corpo de detetives menos centralizado, para que haja um contato mais íntimo e eficiente com os casos que é de seu dever investigar.”

— Não é magnífico? — disse Holmes, rindo por trás da sua xícara de café. — Que pensa disso?

— Penso que por pouco não fomos detidos como cúmplices do crime.

— Também eu. Não garanto muito pela nossa liberdade, se ele agora tiver outro dos seus acessos de energia.

Nesse momento, a campainha soou fortemente, e ouvi a sra. Hudson, a nossa senhoria, erguer a voz numa série de protestos.

— Meu Deus, Holmes! — disse eu. — Creio que já andam atrás de nós.

— Não, não é assim tão mau. Trata-se da corporação não oficial… dos irregulares da Baker Street.

Enquanto ele assim falava, o ruído de pés nus reboou na escada, seguido por uma algazarra de vozes agudas, e uma dúzia de garotos sujos e maltrapilhos invadiu a sala. Havia certa disciplina entre eles, a despeito da sua entrada tumultuosa, porque imediatamente se puseram em linha e ficaram nos olhando muito atentos. Um deles, mais alto e mais velho do que os outros, postava-se à frente com um ar de descuidada superioridade, irresistivelmente cômica naquele pequeno espantalho das ruas.

— Recebi o seu telegrama, chefe — disse ele —, e trouxe logo o grupo. Três xelins e seis pence de passagem.

— Aqui os tem — disse Holmes, dando-lhes umas moedas de prata. — No futuro, eles que se comuniquem com você, Wiggins, e você, diretamente comigo. Não quero a casa invadida dessa maneira. Mas, uma vez que já estão todos aqui, podem ouvir as instruções. Quero saber onde está uma lancha a vapor chamada Aurora, preta, com duas listras vermelhas, chaminé preta com uma risca branca. Dono: Mordecai Smith. A lancha anda por aí, rio abaixo. Um dos garotos deve ficar no embarcadouro de Mordecai Smith, que fica em frente ao Millbank, para informar se a lancha voltou. Vocês podem se dividir em dois grupos, um de cada lado do rio. Avisem-me no momento em que tiverem notícias. Tudo claro?

— Perfeitamente, chefe — disse Wiggins.

— O pagamento é o mesmo, e há mais um guinéu para o garoto que encontrar a lancha. Aqui está um dia adiantado. Agora sumam!

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Holmes deu um xelim a cada um, e lá se foram eles escada abaixo. Segundos depois, vi-os dispararem pela rua.

— Se a lancha estiver na água, eles a encontrarão — disse Holmes, levantando-se da mesa e acendendo o cachimbo. — Eles podem ir a toda parte, ver tudo, escutar o que diz qualquer pessoa. Entretanto, não podemos fazer nada a não ser esperar pelos resultados. E impossível retomar o rastro interrompido antes de encontrarmos a Aurora ou o sr. Mordecai Smith.

— Parece-me que Toby poderia comer estes restos, não? E você, Holmes, vai se deitar?

— Não. Não estou cansado. Tenho uma constituição curiosa. Não me lembro de jamais ter ficado cansado com o trabalho, mas a ociosidade me deixa completamente exausto. Vou fumar um pouco e pensar neste caso estranho que a minha bela cliente nos apresentou. Se já houve algum trabalho fácil, é este que temos em mãos. Homens com perna de pau não são muito comuns, mas o outro, penso eu, deve ser absolutamente único.

— Aí está você outra vez com ele!

— Afirmo-lhe que não desejo fazer mistério. Mas deve formar a sua própria opinião. Examine os dados. Pegadas diminutas, dedos jamais comprimidos por sapatos, pés nus, martelo de madeira com cabeça de pedra, grande agilidade, pequenos dardos envenenados. Que lhe sugere tudo isso?

— Um selvagem! — exclamei. — Talvez um daqueles indianos que estavam associados a Jonathan Small.

— Não, nenhum deles. Logo que vi as armas estranhas, também tive essa lembrança, mas as curiosas dimensões das pegadas levaram-me a pensar o contrário. Alguns habitantes da península indiana são homens pequenos, mas nenhum deles teria deixado aquelas marcas. Os indianos têm pés compridos e finos, Os muçulmanos, que usam sandálias, têm o polegar muito separado dos outros dedos, devido à correia que comumente passa entre eles. Os pequenos dardos, também, só podiam ser arremessados de uma maneira, isto é, por meio de uma zarabatana. De onde virá, então, o nosso selvagem?

— Da América do Sul — aventurei.

Holmes estendeu a mão e tirou um grosso volume da prateleira.

— Este é o primeiro volume de um dicionário geográfico que está sendo publicado atualmente. Pode ser considerado a mais recente autoridade no assunto. Que ternos aqui? “Ilhas Andaman, situadas a quinhentos e cinqüenta quilômetros ao norte de Sumatra, no golfo de Bengala.” Hum! hum! Que é isso? Clima úmido, recifes de coral, tubarões, Port Blair, penitenciária, ilha de Rutland, algodoais… Ah! Aqui está! “Os aborígines das ilhas Andaman serão talvez a menor raça do mundo, embora alguns antropólogos se inclinem pelos indígenas da África do Sul, pelos índios cavadores da América ou pelos naturais da Terra do Fogo. A sua estatura oscila por volta de um metro, não obstante existirem muitos indivíduos inteiramente adultos que são ainda mais baixos. São uma raça bronca, intratável e feroz, a despeito de se tornarem devotadíssirnos depois que se ganha a sua corfiança.” Note isso, Watson. Agora ouça mais isto: “São de feio aspecto, de cabeça muito grande e deformada, olhos pequenos e cruéis, feições grosseiras. Os pés e mãos, no entanto, são notavelmente pequenos. Esses aborígines mostram-se tão intratáveis e ferozes que os oficiais ingleses, malgrado todos os esforços, ainda não conseguiram conquistálos. Sempre têm sido um terror para as tripulações dos navios naufragados, pois atiram-se aos sobreviventes com os seus martelos de pedra ou os matam com as suas pequenas setas envenenadas. Esses massacres culminam invariavelmente num festim antropófago”. Gente boa e amável, Watson! Se se tivesse deixado o nosso indivíduo agir por conta própria, esse assunto talvez tivesse assumido um aspecto ainda mais horripilante, Tenho a impressão de que, embora as coisas não tenham chegado a este ponto, Jonathan Small daria muito para não tê-lo utilizado.

— E como teria ele arranjado um companheiro tão estranho?

— Ah! Isso é o que não sei. Mas, uma vez que, segundo já concluímos, Small veio das ilhas Andaman, não é de espantar que esse ilhéu tivesse vindo com ele. Não há dúvida de que saberemos tudo isso na devida hora. Ouça, Watson: você está exausto. Deite-se aqui no sofá que eu talvez o faça ferrar no sono.

Holmes retirou o seu violino de um canto e, enquanto eu me espreguiçava, começou a tocar algo lento, sonhador e melancólico… da sua lavra, sem dúvida, pois tinha notável talento para a improvisação. Lembro-me vagamente das suas mãos delgadas, do rosto grave, e do subir e descer do arco. Depois, pareceu-me flutuar tranqüilamente num doce mar de sons até chegar à terra dos sonhos, vendo o suave rosto de Mary Morstan, que me fitava.

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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