O signo dos quatro – Capítulo 9

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo nono

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo nono: Uma falha na seqüência

Acordei no meio da tarde, revigorado e bem-disposto. Holmes ainda estava exatamente como eu o havia deixado, com a única diferença de que tinha posto o violino de lado e mergulhara num livro. Olhou-me de esguelha quando eu me mexi, e notei-lhe uma expressão preocupada.

— Você dormiu profundamente — disse ele. — Receei que a nossa conversa o acordasse.

— Não ouvi nada — respondi. — Teve boas notícias?

— Infelizmente, não. Confesso que estou surpreso e desapontado. A esta hora eu já esperava ter alguma coisa de positivo. Wiggins acaba de sair daqui. Disse-me que não se descobre o menor sinal da lancha. E um obstáculo irritante, porque cada hora é de grande importância.

— Eu não poderei fazer alguma coisa? Estou absolutamente refeito e pronto para outra noite de atividade.

— Não, não podemos fazer nada. Só nos resta ficar à espera. Se sairmos, o recado talvez chegue na nossa ausência, e isso causará um atraso. Você pode ir aonde quiser, mas eu devo ficar de atalaia.

— Então darei um pulo a Camberwell para visitar a sra. Cecil Forrester. Ontem ela me pediu que o fizesse.

— A sra. Cecil Forrester? — perguntou Holmes com um brilho gaiato nos olhos.

— E a srta. Morstan também, é claro. Elas estão ansiosas por saber o que aconteceu.

— Eu não lhes diria muita coisa — observou Holmes. — Nunca se pode confiar demasiado nas mulheres.., nem mesmo nas melhores.

Não me detive para discutir aquele maldoso comentário.

— Estarei de volta dentro de uma ou duas horas — avisei.

— Muito bem. Felicidades! Já que vai atravessar o rio, podia levar Toby, porque daqui por diante creio que ele não nos servirá de nada.

Levei, pois, o nosso sabujo, e devolvi-o, juntamente com meia libra, ao velho naturalista da Pinchin Lane. Em Camberweli encontrei a srta. Morstan um pouco abatida pelas aventuras da noite anterior, mas muito ansiosa por notícias. A sra. Forrester também estava muito curiosa. Contei-lhes o que havíamos feito, omitindo, todavia, as partes mais chocantes da tragédia. Assim, embora tivesse falado sobre a morte do sr. Sholto, nada disse quanto à maneira e ao método de que se servira o assassino. Mas, apesar de todas as minhas omissões, isso foi suficiente para assustá-las e assombrá-las.

— E um verdadeiro romance! — exclamou a sra. Forrester. — Uma jovem ludibriada, um tesouro de meio milhão, um canibal preto e um vilão de perna de pau. Eles fazem as vezes do dragão ou do conde malvado.

— E não esqueça os dois cavaleiros andantes que correm para salvá-la — acrescentou a srta. Morstan, com um belo olhar para mim.

— Ah! Mary, sua fortuna depende dessa investigação. Mas você não me parece muito entusiasmada com isso. Imagine o que deve ser possuir tamanha fortuna e ter o mundo a seus pés!

Notei, com grande regozijo, que ela não mostrava nenhum sinal de alvoroço ante essa perspectiva. Pelo contrário, meneou orgulhosamente a cabeça, como se tivesse pouco interesse naquele assunto.

— E com o sr. Thaddeus Sholto que estou preocupada — disse ela. — Nada mais tem importância. Acho que ele procedeu honrada e bondosamente em todo este assunto. É nosso dever livrá-lo dessa terrível e injusta acusação.

Anoitecia quando voltei de Camberwell, e, ao chegar a casa, já era noite fechada. O livro e o cachimbo do meu companheiro estavam em cima da sua cadeira, mas ele tinha desaparecido. Olhei em torno, procurando um bilhete qualquer, mas nada encontrei.

— O sr. Sherlock Holmes deve ter saído, não? — perguntei à sra. Hudson, quando ela entrou para fechar os postigos.

— Não, senhor. Já está no quarto. Sabe — disse a nossa senhoria, reduzindo a voz a um cochicho — que estou um pouco preocupada com a saúde dele?

— Como assim, sra. Hudson?

— É que ele anda tão esquisito! Depois que o senhor saiu, começou a andar de cá para lá, sem parar um instante, a ponto de eu ficar cansada de lhe ouvir os passos. Depois notei que falava sozinho e resmungava, e, todas as vezes que tocavam a campainha, aparecia no patamar da escada perguntando-me quem era. E agora fechou-se no quarto, mas continua a passear de cá para lá como antes. Espero que não vá adoecer, senhor. Arrisquei-me a dizer-lhe qualquer coisa sobre um calmante, mas ele olhou-me de tal modo que nem sei como saí do quarto.

— Não há motivo para se preocupar, sra. Hudson — respondi-lhe. — já o vi assim muitas vezes. É que ele anda às voltas com certo assunto.

Procurei falar despreocupadamente com a nossa digna senhoria, mas eu próprio senti certa preocupação nessa noite, por ouvir o seu passeio monótono e interminável todas as vezes que acordava, e por sabê-lo irritado com aquela inação involuntária.

Na manhã seguinte, durante o café, achei-o pálido e abatido, com pequenas manchas de febre no rosto.

— Está se consumindo, meu velho — observei-lhe. — Ouvi-o passear durante toda a noite.

— Perdi o sono — respondeu ele. — Este problema infernal me preocupa. É absurdo ficar detido por um obstáculo tão ínfimo, quando tudo o mais já foi resolvido. Conheço os homens, a lancha, tudo; e apesar disso não tenho notícia deles. Já meti mais gente neste trabalho e empreguei todos os meios à minha disposição. Todo o rio foi esquadrinhado, em ambas as margens, e até agora nada! A sra. Smith também não recebeu notícias do marido. Dentro em pouco terei que concluir que eles afundaram a lancha. Mas há sérias objeções quanto a essa possibilidade.

— Não nos terá a sra. Smith posto numa pista falsa?

— Não, creio que isso está fora de dúvida. Mandei fazer indagações. Há realmente uma lancha como a que ela nos descreveu.

— Quem sabe então se não subiram o rio?

— Também já considerei essa possibilidade. Tenho um grupo que irá até Richmond. Se hoje não vier notícia nenhuma, eu próprio iniciarei as pesquisas amanhã, e irei atrás dos homens e não da lancha. Mas com toda a certeza saberemos hoje alguma coisa.

Nada soubemos, porém. Nenhuma palavra nos veio de Wiggins ou dos outros investigadores. A maioria dos jornais referia-se à tragédia de Norwood. Todos pareciam um tanto hostis ao desventurado Thaddeus Sholto. Todavia, nenhum deles trazia novos pormenores, excetuando-se um inquérito judicial que teria lugar no dia seguinte. À tarde, fui a pé até Camberwell a fim de informar as senhoras do nosso insucesso, e ao voltar encontrei Holmes deprimido e de mau humor. Mal respondeu às minhas perguntas, e dedicou-se toda a noite a uma abstrusa análise química que exigia o aquecimento de retortas e a destilação de vapores cujo cheiro quase me enxotou para a rua. Altas horas da noite, eu ainda ouvia o tinir dos seus tubos de ensaio, indicando-me que ele continuava empenhado na sua experiência malcheirosa.

De madrugada, acordei sobressaltado, vendo-o em pé ao lado da minha cama, vestido de marinheiro, com um jaquetão grosseiro e uma manta vermelha enrolada no pescoço.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— Vou para o Tâmisa, Watson — anunciou-me ele. — Estive examinando detidamente o assunto e só encontro uma saída. De qualquer maneira, vale a pena tentar.

— Posso, com certeza, acompanhá-lo, não é verdade?

— Não, será muito mais útil para mim se ficar aqui como meu representante. Vou com muita relutância, porque é bem provável que venha qualquer mensagem durante o dia, embora Wiggins ontem à noite não tivesse muita esperança. Quero que abra todas as cartas ou telegramas e proceda de acordo com o seu critério, se chegar alguma notícia. Posso contar com você?

— Sem a menor dúvida.

— Receio que não lhe seja possível telegrafar-me, pois nem eu sei dizer onde poderei estar. Mas, se tiver sorte, não me demorarei muito. Antes de voltar, seja como for, hei de ter qualquer notícia.

Quando me sentei à mesa para o café, ainda não recebera nenhuma notícia dele. Abrindo o Standard, encontrei porém uma nova referência ao assunto:

“Quanto à tragédia de Upper Norwood”, dizia o jornal, “temos razões para acreditar que o assunto promete ser ainda mais complexo e misterioso do que originalmente se supunha. Novas provas demonstraram ser inteiramente impossível que o sr. Thaddeus Sholto possa estar implicado no assunto. Ele e a governanta, a sra. Bernstone, foram soltos ontem à tarde. Acredita-se, porém, que a polícia possua uma pista quanto aos verdadeiros culpados, e que ela esteja sendo examinada pelo sr. Athelney, da Scotland Yard, com a sua conhecida energia e sagacidade. Esperam-se novas prisões a qualquer momento”.

Até aqui está muito bem, pensei comigo. De qualquer maneira, o amigo Sholto está em liberdade. E essa nova pista? Será realmente uma pista ou um disfarce que costumam lançar quando a polícia comete algum engano?

Coloquei o jornal na mesa, mas nesse momento despertou-me a atenção um anúncio da coluna dos desaparecimentos. Dizia ele:

“DESAPARECIDOS. Mordecai Smith, barqueiro, e seu filho Jim, tendo deixado o embarcadouro Smith cerca das três horas de terça-feira última, na lancha a vapor Aurora (de casco preto com duas listras vermelhas e chaminé preta com uma risca branca), até agora não regressaram nem foram encontrados. Gratifica-se com a soma de cinco libras qualquer pessoa que possa informar a sra. Smith, no embarcadouro Smith, ou no 221-B da Baker Street, do paradeiro do dito Mordecai e da lancha Aurora”.

Aquilo era evidentemente obra de Sherlock Holmes. O endereço da Baker Street bastava para prová-lo. Pareceu-me engenhosamente redigido, pois os fugitivos poderiam lê-lo sem notar mais do que a natural ansiedade de uma esposa em face do desaparecimento do marido.

Foi um dia longo. Todas as vezes que batiam à porta ou se ouviam passos apressados na rua, eu imaginava que fosse Holmes de regresso a casa ou alguém que respondia ao anúncio. Tentei ler, mas os meus pensamentos se desviavam para as nossas estranhas atividades e para a pista perversa e desconexa que perseguíamos. Não haveria, pensava eu, qualquer erro fundamental no raciocínio do meu companheiro? Não estaria sendo vítima de uma grande ilusão forjada por ele próprio? Não seria possível que o seu espírito ágil e especulativo tivesse construído aquela hipótese com falsas premissas? Nunca o vira enganar-se, mas às vezes até o mais sutil dos raciocinadores comete um engano. Ocorria-me também a possibilidade de que a própria sutileza da sua argumentação pudesse induzi-lo ao erro. . . de que ele, por inclinação natural, tivesse preferido uma explicação estranha e complexa quando outra, mais simples e comum, poderia estar ao seu alcance. Mas, por outro lado, eu próprio tinha visto as provas e ouvido as razões que fundamentavam a sua dedução. Ao recordar a longa série de curiosas circunstâncias, muitas delas triviais, mas todas afluindo para a mesma direção, não me era possível fugir à conclusão de que, se estava errada a explicação de Holmes, a verdadeira hipótese também não deixaria de ser estranha e complexa.

Às três horas da tarde, soou demoradamente a campainha, ouviu-se uma voz autoritária no corredor e, para minha surpresa, o sr. Athelney Jones em pessoa foi introduzido na nossa sala de estar.. Parecia, contudo, muito diferente do áspero e imperioso mestre do bom senso que tão confiada- mente se encarregara do caso em Upper Norwood. Estava deprimido, manso e até humilde.

— Bom dia, cavalheiro — disse ele. — O sr. Sherlock Holmes não está, segundo me disseram, não?

— Não, nem sei bem quando voltará. Mas talvez o senhor queira esperar um pouco. Sente-se e prove um destes charutos.

— Muito obrigado. Acho que vou esperar — disse ele, enxugando o rosto com um lenço vermelho, estampado.

— Aceita um uísque?

— Meia dose, por favor. Faz muito calor para esta época do ano, e tenho andado numa enrascada! O senhor conhece a minha hipótese a respeito do caso de Norwood?

— Lembro-me de tê-la ouvido.

— Pois fui obrigado a reconsiderá-la. Já tinha fechado o cerco sobre o sr. Sholto, mas de repente foi tudo por água abaixo. Ele tinha um álibi de primeira. Desde o momento em que saiu do quarto do irmão até quando o prendemos, esteve sempre na presença de alguém, e provou-o. Dessa maneira, não podia andar pelo telhado e passar por alçapões. É um caso muito obscuro, e o meu nome profissional está em jogo. Gostaria muito de um pequeno auxílio.

— Todos nós precisamos de auxílio em certas ocasiões — afirmei eu.

— O seu amigo Sherlock Holmes é um homem notável — disse ele em voz rouca e confidencial. — Ninguém pode batê-lo. Já o vi trabalhar num bom número de casos, e não sei de um. só que ele não tenha esclarecido. Os seus métodos são irregulares, e é talvez um pouco apressado em formular as suas teorias, mas daria um grande inspetor, e pouco me importa que o saibam. Recebi um telegrama dele esta manhã, e pelo que diz concluo que deve andar seguindo alguma pista do caso Sholto. Aqui está a sua mensagem.

Tirou o telegrama do bolso e deu-o a mim. Fora passado em Polar, ao meio-dia.

“Vá imediatamente à Baker Street”, dizia a mensagem. “Estou no encalço do bando Sholto. Se quiser, poderá vir conosco esta noite para o desenlace.”

— Isso me soa bem. Conseguiu evidentemente reencontrar o rastro — disse eu.

— Ah! Então também ele errou — exclamou Jones com evidente satisfação. As vezes até os melhores de nós nos enganamos. E claro que isso também pode ser um falso alarme, mas, como representante da lei, o meu dever é não deixar escapar nenhuma probabilidade. Alguém está à porta. Talvez seja ele.

Alguém subia penosamente a escada, com passos pesados e a respiração arfante, como se aquilo lhe custasse um grande esforço. Depois de duas ou três pausas, dando a impressão de que repousava para ganhar alento, o homem chegou à nossa porta e entrou. A sua aparência correspondia aos rumores que tínhamos ouvido, pois era um velho alquebrado, vestido como marinheiro, com um surrado jaquetão abotoado até o pescoço. Tinha as costas curvadas, os joelhos trêmulos e a respiração difícil dos asmáticos. Apoiando- se num grosso bastão de carvalho, erguia os ombros no esforço para respirar. Tinha uma manta de cor enrolada até o queixo, de forma que eu pouco lhe via o rosto, exceto uns olhos vivos e escuros, as espessas sobrancelhas brancas e as suíças grisalhas. No todo, dava-me a impressão de um respeitável marinheiro entrado em anos e na pobreza.

— Que deseja, meu velho? perguntei-lhe.

Ele fitou-me à maneira lenta e metódica dos velhos.

— O sr. Sherlock Holmes está em casa? disse ele.

— Não, mas eu o substituo. Pode me dar o recado que tinha para ele.

— Não, isto é mesmo só com ele.

— Mas estou lhe dizendo que pode tratar comigo. E a respeito do barco de Mordecai Smith?

— É, sim. Sei onde ele está. E sei onde estão os homens que ele procura. E também sei onde está o tesouro. Sei de tudo.

— Então diga-me, que eu me comunicarei com ele.

— Não, isso é só com ele — repetiu o visitante, com a insolente teimosia dos homens muito idosos.

— Nesse caso terá de esperar.

— Isso é que não. Não vou perder um dia inteiro só para agradar a alguém. Se o sr. Holmes não está aqui, então ele que se arranje sozinho. Não gosto muito da cara de nenhum dos dois, e não direi coisa alguma.

Encaminhou-se tropegamente para a porta, mas Athelney Jones passou-lhe à frente.

— Espere um pouco, meu amigo disse ele. — O senhor tem informações importantes, e não deve ir embora. Queira ou não queira, ficará aqui até o nosso amigo voltar.

O velho tentou chegar à porta, mas, quando Athelney Jones o impediu com suas amplas espáduas, reconheceu que era inútil resistir.

— Bela maneira de tratar as pessoas! — gritou ele, batendo com o bastão no soalho. — Entrei aqui para falar com um cavalheiro, e vocês dois, que eu nunca vi mais gordos, agarram-me desse modo!

— O senhor não perderá nada com isso! repliquei. — Nós o recompensaremos pelo tempo que perder aqui. Sente-se naquele sofá, que a demora não será muita.

O velho obedeceu bastante zangado, sentou-se e apoiou o queixo nas mãos. Jones e eu voltamos aos nossos charutos e à nossa conversa. Decorridos alguns instantes, porém, a voz de Holmes nos interrompeu.

— Bem que me poderiam oferecer um charuto — disse ele.

Ambos pulamos da cadeira. Lá estava Holmes ao nosso lado, com um ar tranqüilamente divertido.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— Holmes! — exclamei. — Você aqui? Mas onde está o velho?

— Aqui está o velho — respondeu-me ele, mostrando um tufo de cabelos brancos. —  Ei-lo aqui: cabelos, sobrancelhas e suíças. O meu disfarce me parecia bastante bom, mas não pensei que fosse capaz de resistir a esta prova.

— Que malandro! — exclamou Jones, deliciado. — Você poderia ter sido ator, e dos bons. A sua tosse vinha diretamente de um asilo, e aquelas pernas trôpegas valiam dez libras por semana. Mas notei qualquer coisa nos seus olhos. Bem vê que não nos escapou assim tão facilmente.

— Estive trabalhando o dia todo com este disfarce. Acontece que no mundo do crime já começam a me conhecer… principalmente depois que este nosso amigo deu de publicar alguns dos meus casos… de forma que só posso fazer as minhas expedições metido em algum disfarce como este. Recebeu o meu telegrama?

— Sim, foi por isso que vim aqui.

— Fez algum progresso no caso?

— Tudo deu em nada. Tive de soltar os meus dois prisioneiros, e não há nenhuma prova contra os outros dois.

— Não se preocupe com isso. Nós lhe daremos outros dois em troca. Mas deve se colocar sob as minhas ordens. Oficialmente só aparecerão os seus esforços, mas tem de proceder dentro das linhas que eu lhe indicar. Está de acordo?

— Inteiramente, se me ajudar a encontrar os homens.

— Muito bem. Em primeiro lugar, desejo que um barco veloz da polícia, uma lancha a vapor, esteja às sete horas junto à escadaria de Westminster.

— Isso é fácil. Há sempre uma lancha nossa atracada neste ponto, mas posso atravessar a rua e telefonar, para termos certeza.

— Em seguida, preciso de dois homens robustos, para o caso de haver resistência.

— Haverá dois ou três na lancha. Que mais?

— Quando apanharmos os homens, apanharemos o tesouro. Creio que será um prazer para este nosso jovem amigo levar a caixa à jovem que tem todo o direito à metade dele. Quero que seja ela a primeira pessoa a abri-la. Que acha, Watson?

— Será um grande prazer para mim.

— E um procedimento bastante irregular — disse jones abanando a cabeça. — Mas, como toda esta história é irregular, suponho que seja melhor fechar os olhos. O tesouro deverá ser entregue às autoridades, logo em seguida, até que se proceda à investigação oficial.

— Sem dúvida. Não haverá dificuldade nisso. Mais um ponto. Eu gostaria muito de ouvir alguns pormenores a respeito deste caso dos próprios lábios de Jonathan Small. Bem sabe que gosto de esgotar todas as circunstâncias dos meus casos. Haverá alguma objeção quanto a eu ter uma pequena entrevista com ele, aqui ou em qualquer outro lugar, desde que ele esteja bem vigiado?

— Você está senhor da situação. Ainda nem sequer tenho provas da existência desse Jonathan Small. Contudo, se você o apanhar, não vejo maneira de lhe recusar uma entrevista com ele.

— Então está combinado?

— Perfeitamente. Há mais alguma coisa?

— Sim: insisto em que jante conosco. Seremos servidos dentro de meia hora. Tenho ostras e dois faisões, com alguns vinhos brancos, não muitos, a escolher. Watson, você ainda não reconheceu os meus méritos como dona-de-casa.

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock