O vale do terror – Primeira parte, Capítulo 3

Arthur Conan DoyleO vale do terror

Primeira parte: A tragédia de Birlstone

Título original: The Valley of Fear
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1914-15.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Valley of Fear publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VI,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo terceiro: A tragédia de Birlstone

E agora pedirei licença para fazer desaparecer, por alguns momentos, a minha insignificante pessoa e descrever os fatos sucedidos antes da nossa presença no local do crime e que chegaram ao nosso conhecimento posteriormente. Somente desse modo poderei fazer com que o leitor julgue as pessoas nele envolvidas e o estranho cenário para onde os seus destinos foram lançados.

A vila de Birlstone é um pequeno e vetusto grupo de casas de madeira e tijolos, situado na fronteira setentrional do condado de Sussex. Conservara durante séculos o mesmo aspecto, mas há questão de poucos anos o pitoresco de sua fisionomia e localização atraiu alguns moradores abastados, cujas casas de campo se vislumbram por entre a folhagem dos bosques circundantes. É crença local que esses bosques constituem a orla extrema da grande floresta de Weald [1], que se vai tornando menos densa ao atingir as dunas calcárias do norte. Aqui e ali começou a surgir certo número de pequenas lojas para atender às necessidades da população em crescimento, de maneira que isso nos faz crer que Birlstone possa em breve passar de antiga vila a cidade moderna. É o ponto central de uma área considerável da região, pois Tunbridge Wells, o lugar mais próximo digno de importância, fica de quinze a vinte quilômetros a oeste, além das fronteiras de Kent.

A oitocentos metros da povoação, no meio de um parque famoso pelas suas gigantescas faias, situa-se a velha Mansão de Birlstone. Parte desse venerável edifício data da época da primeira cruzada, quando Hugo de Capus construiu uma fortificação no centro da propriedade, que lhe havia sido outorgada pelo Rei Vermelho. Esse forte foi destruído pelo fogo em 1543, e parte dos seus alicerces, enegrecidos pela fumaça, foram utilizados quando, na era jacobita, se ergueu uma casa de campo de tijolos sobre as ruínas do castelo feudal. A casa senhorial, com os seus inúmeros torreões e as suas minúsculas janelas de vidraças em forma de losangos, ainda conserva muito do estilo que o primitivo construtor lhe havia fixado no princípio do século XVII. Dos dois fossos circundantes que tinham protegido os belicosos antepassados, o externo foi secado e servia modestamente de horta, e o interno ainda era conservado, abraçando a casa e medindo treze metros de largura, posto que tivesse agora pouco mais de um metro de profundidade. Era alimentado por um pequeno regato que o atravessava, de modo que o lençol de água, embora turvo, não tinha aparência de estagnado ou insalubre. As janelas do térreo elevavam-se a apenas trinta centímetros da superfície da rua. O acesso à casa era feito exclusivamente através de nina ponte levadiça, cujas correntes e guindastes há muito se encontravam quebrados e cobertos de ferrugem. Os últimos inquilinos da mansão tinham, no entanto, consertado tudo com grande zelo, e a ponte levadiça não só estava em condições de funcionar, como, de fato, era baixada todas as manhãs e erguida todas as noites. Desse modo, renovando o costume da velha época feudal, a casa senhorial convertia-se durante a noite numa ilha — fato este de grande significado no mistério que ia, em breve, prender a atenção da Inglaterra inteira.

A casa estava desabitada havia vários anos e ameaçava desfazer-se em pitoresca ruína, quando os Douglas dela tomaram posse. Resumia-se essa família apenas a duas pessoas: John Douglas e sua mulher. Douglas era um homem singular tanto de caráter como pessoalmente. Contando cerca de cinqüenta anos de idade, possuía um rosto enérgico, maxilares salientes, bigode grisalho, olhos verdes extraordinariamente penetrantes e um físico musculoso e cheio de vigor, que nada havia perdido da força e da atividade da juventude.

Alegre e cordial para com todos, mostrava-se, contudo, algo negligente nas suas maneiras, o que dava a impressão de ter sido criado num nível social infinitamente inferior ao da sociedade do condado de Sussex. Apesar disso, ainda que olhado com certa curiosidade e reserva por parte dos vizinhos mais civilizados, granjeou, em breve, grande popularidade entre os moradores da vila, contribuindo generosamente para todos os empreendimentos locais e comparecendo aos seus concertos em salas enfumaçadas e a outras diversões, nas quais, como possuía voz de tenor de magnífico timbre, estava sempre pronto a deleitá-los com uma excelente canção. Parecia ter muito dinheiro, que, na voz corrente, fora ganho nas regiões auríferas da Califórnia, e, conforme ele e a mulher diziam, não havia dúvida de que passara boa parte da sua existência na América. A boa impressão produzida pela sua generosidade e maneiras democráticas engrandecia-se graças à fama adquirida de completa indiferença ao perigo. Não obstante ser péssimo cavaleiro, comparecia a todas as reuniões hípicas, sofrendo as mais incríveis quedas devido à sua determinação de se equiparar aos melhores. Quando a casa paroquial se incendiou, ele se distinguiu da mesma forma pelo destemer com que entrou no edifício a fim de tentar salvar os objetos mais preciosos, depois de o corpo de bombeiros local ter renunciado à empresa dando-a como impossível. E foi assim que John Douglas, em cinco anos de residência em Birlstone, logrou ótima reputação.

Sua mulher também era estimada pêlos que a conheciam, apesar de, segundo o hábito inglês, serem poucas e espaçadas as visitas a pessoas desconhecidas que passassem a residir no condado sem nenhuma apresentação. Isso pouco lhe importava, pois o seu retiro era voluntário, e, ademais, dava a impressão de achar-se inteiramente absorvida a cuidar do marido e das obrigações domésticas. Sabia-se que era inglesa e que conhecera o sr. Douglas, viúvo nessa época, em Londres. Dotada de grande beleza, alta, morena e esbelta, contava vinte anos menos que o marido, disparidade que de modo algum parecia perturbar a paz da vida conjugal. Entretanto, era por vezes notado, pêlos amigos mais íntimos do casal, que a confiança entre os dois não se afigurava completa, pois ou a mulher era muito reticente a respeito da vida anterior do marido, hipótese mais provável, ou apenas a conhecia superficialmente. Também era notado e comentado, por certo número de outros observadores mais atentos, que algumas vezes a sra. Douglas se apresentava nervosa e demonstrava grande ansiedade nas ocasiões em que o marido ficava fora de casa além da hora habitual. Numa cidade calma do interior, na qual todo mexerico é recebido como agradável entretenimento, essa fraqueza da senhora da Mansão de Birlstone não podia passar despercebida, e o fato cresceu de volume na lembrança do povo ao se sucederem os acontecimentos que lhe vieram dar um significado muito especial.

Havia ainda outra pessoa cuja permanência sob aquele teto era na verdade apenas intermitente, mas que, por ocasião das estranhas ocorrências que agora vão ser narradas, teve o seu nome em evidência perante o público. Tratava-se de Cecil James Barker, de Hales Hodge, Hampstead. Cecil Barker, com seu porte esguio e desenvolto, tornara-se uma figura familiar na rua principal da vila de Birlstone, por ser visita assídua e sempre bem recebida dos moradores da mansão. Era alvo da maior observação por ser o único amigo do passado desconhecido do sr. Douglas que costumava ser visto na sua nova habitação da Inglaterra. Barker sem dúvida era inglês, mas, pelo que dizia, percebia-se claramente que conhecera Douglas na América e lá mantivera com ele relações íntimas. Parecia ser homem de fortuna e era tido na conta de solteiro. Era mais novo do que Douglas — quarenta e cinco anos, no máximo —, alto, ereto, espadaúdo, rosto escanhoado de pugilista, sobrancelhas espessas e negras, e um par de olhos negros e dominadores, que podiam, mesmo sem o auxílio das mãos, dotadas de grande destreza, abrir-lhe caminho por entre uma multidão hostil. Jamais andava a cavalo ou caçava, mas passava os dias vagueando ao redor da antiga vila, com o cachimbo na boca, ou passeando de carro pêlos arredores com seu amigo, ou com a sra. Douglas, quando aquele se encontrava ausente. “Um cavalheiro despreocupado e generoso”, dizia dele Ames, o mordomo. “Mas, palavra, não desejaria ser o homem que se lhe atravessasse no caminho.” Cordial e íntimo com Douglas, não o era menos com a mulher deste, o que por mais de uma vez parecera causar certa irritação ao marido, a ponto de os próprios criados notarem o seu aborrecimento. Tal era a terceira personagem a fazer parte da família por ocasião da catástrofe. Quanto aos outros habitantes da velha casa, bastará, entre o grande número de. criados, mencionar o irrepreensível, honesto e capaz Ames e a sra. Allen, criatura gorda e jovial, que ajudava a dona da casa com alguns dos seus deveres domésticos. Os outros seis empregados não têm relação alguma com os acontecimentos da noite de 6 de janeiro.

As primeiras notícias alarmantes chegaram à pequena força de polícia local, a cargo do sargento Wilson, do Corpo Policial de Sussex, às onze e quarenta e cinco. O sr. Cecil Barker viera correndo, muito agitado, e tocara furiosamente a campainha. Acontecera uma terrível tragédia no solar, e o sr. John Douglas fora assassinado. Esse era o conteúdo ofegante de sua mensagem. Voltara rapidamente a casa, seguido dali a poucos instantes pelo sargento da polícia, que chegara à cena do crime pouco depois da meia-noite, após ter tomado providências urgentes a fim de comunicar às autoridades do condado que algo de grave acontecera.

Ao atingir a herdade, o sargento encontrara a ponte levadiça descida, as janelas iluminadas e a casa toda em estado de incrível confusão e tumulto. O mordomo, na soleira da porta, esfregava as mãos, com ar sobressaltado, enquanto, atrás dele, no vestíbulo, se acotovelavam os criados, pálidos de susto. Cecil Barker, o único que aparentava estar senhor de si e dominar a própria emoção, abrira a porta mais próxima da entrada e fizera sinal ao sargento para que o acompanhasse. Nesse momento, chegara o dr. Wood, médico da vila, clínico diligente e capaz. Os três homens entraram juntos na sala fatal, seguidos de perto pelo mordomo apavorado, que fechou a porta atrás de si a fim de impedir que as criadas presenciassem o terrível espetáculo.

O cadáver jazia de costas, no meio do aposento, de braços e pernas abertos. Vestia um roupão rosado por sobre a roupa de dormir e calçava chinelos. O médico ajoelhou-se a seu lado e dispôs-se a examiná-lo à luz da lanterna portátil que tirara de cima da mesa. Apenas um relancear de olhos à vítima foi suficiente para certificá-lo de que sua presença já não era necessária. O homem tinha sido morto de maneira horrível. Colocada sobre o peito, via-se uma arma curiosa: uma espingarda de dois canos, que haviam sido serrados a um palmo do gatilho duplo. Era evidente que fora descarregada à queima-roupa e que a vítima recebera toda a carga no rosto, o que lhe causara completo esfacelamento da cabeça. Os gatilhos tinham sido amarrados com arame, a fim de que a descarga simultânea fosse mais destruidora.

O sargento Wilson estava nervoso e inquieto com a tremenda responsabilidade que lhe caíra tão repentinamente sobre os ombros.

— Não devemos tocar em nada antes da chegada dos meus superiores — disse ele, em voz sufocada, olhando horrorizado para aquela cabeça pavorosamente esfacelada.

— Nada foi tocado até agora — afirmou Cecil Barker. — Dou-lhe a minha palavra: deixei tudo exatamente como estava.

— E quando foi isso? — perguntou o sargento, sacando do bolso o bloco de anotações.

— Exatamente às onze e meia. Eu ainda não tinha começado a me despir e estava sentado junto à lareira, nó meu quarto, quando ouvi o disparo, que não foi forte… deu-me a impressão de ter sido abafado. Desci a escada correndo e em questão de meio minuto achava-me na sala.

— A porta estava aberta?

— Sim, estava. O pobre Douglas jazia na posição em que o vê. A vela ardia no castiçal, em cima da mesa. Fui eu quem acendeu o lampião alguns minutos depois.

— O senhor não viu ninguém?

— Não. Ouvi os passos da sra. Douglas, que descia a escada, e saí do quarto a fim de impedi-la de ver esta cena horrorosa. A sra. Allen, a governanta, veio buscá-la. Ames apareceu, e voltamos imediatamente à sala.

— Mas estou certo de ter ouvido dizer que a ponte levadiça mantém-se levantada toda a noite.

— Sim, esteve levantada ate o momento em que eu a arriei.

— Como poderia então o assassino ter fugido? É absurdo pensar nisso! O sr. Douglas deve ter se suicidado.

— Foi o que pensamos a princípio. Entretanto, veja. — Barker afastou a cortina e mostrou a janela completamente aberta. — E observe isto — acrescentou, baixando O lampião e expondo à vista uma mancha de sangue, do formato da sola de um sapato, sobre o peitoril de madeira.

— Alguém se deteve ali ao sair.

— O senhor quer dizer que alguém atravessou o fosso a vau?

— Justamente.

— Nesse caso, se o senhor apareceu na sala meio minuto após o crime, o criminoso devia encontrar-se ainda no fosso.

— Sem dúvida. Lamento não ter corrido logo à janela. Isso, porém, não me ocorreu, pois a cortina a encobria, como o senhor pode verificar. Ouvi, então, os passos da sra. Douglas, e não podia deixá-la entrar na sala. Seria um choque terrível demais para ela.

— Faço idéia! — comentou o médico, olhando para a cabeça espatifada e para as chagas medonhas produzidas pêlo tiro. — Desde o desastre ferroviário de Birlstone que não me lembro de ferimentos como estes.

— Mas espere… — interrompeu o sargento da polícia, que com o seu raciocínio vagaroso e rústico ainda estava observando a janela aberta. — Está muito certo o senhor dizer que o homem fugiu passando o fosso a vau, contudo, pergunto eu, como conseguiu ele entrar na Casa se a ponte se encontrava levantada?

— Ora, aí é que está o problema! — respondeu Barker.

— A que horas foi ela erguida?

— Eram quase seis horas — respondeu o mordomo.

— Ouvi dizer que habitualmente era suspensa ao pôr-do-sol, ou seja, nesta época do ano, mais próximo das quatro e meia do que das seis horas.

— A sra. Douglas tinha visitas para o chá — disse Ames.— Não podia levantar a ponte antes que elas se fossem. Depois, eu próprio a suspendi.

— Então o caso se resume nisto — disse o sargento: — se alguém veio de fora.. se veio de fato… deve ter atravessado a ponte antes das seis e permanecido oculto desde essa hora até depois das onze, quando o sr. Douglas entrou na sala.

— Certamente. O sr. Douglas costumava percorrer a casa inteira, antes de se deitar, para ver se todas as luzes estavam apagadas. Isso o trouxe aqui. O homem estava à sua espera e atirou. Depois, fugiu pela janela, deixando a arma atrás de si. É o que imagino, pois outra coisa não se coaduna com o ocorrido.

O sargento se abaixou e apanhou um cartão que se encontrava ao lado do cadáver, no soalho. Nele viam-se escritas grosseiramente, a tinta, as iniciais V. V., encimando o número 341.

— Que é isto? — perguntou, mostrando o cartão.

Barker fixou nele o olhar curioso.

— Não o tinha notado antes — disse. — O criminoso deve tê-lo esquecido na fuga.

—— V. V. 341. Não vejo sentido nisto —observou o sargento, revirando-o nos seus dedos enormes.

— Que significa V. V.? Talvez as iniciais de alguma pessoa. O que é isso que o senhor tem nas mãos, dr. Wood?

Era um martelo de bom tamanho que ele tinha encontrado sobre o tapete, diante da lareira — um martelo grande, semelhante aos usados pelos carpinteiros. Cecil Barker apontou para uma caixa de pregos com cabeça de latão em cima da pedra da lareira.

— O sr. Douglas esteve ocupado ontem, mudando a posição dos quadros — explicou. — Eu mesmo o vi de pé naquela cadeira, pregando o quadro grande que a encima. Isso explica a presença do martelo.

— É melhor repô-lo no tapete, onde foi encontrado — disse o sargento, coçando a cabeça, perturbado na sua indecisão. — Será preciso recorrer às maiores capacidades da força policial para se chegar ao fundo deste mistério. Dentro em pouco, isto estará nas mãos do pessoal de Londres. — E, pegando a lanterna portátil, pôs-se a andar vagarosamente em volta da sala. — Ah…! — gritou em tom excitado, puxando a cortina da janela para um lado — A que horas estas cortinas foram fechadas?

— Quando se acenderam as lâmpadas — respondeu d mordomo. — Pouco depois das quatro.

— Alguém esteve escondido aqui, não resta dúvida — disse ele, baixando a luz da lanterna e mostrando visíveis marcas de botas enlameadas num canto. — Creio que isto justifica a sua teoria, sr. Barker. Parece que o homem penetrou na casa depois das quatro, quando as cortinas estavam fechadas, e antes das seis, hora em que a ponte foi suspensa. Entrou às escondidas nesta sala, a primeira que encontrou. Como não existisse outro lugar onde pudesse se ocultar, escondeu-se rapidamente atrás desta cortina. Tudo isso me parece muito claro. É provável que a sua intenção fosse o roubo; entretanto, tendo sido apanhado em flagrante pelo sr. Douglas, assassinou-o e fugiu.

— É essa a minha impressão — concordou Barker. — Mas, escute, não estaremos perdendo um tempo, precioso? Não podemos dar uma busca pêlos arredores antes une o sujeito se safe?

O sargento refletiu por alguns instantes.

— Não há trens antes das seis da manhã, portanto ele não pode escapar pela estrada de ferro. Se for a pé pela estrada, com as calças encharcadas, é provável que alguém o note. De qualquer forma, não posso me afastar daqui sem que apareça quem me substitua. Tampouco creio que algum dos senhores possa sair antes de termos uma noção mais clara da situação de todos nós.

O médico apanhara a lanterna e examinava cuidadosamente o cadáver.

— Que marca é esta? — indagou. — Será que isto tem alguma ligação com o crime?

O braço direito do morto, até a altura do cotovelo, estava fora da manga do roupão, e exibia, no centro do antebraço, um desenho de cor castanha, um triângulo dentro de um círculo, que se salientava vivamente na pele clara.

— Não é tatuagem — afirmou o médico, olhando com atenção através dos óculos. — Nunca vi coisa igual. O homem foi marcado, há algum tempo, a fogo, como se costuma fazer com o gado. Qual será o significado disso?

— Confesso que não sei — respondeu Cecil Barker. — Mas conheço esse sinal de Douglas há dez anos.

— Eu também — acrescentou o mordomo. — Notei essa marca em diversas ocasiões, quando o patrão arregaçava as mangas. Muitas vezes desejei saber sua origem.

— Nesse caso, nada tem que ver com o crime — rematou o sargento. — Contudo, é uma coisa esquisita. Aliás, tudo neste caso é esquisito. Vamos, de que se trata agora?

O mordomo soltara uma exclamação de assombro e apontava para a mão espalmada do morto.

— Tiraram-lhe a aliança! — exclamou, ofegante.

— O quê?

— Sim, tenho certeza! O patrão usava sempre a aliança no dedo mínimo da mão esquerda. Este anel de ouro bruto estava sempre acima dela e o outro, em forma de serpente retorcida, ele o usava no dedo médio. Um e outro estão aí, mas a aliança desapareceu.

— Ele tem razão — observou Barker.

— Você diz que a aliança estava abaixo do outro anel?

— Sempre esteve!

— Então, o assassino, ou quem quer que fosse, tirou primeiro o anel de ouro bruto e, depois de retirar a aliança, voltou a colocar o anel no lugar.

— Justamente.

O digno sargento da polícia abanou a cabeça.

— Parece-me que quanto mais cedo conseguirmos o auxílio de Londres para este caso, melhor — disse ele. — White Mason é um homem ativo, para quem um assunto local jamais apresentou dificuldades. Não tardará muito em aparecer por aqui para nos ajudar. Receio, porém que tenhamos de recorrer a Londres antes de chegarmos a uma solução. De qualquer forma, não me importo de afirmar que e um problema demasiado confuso para uma pessoa como eu.

[1] Distrito que compreende parte aos condados de Kent, Surrey e Sussex, com características geológicas particulares; aparece freqüentemente nos contos que giram em torno da figura de Sherlock Holmes. (N. da T.)

Primeira Parte
A Tregédia de Birlstone

Capítulo 1 – O aviso § Capítulo 2 – Sherlock Holmes discorre
Capítulo 3 – A Tragédia de Birlstone § Capítulo 4 – Trevas
Capítulo 5 – As personagens do drama § Capítulo 6 – Um réstia de luz
Capítulo 7 – A solução

Segunda Parte
Os Vingadores

Capítulo 1 – O homem § Capítulo 2 – O grão-mestre
Capítulo 3 – Loja 341, Vermissa § Capítulo 4 – O vale do terror
Capítulo 5 – A hora mais negra § Capítulo 6 – Perigo
Capítulo 7 – Birdy Edwards na ratoeira

Epílogo

Ilustrações: Frank Wiles, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock