O vale do terror – Segunda parte, Capítulo 2

Arthur Conan DoyleO vale do terror

Segunda parte: Os vingadores

Título original: The Valley of Fear
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1914-15.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Valley of Fear publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VI,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo segundo: O grão-mestre

McMurdo era um homem que causava imediatamente forte impressão. Onde quer que se encontrasse, logo se fazia notar por toda a gente. Ao fim de uma semana, tornara-se a pessoa mais importante da pensão de Shafter. Havia ali dez ou doze pensionistas — honrados capatazes ou simples caixeiros de lojas, indivíduos, em suma, de tipo muito diferente do daquele jovem irlandês. À noite, quando se reuniam, suas brincadeiras eram as melhores, sua conversa, a mais brilhante e suas canções, as melhores de todas. Sociável por natureza, dotado de um magnetismo que suscitava bom humor em todos os que dele se aproximavam, mostrava, todavia, muito freqüentemente, como já o fizera

no trem, invulgar capacidade para explodir em ímpetos de cólera imprevista, que infundiam respeito, para não dizer medo, aos que o cercavam. Da mesma forma, pela lei e por tudo quanto com ela se relacionasse, demonstrava um amargo desprezo, que fazia as delícias de uns e a inquietação de outros, entre os seus colegas de pensão.

Deixou evidente, desde o princípio, com a sua manifesta admiração, que a filha de Shafter lhe havia conquistado o coração no momento em que pusera os olhos na sua beleza e graça. Como não fosse pretendente que se demorasse em delongas, já no segundo dia lhe tinha declarado o seu amor, e daí por diante não fez mais que lhe repetir a mesma história com a mais absoluta indiferença pelo que ela pudesse dizer para desencorajá-lo.

— Existe outro! — costumava exclamar. — Ora, tanto pior para esse outro! Que tome cuidado! Devo então perder a minha oportunidade na vida e todo o desejo do meu coração por causa de outro? Pode dizer “não” quantas vezes quiser, Ettie, mas dia virá em que há de dizer “sim”, e sou bastante jovem para esperar.

Era um candidato perigoso, com a fluência natural do irlandês e suas maneiras gentis e insinuantes. Emanava dele, também, a sedução da experiência e do mistério, que desperta o interesse e, por fim, o amor de uma mulher. Sabia falar dos doces vales do condado de Monaghan, de onde viera, da encantadora ilha distante, das colinas baixas e dos prados verdejantes, que pareciam tanto mais belos quando vistos com os olhos da imaginação, naquele lugar de neve suja e lamacenta. E, depois, era um profundo conhecedor da vida das cidades do norte, de Detroit e das zonas de madeiras de Michigan, de Buffalo e, finalmente, de Chicago, onde trabalhara numa serralheria. Vinha, em seguida, a nota romanesca, a sensação de lhe terem acontecido coisas estranhas naquela cidade, tão estranhas e tão íntimas que não podiam ser contadas. Falava com ar pensativo de uma partida súbita, da ruptura de velhas ligações, da fuga para um mundo misterioso, que terminara naquele vale tristonho, e Ettie ouvia, enquanto os seus olhos escuros cintilavam, cheios de compaixão e simpatia — dois estados de alma capazes de, rápida e naturalmente, transformar-se em amor.

McMurdo tinha conseguido emprego, provisoriamente, como guarda-livros, pois era pessoa de boa instrução. Essa ocupação mantinha-o fora a maior parte do dia, e ele ainda não tivera tempo de se apresentar ao chefe da loja da Antiga Ordem dos Homens Livres. Certa noite, no entanto, foi lembrado dessa sua falta pela visita de Mike Scanlan, o confrade que conhecera no trem. Scanlan, homem de pequena estatura, nervoso, de rosto afilado e olhos negros, demonstrou alegria ao vê-lo novamente. Após a ingestão de um ou dois copos de uísque, decidiu-se a expor o motivo da visita.

— Ouça, McMurdo — principiou —, lembrei-me do seu endereço e, por isso, arrisquei-me a visitá-lo. Estou surpreso por você ainda não ter se apresentado ao grão-mestre. O que aconteceu para ainda não se ter, até agora, avistado com o chefe McGinty?

— É que eu precisava procurar emprego. Tenho andado muito ocupado.

— Precisa arranjar tempo para ele, ainda que não o tenha para o resto. Por Deus, homem, você é louco de ainda não ter estado na sede do sindicato e registrado o seu nome logo no dia seguinte à sua chegada aqui! Se lhe cair no desagrado…

McMurdo revelou certa surpresa.

— Sou membro da loja há mais de dois anos, Scanlan, e nunca me disseram que os nossos deveres fossem assim tão urgentes.

— Em Chicago, é possível que não sejam.

— Ora! A sociedade é a mesma.

— Ah, é?

Scanlan fitou-o longamente. Havia algo de sinistro em seus olhos.

— E não é?

— Você me dirá daqui a um mês. Soube que teve uma altercação com os policiais, depois de eu ter descido do trem.

— Como veio a saber disso?

— Oh! Nesta zona se sabe tudo… tanto as coisas boas como as más.

— Pois bem! Disse àqueles cães o que pensava deles.

— Por Deus, você será um homem querido de McGinty!

— Por quê? Ele também odeia a polícia?

Scanlan explodiu numa sonora gargalhada.

— Vá vê-lo, meu rapaz — disse ele, despedindo-se.

— De outra forma, não será a polícia, mas a você que ele odiará! Por ora, siga o conselho de um amigo e vá o mais depressa possível!

Aconteceu que, justamente naquela tarde, McMurdo tinha outro encontro mais urgente, o que o levou para outra direção. É provável que as suas atenções para com Ettie tenham sido mais evidentes do que de costume, ou talvez a lenta apreensão do bom hospedeiro sueco as tivesse finalmente compreendido; o certo é que, fosse qual fosse a causa, o proprietário da pensão chamou o jovem ao seu quarto particular e tratou do assunto sem mais circunlóquios.

— Parece-me, meu caro amigo — começou ele —, que se interessa pela minha Ettie. É ou não é verdade?

— Sim, é verdade — respondeu o rapaz.

— Pois bem, quero dizer-lhe, antes de mais nada, que está perdendo o seu tempo. Alguém chegou primeiro.

— Foi o que ela me disse.

— E posso garantir-lhe que disse a verdade! Mas explicou-lhe de quem se trata?

— Não; perguntei-lhe várias vezes, mas ela não quis me dizer.

— Calculava isso; ela é esperta! Provavelmente, não quis amedrontá-lo.

— Amedrontar-me? — McMurdo enfureceu-se.

— Sim, meu amigo! Não tem nada de que se envergonhar em ter medo de um homem como aquele. Trata-se de Ted.

— E quem diabo é ele?

— É um dos chefes dos Vingadores.

— Vingadores! Já ouvi falar deles. Vingadores aqui, Vingadores ali, e, sempre que alguém se refere a eles, é em voz baixa! Por que vocês todos têm tanto pavor deles? Quem são esses Vingadores?

O dono da pensão instintivamente baixou a voz, como todos quando falavam dessa temível sociedade.

— Os Vingadores — disse — são a Antiga Ordem dos Homens Livres.

O jovem estremeceu.

— Ora! Eu também sou membro dessa ordem.

— O senhor! Jamais consentiria na sua entrada nesta casa, se soubesse disso… nem que me oferecesse cem dólares por semana.

— Mas o que é que há de mau com essa ordem? Ela se dedica à caridade e à boa harmonia entre os homens; é o que dizem os seus estatutos.

— Talvez em outros lugares; não aqui!

— E qual é o seu objetivo aqui?

— É uma sociedade criminosa; eis o que ela é.

McMurdo riu, incrédulo.

— E que provas tem disso? — indagou.

— Provas?! Não bastam cinqüenta assassinatos para testemunhá-lo? Que foi feito de Milman e de Van Short, da família Nicholson, do velho Hyan, do pequeno Billy James e de tantos outros? Provas! Existe, por acaso, um homem ou uma mulher neste vale que não o saiba?

— Escute uma coisa — disse McMurdo com ar sério. — Quero que o senhor retire ou, então, sustente tudo quanto disse. É preciso que o senhor faça uma ou outra coisa, antes de eu deixar este quarto. Ponha-se no meu lugar; aqui estou eu, um estranho nesta cidade. Pertenço a uma sociedade que sei ser honesta e inofensiva. Ela está espalhada por todos os Estados Unidos, mas seus fins, em toda parte, são puros. E agora, justamente quando pretendo participar das suas atividades aqui, o senhor vem me dizer que ela é o mesmo que uma agremiação de criminosos sob o título de “Vingadores”. Creio que o senhor deve me apresentar desculpas ou dar-me uma explicação, sr. Shafter.

— Não posso lhe dizer senão o que o mundo inteiro sabe, meu caro. Os chefes de uma são os chefes da outra. Se o senhor ofender a um, fere o outro. Esse fato tem sido confirmado inúmeras vezes.

— Isso não passa de conversa! Quero provas! — berrou McMurdo.

— Se o senhor permanecer aqui algum tempo, terá todas as provas que deseja. Mas eu ia me esquecendo de que o senhor é um deles. Bem depressa será tão ruim como os outros. O senhor precisa, portanto, encontrar outro alojamento; não posso permitir que continue nesta casa. Não é bastante aparecer um daquela corja e fazer a corte à minha Ettie, sem que eu ouse pô-lo na rua, e ainda é preciso, agora, que eu tenha outro como pensionista? É o cúmulo! O senhor não dormirá mais aqui, a partir de amanhã!

E foi assim que McMurdo se achou banido, tanto da- quela cômoda pensão como da companhia da jovem que amava. Naquela mesma tarde, encontrou Ettie na saleta de estar e confiou-lhe toda a sua desdita.

— Seu pai acaba de me pôr na rua — disse ele. — Pouco me importaria se se tratasse apenas do meu quarto, mas, francamente, Ettie, apesar de conhecê-la há somente uma semana, você se tornou para mim a própria razão da existência, e já não posso viver sem você.

— Oh! Por favor, McMurdo; não me fale assim! — replicou a jovem. — Eu já não lhe disse que chegou demasiado tarde? Há outro, e, se não prometi desposá-lo imediatamente, não posso, pelo menos, comprometer-me com mais ninguém.

— E se eu tivesse chegado primeiro, Ettie, poderia ter a esperança de ser bem acolhido?

A garota escondeu o rosto nas mãos.

— Como eu desejaria que você tivesse chegado primeiro! — soluçou.

No mesmo instante, McMurdo atirou-se de joelhos a seus pés.

— Pelo amor de Deus, Ettie, isso basta! — gritou. — Quer arruinar a sua vida e a minha por causa de uma promessa tola? Siga a voz do seu coração, querida! É um guia muito mais seguro do que qualquer promessa formulada antes de você saber o que estava dizendo.

Enquanto falava, tinha tomado entre as suas mãos fortes a branca mão de Ettie.

— Diga que será minha, e enfrentaremos juntos a situação.

— Mas não aqui!

— Sim, aqui mesmo.

— Não, não, Jack! — Os braços dele, entretanto, tinham-na enlaçado. — Aqui, seria impossível. Você não pode me levar para longe deste lugar?

No rosto de McMurdo perpassou a sombra de um conflito interior, mas de súbito ele se imobilizou num todo granítico.

— Não! Aqui — insistiu. — Eu a defenderei contra tudo e contra todos, Ettie, aqui mesmo onde estamos.

— Mas por quê?

— Eu não teria coragem de andar de cabeça erguida, se tivesse a impressão de ter sido escorraçado de um lugar. Por outro lado, por que devemos ter medo? Não somos, por acaso, gente livre num país livre? Se nos amamos, quem ousaria se interpor?

— Você não sabe, Jack. Está neste lugar há muito pouco tempo. Não conhece Baldwin, nem McGinty e os seus Vingadores.

— Não, não os conheço, não os temo e nem acredito neles! — protestou McMurdo. — Tenho vivido entre homens rudes, minha querida, e, em vez de receá-los, são sempre eles que acabam por me temer. Em todos os tempos foi assim, Ettie. Mas é absurdo! Se esses homens, como afirma seu pai, cometem crimes neste vale, e se todos lhes conhecem os nomes, como é possível que nenhum deles tivesse sido denunciado à polícia? Responda-me, Ettie!

— Porque jamais nenhuma testemunha ousou depor contra eles. Não viveria um mês, se o fizesse. Também eles têm sempre alguém disposto a jurar que o acusado se encontrava distante na ocasião do delito. Mas é impossível, Jack, que não tenha lido a respeito disso tudo! Estava certa de que todos os jornais dos Estados Unidos tinham relatado esses fatos.

— Para dizer a verdade, li qualquer coisa a propósito disso; julguei, no entanto, que se tratava de fantasias. Pode ser que essas pessoas tenham algum motivo para agir desse modo. Talvez estejam sendo vítimas de alguma injustiça e não encontrem outro meio ao seu alcance.

— Oh, Jack, não gosto de ouvi-lo falar assim! É o que ele também diz… o outro!

—É? Baldwin também diz isso?

— E é esse o motivo pelo qual o odeio tanto. Oh, Jack! Agora posso dizer-lhe a verdade. Detesto aquele homem de todo o meu coração; mas tenho medo dele. Tenho-o por minha causa e, sobretudo, por causa de meu pai. Sei que nos aconteceria uma grande desgraça se eu me atrevesse a dizer tudo o que sinto. Por essa razão, eu sempre o tenho iludido com meias promessas. Na realidade, era essa a nossa única esperança de salvação; contudo, se você quiser fugir comigo, Jack, poderemos levar meu pai conosco e viver, finalmente, longe do domínio desses homens perversos.

Nova luta se desenhou no rosto de McMurdo, e mais uma vez a sua fisionomia se endureceu.

— Fique tranqüila, Ettie; não correrá perigo algum… nem você, nem seu pai. E quanto a homens perversos, espero que tenha ocasião de verificar que sou pior do que o mais celerado deles, antes de chegarmos ao fim.

— Não, não, Jack! A minha confiança em você é ilimitada.

McMurdo riu amargamente.

— Santo Deus! Como me conhece pouco! A sua alma inocente, querida, nem por sombra pode imaginar o que se passou na minha. Mas, vejo só! Quem é o visitante?

A porta abrira-se de chofre, e um jovem entrara afoitamente na saleta, com ares de dono da casa. Era um belo rapaz, aproximadamente da mesma idade e estatura de McMurdo. Sob o chapéu desabado de feltro, que ele não se dera ao trabalho de tirar, um belo rosto, com olhos insolentes e dominadores e nariz aquilino, fitava selvaticamente o par sentado junto à lareira.

Ettie pusera-se repentinamente de pé, confusa e assustada.

— Muito prazer em vê-lo, sr. Baldwin — disse. — Chegou mais cedo do que eu esperava. Sente-se aqui.

Balwin parou no meio da sala, com as mãos nas ilhargas, olhando para McMurdo.

— Quem é esse? — perguntou rapidamente.

— É um amigo meu… um novo pensionista. Sr. McMurdo, permite-me que o apresente ao sr. Baldwin?

Os dois homens trocaram um leve aceno de cabeça, com ar carrancudo.

— Espero que a srta. Ettie já lhe tenha contado as relações que existem entre nós — disse Baldwin.

— Não me consta que haja qualquer relação entre o senhor e Miss Ettie.

— Não? Pois bem, ficará sabendo agora. Advirto-o de que esta jovem é minha e de que a noite está particularmente apropriada para um passeio.

— Muito obrigado; não tenho a menor vontade de passear.

— Não? — Os olhos ferozes do rapaz brilhavam de cólera. — Talvez, então, tenha vontade de lutar, senhor pensionista.

— Exatamente! — exclamou McMurdo, pondo-se de pé. — Foi a primeira coisa inteligente que o senhor disse até agora.

— Pelo amor de Deus, Jack! Oh! pelo amor de Deus! — gritou a pobre Ettie, fora de si. — Oh! Jack, Jack, cuidado com ele.

— Oh! Oh! Já o chama de Jack? — vociferou Baldwin, com uma blasfêmia. — Já chegaram a esse ponto?

— Oh! Ted, por favor, seja razoável! Por minha causa, Ted, se me ama, mostre-se generoso e perdoe!

— Creio, Ettie, que se nos deixasse a sós poderíamos liquidar melhor este assunto — disse McMurdo em voz tranqüila. — Ou talvez queira dar um giro comigo pela rua, sr. Baldwin. A noite está linda, e existe um terreno baldio pouco adiante do quarteirão vizinho.

— Ajustarei contas com você sem necessidade de sujar as mãos — retrucou-lhe o adversário. — Lamentará ter pos-to os pés nesta casa, antes de eu dar cabo de você.

— Nenhum momento é mais oportuno do que este — gritou McMurdo.

— O momento oportuno escolherei eu, meu caro. Deixe isso comigo. Olhe para cá! — E, arregaçando a manga com um gesto rápido, mostrou no antebraço um sinal estranho, que parecia ter sido feito a fogo: um triângulo dentro de um círculo. — Sabe o que isto significa?

— Não sei, nem quero saber!

— Mas irá saber. Prometo-lhe que não esperará muito até que compreenda à sua própria custa. Talvez a srta. Ettie possa lhe dizer algo a esse respeito. E quanto a você, Ettie, há de voltar a me procurar de joelhos. Ouviu, menina? De joelhos! E, depois, eu lhe direi qual será o seu castigo. Você semeou vento… e, por Deus, vai colher tempestade!

Fitou ambos com olhar enraivecido e, depois, girou nos calcanhares. Um instante mais tarde, a porta se fechou às suas costas com um baque seco.

McMurdo e a jovem deixaram-se ficar em silêncio por alguns segundos, após o que, esta se atirou em seus braços.

— Oh! Jack, como foi corajoso! Mas não adianta… Você precisa fugir! Esta noite, Jack… esta noite! É a sua única esperança. Ele acabará com você. Vi isso naquele olhar terrível. Que probabilidades pode você ter contra uma dúzia de homens como aquele, com o chefe McGinty e todo o poder da loja a apoiá-los?

McMurdo desvencilhou-se dos braços da jovem, beijou-a e conduziu-a meigamente para uma cadeira.

— Calma, querida, calma! Não se preocupe comigo, nem tema pela minha sorte. Eu também sou membro da ordem. Acabei de dizê-lo a -seu pai. É provável que eu não seja melhor do que os outros, portanto, não faça de mim um santo! Talvez me odeie, agora, depois do que eu disse.

— Odiá-lo, Jack?! Enquanto eu viver, jamais poderei fazê-lo. Sei que não há mal algum em ser um homem livre em qualquer parte do mundo, menos neste lugar; como haveria pois de odiá-lo por isso? Mas, se pertence de fato à Antiga Ordem dos Homens Livres, por que não vai procurar o chefe McGinty e se torna amigo dele? Oh! Apresse-se, Jack, vá já! Fale com ele, antes que aqueles cães surjam no seu caminho.

— Estava pensando nisso mesmo — disse McMurdo. — Vou agora mesmo e arranjo tudo. Pode dizer a seu pai que dormirei aqui esta noite e amanhã cedo tentarei arranjar outro alojamento.

O bar do estabelecimento de McGinty estava apinhado de gente, como de costume, pois era o local favorito de encontro dos piores elementos da cidade. O homem desfrutava de grande popularidade, devido ao temperamento desabrido e jovial que constituía a máscara que lhe encobria grande parte do íntimo. Todavia, pondo de parte esta popularidade, o medo que suscitava em toda a cidade, ou melhor, nos cinqüenta quilômetros do vale e além das montanhas, era suficiente para encher-lhe o bar, pois ninguém poderia dar-se ao desplante de preterir-lhe as boas graças.

Exceto o poder secreto, que todos acreditavam que ele exercia de maneira implacável, ele desempenhava as funções de alto funcionário público, de conselheiro municipal e de encarregado da conservação das estradas, eleito para esses cargos pelo voto dos rufiões, que, por seu turno, esperavam receber favores das suas mãos. Os impostos e as taxas eram enormes, os serviços públicos notoriamente descurados, as contas, falsificadas por revisores subornados, e o cidadão honesto, coagido pelo terror a pagar publicamente importâncias exorbitantes e obrigado a calar-se para que não lhe acontecesse coisa ainda pior. E era essa a razão pela qual os alfinetes de brilhantes do chefe McGinty se tornavam, de ano para ano, cada vez mais evidentes, as correntes de ouro, mais pesadas, a ornar-lhe o colete suntuoso, e seu bar se ampliava progressivamente, a ponto de ameaçar absorver todo um lado da Market Square.

McMurdo deu um empurrão na porta de vaivém do salão e abriu caminho por entre a chusma de homens que o enchiam, numa atmosfera saturada de fumaça e cheiro de álcool. O local achava-se maravilhosamente iluminado, e os espelhos enormes, profusamente dourados, dispostos ao redor da sala, refletiam e multiplicavam a luz vivíssima. Diversos empregados em mangas de camisa trabalhavam sem descanso, preparando bebidas para os ociosos que cercavam o vasto balcão guarnecido de metal. Numa das extremidades, com o corpo apoiado no balcão, um charuto fincado em ângulo agudo num canto da boca, estava um homem alto, forte e maciço, que outro não podia ser senão o célebre McGinty em pessoa. Era uma espécie de gigante de cabeleira negra, barbudo até as maçãs do rosto, com uma mecha de cabelos de azeviche que lhe caía sobre o colarinho. Sua tez, tão morena como a de um italiano, e os olhos pretos, estranhamente sem brilho e levemente estrábicos, davam-lhe um aspecto particularmente sinistro. No resto, suas proporções nobres, as feições delicadas e a atitude franca correspondiam ao tom jovial e espontâneo que ele afetava. Quem não o conhecesse, poderia jurar encontrar-se diante de um tipo honesto, franco, de bom coração, por mais grosseiras que as suas palavras sem peias pudessem parecer. Somente quando aqueles olhos escuros, opacos, profundos e desapiedados se fixavam em alguém, é que este se arrepiava, percebendo estar face a face com uma capacidade infinita de maldade latente, apoiada por uma força, uma coragem e uma astúcia que a tornavam mil vezes mais perigosa.

Depois de ter estudado atentamente o seu homem, McMurdo abriu passagem, com o seu habitual atrevimento, e aproximou-se do pequeno grupo de aduladores que rodeava o poderoso chefe, rindo estrepitosamente das suas menores piadas. Os audazes olhos cinzentos do jovem estranho enfrentaram, indômitos, através dos óculos, o olhar encarniçadamente sombrio que o outro lhe lançou subitamente.

— Olá, jovem, não me lembro de o ter visto antes.

— Sou novo aqui, sr. McGinty.

— Não é tão novo que não possa dar a uma pessoa o título conveniente.

— Este é o conselheiro McGinty, rapaz — disse uma voz do grupo.

— Desculpe-me, conselheiro, desconheço os hábitos do lugar, mas sugeriram-me que viesse visitá-lo.

— Pois bem, aqui me tem. Inteirinho. Que tal me acha?

— Ainda é cedo para dizer alguma coisa; no entanto, se o coração lhe é tão grande como o corpo e a alma, tão bela quanto o rosto, não posso desejar nada melhor — respondeu McMurdo.

— Com mil raios! Seja como for, você tem, na verdade, uma língua de irlandês — berrou o dono do bar, indeciso, sem saber se devia dar corda ao insolente visitante ou manter a dignidade. — Então tem a bondade de aprovar a minha aparência?

— Naturalmente — retrucou McMurdo.

— E disseram-lhe que me procurasse?

— Precisamente,

— E quem lhe disse isso?

— O irmão Scanlan, da Loja 341, Vermissa. Bebo à sua saúde, conselheiro, e à nossa amizade — disse, erguendo o copo que lhe haviam enchido; e, enquanto bebia, levantou o dedo mínimo.

McGinty, que o ficara examinando atentamente, alteou as grossas sobrancelhas negras.

— Oh! É assim, então? Preciso verificar melhor esse negócio, sr…

— McMurdo.

— … um pouco melhor, sr. McMurdo, porque não confiamos em ninguém nestas bandas, nem acreditamos em tudo o que nos dizem. Venha aqui um momento, atrás do bar.

Entraram numa salinha em cujas paredes se amontoava grande número de barris. McGinty fechou cuidadosamente a porta, depois sentou-se numa das pipas, mastigando pensativamente o charuto e inspecionando o companheiro com seus olhos inquietantes. Por alguns minutos, deixou-se ficar em absoluto silêncio.

McMurdo suportou de bom humor o exame, com uma das mãos no bolso do casaco e com a outra alisando os bigodes castanhos. De súbito, McGinty curvou-se e exibiu um revólver de aspecto pouco tranqüilizador.

— Ouça lá, meu caro piadista — disse —, se eu descobrir que você pretende nos pregar uma peça, mal terá tempo de pedir perdão a Deus para os seus pecados.

— Isso me parece uma recepção bastante estranha, da parte do grão-mestre de uma loja de Homens Livres a um irmão desconhecido — respondeu McMurdo com certa dignidade.

— Sim, mas é isso justamente o que deve provar, ou seja, ser um verdadeiro irmão — falou McGinty —, e que Deus o ajude, se não o conseguir. Onde fez a sua iniciação?

— Na Loja 29, em Chicago.

— Quando?

— Em 24 de junho de 1872.

— Quem era o grão-mestre?

— James H. Scott.

— E o dirigente da zona?

— Bartholomew Wilson.

— Hum! Parece ter as respostas engatilhadas. Que veio fazer aqui?

— Vim trabalhar, como o senhor, porém num emprego menos rendoso.

— Você é, realmente, muito rápido nas respostas!….

— Sim, a minha palavra sempre foi rápida.

— E também é rápido na ação?

— Gozo dessa fama entre as pessoas que me conhecem bem.

— É provável que o ponhamos à prova mais cedo do que pensa. Já ouviu dizer alguma coisa da loja desta região?

— Soube que recebe como irmão um homem que o demonstra ser.

— Com relação a você, isso é verdade, McMurdo. Por que abandonou Chicago?

— Prefiro que me matem a dizê-lo.

McGinty arregalou os olhos. Não estava habituado a que lhe respondessem daquela maneira, e isso o divertiu.

— Por que não quer dizê-lo a mim?

— Pela simples razão de que um irmão não deve mentir a outro.

— Então a verdade é assim tão má para ser contada?

— Pode pensar o que melhor lhe convier.

— Olhe lá, amigo; não pode pretender que eu, como grão-mestre, receba na loja um homem por cujo passado não posso responder.

McMurdo mostrou-se perplexo. Tirou por f-im, de um bolso interno, um recorte de jornal amarrotado.

— O senhor não seria capaz de trair um confrade? — perguntou.

— Arrebento-lhe a cara se repetir tal coisa — gritou McGinty, furioso.

— Tem razão, conselheiro — disse McMurdo humildemente. — Peco-lhe desculpas. Falei sem refletir. Sim, sei que nas suas mãos estou seguro. Veja este recorte.

McGinty passou os olhos sobre o relato do assassinato a tiros de certo Jonas Pinto, ocorrido no Lake Saloon, na Market Street, em Chicago, no ano-novo de 1874.

— É obra sua? — inquiriu, ao restituir-lhe o papel.

McMurdo fez um aceno afirmativo de cabeça.

— Por que o atingiu?

— Eu estava ajudando o Tio Sam a fazer dólares. É possível que os meus não fossem de ouro tão bom como os dele; mas eram bem semelhantes e sua fabricação era mais barata. O tal Pinto me auxiliava a distribuir a grana…

— A fazer o quê?

— Bem, quero dizer, a pôr os dólares em circulação. Disse que depois dividia comigo o resultado. Talvez o tivesse feito; o certo é que não esperei para ver. Dei cabo dele e tratei de fugir para a região carbonífera.

— Por que exatamente para a região carbonífera?

— Por ter lido nos jornais que aqui ninguém se metia na vida da gente.

McGinty soltou uma gargalhada.

— Você primeiro era falsário, depois tornou-se assassino e, finalmente, veio para cá porque julgou ser bem recebido, não é assim?

— Mais ou menos isso — redargüiu McMurdo.

— Pois bem; creio que há de ir longe. Diga-me: ainda sabe fabricar dólares?

McMurdo extraiu do bolso meia dúzia de moedas.

— Estes nunca passaram pela casa da moeda em Washington — afirmou.

— Não me diga! — exclamou McGinty, pegando-os com a mão enorme, peluda como a de um gorila, e aproximando-os da luz. — Não vejo a menor diferença! Caramba! Creio que será um irmão utilíssimo. Precisamos de uma ou duas pessoas ativas entre nós, amigo McMurdo, pois há ocasiões em que temos necessidade de agir. Estaremos em breve contra a parede, se não reagirmos contra os que nos atacam.

— Garanto-lhe que saberei cumprir a minha parte junto dos outros rapazes.

— Você parece ter bons nervos. Nem piscou os olhos quando lhe apontei esta pistola.

— Não era eu quem corria perigo.

— Quem, então?

— O senhor, conselheiro — explicou McMurdo, tirando uma pistola engatilhada do bolso lateral do casaco de pano grosso. — Acompanhei todos os seus movimentos, e acredite que o meu tiro seria tão rápido como o seu.

McGinty tornou-se repentinamente rubro de cólera, depois explodiu numa fragorosa gargalhada.

— Com mil raios! — bradou. — Olhe, há muito tempo que não se vê por estas bandas um sacripanta da sua estirpe. Julgo que a loja ainda sentirá muito orgulho de você. Ora, que diabo deseja? Não poderei falar a sós com um cavalheiro durante cinco minutos, sem ser interrompido por você?

O empregado do bar quedou-se confuso.

— Perdoe-me, conselheiro, trata-se do sr. Baldwin. Diz que necessita lhe falar imediatamente.

O recado era desnecessário, pois o rosto duro e cruel de Baldwin em pessoa apontou por sobre o ombro do criado. Ele o empurrou para fora e fechou a porta às suas costas.

— Então — disse, lançando a McMurdo um olhar furibundo —, você chegou primeiro? Tenho uma coisa a lhe dizer a respeito desse homem, conselheiro.

— Pois diga-o já, na minha presença — gritou McMurdo.

— Falarei quando me convier, e da maneira que quiser.

— Calma, calma! — interpôs McGinty, levantando-se do barril. — Isso de nada adianta. Temos entre nós um novo irmão, Baldwin, e não é decente da nossa parte recebê-lo dessa maneira. Ponha aqui a sua mão, homem, e façam as pazes.

— Jamais! — gritou Baldwin, fora de si.

— Ofereci-me para lutar com ele, se achava que o tinha ofendido — explicou McMurdo. — Lutarei à mão livre, ou, se isso não lhe basta, do modo que preferir. Agora, deixo ao seu critério, conselheiro, a resolução do nosso caso, como deve fazer um grão-mestre.

— De que se trata, então?

— De uma jovem. Ela é livre de escolher por si própria.

— Ah, é? — berrou Baldwin.

— Como convém, entre dois irmãos da loja, direi que sim — disse o chefe.

— Oh! É essa então a regra?

— Sim, é a minha regra, Ted Baldwin — redargüiu McGinty com um olhar perverso. —É você que a quer discutir?

— E você abandonaria quem o tem acompanhado durante cinco anos para favorecer alguém que nunca viu na sua vida? Você não é grão-mestre perpétuo, Jack McGinty, e, por Deus, na primeira eleição…

O conselheiro atirou-se a ele como um tigre. Sua mão fechou-se ao redor do pescoço do outro e arremessou o desgraçado contra um dos barris. Estava de tal modo enfurecido, que o teria morto se não fosse a intervenção de McMurdo.

— Devagar, conselheiro! Pelo amor de Deus, tenha calma! — gritou, puxando-o para trás.

McGinty soltou a presa, e Baldwin, atemorizado e abatido, arquejante e tremulo, como quem tivesse estado às portas da morte, sentou-se na pipa contra a qual fora atirado.

— Você andava à procura disso há muito tempo, Ted Baldwin, Agora encontrou o que buscava — berrou McGinty, com o vasto peito tumultuosamente ofegante. — Talvez pensasse que, se me tivesse tirado o cargo de grão-mestre, viesse a ocupar esse lugar. Cabe à loja, entretanto, decidir a esse respeito e, enquanto eu for grão-mestre, não permitirei que ninguém levante a voz contra mim ou contra as minhas ordens.

— Não tenho nada contra você — murmurou Baldwin, esfregando o pescoço.

— Pois então — exclamou o outro, retomando imediatamente o seu tom de rude jovialidade — tornemo-nos todos bons amigos e ponhamos um ponto final na questão.

Tirou uma garrafa de champanha da prateleira e fez saltar a rolha.

— E agora — prosseguiu, enchendo três longos cálices —, façamos um brinde contra as pendências da loja. Depois disso, sabem, não pode correr sangue entre nós.

E neste momento, com a mão esquerda sobre o meu pomo-de-adão, eu lhe pergunto, Ted Baldwin: qual é a ofensa, senhor?

— As nuvens estão carregadas — respondeu Baldwin.

— Não obstante, elas desaparecerão para sempre.

— Eu o juro.

Os três homens beberam, e a mesma cerimonia repetiu-se entre Baldwin e McMurdo.

— Muito bem! — exclamou McGinty, esfregando as mãos. — Evitamos derramamento de sangue. Se isso tornar a acontecer, serão colocados sob a disciplina da loja, e ela é exercida com mão de ferro nesta zona, como sabe o irmão Baldwin e como você em breve aprenderá, irmão McMurdo, se andar em busca de complicações.

— Com os diabos! Não serei eu, por certo, que irei procurar lutas — disse McMurdo, estendendo a mão a Baldwin. — Estou sempre pronto para lutar, mas ainda mais para perdoar. A culpa é do meu sangue quente de irlandês, já me disseram. Todavia, por mim tudo acabou, e não guardo rancor algum.

Baldwin teve de aceitar a mão que lhe era estendida, pois o olhar maligno do terrível chefe estava fixo nele. Contudo, sua fisionomia carrancuda mostrava quão pouco lis palavras do outro o haviam tocado.

McGinty bateu com as mãos nos ombros de ambos.

— Ah! Essas meninas, essas meninas! — bradou. — E pensar que justamente as mesmas saias viriam se intrometer entre dois dos meus rapazes. É obra do Diabo! Bem, cabe à menina que está dentro delas resolver o assunto, pois estas coisas exorbitam da competência de um grão-mestre, o Senhor seja louvado! Já temos muito que fazer para nos preocuparmos com as mulheres. Você deve se filiar à Loja 341, irmão McMurdo. Temos os nossos próprios meios e sistemas, diferentes dos de Chicago. Nossa próxima reunião será no sábado, e, se comparecer, nós o proclamaremos livre para sempre no vale Vermissa.

Primeira Parte
A Tregédia de Birlstone

Capítulo 1 – O aviso § Capítulo 2 – Sherlock Holmes discorre
Capítulo 3 – A Tragédia de Birlstone § Capítulo 4 – Trevas
Capítulo 5 – As personagens do drama § Capítulo 6 – Um réstia de luz
Capítulo 7 – A solução

Segunda Parte
Os Vingadores

Capítulo 1 – O homem § Capítulo 2 – O grão-mestre
Capítulo 3 – Loja 341, Vermissa § Capítulo 4 – O vale do terror
Capítulo 5 – A hora mais negra § Capítulo 6 – Perigo
Capítulo 7 – Birdy Edwards na ratoeira

Epílogo

Ilustrações: Frank Wiles, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock