O vale do terror – Segunda parte, Capítulo 3

Arthur Conan DoyleO vale do terror

Segunda parte: Os vingadores

Título original: The Valley of Fear
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1914-15.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Valley of Fear publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VI,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo terceiro: Loja 341, Vermissa

No dia seguinte à noite em que se desenrolaram tão emocionantes acontecimentos, McMurdo mudou-se da pensão do velho Jacob Shafter para a casa da viúva MacNamara, nos limites extremos da cidade. Scanlan, seu primeiro conhecido do trem, teve, pouco depois, ocasião de se transferir para Vermissa, e ambos passaram a morar juntos. Não havia outros pensionistas, e a dona da casa era uma velha irlandesa camarada, que os deixava à vontade, de modo que tinham absoluta liberdade de palavras e de ação, o que era bastante conveniente a homens com segredos comuns. Shafter abrandara a ponto de permitir que McMurdo participasse das suas refeições quando bem entendesse, de maneira que as relações deste com Ettie não sofreram nenhuma interrupção; pelo contrário, tornaram-se mais afetuosas e íntimas com o correr das semanas. No quarto de dormir da sua nova habitação, McMurdo achou que podia se servir com segurança dos seus cunhos de moedas, e, após repetidas e solenes promessas de guardar segredo, certo número de irmãos da loja tiveram permissão para ir vê-los, e de lá saíram levando nos bolsos alguns exemplares das moedas falsas, cunhadas com tamanha perfeição que nenhum deles
teve a menor dificuldade em passá-las. Por que motivo, com arte tão maravilhosa à sua disposição, McMurdo se sacrificava trabalhando constituía um verdadeiro mistério para os seus companheiros, embora ele explicasse, a todos os que lhe perguntavam, que, se vivesse sem meios aparentes de sustento, em breve atrairia as atenções da polícia.

Efetivamente, um policial já andava no seu encalço, mas o incidente, por sorte, acarretou ao aventureiro muito mais benefício do que prejuízo. Depois da sua primeira apresentação, rara era a noite em que não comparecia no bar de McGinty, com o intuito de estreitar os laços de amizade com os rapazes, título jovial com que os integrantes da perigosa turma se chamavam reciprocamente. Suas maneiras audazes e sua linguagem destemida o transformaram no favorito daquela gente, ao mesmo tempo em que o modo rápido e científico como dominava o adversário numa rixa de botequim lhe granjeara o respeito daquela comunidade bronca. Outro incidente, todavia, elevou-o ainda mais no conceito geral.

Justamente na hora de maior movimento, certa noite, á porta se abriu, e entrou no salão um homem envergando o discreto uniforme azul e o boné alto da Polícia do Carvão e do Ferro. Era uma organização especial de vigilância subvencionada pêlos proprietários das ferrovias e das minas de carvão, destinada a auxiliar os esforços da polícia civil comum, que era completamente impotente em face do banditismo organizado que infundia o terror na região. Um profundo silêncio acolheu seu ingresso, e mais de um olhar curioso se fixou nele; contudo, as relações entre policiais e criminosos são características nos Estados Unidos, e o próprio McGinty, de pé atrás do balcão, não demonstrou a menor surpresa quando o inspetor se reuniu aos seus clientes.

— Um uísque puro, pois a noite está gélida — disse o agente. — Creio que ainda não nos conhecemos, conselheiro, não é verdade?

— Você é o novo capitão? — perguntou McGinty.

— Exatamente. Contamos com o senhor, conselheiro, e com os outros cidadãos influentes para nos ajudarem a manter a ordem e a lei nesta cidade. Sou o capitão Marvin… da Polícia do Carvão e do Ferro.

— Agiremos melhor sem você, capitão Marvin — replicou McGinty friamente. — Temos a nossa própria polícia, aqui na cidade, e não necessitamos de nenhum traste importado. O que é você senão um instrumento pago pelos capitalistas, arranjado para atacar a cacetadas e a tiros os nossos concidadãos mais pobres?

— Vamos deixar de discussões — obtemperou, bem-humorado, o policial. — Acredito que todos cumprimos o nosso dever segundo a própria opinião; entretanto, é pena que essas opiniões não sejam todas iguais.

Já esvaziara o copo e preparava-se para sair, quando seus olhos pousaram no rosto de Jack McMurdo, que se encontrava a seu lado com ar carrancudo.

— Vejam só! Eis aqui um velho conhecido — exclamou, olhando-o de alto a baixo.

McMurdo afastou-se dele.

— Nunca fui seu amigo ou. de qualquer maldito guarda em toda a minha vida! — replicou.

— Conhecidos nem sempre são amigos — observou o policial, sorrindo. — Você é Jack McMurdo, de Chicago, e é inútil negá-lo.

McMurdo encolheu os ombros.

— Não estou negando nada — retrucou. — Pensa, talvez, que me envergonho do meu nome?

— E, não obstante, tem bons motivos para isso!

— Que diabo pretende insinuar com essas palavras? — rugiu McMurdo, de punhos fechados.

— Não, não, Jack; suas bravatas não me intimidam. Estive de serviço em Chicago, antes de vir parar nesta miserável carvoeira, e sou capaz de reconhecer um tratante de Chicago quando o vejo.

McMurdo caiu das nuvens.

— Não me diga que é Marvin, da Polícia Central de Chicago! — exclamou.

— O mesmo velho Teddy Marvin, em pessoa, às suas ordens. Ainda não nos esquecemos do assassinato de Jonas Pinto, naquelas bandas.

— Não fui eu quem o matou.

— Tem certeza? Naturalmente, o seu testemunho é muito imparcial, não é verdade? Em todo caso, a morte dele chegou bastante a propósito, pois de outra forma você teria sido preso como passador de moeda falsa. Mas esqueçamos o passado, porque, aqui entre nós… e talvez eu esteja indo além do que o dever me impõe… não puderam obter provas seguras contra você, e portanto pode voltar a Chicago amanhã, se quiser.

— Estou muitíssimo bem onde me encontro.

— Bem, dei-lhe uma informação preciosa, e você é, de fato, cabeçudo em não se mostrar agradecido.

— Ora, acredito que as suas intenções sejam boas e agradeço-lhe por isso — resmungou McMurdo de maneira pouco gentil.

— Por mim está tudo muito bem, desde que você proceda corretamente — disse o capitão. — Mas, por Deus, se sair fora da linha depois de tudo quanto eu disse, a conversa será outra! Portanto, boa noite para você… e para o senhor também, conselheiro.

Com tais palavras, afastou-se do bar, não sem que antes disso tivesse criado um herói local. As façanhas de McMurdo, da longínqua Chicago, já tinham dado motivo a murmúrios. Ele desviara todas as perguntas a esse respeito com um sorriso, como se não quisesse se engrandecer à custa do caso. Agora, porém, a coisa estava confirmada oficialmente. Os freqüentadores do bar aglomeraram-se em torno dele e apertaram-lhe cordialmente a mão. Daquele momento em diante, era livre de fazer na comunidade o que bem entendesse. McMurdo podia beber à farta sem dar mostras de embriaguez, mas, naquela noite, se seu amigo Scanlan não estivesse presente para conduzi-lo a casa, o festejado herói teria certamente passado a noite sob o balcão do bar.

Num sábado à noite, McMurdo foi admitido na loja. Ele imaginara que poderia entrar sem nenhum cerimonial, como os iniciados de Chicago; em Vermissa, no entanto, existiam ritos particulares, dos quais os seus adeptos se orgulhavam, e a esses ritos todo postulante devia se submeter. A assembléia reuniu-se num vasto aposento, reservado para tais fins, na sede do sindicato. Cerca de sessenta membros congregavam-se em Vermissa; todavia, esse número de forma alguma representava a força total da agremiação, pois havia várias lojas disseminadas, as quais permutavam os seus adeptos quando alguma coisa importante estava sendo preparada, de modo que um delito podia ser cometido por indivíduos completamente estranhos à localidade. No conjunto, não havia menos do que quinhentos prosélitos espalhados por toda a zona carbonífera.

Na sala de reuniões, completamente despida de enfeites, os homens se achavam agrupados em volta de uma longa mesa. Ao lado desta, havia outra, coberta de garrafas e copos, para os quais alguns membros da companhia já volviam sequiosamente os olhos. McGinty estava sentado à cabeceira, com um barrete mole de veludo negro sobre a massa emaranhada de cabelos de azeviche e um cachecol cor de púrpura ao redor do pescoço, o que lhe dava um aspecto de sacerdote que presidisse a algum ritual diabólico. À direita e à esquerda dele, viam-se os altos graduados da loja, entre os quais se salientavam as feições cruéis e ao mesmo tempo belas de Ted Baldwin. Cada um desses trazia, como emblema do seu cargo, uma chapa ou um medalhão. Eram, na maioria, homens maduros, mas o resto do pessoal consistia em jovens de dezoito a vinte e cinco anos, emissários prontos e capazes, que executavam as ordens dos mais velhos. Entre estes últimos, havia muitos cujas fisionomias lhes revelavam as almas sanguinárias e refratárias à lei; observando, porém, os demais correligionários, era difícil pensar que aqueles rapazes de rosto franco e corajoso constituíssem, na verdade, um perigoso grupo de assassinos cujas mentes tivessem sofrido tão completa perversão moral a ponto de se sentirem sadicamente orgulhosos da sua proficiência no mal e de olharem com o mais profundo respeito o homem que gozava da reputação de saber fazer o que chamavam de servicinho limpo. Para os seus ânimos corrompidos, tornara-se uma atitude cavalheiresca e audaz oferecer-se voluntariamente para liquidar pessoas que jamais os tinham ofendido e que, em muitos casos, nunca tinham visto na sua vida. Cometido o crime, discutiam, vangloriando-se cada qual de ter sido o primeiro a vibrar o golpe fatal, e divertiam-se e aos circunstantes descrevendo os gritos e as contorções da vítima. A princípio, mantinham um certo segredo nos seus preparativos, mas na época descrita nesta narrativa, agiam com uma desfaçatez incrível, pois os repetidos malogros da justiça tinham-lhes provado que não somente ninguém ousaria depor contra eles, como também podiam dispor de ilimitado número de testemunhas fiéis e de um cofre bem-formido, do qual lhes era possível obter os fundos necessários a fim de arrebanhar para a sua defesa os maiores expoentes jurídicos do Estado. Em dez anos ininterruptos de violência, não tinha havido nenhuma condenação, e o único perigo que corriam os Vingadores resumia-se nas próprias vítimas, as quais, apesar de inferiores em número e colhidas de surpresa, podiam, e de fato isso às vezes acontecia, deixar a sua marca nos assaltantes.

McMurdo tinha sido prevenido de que uma prova o aguardava, mas ninguém lhe quisera dizer em que consistia ela. Foi conduzido para uma sala exterior por dois irmãos de aspecto solene. Através do tabique de madeira, chegava-lhe aos ouvidos o murmúrio das inúmeras vozes da assembléia. Por uma ou duas vezes, ouvira pronunciar o seu próprio nome e compreendeu que estavam discutindo a sua candidatura. Depois, na sala em que ele se encontrava, entrou um membro da guarda interna, que trazia atravessada no peito uma faixa verde e ouro.

— O grão-mestre ordena que o amarrem, que lhe vendem os olhos e o mandem entrar — disse.

Então, três homens lhe tiraram o casaco, arregaçaram-lhe a manga do braço direito e, finalmente, passaram-lhe uma corda em redor, acima dos cotovelos, e apertaram-na vigorosamente. Colocaram-lhe em seguida um espesso capuz negro sobre a cabeça, o qual lhe cobriu também a parte superior do rosto, de modo que ele não pudesse ver nada, e assim foi levado para a sala da reunião.

Estava completamente cego e sufocado sob aquele capuz. Ouviu o ruído e o sussurro de vozes ao redor, e, por fim, a voz de McGinty ressoou, abafada e distante, aos seus ouvidos tapados.

— Jack McMurdo — disse a voz —, você já é membro da Antiga Ordem dos Homens Livres?

O rapaz acenou afirmativamente com a cabeça.

— É a sua loja a de número 29, de Chicago?

Novo sinal afirmativo de cabeça, da parte dele.

— As noites escuras são desagradáveis — continuou a voz.

— Sim, para pessoas estranhas viajarem — respondeu.

— As nuvens estão pesadas.

— Sim, uma tempestade se aproxima.

— Estão os irmãos satisfeitos? — inquiriu o grão-mestre.

Ergueu-se na sala um murmúrio geral de assentimento.

— Verificamos, irmão, pela senha e contra-senha que nos acaba de dar, que você é realmente um dos nossos — disse McGinty. — Queremos, porém, que saiba que, tanto nesta região como noutras, vizinhas, temos certos ritos e também certos deveres peculiares que requerem homens valorosos. Está pronto para a prova?

— Estou.

— Tem coração forte?

— Tenho.

— Dê um passo à frente para demonstrar isso.

Enquanto essas palavras eram pronunciadas, ele sentiu sobre os olhos duas pontas agudas, que os comprimiam tanto, a ponto de parecer-lhe não poder avançar um milímetro sem correr o risco de perdê-los. Não obstante, reuniu todas as suas forças e adiantou-se resolutamente. Nesse mesmo instante a pressão diminuiu e desapareceu, e um som confuso de aplausos fez-se ouvir.

— Tem um coração forte — observou a voz. — Sabe suportar a dor?

— Tão bem como qualquer outro — replicou.

— Sujeite-o à prova!

Tudo o que pôde fazer foi conter-se para não soltar um berro, pois uma dor lancinante lhe atravessou o ante-braço. Por pouco não desmaiou diante do choque imprevisto; contudo, mordeu os lábios e apertou os punhos para esconder o sofrimento.

— Posso suportar ainda mais — disse.

Dessa vez os aplausos estrugiram, irrefreáveis. Jamais alguém se comportara, na primeira apresentação na loja, de maneira tão estóica. Várias mãos bateram-lhe nas costas, o capuz foi-lhe retirado da cabeça, e ele ficou aturdido com a luz, piscando e sorrindo, rodeado pelas congratulações dos correligionários.

— Ainda uma última palavra, irmão McMurdo — interpôs McGinty. — Você já pronunciou o juramento de segredo e fidelidade e sabe, portanto, que a punição por qualquer quebra do juramento é a morte instantânea e inevitável!

— Sei — proferiu McMurdo.

— E aceita a regra do grão-mestre, presentemente, em toda e qualquer circunstância?

— Aceito.

— Então, em nome da Loja 341, de Vermissa, eu lhe concedo todos os seus privilégios e o direito de tomar parte em todos os seus debates. Ponha as bebidas na mesa, irmão Scanlan, para que possamos beber à saúde do nosso digno irmão.

Tinham-lhe trazido o casaco, mas, antes de vesti-lo, McMurdo examinou o braço direito, que ainda lhe doía intensamente. Ali, na carne viva do antebraço, estava gravado, nitidamente, um círculo cingindo um triângulo, profundo e rubro, como o tinha deixado o ferro incandescente. Alguns dos adeptos, que estavam mais próximos dele, arregaçaram as mangas e mostraram marcas idênticas.

— Todos nós a temos — disse um deles —, mas nem todos a receberam com tanta bravura como você.

— Ora! Isso não foi nada — respondeu McMurdo.

Apesar disso, a dor e o calor da queimadura o incomodavam muitíssimo.

Quando as libações que se sucederam à cerimônia de iniciação terminaram, tiveram início as discussões dos trabalhos da loja. McMurdo, habituado às atividades prosaicas de Chicago, ouvia com grande atenção o que vem descrito a seguir, não ousando revelar a sua imensa surpresa.

— O primeiro assunto da ordem do dia — disse McGinty — consiste na leitura da seguinte carta do chefe de divisão, Windle, do condado de Merton, Loja 249. Diz ela:

“Prezado senhor:
Há um trabalho para executar com relação a Andrew Rae, da firma Rae & Sturmash, proprietários de minas de carvão próximas desta zona. O senhor deve se lembrar de que a sua loja está em débito para conosco pêlos serviços de dois dos nossos irmãos, no caso do policial de ronda, no último outono. Peço-lhe que nos mande dois homens capazes, que ficarão às ordens do tesoureiro Higgins, desta loja, cujo endereço é do seu conhecimento. Ele lhes dirá quando e onde devem agir. Seu irmão na liberdade

J. W. Windle, C.D.A.O.H.L.”

“Windle jamais se recusou a ajudar-nos quando tivemos necessidade de lhe pedir o auxílio de um ou dois homens; não podemos, portanto, deixar de atendê-lo.”

McGinty fez uma pausa e percorreu a sala com os olhos malignos e opacos.

— Quem se oferece espontaneamente para este trabalho? — perguntou.

Diversos rapazes levantaram a mão. O grão-mestre fitou-os com um sorriso de aprovação.

— Você está muito bom, Tigre Cormac. Se se sair tão bem como da última vez, não será esquecido. E você também, Wilson.

— Não tenho revólver — disse o voluntário, um rapazola de menos de vinte anos.

— É a sua primeira empresa, não é verdade? Bem, um dia teria de sofrer o batismo de sangue. Será um grande início para você. Quanto ao revólver, estou certo de que o encontrará à sua espera. Se estiverem prontos na segunda-feira, será mais que suficiente. Terão uma bela acolhida quando voltarem.

— Não haverá nenhuma recompensa desta vez? — indagou Cormac, jovem corpulento, de rosto sombrio e aspecto selvagem, cuja ferocidade lhe valera o apelido de “Tigre”.

— A recompensa não importa, vocês trabalharão pela honra do empreendimento. Todavia, é possível que, no fim de tudo, haja alguns dólares extras, no fundo da caixa, à espera de vocês.

— Que fez o homem? — indagou o inexperiente Wilson.

— Por certo não compete a pessoas como você perguntar o que ele tenha feito. Foi julgado lá, e o resto não nos interessa. Cabe-nos apenas levar a cabo a empresa por conta deles, como eles fariam por nós. E, por falar nisso, dois confrades da loja de Merton estarão entre nós na próxima semana, a fim de se desobrigarem de uma tarefa nesta zona.

— Quem são? — perguntou alguém.

— Francamente, é melhor ignorar. Se não souberem de nada, não serão chamados como testemunhas e, desse, modo, estarão livres de qualquer perigo. Entretanto, tratase de homens que sabem fazer um servicinho limpo, quando se apresenta a ocasião.

— E também já é tempo! — gritou Ted Baldwin. — Muita gente está escapando ao devido castigo nestas bandas. Ainda na semana passada, três dos nossos homens foram despedidos pelo capataz Blaker. Há muito que ele devia merecer a nossa atenção, e em breve a terá, de maneira adequada e completa.

— O que é que o espera? — sussurrou McMurdo ao seu vizinho.

-— Um balaço bem assestado! — exclamou o homem, com sonora gargalhada. — Que acha dos nossos métodos, irmão?

A alma criminosa de McMurdo parecia ter já absorvido o espírito da infame sociedade da qual se havia tornado membro.

— Agradam-me muito — respondeu. — Este é o lugar conveniente para um rapaz de mérito.

Alguns dos que se encontravam perto ouviram-lhe as palavras e aplaudiram-nas.

— O que é? — berrou o cabeludo grão-mestre, da outra extremidade da sala.

— É o nosso novo irmão, senhor, que considera os nossos métodos muito do seu agrado.

McMurdo levantou-se por um instante.

— Queria indicar, venerável chefe, que, quando necessitar de alguém, considerar-me-ei honrado se for escolhido para auxiliar a loja.

Aplausos estrepitosos acompanharam essa declaração. Todos tinham a sensação de que um novo sol despontava no horizonte. Alguns dentre os mais idosos sentiam, por outro lado, que o progresso fora demasiado rápido.

— Desejaria sugerir — disse o secretário Harraway, um velho de cara de abutre e barba grisalha, sentado ao lado do presidente — que o irmão McMurdo aguardasse até que a loja entendesse por bem servir-se dele.

— Exatamente; é o que pretendia deixar claro. Ponho-me inteiramente em suas mãos — replicou McMurdo.

— Chegará a sua hora, irmão — acrescentou o presidente. — Já o distinguimos como homem de boa vontade e estamos certos de que será um elemento útil nesta zona. Há trabalhinho hoje à noite, no qual, se quiser, poderá tomar parte.

— Prefiro esperar por algo mais importante.

— Em todo caso, pode nos acompanhar esta noite; isso o ajudará a conhecer os nossos propósitos nesta comunidade. Farei a comunicação mais tarde. Entretanto — continuou, lançando o olhar para a agenda —, tenho mais um ou dois assuntos para apresentar à assembléia. Antes de tudo, pedirei ao tesoureiro que nos informe sobre o nosso saldo bancário. Devemos pensar numa pensão para a viúva de Jim Carnaway. Ele foi abatido a serviço da loja, e cabenos providenciar que ela não fique numa situação precária.

— Jim foi morto o mês passado, quando tentava liquidar Chester Wilcox, de Marley Creek — explicou um vizinho a McMurdo.

— A situação financeira, neste momento, é boa — disse o tesoureiro, consultando a caderneta do banco, aberta à sua frente. — As firmas têm sido generosas nos últimos tempos. A Max Linder & Co. pagou quinhentos dólares para não ser incomodada. A Walker Brothers enviou-nos cem; decidi, porém, restituí-los e pedir-lhes que nos mandem quinhentos. Se não receber resposta até quarta-feira, talvez-os seus negócios venham a correr mal. Fomos obrigados a queimar-lhe o quebrador mecânico a fim de torná-la razoável. Por outro lado, a West Section Coaling Company pagou a sua contribuição anual. Temos o bastante em nosso poder para fazer face a qualquer obrigação.

— E que nos diz de Archie Swindon? — perguntou um irmão.

— Vendeu tudo e abandonou a zona. O velho tratante deixou-nos um recado em que dizia preferir ser varredor de ruas, livre, em Nova York, a ser proprietário de uma grande mina, sob o domínio de um bando de chantagistas. Por Deus! Ele teve sorte em desaparecer antes de o bilhete vir parar nas nossas mãos! Creio que não terá mais coragem de pôr os pés neste vale.

Um homem idoso, rigorosamente barbeado, de aspecto benévolo e cordial, ergueu-se na outra extremidade da mesa, de frente para o presidente.

— Senhor tesoureiro — disse —, permite-me que lhe pergunte quem comprou a propriedade do homem que escorraçamos da zona?

— Perfeitamente, irmão Morris. Foi adquirida pela State & Merton Country Railrod Company.

— E quem comprou as minas de Todman e de Lee, que foram postas no mercado, no ano passado, de igual maneira?

— A mesma companhia, irmão Morris.

— E quem adquiriu as fábricas metalúrgicas de Manson, de Shuman, de Van Deher e de Atwood, que foram cedidas ultimamente?

— Foram todas compradas pela West Gilmerton General Mining Company.

— Não percebo, irmão Morris — interpôs o presidente —, a importância que possa ter para nós quem as comprou, desde que ninguém seja capaz de transportá-las para fora desta zona.

— Com todo o respeito que lhe é devido, venerável chefe, julgo que pode importar muitíssimo. Isso vem se processando há dez longos anos. Pouco a pouco, estamos afastando do seu comércio todos os pequenos proprietários; e qual é o resultado? Encontramos em seu lugar grandes companhias como a Railroad e a General Iron, que têm diretores em Nova York ou Filadélfia, pessoas que não fazem caso algum das nossas ameaças. Podemos tornar razoáveis os seus chefes locais, mas isso significa apenas que outros serão mandados em seu lugar. E estamos tornando a situa cão perigosa para nós mesmos. Os pequenos não nos podiam fazer mal; não tinham nem o dinheiro nem a força para isso. Uma vez que não os sugássemos demasiado, continuariam sob o nosso domínio. Mas se essas grandes companhias se capacitarem de que nos interpomos entre eles e os seus lucros não pouparão trabalho nem despesa para nos descobrirem e nos levarem à barra do tribunal.

A estas palavras pouco tranqüilizadoras, seguiu-se um silêncio. Todos os rostos se obscureceram, enquanto olhares apreensivos eram trocados entre os presentes. Tão onipotentes e impunes tinham sido até então, que não lhes podia passar pela cabeça a idéia de serem sujeitos a um possível fracasso. E, todavia, aquele quadro de um futuro cheio de ameaças trouxe um arrepio de medo até mesmo aos mais
intrépidos.

— Sou de opinião — prosseguiu o orador — que não se trate com tanto rigor os pequenos proprietários. No dia em que todos eles forem banidos, o poder da nossa sociedade estará destruído.

A verdade crua nunca é bem recebida. No momento em que o orador voltava a se sentar, ergueram-se de toda a sala gritos coléricos de protesto. McGinty levantou-se com a fisionomia alterada.

— Irmão Morris — disse —, você sempre foi uma ave agourenta. Enquanto os membros da loja se mantiverem unidos, não haverá força neste país que possa atingi-los. Não temos, por acaso, demonstrado isso muitas vezes nos tribunais? Espero que as grandes companhias verifiquem que é mais fácil pagar do que entrar em luta conosco, como fazem as pequenas. E agora, irmãos — continuou McGinty, tirando o barrete de veludo negro e a estola —, a loja terminou os seus trabalhos desta noite, com exceção de um pequeno assunto, do qual falaremos quando nos separarmos. Chegou o momento de bebermos alguma coisa pela nossa fraternal amizade e de tocarmos um pouco de música.

A natureza humana é verdadeiramente estranha. Encontravam-se ali homens para os quais o delito era familiar, que em repetidas ocasiões tinham assassinado chefes de família, pessoas contra as quais não nutriam o menor rancor pessoal, sem a mais leve sombra de remorso ou de compaixão pela viúva e pêlos filhos desamparados, e, no entanto, a doçura e o patético da música era capaz de comovê-los até as lágrimas. McMurdo possuía uma linda voz de tenor, e, se não tivesse angariado a estima da loja, ninguém a teria negado depois de experimentar o prazer de ouvi-lo cantar I’m sitting on the stile, Mary e On the banks of Allan Water. A partir daquela primeira noite, o novo recruta tornara-se popularíssimo entre os seus confrades e já era apontando para acesso a alto cargo. Havia, porém, outras qualidades necessárias, além de boa camaradagem, para que ele pudesse se tornar digno do título de Homem Livre, e dessas lhe foi dado exemplo antes de a noite terminar. A garrafa de uísque já tinha dado volta à mesa muitas vezes, e os homens estavam com os rostos afogueados e prontos para todas as iniqüidades, quando o grão-mestre se ergueu novamente.

— Rapazes — principiou —, existe certa pessoa nesta cidade que necessita de uma boa lição, e cabe a vocês tomar providências a fim de que a receba. Refiro-me a James Stanger, do Herald. Já viram como ele começou de novo a abrir a boca contra nós?

Um murmúrio de assentimento percorreu a sala, entrecortado por mais de uma praga sufocada. McGinty tirou do bolso do colete um recorte de jornal.

— Eis como ele começa o artigo; “Justiça e ordem. Reino do terror na zona do carvão e do ferro. Doze anos já são decorridos desde os primeiros assassinatos, que vieram provar que existe uma associação de criminosos entre nós. A partir dessa ocasião, jamais cessaram as transgressões à lei, que chegaram agora ao cúmulo de nos converter no opróbrio do mundo civilizado. É para alcançar tais resul- tados que a nossa grande nação acolhe no seu seio os estrangeiros fugidos dos despotismos da Europa? É para que eles próprios se transformem em tiranos das mesmas pessoas que lhes deram abrigo e instaurem um estado de terrorismo e ilegalidade justamente à sombra das sagradas dobras da bandeira estrelada da liberdade, situação que nos causaria horror, se soubéssemos que existia nas mais corruptas monarquias do Oriente? Os homens são conhecidos. A organização é pública e notória. Até quando iremos suportar tal estado de coisas? Podemos viver constantemente…” Mas, creio que já li bastante desta imundície — vociferou o presidente, atirando o papel para cima da mesa. — Isto é o que diz de nós. E eu lhes pergunto: Que iremos nós lhe dizer?

— Acabemos com ele! — gritaram em coro uma dezena de vozes furibundas.

— Protesto contra essa decisão — disse o irmão Morris, o homem de feições suaves e rosto escanhoado, — Eu lhes afirmo, irmãos, que a nossa mão está se tornando muito pesada neste vale e que chegará o momento em que, como defesa própria, todos se reunirão para nos esmagar. James Stanger é idoso e respeitado tanto na cidade como em toda a zona. Seu jornal é o defensor de todas as boas causas no vale. Se esse homem for morto, haverá tal agitação neste Estado, que só terminará com a nossa destruição.

— E que farão para nos destruir, sr. Obstáculo? — berrou McGinty. — Com o auxílio da polícia? Como, porém, se metade dela está a nosso soldo e a outra metade tem medo de nós? Ou com a ajuda dos tribunais e dos juízes? Já experimentamos isso, e que perigo nos ameaçou?

— O juiz Lynch talvez venha a julgar o caso — objetou o irmão Morris.

Um coro de protestos indignados acolheu essa sugestão.

— Bastará que eu levante um dedo — urrou McGinty — e poderei colocar nesta cidade duzentos homens, que a varreriam de ponta a ponta.

Depois, erguendo subitamente a voz e arqueando as vastas sobrancelhas negras numa terrível carranca, acrescentou :

— Ouça, irmão Morris, há muito que estou de olho em você. Você não tem coragem e procura tirar a dos outros. Será um mau dia para você, irmão Morris, aquele em que o seu nome figurar na ordem do dia, e creio ser justamente ali que eu devia colocá-lo.

Morris fizera-se extremamente pálido, e seus joelhos pareceram ceder ao seu peso, quando ele caiu sentado na cadeira. Levantou o copo com a mão trêmula e bebeu antes de poder responder.

— Peço-lhe desculpa, venerável chefe, bem como a todos os irmãos desta loja, se disse mais do que devia. Sou um membro leal… todos sabem disso, e é unicamente o temor do mal que possa atingir a loja o motivo das minhas palavras de apreensão. Entretanto, deposito mais fé no seu julgamento que no meu, venerável chefe, e prometo não ofender novamente o sentimento dos meus irmãos.

O rosto carregado do grão-mestre desanuviou-se ao ouvir essa prova de submissão.

— Muito bem, irmão Morris. Lamentaria muito se tivesse necessidade de lhe dar uma lição. Mas, enquanto me sentar nesta cadeira, seremos uma loja unida em palavra e cm ação. E agora, rapazes — continuou, percorrendo os circunstantes com o olhar —, direi apenas isto: se Stanger receber o castigo merecido, correremos perigo maior do que que gostaríamos. Esses jornalistas formam uma classe unida, e todos os jornais dos Estados Unidos começariam a invocar a proteção da polícia e do exército; creio, não obstante, que poderemos fazer-lhe uma advertência bastante severa. Pode se encarregar disso, irmão Baldwin?

— Perfeitamente! — respondeu com presteza o jovem.

— De quantos homens vai precisar?

— De meia dúzia, e mais dois para ficarem de guarda à porta. Venha você, Gower, e você, Mansel, e você, Scanlan, e os dois Willaby.

— Prometi ao novo irmão que ele iria — observou o presidente.

Ted Baldwin fixou McMurdo com olhos que demonstravam claramente que ainda não lhe perdoara ou esquecera.

— Pois bem! Pode vir, se quiser — resmungou, de maus modos. — Por ora, basta. Quanto mais cedo nos pusermos a trabalhar, melhor,

A reunião dissolveu-se entre gritos e berros e trechos de canções avinhadas. O bar ainda estava repleto de noctívagos, e muitos dos irmãos se deixaram ficar ali. Os que tinham sido escolhidos para a empresa saíram para a rua, andando pela calçada, em grupos de dois ou três, a fim de não chamar atenção. A noite estava gélida e a meia-lua cintilava luminosa num céu límpido, cravejado de estrelas.Os homens estacaram e reuniram-se num pátio, defronte de um alto edifício. Entre as janelas, profusamente iluminadas, lia-se a inscrição “Vermissa Herald”, em caracteres dourados. Do seu interior, provinha o ruído da máquina impressora.

— Eh! Você — disse Baldwin a McMurdo —, pode se colocar junto à porta e avisar-nos se a rua está desimpedida. Arthur Wiliaby ficará com você. Os outros me acompanharão. Não tenham medo, rapazes, pois temos doze testemunhas para provar que neste momento nos encontramos no bar do sindicato.

Era quase meia-noite e a rua estava deserta, salvo por um ou dois retardatários a caminho de casa. O grupo atravessou a rua e, empurrando a porta da redação do jornal, Baldwin e seus homens irromperam no seu interior e subiram rapidamente a escada. McMurdo e o outro permaneceram embaixo. Da sala do pavimento superior ouviu-se um berro, um brado de socorro, e depois o estrépito de pés e o ruído de cadeiras caídas. Um instante depois, um homem de cabelos grisalhos correu até o patamar da escada, mas foi apanhado antes de poder ir mais além, e seus óculos caíram, tilintando, aos pés de McMurdo. Seguiu-se um golpe seco e um gemido. O homem caíra de bruços, e meia dúzia de bastões desceram-lhe simultaneamente sobre as costas. Ele se contorcia, e seus membros, longos e esguios, estremeciam sob os golpes. Os outros cessaram, finalmente, mas Baldwin, com um sorriso infernal no rosto cruel, continuava golpear a cabeça do desgraçado, que tentava em vão defendê-la com os braços. Seus cabelos brancos estavam empapados de sangue. Baldwin inclinava-se ainda sobre a sua vítima, procurando acertar mais uma pancada sempre que se lhe apresentava uma parte indefesa, quando McMurdo se precipitou pela escada acima e o afastou com um empurrão.

— Você vai acabar matando-o — disse. — Pare com isso!

Baldwin fitou-o, estarrecido.

— Maldito! — exclamou. — Quem é você para se intrometer… você, que é novo na loja? Afaste-se!

Levantou o bastão, mas, com um gesto rápido, McMurdo tinha tirado o revólver do bolso.

— Afaste-se você! — gritou. — Estouro-lhe os miolos, se ousar tocar-me. E, quanto à loja, a ordem do grão-mestre foi de não matar este homem. E o que está você fazendo senão tentar liquidá-lo?

— É verdade o que ele diz — observou um dos homens.

— Por Deus, andem depressa! — gritou o que estava de guarda na rua. — As janelas estão todas se iluminando e, em menos de cinco minutos, a cidade inteira estará atrás de vocês.

Realmente, havia na rua barulho de gritos, e um pequeno grupo de tipógrafos e impressores já se formava no vestíbulo, preparando-se para entrar em ação. Abandonando o corpo exausto e inerte do redator no alto da escada, os criminosos desceram precipitadamente e puseram-se em fuga ao longo da rua. Próximo da sede do sindicato, alguns deles se misturaram com o grande número de pessoas que se encontravam no bar de McGinty e segredaram aos ouvidos do chefe, através do balcão, que a empresa tinha sido levada a cabo com inteiro êxito. Outros, e entre estes McMurdo, embrenharam-se por vielas laterais, alcançando assim, por meio de caminhos escusos, as suas próprias casas.

Primeira Parte
A Tregédia de Birlstone

Capítulo 1 – O aviso § Capítulo 2 – Sherlock Holmes discorre
Capítulo 3 – A Tragédia de Birlstone § Capítulo 4 – Trevas
Capítulo 5 – As personagens do drama § Capítulo 6 – Um réstia de luz
Capítulo 7 – A solução

Segunda Parte
Os Vingadores

Capítulo 1 – O homem § Capítulo 2 – O grão-mestre
Capítulo 3 – Loja 341, Vermissa § Capítulo 4 – O vale do terror
Capítulo 5 – A hora mais negra § Capítulo 6 – Perigo
Capítulo 7 – Birdy Edwards na ratoeira

Epílogo

Ilustrações: Frank Wiles, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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