O vale do terror – Segunda parte, Capítulo 5

Arthur Conan DoyleO vale do terror

Segunda parte: Os vingadores

Título original: The Valley of Fear
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1914-15.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Valley of Fear publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VI,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo quinto: A hora mais negra

Se alguma coisa fosse necessária para aumentar a popularidade de Jack McMurdo entre os seus companheiros, bastaria o fato de ele ter sido preso e absolvido. Era realmente caso inédito, nos anais da sociedade, que um homem, precisamente na noite da sua filiação à loja, tivesse feito algo que o levasse à presença do magistrado. Já granjeara a reputação de bom camarada, alegre e galhofeiro, e, ao mesmo tempo, de pessoa de temperamento irascível, que não aceitava insultos, nem mesmo do onipotente chefe. Mas, além de tudo, ele impressionara os colegas com a idéia de que não existia entre eles ninguém cujo cérebro estivesse tão pronto para arquitetar um plano sanguinário ou cuja mão fosse mais capaz de pô-lo em execução. “É o tipo talhado para um servicinho limpo”, diziam os mais velhos, esperando a oportunidade de fazê-lo entrar em ação. McGinty já possuía muitos instrumentos à sua disposição, no entanto reconhecia que aquele era de extraordinário valor. Sentia-se como quem mantivesse um feroz mastim pela corrente. Possuía cachorros que se encarregavam dos trabalhos menores, mas chegaria o dia em que lançaria essa fera à sua presa. Um pequeno número de membros da loja, entre eles Ted Baldwin, melindravam-se com a ascensão rápida do estranho e odiavam-no por isso. Não obstante, evitavam-no, pois McMurdo estava sempre tão pronto para rir como para brigar.

Contudo, se por um lado ele caíra nas graças dos companheiros, por outro, numa esfera que se lhe tinha tornado mais vital, perdera terreno. O pai de Ettie já não queria saber dele, nem lhe permitia a entrada em casa. A própria Ettie estava enamorada demais para abandoná-lo, e no entanto o bom senso fazia-a imaginar o que seria casar-se com um homem reputado como assassino. Certa manhã, após uma noite de insônia, decidiu procurá-lo, talvez pela última vez, e fazer uma suprema tentativa de arrancá-lo das maléficas influências que o estavam conduzindo para o abismo. Dirigiu-se à casa dele, fazendo assim o que ele tantas vezes lhe tinha suplicado, e penetrou no pequeno compartimento que lhe servia de sala de visita. McMurdo estava sentado a uma mesa, com as costas voltadas para a entrada e uma carta diante de si. Súbito capricho infantil a dominou — apesar de tudo, tinha apenas dezenove anos. Ele não a ouvira abrir a porta. Ettie avançou na ponta dos pés e pousou-lhe a mão de leve no ombro curvado.

Se julgava surpreendê-lo, certamente o conseguiu, mas unicamente para ficar, também por seu turno, estupefata. Com um salto felino, McMurdo virou-se e, com a mão direita, agarrou-a pela garganta; no mesmo instante, com a outra mão, amarrotou o papel que estava na sua frente. Por momentos, ele encarou-a com ar ameaçador; de súbito, porém, espanto e satisfação substituíram a ferocidade que lhe alterava o semblante — ferocidade que a fizera recuar espavorida, como se fugisse de algo jamais vislumbrado por seu espírito meigo e juvenil.

— Oh! É você… — exclamou McMurdo, enxugando a fronte umedecida. — E pensar que veio aqui, meu amor, e eu não encontrei nada melhor para fazer do que procurar estrangulá-la! Venha cá, querida — disse, estendendo-lhe os braços. — Deixe-me pedir-lhe perdão.

Ettie, no entanto, ainda não se refizera daquela inesperada visão de medo culpado que lhe havia lido no rosto. Todo o seu instinto feminino lhe afirmava que aquilo não era mero susto de alguém colhido de surpresa. Senso de culpa — eis o que era —, de culpa e de pavor.

— Que lhe aconteceu, Jack? — gritou. — Por que se assustou tanto comigo? Oh! Jack, se a sua consciência estivesse em paz, você não teria me olhado daquela maneira.

— Mas é claro, estava pensando em outras coisas, e quando você veio de leve com esses seus pezinhos de fada…

— Não, não; não foi somente isso, Jack — insistiu ela, sentindo-se invadir repentinamente por uma suspeita.

— Deixe-me ver essa carta que você estava escrevendo.

— Ah! Ettie, não é possível.

A suspeita da jovem transformou-se em certeza.

— Você estava escrevendo para outra mulher! — exclamou. — Eu sei! Por que outro motivo você não iria me mostrar? Era à sua mulher que escrevia! Como posso saber que não é casado… você, um estranho, que ninguém conhece?

— Não sou casado, Ettie. Juro-lhe. Você é a única mulher no mundo para mim. Juro pela cruz de Cristo!

O seu ar apaixonado era tão sincero, que a jovem não podia deixar de acreditar nele.

— E então — gritou —, por que não me mostra a carta?

— Eu lhe explico, querida. Prometi, sob juramento, não mostrá-la e, do mesmo modo como não ousaria quebrar a minha palavra para com você, não o faria com aqueles com quem me comprometi. São negócios da loja que devem manter-se em segredo, mesmo tratando-se de você. E se me assustei quando senti a sua mão pousar nas minhas costas, deve calcular que tive medo que fosse a de um policial.

A jovem compreendeu que ele lhe dizia a verdade. McMurdo tomou-a nos braços e desvaneceu-lhe, a poder de beijos, os temores e as dúvidas.

— Sente-se aqui ao meu lado. É um trono ridículo para uma rainha, todavia é o melhor que o seu pobre namorado lhe pode oferecer. Creio que ele poderá fazer mais por você num futuro próximo. Agora está novamente tranqüila, não é verdade?

— Como posso ter tranqüilidade, Jack, quando sei que você é um criminoso entre criminosos. . . quando a qualquer momento posso vir a saber que foi levado ao banco dos réus como assassino? McMurdo, o Vingador, eis como o chamou ontem um dos nossos pensionistas. Senti-me como se uma punhalada me tivesse atravessado o coração.

— Ora, palavras duras não quebram ossos.

— Mas eram verdadeiras.

— Minha querida, a coisa não é tão feia como a pintam. Somos apenas uns pobres infelizes que tentam, com os próprios meios, defender seus direitos.

Ettie lançou os braços em torno do pescoço do namorado.

— Desista disso, Jack! Pelo nosso amor… pelo amor de Deus, abandone essa gente! Foi para lhe pedir isso que vim hoje aqui. Oh! Jack, escute-me, imploro-lhe de joelhos. Ajoelhada diante de você, suplico-lhe que desista.

Ele ergueu-a e acalmou-a, estreitando-lhe a cabeça contra o peito.

— Certamente, meu amor, não sabe o que está me pedindo. Como poderei desistir, se isso significa a quebra do meu juramento e o abandono dos meus companheiros? Se soubesse a posição em que me encontro, jamais solicitaria de mim tal coisa. Além do mais, ainda que eu o quisesse, como poderia fazê-lo? Você acreditaria que a loja deixasse alguém abandoná-la, levando consigo todos os seus segredos?

— Tenho pensado nisso, Jack. Já planejei tudo. Meu pai tem algum dinheiro guardado e está cansado de viver neste lugar, onde o medo desta gente enche de sombra as nossas vidas. Está disposto a partir. Poderíamos fugir juntos para Filadélfia ou Nova York, onde estaríamos livres deles.

McMurdo riu.

— A loja tem garras compridas. Julga que não poderia estendê-las daqui até Filadélfia ou Nova York?

— Pois então iremos para o oeste, ou para a Inglaterra, ou para a Suécia, de onde veio meu pai. Para qualquer lugar, desde que abandonemos este Vale do Terror.

McMurdo recordou-se do velho irmão Morris.

— Caramba! É a segunda vez que ouço chamar assim este vale — exclamou. — Deve ser uma sombra muito tenebrosa a que se estende sobre alguns de vocês.

— Obscurece constantemente a nossa existência. Acredita que Baldwin nos tenha perdoado? Se não fosse o fato de ele o temer, quem sabe lá o que nos teria acontecido? Se visse com que olhar cúpido e rancoroso ele me fita, quando nos encontramos!

— Por Deus! Se o surpreendo, ensino-o a se comportar. Mas, escute, minha menina. Não posso sair daqui. Não posso. Saiba de uma vez para sempre. Contudo, se me deixar agir a meu modo, procurarei arranjar uma saída honrosa para esta situação.

— Em certos assuntos não se pode falar de honra.

— Ora, tudo depende da maneira de encará-la. Mas, se você me conceder seis meses de prazo, procederei de modo que possa sair daqui sem me envergonhar de olhar para os outros de frente.

A jovem riu de contentamento.

— Seis meses! — gritou. — Promete?

— Bom, também podem ser sete ou oito; todavia, dentro de um ano, no máximo, sairemos daqui.

Foi tudo quanto Ettie pôde conseguir; entretanto, já era alguma coisa. Tinha agora esse distante fio de luz para lhe iluminar as trevas do futuro imediato. Regressou à casa paterna com o coração mais leve, como nunca estivera desde que McMurdo entrara na sua vida.

Ele calculava que, como membro, todos os movimentos da sociedade seriam do seu conhecimento, porém logo verificou que a organização era muito mais vasta e complexa do que a simples loja. Até o chefe McGinty ignorava muitas ‘coisas, pois havia uma espécie de delegado territorial, que vivia em Hobson’s Patch, muito além da via férrea, que tinha autoridade sobre diversas lojas e as manejava de modo violento e arbitrário. McMurdo vira-o apenas uma vez; era um homenzinho sorrateiro, de cabelos grisalhos, andar cauteloso e um olhar de esguelha, repleto de maldade. Chama-va-se Evans Pott, e até o poderoso chefe de Vermissa experimentava, em relação a ele, algo da repulsa e do medo que o gigantesco Danton devia ter sentido diante do débil mas perigoso Robespierre.

Certo dia, Scanlan, o companheiro de pensão de McMurdo, recebeu um recado de McGinty que continha um bilhete de Evans Pott, no qual este informava ter enviado dois homens capazes, Lawler e Andrews, com instruções para agir nas vizinhanças, ainda que no caso fosse melhor não revelar nenhum pormenor quanto ao seu objetivo. Poderia o grão-mestre providenciar-lhes alojamento e todas as comodidades até chegar o momento da ação? McGinty acrescentava que não era possível a ninguém permanecer em segredo na sede do sindicato, e por essa razão ficaria muito grato se McMurdo e Scanlan alojassem por alguns dias, na sua pensão, os dois forasteiros.

Na mesma noite, apresentaram-se os dois homens, trazendo cada um a sua mochila. Lawler era idoso, astuto e reservado, vestido com uma velha sobrecasaca preta, que, juntamente com o chapéu de feltro mole e a barba hirsuta e grisalha, dava-lhe o aspecto de pregador itinerante. Seu companheiro, Andrews, pouco mais do que um garoto, tinha a fisionomia franca e alegre e a aparência despreocupada de quem se encontra fora de casa a passeio e pretende gozá-lo integralmente. Ambos eram abstêmios e comportavam-se, em todos os pormenores, como membros exemplares da sociedade, com a única exceção de serem assassinos e terem provado ser instrumentos muito eficazes da sociedade criminosa de que faziam parte. Lawler já tinha executado catorze incumbências no gênero, e Andrews, três.

Como McMurdo logo verificou, eles estavam sempre prontos para falar a respeito das suas façanhas anteriores, que narravam com o orgulho mesclado de modéstia de quem cumpriu um serviço proveitoso e desinteressado para o bem comum. Eram, no entanto, reticentes no que se referia à missão que iam executar.

— Escolheram-nos porque nem eu nem o rapaz aqui bebemos — explicou Lawler.. — Sabem muito bem que podem contar com o nosso silêncio. Não levem a mal, mas obedecemos às ordens do delegado territorial.

— Está certo, mas estamos todos no mesmo barco — observou Scanlan, o companheiro de McMurdo, quando os quatro se encontravam reunidos para cear.

— Lá isso é verdade, e podemos narrar, até vocês ficarem cansados, como matamos Charlie Williams, ou Simon Bird, ou qualquer outra empresa do passado. Entretanto, até que nos tenhamos desobrigado da nossa missão, nada poderemos dizer.

— Há meia dúzia por aqui com quem eu desejaria ter uma conversinha — disse McMurdo, acompanhando as suas palavras com uma praga. — Não será por acaso Jack Knox, de Ironhill, que procuram? Eu seria capaz de fazer uma boa caminhada só pelo prazer de vê-lo receber o que merece.

— Não; ainda não chegou a vez dele.

— Nem Herman Strauss?

— Não; nem esse,

— Bem, se não querem dizer, não podemos obrigá-los, mas teria prazer em saber.

Lawler sorriu e abanou a cabeça. Não era possível induzi-lo a falar.

A despeito dai reticência dos hóspedes, Scanlan e McMurdo estavam muito dispostos a assistir ao que eles chamavam a “brincadeira”. Por conseguinte, quando em certa madrugada McMurdo os ouviu descer cautelosamente as escadas, acordou Scanlan, e ambos se vestiram apressadamente. Depois de prontos, verificaram que os outros já tinham saído, deixando a porta aberta. Ainda não rompera a aurora e, à luz dos lampiões, puderam ver os dois homens, a alguma distância, ao longo da rua. Puseram-se a segui-los com toda a precaução, caminhando silenciosamente na neve espessa.

A pensão estava situada quase no limite da cidade, e em breve eles se encontraram numa encruzilhada para além dos seus confins. Estavam ali três homens à espera, com os quais Lawler e Andrews trocaram palavras breves e animadas, após o que, continuaram todos juntos. Tratava-se evidentemente de serviço relevante, no qual o número de homens era essencial. Nesse ponto existem diversos atalhos que conduzem a várias minas. Os forasteiros tomaram o que levava a Crow Hill, organização vastíssima, dirigida com mão de ferro, e onde, graças ao espírito audacioso e empreendedor de Josiah H. Dunn, oriundo da Nova Inglaterra, houvera uma certa ordem e disciplina durante o longo reinado do terror.

O dia já começara a despontar, e inúmeros trabalhadores caminhavam lentamente, isolados ou em grupos, pela vereda escura.

McMurdo e Scanlan juntaram-se aos outros, sem perder de vista os homens que seguiam. Uma névoa cerrada os envolvia, e do meio dela elevou-se de improviso o silvo agudo de um apito de máquina a vapor. Era o sinal de dez minutos, dado antes que as gaiolas descessem e tivesse início o trabalho cotidiano.

Ao atingir o espaço aberto em torno do poço da mina, depararam com uma centena de mineiros à espera, batendo os pés e soprando as mãos, pois o frio era intenso. Os estranhos agruparam-se à sombra da casa das máquinas. Scanlan e McMurdo treparam num monte de escória, de onde se dominava toda a cena. Viram o maquinista da mina, um escocês enorme e barbudo, de nome Menzies, sair da casa das máquinas e fazer soar o apito a fim de que as gaiolas fossem baixadas. No mesmo instante, um rapaz alto e desempenado, de cara rapada e ar impetuoso, avançou com presteza para a beira do poço. No caminho, seus olhos pousaram no grupo, silencioso e imóvel, junto à casa das máquinas. Os homens tinham descido as abas dos chapéus sobre os olhos e erguido a gola dos casacos, de modo que não se lhes via o rosto. Por momentos, um pressentimento de morte gelou o coração do administrador; imediatamente, porém, ele se refez e não pensou noutra coisa senão no cumprimento do dever diante de intrusos desconhecidos.

— Quem são vocês? — perguntou, dando um passo em frente. — Que fazem aí. parados?

Não se ouviu uma palavra, mas o rapazola Andrews avançou rápido e deu-lhe um tiro no estômago. Os cem mineiros que ali se encontravam, à espera de ordens, ficaram imóveis e desorientados, como se estivessem pregados ao solo. O administrador levou ambas as mãos ao ferimento e curvou-se sobre si mesmo. Tentou em seguida afastar-se, cambaleando, mas outro assassino o alvejou, e ele caiu de lado, contorcendo-se, sobre um amontoado de resíduos de carvão. Diante dessa cena, Menzies, o escocês, lançou um rugido de cólera e atirou-se contra os assaltantes, brandindo uma barra de ferro; foi, porém, recebido com duas balas no rosto, que o prostraram sem vida. Entre os mineiros houve um movimento como se uma onda os tivesse apanhado e transportado na sua crista, e do meio deles ergueu-se inarticulado grito de piedade e indignação; dois dos estranhos, entretanto, descarregaram os seus revólveres por sobre as cabeças da multidão, que se rompeu e dispersou, correndo alguns desesperadamente para as suas casas, em Vermissa. Quando uns poucos, dentre os mais corajosos, se reuniram e voltaram à mina, o bando homicida já tinha desaparecido na bruma da manhã, sem que uma única testemunha fosse capaz de jurar com segurança sobre a identidade dos homens que, diante de uma centena de espectadores, tinham perpetrado o duplo crime.

Scanlan e McMurdo retomaram o caminho de volta; Scanlan ia algo abatido, pois era o primeiro trabalho criminoso que presenciava com os próprios olhos e não lhe parecera nada divertido. Os gritos desesperados da mulher do administrador morto perseguiam-nos, enquanto regressavam apressadamente à cidade. McMurdo estava absorto e mudo, mas não demonstrou nenhuma simpatia para com a fraqueza do companheiro.

— É como uma guerra — repetia ele. — Que é isso senão uma guerra entre nós e eles? Respondemos aos golpes deles como podemos.

Naquela noite, na sala da loja da sede do sindicato, houve grande festa, não somente pelo duplo assassinato do administrador e do maquinista da mina de Crow Hill, assassinato esse que iria reduzir essa organização à mesma situação de extorsão e terror em que viviam as outras companhias da zona, mas também por um triunfo obtido pela própria loja num lugar distante. Pelo que parecia, quando o delegado territorial enviara cinco homens para vibrar um golpe em Vermissa tinha pedido que, em retribuição, três irmãos de Vermissa fossem escolhidos secretamente e mandados com a missão de matar William Hales, de Stake Royal, um dos melhores e mais conhecidos proprietários de minas da zona de Gilmerton, homem que, acreditava-se, não possuía um só inimigo no mundo, pois era, sob todos os aspectos, um modelo. Exigia, contudo, plena eficiência no trabalho e tinha despedido um certo número de empregados beberrões e ociosos, que faziam parte da onipotente sociedade. Avisos fúnebres afixados na sua porta não o demoveram da decisão tomada, e foi assim que, num país livre e civilizado, ele se viu condenado à morte.

A execução agora tinha sido devidamente levada a termo. A Ted Baldwin, que se encostava comodamente no posto de honra, ao lado do chefe supremo, coubera a chefia da expedição. Seu rosto avermelhado e seus olhos vítreos, injetados de sangue, revelavam as longas horas de insônia e bebedeira. Ele e seus dois companheiros tinham passado a noite anterior entre as montanhas. Estavam com os cabelos revoltos e com a roupa suja pela intempérie. Todavia, um herói que regressasse vitorioso de um serviço sem esperança não poderia ter tido acolhimento mais entusiástico por parte dos seus camaradas. A história foi contada e recontada entre gritos de júbilo e gargalhadas altissonantes; Tinham esperado que o seu homem voltasse a casa ao cair da noite, postados no topo de uma colina alcantilada, por onde o seu cavalo deveria ser obrigado a andar a passo. Ele estava tão encapotado para evitar o frio que nem ao menos pôde fazer uso do revólver. Desmontaram-no do animal e dispararam as armas repetidamente.

Nenhum deles conhecia a vítima; há em matar, porém, eterna emoção, e eles tinham mostrado aos Vingadores de Gilmerton que os de Vermissa não lhes ficavam atrás. Houve, no entanto, um contratempo, pois aconteceu que passou por ali um homem acompanhado por sua mulher, enquanto eles ainda descarregavam os revólveres no corpo imóvel. Alguém sugerira que fossem massacrados também, mas, como se tratava de gente inofensiva, que não tinha ligação com as minas, foi-lhes recomendado severamente que seguissem adiante e guardassem silêncio, se não quisessem que lhes sucedesse coisa pior. E, desse modo, aquele corpo, coberto de sangue, foi abandonado no local, como advertência a todos os patrões sem piedade, e os três nobres vingadores apressaram-se a regressar às montanhas, onde a natureza impassível atinge o próprio limite das fornalhas e dos montes de detritos.

Tinha sido um grande dia para os Vingadores. A sombra estendera-se, ainda mais escura, sobre o vale. Mas assim como o general astuto escolhe na vitória o momento azado liara redobrar os seus esforços, de maneira que o inimigo não tenha tempo para se refazer após o desastre, o chefe McGinty, observando o teatro das próprias operações com seus olhos opacos e malignos, tinha cogitado novo ataque contra os seus oponentes. Naquela mesma noite, enquanto a companhia semi-embriagada se dispersava, pegou McMurdo pelo braço e levou-o até a sala dos fundos, onde tinham tido a primeira conversa.

— Ouça, meu rapaz — disse-lhe —, tenho enfim um serviço digno de você. Será executado exclusivamente por você.

— Sinto-me muito honrado com isso… — retrucou McMurdo.

— Pode levar em sua companhia dois homens: Manders e Reilly. Já foram avisados e estão à sua disposição. Jamais teremos sossego nesta zona enquanto não liquidarmos Chester Wilcox, e você terá a gratidão de todas as lojas dos distritos carboníferos, se o conseguir.

— Farei todo o possível. Quem é ele e onde poderei encontrá-lo?

McGinty tirou do canto da boca o infalível charuto, meio mastigado, meio fumado, e começou a traçar um diagrama tosco numa página arrancada de seu caderno de anotações.

— Ele é o primeiro capataz da Iron Dyke Company. Osso duro de roer, velho sargento porta-bandeira na guerra, todo cicatrizes e cabelo grisalho. Já fizemos duas tentativas contra ele, sem resultado; numa delas, Jim Carnaway perdeu a vida. Agora chegou a sua vez de levar a bom termo a empresa. É esta a casa, completamente isolada, na encruzilhada de Iron Dyke, exatamente como a vê aqui no mapa, sem nenhuma outra ao alcance de tiro. Não se arrisque a ir de dia, pois ele anda armado e dispara rápido e seguro, sem fazer perguntas. Mas de noite… bem, de noite ele fica apenas com a mulher, três filhos e uma criada. Não tem que escolher; ou acaba com todos ou com ninguém. Se pudesse colocar um saco de explosivos na porta de entrada com uma mecha lenta…

— Que fez esse homem?

— Não lhe disse que matou Jim Carnaway?

— E por que o matou?

— E que diabo lhe interessa saber? Carnaway estava uma noite perto de sua casa, e ele o alvejou. Isso é suficiente para mim e para você. É preciso pôr a coisa nos eixos.

— E as duas mulheres e as crianças? Terão de morrer também?

— Naturalmente, caso contrário, como fará você para apanhá-lo?

— Calma, conselheiro, calma. Por acaso já disse ou fiz alguma coisa que pudesse levá-lo a pensar que eu pretenda subtrair-me às ordens do grão-mestre da minha loja? Se está certo ou errado, cabe ao senhor decidir.

— Aceita, então?

— Claro que aceito.

— E quando pensa fazê-lo?

— Bem, acho melhor conceder-me uma ou duas noites para ver a casa e estabelecer meu plano de ação. Depois…

— Muito bem! — interrompeu McGinty, apertando-lhe a mão. — Deixo tudo a seu cargo. Será um grande dia aquele em que trouxer a notícia. É o último golpe, que os porá de joelhos diante de nós.

McMurdo refletiu longa e profundamente sobre a missão que lhe tinha sido tão inesperadamente confiada. A casa isolada em que morava Chester Wilcox encontrava-se a cerca de oito quilômetros de distância, num vale adjacente. Naquela mesma noite, ele partiu sozinho para preparar o ataque. Já era madrugada quando voltou da viagem de reconhecimento. No dia seguinte, teve um encontro com os seus dois subordinados, Manders e Reilly, dois rapazolas que se mostravam tão satisfeitos como se se tratasse de uma caçada aos veados. Duas noites depois, reuniram-se os três fora da cidade, todos armados, um deles com um saco de explosivo usado nas minas. Chegaram à casa solitária às duas horas da madrugada. Um vento forte e nuvens esparsas passavam velozmente pelo clarão da lua em quarto crescente. Tinham sido avisados para se porem em guarda contra os mastins; por esse motivo avançavam cautelosamente, com os revólveres engatilhados na mão. Não se ouvia porém o menor ruído, exceto o ulular do vento, e nenhum movimento senão o dos ramos das árvores acima de suas cabeças. McMurdo pôs-se à escuta junto à porta da casa, mas dentro tudo era silêncio. Encostou nela, então, o saco de pó explosivo, abriu-lhe um buraco com a faca e ateou-lhe a mecha. Quando já estava bem acesa, ele e seus dois companheiros saíram correndo e já se encontravam a certa distância, sãos e salvos num fosso protetor, quando o estrondo ensurdecedor da explosão, seguido do fragor prolongado e profundo do desmoronar da casa, fê-lo saber que a obra estava completa. Nos anais sanguinolentos da sociedade jamais constara a execução de tarefa tão brilhante. Todavia, esse trabalho tão bem organizado e tão audazmente concebido fora todo em vão! Advertido pelo destino de várias vítimas e sabendo que estava marcado para morrer, Chester Wilcox mudara-se com a família, exatamente na véspera, para uma habitação mais segura e menos conhecida, onde um corpo de policiais fora posto de guarda. Apenas uma casa vazia havia sido despedaçada pela explosão, e o severo sargento porta-bandeira da guerra continuava a impor disciplina aos mineiros de Iron Dyke.

— Deixem-no comigo — disse McMurdo. — O homem é meu e hei de apanhá-lo, nem que tenha de esperar um ano.

Uma moção de agradecimento e confiança foi aprovada unanimemente pela loja e assim, de momento, o assunto teve o seu fim. Quando, poucas semanas mais tarde, foi anunciado pêlos jornais que Wilcox fora morto numa emboscada, não foi segredo para ninguém que McMurdo voltara à carga para terminar o trabalho inacabado.

Tais eram os métodos da Sociedade dos Homens Livres, e essas eram as façanhas dos Vingadores, com as quais estenderam a lei do terror sobre a vasta e rica zona, que por tão longo período viveu sobressaltada com a sua terrível presença. Mas para que macular estas páginas com outros delitos? Já não terei dito o suficiente para dar a conhecer os homens e seus sistemas? Esses fatos estão descritos na história, e há registros onde se podem ler os pormenores. Lá é possível verificar como foram assassinados os policiais Hunt e Evans, que se aventuraram a prender dois membros da sociedade — duplo homicídio concebido na loja de Vermissa e executado a sangue-frio contra dois homens desarmados. Lá se pode saber ainda do assassinato da sra. Larbey, enquanto cuidava do marido, que tinha sido espancado quase até a morte por ordem do chefe McGinty. O homicídio do mais velho dos Jenkins, seguido em breve pelo de seu irmão, a mutilação de James Murdoch, o extermínio da família Staphouse numa explosão e a matança dos Stendals, eliminados um a um, metodicamente, no mesmo inverno sangrento. O manto de sombra descia tenebroso sobre o Vale do Terror. A primavera surgira com o murmurar de regatos e o desabrochar das flores. Toda a natureza, tanto tempo cativa em grilhões de ferro, falava de esperança; entretanto, não existia, em parte alguma, esperança para os homens e mulheres que viviam sob o jugo do terror. Jamais fora tão escura e desesperadora a nuvem que pairava sobre as suas cabeças no início do verão de 1875.

Primeira Parte
A Tregédia de Birlstone

Capítulo 1 – O aviso § Capítulo 2 – Sherlock Holmes discorre
Capítulo 3 – A Tragédia de Birlstone § Capítulo 4 – Trevas
Capítulo 5 – As personagens do drama § Capítulo 6 – Um réstia de luz
Capítulo 7 – A solução

Segunda Parte
Os Vingadores

Capítulo 1 – O homem § Capítulo 2 – O grão-mestre
Capítulo 3 – Loja 341, Vermissa § Capítulo 4 – O vale do terror
Capítulo 5 – A hora mais negra § Capítulo 6 – Perigo
Capítulo 7 – Birdy Edwards na ratoeira

Epílogo

Ilustrações: Frank Wiles, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock