O vale do terror – Segunda parte, Capítulo 7

Arthur Conan DoyleO vale do terror

Segunda parte: Os vingadores

Título original: The Valley of Fear
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1914-15.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Valley of Fear publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VI,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo sétimo: Birdy Edwards na ratoeira

Como dissera McMurdo, a casa em que morava era muito retirada e bastante conveniente para o crime que ele e seus companheiros haviam arquitetado. Situava-se no limite extremo da cidade e bastante longe da estrada. Em qualquer outro caso, os conspiradores teriam se limitado a atrair o homem para fora de casa, como em tantas outras vezes, e a descarregar-lhe os revólveres no corpo; naquelas condições, porém, era necessário saber até que ponto ele estava informado, como obtivera as informações e o que tinha transmitido aos seus chefes. Podia ser, também, que eles estivessem agindo tarde demais, que o trabalho estivesse feito; nesse caso, pelo menos, teriam oportunidade de se vingar do homem que o havia realizado. Não obstante, nutriam esperanças de que nada de grande importância tivesse chegado ao conhecimento do policial, pois, de outro modo, argumentavam, ele não se teria dado ao trabalho de anotar e remeter as informações comuns que McMurdo afirmava ter-lhe fornecido. Desde que ele se encontrasse nas suas mãos, descobririam meio de fazê-lo falar. Não seria a primeira vez que se encontrariam diante de uma testemunha relutante.

McMurdo partiu para Hobson’s Patch, como combinara. Naquela manhã, o policial parecia dedicar-lhe particular atenção, e o capitão Marvin — aquele que afirmava conhecê-lo de Ioga data, de Chicago — chegou mesmo a dirigir-lhe a palavra na estação. McMurdo voltou-lhe as costas e recusou-se a responder-lhe. Regressou de sua missão e procurou McGinty na sede do sindicato.

— Ele vem — disse.

— Ótimo! — exclamou McGinty.

O gigante estava em mangas de camisa; correntes e berloques cintilavam de lado a lado do seu amplo colete, e um brilhante luzia por entre a barba hirsuta. O álcool e o crime tinham feito dele um homem tão rico quanto poderoso. Tanto mais terrível, portanto, se lhe afigurava aquela visão súbita da prisão ou da forca, diante da qual se encontrara na noite anterior.

— Acha que ele sabe muita coisa? — perguntou ansiosamente.

McMurdo sacudiu a cabeça com ar desolado.

— Já está aqui há algum tempo… seis semanas no mínimo. Não acredito que tivesse vindo a estas bandas para admirar a paisagem. Se ele tem estado trabalhando entre nós todo esse tempo, amparado pelo dinheiro das ferrovias, é de se temer que tenha obtido bons resultados e que os tenha passado adiante.

— Não existe nenhum traidor na loja — protestou McGinty. — Todos os nossos homens são leais. Mas, por Deus! Esqueci-me do velhaco do Morris. Que pensa dele? Se alguém tivesse de nos trair, seria por certo ele. Estou disposto a mandar dois rapazes, antes do anoitecer, darem-lhe uma boa surra e verem se podem obter alguma coisa dele.

— Bem, não vejo nenhum inconveniente nisso — respondeu McMurdo. — Não nego que tenho certa simpatia por Morris, e não me agradaria saber que lhe tivesse acontecido algum mal. Discuti com ele uma ou duas vezes os assuntos da loja e, apesar de ele ter um modo de ver diferente do meu ou do seu, não creio que seja dos que dão com a língua nos dentes. Não obstante, não quero me interpor entre ele e o senhor.

— Deixe que eu dou um jeito naquele imbecil — disse McGinty com uma praga. — Há um ano que ando de olho nele.

— O senhor conhece melhor do que eu essas coisas — retrucou McMurdo. — Entretanto, qualquer, atitude que queira tomar deve ser adiada para amanhã, pois precisamos permanecer quietos até resolver o caso da Pinkerton. Não nos convém mexer com a polícia hoje.

— Tem razão — concordou McGinty. — E, depois, saberemos do próprio Birdy Edwards onde obteve as suas informações, nem que tenhamos de lhe arrancar primeiro o coração. Crê que ele tenha suspeitado de alguma cilada?

McMurdo soltou uma gargalhada.

— Julgo que lhe toquei no ponto fraco — disse. — Ele faria tudo para seguir uma boa pista dos Vingadores. Já tenho aqui o dinheiro… e terei outro tanto quando ele tiver visto todos os meus documentos.

— Que documentos?

— Não existe documento algum; mas enchi-lhe a cabeça com estatutos, livros de regulamentos e fórmulas de admissão. Espera estar ciente de tudo, antes de partir.

— Palavra? Nisso ele tem razão — observou McGinty, fazendo uma careta. — Ele não lhe perguntou por que não lhe levou os documentos?

— Como se eu pudesse andar com essas coisas, eu, um homem suspeito, justamente hoje que o capitão Marvin me dirigiu a palavra na estação!

— De fato, ouvi falar nisso — disse McGinty. — Temo que a culpa de todo este caso recaia sobre você. Podemos atirar o homem num poço abandonado depois de tê-lo matado, mas, seja como for, não evitaremos o fato de que ele morava em Hobson’s Patch e você esteve lá hoje.

McMurdo encolheu os ombros.

— Se soubermos, fazer a coisa, jamais poderão provar quem o matou — respondeu. — Ninguém poderá vê-lo entrar na casa de noite, e juro-lhe que ninguém o verá sair. Agora, ouça-me, conselheiro; vou explicar o meu plano e peço-lhe que o transmita aos outros. Vocês virão todos a tempo. Muito bem. Ele virá às dez, dará três pancadas na porta, e eu a abrirei. Depois de tê-la fechado nas suas costas, ele estará inteiramente à nossa mercê.

— Tudo isso é muito fácil e claro.

— Sim, mas o que deveremos fazer depois deve ser estudado com a máxima atenção. Ele é decidido e anda armado até os dentes. Tratei de iludi-lo do melhor modo possível, mas é provável que esteja desconfiado. Suponhamos que o faça entrar numa sala onde se encontrem sete homens, quando ele espera encontrar apenas a mim. Poderia haver tiros e alguém ficar ferido.

— Isso é verdade.

— E o barulho poderia atrair sobre nós todos os policiais da cidade.

— Acho que tem razão.

— Eu agiria assim: vocês ficam todos na sala grande… a que você viu quando veio me visitar. Então eu lhe abro a porta, faço-o entrar na saleta junto à entrada e deixo-o ali com a desculpa de ir buscar os papéis. Isso me dá a oportunidade de colocá-los a par da situação. Depois, volto à saleta com alguns documentos forjados. Enquanto ele os lê, salto em cima dele e imobilizo-o. Vocês me ouvem gritar e me acodem logo. Quanto mais depressa, melhor, pois ele é tão forte como eu, e talvez mante-lo seguro seja empresa superior às minhas forças. Espero, porém, ser capaz de segurá-lo até vocês aparecerem.

— A idéia é boa — concordou McGinty —, e a loja lhe ficará grata por isso. Quando deixar o meu cargo, creio poder indicar o nome do meu substituto.

— Ora, conselheiro, sou pouco mais do que um recruta — respondeu McMurdo; todavia, a expressão do seu rosto revelava claramente que o elogio daquele grande homem o tinha lisonjeado.

De regresso a casa, iniciou os preparativos para a sinistra noite que o aguardava. Antes de mais nada, limpou, lubrificou e carregou o revólver Smith Sc Wesson que sempre o acompanhava. Depois inspecionou a sala em que o policial ia ser apanhado. Era um vasto salão, com uma longa mesa de pinho no centro e uma enorme lareira de um dos lados. Nas outras paredes havia janelas. Elas não possuíam guarnição alguma de madeira, mas simples cortinas de fazenda leve. McMurdo examinou-as cuidadosamente. Sem dúvida, devia ter notado que a sala era excessivamente exposta para assunto tão secreto, apesar de a distância da estrada tornar tal pormenor de importância secundária. Discutiu, por fim, o assunto com o companheiro de pensão. Apesar de ser um Vingador, Scanlan era pessoa inofensiva e demasiado fraca para se erguer contra a opinião dos seus camaradas; não obstante, horrorizava-se intimamente com as façanhas sangrentas a que, às vezes, era obrigado a assistir. McMurdo expôs-lhe em poucas palavras o que estava sendo preparado.

— Se eu fosse você, Mike Scanlan, passaria a noite fora e me manteria alheio a tudo isto. Correrá muito sangue aqui antes do amanhecer.

— Nesse caso, francamente, Mac — respondeu Scanlan —, não é vontade o que me falta, mas nervos. Quando vi o fim que deram ao administrador, lá na mina, senti mais do que podia suportar. Não fui feito para isso, não tenho a mesma têmpera que você ou McGinty. Se a loja não me julgar mal, seguirei o seu conselho e os deixarei a sós esta noite.

Os homens apareceram pontualmente à hora fixada. Exteriormente apresentavam o aspecto de cidadãos respeitáveis, bem-vestidos e asseados; no entanto, um perito em fisionomias teria lido muito pouca esperança de salvação para Birdy Edwards naquelas bocas cruéis e naqueles olhos inexoráveis. Não havia um único homem na sala cujas mãos não tivessem sido manchadas de sangue pelo menos uma dúzia de vezes. Estavam tão calejados em tirar a vida de seres humanos como um açougueiro em abater uma rês. Acima de todos, naturalmente, quer na aparência quer no crime, sobressaía o formidável chefe. Harraway, o secretário, era um homem magro, implacável, de pescoço comprido e escanifrado e membros nervosos e irrequietos — pessoa de honestidade incorruptível a tudo quanto se referisse às finanças da ordem, mas cujo conceito de justiça ou de lealdade não passava daí. O tesoureiro. Cárter, era um indivíduo de meia-idade, ar impassível, algo desconfiado, e pele amarela, pergaminhada. Organizador capaz, brotavam do seu cérebro fértil os pormenores de quase todos os delitos. Os dois Wiliabys eram homens de ação, dois jovens altos, bem-humorados, de rostos decididos, ao passo que o seu companheiro, Tigre Cormac, rapaz moreno, cheio de corpo, era temido até pêlos próprios colegas pela ferocidade de ânimo. Eram esses os homens que se reuniam naquela noite, na casa de McMurdo, a fim de levar a cabo o assassinato do agente da Pinkerton.

O homem que os hospedava tinha colocado uma garrafa de uísque sobre a mesa, e todos se apressaram a servir-se, a fim de temperar os nervos para a tarefa que tinham diante de si. Baldwin e Cormac já estavam meio embriagados, e o álcool havia-lhes despertado toda a crueldade. Cormac pôs as mãos em cima da lareira por um instante — estava acesa, pois aquelas noites -de primavera ainda eram frias.

— Isto serve — disse, acompanhando as suas palavras com uma blasfêmia.

— Oh! sim — exclamou Baldwin, que apanhara no ar a intenção do outro. — Se o amarrarmos aí, arrancar-lhe-emos a verdade.

— Não se incomodem, pois de qualquer forma ele falará — observou McMurdo. Tinha nervos de aço aquele homem, pois, se bem que todo o peso e a responsabilidade da situação lhe caíssem sobre os ombros, apresentava-se frio e indiferente como sempre. Os outros notaram isso e aplaudiram.

— Você é, de fato, a pessoa talhada para lidar com ele — disse o chefe em tom de aprovação. — Ele não perceberá nada até que o agarre pelo pescoço. É pena que as suas janelas não tenham proteção de madeira.

McMurdo aproximou-se de cada uma delas e fechou melhor as cortinas.

— Sim, mas não há perigo de alguém nos observar. Estamos quase na hora.

— E se ele não vier? Se tiver suspeitado de qualquer coisa? — lembrou o secretário.

— Pode ficar tranqüilo que virá — retrucou McMurdo. — Está tão impaciente por saber, como vocês estão por vê-lo. Mas, escutem!

Todos ficaram imobilizados nas suas cadeiras, como figuras de cera, alguns com os copos a meio caminho da boca. Três golpes vigorosos ressoaram na porta.

— Silêncio!

McMurdo levantou a mão como para impor cautela. Uma onda de indizível satisfação invadiu o semblante de todos os presentes, e suas mãos apalparam as armas ocultas.

— Nem uma palavra, se têm amor à vida! — sussurrou McMurdo, ao. sair da sala, fechando a porta cuidadosamente atrás de si.

Os assassinos ficaram à espera, com os ouvidos atentos. Contaram os passos do companheiro ao longo do corredor; depois ouviram-no abrir a porta de entrada. Escutaram algumas palavras, como uma breve troca de cumprimentos. Depois ouviram o rumor de um passo estranho e o som duma voz desconhecida. Momentos depois, o bater de uma porta e o ruído da chave girando na fechadura. A presa estava segura na armadilha. Tigre Cormac soltou uma gargalhada sinistra, e o chefe McGinty, com um tremendo bofetão, tapou-lhe a boca.

— Cale-se, idiota! — sibilou. — Quer nos arruinar?

Da sala contígua veio um murmúrio de vozes que conversavam. Parecia-lhes que esse colóquio não teria mais fim, no entanto, dali a pouco, a porta abriu-se e McMurdo apareceu com um dedo sobre os lábios, fazendo sinal para que se calassem.

Dirigiu-se à extremidade da mesa e fixou-os com o olhar um após outro. Sua aparência sofrera uma leve alteração. Tinha o aspecto de quem tem diante de si grave tarefa a cumprir. Seu rosto parecia da consistência do granito. Os olhos brilhavam-lhe numa excitação violenta, por trás dos óculos. Tornara-se um verdadeiro líder de homens.

Os companheiros fitaram-no ansiosamente, mas ele não proferiu palavra. Sempre com o mesmo olhar estranho, encarou-os um a um.

— Então — gritou por fim o chefe McGinty —, ele está aí? Onde está esse Birdy Edwards?

— Sim… — respondeu McMurdo vagarosamente. — Birdy Edwards está aqui. Birdy Edwards sou eu!

Passaram-se dez segundos depois destas breves palavras, durante os quais a sala parecia estar vazia, tão profundo se fez o silêncio. O chiar de uma chaleira sobre o fogão ergueu-se agudo, estridente, lacerando os ouvidos. Sete semblantes pálidos, todos voltados para o homem que os dominava, estavam imobilizados de profundo terror. Em seguida, com súbito ruído de vidros quebrados, numerosos canos de fuzis brilharam repentinamente através de cada janela, enquanto as cortinas eram arrancadas dos seus suportes. À vista disso, o chefe McGinty deixou escapar um rugido de urso ferido e lançou-se em direção da porta entreaberta; teve, porém, de parar diante de um revólver apontado para a sua cabeça, atrás do qual brilhavam os inflexíveis olhos azuis do capitão Marvin, da Polícia do Carvão e do Ferro. O chefe recuou e deixou-se cair pesadamente numa cadeira.

— É melhor ficar onde está, conselheiro — disse o homem que eles tinham conhecido como McMurdo. — E você, Baldwin, se não tirar a mão da coronha dessa pistola, ainda irá enganar o carrasco. Ponha-a em cima da mesa, ou pela vida que Deus me deu… Isso! Assim está bem. Há quarenta homens armados cercando a casa, e vocês mesmos podem calcular a sorte que os espera. Tire-lhes as armas, Marvin!

Não era possível opor resistência sob a ameaça de todos aqueles fuzis. Foram desarmados. Carrancudos, assustados e completamente aturdidos, permaneciam ainda sentados em torno da mesa.

— Gostaria de lhes dizer uma palavra antes de nos separarmos — disse aquele que os tinha tão astuciosamente logrado. — Creio que iremos nos rever somente quando eu aparecer no tribunal, no banco das testemunhas de acusação. Vou lhes dizer alguma coisa sobre a qual possam refletir durante esse tempo. Eu sou Birdy Edwards, da organização Pinkerton. Fui escolhido para dissolver o bando de vocês. Minha cartada era difícil e perigosa. Ninguém, nenhum ser vivo, nem mesmo as pessoas que me eram mais caras tinham conhecimento da minha missão, exceto o capitão Marvin e os meus superiores. Mas, enfim, tudo acabou esta noite, graças a Deus, e eu saí vencedor!

Os sete rostos pálidos e rígidos o fitaram. Transparecia-lhe no olhar o ódio implacável, e ele percebeu a ameaça inexorável.

— Vocês talvez julguem que a partida ainda não esteja terminada. Pois bem! Aceito o risco. De qualquer forma, alguns de vocês já não tomarão parte nela, e há mais sessenta, além dos presentes, que irão para a cadeia esta noite. Posso afirmar-lhes uma coisa: quando assumi este encargo, jamais poderia crer na existência de uma sociedade como a de vocês. Pensei tratar-se apenas de notícias de jornal e estava certo de que comprovaria a minha opinião. Disseram-me que tinha relação com os Homens Livres, por isso parti para Chicago e me tornei membro daquela loja. Nessa ocasião, fiquei plenamente convencido de que eram histórias de jornal, pois não encontrei mal algum na sociedade; pelo contrário, somente grandes benefícios. Precisava, contudo, levar avante a minha tarefa, e desse modo transferi-me para este vale carbonífero. Ao chegar aqui, verifiquei que estava errado e que a coisa, no fim de contas, não era nenhuma novela de folhetim. Por isso fiquei, a fim de investigar os fatos. Nunca matei ninguém em Chicago. Jamais fabriquei um dólar falso na minha vida. Os que eu lhes dei eram bons como quaisquer outros; entretanto, não podiam ser mais bem empregados. Sabia como me comportar para captar-lhes a simpatia, e assim, fiz com que acreditassem que a polícia estava no meu encalço. Tudo saiu como eu previ.

“Filiei-me à sua loja infernal e tomei parte nos seus conciliábulos. É possível que digam que eu era tão ruim como vocês. Podem dizer o que quiserem, o importante é tê-los apanhado. Mas preciso contar a verdade. Na noite em que fui admitido na loja, vocês espancaram o velho Stanger. Não tive tempo de avisá-lo, no entanto, no momento em que você estava para matá-lo, Baldwin, eu o impedi. Se alguma vez sugeri expedições punitivas, para poder conservar o meu lugar no meio de vocês, sempre o fiz com a certeza de que conseguiria evitá-las. Não me foi possível salvar Dunn e Menzies, porque não sabia o bastante, mas farei tudo para que os seus assassinos sejam enforcados. Avisei Chester Wilcox, de modo que, quando fiz sua casa voar pelos ares, ele e a família estavam a salvo. Muitos crimes houve que não pude impedir; todavia, se vocês procurarem lembrar-se das vezes sem conta em que a vítima voltava para casa por outro caminho ou se encontrava na cidade, quando vocês iam procurá-la, ou, ainda, permanecia dentro de casa, quando vocês supunham que ela fosse sair, farão idéia do meu trabalho.

— Miserável traidor! — sibilou McGinty com os dentes cerrados.

— Sim, Jack McGinty, pode chamar-me do que quiser, se isso lhe abranda a cólera. Você e os da sua laia têm sido inimigos de Deus e dos homens nestas paragens. Era preciso alguém que se interpusesse entre você e os infelizes que mantinha sob o seu domínio. Não havia senão um modo de o fazer, e eu o fiz. Você me chama de traidor, mas estou certo de que muitos milhares de pessoas me chamarão de salvador, que desceu ao inferno para libertá-los. Passei aqui três meses e não passaria outro tanto, nem que pusessem à minha disposição todo o tesouro de Washington. Tive de ficar até ter tudo na mão, tanto os homens como os seus meios clandestinos, e teria esperado mais tempo se não viesse a saber que o meu segredo estava prestes a ser divulgado. Chegara à cidade uma carta que lhes abriria os olhos quanto à minha identidade. Precisei, então, agir, e agi prontamente. Nada mais lhes tenho para dizer, a não ser que, quando chegar a minha hora, morrerei mais tranqüilo ao pensar no trabalho que realizei neste vale. E agora, Marvin, não o deterei por mais tempo. Recolha-os à prisão e terminemos com isto.

Pouco falta acrescentar a essa narrativa. Tinha sido dado a Scanlan um envelope fechado, para ser entregue no endereço de Ettie Shafter — missão que ele aceitou com uma piscadela de olho e um sorriso compreensivo. Nas primeiras horas da madrugada, uma linda mulher e um homem todo encapotado embarcaram num trem especial, posto à sua disposição pela companhia ferroviária, e fizeram uma rápida viagem, sem paradas, para longe da zona perigosa. Foi a última vez que Ettie e o seu namorado pisaram o Vale do Terror. Dez dias depois, casaram-se em Chicago, tendo como testemunha do enlace o velho Jacob Shafter.

O processo dos Vingadores realizou-se longe do lugar onde talvez seus adeptos tivessem podido intimidar os magistrados. Em vão eles lutaram. De nada lhes valeu o dinheiro da loja — dinheiro extorquido à custa de chantagem através de toda a região —, gasto como água na tentativa infrutífera de salvá-los. O testemunho frio, claro e desapaixonado daquele que conhecia todos os pormenores de suas vidas, da sua organização e dos seus crimes, não se abalou diante de todas as astúcias dos seus defensores. Finalmente, ao fim de tantos anos, eles estavam batidos e dispersos. A nuvem de terror desapareceu para sempre do vale. McGinty terminou os seus dias na forca, humilhando-se e implorando piedade ao ver chegada a hora. Oito dos seus principais sequazes compartilharam a mesma sorte. Outros cinqüenta foram condenados a várias penas de prisão. A obra de Birdy Edwards estava completa.

E, todavia, como ele havia previsto, o jogo ainda não estava completamente terminado. Ainda caberia a ele enfrentar uma cartada, e outra, e mais outra. Ted Baldwin, por exemplo, escapara do patíbulo, bem como Wiliaby e vários dentre os mais ferozes componentes do bando. Por dez anos permaneceram afastados do mundo, mas, quando lhes raiou o dia da liberdade, esse dia fez saber a Birdy Edwards, que conhecia muito bem os seus inimigos, o fim dos seus dias de sossego. Eles haviam jurado, sobre tudo quanto supunham ser sagrado, que vingariam, no sangue dele, a morte dos camaradas, e não pouparam esforços para manter a promessa. Edwards foi constrangido a abandonar Chicago, depois de dois atentados contra a sua vida, tão próximos do êxito que lhe deram a certeza de que no terceiro não escaparia. Partiu de Chicago, com nome falso, para a Califórnia, e foi lá que a luz da vida se extinguiu para ele durante certo tempo, com a morte de Ettie Edwards. Mais uma vez esteve a ponto de ser morto, e novamente, sob o nome de Douglas, trabalhou num canyon retirado, onde, de sociedade com um inglês de nome Barker, conseguiu fazer fortuna. Por fim, chegou-lhe o aviso de que os sabujos estavam de novo na sua pista, e ele fugiu, à última hora, para a Inglaterra. E para aqui se mudou John Douglas, que, pela segunda vez, se uniu pelo matrimônio a uma digna companheira e viveu cinco anos em Sussex, como rico proprietário — vida que terminou com os estranhos acontecimentos de que já tivemos notícia.

Primeira Parte
A Tregédia de Birlstone

Capítulo 1 – O aviso § Capítulo 2 – Sherlock Holmes discorre
Capítulo 3 – A Tragédia de Birlstone § Capítulo 4 – Trevas
Capítulo 5 – As personagens do drama § Capítulo 6 – Um réstia de luz
Capítulo 7 – A solução

Segunda Parte
Os Vingadores

Capítulo 1 – O homem § Capítulo 2 – O grão-mestre
Capítulo 3 – Loja 341, Vermissa § Capítulo 4 – O vale do terror
Capítulo 5 – A hora mais negra § Capítulo 6 – Perigo
Capítulo 7 – Birdy Edwards na ratoeira

Epílogo

Ilustrações: Frank Wiles, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock