O vale do terror – Primeira parte, Capítulo 7

Arthur Conan DoyleO vale do terror

Primeira parte: A tragédia de Birlstone

Título original: The Valley of Fear
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1914-15.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Valley of Fear publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VI,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo sétimo: A solução

Na manhã seguinte, após a refeição matinal, encontramos o inspetor MacDonald e White Mason em animada palestra, sentados na saleta do sargento da polícia local. Sobre a mesa, na sua frente, estavam empilhados inúmeros telegramas e cartas, que eles separavam e catalogavam com grande cuidado. Três já tinham sido postos de parte.

— Ainda na pista do ciclista desaparecido? — indagou Holmes cordialmente. — Quais são as últimas a respeito desse biltre?

MacDonald indicou com um gesto melancólico a volumosa correspondência.

— Neste momento, foi assinalado em Leicester, Nottingham, Southampton, Derby, East Ham, Richmond e em catorze outras localidades; em três delas, East Ham, Leicester e Liverpool, as provas contra ele são esmagadoras, e até foi preso. O país parece estar repleto de fugitivos com sobretudos amarelos.

— Santo Deus! — exclamou Holmes em tom compungido. — E agora, meus amigos, desejo dar a ambos um conselho muito sério. Quando aceitei a incumbência de investigar este caso com os dois, estipulei, como sem dúvida devem estar lembrados, que não pretendia apresentar teorias vagas, mas que elaboraria as minhas hipóteses pessoais até estar certo da sua exatidão. Por esse motivo, não pretendo dizer-lhes por ora tudo o que tenho em mente. Por outro lado, prometi realizar o meu jogo lealmente, lado a lado com vocês, e não acredito que seja honesto da minha parte deixá-los desperdiçar as energias, ainda que por um momento, numa empresa inútil. Por conseguinte, vim aqui esta manhã para aconselhá-los, e meu conselho resume-se em três palavras: abandonem este caso.

MacDonald e White Mason fixaram, atônitos, o seu famoso colega.

— O senhor considera-o perdido? — perguntou o inspetor.

— Considero perdido o seu caso. Não desespero, porém, de alcançar a verdade.

— Mas esse ciclista não é uma invenção! Temos a descrição dele, a maleta, a bicicleta. O tal sujeito deve se encontrar em algum lugar! Por que não haveremos de apanhá-lo?

— Perfeitamente; não há dúvida de que ele se encontra em alguma parte, e é certo de que haveremos de capturá-lo; não gostaria, entretanto, que despendessem suas energias em East Ham ou Liverpool. Tenho certeza de que podemos encontrar um atalho para chegar ao fim almejado.

— O senhor oculta alguma coisa. Não é muito correio de sua parte, sr. Holmes — disse o inspetor, aborrecido.

— Você conhece os meus métodos de trabalho, Mac. Não obstante, prometo calar-me pelo mais breve espaço de tempo possível. Desejo apenas verificar os meus dados de determinada maneira, o que pode ser feito muito prontamente, após o que, apresentarei os meus respeitos e regressarei a Londres, deixando minhas conclusões inteiramente ao seu dispor. Devo-lhe muito para agir de outro modo, pois, em toda a minha carreira, não me recordo de outro caso mais singular e interessante.

— Não estou entendendo mais nada, sr. Holmes. Nós o vimos ontem à noite, quando voltamos de Tunbridge Wells, e o senhor estava perfeitamente de acordo com os nossos resultados. Que sucedeu desde então, para fazê-lo mudar tão completamente de idéia?

— Pois bem; visto que me perguntam: passei ontem à noite, como lhes disse que ia fazer, algumas horas na Mansão de Birlstone.

— E que aconteceu?

— Ah! Por ora não posso lhes dar senão uma resposta muito genérica. A propósito, estive lendo uma descrição curta, mas muito clara e interessante, do velho edifício, que pode ser comprada pela modesta soma de um pêni na tabacaria local.

Com isso, Holmes tirou do bolso uma pequena brochura, em cuja capa se via um desenho tosco da antiga mansão.

— Uma investigação adquire sabor, meu caro Mac, quando nos pomos em contato espiritual com a atmosfera histórica do seu ambiente. Não assuma esse ar impaciente, pois lhe asseguro que mesmo uma descrição tão simples como esta consegue despertar no ânimo do leitor uma espécie de imagem viva do passado. Permita-me que lhe leia um trecho. “Construída no quinto ano do reinado de Jaime I e surgida dos alicerces de um edifício muito mais antigo, a Mansão de Birlstone oferece um dos mais belos exemplos que ainda restam de residência fortificada da era jacobita…”

— O senhor está brincando conosco, sr. Holmes!

— Calma, calma, Mac! É o primeiro sinal de cólera que observo em você. Pois bem, não continuarei a ler palavra por palavra, uma vez que isso tanto o aborrece. Entretanto, quando lhe disser que há um relato da tomada do lugar por um coronel, enviado pelo Parlamento em 1644, de como Carlos aí se ocultou, por diversos dias, durante a Guerra Civil, e finalmente da visita que ali fez o segundo Jorge, terá de admitir que nessa vetusta mansão se desenrolaram diversos fatos dignos de nota.

— Não duvido disso, sr. Holmes; mas esses fatos não nos interessam.

— Não? Julga? Visão ampla, meu caro Mãe, é uma das coisas essenciais na nossa profissão. O entrelaçamento de idéias e um cabedal de conhecimentos múltiplos e variados oferecem sempre extraordinário interesse. Você vai desculpar estas observações da parte de quem, sendo mero diletante do crime, é, contudo, um pouco mais velho e talvez um pouco mais experiente do que você.

— Sou o primeiro a reconhecê-lo — exclamou ardorosamente o policial. — O senhor alcança os seus objetivos, estou de acordo, mas, para isso, faz sempre um rodeio dos diabos.

— Bem, deixemos a história antiga e passemos aos fatos atuais. Como eu já disse, estive ontem à noite na mansão. Não me avistei nem com o sr. Barker nem com a sra. Douglas. Pareceu-me inútil incomodá-los, mas tive o prazer de saber que esta última não se apresentava pesarosa e que, pelo contrário, tinha jantado com excelente apetite. Minha visita era particularmente destinada ao bom Ames, com o qual troquei algumas amabilidades, que culminaram com o seu consentimento à minha idéia de permanecer durante certo tempo no gabinete sem que ninguém soubesse.

— Como! Com aquele… — exclamei.

— Não, não; já se encontra tudo em ordem. Você consentiu na remoção do cadáver, Mac; pelo menos, foi o que me disseram. A sala voltara ao seu estado normal, e nela passei um instrutivo quarto de hora.

— Que esteve fazendo lá?

— Sem querer fazer mistério de uma coisa tão simples, limitei-me a procurar o haltere desaparecido. .. particularidade que sempre teve para mim grande importância na estimativa do caso, e acabei por encontrá-lo.

— Onde?

— Ah! Aqui chegamos ao limite do inexplorado. Permitam-me que prossiga um pouco, apenas um pouquinho mais, e prometo compartilhar com os senhores tudo o que sei.

— Pois bem! Somos obrigados a aceitar as suas condições — disse o inspetor. — Quando, porém, chega ao ponto de nos aconselhar a abandonar o caso… com mil diabos! Por que devemos abandoná-lo?

— Pela simples razão, meu caro Mac, de que não faz a mínima idéia daquilo que está investigando.

— Estamos investigando o assassinato do sr. John Douglas, da Mansão de Birlstone!

— Sim; não resta a menor dúvida. Mas não percam tempo tentando descobrir o misterioso homem da bicicleta. Garanto que isso não lhes adiantará nada.

— E que sugere que façamos, então?

— Eu lhes direi exatamente o que devem fazer, desde que prometam me obedecer.

— Bem, devo convir que, malgrado as suas maneiras estranhas, sempre verifiquei que o senhor habitualmente tem razão. Farei como me aconselha.

— E você, White Mason?

O policial do interior olhou para um e outro com ar perplexo. Holmes e os seus métodos eram novos para ele.

— Ora, se o inspetor está de acordo, eu também estou — resmungou por fim.

— Ótimo! — exclamou Holmes. — E, agora, recomendo-lhes um aprazível passeio pelo campo. Disseram-me que o panorama que se descortina do alto de Birlstone, sobre o Weald, é magnífico. Naturalmente, podem almoçar em qualquer estalagem campestre, posto que a minha ignorância da região me impede de lhes indicar uma em especial. E, à noite, cansados mas satisfeitos…

— Mas, meu amigo, isso já começa a deixar de ser sério! — bradou MacDonald, levantando-se da cadeira, encolerizado.

— Pois muito bem! Passem o dia como lhes aprouver — disse Holmes jovialmente, batendo-lhe com a mão no ombro. — Façam o que quiserem e vão aonde lhes apetecer; contudo, estejam de volta, sem falta, antes do anoitecer… sem falta, Mac.

— Isso me parece mais razoável.

— Pretendia apenas dar-lhes um ótimo conselho, todavia não insisto, contanto que se encontrem aqui, quando eu necessitar de vocês. Antes, porém, de nos separarmos, desejaria que escrevessem um bilhete ao sr. Barker.

— Sim?

— Eu o dito, se quiserem. Estão prontos? “Caro senhor: Julgamos ser nosso dever esvaziar o fosso, na esperança de podermos encontrar…”

— É inútil — protestou o inspetor; — já fiz as minhas pesquisas a esse respeito.

— Calma, calma, meu caro amigo! Escreva o que estou dizendo, por favor.

— Bem, prossiga.

— “… na esperança de podermos encontrar algo que facilite as nossas investigações. Já determinei tudo, e os operários estarão trabalhando amanhã cedo, a fim de desviar o curso do regato…”

— Impossível!

— “. . .a fim de desviar o curso do regato, razão por que resolvi avisá-lo de antemão.” E, agora, assinem e mandem entregá-lo em mãos por volta das quatro horas. A essa hora nós nos encontraremos novamente nesta sala. Até então cada um de nós pode fazer o que bem entender, pois asseguro-lhes que esta investigação chegou definitivamente ao fim.

A noite começava a cair lentamente, quando voltamos a encontrar-nos. Holmes apresentava-se de aspecto grave, eu, cheio de curiosidade e os policiais, visivelmente céticos e agastados.

— Pois bem, senhores — começou o meu amigo em tom solene —, peço-lhes agora que me ponham inteiramente à prova e julguem por si mesmos se as observações . por mim feitas justificam as conclusões a que cheguei. A noite parece que vai ser muito fria, e não sei quanto tempo durará a nossa expedição; acho melhor vocês vestirem os sobretudos mais pesados. É de capital importância que estejamos a postos antes da noite fechada; por isso, se o permitem, vamos nos pôr a caminho imediatamente.

Passamos ao longo dos confins extensos do parque da mansão até atingirmos um ponto onde existia uma abertura na cerca que o rodeava. Enfiamo-nos por essa passagem e, ao lusco-fusco, acompanhamos Holmes até alcançar uma touceira de arbustos que se estendia quase em frente da porta principal e da ponte levadiça. Esta última ainda não tinha sido levantada. Holmes agachou-se atrás dos arbustos, e nós três seguimos-lhe o exemplo.

— E que vamos fazer agora? — perguntou MacDonald, de maneira algo ríspida.

— Munamo-nos de paciência e procuremos fazer o menor barulho possível — foi a resposta de Holmes.

— Mas por que estamos aqui? Francamente, acho que o senhor podia nos tratar com mais franqueza.

Holmes riu.

— Watson insiste em afirmar que sou o dramaturgo da vida real — disse. — Certa inclinação artística vibra dentro de mim e obstina-se em exigir uma representação bem encenada. A nossa profissão, caro Mãe, seria verdadeiramente descolorida e sórdida se, às vezes, não dispuséssemos a cena com o intuito de exaltar os nossos resultados. A acusação grosseira, a pancada brutal nas costas… que se pode pensar disso? No entanto, a ilação rápida, a cilada sutil, a previsão inteligente de acontecimentos futuros, a prova triunfante de teorias arrojadas, não constituem quiçá, todos esses elementos, o orgulho e a justificação da nossa vida de trabalho? Neste momento, você palpita com a emoção e a ansiedade do caçador. Onde estaria essa emoção se eu tivesse sido preciso como um horário de estrada de ferro? Peço-lhe apenas um pouco de paciência, Mãe, e dentro em pouco tudo lhe parecerá claríssimo.

— Bem, espero que o orgulho e a justificação e tudo o mais cheguem antes de nós quatro morrermos de frio — resmungou, com cômica resignação, o policial londrino.

Tínhamos todos boas razões para aderir ao seu desejo, pois nossa vigília foi longa e amarga. A pouco e pouco as trevas adensaram-se sobre a fachada extensa e sombria da velha casa. Uma evaporação fria e úmida, proveniente do fosso, enregelou-nos até os ossos e fez-nos bater os dentes. Brilhava apenas uma lâmpada sobre a entrada, e um globo de luz firme clareava o gabinete fatal. Tudo o mais era escuridão e silêncio.

— Quanto tempo durará esta história? — indagou subitamente o inspetor. — E que diabo esperamos nós?

— Sei tanto como você o tempo que isto irá levar — replicou Holmes com certa aspereza. — Se os criminosos participassem a hora dos seus movimentos como fazem as ferrovias com o horário dos trens, seria certamente mais conveniente para todos nós. Quanto ao que nós… eis o que nós esperávamos.

Enquanto assim falava, a brilhante luz amarela do gabinete foi obscurecida por alguém que lhe passou pela frente. A moita de arbustos em que nos encontrávamos ocultos achava-se exatamente defronte da janela e a não mais de cem metros de distância dela. Logo em seguida, ela foi aberta de par em par, com um rangido de dobradiças, e pudemos entrever a silhueta escura da cabeça e ombros de um homem, debruçado no peitoril, olhando a escuridão reinante ali fora. Por alguns minutos, pôs-se a perscrutar as trevas, em atitude furtiva e cautelosa, como se quisesse certificar-se de que não estava sendo observado. Depois, debruçou-se ainda mais para a frente, e, no profundo silêncio da noite, percebemos um leve rumor de água agitada. Ele parecia estar remexendo o fosso com alguma coisa que tinha na mão. Repentinamente, puxou algo de dentro, como um pescador retira da água um peixe que lhe vem fisgado ao anzol — um objeto grande e redondo, que encobriu a luz ao passar pela janela aberta.

— Agora! — gritou Holmes. — Agora!

Pusemo-nos de pé, cambaleando atrás dele, com os membros anquilosados, enquanto o nosso amigo, com um dos seus arrebatamentos de energia nervosa, que podiam torná-lo, num momento, o homem mais ativo e mais forte que já vi, atirou-se velozmente através da ponte e começou a tocar furiosamente a campainha. Ouviu-se, do lado de dentro, o ranger de ferrolhos que se abrem, e, logo em seguida, surgiu no limiar a figura estupefata de Ames. Holmes afastou-o para um lado, sem dizer palavra, e precipitou-se para a sala ocupada pelo homem que estivéramos espreitando.

O clarão por nós observado do exterior vinha de um lampião a óleo colocado sobre a mesa. Esse lampião encontrava-se agora nas mãos de Cecil Barker, que o mantinha dirigido para nós, quando entramos. A luz refletia-se no seu rosto forte, resoluto e perfeitamente barbeado e nos seus olhos ameaçadores.

— Que demônio significa tudo isto? — berrou. — E que procuram os senhores?

Holmes olhou rapidamente em torno de si e atirou-se imediatamente sobre um embrulho encharcado de água, atado com uma corda e que tinha sido arremessado para baixo da escrivaninha.

— Aqui está o que procuramos, sr. Barker. Este embrulho, que contém um haltere, que o senhor acaba de retirar do fundo do fosso.

Barker fixou Holmes com ar de intensa estupefação.

— Mas, com mil diabos, como teve conhecimento dele? — perguntou.

— Simplesmente porque fui eu que o pus lá.

— O senhor o pôs lá?! O senhor?!

— Talvez devesse ter dito “o repus lá” — acrescentou Holmes. — Você deve lembrar-se, inspetor MacDonald, de que a ausência de um haltere havia me impressionado particularmente. Chamei-lhe a atenção para essa falta, mas a iminência de outros acontecimentos não lhe permitiram dar a este fato a consideração que lhe facultaria tirar dele deduções deveras interessantes. Quando existe água muito próximo e desaparece um objeto pesado, não é muito arriscada a suposição de que algo foi lançado nessa água. De qualquer maneira, valia a pena provar tal hipótese, e assim, com a ajuda de Ames, que consentiu na minha entrada na sala, e do cabo recurvo do guarda-chuva do dr. Watson, foi-me possível, ontem à noite, pescar e examinar esse pacote. Todavia, era da máxima importância que nós conseguíssemos demonstrar quem o havia posto ali. Recorremos então ao simples estratagema de anunciar que o fosso ia ser esvaziado amanhã cedo, e em conseqüência disso quem quer que tivesse escondido o embrulho com certeza tentaria retirá-lo quando a escuridão da noite o permitisse. Não menos de quatro testemunhas viram quem se aproveitou da oportunidade, e por isso, sr. Barker, julgo que lhe cabe dizer alguma coisa.

Sherlock Holmes colocou sobre a mesa, ao lado do lampião, o embrulho ensopado de água e desatou o nó da corda que o amarrava. De dentro dele extraiu um haltere, que atirou para o canto onde o outro se encontrava. Retirou a seguir um par de sapatos.

— Americanos, como vêem — observou, indicando as pontas.

Depois, colocou sobre a mesa uma faca embainhada, longa e mortífera. Finalmente, tirou para fora um embrulho de roupas, que compreendia um jogo completo de roupa branca, um par de meias, um terno esporte cinzento e um sobretudo curto, amarelo.

— A roupa é vulgar, com exceção do sobretudo, que é rico em indícios sugestivos — comentou Holmes, aproximando-o delicadamente da luz, enquanto seus dedos finos e compridos o afagavam. — Aqui, como podem notar, está o bolso interno, prolongado através do forro, de modo a dar espaço amplo para a espingarda de cano serrado. O rótulo do alfaiate está na gola: “Neale. Roupas para homens, Vermissa. EUA”. Passei uma tarde instrutiva na biblioteca do pároco e aumentei os meus conhecimentos com a verificação do fato de que Vermissa é uma cidadezinha florescente, na embocadura de um dos vales mais conhecidos da região mineira de carvão e de ferro dos Estados Unidos. Recordo-me vagamente, sr. Barker, de que o senhor associou as zonas carboníferas com a personalidade da primeira esposa de Douglas, e não me parece muito arriscado supor que as letras V.V. no cartão encontrado ao lado do cadáver possam significar vale Vermissa, e que esse vale, que expede emissários de crimes, seja o tal Vale do Terror do qual ouvimos falar. Até aqui as coisas estão bastante claras. E agora, sr. Barker, não quero impedi-lo de nos oferecer a sua explicação.

Valia a pena observar o rosto expressivo de Cecil Barker durante esta exposição do grande detetive. Cólera, estupor, consternação e incerteza dominaram-lhe, a seu turno, o semblante. Finalmente, refugiou-se numa acre ironia.

— O senhor sabe tanto, sr. Holmes, que talvez fosse melhor contar-nos mais alguma coisa — disse em tom de mofa.

— Eu poderia, sem dúvida, contar ainda muitas coisas, sr. Barker, contudo, acredito que elas terão muito mais graça se forem relatadas pelo senhor.

— Oh! Acredita! Pois bem, tudo o que posso lhe dizer é que, se existe aqui algum segredo, não é meu, e não sou homem para revelá-lo.

— Se toma essa atitude — interveio o inspetor calmamente —, devemos considerá-lo à nossa disposição até obtermos ordem de prisão contra o senhor.

— Podem fazer o que diabo entenderem — replicou Barker em tom de desafio.

A situação parecia ter-se cristalizado definitivamente no tocante àquele homem, pois bastava observar-lhe a fisionomia granítica para compreender que nenhuma peine forte et dure poderia demovê-lo do seu intento. O ponto morto foi superado, entretanto, por uma voz feminina. A sra. Douglas estivera à escuta, junto à porta semiaberta, e acabava de entrar na sala.

— Você já fez demasiado por nós, Cecil — disse. — Aconteça o que acontecer no futuro, já fez muito.

— A senhora tem toda a razão — observou gravemente Sherlock Holmes. — Compreendo perfeitamente os seus sentimentos e peço lhe instantemente para depositar confiança na sensatez das nossas leis e se colocar inteiramente nas mãos da polícia. É possível que eu mesmo tenha certa culpa por não ter acolhido a oferta que me fez, por intermédio de meu amigo Watson. Naquele momento, porém, tinha razão de sobra para pensar que a senhora estivesse diretamente envolvida no crime. Agora estou convencido do contrário. Ao mesmo tempo, ainda há muita coisa sem explicação, e por isso rogo-lhe que peça ao sr. Douglas que nos exponha a sua versão dos fatos.

Diante das palavras de Holmes, a sra. Douglas soltou um grito de espanto, ao qual devemos ter feito eco, eu e os policiais, quando percebemos repentinamente a presença de um homem que parecia ter surgido da parede e que se adiantava da penumbra do canto de que emergira. A sra. Douglas voltou-se, e, num instante, seus braços o enlaçaram. Barker apertava a mão que o homem lhe estendera.

— É melhor assim, Jack — repetia a esposa, — Tenho certeza de que é melhor.

— Também eu estou certo, sr. Douglas — acrescentou Holmes —, de que esta é a melhor solução.

O homem ficou piscando alguns momentos na nossa direção, com o olhar turvo de quem sai repentinamente das trevas para a luz. Tinha um rosto notável: olhos cinzentos cheios de audácia, bigode forte, curto e grisalho, queixo quadrado e saliente, e boca jocosa. Mirou-nos a todos demoradamente, e depois, para meu grande pasmo, avançou para mim e entregou-me um rolo de papéis.

— Ouvi falar do senhor — disse-me numa voz que não era de todo inglesa nem de todo americana, mas que, no conjunto, era branda e agradável. — O senhor é o historiador deste grupo. Pois bem, dr. Watson, esta é a primeira vez que uma narrativa do gênero passa pelas suas mãos; serei capaz de apostar nisso o meu último dólar. Os fatos são esses; conte-os a seu modo e verá que não deixarão de agradar aos seus leitores. Estive encarcerado durante quarenta e oito horas, e empreguei as horas do dia… se é que se pode falar em horas do dia naquela ratoeira, para pôr a coisa em palavras. O senhor vai gostar da narrativa… o senhor e o seu público. Essa é a história do Vale do Terror.

— Mas isso são coisas passadas, sr. Douglas — observou Sherlock Holmes com voz calma. — O que desejamos saber agora é a sua história atual.

— Estou às suas ordens — respondeu Douglas. — Posso fumar enquanto falo? Oh! Obrigado, sr. Holmes; o senhor também é fumante, se bem me recordo, e pode imaginar o que significa passar dois dias com tabaco no bolso sem fumar, com medo de ser denunciado pelo cheiro do fumo.

Apoiou-se no consolo da lareira e aspirou avidamente o charuto que Holmes lhe havia dado.

— Tinha ouvido falar da sua pessoa, Holmes, todavia jamais poderia supor que o encontraria um dia. Mas, quando tiver acabado de ler isso — continuou, acenando para os papéis em meu poder —, reconhecerá que eu lhe dei algo de inédito.

Durante todo esse tempo, o inspetor MacDonald estivera com os olhos fixos no recém-chegado, presa do maior assombro.

— Caramba! Já não entendo nada! — gritou por fim.

— Se o senhor é John Douglas, da Mansão de Birlstone, de quem estamos então, há dois dias, investigando o assassinato, com todos os diabos, de onde surgiu o senhor? Tenho a impressão de que irrompeu do soalho como um boneco de uma caixa de surpresas.

— Ah! Meu caro Mac — interpôs Holmes, sacudindo o dedo indicador, em ar de reprovação —, você não quis ler aquele ótimo guia local, que continha a descrição do esconderijo do rei Carlos. Naquele tempo, as pessoas não se ocultavam senão em refúgios seguros, e um esconderijo usado no passado pode ser também utilizado no presente. Estava convencido de que haveríamos de descobrir o sr. Douglas debaixo deste teto.

— E há quanto tempo está se divertindo à nossa custa, sr. Holmes? — explodiu o inspetor, furibundo. — Desde quando permite que percamos o nosso precioso tempo numa pesquisa que, de antemão, sabia ser absurda?

— Não lhe fiz perder um minuto sequer, caro Mac. Apenas ontem à noite pude verificar a exatidão das minhas teorias, e, como elas não podiam ser postas à prova senão hoje à noite, convidei-o e ao seu colega a tirarem folga durante o dia todo. Ora, pergunto-lhe, que mais poderia fazer? Quando encontrei as roupas no fosso, compreendi imediatamente que o corpo por nós encontrado não podia de forma nenhuma ser o do sr. John Douglas, mas o do ciclista de Tunbridge Wells. Não havia outra conclusão possível. Tinha, portanto, de descobrir o lugar onde se encontrava o sr. Douglas, e, pelo cálculo das probabilidades, pareceu-me que, com a conivência da esposa e do amigo, ele devia estar oculto numa casa que oferecesse tal comodidade a um fugitivo que, em ocasião propícia, pudesse pôr-se a salvo definitivamente.

— Sua teoria é quase perfeita — disse Douglas com um gesto aprovativo. — Eu tinha pensado em evitar as leis inglesas, pois não estava seguro da minha posição perante elas, mas, principalmente, vi neste estratagema a possibilidade de me livrar definitivamente daqueles malditos sabujos. Vejam bem, nada fiz, do princípio ao fim, de que pudesse envergonhar-me e que não estivesse pronto a fazer de novo; no entanto, os senhores julgarão por si próprios, quando lhes tiver narrado a minha odisséia. Não é preciso lembrar-me, inspetor; estou pronto a prestar as minhas declarações sob juramento. Não vou começar pelo princípio. Esse está todo ali — disse, indicando o rolo dos papéis —, e os senhores verão que enredo fantástico! Resume-se em poucas palavras: existem alguns homens com boas razões para me odiarem e que dariam o último dólar para estarem certos de que deram cabo de mim. Enquanto eu e eles estivermos vivos, não haverá neste mundo descanso para mim. Perseguiram-me desde Chicago até a Califórnia; depois compeliram-me a abandonar a América; contudo, quando me casei e vim residir neste lugar sossegado, julguei que meus últimos anos iam decorrer em paz. Nunca expliquei à minha mulher como as coisas eram realmente. Por que havia de metê-la nessa história? Ela jamais teria um momento tranqüilo, pois estaria sempre imaginando desgraças. Naturalmente, ela devia ter adivinhado qualquer coisa, pois é muito possível que, inadvertidamente, eu tivesse deixado escapar uma ou outra palavra; no entanto, até ontem, depois que os senhores a viram, ela ainda ignorava a verdadeira situação. Contou-lhes tudo o que sabia, e o mesmo aconteceu com Barker, pois na noite da tragédia pouco tempo restou para explicações. Agora, porém, ela está ao corrente de tudo, e talvez tivesse sido mais sensato da minha parte se lhe tivesse contado antes. Era, no entanto, uma questão delicada, minha querida — observou, tomando por um instante a mão da esposa entre as suas —, e agi com a melhor das intenções.

“Pois bem, senhores, no dia anterior ao dos acontecimentos, encontrava-me em Tunbridge Wells, quando, de relance, notei na rua a figura de um homem. Foi apenas uma visão fugaz, mas tenho olho rápido para essas coisas e não duvidei, nem por um momento, de quem se tratava. Era o pior inimigo que eu possuía entre toda aquela gente, o que tem andado no meu encalço todos estes anos, como um lobo esfaimado atrás de uma rena. Compreendi a iminência do perigo, por isso voltei para casa e preparei-me para enfrentá-lo. Decidi lutar até o fim sozinho. Houve uma época em que a minha boa estrela era comentada em todos os Estados Unidos, e não hesitei em acreditar que ela me valeria ainda desta vez.

“Pus-me de sobreaviso durante todo o dia seguinte e nem por um momento saí para o parque. Foi uma sorte, pois ele teria me liquidado com aquela espingarda, antes que eu tivesse tempo de sacar minha arma. Quando a ponte foi erguida, senti-me mais tranqüilo, esqueci todas as minhas preocupações. Jamais imaginei que ele pudesse se introduzir em minha casa e nela preparar-me uma emboscada. Entretanto, ao fazer, já de roupão, minha habitual ronda noturna, mal pus os pés no gabinete, pressenti o sinal de perigo. Creio que, quando um homem leva uma vida de aventuras… e tive-as como poucos… desenvolve uma espécie de sexto sentido que o avisa da proximidade de qualquer risco. Percebi o sinal quase imediatamente, sem saber explicar por quê. Logo em seguida, vislumbrei a ponta de um sapato debaixo da cortina da janela e compreendi toda a gravidade da situação.

“Não tinha senão uma vela, a que trazia nas mãos, mas o lampião do vestíbulo projetava boa luz na sala, através da porta aberta. Pousei a vela na mesa e corri para apanhar um martelo que deixara sobre o consolo da lareira. Simultaneamente, o homem atirou-se a mim. Vi o luzir de um punhal e golpeei-o com o martelo. Devo tê-lo atingido, pois a arma caiu ao chão com um tinido. O homem esquivou-se para trás da mesa, veloz como uma enguia, e, um segundo depois, tinha tirado a espingarda de dentro do sobretudo. Ouvi-o armá-la e agarrei-a antes de que pudesse atirar. Mantive-a segura pelo cano, e, durante um minuto ou mais, lutamos desesperadamente. O primeiro que a soltasse estaria morto. Nem por um instante ele abandonou a presa, mas deixou a coronha virada para baixo um segundo a mais. Talvez tivesse sido eu quem puxou o gatilho. É possível, também, que ambos o tivéssemos feito. De qualquer modo, foi ele que recebeu em pleno rosto a dupla descarga, enquanto eu fiquei contemplando o que restava de Ted Baldwin. Havia-o reconhecido na cidade e novamente quando ele se atirou a mim, mas nem sua própria mãe o reconheceria no estado em que se encontrava. Estou habituado às piores coisas, e no entanto o espetáculo que se me deparava quase me transtornou o estômago.

“Estava agarrado a um canto da mesa, quando Barker desceu as escadas correndo e entrou na sala. Ouvi os passos de minha mulher, que se aproximava, e dirigi-me rapidamente à porta para impedir-lhe a entrada. Não era cena para uma mulher contemplar. Prometi ir encontrá-la pouco depois. Troquei algumas palavras com Barker; ele compreendeu tudo num simples olhar, e ficamos à espera de que os outros aparecessem. Todavia, não vimos sinal deles, o que nos fez compreender que não tinham ouvido nada e que de tudo quanto acontecera apenas nós tínhamos conhecimento.

“Foi nesse momento que me surgiu a idéia, e a sua luz por pouco não me deslumbrou. A manga do casaco do homem se arregaçara, fazendo aparecer a marca de fogo da Loja, gravada no antebraço. Olhem aqui.”

O homem que conhecíamos como Douglas levantou a manga do casaco e da camisa e mostrou-nos um triângulo castanho dentro de um círculo, exatamente igual ao que tínhamos visto no braço do morto.

— Foi esse sinal que me abriu os olhos. De súbito, tudo me pareceu claro. A estatura, os cabelos, o físico eram quase iguais aos meus. E quanto ao rosto, pobre diabo, quem poderia reconhecê-lo? Fui buscar esta roupa e, em quinze minutos, Barker e eu vestimos nele meu roupão e o deixamos como os senhores o encontraram. Fizemos um embrulho de todas as coisas, que foi amarrado ao único objeto pesado que encontramos, e o atiramos pela janela. O cartão que ele tencionava deixar junto do meu cadáver jazia junto ao seu. Pusemos os meus anéis nos seus dedos; contudo, quando chegou a vez da aliança… — e ao dizê-lo estendeu a mão musculosa — os senhores podem ver por si mesmos que eu não seria capaz de tirá-la. Não a tirei do dedo desde o dia do meu casamento, e para isso seria preciso uma lima. Não sei se teria tido coragem de me separar dela, mas, mesmo que o quisesse, não teria sido possível. Portanto, podemos esquecer esse pormenor. Fui buscar um pedaço de bandagem e coloquei-o no rosto do morto, exatamente no lugar onde agora tenho um. Com toda a sua astúcia e inteligência, sr. Holmes, deixou escapar este ponto, pois, se tivesse pensado em tirar esse pedaço de bandagem, veria que debaixo dele não havia nenhum corte. Pois bem, era essa a situação. Se pudesse me conservar oculto por algum tempo e depois me refugiar em lugar seguro, onde minha mulher pudesse ir juntar-se a mim, teríamos tido finalmente a esperança de viver em paz o resto dos nossos dias. Aqueles malditos não me dariam tréguas enquanto eu não estivesse debaixo da terra, mas, se lessem nos jornais que Baldwin tinha liquidado o seu homem, meus temores estariam acabados.

“Não tive muito tempo para explicar com minúcias todos os meus pensamentos a Barker e à minha mulher, mas eles compreenderam o bastante para me ajudar. Sabia perfeitamente da existência deste esconderijo, como de resto, Ames o sabia, mas não lhe veio à idéia ligá-lo aos acontecimentos. Escondi-me aí, e a Barker coube fazer o resto. Creio que os senhores já imaginaram o que ele fez. Abriu a janela e imprimiu a marca dos seus pés no peitoril, a fim de sugerir a idéia de que o assassino fugira por ali. Por certo, agiu muito arriscadamente, mas a ponte estava levantada, e não havia outro caminho. Depois de tudo preparado, fez soar a campainha com todas as suas forças. O que aconteceu em seguida todos já sabem… por isso, senhores, podem fazer o que quiserem; eu, porém, disse-lhes a verdade, nada mais que a verdade, e que Deus me ajude! E pergunto-lhes agora: qual é a minha situação perante as leis inglesas?”

Seguiu-se um silêncio, interrompido finalmente por Holmes.

— A legislação inglesa é, principalmente, justa. Não será tratado com maior rigor do que merece o seu caso; todavia, eu gostaria que me explicasse como fez esse homem para saber que o senhor morava aqui e, sobretudo, como agiu para entrar em sua casa e esconder-se num lugar em que pudesse atacá-lo.

— A respeito disso nada sei lhe dizer.

O rosto de Holmes estava muito pálido e grave.

— A história ainda não terminou, é o meu receio — disse. — O senhor poderá se defrontar com perigos maiores do que as leis inglesas ou os seus inimigos da América. Prevejo-lhe ameaças muito sérias, sr. Douglas. Siga o meu conselho: conserve-se sempre em guarda.

E agora, meus pacientes leitores, peço-lhes que me acompanhem por um tempo, longe da Mansão de Birlstone, no condado de Sussex, e mais longe ainda do ano da graça no qual realizamos nossa aventurosa viagem que terminou com a estranha narrativa do homem conhecido como John Douglas. Desejo que retrocedam vinte anos no tempo, viajando no espaço, na direção do ocidente, alguns milhares de quilômetros, de modo que eu lhes possa revelar uma história singular e terrível — tão singular e terrível que talvez tenham dificuldade em acreditar que realmente haja se passado como lhes vou narrar. Não pensem que inicio uma história antes de a outra ter acabado. Ao prosseguir na leitura, verão que não é assim. E quando lhes tiver pormenorizado esses acontecimentos distantes, e lhes tiver desvendado esse mistério do passado, encontrar-nos-emos uma vez mais nos aposentos da Baker Street, onde esta novela, como tantas outras aventuras maravilhosas, terá a sua conclusão.

Primeira Parte
A Tregédia de Birlstone

Capítulo 1 – O aviso § Capítulo 2 – Sherlock Holmes discorre
Capítulo 3 – A Tragédia de Birlstone § Capítulo 4 – Trevas
Capítulo 5 – As personagens do drama § Capítulo 6 – Um réstia de luz
Capítulo 7 – A solução

Segunda Parte
Os Vingadores

Capítulo 1 – O homem § Capítulo 2 – O grão-mestre
Capítulo 3 – Loja 341, Vermissa § Capítulo 4 – O vale do terror
Capítulo 5 – A hora mais negra § Capítulo 6 – Perigo
Capítulo 7 – Birdy Edwards na ratoeira

Epílogo

Ilustrações: Frank Wiles, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock