O vale do terror – Segunda parte, Capítulo 4

Arthur Conan DoyleO vale do terror

Segunda parte: Os vingadores

Título original: The Valley of Fear
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1914-15.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Valley of Fear publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VI,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo quarto: O Vale do Terror

Quando McMurdo acordou na manhã seguinte, tinha fortes motivos para se recordar da sua iniciação na loja. A cabeça lhe doía devido às excessivas libações e o braço, onde o tinham marcado, estava em carne viva e inchado. Graças às suas fontes particulares de rendimento, podia permitir-se o luxo de trabalhar quando lhe aprouvesse. Portanto, tomara a refeição matinal mais tarde e deixara-se ficar em casa, ocupado em escrever uma longa carta a um amigo. Em seguida, pôs-se a folhear o Daily Herald. Em coluna especial, incluída à última hora, leu: “Violências na redação do Herald. Redator gravemente ferido”. Era um breve relato dos fatos a respeito dos quais estava mais ao corrente do que o próprio autor do artigo. Terminava com a seguinte declaração:

“O assunto encontra-se agora nas mãos da polícia; contudo, não existem esperanças de que seus esforços sejam coroados de maior êxito do que no passado. Alguns dos assaltantes foram reconhecidos, e espera-se obter provas concretas da culpabilidade dos acusados. A causadora do ataque foi, sem a menor sombra de dúvida, a infame sociedade que há tanto tempo escraviza esta comunidade e contra a qual o Herald assumiu tão desassombrada atitude. Os inúmeros amigos do sr. Stanger ficarão, por certo, satisfeitos ao saber que, conquanto cruel e brutalmente atacado e apresentando graves ferimentos na cabeça, ele não se encontra em perigo imediato de vida”.

Embaixo vinha a comunicação de que a guarda da Polícia do Carvão e do Ferro, armada de espingardas Winchester, tinha sido requisitada para a defesa do prédio da redação.

McMurdo pusera de lado o jornal e acendia o cachimbo com a mão ainda trêmula dos excessos da noite anterior, quando bateram à porta do quarto e, em seguida, a dona da casa entrou com um bilhete que lhe acabava de ser entregue por uma criança. Não estava assinado e dizia o seguinte:

“Gostaria de lhe falar, mas preferia não o fazer em sua casa. Você me encontrará junto do pau da bandeira, em Miller Hill. Venha o mais depressa possível, pois tenho algo de importante para lhe contar”.

McMurdo leu o bilhete duas vezes, tomado da maior surpresa, pois não fazia a mais pálida idéia do seu significado nem de quem pudesse ser seu autor. Se a letra fosse feminina, poderia imaginar que se tratasse do início de mais uma das muitas aventuras galantes comuns na sua vida passada. A caligrafia, entretanto, era de homem e, além disso, de homem culto. Finalmente, após uma certa hesitação, decidiu-se a esclarecer o assunto.

Miller Hill é um parque público mal-cuidado, bem no centro da cidade. No verão é muito procurado, mas durante o inverno está sempre deserto. Do alto da colina é possível descortinar não somente o panorama da cidade, com as suas casas fuliginosas, esparsas e irregulares, mas também de todo o vale tortuoso, lá embaixo, com suas minas e fábricas espalhadas, enegrecendo a neve que o cobre de ambos os lados, bem como os montes com os cumes ora verdejantes, ora esbranquiçados, que o circundam. McMurdo subiu vagarosamente a vereda serpenteante, cercada dos dois lados por uma sebe de arbustos, até atingir o restaurante deserto, que no verão constitui o centro de todas as reuniões festivas. Junto dele ergue-se um pau de bandeira vulgar, sob o qual se encontrava um homem com o chapéu desabado sobre os olhos e a gola do sobretudo cobrindo-lhe o queixo. Quando ele se virou, McMurdo viu-se diante do irmão Morris, o mesmo que na véspera incorrera na ira do grão-mestre. Ao saudarem-se, trocaram o sinal da loja.

— Queria conversar com você, McMurdo — disse o velho falando com indecisão, o que indicava que pisava terreno delicado. — Estou-lhe grato por ter vindo.

— Por que não assinou o bilhete?

— Ninguém se perde por ser prudente, amigo. Nunca se sabe, nos tempos que correm, em quem se pode confiar.

— Penso, contudo, que entre irmãos da loja deve existir confiança recíproca.

— Não, não! Nem sempre — exclamou Morris com veemência. — Tudo o que dizemos, e mesmo pensamos, parece ir parar nos ouvidos de McGinty.

— Ouça — disse McMurdo com ar severo —, ainda ontem à noite, como sabe, jurei fidelidade ao nosso grão-mestre. Você vai me pedir agora que quebre o juramento?

— Se leva a coisa por esse lado — disse Morris tristemente —, só me resta lamentar o incômodo de ter vindo encontrar-se comigo. A situação é realmente muito má, se dois cidadãos livres não podem trocar idéias francamente.

McMurdo, que estivera observando o seu interlocutor com toda a atenção, abrandou um pouco o rigor da sua atitude.

— É claro, falava unicamente por mim — explicou. — Sou novato aqui, como sabe, e completamente estranho a esta situação. Não serei eu que darei com a língua nos dentes, Morris, e se julga oportuno comunicar-me alguma coisa, aqui estou para ouvi-lo.

— E para ir contar tudo a McGinty — observou Morris acremente.

— Neste ponto o senhor está sendo verdadeiramente injusto comigo — protestou McMurdo. — Pessoalmente, sou fiel à loja, e digo-o sem meias-palavras; no entanto, seria um miserável se fosse repetir a outro o que você me disser. Seu segredo permanecerá comigo, mesmo que eu o advirta de que talvez não venha a obter a minha ajuda ou simpatia.

— Há muito renunciei à possibilidade de ser auxiliado ou compreendido — replicou Morris. — É quase certo que vou colocar, com o que vou dizer, a minha própria vida nas suas mãos, todavia, por mais perverso que você possa ser… e pareceu-me ontem à noite que estava empenhado em tornar-se tão mau como os piores, ainda é novo nesta coisa, e sua consciência, por ora, não se tornou tão insensível como a dos outros. Foi por isso que julguei poder falar-lhe.

— Pois bem, que tem a dizer?

— Se me atraiçoar, que Deus o amaldiçoe!

— Já lhe disse que não o faria.

— Queria perguntar-lhe, então, se, quando se filiou à Sociedade dos Homens Livres de Chicago e fez votos de caridade e lealdade, lhe passou pela cabeça a idéia de que ela um dia pudesse conduzi-lo ao crime?

— Se acha que isso é crime! — foi a resposta de McMurdo.

— Se acho que isso é crime! — exclamou Morris, com voz vibrante de cólera. — Você ainda viu muito pouco para poder falar desse modo! É ou não é crime o que foi cometido ontem à noite, quando um homem suficientemente idoso para ser seu pai foi espancado até o sangue lhe empapar os cabelos brancos? Que nome você dá a isso?

— Alguns diriam que é guerra — respondeu McMurdo. — Luta extrema de duas classes, procurando cada uma atacar da maneira que lhe é possível.

— E você pensou em tal coisa ao tornar-se membro da Sociedade dos Homens Livres, em Chicago?

— Não, confesso que ignorava isso totalmente.

— Da mesma forma que eu, quando me filiei em Filadélfia. Era apenas uma sociedade beneficente, um ponto de reunião de amigos. Ouvi, mais tarde, falar deste lugar… maldita a hora em que o seu nome me chegou aos ouvi-dos! … e vim para cá, tentar melhorar de vida. Deus meu, melhorar de vida! Mulher e três filhos me acompanharam. Instalei-me na Market Square com um negócio de mercearia e prosperei bastante. Descobriram que eu era Homem Livre e fui forçado a associar-me à loja local, exatamente como você o fez ontem à noite. Trago no braço o sinal infamante e algo de pior gravado no coração. Verifiquei que estava sob as ordens de um miserável patife, e preso numa rede inextricável de crimes. Que podia fazer!? Tudo o que dissesse para mitigar a crueldade dos meus companheiros era considerado traição, como você testemunhou ontem. Não posso sair daqui, pois tudo o que possuo está investido no meu negócio. Se abandonar a sociedade, sei perfeitamente que isso significará a morte para mim e sabe Deus que horror para minha mulher e filhos. Ah!, meu rapaz, é espantoso… espantoso!

Cobriu o rosto com as mãos, e todo o seu corpo foi sacudido por soluços convulsivos.

McMurdo encolheu os ombros.

— Você é muito mole para desempenhar tais serviços — disse. — Não é talhado para a coisa.

— Tinha consciência e crença religiosa, mas eles fizeram de mim um criminoso. Fui destacado para uma empresa. Se me recusasse, sabia muito bem o que poderia me acontecer. Talvez seja um covarde. É possível que a causa disso seja a inquietação pela minha família. De qualquer forma, fui. Creio que esse pesadelo me acompanhará pelo resto da vida. Era uma casa isolada, a trinta quilômetros daqui, do outro lado das montanhas. Foi-me dado o encargo de vigiar a porta, exatamente como lhe ordenaram a noite passada. Não confiavam em mim para desempenhar a missão que nos fora atribuída. Os outros entraram. Ao abandonarem a casa, tinham as mãos manchadas de sangue até os pulsos. No momento em que nos afastávamos, uma criança saiu atrás de nós gritando, banhada em pranto. Era um menino de cinco anos que tinha assistido ao assassinato do próprio pai. Quase desmaiei de horror, e, no entanto, tive de conservar oposto impassível e sorridente, pois sabia que, se não o fizesse, seria de minha casa que eles sairiam com as mãos manchadas de sangue, e o meu pequeno Fred é que iria lamentar a perda do pai. Não obstante, tinha me tornado então um criminoso… fizera-me cúmplice de um homicídio, estava irremediavelmente perdido neste mundo e também no outro. Sou bom católico, mas o sacerdote não quis me- ouvir: quando soube que eu era um Vingador, fui excomungado. Eis a minha situação. E agora vejo-o arrojar-se no mesmo abismo e pergunto-me: qual será o seu fim? Está pronto para se transformar também num assassino insensível, ou haverá algo que se possa fazer para impedir isso?

— E que quer fazer? — perguntou McMurdo subitamente. — Tornar-se um delator?

— Pelo amor de Deus! — protestou Morris. — A simples idéia de traição me custaria por certo a vida.

— Tanto melhor! — replicou McMurdo. — Sabe o que penso? Que você é frouxo e faz um bicho-de-sete-cabeças de coisas sem importância.

— Sem importância! Espere até ter vivido aqui um pouco mais e verá. Observe o vale lá embaixo. Veja que nuvem de fumaça de centenas de chaminés o obscurece. Pois bem! Afirmo-lhe que a nuvem de delitos paira, sobre os seus habitantes, muito mais espessa e baixa do que a das fábricas. É o Vale do Terror… o Vale da Morte. Reina o terror no coração do povo, desde o crepúsculo até a aurora. Espere, meu rapaz, e vai se convencer desta verdade à sua própria custa.

— Bem, vou lhe dizer o que penso quando estiver mais a par — disse McMurdo num tom indiferente. — O que me parece evidente é que este lugar não lhe convém e que, quanto mais cedo liquidar o seu negócio… se conseguir obter dez centavos em cada dólar do seu valor…, tanto melhor para você. Quanto ao que me disse, pode ficar certo, não contarei a ninguém. Mas, por Deus, se souber que é um delator…

— Não, não! — gritou Morris lastimosamente.

— Muito bem! Paremos por aqui. Vou procurar me lembrar das suas palavras, e talvez um dia voltemos ao assunto. Creio que me disse tudo isso com a melhor das intenções. Agora, preciso voltar para casa.

— Mais uma palavra, antes de nos separarmos — implorou Morris. — É possível que nos tenham visto juntos e, nesse caso, queiram saber do que estivemos falando.

— Ah! Você tem razão.

— Ofereci-lhe emprego no meu negócio.

— E eu recusei. Foi o assunto de nossa conversa. Bem, até breve, irmão Morris, e esperemos que as coisas lhe corram melhor no futuro.

Naquela mesma tarde, McMurdo estava sentado, fumando, imerso nos seus pensamentos, junto à lareira da saleta, quando a porta se escancarou de repente e surgiu o vulto enorme do chefe McGinty. Depois de ter trocado o sinal da loja com McMurdo, sentou-se de frente para ele e fitou-o, por algum tempo, com olhar resoluto, olhar esse que foi correspondido, de modo imperturbável, por parte do jovem.

— Não sou de muitas visitas, irmão McMurdo — disse, finalmente. — Talvez por estar sempre muito ocupado com os que me procuram; todavia, julguei conveniente abrir uma exceção e dar um pulo até sua casa.

— Sinto-me orgulhoso de vê-lo por aqui, conselheiro — retrucou McMurdo cordialmente, indo buscar uma garrafa de uísque no armário. — É uma honra que eu jamais podia esperar.

— Como vai o braço? — perguntou o chefe.

McMurdo fez uma careta.

— Ainda não pude esquecê-lo — disse. — Mas valeu a pena.

— Sim, vale a pena — respondeu o outro —, para os que são leais, mantêm a palavra e ajudam a loja. Qual era o assunto da sua conversa com o irmão Morris, hoje de manhã, em Miller Hill?

A pergunta surgiu tão à queima-roupa, que foi bom McMurdo ter já a resposta engatilhada. Explodiu em sonora gargalhada.

— Morris ignora que eu possa ganhar a vida aqui em casa. E é melhor que não o saiba, porque tem muita consciência para um tipo como eu. Entretanto, é um velhote de bom coração. Supunha encontrar-me em dificuldade e resolveu auxiliar-me, oferecendo-me trabalho no seu negócio.

— Oh! Era isso?

— Sem tirar nem pôr.

— E você recusou?

— Naturalmente. Não acha que posso ganhar dez vezes mais, no meu próprio quarto, trabalhando apenas quatro horas por dia?

— É claro; contudo, eu não me arriscaria a ser visto na companhia de Morris.

— Por que razão?

— Simplesmente porque eu não quero. Esse motivo é suficiente para muita gente aqui no lugar.

— Talvez o seja para muita gente, mas não é para mim, conselheiro — afirmou McMurdo intrepidamente. — Se conhece bem os homens, pode me compreender.

O gigante moreno lançou-lhe um olhar terrível, e a sua manopla peluda cerrou-se ao redor do copo, por um instante, como se quisesse atirá-lo à cabeça do companheiro, mas quase imediatamente irrompeu numa das suas gargalhadas características, ruidosas e falsas.

— Francamente, você é um sujeito esquisito! — exclamou. — Pois bem, se deseja saber os motivos, eu lhe direi. Morris não fez nenhuma referência contra a loja?

— Não.

— Nem contra mim?

— Não.

— É possível que não tenha ousado confiar em você, todavia, intrinsecamente, ele não é um irmão fiel aos seus compromissos. Nós sabemos muito bem e por isso o vigiamos e aguardamos o momento de lhe dar uma boa lição. Ora, creio que esse momento está muito próximo. Não há lugar para ovelhas ranhosas no nosso aprisco. Se você andar na companhia de um homem desleal, podemos supor que também o seja, não lhe parece?

— Não há probabilidades de me tornar seu amigo, porque ele me aborrece — redargüiu McMurdo. — E, quanto a ser desleal, se fosse outro homem, e não o senhor, não me diria essa palavra duas vezes.

— Bom, isso é o bastante — proferiu McGinty, escorropichando o copo. — Vim apenas avisá-lo a tempo.

— Gostaria de saber como veio a ter conhecimento do meu encontro com Morris — disse McMurdo.

McGinty riu.

— É meu dever manter-me informado de tudo o que sucede nesta cidade — ponderou. — Aconselho-o a contar-me também tudo o que souber. Bom, está na hora de eu ir andando e direi apenas….

A despedida, porém, foi cortada de maneira totalmente imprevista. Com um baque súbito, a porta escancarou-se e três rostos carrancudos e atentos os fitaram com olhar penetrante, sob os bonés da polícia. McMurdo pôs-se de pé de um salto e quase chegou a tirar a pistola, mas seu braço parou a meio caminho, ao ver duas espingardas Winchester apontadas à sua cabeça. Um homem de uniforme entrou na sala armado de revólver. Era o capitão Marvin, anteriormente de Chicago e atualmente a serviço da Polícia do Carvão e do Ferro. Esboçando um sorriso, abanou a cabeça para McMurdo.

— Sabia que você ia se meter em complicações, sr. Trapaceiro McMurdo de Chicago — principiou. — Não pode passar sem encrencas, não? Pegue o chapéu e venha conosco.

— Creio que irá pagar caro por isso, capitão Marvin — interpôs McGinty. — Quem é você, pergunto eu, para irromper pela casa alheia dessa maneira e importunar homens honestos e cumpridores da lei?

— O senhor não tem nada a ver com este negócio, conselheiro McGinty — replicou o capitão da polícia. — Não estamos à sua procura, mas sim deste homem. Cabe-lhe ajudar, e não dificultar, o cumprimento do nosso dever.

— McMurdo é meu amigo, e respondo pelo seu modo de agir — redargüiu o chefe.

— De qualquer modo, sr. McGinty, talvez o senhor tenha que responder pelo seu próprio comportamento qualquer dia destes — respondeu o capitão. — Este indivíduo era um bandido, antes de vir para cá, e ainda o é. Olho nele, cabo, enquanto o desarmo.

— Eis o meu revólver — disse McMurdo friamente.

— Duvido, capitão Marvin, de que, se nos encontrássemos frente a frente a sós, conseguisse me prender com tanta facilidade.

— Onde está o mandado de prisão? — inquiriu McGinty. — Com os diabos! Não parece que estamos em Vermissa, quando vemos gente como você encarregada do serviço da polícia. É um insulto que não passará em branco, Garanto-lhe.

— Cumpra o que julga ser o seu dever como melhor lhe aprouver, conselheiro. Nós procuraremos cumprir o nosso.

— De que sou acusado? — perguntou McMurdo.

— De estar envolvido no assalto ao velho jornalista Stanger, na redação do Herald. Tem sorte de não se tratar de acusação de homicídio.

— Ora, se isso é tudo o que você tem contra ele — gritou McGinty com uma gargalhada —, pode evitar muitos aborrecimentos pondo-o já em liberdade. Esse homem esteve na minha companhia, jogando pôquer até a meia-noite, no meu bar, e posso ir buscar uma dúzia de testemunhas que o comprovarão.

— Isso é assunto seu, e acredito que possa expô-lo amanhã no tribunal. Por enquanto, McMurdo, acompanhe-nos, e sem contar histórias, se não quiser levar uma bala na cabeça. Não se intrometa, sr. McGinty, pois aviso-o de que não admito resistência, quando estou em serviço.

A atitude do capitão era tão decidida que tanto McMurdo como o seu chefe foram forçados a aceitar a situação. Este último conseguiu trocar algumas palavras em voz baixa com o prisioneiro, antes de se separarem.

— A propósito… — lembrou, apontando com o dedo indicador o andar de cima, onde se encontrava a máquina de moedas falsas.

— Tudo em ordem — murmurou McMurdo, que já arranjara um esconderijo seguro sob o soalho.

— Até breve — disse o chefe, apertando-lhe a mão.

— Vou procurar o advogado Reilly e me encarregarei das testemunhas. Dou-lhe a minha palavra de que eles não serão capazes de condená-lo.

— Eu não apostaria nisso. Vigiem o prisioneiro, vocês dois, e atirem nele se tentar nos pregar alguma peça. Vou dar uma busca na casa, antes de sair.

Marvin fez o que havia dito, mas aparentemente não encontrou nenhum indício da máquina oculta. Em seguida, ele e os seus homens escoltaram McMurdo até o posto policial. A noite havia caído e soprava uma violenta tempestade de neve, de tal forma que as ruas se encontravam desertas; no entanto, um pequeno número de vadios começou a acompanhar o grupo, e, animados pela invisibilidade, lançavam imprecações contra o prisioneiro.

— Linchem esse maldito Vingador! — gritavam. — Linchem-no! — Riam e zombavam dele no momento em que era impelido para dentro do edifício da polícia.

Após um breve interrogatório formal por parte do inspetor de serviço, foi mandado para a cela comum; já ali se encontravam Baldwin e três outros criminosos da noite anterior, todos presos naquela tarde, à espera do julgamento, na manhã seguinte.

Todavia, mesmo no mais íntimo recesso do baluarte da lei, os longos tentáculos dos Homens Livres eram capazes de penetrar. Noite alta, apareceu um carcereiro com um molho de palha, que lhes devia servir de cama, de dentro do qual extraiu duas garrafas de uísque, alguns copos e um baralho. Passaram o tempo alegremente, sem a menor preocupação pelo que lhes estava reservado de manhã.

E bem tinham razão para tal, como o resultado veio demonstrar. O magistrado não foi capaz, diante da prova testemunhal, de dar uma sentença que pudesse levar o assunto a tribunal superior. Por outro lado, tipógrafos e impressores foram obrigados a admitir que a luz era fraca, que eles próprios se encontravam muito perturbados e que lhes era difícil jurar com plena convicção sobre a identidade dos assaltantes, apesar de acreditarem que o acusado estava entre eles. Inquiridos pelo hábil advogado contratado por McGinty, caíram em contradições e incertezas cada vez mais nebulosas. A vítima já havia deposto que, tomada de enorme surpresa pelo imprevisto do ataque, não podia afirmar nada além do fato de que o seu agressor usava bigode. Declarara ainda que sabia tratar-se dos Vingadores, pois ninguém na comunidade era seu inimigo e além disso há muito que vinha sendo ameaçado por causa dos seus artigos desassombrados. De resto, ficou cabalmente provado, pêlos testemunhos concordes e inabaláveis de seis cidadãos, incluindo-se o do alto funcionário municipal, conselheiro McGinty, que os homens tinham estado jogando cartas na sede do sindicato até uma hora muito mais avançada do que aquela em que fora cometido o crime. É inútil acrescentar que foram postos em liberdade com palavras que mais pareciam desculpas, por parte do juiz, pelo incômodo sofrido, juntamente com uma censura implícita ao capitão Marvin e à polícia, pelo seu zelo excessivo.

O veredicto foi saudado com intensos aplausos por uma assistência entre a qual McMurdo reconheceu muitos rostos familiares. Irmãos da loja sorriam e acenavam. Outros, entretanto, permaneceram sentados, com os lábios cerrados e o olhar pensativo, enquanto os libertados abandonavam o banco dos réus. Um deles, um homenzinho de barba escura e ar resoluto, exprimiu por palavras o próprio pensamento e o dos seus companheiros, no momento em que os exprisioneiros lhe passavam em frente.

— Malditos assassinos! — disse. — Ainda haveremos de ajustar contas com vocês.

Primeira Parte
A Tregédia de Birlstone

Capítulo 1 – O aviso § Capítulo 2 – Sherlock Holmes discorre
Capítulo 3 – A Tragédia de Birlstone § Capítulo 4 – Trevas
Capítulo 5 – As personagens do drama § Capítulo 6 – Um réstia de luz
Capítulo 7 – A solução

Segunda Parte
Os Vingadores

Capítulo 1 – O homem § Capítulo 2 – O grão-mestre
Capítulo 3 – Loja 341, Vermissa § Capítulo 4 – O vale do terror
Capítulo 5 – A hora mais negra § Capítulo 6 – Perigo
Capítulo 7 – Birdy Edwards na ratoeira

Epílogo

Ilustrações: Frank Wiles, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock