O vale do terror – Segunda parte, Capítulo 6

Arthur Conan DoyleO vale do terror

Segunda parte: Os vingadores

Título original: The Valley of Fear
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1915-15.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Valley of Fear publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VI,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo sexto: Perigo

O reinado do terror atingia o auge. McMurdo, que já fora nomeado subchefe, com todas as probabilidades de um dia suceder a McGinty como grão-mestre, tornara-se agora tão necessário às reuniões de seus camaradas que nada era feito sem o seu auxílio ou seus conselhos. Todavia, quanto mais aumentava sua popularidade junto dos Homens Livres, mais iracundas eram as carrancas com que o saudavam ao passar pelas ruas de Vermissa. Não obstante estarem cheios de pavor, os moradores da cidade iam adquirindo coragem com o fito de formar uma aliança contra os seus opressores. A loja já havia sido informada de reuniões secretas na redação do Herald e da distribuição de armas de fogo entre os cidadãos amantes da lei. No entanto, McGinty e os seus homens não se perturbavam com tais notícias. Eram numerosos, resolutos e bem-armados; os adversários, esparsos e fracos. Tudo acabaria, como no passado, em palavreado inútil e, possivelmente, com algumas prisões impotentes. Assim diziam McGinty, McMurdo e todos os espíritos mais audazes.

Era uma noite de sábado, no decurso do mês de maio. Nos sábados à noite havia a reunião ordinária da loja, e McMurdo preparava-se para sair de casa a fim de assistir a ela, quando Morris, o poltrão da ordem, veio procurá-lo. Os sulcos da fronte revelavam-lhe a preocupação, e o seu rosto bondoso estava desfigurado e abatido.

— Posso falar-lhe livremente, McMurdo?

— É claro que pode.

— Ainda não me esqueci de que certo dia lhe expus o meu pensamento e você o guardou para si, mesmo quando o chefe em pessoa veio lhe pedir informações a respeito de nossa conversa.

— E que mais podia eu fazer, se você depositou confiança em mim? Isso não quer dizer que tenha concordado com o seu modo de pensar.

— Sei muito bem disso. Com você, porém, posso falar livre de receios. Tenho um segredo aqui dentro — disse ele, pondo a mão no peito —, um segredo que me devora. Preferiria que outro qualquer tivesse sabido que não eu. Se o revelar, isso significará homicídio com toda a certeza, mas, se o guardar comigo, talvez venha a ser o fim de nós todos. Que Deus me ajude, pois estou quase louco de tanto pensar nestas coisas.

McMurdo fitou o homem, interessado. Morris tremia como vara verde. Pôs um pouco de uísque num copo e deu-lhe para beber.

— Isto é um bom remédio para gente como você — disse. — E agora, ouçamos.

Morris bebeu, e um leve rubor tingiu-lhe o rosto pálido.

— Posso dizer-lhe tudo numa frase — disse, — Há um policial na nossa pista.

McMurdo fitou-o, estupefato.

— Mas você está louco! — exclamou. — Este lugar não está cheio de agentes e de policiais? E que mal nos fizeram eles até agora?

— Não, não; não se trata de pessoa desta zona. Como você diz, nós os conhecemos, e eles pouco podem fazer. Mas já ouviu falar dos homens da Pinkerton?

— Já li qualquer coisa nesse sentido.

— Bem, posso assegurar-lhe que não é brincadeira tê-los na pegada. Não é um negócio oficial, mas uma importantíssima organização comercial, que leva as coisas a sério e não descansa enquanto não atinge o seu objetivo, seja qual for o meio. Caso um homem da Pinkerton esteja investigando as nossas atividades, estamos todos perdidos.

— Precisamos eliminá-lo.

— Ah! É a primeira idéia que lhe vem à cabeça! Assim a loja saberá de tudo. Não tinha lhe dito que isto acabaria em homicídio?

— Certamente, e o que é um homicídio? Não é bastante comum nestas bandas?

— É verdade, contudo não serei eu quem vai apontar o homem que deve ser assassinado. Jamais poderia ter sossego. E, no entanto, talvez as nossas próprias cabeças estejam em jogo. Em nome de Deus, que devo fazer?

Estava a tal ponto torturado pela indecisão, que vibrava como planta batida pelo vento. Suas palavras, porém, tinham causado profunda impressão em McMurdo. Era fácil ver que ele compartilhava a opinião do outro quanto ao perigo e à necessidade de enfrentá-lo. Agarrou Morris pêlos ombros e sacudiu-o freneticamente.

— Escute aqui, criatura — gritou quase num silvo, excitado —, de nada adianta estar aí se lastimando como uma velha chorona. Vamos aos fatos. Quem é esse sujeito? Onde se encontra? Como soube dele? Por que veio procurar-me?

— Vim procurá-lo porque você é a única pessoa que pode me aconselhar. Eu lhe disse que possuía uma lojinha no leste antes de vir para cá. Lá deixei bons amigos, e um deles, que trabalha no telégrafo, escreveu-me uma carta que recebi ontem. Leia este trecho, aqui no alto da página.

E foi isto o que McMurdo leu:

“Como vão os Vingadores por aí? Temos lido muita coisa a respeito deles nos jornais. Aqui entre nós, espero receber notícias suas muito em breve. Cinco grandes empresas e duas companhias ferroviárias tomaram a sério o assunto. Resolveram acabar com a situação, e você pode apostar que conseguirão atingir o objetivo, pois estão resolutamente empenhadas nisso. Contrataram os serviços da Pinkerton, e Birdy Edwards, o seu melhor homem, já se pôs em ação. A coisa tem de acabar imediatamente”.

— Leia agora o pós-escrito.

“Naturalmente, tudo quanto lhe disse acima é confidencial, pois soube-o dentro da minha profissão. Há um número enorme de telegramas cifrados com os quais a gente tem de lidar todos os dias sem conseguir entender-lhes o sentido.”

McMurdo quedou-se silencioso por algum tempo, virando a carta nas mãos agitadas. A névoa tinha-se dissipado por um instante, e ele percebia o abismo a seus pés.

— Alguém mais sabe disso? — perguntou.

— Não o contei a mais ninguém.

— Mas esse homem, seu amigo, não tem alguém a quem pudesse ter escrito?

— Bem, calculo que conheça um ou outro mais.

— Da loja?

— É muito provável.

— Pergunto porque pode ser que ele tenha feito alguma descrição desse Birdy Edwards, e nesse caso seria fácil identificá-lo.

— É possível. Mas não acredito que ele o conheça. Limitou-se a transmitir-me notícias de que teve conhecimento através do seu serviço. Como poderia conhecer esse agente da Pinkerton?

McMurdo teve um violento estremeção.

— Por Deus! — gritou. — Já sei quem é. Que idiota fui em não ter visto isso antes! Mas caramba! Estamos com sorte. Vamos dar um jeito nele, antes que nos possa fazer mal. Ouça, Morris; quer deixar este assunto a meu cargo?

— Certamente, se você me livrar de toda a responsabilidade.

— Pode ficar descansado. Fique de lado; eu me encarregarei de tudo. Nem o seu nome precisará ser mencionado. Agirei como se a carta tivesse sido dirigida a mim. Está satisfeito?

— Era justamente o que eu queria pedir.

— Deixe então as coisas como estão e conserve a boca fechada. Agora vou até a loja, e em breve faremos o velho Pinkerton amaldiçoar a hora em que se meteu conosco.

— Vai matá-lo?

— Quanto menos você souber, amigo Morris, mais calma estará a sua consciência e mais tranqüilo o seu sono. Não faça perguntas, e deixe que as coisas se resolvam por si próprias. O caso agora é comigo.

Morris sacudiu tristemente a cabeça ao despedir-se.

— Tenho a impressão de que o seu sangue está nas minhas mãos — gemeu.

— Em todo caso, legítima defesa não é crime — observou McMurdo, com um sorriso satânico. — Ou ele, ou nós. Estou certo de que esse homem nos destruiria a todos se o deixássemos por muito tempo no vale. Não duvido, irmão Morris, de que ainda teremos de o eleger grão-mestre, pois não há dúvida de que salvou a loja.

E todavia, pela sua atitude, era evidente que estava mais apreensivo com essa nova ameaça do que as suas palavras poderiam demonstrar. Talvez a causa disso fosse a consciência culpada; também podia ser o renome da organização. Pinkerton ou o fato de saber que empresas poderosas e ricas tinham assumido o encargo de dar fim aos Vingadores; porém, qualquer que fosse a razão, sua maneira de proceder era a de quem está preparado para o pior. Antes de deixar a casa, fez desaparecer todos os papéis que pudessem incriminá-lo. Depois soltou um longo suspiro de satisfação, pois lhe parecia que com isso estaria a salvo. E contudo a sensação do perigo ainda o acossava de qualquer modo, pois a caminho da loja parou na pensão do velho Shafter. O acesso à casa lhe era proibido; no enta-nto, ao bater à janela Ettie saiu para lhe falar. A desenvolta jocosidade irlandesa desaparecera dos olhos do seu namorado. Ela viu a gravidade da situação em seu rosto ansioso.

— Aconteceu alguma coisa! — gritou. — Oh! Jack, você está em perigo!

— Ora, não se preocupe, querida; não é nada de grave. Entretanto, talvez seja conveniente agirmos antes que a coisa piore.

— Antes que piore?

— Prometi-lhe, em certa ocasião, que um dia iria embora daqui. Creio que chegou o momento. Recebi notícias esta noite… más notícias, e antevejo a iminência de grandes desgraças.

— A polícia?

— Sim… um agente da Pinkerton. Mas você não pode imaginar o que é isso, meu amor, nem o que pode significar para gente da minha espécie. Estou comprometido demais em tudo isto, e é provável que tenha de me safar o mais depressa possível desta situação. Você prometeu me acompanhar se eu partisse.

— Oh! Jack, isso seria a sua salvação.

— Em certos pontos sou honesto, Ettie. Não tocaria num fio de cabelo da sua deliciosa cabecinha por tudo o que o mundo pudesse me dar, nem haveria de fazê-la descer um centímetro do pedestal de ouro acima das nuvens, onde a vejo eternamente. Confia em mim?

Sem dizer palavra, a jovem colocou sua mão na dele.

— Então ouça o que vou lhe dizer e faça como eu lhe ordenar, pois é este o único meio de nos salvarmos. Fatos sensacionais estão para acontecer neste vale; pressinto-os intimamente. Muitos de nós, possivelmente, teremos de ficar alerta. Eu sou um deles, de qualquer forma. Se eu partir, seja de dia ou de noite, você deve ir comigo!

— Irei atrás de você, Jack.

— Não, não; precisa ir comigo. Se este vale se fechar para mim e eu não puder mais voltar aqui, como poderei abandoná-la vivendo provavelmente escondido da polícia, sem jamais ter oportunidade de lhe enviar um recado? É comigo que deve ir. Conheço uma boa mulher no lugar de onde vim, e a ela a confiarei até que possamos nos casar. Aceita?

— Sim, Jack, aceito.

— Deus a abençoe pela confiança que deposita em mim! Seria o último dos patifes se abusasse dela. E agora note bem, Ettie. Vou lhe enviar uma simples palavra, mas quando você a receber, abandone tudo e dirija-se imediatamente à sala de espera da estação e permaneça lá até eu aparecer.

— De dia ou de noite, irei ao menor aviso seu, Jack.

Mais tranqüilo, depois de ter iniciado os próprios preparativos de fuga, McMurdo encaminhou-se para a loja. Esta já se encontrava reunida, e só lhe foi possível passar pelas guardas externas e internas que a protegiam por meio de senhas e contra-senhas complicadas. Seu ingresso foi saudado por um sussurro cordial de boas-vindas. O extenso compartimento estava repleto, e, através da névoa de fumaça, ele viu a emaranhada cabeleira negra do grão-mestre, os traços desumanos de Baldwin, as feições de abutre de Harraway, o secretário, e mais uma dúzia de outros membros preeminentes da loja. Alegrou-se por vê-los todos presentes, pois assim poderiam discutir a notícia que ele lhes ia dar.

— Sentimo-nos verdadeiramente satisfeitos em vê-lo, irmão! — exclamou o presidente. — Há um caso aqui para o qual precisamos recorrer à justiça de Salomão.

— Trata-se de Lander e Egan — explicou-lhe o vizinho, enquanto ele se sentava. — Ambos reclamam a recompensa estipulada pela loja no assassinato do velho Crabbe, de Stylestown, e quem poderá dizer qual dos dois disparou o tiro mortal?

McMurdo ergueu-se e levantou a mão. A expressão de seu rosto atraiu a atenção do auditório. Um murmúrio de intensa expectativa percorreu a sala.

— Venerável chefe — disse com voz solene —, reclamo urgência.

— O irmão McMurdo reclama urgência — disse McGinty. — É um pedido que, segundo as regras desta loja, tem precedência sobre os outros. Assim, irmão, pode falar.

McMurdo tirou a carta do bolso.

— Venerável chefe e caros irmãos — principiou —, hoje sou portador de más notícias; não obstante, é melhor que sejam conhecidas e discutidas, antes de se abater imprevistamente sobre as nossas cabeças o golpe que nos levará a todos à destruição. Estou informado de que as mais ricas e poderosas organizações deste Estado se reuniram para nos liquidar e de que, neste preciso momento, se encontra trabalhando neste vale um agente da Pinkerton, certo Birdy Edwards, a fim de coligir provas capazes de colocar uma corda em torno do pescoço de muitos de nós e enviar para a cadeia todos quantos se encontram nesta sala. Essa é a situação para cujo debate pedi urgência.

Fez-se um profundo silêncio na sala, que foi quebrado pela voz do presidente.

— Que provas tem disso, irmão McMurdo? — indagou McGinty.

— Tenho-as aqui nesta carta que me veio ter às mãos — respondeu McMurdo, que leu então o trecho em voz alta. — É para mim questão de honra não poder fornecer-lhes outros pormenores a respeito desta carta, nem confiá-la às suas mãos; todavia, asseguro-lhes que nada existe nela que possa ferir os interesses da loja. Apresento-lhes o caso como me foi referido.

— Permita-me dizer-lhe, senhor presidente — disse um dos confrades mais velhos —, que já ouvi falar de Birdy Edwards e que ele tem fama de ser o melhor homem a serviço da Pinkerton.

— Algum de vocês o conhece de vista? — perguntou McGinty?

— Sim — retrucou McMurdo —, eu o conheço.

Um murmúrio de estupefação ecoou pela sala.

— Creio que o temos em nosso poder — prosseguiu, com um sorriso de júbilo estampado no rosto. — Se agirmos com presteza e discrição, conseguiremos cortar o mal pela raiz. Pouco teremos a temer, se eu puder contar com a sua confiança e ajuda.

— De qualquer forma, que temos nós a recear? Ele pode saber dos nossos assuntos?

— Teria motivo para dizer tal coisa, conselheiro, se todos fossem resolutos como o senhor. Entretanto, esse indivíduo tem a apoiá-lo todos os milhões dos capitalistas. Acredita que não pudesse haver, entre todas as lojas, algum irmão de espírito mais fraco que se deixasse comprar? Ele virá a saber dos nossos segredos… se é que já não os sabe. Existe apenas um remédio eficaz.

— Que ele jamais consiga sair deste vale… — sentenciou Baldwin.

McMurdo fez um aceno de cabeça.

— Tem razão, irmão Baldwin — disse. — Temos tido as nossas divergências; hoje, porém, somos ambos da mesma opinião.

— Onde ele está, então? Como faremos para reconhecê-lo?

— Venerável chefe — disse McMurdo em tom solene —, permita-me que lhe diga que este assunto é de excessiva importância para ser discutido em assembléia. Longe de mim a idéia de lançar a menor sombra de dúvida sobre alguns dos presentes, mas, se uma simples palavra fortuita chegasse aos ouvidos desse homem, poderíamos perder toda a esperança de apanhá-lo. Eu pediria à loja que escolhesse uma comissão de membros da sua confiança, senhor presidente, composto pela sua pessoa, se me permite a sugestão, do irmão Baldwin e de cinco outros. Aí, então, poderei falar com liberdade sobre o que, sei e o que aconselharia que se fizesse.

A proposta foi imediatamente aprovada e a comissão, escolhida. Além do presidente e de Baldwin, dela faziam parte Harraway, o secretário de cara de abutre, Tigre Cormac, o jovem e brutal assassino, Cárter, o tesoureiro, e os irmãos Wiliaby, dois indivíduos arrojados e temíveis, que não recuavam diante de nada.

A habitual patuscada da loja foi breve e reservada, pois uma nuvem escura toldava o estado de ânimo dos homens e muitos dentre eles, pela primeira vez, começavam a vislumbrar a sombra vingadora da justiça toldando o céu sereno sob o qual há tanto tempo viviam. Os horrores que tinham infligido a outros faziam de tal modo parte da sua cômoda existência que a idéia de um possível castigo se lhes tornara remota, e tanto mais lhes parecia absurda agora quanto o perigo lhes surgia tão próximo. Dispersaram-se cedo, deixando os chefes na sua reunião.

— Pode falar, McMurdo — disse McGinty, logo que ficaram a sós.

Os sete homens permaneciam imóveis nos seus lugares.

— Eu disse há pouco que conhecia Birdy Edwards — explicou McMurdo. — Inútil será dizer-lhes que não se encontra aqui sob esse nome. É um homem corajoso, estou certo, mas não imbecil. Faz-se passar por Steve Wilson e está hospedado em Hobson’s Patch.

— Como sabe disso?

— Porque tive oportunidade de conversar com ele. Na ocasião, dei pouca importância ao fato, e nem teria mais pensado em tal coisa se não fosse esta carta; agora, porém, estou certo de que é ele. Encontrei-o no trem, quarta-feira, quando fui a Hobson’s Patch… circunstância que me pôs em dificuldades. Ele disse ser jornalista, o que na ocasião acreditei. Queria saber tudo quanto se referisse aos Vingadores, e ao que ele chamava as suas violências, a fim de escrever um artigo para o New York Press. Crivou-me com inúmeras perguntas, mas, como facilmente compreenderão, respondi a todas com a máxima cautela. “Pagarei, e pagarei bem”, disse-me, “se puder obter algo que satisfaça ao meu diretor.” Contei-lhe o que me pareceu ser-lhe agradável, e, em troca das minhas informações, deu-me uma nota de vinte dólares. “Receberá dez vezes mais”, observou, “se puder descobrir tudo quanto necessito.”

— E que lhe contou, então?

— O que pude inventar na ocasião.

— Como soube que ele não era jornalista?

— Já lhes digo. Ele desceu em Hobson’s Patch, como eu. Aconteceu, porém, que entrei no edifício do telégrafo precisamente quando ele de lá saía.

“— Veja só isto — comentou o telegrafista, depois de ele ter se afastado —, acho que deveríamos cobrar taxa dobrada para telegramas como este.

“— Penso que sim — disse eu.

“Ele tinha preenchido o impresso com uma algaravia que podia ser chinês, pelo que nos foi possível entender.

“— Despacha uma fórmula como essa todos os dias — continuou o empregado do telégrafo.

“— Sim — acrescentei; — são notícias especiais para o seu jornal, e ele tem medo de que os outros as interceptem.

“Era o que o telegrafista e eu mesmo imaginávamos, na ocasião; agora, no entanto, penso de outra forma.”

— Com os diabos! Creio que você tem razão — exclamou McGinty. — Mas qual é a sua sugestão quanto ao que devemos fazer?

— Por que não vamos já a Hobson’s Patch para apanhá-lo? — alvitrou alguém.

— Quanto mais depressa o matarmos, melhor.

— Partiria sem demora se soubesse onde encontrá-lo — disse McMurdo. — Sei que está em Hobson’s Patch; ignoro, porém, a casa. Entretanto, concebi um plano, e se quiserem ouvi-lo…

— E qual é?

— Irei a Hobson’s Patch amanhã cedo. Encontrá-lo-ei por intermédio do telegrafista, que, espero, deve saber localizá-lo. Depois, conto-lhe que sou um Homem Livre. Proponho-lhe vender todos os segredos da loja por bom preço. Estou certo de que ele cairá no laço. Digo que os documentos estão em minha casa e que a minha vida correrá perigo se ele me procurar durante o dia. Ele deve compreender que se trata de uma questão de bom senso. Se aparecer às dez da noite, mostro-lhe tudo. Isso fará com que ele venha, sem dúvida.

— E depois?

— Vocês mesmos podem planejar o resto. A casa da viúva MacNamara fica num-lugar retirado. Ela é fiel como um cão e surda como uma porta. Apenas Scanlan e eu moramos, na casa. Se eu conseguir obter dele a promessa de vir… e pretendo avisá-los logo que a obtenha… gostaria .que estivessem todos lá às nove horas. Nós o faremos entrar, e, se chegar a sair vivo… bom, poderá falar da sorte de Birdy Edwards pelo resto da existência.

— Vai haver uma vaga nas fileiras da Pinkerton, ou estou muito enganado — disse McGinty. — Está combinado, McMurdo. Amanhã, às nove da noite, estaremos todos em sua casa. Bastará fechar a porta atrás dele; o resto correrá por nossa conta.

Primeira Parte
A Tregédia de Birlstone

Capítulo 1 – O aviso § Capítulo 2 – Sherlock Holmes discorre
Capítulo 3 – A Tragédia de Birlstone § Capítulo 4 – Trevas
Capítulo 5 – As personagens do drama § Capítulo 6 – Um réstia de luz
Capítulo 7 – A solução

Segunda Parte
Os Vingadores

Capítulo 1 – O homem § Capítulo 2 – O grão-mestre
Capítulo 3 – Loja 341, Vermissa § Capítulo 4 – O vale do terror
Capítulo 5 – A hora mais negra § Capítulo 6 – Perigo
Capítulo 7 – Birdy Edwards na ratoeira

Epílogo

Ilustrações: Frank Wiles, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock