O círculo vermelho

Arthur Conan Doyle

O círculo vermelho

Título original: The Red Circle
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine, em Março / Abril de 1911,
com 3 ilustrações de H. M. Brock e uma ilustração de Joseph Simon
e na edição norte-americana da Strand Magazine em Abril / Maio de 1911,
com as mesmas ilustrações.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Red Circle publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume V,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Álvaro Pinto de Aguiar.

I

— Com franqueza, sra. Warren, não vejo qualquer motivo para estar inquieta, nem vejo por que eu deveria intervir neste assunto. O meu tempo é precioso e tenho outras coisas em que me ocupar.

Assim se exprimiu Sherlock Holmes, e voltou a absorver-se em seu enorme álbum de recortes, no qual estava incluindo e classificando novo material. Mas a senhoria tinha a pertinácia e também a astúcia característica de seu sexo, e não se deu por vencida.

— No ano passado, o senhor resolveu uma dificuldade para um pensionista meu, o sr. Fairdale Hobbs — insistiu ela.

— Ah, sim!… Coisa muito .simples.

— Todavia, ele não se cansa de falar nisso… sua gentileza e a maneira como o senhor esclareceu tão obscuro assunto. Lembrei-me das palavras dele, quando eu própria me vi envolvida na dúvida e na escuridão. Estou certa de que, se quisesse, poderia ajudar-me.

Holmes era acessível pelo lado da lisonja e também, façamos-lhe justiça, pelo da cortesia. Essas duas forças conjugadas fizeram-no pôr de lado o pincel de goma-arábica, com um suspiro de resignação, e recostar-se na cadeira.

— Está bem, sra. Warren, ouçamos o caso. O fumo não a incomoda? Obrigado, Watson… Os fósforos, por favor! Se não me engano, a senhora está preocupada porque seu novo inquilino se fecha no quarto e a senhora não consegue vê-lo. Ora, se eu fosse seu pensionista, garanto-lhe que não me veria durante semanas a fio.

— Não duvido, sr. Holmes; mas o caso aqui é diferente! Ando apavorada, não consigo pregar o olho, tal é meu medo. Ouvir o ruído dos passos nervosos, de um lado para outro, desde manha cedo até altas horas da noite, e não avistá-lo um momento sequer… está além de minhas forças. Meu marido está tão impressionado como eu; mas ele trabalha fora o dia todo, ao passo que eu não tenho um instante de sossego. Por que vive escondido? Que terá feito? Com exceção da criada, fico todo o santo dia sozinha com ele em casa, e sinto que meus nervos não poderão suportar por muito tempo tal situação.

Holmes inclinou-se para a frente e pousou os dedos longos e finos sobre os ombros da mulher. Quando desejava, possuía um poder quase hipnótico de acalmar o próximo. Toda a expressão de temor desapareceu dos olhos dela, e as feições agitadas tranqüilizaram-se e readquiriram a aparência normal. Ela sentou-se na cadeira que ele lhe indicara.

— Se me encarregar deste caso, será preciso pôr-me a par de todos os pormenores — advertiu. — Reflita com calma. A mais simples minúcia pode ser essencial. A senhora disse que esse homem apareceu há dez dias e pagou duas semanas adiantadas de quarto e comida?

— Perguntou-me quais eram as condições, e eu lhe respondi: “Cinqüenta xelins por semana”. No sótão da casa existe uma salinha e um quarto de dormir, ambos mobiliados.

— E então?

— Ele afirmou que pagaria cinco libras por semana se eu aceitasse suas condições. Que havia de fazer? Sou pobre, sr. Holmes; meu marido ganha pouco e esse dinheiro significava muito para mim. Tirou uma nota de dez libras do bolso e mostrou-a. “Terá outro tanto de quinze em quinze dias, durante muito tempo, se atender às minhas condições”, disse-me. “Se não quiser, nada mais teremos a conversar.”

— E quais eram essas condições?

— Bem, ele queria ter a chave da casa. Até aí, nada de extraordinário, pois os pensionistas habitualmente a têm. Além disso, devia deixá-lo inteiramente só, e nunca perturbá-lo sob nenhum pretexto.

— Nada vejo de extravagante nisso.

— Parece razoável, sr. Holmes. Entretanto, isso excede todos os limites do bom senso. Há dez dias ele vive ali, e nem meu marido, nem eu, nem a criada, conseguimos pôr lhe os olhos em cima uma única vez. Ouvimos seu andar rápido, de um lado para outro, noite e dia, sem cessar, pois nunca mais saiu de casa, exceto na primeira noite.

— Ah! Então saiu na primeira noite?

— Sim, senhor, e voltou muito tarde, depois de todos nos encontrarmos já deitados. Avisou-me disso depois de ter alugado o apartamento, e pediu-me que não trancasse a porta. Ouvi-o subir as escadas quando já passava da meia-noite.

— E as refeições?

— Recomendou-me expressamente que, quando tocasse a campainha, deveríamos colocar a refeição sobre uma cadeira do lado de fora da porta. Quando terminasse, tocaria de novo, e nós retiraríamos os pratos da mesma cadeira. Se tem necessidade de alguma coisa, escreve em letra de forma num pedaço de papel e coloca-o do lado de fora.

— Em letra de forma?

— Sim, senhor. Escreve em letra de forma e a lápis a coisa que deseja, e nada mais. Aqui está um desses pedacinhos de papel que eu trouxe para lhe mostrar: SABÃO. Eis outro: FÓSFORO. Este ele deixou na primeira manhã: DAILY GAZETTE. Entrego-lhe esse jornal todas as manhãs, com a primeira refeição.

— Caramba, Watson! — exclamou Holmes, fitando com grande curiosidade os pedacinhos de papel que a sra. Warren lhe entregara. — Este é na verdade um caso muito estranho. A reclusão eu compreendo, mas por que escrever em letra de forma? Dá mais trabalho. Por que não escrever, simplesmente, em caracteres normais? Que significa isso, Watson?

— Ele não quer revelar a própria letra.

— Mas qual será o motivo? Que importância pode ter para ele que sua senhoria veja uma palavra escrita com sua caligrafia? É possível, contudo, que seja como você diz. Mas qual a razão de mensagens tão lacônicas?

— Não consigo entender.

— Isso abre um agradável campo à especulação inteligente. As palavras foram escritas com lápis grosso, de tipo comum. Repare que o papel foi rasgado nesse ponto, depois de a palavra ter sido escrita, de modo que o s de sabão está cortado ao meio. Sugestivo, não lhe parece, Watson?

— Ele o teria feito por precaução?

— Exatamente. Havia provavelmente qualquer sinal, qualquer impressão digital, qualquer coisa, enfim, que poderia trair-lhe a identidade. Escute, sra. Warren, a senhora afirma que esse homem é de estatura mediana, moreno e usa barba. Que idade terá ele?

— Deve ser ainda novo… não deve ter mais de trinta anos.

— Muito bem, pode dar-me outras indicações?

— Fala inglês corretamente, porém pelo sotaque parece-me estrangeiro.

— E estava bem vestido?

— Elegantemente vestido… um perfeito cavalheiro. Usava roupa escura… nada que desse na vista.

— Não deu o nome?

— Não.

— E não tem recebido cartas ou visitas?

— Absolutamente nada.

— Mas, naturalmente, a senhora ou a criada entram no quarto pela manhã, não é verdade?

— Não; ele próprio cuida de tudo.

— Santo Deus! É sem dúvida extraordinário. E quanto à bagagem?

— Trazia apenas uma enorme mala castanha… nada mais.

— Bem, parece que não contamos com muito material. Tem certeza de não ter saído nada do aposento… absolutamente nada?

A sra. Warren extraiu da bolsa um envelope, do qual fez cair sobre a mesa dois fósforos queimados e uma ponta de cigarro.

— Estavam na bandeja hoje de manhã. Trouxe-os porque ouvi dizer que o senhor é capaz de descobrir grandes coisas através de simples ninharias.

Holmes encolheu os ombros.

— Não vejo nada de significativo nisso — observou. — Esses fósforos foram evidentemente usados para acender cigarros, o que se pode verificar pelo pequeno tamanho da parte queimada. Para acender um cachimbo ou um charuto, consome-se metade do fósforo. Mas, por Deus, esta ponta de cigarro é muito interessante! Se não me engano, a senhora disse que seu pensionista usa barba e bigode, não é?

— Sim.

— É estranho! Eu diria que este cigarro só podia ter sido fumado por uma pessoa de rosto barbeado. Caramba, Watson! Até seu modesto bigode se teria chamuscado.

— Talvez tivesse usado boquilha — sugeri.

— Não, não; a extremidade indica o contrário, não é possível haver duas pessoas no quarto, sra. Warren?

— Não, sr. Holmes. Ele come tão pouco, que às vezes pergunto a mim própria como consegue manter-se em pé.

— Está bem; creio que vamos ter de esperar até possuirmos outro elemento. Afinal de contas, a senhora não tem do que se queixar. O aluguel está pago, e não se pode dizer que ele seja um inquilino incômodo, apesar de estranho. Ele lhe paga regiamente, e, se deseja manter-se oculto, a senhora não tem o direito de interferir. Não temos o menor pretexto para violar sua clausura, até que surja qualquer razão para pensarmos que existe no fato um motivo criminoso. Aceito a investigação deste caso, e pode ficar descansada que farei o possível para resolvê-lo. Comunique-me se acontecer algo de novo, e conte com meu auxílio, se dele tiver necessidade.

Depois de a senhoria ter saído, Holmes declarou:

— Incontestavelmente, Watson, este caso oferece aspectos interessantes. Pode, é claro, não ter significado nenhum, e tratar-se apenas de mera extravagância individual, mas pode também ser muito mais profundo do que parece à primeira vista. A idéia que nos acode de imediato ao espírito é certamente a possibilidade de que naquele quarto esteja morando uma pessoa inteiramente diversa da que o alugou.

— Por que supõe tal coisa?

— Ora, pondo de parte a ponta de cigarro, não é curioso que a única vez que o pensionista saiu fosse logo depois de ter alugado o quarto? Ele voltou… ou melhor, alguém voltou, quando todos estavam dormindo. Não possuímos prova alguma de que a pessoa que regressou tenha sido a mesma que saiu. Além disso, o pensionista falava bem inglês. Todavia, este outro escreve “fósforo”, quando devia ter escrito “fósforos”. Suponho que a palavra tenha sido tirada de um dicionário, onde os vocábulos aparecem apenas no singular. O estilo lacônico talvez esconda a ignorância da língua inglesa. Sim, Watson, há bons motivos para suspeitar de que tenha havido uma troca de inquilinos.

— Mas com que intenção?

— Ah! Eis o problema. Sem dúvida, a linha de investigação a seguir apresenta-se bastante clara — disse meu amigo, retirando da estante um grosso álbum, no qual colava, diariamente, a seção dos principais jornais londrinos reservada a avisos de pessoas desaparecidas.

“Deus meu!”, exclamou, folheando-lhe as páginas. “Que coro de gemidos, choros e lamentações! Que amontoado de acontecimentos estranhos! Todavia, este é sem dúvida o campo mais precioso que jamais houve para quem se dedica ao estudo dos fatos extraordinários! A pessoa que nos interessa encontra-se só, e não pode receber cartas sem quebra do absoluto sigilo que as circunstâncias lhe impõem. Como pode chegar até ela uma notícia ou qualquer recado do mundo exterior? Ao certo, por meio de anúncios publicados num jornal. Não parece haver outra solução, e felizmente já sabemos qual é esse jornal. Aqui estão os recortes do Daily Gazette dos últimos quinze dias: ‘Senhora com uma estola preta no Prince’s Shating Club…’, podemos passar adiante. ‘Certamente Jimmy não quererá despedaçar o coração de sua mãe. . .’, isso parece não ter importância. ‘Se a dama que desfaleceu no ônibus de Brixton. . .’, não me interessa. ‘Todo dia meu coração anseia. . .’ Lamentações, Watson, lamentações infindáveis. Ah!, eis algo mais provável. Ouça isto: ‘Tenha paciência. Encontrarei qualquer meio seguro de comunicação. Por enquanto, esta coluna. — G.’ Este anúncio foi publicado dois dias depois da chegada do inquilino da sra. Warren. Não parece plausível? O nosso ente misterioso podia entender inglês, apesar de só saber escrever em letra de forma. Vamos ver se encontramos mais alguma coisa. Sim, aqui está… três dias mais tarde: ‘Estou tomando providências. Paciência e cautela. As nuvens passarão. — G.’ Uma semana em branco depois desse aviso. Vem em seguida algo mais definido: ‘O caminho está se tornando mais claro. Se me for possível escrever em código, lembre-se do combinado: um, a; dois, B; e assim por diante. Terá notícias em breve. — G.’ Isso veio no jornal de ontem; o de hoje não traz nada. Parece-me muito apropriado ao pensionista da sra. Warren. Se esperarmos um pouco, Watson, creio que o caso se tornará mais inteligível.”

E, de fato, assim sucedeu, pois na manhã seguinte encontrei meu amigo em pé, junto à lareira, com as costas voltadas para o fogo e um sorriso radioso de satisfação que lhe iluminava o rosto.

— Que pensa disto, Watson? — gritou, apanhando o jornal de cima da mesa. — “Casa alta, de tijolos vermelhos, com remates de pedra branca. Terceiro andar. Segunda janela à esquerda. Depois do crepúsculo. — G.” Parece-me bastante claro. Acho que depois do almoço devemos fazer um pequeno reconhecimento pêlos arredores da casa da sra. Warren. Ah, minha cara senhora, que notícias nos traz? Nossa cliente entrara de improviso na sala, com uma energia tão explosiva, que nos indicava ter ocorrido um fato novo e inesperado.

— É caso de polícia, sr. Holmes! — berrou. — Não quero saber de mais nada! Ele terá de sair de lá! Imediatamente, com bagagem e tudo. Ia falar com ele diretamente, mas achei melhor ouvir sua opinião primeiro. Minha paciência está esgotada, e quando penso que chegaram a bater em meu marido…

— Bateram em seu marido?

— Maltrataram-no.

— Mas quem o maltratou?

— Ah! É isso que nós queríamos saber! Aconteceu hoje muito cedo. Meu marido é encarregado do livro de ponto da firma Morton & Waylight, na Tottenham Court Road. Costuma chegar à fábrica antes das sete. Ora, hoje de manhã, não dera ainda dez passos pela rua quando dois homens o atacaram pelas costas, lhe puseram um pano sobre a cabeça e o jogaram dentro de um carro parado junto à calçada. Depois de rodarem com ele durante uma hora, abriram a porta e empurraram-no para fora. Ele ficou tão tonto com a queda que nem chegou a ver o destino do carro. Ao voltar a si, verificou que estava em Hampestead Heath; então, tomou um ônibus e foi para casa, e lá o deixei, deitado no sofá, para vir imediatamente procurá-lo a fim de lhe contar o sucedido.

— Muito interessante — comentou Holmes. — Ele chegou a observar a aparência desses homens… Ouviu-os falar?

— Não; está completamente aturdido. Sabe apenas que se sentiu levantado do chão como num passe de mágica, e devolvido à terra como por encanto. Os atacantes eram pelo menos dois ou três.

— E a senhora relaciona essa agressão com seu pensionista?

— Ora, nós moramos lá há quinze anos e nunca nos sucederam tais coisas. Já estou farta dele. Afinal, o dinheiro não é tudo. Farei com que saia de minha casa antes do anoitecer.

— Um momento, sra. Warren. Não aja precipitadamente. Começo a suspeitar de que essa história é mais importante do que parecia à primeira vista. É evidente, agora, que algum perigo ameaça seu inquilino. E é igualmente evidente que seus inimigos, que se encontravam à espera dele nas proximidades da casa, confundiram seu marido com ele, devido ao nevoeiro matinal. Ao perceberem o engano, soltaram-no. Quanto ao que teriam feito se não tivessem se enganado, só nos resta conjeturar.

— Diga-me então o que devo fazer, sr. Holmes.

— Desejaria muito ver seu pensionista, sra. Warren.

— Não sei como poderá fazê-lo, a menos que arrombe a porta. Ouço-o sempre abrindo-a, quando desço a escada depois de deixar a bandeja sobre a cadeira.

— Ele precisa recolher a bandeja. Certamente podemos esconder-nos e vê-lo nessa ocasião.

A senhoria refletiu um instante.

— Há um pequeno quarto em frente. Poderia talvez colocar um espelho, de forma que, se o senhor estivesse atrás da porta…

— Ótimo! — exclamou Holmes. — A que horas ele almoça?

— Por volta da uma.

— Então o dr. Watson e eu estaremos lá a tempo. Passe bem.

Ao meio-dia e meia, subíamos as escadas da casa da sra. Warren — um prédio de tijolos amarelos, alto e esguio, na Great Orme Street, uma viela estreita situada a noroeste do Museu Britânico. Como fica na esquina, esse edifício permite uma boa visão da Howe Street, com suas casas mais requintadas. Holmes apontou-me, sorrindo, uma delas, que se salientava pela altura numa fileira de prédios de apartamentos.

— Veja, Watson! — observou. — “Casa alta, de tijolos vermelhos, com remates de pedra branca.” É aquele, sem dúvida, o posto de sinalização. Já conhecemos a casa e o código; o resto é simples. Há um cartaz com “Aluga-se” naquela janela. Trata-se evidentemente de um apartamento vazio, ao qual o cúmplice tem acesso. Então, sra. Warren, quais são as novidades?

— Está tudo pronto. Se quiserem subir agora, eu os conduzirei até lá. Ê melhor deixarem os sapatos aqui embaixo.

Ela arranjara um excelente esconderijo. O espelho fora colocado de tal modo que, sentados no escuro, podíamos ver distintamente a porta em frente. Mal nos tínhamos instalado ali, depois de a sra. Warren ter se retirado, um tinir distante anunciou que nosso misterioso vizinho tocara a campainha. Logo em seguida, a senhoria apareceu com a bandeja, colocou-a sobre a cadeira junto da porta fechada e retirou-se a passos firmes. Acocorados um ao lado do outro, no ângulo da porta, não perdíamos de vista o espelho. Subitamente, enquanto o ruído dos passos da sra. Warren se extinguia no andar inferior, ouvimos o ranger de uma chave girando na fechadura, vimos a porta entreabrir-se e duas mãos finas introduziram-se velozes na fresta e levantaram a bandeja da cadeira. Quase no mesmo instante, porém, largaram-na precipitadamente, e eu vislumbrei, numa visão fugidia, um lindo rosto moreno, horrorizado, fitando a estreita abertura da porta do quarto onde nos encontrávamos. Em seguida, a porta fechou-se com estrondo, a chave girou novamente na fechadura e tudo ficou em silêncio. Holmes puxou-me pela manga do casaco e juntos descemos sorrateiramente a escada.

— Voltarei à noitinha — disse ele para a sra. Warren, que nos esperava, ansiosa.

— Creio, Watson, que poderemos discutir melhor a situação em nossa casa. “Minha hipótese, como vê, provou estar certa”, observou-me, falando das profundezas de sua cômoda poltrona. “Houve uma substituição de inquilinos. O que não previ, Watson, era que fôssemos encontrar uma dama e, por sinal, uma dama invulgar.”

— Ela nos viu.

— De qualquer modo, viu algo que a alarmou. Isso é evidente. A seqüência dos acontecimentos parece agora bastante clara, não acha? Um casal procura refúgio em Londres devido a um perigo terrível e iminente. Podemos avaliar esse perigo pelo rigor de suas precauções. O homem tem um trabalho qualquer que precisa executar, e deseja conservar a mulher rodeada de segurança, enquanto desempenha sua missão. O problema não era fácil, e no entanto ele o resolveu de maneira original, e com tanta eficiência, que a presença da mulher é desconhecida até da dona da casa, encarregada de lhe levar as refeições. Explicam-se, assim, as mensagens em letra de forma: serviam para impedir que lhe descobrissem o sexo pela caligrafia. O homem não podia aproximar-se da mulher, pois desse modo a deixaria à mercê de seus inimigos. Sem possibilidade de se comunicar diretamente com ela, recorreu à coluna especial de um diário. Até aqui, tudo está claro.

— Mas o que há por trás disso tudo?

— Ah! Muito bem, Watson! Você, como sempre, se mostra essencialmente prático! O que há por trás disso tudo? O problema da sra. Warren, extravagante e algo cômico na aparência, aumenta de proporções e assume um aspecto mais sinistro à medida que avançamos em nossas pesquisas. Uma coisa podemos afirmar: não se trata de um simples caso de fuga amorosa. Você viu a expressão no rosto daquela mulher diante do possível perigo. Por outro lado, sabemos da agressão contra o dono da casa, a qual, sem dúvida, se destinava ao pensionista. Tais pormenores, e o impenetrável segredo de que procuram rodear-se, fazem-nos acreditar que estamos diante de um caso de vida ou morte. O ataque contra o sr. Warren demonstra ainda que os próprios inimigos, sejam quem forem, não deram pela troca de inquilinos. O caso é muito curioso e complexo, Watson.

— Que razão tem você para levar avante a investigação? Que terá a ganhar com isso?

— Ora essa! E o amor à arte, Watson? Suponho que, quando você se formou, teve ocasião de estudar casos sem pensar na parte pecuniária.

— Tratava-se de enriquecer minha cultura, Holmes.

— Não há limite para a cultura, Watson. Ela constitui uma série de lições, das quais a maior é sempre a última. Esse é um caso instrutivo. Ainda que não me traga dinheiro, nem fama, vale a pena resolvê-lo. Ao anoitecer, teremos dado mais um passo para sua completa elucidação.

Quando regressamos à casa da sra. Warren, a vaga tristeza de uma noite hibernal adensara-se numa cortina cinzenta, que envolvia tudo na monotonia de sua cor mortiça, quebrada aqui e ali pêlos nítidos retângulos amarelos das janelas iluminadas e pela claridade baça dos lampiões de gás. Ao espreitarmos pela janela, do interior sombrio da sala de estar da pensão, uma luz mais tênue tremeluziu alta na escuridão da noite.

— Alguém se move naquele quarto — murmurou Holmes, encostando o rosto magro e atento à vidraça. — Sim, vejo sua sombra. Ei-lo de novo! Tem uma vela acesa na mão. Está olhando para cá. Quer ter a certeza de que ela está alerta. Agora começa a fazer sinais com a luz. Tome nota também da mensagem, Watson, a fim de que possamos comparar depois os resultados. Um lampejo apenas — é um a certamente. Atenção, agora! Quantos contou? Vinte. Exatamente, deve significar T. E agora? Outro T. Provavelmente, vai iniciar uma segunda palavra. Adiante… TENTA. Parou. Não pode ter acabado! ATTENTA não tem sentido em inglês. Nem dividindo em três palavras. . . AT. TEN. TA, salvo se T.A. corresponde às iniciais de alguém. Lá está ele de novo! Mas o que é isso? ATTE… Com os diabos! Trata-se ainda da mesma mensagem. Estranho, Watson, muito estranho! Ei-lo que recomeça! AT…ora, está repetindo a mesma coisa pela terceira vez. ATTENTA, três vezes! Quantas mais irá repetir? Não, parece ter terminado. Retirou-se da janela. Que pensa disso, Watson?

— Parece-me uma mensagem cifrada, Holmes.

O meu companheiro soltou de súbito uma gargalhada.

— E não muito obscura, Watson — observou. — Foi transmitida em italiano, é claro! O A final significa que era dirigida a uma mulher. “Cuidado! Cuidado! Cuidado!” Que lhe parece, Watson?

— Creio que você acertou.

— Não pode ser outra coisa. É uma mensagem urgentíssima, repetida três vezes para chamar a atenção. Mas cuidado com quê? Espere um pouco; ele se aproxima novamente da janela.

Avistamos outra vez o perfil indistinto de um homem agachado, e o tremeluzir da chamazinha através da janela, dando início aos sinais. Seguiam-se mais rápidos do que antes — tão rápidos que se tornava difícil contá-los.

— PERICOLO… PERICOLO… Ei, o que quer dizer isso, Watson? “Perigo”, não é? Sim, por Deus! A coisa é grave. Lá está de novo! PERI. Ora essa, que diabo…

A luz se extinguira repentinamente, o quadrilátero brilhante da janela desaparecera, e o terceiro andar formava uma faixa escura ao redor do alto edifício, em contraste com as demais fileiras de vidraças cintilantes. Aquele último grito de alarme fora cortado de modo imprevisto. Como e por quem? Idêntico pensamento ocorreu-nos a ambos no mesmo instante. Holmes pôs-se subitamente de pé, como que impulsionado por uma mola.

— Isso é sério, Watson — gritou. — Algo anormal está acontecendo ali! Por que motivo semelhante mensagem seria interrompida? Eu devia avisar a Scotland Yard… mas não temos tempo a perder.

— Quer que chame a polícia?

— Precisamos primeiro definir melhor a situação. Talvez ofereça uma interpretação mais inocente. Vamos, Watson, atravessemos a rua e vejamos se conseguimos resolvê-la sozinhos.

II

Enquanto nos apressávamos ao longo da Howe Street, lancei um olhar por cima do ombro para o prédio que tínhamos deixado, e ali avistei, vagamente recortada contra a janela do andar superior, a sombra de uma cabeça, uma cabeça feminina, em atitude tensa, rígida, esperando ansiosamente, na escuridão da noite, pelo prosseguimento daquela mensagem interrompida. À porta do prédio de apartamentos da Howe Street estava encostado um homem embuçado num grosso sobretudo. Quando a luz do vestíbulo iluminou nossos rostos, ele estremeceu.

— Holmes! — exclamou.

— Você aqui, Gregson? — bradou meu companheiro, apertando a mão do policial da Scotland Yard. — Os namorados voltam sempre a encontrar-se! Que motivo o traz aqui?

— Suponho ser o mesmo que o trouxe — respondeu Gregson —, embora não consiga compreender o que o colocou nesta pista.

— Fios diferentes da mesma meada. Estive interceptando sinais.

— Sinais?

— Sim, daquela janela. Interromperam-se de repente, e aqui viemos para saber a causa. No entanto, desde que o caso está em suas mãos, não vejo razão para continuar minhas pesquisas.

— Espere um pouco! — disse Gregson com ansiedade. — Devo fazer-lhe justiça, sr. Holmes, ao afirmar-lhe que sempre me senti mais capaz quando o tinha a meu lado. Esta casa tem apenas uma saída; ele não pode escapar.

— Ele, quem?

— Ah! Vejo que pelo menos por uma vez nos adiantamos. Não pode deixar de reconhecer que estamos na pista certa.

Ao dizer isso, bateu fortemente com a bengala no chão. No mesmo instante, um cocheiro, empunhando um chicote, saltou de uma carruagem estacionada do lado oposto da rua e aproximou-se de nós.

— Permita-me que lhe apresente o sr. Sherlock Holmes — disse, dirigindo-se ao novo personagem.

— Este é o sr. Leverton, da Agência Americana Pinkerton.

— O herói do mistério da caverna de Long Island? — indagou Holmes. — Tïnho imenso prazer em conhecê-lo.

O americano, jovem calmo e prático, de rosto anguloso e bem-escanhoado, corou a essas palavras elogiosas.

— Estou empenhado no caso mais importante de minha carreira, sr. Holmes. Se conseguir prender Gorgiano…

— Como! O Gorgiano do Círculo Vermelho?

— Oh! Pelo que vejo, sua fama já chegou à Europa! Bem, soubemos de tudo a respeito dele na América. Sabemos com segurança que é responsável por mais de cinquenta assassinatos, mas não temos ainda em mãos nada de positivo que permita prendê-lo. Tenho-o seguido desde Nova York, e há uma semana que não o perco de vista em Londres, à espera do mais leve pretexto para agarrá-lo. O sr. Gregson e eu acompanhamos seus passos até aqui, e, como há somente uma saída nesta casa, ele não poderá escapar. Desde que entrou, já saíram três pessoas, mas poderia jurar que ele não era nenhuma delas.

— O sr. Holmes referiu-se a sinais — observou Gregson. — Espero que, como de costume, esteja a par de muita coisa por nós ignorada.

Em rápidas e precisas palavras, Holmes explicou a situação tal como se nos apresentava. O americano bateu com os punhos fechados um no outro, sem poder conter seu desapontamento.

— Ele notou nossa presença! — exclamou.

— Por que diz isso?

— Ora, a situação é clara, não lhe parece? Ele estava enviando mensagens a um cúmplice: há vários deles em Londres. Subitamente, como o senhor acaba de afirmar, quando o avisava de que havia perigo, interrompeu-se. Isso só pode significar que nos avistou na rua ou compreendeu a iminência do risco, e portanto devia agir sem demora a fim de evitá-lo. Qual é sua opinião, sr. Holmes?

— Que subamos já para nos inteirarmos pessoalmente de tudo quanto aconteceu.

— Mas não temos mandado de prisão contra ele!

— Ele se encontra num apartamento desocupado, em circunstâncias suspeitas — lembrou Gregson. — De momento, é o suficiente. Depois de lhe termos posto a mão em cima, veremos se Nova York não pode ajudar-nos a metê-lo na cadeia. Por ora, assumo a responsabilidade de sua prisão. Aos nossos investigadores pode faltar inteligência; nunca, porém, coragem.

Gregson subiu as escadas para prender aquele temível assassino com a mesma calma e naturalidade de movimentos com que teria subido a escadaria principal da Scotiand Yard. O homem da Pinkerton tentou tornar-lhe a dianteira, mas Gregson manteve-o com firmeza atrás de si.

Os perigos de Londres eram privilégio da polícia londrina. A porta do apartamento da ala esquerda do terceiro andar estava entreaberta. Gregson escancarou-a. Dentro, tudo era silêncio e trevas. Risquei um fósforo e acendi a lanterna do policial. Ao fazê-lo, e no momento em que a luzinha trêmula se transformou numa boa chama, todos soltamos uma exclamação sufocada de surpresa. Sobre as tábuas nuas do soalho havia um rasto de sangue fresco. As pegadas rubras estavam voltadas para nós e provinham de outra sala interior, cuja porta se encontrava fechada. Gregson escancarou-a com um empurrão e iluminou o local com a luz clara da lanterna, enquanto todos nós olhávamos ansiosos por cima de seus ombros.

No meio do pavimento da sala vazia, encontrava-se, em desalinho, o corpo de um homem de estatura avantajada, cujo rosto moreno, irrepreensivelmente barbeado, se contraía num esgar terrível e grotesco. Sua cabeça estava no meio de uma enorme poça de sangue, que se estendia, num amplo círculo úmido, pelas tábuas de madeira clara. Tinha os joelhos encolhidos, as mãos espalmadas num gesto de agonia, e do meio de seu pescoço largo e trigueiro, inclinado para trás, surgia o cabo branco de um punhal, profundamente enterrado na carne. Apesar da compleição gigantesca, o homem devia ter caído fulminado, como um boi no matadouro, sob aquele tremendo golpe. No soalho, junto de sua mão direita, via-se uma enorme adaga de dois gumes e cabo de chifre, e, ao lado dela, uma luva preta de pelica.

— Santo Deus! É Black Gorgiano em pessoa! — gritou o agente americano. — Alguém se antecipou a nós desta vez.

— Aqui está a vela, sr. Holmes, no parapeito da janela — disse Gregson. — Mas que diabo o senhor está fazendo?

Holmes atravessara o quarto, acendera a vela e movia-a de um lado para o outro por trás da vidraça. Depois, espreitou para fora, através da escuridão, apagou a vela e atirou-a ao chão.

— Creio que isto vai nos ser útil — disse.

Voltou para junto de nós e ficou absorto em seus pensamentos, enquanto os dois profissionais examinavam o cadáver.

— O senhor disse que viu três pessoas saindo do prédio quando estava à espera lá embaixo? — perguntou, afinal.

— Observou-as de perto?

— Observei.

— Havia entre elas um homem de cerca de trinta anos, barba preta, moreno e de estatura mediana?

— Sim; foi o último a sair.

— Se não me engano, é esse o homem. Posso dar-lhe a descrição, e, além disso, possuímos um excelente exemplar de sua pegada. Isso deve bastar-lhe.

— Parece-me pouco, sr. Holmes, entre os milhões de habitantes de Londres.

— É provável. Foi por esse motivo que julguei conveniente chamar esta senhora em seu auxílio.

Ao ouvi-lo, todos nos voltamos subitamente. No limiar da porta via-se uma mulher alta e bela — a misteriosa pensionista de Bloomsbury. A passos vagarosos penetrou no quarto, com o rosto pálido e angustiado, sem desviar os olhos do vulto sombrio estendido no soalho.

— Os senhores o mataram! — balbuciou. — Oh! Dio mio! Os senhores o mataram!

Mas, de súbito, inspirou profundamente e deu um pulo de alegria. Pôs-se a bailar ao redor do aposento, batendo as mãos, ao passo que seus olhos brilhavam de satisfação e a boca deixava escapar uma torrente de graciosas exclamações em italiano. Impressionava e surpreendia ao mesmo tempo ver uma mulher como aquela dominada por tamanho contentamento diante de tal espetáculo. Parou repentinamente e fitou-nos com ar interrogativo.

— Mas quem são os senhores? São da polícia, não é verdade? Mataram Giuseppe Gorgiano. Não foi assim?

— Somos realmente da polícia, minha senhora.

Ela olhou em torno de si, perscrutando as trevas do quarto.

— Mas onde está Gennaro, então? — indagou. — Gennaro é meu marido. Gennaro Lucca. Chamo-me Emilia Lucca e somos ambos de Nova York. Onde está Gennaro? Há pouco, ele me chamou daquela janela e corri para cá sem demora.

— Fui eu quem a chamou — explicou Holmes.

— O senhor! Como?

— Seu código não era muito difícil. Sua presença aqui tornava-se necessária, e sabia que bastava dizer-lhe “Vieni” para fazê-la vir imediatamente.

A formosa italiana olhou estupefata para meu companheiro.

— Não compreendo como pôde saber disso. Como foi então que Giuseppe Gorgiano…

Ela estacou de repente e seu rosto se iluminou de orgulho e satisfação.

— Ah! Agora compreendo! Meu Gennaro! Meu incomparável, meu esplêndido Gennaro, que me tem protegido de todos os perigos, foi ele quem, com sua mão vigorosa, abateu o monstro! Oh! Gennaro, como você é maravilhoso! Que mulher poderá jamais ser digna de tal homem?

— Ouça, sra. Lucca — disse o prosaico Gregson, segurando-a pela manga do vestido, com a mesma falta de consideração com que o faria a um vagabundo qualquer de Notting Hill. — Ainda não compreendi bem quem é e o que faz aqui, mas entendi o suficiente para saber que temos necessidade de sua presença na Scotland Yard.

— Um momento, Gregson — interpôs Holmes. — Calculo que esta senhora esteja tão ansiosa por prestar-nos informações como nós estamos por ouvi-la. A senhora já percebeu que seu marido será preso e processado pela morte desse homem? Tudo quanto disser poderá ser usado como testemunho contra ele. No entanto, se julga que seu marido agiu por motivos não criminosos, não lhe será possível prestar melhor serviço do que contar-nos os fatos com todas as suas minúcias.

— Agora que Gorgiano está morto, não tememos mais nada — replicou. — Ele era um demónio, um verdadeiro monstro, e não haverá juiz no mundo que ouse punir meu marido por tê-lo liquidado.

— Nesse caso — observou Holmes —, parece-me aconselhável fecharmos esta porta à chave, deixarmos as coisas como as encontramos e acompanharmos esta senhora até seu quarto, a fim de tirarmos nossas conclusões do que ela tem a dizer.

Meia hora mais tarde, estávamos todos sentados na saleta da sra. Lucca, ouvindo a emocionante narrativa dos sinistros acontecimentos de cujo desfecho fôramos testemunhas fortuitas. Ela falava num inglês rápido e fluente, mas muito desajeitado, ao qual, por amor à clareza, procurarei dar forma gramatical.

— Nasci em Posilippo, perto de Nápoles — principiou —, sou filha de Augusto Barelli, que foi decano dos advogados napolitanos e, em certa ocasião, deputado por aquela região. Gennaro era empregado de meu pai, e eu me enamorei dele, como acontece a qualquer mulher. Ele não tinha dinheiro nem posição… unicamente sua beleza, força e energia, e por isso meu pai foi contrário a nosso casamento. Fugimos juntos, casamo-nos em Bari e vendemos minhas jóias, a fim de obtermos o dinheiro necessário para ir à América. Isso sucedeu há quatro anos, e desde então temos vivido sempre em Nova York.

“A princípio, a sorte nos foi favorável. Gennaro teve a oportunidade de prestar dm favor a um senhor italiano, salvando-o das garras de malfeitores num lugar chamado Bowery. Conseguiu assim um amigo poderoso, que se chamava Tito Castalotte e era o sócio mais importante da grande firma Castalotte & Zamba, a principal importadora de frutas de Nova York. O sr. Zamba é doente, e nosso novo amigo Castalotte exerce plenos poderes na firma, que tem a seu serviço mais de trezentos funcionários. Contratou meu marido, nomeou-o chefe de seção e demonstrou-lhe de todas as maneiras sua benevolência. Castalotte era solteirão, e creio que considerava Gennaro como seu filho, do mesmo modo que eu e meu marido lhe queríamos como a um pai. Tínhamos alugado e mobiliado uma casinha no Brookiyn, e o futuro parecianos assegurado, quando surgiu a nuvem negra que em breve haveria de toldar completamente o céu.

“Certa noite, ao voltar do trabalho, Gennaro trouxe consigo um compatriota nosso, cujo nome era Gorgiano e que também viera de Posilippo. Possuía um físico avantajado, como viram pelo seu cadáver. Mas não tinha somente o corpo agigantado; tudo nele era grotesco, imenso e terrífico. Sua voz ressoava em nossa casa como o fragor do trovão. Mal havia espaço para a gesticulação de seus enormes braços, enquanto falava. Todas as ideias, sentimentos e paixões daquele homem eram exagerados e monstruosos. Falava, ou melhor, rugia com tal força que seus interlocutores não podiam fazer outra coisa senão ouvi-lo, calados, esmagados por aquela tremenda torrente de palavras. Flamejavam-lhe os olhos ao fitar alguém, fazendo com que se ficasse completamente à sua mercê. Era ao mesmo tempo extraordinário e assustador. Dou graças a Deus por ele estar morto!

“Visitava-nos com freqüência, e eu percebia que Gennaro não se sentia mais feliz do que eu em sua presença. Meu pobre marido ficava sentado, pálido e abstraído, ouvindo suas infindáveis divagações insensatas sobre política e questões sociais. Gennaro não dizia nada, mas eu, que o conhecia muito bem, podia ler-lhe no rosto certa angústia que jamais lhe notara. A princípio julguei tratar-se de simples aversão; depois, gradualmente, compreendi que era algo muito mais forte. Era medo — um medo profundo, secreto, incontrolável. Naquela noite — a noite na qual me compenetrei do terror que o devorava —, pus-lhe os braços em redor do pescoço e supliquei-lhe, em nome do amor que me devotava e de tudo o que lhe era caro, que não me ocultasse o motivo pelo qual a presença daquele brutamontes tanto o transtornava.

“Ele me contou, e, ao ouvi-lo, senti um frio intenso invadir-me o coração. Meu pobre Gennaro, nos primeiros tempos de sua juventude atormentada e infeliz, quando o mundo inteiro parecia voltar-se contra ele e as injustiças da vida quase o enlouqueciam, filiara-se a uma sociedade napolitana denominada Círculo Vermelho, ligada à dos antigos carbonários. Os juramentos e os segredos dessa fraternidade eram espantosos, e, uma vez admitido em seu seio, nenhum homem podia evadir-se. Quando fugimos para a América, Gennaro pensou que se desligara dela para sempre. Qual não foi, pois, seu horror, quando deparou certa noite, na rua, com o próprio homem que o iniciara em Nápoles, o gigante Gorgiano, conhecido no sul da Itália pelo cognome ‘Morte’, pois tinha os braços tintos do sangue de incontáveis assassinatos. Transferira-se para Nova York a fim de evitar a polícia italiana, e estabelecera uma filial daquela terrível sociedade na terra que o acolhera. Tudo isso Gennaro me contou, e chegou a mostrar-me um convite que recebera naquele mesmo dia, encabeçado por um círculo vermelho, para uma reunião em determinado dia, à qual sua presença não era simplesmente solicitada, mas imposta.

“Isso já era bastante mau, mas o pior ainda estava por vir. Tinha notado, há algum tempo, que quando Gorgiano ia visitar-nos, o que fazia quase todas as noites, se dirigia constantemente a mim; e, mesmo ao falar com meu marido, aqueles olhos flamejantes, aterradores, bestiais, estavam sempre voltados para minha pessoa. Uma noite, finalmente, seu segredo desvendou-se. Eu despertara em seu íntimo o que ele chamava ‘amor’ — amor de bruto, de selvagem. Gennaro ainda não regressara a casa quando ele chegou. Entrou de modo arrebatado, apertou-me nos seus braços de gorila contra o peito, cobriu-me de beijos e implorou-me que fugisse com ele. Eu me debatia e gritava, quando Gennaro apareceu e se atirou ao monstro. Mas Gorgiano, com um murro, prostrou-o sem sentidos e fugiu de nossa casa, aonde nunca mais voltou. Foi um inimigo mortal que arranjamos naquela noite.

“Poucos dias mais tarde, efetuou-se a reunião. Gennaro voltou com uma fisionomia que sugeria ter ocorrido algo terrível. A coisa ia muito além do que poderíamos imaginar. Os fundos da organização provinham do dinheiro extorquido a italianos ricos, os quais eram ameaçados de violências se se recusassem a contribuir. Parece que tinham feito isso com Castalotte, nosso amigo e benfeitor… Este não só se recusara a ceder às ameaças, mas levara o caso ao conhecimento da polícia. Os bandidos resolveram por isso castigá-lo, de modo a fazer dele um exemplo capaz de intimidar qualquer outra vítima. De fato, na reunião decidira-se fazer com que sua casa fosse pêlos ares com uma explosão de dinamite. Foi tirada a sorte para saber quem se incumbiria de pôr em prática o atentado. Quando enfiava a mão na sacola, Gennaro viu delinear-se no rosto de nosso inimigo um sorriso cruel. Certamente tudo fora preparado, pois foi o disco com o círculo vermelho, o mandato do crime, que ele encontrou ao abrir a mão. Devia matar o melhor amigo ou expor-se, e a mim também, à vingança dos companheiros. Fazia parte de seus métodos infernais punir todo aquele que temiam ou odiavam, não só prejudicando sua própria pessoa, como também as que lhe eram caras, e a certeza disso enchia de terror o espírito do meu infeliz Gennaro e punha-o quase louco de apreensão.

“Passamos toda a noite nos braços um do outro, tentando encorajar-nos mutuamente, a fim de enfrentar os perigos que se nos deparavam. O atentado fora fixado para a noite seguinte. Ao meio-dia, meu marido e eu estávamos a caminho de Londres, não sem avisar nosso benfeitor da ameaça que pairava sobre sua cabeça, e enviar também à polícia informações, a fim de lhe salvaguardar a vida no futuro.

“O resto os senhores já sabem. Tínhamos a certeza de que os inimigos nos acompanhariam como nossas próprias sombras. Gorgiano tinha razões particulares para se vingar, e de resto sabíamos perfeitamente como era capaz de ser desapiedado, astuto e incansável. Tanto a Itália como a América estão cheias de histórias de seu poder espantoso, e nunca, como nesta ocasião, ele deixaria de usá-lo. Meu querido marido aproveitou os poucos dias de calma e segurança que nossa partida repentina nos concedera para me arranjar um esconderijo onde nenhum perigo me ameaçasse. Do seu lado, desejava estar livre para poder manter-se em contato com a polícia americana e com a italiana. Eu própria ignoro onde ou como vivia. O pouco que sabia era através das colunas de um jornal. Certo dia, porém, ao olhar pela janela, notei dois italianos observando a casa, e compreendi que de algum modo Gorgiano descobrira nosso esconderijo. Finalmente, Gennaro disse-me — sempre por intermédio do jornal — que me transmitiria uma mensagem, por meio de sinais, de certa janela. No entanto, quando esses sinais vieram, verifiquei não passarem de advertências, as quais subitamente se interromperam. É evidente para mim, agora, que ele percebeu estar sendo seguido de perto por Gorgiano e que, graças a Deus, se encontrava preparado para enfrentá-lo quando chegasse o momento. E agora, senhores, desejaria saber se temos algo a recear da justiça, e se algum juiz do mundo poderia condenar meu Gennaro pelo que fez!”

— Bem, sr. Gregson — disse o policial americano, dirigindo-se ao agente da Scotland Yard —, não sei qual é o ponto de vista britânico neste caso; julgo, porém, que em Nova York o marido desta senhora receberá um voto unânime de louvor e agradecimento.

— Ela terá de ir comigo à presença do chefe — respondeu Gregson. — Se suas declarações forem confirmadas, não creio que ela ou o marido tenham muito o que temer. Mas, que diabo, o que não consigo atinar, sr. Holmes, é como o senhor se viu metido neste assunto.

— Cultura, Gregson, cultura. Procuro ainda novos conhecimentos na velha universidade. Aí tem, Watson, mais um exemplo trágico e grotesco para juntar à sua coleção. A propósito, que tal uma noitada de Wagner, no Covent Garden? Ainda não são oito horas e, se nos apressarmos, chegaremos a tempo para o segundo ato.

1917
Seu último adeus

1. Vila glicínia § 2. O círculo vermelho
3. Os planos do submarino Bruce-Partington § 4. O detetive agonizante
5. O desaparecimento de Lady Frances Carfax § 6. O pé do diabo
7. Seu último adeus

Ilustrações: Joseph Simpson e H. M. Brock, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock