O desaparecimento de Lady Frances Carfax

Arthur Conan Doyle

O desaparecimento de Lady Frances Carfax

Título original: The Disappearance of Lady Frances Carfax
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine, em Dezembro de 1911,
com 5 ilustrações de Alec Ball
e na American Magazine em Dezembro de 1911
com 5 ilustrações de Frederic Dorr Steele.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Disappearance of Lady Frances Carfax publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume V,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Álvaro Pinto de Aguiar.

— Mas por que turco? — perguntou Sherlock Holmes, olhando fixamente para minhas botinas.

Nesse momento, eu estava estirado numa poltrona de vime e, certamente, meus pés estendidos tinham atraído sua sempre vigilante atenção.

— É inglês! — respondi-lhe, algo surpreendido. — Comprei este calçado na Latimer, na Oxford Street.

Holmes sorriu com ar de entediada paciência.

— Refiro-me ao banho! — replicou. — Ao banho! Por que fazer uso do banho turco, dispendioso e debilitante, em vez do revigorante banho doméstico?

— Porque, nestes últimos dias, tenho me sentido velho e reumático. O banho turco é o que nós em medicina chamamos um purificador do sistema. A propósito, Holmes, não duvido de que a relação entre minhas botinas e um banho turco se apresente evidente para um espírito lógico; entretanto, eu lhe ficaria muito grato se a quisesse explicar.

— O raciocínio não é muito obscuro, Watson — respondeu Holmes, piscando-me o olho com ar malicioso. — Pertence à classe de dedução elementar que eu mesmo usaria como ilustração se lhe perguntasse quem lhe fez companhia no passeio de carro desta manhã.

— Não concordo que um novo exemplo seja uma explicação — respondi-lhe com certa aspereza.

— Bravo, Watson! Admoestação muito digna e coerente. Examinemos os pontos de meu raciocínio. Comecemos pelo último: o passeio de carro. Repare que tem a manga e o ombro esquerdo do casaco salpicados de lama. Se se tivesse sentado no meio do banco do carro, provavelmente não ostentaria esses salpicos, e, se tal acontecesse, por certo seriam simétricos. É evidente, portanto, que ficou a um canto, e por isso é também evidente que estava na companhia de alguém.

— Tudo isso é muito claro.

— Absurdamente corriqueiro, não acha?

— Sim, bem vistas as coisas…

— E igualmente pueril. Você costuma atar os cordões das botinas de uma certa maneira. Vejo-os agora atados com um complicado nó duplo, diferente do habitual. Logo, descalçou-as. E quem as atou novamente? Um sapateiro… ou o empregado da casa de banhos. É pouco provável que se trate de um sapateiro, pois seu calçado está quase novo. Que resta então? O banho. Facílimo, não lhe parece? Mas, com tudo isso, o banho turco serviu para alguma coisa.

— Qual?

— Disse-me há pouco que o tinha tomado por sentir necessidade de retemperar as forças. Permita-me que lhe sugira que o faça de maneira completa. Que pensa de uma estada em Lausanne, meu caro… passagens de primeira classe e todas as despesas pagas regiamente?

— Seria esplêndido! Mas por quê?

Holmes recostou-se na poltrona e tirou do bolso seu inseparável livro de notas.

— Uma das classes mais perigosas da sociedade — disse — é a da mulher nômade e sem amigos. É o mais inofensivo e, freqüentemente, o mais útil dos mortais; no entanto, constitui para os outros um inevitável incentivo ao crime. Não conta com a ajuda de ninguém, é migratória; tem meios suficientes para se transferir de um país para outro e de hotel para hotel. Perde-se, muitas vezes, num labirinto de pensões obscuras. É como uma galinha perdida num mundo de raposas. Quando desaparece, quase ninguém lhe sente a falta. Eis por que receio que tenha acontecido alguma desgraça a Lady Frances Carfax.

Senti-me aliviado com essa repentina mudança do geral para o particular. Holmes consultou seus apontamentos.

— Lady Frances — continuou — é a única descendente direta do falecido conde de Rufton. Como talvez se lembre, os bens de raiz couberam à descendência masculina, de forma que ela possui haveres limitados. Herdou, entretanto, grande variedade de antigas jóias espanholas, de prata, e brilhantes, que se recusa a deixar aos cuidados de seu banqueiro, levando-os sempre consigo. É uma figura verdadeiramente patética, essa Lady Frances, uma bela mulher, que conserva ainda um certo viço apesar da idade, mas, por estranho acaso, é a última remanescente do que, há apenas vinte anos, constituía uma ilustre linhagem.

— Mas afinal, o que lhe aconteceu?

— Ah! Isso pergunto eu. Está viva ou morta? Eis nosso problema. Lady Frances é uma senhora metódica e há quatro anos, invariavelmente, de duas em duas semanas, costuma escrever à srta. Dobney, sua velha governanta, há muito aposentada, que mora em Camberwell. Pois foi a srta. Dobney quem veio procurar-me. Há quase cinco semanas não recebe a menor notícia de Lady Frances. A última carta foi escrita do Hotel National, em Lausanne. Ao que parece, Lady Frances deixou esse hotel sem dar o novo endereço. Os parentes estão preocupados, e, como são riquíssimos, não pouparão despesas a fim de esclarecer esse mistério.

— A srta. Dobney é a única fonte de informações que possuímos? Será possível que ela não tivesse outros correspondentes?

— Existe um correspondente que constitui sempre boa fonte de informações, Watson. É o banco. As senhoras solteiras também precisam viver, e seus talões de cheques são verdadeiros diários condensados. Os haveres de Lady Carfax estão depositados no Silvester. Já estive lá examinando sua conta corrente. O penúltimo cheque foi sacado em Lausanne para pagar as despesas do hotel; era, porém, de quantia elevada, e com certeza lhe sobrou muito dinheiro. Apenas um cheque foi sacado depois desse.

— A favor de quem e onde?

— A favor da srta. Marie Devine. Não há nada que indique onde o cheque foi emitido. Foi descontado no Crédit Lyonnais, em Montpeilier, há menos de três semanas. Importava em cinqüenta libras.

— E quem é essa srta. Devine?

— Consegui também descobrir isso. A srta. Marie Devine era criada de Lady Frances Carfax. Por que motivo ela lhe deu esse cheque, ainda não fomos capazes de saber; no entanto, tenho certeza de que suas pesquisas esclarecerão essa particularidade.

— Minhas pesquisas?

— É esse justamente o motivo de sua estada em Lausanne. Você sabe que não posso deixar Londres de forma nenhuma enquanto o velho Abrahams estiver com tanto medo de perder a vida. Além disso, por princípio geral, é melhor que eu não saia do país. A Scotland Yard sente-se abandonada sem mim, e minha ausência provoca sempre uma indesejável agitação nas classes criminais. Vá, pois, meu caro Watson, e se achar que meus humildes conselhos valem a ninharia de dois pence por palavra, eles estarão a seu dispor, dia e noite, nesta extremidade do telégrafo continental.

Dois dias depois, encontrava-me no Hotel National, em Lausanne, onde fui acolhido com as maiores atenções por parte do sr. Moser, seu afamado gerente, o qual me informou que Lady Frances ali estivera hospedada durante várias semanas. Todos os que a tinham conhecido eram unânimes em reconhecer que dela irradiava grande simpatia. Não devia contar mais de quarenta anos. Era ainda bonita, e parecia ter sido muito linda quando jovem. O sr. Moser nada sabia a respeito das jóias, mas as criadas do hotel tinham reparado que uma pesada mala, existente no quarto dessa senhora, se encontrava sempre cuidadosamente fechada à chave. Marie Devine, sua criada, era tão estimada como ela. Ficara noiva de um dos chefes de empregados do hotel, e não havia dificuldade em fornecer seu endereço: Rue de Trajan, número 11, Montpeilier. Tomei nota de tudo isso e tive a sensação de que nem Holmes, em pessoa, teria sido capaz de obter esses dados com maior presteza do que eu.

Todavia, restava ainda um ponto obscuro. Ninguém sabia explicar-me a razão da partida súbita de Lady Frances. Sentia-se muito satisfeita em Lausanne. Tudo fazia crer que estava decidida a permanecer durante toda a estação em seu luxuoso apartamento à beira do lago. No entanto, partira com o aviso de apenas um dia, perdendo uma semana de hospedagem paga adiantadamente. Só Jules Vibart, o noivo da criada, ofereceu uma sugestão. Relacionava a partida repentina com a visita feita ao hotel, um ou dois dias antes, por um homem alto, moreno e barbudo. “Un sauvage…. un véritable sauvage!”, exclamou Jules Vibart. Esse homem hospedara-se num lugar ignorado da cidade. Fora visto conversando animadamente com Lady Frances na avenida marginal do lago. Depois fora visitá-la no hotel, mas ela se recusara a recebê-lo. Era inglês, sem dúvida, mas ninguém soube dizer-lhe o nome. A dama partira logo em seguida. Jules Vibart e, o que era mais importante, sua noiva pensavam que entre a visita e a partida havia uma relação de causa e efeito. Apenas um ponto Jules Vibart não desejava discutir: o motivo pelo qual Marie deixara a patroa. Sobre isso não podia ou não queria dizer nada. Se eu o quisesse saber, teria de ir a Montpeilier e perguntar a ela.

Assim terminou o primeiro capítulo de minhas investigações. O segundo foi dedicado ao lugar para onde se dirigira Lady Frances ao sair de Lausanne. A esse respeito houve um certo segredo, o que vinha confirmar a hipótese de ela ter partido com o propósito de despistar alguém. Caso contrário, por que motivo sua bagagem não fora abertamente endereçada a Baden? Tanto a bagagem como ela própria tinham chegado à estação terminal renana por vias indiretas, segundo informações do gerente local da Agência Cook. Segui, por conseguinte, para Baden, depois de transmitir a Holmes um resumo de minhas diligências, e recebi como resposta um telegrama de congratulações semi-irônico.

Em Baden não me foi difícil acompanhar a pista da desaparecida. Lady Frances estivera hospedada no Englischer Hof por uns quinze dias. Durante sua permanência ali, travara relações com o dr, Schiessinger, missionário que acabara de regressar da América do Sul, e sua esposa. Como acontece à maioria das senhoras solitárias, Lady Frances encontrou lenitivo e trabalho na religião. A personalidade extraordinária do dr. Schiessinger, sua profunda devoção e o fato de estar convalescente de uma moléstia contraída no exercício de seu apostolado, impressionaram-na vivamente. Lady Frances ajudara a sra. Schiessinger a tratar do piedoso enfermo, o qual passava o dia, consoante me contou o gerente do hotel, no alpendre, deitado numa poltrona, sob os olhares vigilantes das duas dedicadas enfermeiras. Estava preparando um mapa da Terra Santa, com referências especiais ao reino dos medianitas, a respeito do qual estava escrevendo uma monografia. Por fim, como sua saúde melhorara, ele e a mulher haviam regressado a Londres, na companhia de Lady Frances. Isso acontecera exatamente três semanas antes, e desde então o gerente de nada mais soubera. Quanto à criada, Marie, partira alguns dias antes, num dilúvio de lágrimas, depois de ter informado às outras criadas que deixava para sempre o serviço de Lady Frances. O dr. Schiessinger, antes de partir, pagara a conta de todos.

— A propósito — concluiu o hoteleiro —, o senhor não é o único amigo de Lady Frances Carfax que se interessa pelo paradeiro dela. Há cerca de uma semana, esteve aqui outra pessoa com o mesmo fim.

— Deixou o nome? — indaguei.

— Não; mas era evidentemente inglês, embora de um tipo pouco comum.

— Um selvagem? — perguntei, relacionando meus dados à maneira de meu ilustre amigo.

— Precisamente. Essa palavra descreve-o à maravilha. É um indivíduo corpulento, barbudo, queimado de sol, que parece achar-se muito mais à vontade numa pensão de província do que num hotel de luxo. Pareceu-me um homem rude, impulsivo, com o qual, por nada no mundo, eu desejaria entrar em conflito.

O mistério já começava a aclarar-se, assim como as figuras se apresentam mais distintas à medida que a névoa se dissipa. Eu me deparava com uma boa e piedosa senhora, perseguida sem descanso por um tipo sinistro, inexorável. Ela o temia, pois do contrário não teria fugido de Lausanne. Ele seguira-a. Cedo ou tarde, ela cairia em seu poder. Talvez já a tivesse nas mãos. Seria esse o motivo do prolongado silêncio? Poderiam seus bondosos companheiros de viagem protegê-la contra a violência ou possível extorsão por parte desse chantagista? Que horrível objetivo, que intenção tenebrosa se ocultaria atrás dessa infindável perseguição? Eis o problema que me competia resolver.

Escrevi a Holmes explicando-lhe a rapidez e a segurança com que atingira o âmago da questão. Recebi, em resposta, um telegrama no qual ele me pedia que descrevesse a orelha esquerda de Schiessinger. O conceito de humor de Holmes é estranho, e às vezes injurioso, por isso não dei atenção ao inoportuno gracejo… Por outro lado, eu já chegara a Montpeilier à procura da criada Marie, antes de receber o telegrama.

Não tive dificuldade em encontrar a ex-criada e em ouvir de seus próprios lábios tudo o que ela sabia. Era muito devotada a Lady Frances, e só a deixara por estar certa de que ficara em boas mãos e também porque, de qualquer modo, seu casamento iminente iria tornar essa separação inevitável. A patroa, conforme me confessou, angustiada, tinha-se mostrado um tanto irritada com ela durante a permanência em Baden, chegando uma vez a interrogá-la, como se duvidasse de sua honestidade, fato esse que tornara a separação mais fácil. Lady Frances dera-lhe cinqüenta libras como presente de núpcias. Como eu, Marie também desconfiava do estranho que fizera a ama abandonar Lausanne. Com os próprios olhos,, vira-o agarrar violentamente a senhora pêlos pulsos na avenida que circundava o lago. Era um homem selvagem e de aspecto terrível. Acreditava que Lady Frances tivesse concordado em acompanhar os Schiessinger até Londres unicamente de medo dele. Jamais falara com Marie a respeito disso; não obstante, numerosos e pequenos indícios tinham-na convencido de que a pobre mulher vivia em estado de permanente apreensão. Ao chegar a esse ponto da narrativa, ergueu-se subitamente da cadeira onde estava sentada, com o rosto contraído num esgar de surpresa e pavor.

— Olhe! — exclamou. — Aquele canalha ainda está aqui! Lá vai a pessoa de quem estou falando.

Através da janela aberta da sala de estar, avistei um homem gigantesco, moreno, com uma hirsuta barba negra, caminhando a passo lento pelo meio da rua e olhando com atenção os números das casas. Era evidente que, como eu, também ele viera em busca da criada. Agindo impulsivamente, corri para a rua e aproximei-me dele.

— O senhor é inglês — disse-lhe.

— E o que tem isso? — perguntou-me, franzindo o sobrolho.

— Posso saber seu nome?

— Não, não pode — respondeu-me secamente.

A situação era embaraçosa; mas o método direto, porém, é muitas vezes o melhor.

— Onde está Lady Frances Carfax? — perguntei.

Ele fitou-me, aturdido.

— O que fez dela? Por que a segue dessa maneira? Exijo uma resposta! — insisti.

O homem lançou um rugido de cólera e atirou-se a mim como um tigre. Tenho demonstrado minha força em mais de uma luta, mas o desconhecido possuía um pulso de ferro e a fúria de um demônio. Sua mão já me comprimia a garganta e eu me sentia desfalecer, quando um operário francês, de barba por fazer e com uma blusa azul, surgiu de um botequim à nossa frente, brandindo um cassetete, com o qual aplicou um violento golpe no antebraço de meu agressor, obrigando-o a largar a presa. Durante alguns instantes, o homem permaneceu arquejante de cólera, indeciso sobre se deveria ou não recomeçar o ataque. Finalmente, com um grunhido feroz, abandonou-me e entrou na casa que eu acabava de deixar. Voltei-me para agradecer a meu salvador, que ficara no meio da rua.

— Bravo, Watson! — disse-me ele. — Bela trapalhada você fez! Acho melhor voltar comigo a Londres, no trem de hoje à noite.

Uma hora mais tarde, Sherlock Holmes, em sua elegância habitual, estava sentado em meu quarto de hotel. A explicação de seu aparecimento inesperado e providencial era simplicíssima. Verificando ser-lhe possível afastar-se de Londres, decidira preceder-me na segunda etapa de minha viagem, e, disfarçado de operário, ficara no botequim à minha espera.

— Bela investigação você fez, e de consistência verdadeiramente notável, meu caro Watson. Com franqueza: neste momento, não consigo recordar-me de nenhum disparate que possa ter omitido. O resultado completo de suas pesquisas foi alarmar meio mundo e não descobrir coisa nenhuma.

— Provavelmente, você não teria feito melhor — repliquei, despeitado.

— Não se trata aqui de “provavelmente”. Eu fiz melhor. Eis ali o sr. Philip Green, seu companheiro de hotel, junto de quem talvez se possa encontrar o ponto de partida para uma investigação mais construtiva. Tinham trazido numa salva um cartão de visita, seguido imediatamente do mesmo velhaco barbudo que me agredira pouco antes na rua. Ao ver-me, estremeceu.

— O que significa isso, sr. Holmes? — indagou. — Recebi seu recado e apressei-me a vir. Mas o que este homem tem a ver com o assunto?

— Este é meu velho amigo e sócio, o dr. Watson, que nos ajuda em nossas pesquisas.

O desconhecido estendeu-me a mão enorme e bronzeada, acompanhando o gesto de breves palavras de desculpa.

— Espero não lhe ter causado nenhum mal. Quando me acusou daquela maneira, perdi a cabeça. Na verdade, não respondo por mim nestes dias. Tenho os nervos à flor da pele, e esta situação põe-me maluco. Contudo, desejo que me diga, antes de mais nada, como, com todos os diabos, conseguiu saber de minha existência.

— Estou em contato com a srta. Dobney, governanta de Lady Frances.

— Ah! A velha Susan Dobney, com sua touca! Lembro-me muito bem dela.

— E ela também se recorda do senhor. Foi um pouco antes… antes de o senhor se convencer de que devia partir para o sul da África.

— Oh! Vejo que sabe de tudo. Não preciso ocultar-lhe nada. Juro-lhe, sr. Holmes, que não havia no mundo homem que amasse tanto uma mulher como eu amava Lady Frances. Era um doidivanas, bem sei… mas não era pior do que os outros jovens de minha condição social. Todavia, sua alma era pura como a neve. Não podia suportar a mais leve sombra de grosseria. Desse modo, quando descobriu tudo quanto eu fizera, já não quis saber de mim. No entanto, ela me amava… e, o que é mais estranho, amava-me a ponto de se conservar solteira, durante toda a sua longa e santa vida, unicamente por minha causa. Agora, passados tantos anos, e depois que fiz fortuna em Barherton, julguei que talvez pudesse procurá-la e enternecê-la. Soube que ainda não tinha se casado. Encontrei-a em Lausanne e fiz tudo para persuadi-la. Creio tê-la comovido, mas, dotada de um espírito forte, abandonou a cidade antes que procurasse pela segunda vez. Descobri que partira para Baden e, depois de algum tempo, soube que sua criada ficara aqui. Sou um tipo rude, recém-saído de uma existência de lutas, e, quando o dr. Watson me dirigiu a palavra daquele modo, fiquei fora de mim. Mas, pelo amor de Deus, diga-me o que aconteceu a Lady Frances.

— É o que nos cumpre averiguar — respondeu Sherlock Holmes com particular gravidade. — Qual e seu endereço em Londres, sr. Green?

— O senhor me encontrará no Langham Hotel.

— Então permita-me aconselhá-lo a ir para lá e ficar à minha disposição até que eu precise de seu auxílio. Não desejo alimentar falsas esperanças, mas pode ficar certo de que farei todo o possível no sentido de salvar Lady Frances. Por ora, não posso dizer mais nada. Deixo-lhe este cartão a fim de que possa manter-se em contato conosco. E agora, Watson, se quiser arrumar a mala, telegrafarei à sra. Hudson para que faça tudo o que lhe estiver ao alcance, amanhã às sete e meia, por dois viajantes famintos.

Ao chegarmos a nosso apartamento da Baker Street, encontramos um telegrama à nossa espera. Holmes leu-o com uma exclamação de interesse e atirou-o a mim. “Cortada ou arrancada”, dizia a curiosa mensagem, cujo lugar de origem era Baden.

— O que isso quer dizer? — perguntei.

— Quer dizer tudo — respondeu Holmes. — Deve lembrar-se de minha pergunta, aparentemente fútil, a respeito da orelha esquerda do dr. Schiessinger, e à qual você não se dignou responder.

— Já tinha deixado Baden, e não me foi possível obter informações.

— Exato. Por esse motivo expedi um segundo telegrama ao gerente do Englischer Hof, e aí está a resposta.

— E o que significa?

— Significa, meu caro Watson, que estamos tratando com um homem excepcionalmente astuto e perigoso. O reverendíssimo dr. Schiessinger, missionário de regresso da América do Sul, não é outro, senão Holy Peters, um dos mais perigosos patifes que a Austrália já produziu… e vale a pena lembrar que, como país jovem, tem apresentado exemplares dos mais perfeitos. Sua especialidade é insinuar-se junto a senhoras solitárias, explorando-lhes o sentimento religioso. A mulher que passa por sua esposa é uma inglesa, de nome Fraser, e é sua digna companheira. A tática empregada, que lhe é característica, sugeriu-me sua identidade; o defeito físico (foi mordido na orelha numa luta de botequim, em Adelaide, em 1889) confirmou-me a suspeita. Essa pobre senhora está nas mãos de um casal satânico, capaz de tudo, Watson. A hipótese de que já esteja morta é muito viável. Caso contrário, deve estar, sem dúvida, prisioneira e impossibilitada de escrever, seja à srta. Dobney, seja a qualquer outro de seus amigos. É muito provável que nem tenha chegado a Londres ou que tenha apenas atravessado a cidade; contudo, a primeira suposição é improvável, pois, dado o sistema de registro, não é fácil a estrangeiros burlar a vigilância da polícia continental. Por outro lado, a segunda hipótese é igualmente inverossímil, porque esses patifes não podiam encontrar um lugar melhor do que Londres para manter alguém cativo. Tudo me leva a afirmar que ela se encontra em Londres, mas, como não possuímos de momento nenhum meio de saber o local, nada nos resta senão tomar as providências necessárias, jantar calmamente e munir-nos de paciência. À noitinha, darei um pulo até a Scotland Yard, a fim de trocar idéias com nosso amigo Lestrade.

No entanto, nem a polícia oficial, nem a pequena mas eficaz organização de Holmes conseguiram lançar maior luz sobre o mistério. Entre os milhões de habitantes que se agitam em Londres, os três que procurávamos eram tão invisíveis como se jamais tivessem existido. Foram feitas tentativas através de anúncios nos jornais, sem resultado. Foram seguidas pistas que falharam completamente. Todos os lugares escusos onde Schiessinger pudesse ser encontrado foram vasculhados em vão. Todos os seus antigos companheiros foram seguidos; estes, porém, não foram vistos com ele. Finalmente, depois de uma semana de pesquisas inúteis, brilhou um raio de luz. Na casa de penhores Bevington, na Westminster Road, foi empenhado um pingente de prata e brilhantes lavrado em antigo estilo espanhol. O homem que o empenhara era corpulento, calvo e de aparência eclesiástica. Verificou-se que tanto o nome como o endereço eram falsos. A orelha escapara à atenção do empregado, mas a descrição correspondia, sem sombra de dúvida, a Schiessinger.

Nosso barbudo amigo do Langham Hotel viera três vezes em busca de notícias — a terceira, uma hora depois de recebermos a inesperada informação. Suas roupas, pouco a pouco, ficaram folgadas para o corpo emagrecido. Definhava de ansiedade a olhos vistos. “Se ao menos me dessem alguma coisa para fazer!”, era seu lamento habitual. Holmes, finalmente, estava em condições de lhe satisfazer a vontade.

— Começou a empenhar as jóias; talvez, agora, consigamos apanhá-lo.

— Mas isso significa que aconteceu alguma desgraça a Lady Frances?

Holmes acenou gravemente com a cabeça.

— Suponho que a tenham mantido prisioneira até agora; é evidente que não poderão libertá-la sem comprometerem a própria segurança. Devemos estar preparados para o pior.

— Que devo fazer?

— Essa gente não o conhece de vista?

— Não.

— É possível que no futuro eles procurem outra casa de penhores. Nesse caso, precisamos começar tudo de novo. Por outro lado, adiantaram-lhe um bom dinheiro pela jóia, sem lhe fazer perguntas; portanto, se ele necessitar de dinheiro com urgência, voltará provavelmente à Bevington. Com uma apresentação minha, ser-lhe-á permitido ficar à espreita na loja. Se o homem aparecer, siga-o até sua casa. Nada de indiscrições, porém, e principalmente, nada de violência. Dê-me sua palavra de honra de que não dará um passo sem que eu o saiba e sem meu consentimento.

Durante dois dias, o nobre barão Philip Green (devo mencionar que ele era filho do famoso almirante do mesmo nome, que comandou a esquadra do mar de Azof, na Guerra da Criméia) não nos trouxe a menor notícia. Na noite do terceiro dia, irrompeu pela nossa sala de estar, pálido, trêmulo, cada músculo vibrante de emoção.

— Nós o descobrimos! Nós o descobrimos! — berrou.

A agitação tornava-o incoerente. Holmes tratou de acalmá-lo e fê-lo sentar-se numa poltrona.

— Vamos, conte-nos por ordem tudo o que aconteceu.

— Apareceu há apenas uma hora; desta vez foi a mulher, mas o pingente que tinha nas mãos era igualzinho ao outro. É uma mulher alta, descorada, com olhos de furão.

— Sim, é ela — confirmou Holmes.

— Quando saiu, pus-me a segui-la. Dirigiu-se para a Kennington Road e eu a acompanhei de perto. Pouco adiante, entrou numa loja. Uma empresa funerária, sr. Holmes!

Meu companheiro estremeceu.

— E então? — perguntou com aquela voz vibrante que revela, por trás da máscara impassível, a alma em tumulto.

— Começou a conversar com uma mulher que se encontrava atrás do balcão. Entrei. “Está demorando”, ouvi-a dizer. A mulher do balcão desculpou-se: “Já devia ter sido entregue. Levou mais tempo por ser de tamanho invulgar”. Ambas pararam de falar e olharam para mim. Fiz uma pergunta qualquer e saí.

— O senhor portou-se de maneira brilhante. Que aconteceu depois?

— A mulher abandonou a loja, mas eu me ocultara na entrada de uma casa vizinha. Acredito que lhe despertei suspeitas, pois lançou um olhar em redor. Em seguida, chamou um carro e partiu. Tive a sorte de encontrar outro e segui-a. Desceu por fim em frente à casa número 36 da Poultney Square, em Brixton, Continuei até a esquina, onde deixei o carro, e pus-me à espreita.

— Viu alguém?

— As janelas estavam às escuras, exceto uma no andar térreo. A cortina, porém, estava abaixada, e não me foi possível distinguir nada lá dentro. Encontrava-me ali, sem saber o que fazer, quando vi parar uma carroça coberta, com dois homens na boleia. Estes apearam, tiraram alguma coisa do interior do veículo e transportaram-na até os degraus da porta de entrada. Sr. Holmes, era um caixão de defunto.

— Oh!

— Por um instante, estive a ponto de me atirar para dentro da casa. A porta fora aberta a fim de dar passagem aos dois homens e à sua carga. Enquanto me encontrava ali, a mulher que os fizera entrar avistou-me, e desconfio que me reconheceu. Vi-a estremecer e fechar rapidamente a porta. Lembrei-me, então, do que prometera ao senhor, e aqui estou.

— Seu trabalho foi excelente — disse Holmes, rabiscando algumas palavras numa folha de papel. — Não podemos empreender nenhuma ação legal sem um mandado, e o senhor não poderá prestar melhor ajuda do que levar este bilhete às autoridades e conseguir-nos um. Talvez encontre certa dificuldade em obtê-lo, mas creio que a venda das jóias é motivo suficiente. Lestrade cuidará dos pormenores.

— Mas eles podem assassiná-la enquanto isso. O que poderia significar o caixão, e para quem seria ele senão para Lady Frances?

— Tentaremos tudo o que for possível, sr. Green. Não perderemos tempo. Deixe o caso em nossas mãos. E agora, Watson — acrescentou Holmes, enquanto nosso cliente se afastava apressado —, ele porá em ação a polícia regular. Nós, como de costume, somos os irregulares, e devemos escolher nosso próprio modo de agir. A meu ver, a situação é de tal forma desesperadora que justifica o emprego de medidas extremas. Precisamos ir à Poultney Square sem perda de tempo.

“Procuremos reconstituir a série de ocorrências”, continuou, enquanto nosso carro passava velozmente defronte ao edifício do Parlamento, em direção à Ponte de Westminster. “Aqueles patifes induziram a pobre senhora a acompanhá-los a Londres, depois de a terem separado de sua fiel criada. Ainda que tivesse escrito algumas cartas, teriam sido interceptadas. Por intermédio de um de seus sequazes, alugaram uma casa mobiliada. Uma vez instalados, fizeram-na prisioneira e apossaram-se de suas jóias, as quais, desde o início, constituíram seu objetivo. Já começaram a vender parte delas, e devem sentir-se seguros, pois não têm motivos para pensar que alguém possa interessar-se pela sorte de Lady Frances. Se a libertassem, ela certamente os denunciaria; portanto, torna-se para eles questão de vida ou morte mantê-la aprisionada. Mas, por outro lado, não podem conservá-la eternamente fechada à chave. Logo, seu assassinato é a única saída que lhes resta.”

— Isso parece-me perfeitamente claro.

— Façamos, agora, outro raciocínio. Quando seguimos duas seqüências distintas de idéias, Watson, encontramos sempre algum ponto de intersecção que pode nos aproximar da verdade. Comecemos não por Lady Frances, mas pelo caixão, e raciocinemos na ordem inversa. O incidente indica com evidência, creio eu, que ela está morta. Isso também vem demonstrar-nos que será sepultada com atestado de óbito e os demais documentos exigidos por lei. Se eles a tivessem assassinado, tê-la-iam, sem dúvida, enterrado num buraco feito nos fundos da casa. No entanto, esse caso está sendo realizado às claras, regularmente. O que isso quer dizer? Evidentemente, mataram-na de modo a simular morte natural e enganar o médico… envenenando-a, talvez. Todavia, acho estranho o fato de deixarem um médico aproximar-se dela, a não ser que faça também parte da quadrilha, hipótese que não me parece plausível.

— Não poderiam ter arranjado um falso atestado de óbito?

— Seria perigoso, Watson, muito perigoso. Não, não creio que o tenham tentado. Pare, cocheiro. Deve ser aqui a empresa funerária, pois acabamos de passar pela casa de penhores. Quer ir até lá, Watson? Seu aspecto inspira confiança. Pergunte a que horas é o enterro da Poultney Square, amanhã. A mulher da loja respondeu-me sem hesitar que o serviço fúnebre estava marcado para as oito da manhã.

— Como vê, Watson, nada de mistério; tudo claro, límpido, irrepreensível! De qualquer modo, as exigências legais foram preenchidas e eles, claro, nada têm a temer. Bem, temos de tentar um ataque frontal. Está armado?

— Tenho minha bengala.

— Paciência. Havemos de nos sair bem. “Quem peleja por causa justa é três vezes mais forte.” Não podemos de forma nenhuma aguardar a chegada da polícia, nem conservar-nos estritamente dentro da lei. Pode andar, cocheiro. Agora, Watson, confiemos em nossa boa estrela, que já nos protegeu tanto.

Holmes bateu com força na porta de uma casa grande e escura, localizada no centro da Poultney Square, a qual se abriu imediatamente, deixando entrever na penumbra do vestíbulo o vulto alto de uma mulher.

— Que desejam? — perguntou de modo incisivo, olhando-nos com firmeza através das sombras.

— Queremos falar com o dr. Schiessinger — respondeu Holmes.

— Aqui não mora ninguém com esse nome — retrucou a mulher, procurando fechar a porta, no que foi impedida por Holmes, que introduzira o pé entre o batente e a porta.

— Nesse caso, quero falar com a pessoa que mora aqui, seja qual for seu nome — insistiu Holmes, inabalável.

A mulher hesitou um pouco, depois abriu a porta.

— Está bem; podem entrar — disse. — Meu marido não teme ninguém.

Fechou a porta, depois de termos entrado, introduziu-nos numa saleta à direita do vestíbulo, e acendeu o gás, antes de se retirar, dizendo-nos:

— O sr. Peters já virá recebê-los.

Dissera a verdade, pois, mal tivéramos tempo de observar a sala poeirenta e cheia de vestígios de traças, em que nos encontrávamos, quando a porta se abriu um homenzarrão calvo, de rosto cuidadosamente escanhoado, entrou a passos leves. Tinha as faces vermelhas, as bochechas caídas e um certo ar benevolente, que contrastava, porem, com uma boca cruel e implacável.

— Aqui deve haver algum engano, cavalheiros — disse com voz untuosa e acomodatícia. — Devem estar no endereço errado. Talvez na casa ao lado…

— Basta! Não temos tempo a perder — interrompeu meu companheiro com decisão. — O senhor é Henry Peters, de Adelaide, que se fez passar em Baden pelo reverendo dr. Schiessinger, missionário recém-chegado da América do Sul. Tenho tanta certeza disso como de que me chamo Sherlock Holmes.

Peters, como o chamarei daqui em diante, estremeceu e encarou fixamente seu extraordinário adversário.

— Creia, sr. Holmes, seu nome não me atemoriza — replicou com frieza. — Quando um homem tem a consciência em paz, nada pode amedrontá-lo. Que veio fazer em minha casa?

— Desejo saber do destino de Lady Frances Carfax, que o senhor trouxe de Baden em sua companhia.

— Eu lhe ficarei muito grato se puder dizer onde ela se encontra — redargüiu Peters sem titubear. — Emprestei-lhe cerca de cem libras, recebendo como garantia apenas um par de brincos falsos pêlos quais ninguém dá nada. Ela contraiu amizade com minha mulher e comigo em Baden (de fato, nessa ocasião, usava outro nome), e não nos abandonou até virmos para Londres. Paguei-lhe a conta do hotel e a passagem. Uma vez aqui, afastou-se de nós e, como já disse, deixou-nos em pagamento de seu débito essas jóias completamente sem valor. Se conseguir encontrá-la, sr. Holmes, eu lhe ficarei devendo um favor.

— É minha intenção encontrá-la — respondeu Sherlock Holmes. — Darei busca a esta casa até descobri-la.

— Tem em seu poder algum mandado?

Holmes tirou do bolso o revólver.

— Por ora, basta este.

— Então o senhor é um ladrão vulgar.

— Pode pensar o que quiser — replicou Holmes em tom jovial. — Meu amigo é também um bandido perigoso e juntos pretendemos revirar-lhe a casa pelo avesso.

Peters abriu a porta da sala.

— Chame um policial, Annie! — gritou.

Ouvimos um ruge-ruge de vestido feminino no corredor, e o abrir e fechar da porta de entrada.

— Nosso tempo é limitado, Watson. Se tentar deter-nos, Peters, na melhor das hipóteses, ficará ferido. Onde está o caixão de defunto que foi entregue aqui?

— Que quer fazer com ele? Está ocupado; há um defunto dentro.

— Preciso ver esse defunto.

— Jamais o consentirei.

— Então será sem seu consentimento.

Com um movimento rápido, Holmes empurrou-o para um lado e passou para o vestíbulo. Diante de nós havia uma porta entreaberta. Entramos. Era a sala de jantar. Em cima da mesa, sob a luz tênue de um candelabro, jazia o caixão. Holmes acendeu o gás e levantou a tampa do esquife. Quase desaparecida no fundo deste, encontrava-se estendida uma figura emaciada. O forte clarão produzido pela luz de cima iluminava-lhe a face idosa e enrugada. Nem o tratamento mais cruel, nem a fome, nem a gravidade da doença poderiam ter alterado tanto o rosto ainda jovem e belo de Lady Frances. A fisionomia de Holmes traía-lhe o espanto e também o alívio.

— Graças a Deus! É outra pessoa.

— Ah! Desta vez saiu-se mal, meu caro sr. Holmes — disse Peters, que nos seguira.

— Quem é essa morta?

— Pois bem! Se quer sabê-lo, trata-se de uma antiga ama de minha mulher. Chamava-se Rose Spender e fomos encontrá-la no Hospital de Pobres, em Brixton. Trouxemo- Ia para cá, chamamos o dr. Horsom, residente em Firbank Villas, número 13 — não se esqueça de anotar o endereço, sr. Holmes —, e cuidamos dela com carinho, como é dever de todo bom cristão. Ao cabo de três dias, faleceu; o atestado de óbito indicou como causa mortis depauperamento senil. Isso, entretanto, é apenas a opinião do médico, e o senhor, naturalmente, saberá melhor. Encomendamos o funeral à firma especializada Stimson & Co., da Kcnnington Road, que fará o enterro amanha de manha, às oito horas. Haverá algo de extraordinário em tudo isso? Enganou-se redondamente desta vez, sr. Holmes, e a culpa cabe-lhe por inteiro. Daria tudo na vida por uma fotografia de sua cara de idiota ao levantar a tampa do caixão na expectativa de ver Lady Frances Carfax, e ao deparar apenas com uma pobre velha de noventa anos.

A expressão de Holmes mantinha-se impassível diante do sarcasmo de seu antagonista, mas os punhos fechados revelavam-lhe o intenso aborrecimento.

— Vou dar uma busca pela casa — insistiu,

— Ah! Chegaram! — gritou Peters, ao ouvir uma voz de mulher e passos ressoando no corredor. — Isso é o que vamos ver agora. Por aqui, inspetor, façam o favor. Estes homens entraram à força em minha casa e não consigo fazê-los sair. Auxiliem-me a pô-los na rua. Na soleira da porta surgiram um sargento e um guarda. Holmes apresentou-lhes seu cartão.

— Aí está meu nome e endereço. Este é o dr. Watson, um velho amigo.

— Por Deus, sr. Holmes! Nós o conhecemos muito bem — respondeu o sargento. — Mas o senhor não pode permanecer aqui sem um mandado oficial.

— É claro que não posso. Compreendo-o perfeitamente.

— Prenda-o! — berrou Peters.

— Sabemos onde encontrar esse cavalheiro se houver necessidade de prendê-lo — replicou o sargento em tom solene. — Contudo, precisa se retirar, sr. Holmes.

— Vamos, Watson, temos de sair.

Um minuto depois, achávamo-nos de novo na rua. Holmes apresentava-se calmo, como sempre; eu, porém, estava rubro de cólera e humilhação. O sargento havia-nos seguido.

— Sinto muito, sr. Holmes, mas é a lei.

— Fez muito bem, sargento; não poderia agir de outra forma.

— Acredito que tenha havido um motivo justo para sua presença naquela casa. Se lhe puder ser útil…

— Procuramos uma senhora desaparecida que supusemos estar ali. Esperamos um mandado de um momento para outro.

— Nesse caso, ficarei de olhos abertos, e, se suceder alguma coisa, eu lhe comunicarei imediatamente.

Como eram apenas nove horas, continuamos nossas investigações. Dirigimo-nos em primeiro lugar ao Hospital de Pobres de Brixton, onde fomos informados de que efetivamente um casal caridoso ali se apresentara poucos dias antes reclamando uma velha caduca, que diziam ter sido sua antiga criada, e obtiveram permissão de levá-la para casa. Ninguém demonstrou a menor surpresa com a notícia de sua morte.

Fomos, em seguida, à casa do médico. Confirmou ter sido chamado para assistir uma mulher prestes a morrer de pura senilidade. Assistira-lhe ao falecimento e passara o atestado de óbito na mais perfeita forma. “Asseguro-lhes ter decorrido tudo normalmente e não é possível suspeitar de qualquer deslize”, afirmou. Não tinha notado nada de estranho na casa, se bem que achasse curioso gente daquela classe não possuir nenhum criado. Foi tudo quanto ele pôde informar.

Seguimos por fim para a Scotland Yard. Com relação ao mandado, haviam surgido algumas dificuldades processuais. Era inevitável certa demora, pois não seria possível conseguir a assinatura do juiz antes da manhã seguinte. Se Holmes comparecesse lá às nove horas, poderia ir pedi-la, juntamente com Lestrade. Assim terminou o dia. Entretanto, por volta da meia-noite, nosso amigo sargento procurou-nos, a fim de nos avisar que avistara luzes nas janelas da casa; no entanto, não vira ninguém sair ou entrar. Só nos restava munir-nos de paciência e aguardar o dia seguinte.

Sherlock Holmes estava por demais irritado para conversar, e excessivamente inquieto para dormir. Deixei-o fumando como uma chaminé, as densas sobrancelhas negras contraídas, e com os dedos finos e nervosos tamborilando nos braços da poltrona, enquanto em seu cérebro deviam certamente agitar-se todas as possíveis soluções do mistério. Várias vezes durante a noite ouvi o rumor de seus passos de um lado para outro, através da casa. Por fim, já de manhã, logo depois de eu ter sido despertado, entrou em meu quarto como um raio. Estava de pijama, mas o rosto pálido com olheiras profundas revelava que passara a noite em claro.

— Para que horas está marcado o funeral? Às oito, não é? — perguntou ansiosamente. — Pois bem! Agora são sete e vinte. Oh!, céus, Watson, onde eu estava com a cabeça? Depressa, homem, depressa! É questão de vida ou morte… noventa e nove possibilidades de morte para uma de vida. Jamais me perdoarei se chegarmos demasiado tarde!

Ainda não tinham decorrido cinco minutos e já nos encontrávamos num fiacre, a todo o galope, ao longo da Baker Street. Mesmo assim, faltavam vinte e cinco minutos para as oito quando passamos pelo Big Ben, e ao soar das oito irrompemos pela Brixton Road. Entretanto, os outros também estavam atrasados. Dez minutos depois da hora fixada para o enterro, o carro fúnebre ainda se encontrava postado diante da porta da casa, e, somente quando nosso cavalo se deteve arquejante, o caixão assomou na soleira, transportado por três homens. Holmes atirou-se como um raio ao encontro dos carregadores e barrou-lhes a passagem.

— Para trás! — exclamou, pondo a mão no peito do que vinha à frente. — Voltem com o caixão imediatamente!

— Que diabo pretende fazer? Mais uma vez lhe pergunto onde está o mandado — gritou Peters, furioso, surgindo com o rosto vermelho do outro lado do ataúde.

— O mandado está a caminho. O caixão ficará retido até ele chegar.

O tom autoritário da voz de Holmes produziu efeito nos carregadores. Peters desaparecera subitamente no interior da casa, e os homens obedeceram à ordem do recém-chegado.

— Depressa, Watson, depressa! Tome esta chave de parafusos! — bradou, enquanto o féretro era recolocado sobre a mesa. — E aqui está outra para você, meu amigo! Dou-lhe um soberano se conseguir retirar a tampa em um minuto! Não faça perguntas… mãos à obra! Muito bem! Outro! Mais outro! Agora façamos força todos juntos! Está cedendo! Ah! Finalmente.

Graças a nossos esforços reunidos, conseguimos retirar a tampa do caixão, e, no mesmo instante, um odor estonteante e insuportável de clorofórmio invadiu a sala. Dentro do ataúde jazia um corpo com a cabeça inteiramente envolta em algodão embebido nesse narcótico. Holmes retirou-o com presteza e descobriu o rosto marmóreo e espiritual de uma mulher de meia-idade. Rapidamente, passou o braço em torno da figura inerte e fê-la sentar-se.

— Estará morta, Watson? Ainda há esperanças? Não é possível que tenhamos chegado tarde demais!

Durante meia hora, pareceu-me que não restava nada a fazer. Sufocada pela falta de ar e intoxicada pelos vapores venenosos do clorofórmio, Lady Frances parecia irremediavelmente perdida. Mas, por fim, graças à respiração artificial, a injeções de éter e a todos os recursos que a ciência sugeria, um certo vislumbre de vida, um tênue vibrar de pestanas, um leve embaciar do espelho indicaram que a vida voltava lentamente. Parara um carro diante da casa, e Holmes, afastando a cortina, olhou para a rua.

— Aí vem Lestrade com o mandado — observou. — Vai ficar desapontado quando souber que sua presa fugiu. E eis alguém — acrescentou, ao ouvir passos pesados no corredor — que mais do que nós tem direito de cuidar desta senhora. Bom dia, sr. Green; creio que, quanto mais depressa levarmos Lady Frances daqui, tanto melhor. Entretanto, podem continuar o enterro. A pobre velha que ainda jaz neste caixão poderá ir para seu eterno repouso sozinha.

— Se lhe interessa acrescentar este caso a seus anais, meu caro Watson — disse-me Holmes na tarde daquele dia —, ele servirá apenas como exemplo do eclipse temporário ao qual mesmo os cérebros mais equilibrados podem estar sujeitos. Tais deslizes são comuns a todos os mortais, e maior, portanto, é o mérito dos que são capazes de reconhecê-los e repará-los. A esse mérito eu julgo ter algum direito. Passei a noite acossado pela idéia de que um indício, uma frase estranha, uma observação curiosa, me fora apresentado e eu desprezara logo de início. E, de súbito, já no romper da madrugada, as palavras exatas acorreram-me à mente. Tratava-se da justificação apresentada pela empresa funerária, tal como me foi referida por Philip Green. Ela tinha dito: “Já devia ter sido entregue. Levou mais tempo por ser de um tamanho invulgar”. Aludia ao caixão. Suas medidas eram fora do normal. Isso só podia significar que tinha sido feito segundo dimensões especiais. Mas por quê? Por quê? Lembrei-me repentinamente do tamanho do ataúde e do corpo franzino da velhinha sumido lá no fundo. Por que um féretro tão grande para um cadáver tão pequeno? Para deixar espaço para outro corpo. Ambos seriam enterrados com um único atestado de óbito. Estaria tudo muito claro, se não fosse a momentânea obscuridade mental a que eu estava entregue. Às oito horas Lady Frances seria sepultada; nossa única esperança era chegar a tempo de impedir que o cortejo fúnebre saísse da casa.

“Era remota a probabilidade de encontrá-la ainda com vida, mas era sempre uma probabilidade, como o resultado demonstrou. Essa gente, que eu saiba, jamais havia cometido um assassinato; provavelmente evitariam até o fim lançar mão da violência. Poderiam enterrá-la sem deixar o menor vestígio da causa de sua morte e, mesmo em caso de exumação, lhes seria possível escapar à ação da justiça. Esperava que tais considerações prevalecessem sobre o modo de agir deles. Agora lhe será fácil reconstituir com perfeição toda a cena. Você viu o horrível cubículo onde a pobre mulher esteve tanto tempo seqüestrada. Eles atiraram-se a ela, narcotizaram-na com clorofórmio, transportaram-na para baixo, despejaram o anestésico no interior do caixão, a fim de impedir que ela despertasse, e cerraram a tampa com parafusos. Um plano astucioso, Watson. Este fato, para mim, é novo nos anais do crime. Se nossos ex-missionários lograrem escapar às garras de Lestrade, nutro esperanças de que ouviremos falar em breve de outros casos brilhantes em sua futura carreira.”

1917
Seu último adeus

1. Vila glicínia § 2. O círculo vermelho
3. Os planos do submarino Bruce-Partington § 4. O detetive agonizante
5. O desaparecimento de Lady Frances Carfax § 6. O pé do diabo
7. Seu último adeus

Ilustrações: Alec Ball, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock