O detetive agonizante

Arthur Conan Doyle

O detetive agonizante

Título original: The Dying detective
Publicado pela primeira vez na Collier’s Weekly
em Novembro de 1913, com 3 ilustrações de Frederic Dorr Steele,
e na Strand Magazine, em Dezembro de 1913,
com 4 ilustrações de Walter Paget (irmão de Sidney Paget).

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Dying detective publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume V,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Álvaro Pinto de Aguiar.

A sra. Hudson, senhoria de Sherlock Holmes, era uma criatura dotada de paciência infinita. Não só seu apartamento do primeiro andar era continuamente invadido por legiões de pessoas de aspecto estranho e muitas vezes indesejáveis, mas seu extraordinário inquilino mostrava uma extravagância e uma irregularidade de vida capazes de pôr à prova sua resignação. O incrível desmazelo, a paixão pela música nas horas mais insólitas, os exercícios ocasionais de tiro ao alvo no interior do apartamento, as fantásticas e geralmente malcheirosas experiências científicas, e a atmosfera de violência e perigo que o rodeava, faziam de Sherlock Holmes o pior pensionista de Londres. Por outro lado, no entanto, ele pagava um aluguel principesco, e não tenho dúvidas de que todo o prédio poderia ser comprado com o dinheiro que Holmes pagou por seu apartamento durante o tempo em que vivi com ele.

A pobre mulher tratava-o com a mais profunda reverência, e jamais ousava interferir em sua conduta, por mais descabida que fosse. Dedicava-lhe também grande estima, pois Holmes usava, no trato com as senhoras, de gentileza e atenção fora do comum. Embora detestasse o sexo oposto e não tivesse a menor confiança nele, fora sempre um adversário cavalheiresco. Sabendo como era sincera a amizade que esta senhora lhe dedicava, ouvi atenta e ansiosamente a narrativa que ela veio fazer-me em meu apartamento, no segundo ano de minha vida de homem casado, e com a qual me pôs a par do triste estado a que meu amigo estava reduzido.

— Ele está à morte, dr. Watson — disse-me. — Há três dias que piora a olhos vistos, e não sei se conseguirá resistir até a noite. Não quis deixar-me chamar um médico. Hoje de manhã, quando lhe vi o rosto encovado e aqueles enormes olhos brilhantes fitando-me, não pude resistir mais. “Com sua licença ou sem ela, sr. Holmes, vou chamar um médico imediatamente”, disse-lhe eu. “Se é assim, chame Watson”, respondeu. Se estivesse em seu lugar, doutor, não perderia tempo, caso queira encontrá-lo com vida.

Fiquei horrorizado, pois nada sabia de sua doença. É inútil dizer que me apressei a pôr o sobretudo e o chapéu, e, enquanto íamos no carro, pedi à boa criatura outros pormenores.

— Pouco lhe posso dizer, doutor. Ele andava ocupado num caso lá para as bandas de Rotherhithe, numa viela junto ao rio, e voltou com essa moléstia. Caiu de cama na quarta-feira à tarde, e desde então tem permanecido deitado. Há três dias que não prova líquido ou alimento algum.

— Santo Deus! Por que não chamou um médico?

— Ele não o permitiu, já lhe disse. O senhor sabe como ele é autoritário! Mas não lhe resta muito tempo de vida, como verá logo que lhe puser os olhos em cima.

Holmes oferecia realmente um espetáculo confrangedor. Na luz incerta daquele dia nevoento de novembro, o quarto do doente era um lugar triste, mas foi principalmente seu rosto lívido e descarnado, fitando-me do leito, que me gelou o coração. Os olhos luziam devido à febre, havia no rubor das faces sinais de exaustão progressiva do organismo, e crostas escuras denegriam-lhe os lábios; as mãos exangues contraíam-se incessantemente sobre o cobertor, e a voz era áspera e entrecortada. Jazia inerte na cama quando entrei; contudo, minha presença fez emanar de seus olhos um brilho de lucidez.

— Olá, Watson! Parece que a coisa vai mal — disse-me num fio de voz, na qual se percebiam ainda traços do antigo tom despreocupado.

— Meu caro amigo! — exclamei, dirigindo-me a ele.

— Não se aproxime! Não se aproxime! — bradou, na voz cortante e imperiosa que só lhe ouvira em ocasiões de grande perigo. — Se chegar perto de mim, Watson, serei constrangido a fazer com que se retire desta casa.

— Mas por quê?

— Porque assim o desejo. Não lhe basta isso?

Sim, a sra. Hudson tinha razão. Estava mais autoritário que nunca; todavia, era triste vê-lo naquele estado.

— Desejava apenas ajudá-lo — murmurei.

— Exatamente! Você me será muito mais útil se fizer o que estou dizendo.

— É claro, Holmes.

A rispidez de suas maneiras abrandou.

— Você não ficou aborrecido? — perguntou ofegante.

Pobre amigo, como poderia ficar aborrecido, vendo-o reduzido àquela situação?

— É para seu próprio bem, Watson — rouquejou.

— Para meu próprio bem?

— Sei o que tenho. É a chamada moléstia dos cules de Sumatra, mal que os holandeses conhecem melhor do que nós, apesar de não terem conseguido remédio contra ele. Só uma coisa é certa: é mortal e terrivelmente contagioso.

Falava com uma energia febril, enquanto suas longas mãos se agitavam e torciam na ânsia de me afastar.

— Transmite-se pelo simples contato, Watson… pelo simples contato. Conserve-se à distância e tudo estará bem.

— Por Deus, Holmes! Você julga que eu posso tomar isso em consideração? Não o faria nem mesmo no caso de um estranho, quanto mais quando se trata de cumprir meu dever para com um velho amigo.

Fiz de novo menção de me avizinhar, mas ele repeliu-me com um olhar furioso de cólera.

— Se você ficar onde está, falarei. Caso contrário, terá de sair deste quarto.

Tenho um respeito tão profundo pêlos dotes extraordinários de Holmes, que costumo sempre ceder a seus desejos, ainda quando não os compreendo. Nesse momento, porém, todo o meu instinto profissional se insurgia. Podia aceitar suas ordens em qualquer outro lugar, mas, num quarto de doente, quem mandava era eu.

— Holmes — disse-lhe —, você está fora de si. Um homem enfermo é como uma criança, e eu o tratarei como tal. Queira ou não queira, vou examinar seus sintomas e tratar de curá-lo.

Meu amigo lançou-me um olhar irritado:

— Já que preciso dos serviços de um médico, ainda que contra minha vontade, permita-me ao menos chamar um no qual eu deposite confiança.

— Então você não confia em mim?

— Em sua amizade, certamente; contudo, fatos são fatos, Watson, e, afinal de contas, você não passa de um simples clínico com experiência muito limitada e dotes medíocres. É doloroso ter de lhe dizer estas coisas, mas você não me dá outra alternativa.

Senti-me profundamente magoado.

— Tal observação é indigna de você, Holmes. Ela revela claramente o estado de seus nervos. Todavia, se não tem confiança em mim, não lhe imporei meus serviços. Deixe-me então chamar Sir Jasper Meek ou Penrose Fisher, ou outro qualquer dos melhores médicos de Londres. Mas alguém precisa ser chamado; quanto a isso, não há dúvida. Se pensa que vou ficar aqui vendo-o morrer, sem cuidar de você ou trazer alguém que o faça, engana-se redondamente.

— Acredito em suas boas intenções, Watson — disse o enfermo, entre um soluço e um gemido. — Quer que lhe demonstre sua ignorância? O que sabe você, por exemplo, a respeito da febre de Tapanuli? Que noções tem da putrefação negra de Formosa?

— Nunca ouvi falar nelas.

— Existem muitas doenças desconhecidas, e ignoram-se muitos problemas patológicos com relação ao Oriente, Watson.

Interrompia-se a cada frase, a fim de recobrar as poucas forças que lhe restavam.

— Aprendi tudo no decurso de recentes pesquisas de caráter médico-legal. Contraí esta infecção quando me encontrava empenhado nelas. Você não poderá fazer nada.

— Talvez não; mas sei que o dr. Ainstree, a maior autoridade viva em doenças tropicais, está atualmente em Londres. Qualquer objeção de sua parte será inútil, Holmes. Vou buscá-lo imediatamente — retorqui-lhe, dirigindo-me, resoluto, para a porta.

Jamais experimentei tamanho choque. Num abrir e fechar de olhos, o moribundo, com um salto tigrino, tinha- me interceptado o caminho. Ouvi o estalido de uma chave girando na fechadura. Um momento depois, ele tinha regressado cambaleante à cama, exausto e arquejante, após tão violento desperdício de energia.

— Não me tirará esta chave nem à força, Watson. Tenho-o em meu poder, caro amigo, e aqui ficará até eu resolver o contrário. No entanto, compreendo sua atitude para comigo. — Tudo isso foi dito aos arrancos, entre esforços terríveis para tomar fôlego, — Sei que deseja unicamente meu bem. Percebo-o com clareza. Poderá fazer o que quiser depois; antes, porém, dê-me tempo para recuperar as forças. Agora não, Watson, agora não. São quatro horas. Às seis poderá ir.

— Mas isso é uma loucura, Holmes.

— Somente duas horas, Watson. Prometo deixá-lo partir às seis. Quer esperar?

— Parece não haver outra alternativa.

— Nenhuma outra, Watson. Obrigado, não precisa me ajudar a arranjar as cobertas. Por favor, mantenha-se à distância. E agora, devo impor-lhe outra condição. Você procurará auxílio, não o do homem a que se referiu, mas do que eu escolher.

— Perfeitamente.

— É a primeira palavra sensata que pronuncia desde sua entrada neste quarto, Watson. Há alguns livros naquela estante. Sinto-me um pouco esgotado. Será esta a sensação de uma bateria ao verter eletricidade num mau condutor? Às seis retomaremos nossa conversação.

Isso, porém, devia suceder muito antes da hora aprazada, e em circunstâncias que me causaram uma emoção quase tão grande como a motivada pelo pulo em direção à porta. Permaneci alguns minutos olhando para aquele vulto silencioso estirado sobre a cama. Tinha o rosto quase oculto pelas cobertas e parecia dormir. Incapaz de me sentar para ler, pus-me a vaguear lentamente pelo quarto, examinando os retratos de criminosos célebres com os quais as paredes estavam guarnecidas. Afinal, em meu deambular sem destino, cheguei diante do consolo da lareira. Sobre ele viam-se, espalhados em desordem, cachimbos, bolsas de tabaco, seringas, canivetes, cartuchos de revólver e diversos outros objetos. Entre estes, uma caixinha de marfim branco e preto, de tampa móvel. Atraído pela sua beleza, já tinha estendido a mão para examiná-la mais de perto, quando…

Que grito medonho ele soltou… grito que ao certo deveria ter sido ouvido da rua. Fiquei gelado de susto, e meus cabelos se arrepiaram. Voltando-me rapidamente, vislumbrei um rosto convulso e dois olhos alucinados. Permaneci tolhido, com a caixinha na mão.

— Ponha isso aí! Depressa, Watson… já lhe disse!

Voltou a reclinar a cabeça no travesseiro e emitiu um profundo suspiro de alívio, ao ver-me pôr de novo a caixa sobre a prateleira.

— Não gosto que mexam em minhas coisas, Watson. Você bem sabe disso. E pare de me atormentar. Você, médico… é suficiente para levar um paciente ao hospício. Sente-se, homem, e deixe-me repousar em paz!

Esse incidente produziu uma desagradável impressão em meu espírito. A irritação, violenta e infundada, acompanhada de palavras tão rudes, de tal modo diferente de sua habitual gentileza, revelavam-me como era intensa a desorganização de sua mente. De todas as ruínas, a de um cérebro esclarecido é a mais deplorável. Sentei-me numa cadeira, terrivelmente abatido, e esperei que o tempo passasse. Ele devia estar consultando o relógio como eu, pois, mal haviam soado as seis horas, começou a falar com a mesma animação febril.

— Ouça, Watson — disse-me —, tem dinheiro trocado no bolso?

— Tenho.

— Moedas de prata?

— Uma boa quantidade.

— Quantas meias-coroas?

— Cinco.

— Ah! Muito poucas! Muito poucas! Que infelicidade a minha, Watson! Apesar de tudo, é melhor pô-las no bolsinho do colete, e o resto de dinheiro no bolso esquerdo das calças. Obrigado. Isso manterá melhor seu equilíbrio.

Era puro delírio. Estremeceu e deixou escapar novamente dos lábios aquele ruído, misto de tosse e soluço.

— Agora acenda o gás, Watson, mas tenha muito cuidado em não levantar a chama, nem por um instante, acima da metade normal. Peço-lhe para agir com cautela. Obrigado, assim está ótimo. Não, não precisa fechar as cortinas. Faça o favor de colocar algumas cartas e jornais sobre esta mesa, a meu alcance. Obrigado. Agora um pouco daquelas quinquilharias que estão no consolo da lareira. Ótimo, Watson! Encontrará aí uma pinça para cubinhos de açúcar.

“Queira pegar com ela essa caixinha de marfim. Ponha-a aqui entre os jornais. Muito bem! Agora pode ir buscar, no número 13 da Lower Burke Street, o sr. Culverton Smith.”

Para dizer a verdade, meu desejo de chamar um médico diminuíra, pois meu amigo estava num estado visível de delírio, e me parecia perigoso abandoná-lo naquele instante. Todavia, mostrava-se agora ansioso por consultar a pessoa indicada, sem embargo de sua relutância anterior.

— Nunca ouvi tal nome — respondi.

— É provável, meu bom Watson. Talvez fique surpreendido ao saber que a pessoa mais versada nesta moléstia, no mundo, não é um médico, mas um lavrador. O sr. Culverton Smith é um ilustre fazendeiro de Sumatra, atualmente de visita a Londres. Um surto epidêmico da doença em sua propriedade, distante de qualquer auxílio médico, forçou-o a estudá-la por conta própria, com resultados notáveis. Como é criatura muito metódica, não queria que você fosse procurá-lo antes das seis, pois tinha a certeza de que não o encontraria em casa. Se conseguir convencê-lo a vir aqui e conceder-nos o benefício de sua experiência, única no campo desta doença, cujo estudo tem sido seu passatempo favorito, estou certo de que ele poderá curar-me.

Reproduzi as palavras de Holmes como se tivessem sido pronunciadas consecutivamente, sem explicar que eram interrompidas por súbitas faltas de ar e pelo contínuo contrair das mãos, que indicavam o sofrimento pelo qual estava passando. Naquelas poucas horas, seu aspecto piorara bastante. A vermelhidão do rosto era ainda mais pronunciada, os olhos luziam com maior brilho na concavidade das órbitas escuras, e um suor gélido cobria-lhe a fronte. Ainda conservava, contudo, o tom imperioso da voz que havia de acompanhá-lo até o último alento.

— Conte-lhe exatamente como me deixou — disse.

— Transmita-lhe com fidelidade a impressão produzida por mim em seu espírito… a de um moribundo… um moribundo delirante. Francamente, não consigo compreender por que razão todo o leito do oceano não se tornou uma única massa compacta de ostras, tão prolíferas me parecem essas criaturas. Oh! Estou divagando. É estranho como o cérebro controla o cérebro. Que dizia eu, Watson?

— Dava-me instruções para falar com o sr. Culverton Smith.

— Ah! Sim; lembro-me agora. Minha vida depende disso. Insista com ele. Não estamos em muito boas relações. O sobrinho dele… eu suspeitava de algo criminoso e contei-lhe isso. O rapaz morreu em condições horríveis. Ele nutre certo rancor por mim. Procure abrandá-lo, Watson. Sei que não falhará, pois jamais me desiludiu. Existem, sem dúvida, inimigos naturais que limitam o aumento desses moluscos. Você e eu, Watson, fizemos nossa obrigação. Será, então, o universo submergido pelas ostras? Não, não; seria monstruoso! Você transmitirá fielmente a impressão que produzi em seu espírito.

Deixei-o com a dolorosa impressão daquele esplêndido cérebro proferindo disparates como uma criança. Tinha-me entregado a chave, e apressei-me a guardá-la comigo, receoso de que ele se trancasse por dentro. A sra. Hudson esperava no corredor, trêmula e chorosa. Ao descer as escadas, ainda ouvi a voz aguda e penetrante de Holmes a expandir-se numa canção desconexa. Na rua, enquanto chamava um carro, um homem dirigiu-se a mim através do nevoeiro.

— Como passa o sr. Holmes, doutor? — indagou.

Era um velho conhecido, o inspetor Morton, da Scotland Yard, vestido à paisana.

— Muito mal — respondi.

E    le fitou-me de maneira tão singular que, se não fosse demasiado perverso, diria ter-lhe obrigado no rosto, à luz tênue do lampião, um lampejo de alegria.

— Ouvi falar nisso — observou.

Entretanto, o carro chegou e nós nos separamos.

A Lower Burke Street era um conjunto de lindas casas residenciais situadas no vago limite entre Notting Hill e Kensington. O carro parou em frente a uma casa que apresentava um aspecto sóbrio e uma delicada imponência, com suas grades de ferro antiquadas, sua porta maciça e seus luzentes ornatos de bronze. Tudo isso condizia com o solene mordomo que surgiu, enquadrado na rósea claridade de uma lâmpada colorida pendente do vestíbulo.

— O sr. Culverton está, sim, senhor. Dr. Watson? Muito bem. Levar-lhe-ei seu cartão.

Meu humilde nome e meu título não pareceram impressionar o sr. Culverton Smith. Através da porta entreaberta, ouvi uma voz aguda e petulante:

— Quem é esse sujeito? O que ele quer? Com mil demônios, Staples, quantas vezes já lhe disse que não desejo ser perturbado nas minhas horas de estudo?

Percebi a voz do mordomo, submissa, gaguejando desculpas e explicações.

— Não importa, não posso recebê-lo, Staples. Não admito que meu trabalho seja interrompido desta maneira. Diga-lhe que não estou em casa. Que volte amanhã de manhã, se deseja de fato falar comigo.

Novamente o mesmo murmúrio respeitoso.

— Está bem, está bem, dê-lhe meu recado. Pode vir amanhã de manhã, se quiser. Meu trabalho não pode ser retardado.

Pensei em Holmes, debatendo-se em seu leito de enfermo e talvez contando inquieto os minutos, na expectativa de que eu pudesse levar-lhe socorro. A ocasião não era para cerimônias. Sua vida dependia de minha presteza de ação. Antes que o mordomo me tivesse transmitido o recado, eu o empurrara para o lado e irrompera na sala.

Com um grito estridente de cólera, um homem levantou-se de uma poltrona, ao pé da lareira. Vi à minha frente um enorme rosto queimado de sol, com uma pele grosseira e untuosa, vasto queixo duplo e olhos cinzentos, sombrios e ameaçadores, fitando-me sob as espessas sobrancelhas grisalhas. O largo crânio estava coberto por um barrete de veludo, posto elegantemente de lado sobre a superfície rosada e luzidia. A cabeça era descomunalmente grande, e todavia, baixando o olhar, vi, para minha surpresa, que a figura do homem era pequena e frágil, de ombros e costas torcidos como os de alguém que na infância tivesse sofrido de raquitismo.

— Que história é essa? — bradou em voz estentórea.

— Que significa essa intrusão? Não lhe tinha mandado dizer que só poderia recebê-lo amanhã?

— Sinto muito — respondi —, trata-se, porém, de um assunto inadiável. O sr. Sherlock Holmes…

A simples menção do nome de meu amigo produziu extraordinário efeito no homenzinho. A expressão de cólera desapareceu-lhe imediatamente do rosto. Sua fisionomia tornou-se tensa e vigilante.

— Vem da parte de Holmes? — indagou.

— Acabo de deixá-lo.

— Que aconteceu? Como está ele?

— Acha-se gravemente enfermo, em estado desesperador. Eis por que vim procurá-lo.

O homem fez sinal para que me sentasse e voltou a acomodar-se na poltrona. Nesse momento vislumbrei-lhe o rosto, refletido no espelho que se encontrava sobre o consolo da lareira. Teria jurado ler nele um sorriso maligno, odioso. Todavia, convenci-me de que fora apenas o efeito de alguma contração nervosa, pois logo em seguida encarou-me com ar de sincera preocupação.

— Lamento-o muito — disse ele. — Conheço o sr. Holmes apenas através de certos negócios em que estivemos empenhados, mas nutro o máximo respeito por seu talento e caráter. Ele é um curioso do crime, como eu o sou das moléstias. Para ele, o delinqüente, para mim, o micróbio. Eis minhas prisões — continuou, indicando-me uma fileira de frascos e tubos que se encontravam sobre uma mesinha. — Nesses meios de cultura cumprem pena alguns dos piores malfeitores do mundo.

— É exatamente por causa de seus conhecimentos especializados que Holmes deseja vê-lo. Ele o tem em alto conceito, e julga ser o senhor o único homem em Londres que pode salvá-lo.

O homenzinho estremeceu, e seu elegante barrete escorregou para o chão.

— Como? — perguntou. — Por que acredita o sr. Holmes que eu o possa socorrer na contingência em que se encontra?

— Por causa de sua experiência no tocante a doenças tropicais.

— Mas por que ele julga que a moléstia que contraiu é de origem tropical?

— Porque no decurso de certa investigação profissional recente, esteve trabalhando nas docas entre marinheiros malaios.

O sr. Culverton Smith sorriu benevolamente e apanhou o barrete do chão.

— Ah? É isso? Vai ver que a coisa não é tão grave como pensa. Há quanto tempo está doente? — indagou.

— Há cerca de três dias.

— Tem sido acometido de delírios?

— De vez em quando.

— Hum! Isso me parece grave. Seria desumano não atender a seu pedido. Não tolero que ninguém me interrompa nas horas de trabalho, dr. Watson, mas este é, sem dúvida, um caso excepcional. Num minuto estarei pronto para acompanhá-lo.

Lembrei-me de uma recomendação de Holmes.

— Neste momento tenho outro compromisso — repliquei.

— Está bem; irei sozinho. Sei o endereço de Holmes. Pode ficar certo de que estarei lá dentro de meia hora no máximo.

Regressei ao quarto de Holmes com o coração apertado no peito. Por tudo quanto me era dado saber, receava que durante minha ausência tivesse sobrevindo algum acesso fatal; no entanto, para meu grande alívio, ele melhorara sensivelmente durante esse intervalo. Seu aspecto ainda era impressionante, mas já não delirava e podia falar, com voz fraca, é verdade, mas com uma lucidez e uma presença de espírito maiores que de costume.

— Então, Watson, falou com ele?

— Falei; já deve estar a caminho.

— Magnífico, Watson! Magnífico! Você é o melhor dos mensageiros.

— Ele queria vir comigo.

— Isso não seria possível, Watson. Seria preciso impedi-lo a todo custo. Ele perguntou o que eu tinha?

— Sim; falei-lhe a respeito dos marinheiros malaios do East End.

— Muito bem! Fez tudo o que um bom amigo poderia fazer. Agora pode desaparecer de cena.

— Mas devo esperar para ouvir a opinião dele, Holmes!

— Está certo; contudo, tenho motivos para supor que sua opinião será mais franca e valiosa se ele se julgar a sós comigo. Há espaço suficiente para se esconder atrás da cabeceira da cama.

— Meu caro Holmes!

— Creio não haver outro remédio, Watson. O quarto não se presta para alguém se esconder, e por isso mesmo não dá margem a suspeitas. Contudo, aí atrás, Watson, ficará bem.

Subitamente, sentou-se na cama, demonstrando uma viva atenção na fisionomia descarnada.

— Ouço o barulho de rodas de carro. Depressa, homem, se me quer bem! E não se mexa, aconteça o que acontecer… aconteça o que acontecer, ouviu? Não fale! Não faça o menor gesto! Limite-se a escutar com toda a atenção.

Num instante, todo aquele inesperado acesso de energia o abandonou como por encanto, e suas palavras dominadoras e autoritárias perderam-se nos murmúrios desconexos e ininteligíveis do delírio.

Do esconderijo para onde eu fora empurrado com tanta pressa, ouvi o soar de passos na escada e, em seguida, o abrir e fechar da porta do quarto. Depois, para minha surpresa, seguiu-se longo silêncio, interrompido apenas pela respiração irregular e ofegante do enfermo. Imaginei que nosso visitante estivesse de pé, ao lado do leito, olhando para a figura sofredora de meu amigo. Finalmente, quebrou-se o estranho silêncio.

— Holmes! — exclamou o recém-chegado, no tom peremptório de quem procura acordar alguém. — Holmes! Não está me ouvindo, Holmes?

Ouviu-se um roçar de panos, como se ele o houvesse sacudido rudemente pêlos ombros.

— É o sr. Smith? — sussurrou Holmes. — Quase não ousava esperar que viesse.

O outro riu.

— Nem eu teria imaginado — redargüiu. — No entanto, como vê, estou aqui. Deve estar sentindo remorso, Holmes…

— É muita bondade de sua parte… muita nobreza, Prezo muito o valor de seus conhecimentos especializados.

Nosso visitante deu uma risadinha sarcástica.

— Bem sei. Felizmente, você é o único homem em Londres que tem conhecimento deles. Já sabe o que tem?

— A mesma coisa — respondeu Holmes.

— Ah! Reconhece os sintomas?

— Sem dúvida.

— Ora, isso não me surpreende, Holmes. Não me espantaria se se tratasse da mesma moléstia. Se for esse o caso, os prognósticos são péssimos. O pobre Victor já era um cadáver no quarto dia… rapaz forte e cheio de vida como era. Foi de fato uma coisa extraordinária, como você disse, ele ter contraído, no coração de Londres, essa invulgar doença asiática… doença sobre a qual, além disso, eu tinha feito tão acurados estudos. Singular coincidência, Holmes. Houve grande habilidade de sua parte em notá-la, mas muita falta de caridade em sugerir que, entre esses dois fatos, existia relação de causa e efeito.

— Sabia que o senhor era o culpado.

— Ah! Sabia então? Bem, seja como for, não pôde prová-lo. Mas que história é essa de andar me difamando daquela maneira e depois vir ajoelhar-se diante de mim a pedir auxílio, mal se encontra em dificuldades? Que espécie de brincadeira é essa, hein?

Ouvi a respiração áspera e difícil do enfermo.

— Dê-me um pouco de água — balbuciou.

— Está muito próximo do fim, meu caro, mas não quero que se vá antes de lhe dizer uma palavra. Eis por que lhe dou água. Cuidado, não a entorne! Muito bem. Compreende o que estou dizendo?

Holmes gemeu.

— Faça tudo o que puder por mim. Esqueçamos o passado — murmurou. — Esquecerei tudo o que disse…. Juro-lhe que o farei. Cure-me e esquecerei tudo.

— Esquecerá o quê?

— Ora, a morte de Victor Savage. O senhor acabou por admitir que foi o autor dela. Esquecerei isso.

— Poderá esquecer ou lembrar-se, como melhor lhe aprouver. Não o verei no banco das testemunhas, meu caro Holmes, mas num lugar muito diferente, onde não se diz nada, garanto-lhe. Pouco me importa que saiba como meu sobrinho morreu. Não é nele que estamos falando, mas no senhor.

— Eu sei.

— O sujeito que me procurou… esqueci o nome dele… disse-me que você contraíra essa doença quando trabalhava no East End, entre um grupo de marinheiros.

— Não há outra explicação.

— Você se orgulha de sua inteligência, Holmes, não é verdade? Julga-se muito esperto, não é? Pois agora encontrou outro mais esperto ainda. Reflita um instante, meu caro. Não se recorda de outra maneira pela qual pudesse ter apanhado isso?

— Não sei dizer. Minha memória esvaiu-se. Pelo amor de Deus, auxilie-me.

— Pois bem, vou ajudá-lo. Ajudá-lo a compreender o estado em que se encontra, e como chegou a ele. Quero que o saiba antes de morrer.

— Dê-me qualquer coisa que me acalme esta dor!

— Ah! Dói muito, não é? Sim, os cules costumam berrar ao aproximar-se o fim. Suponho que seja uma espécie de cãibra.

— Sim; sinto cãibras.

— Bem; mesmo assim poderá ouvir o que vou lhe dizer. Ouça, então! Não se lembra de nenhum incidente estranho que lhe tivesse acontecido pouco antes de aparecerem os primeiros sintomas?

— Não; não consigo lembrar-me de nada.

— Pense bem.

— Estou muito mal para poder pensar.

— Pois bem, eu o ajudarei. Não chegou nada pelo correio?

— Pelo correio?

— Uma caixinha, por exemplo.

— Estou desfalecendo… vou morrer!

— Escute, Holmes!

Tive a impressão de que ele sacudia o moribundo, e foi a custo que me contive em meu esconderijo.

— Precisa me ouvir. Precisa me ouvir, entendeu? Recorda-se de uma caixinha… uma caixinha de marfim? Chegou na quarta-feira. Você a abriu… lembra-se?

— Sim, eu a abri. Havia dentro uma agulha movida por uma mola forte. Algum jogo…

— Não era jogo, como verá à sua própria custa. Idiota, procurou sua própria ruína. Quem o mandou atravessar-se em roeu caminho? Se me tivesse deixado em paz, não lhe teria feito mal algum.

— Lembro-me agora — articulou Holmes com dificuldade. — A agulha! Saiu sangue. Essa caixinha… aí em cima da mesa.

— Exatamente essa, com os diabos! E será melhor que eu a leve comigo. Assim se vai sua última esperança de prova. E agora que já sabe da verdade, Holmes, pode morrer ciente de que eu o matei. Você sabia demasiado a respeito do destino de Victor Savage, e por isso resolvi mandá-lo fazer-lhe companhia. Seu fim está muito próximo. Vou sentar-me aqui para vê-lo morrer.

A voz de Holmes se transformara num sussurro quase inaudível.

— Que quer? — perguntou Smith. — Que aumente a chama do gás? Ah! As sombras já começam a cair, não é? Sim, vou aumentá-la, pois assim poderei vê-lo melhor. Atravessou o quarto, e a luz, de súbito, tornou-se mais viva.

— Mais alguma coisa, meu amigo?

— Um cigarro e fósforos.

Por verdadeiro milagre não gritei de alegria, tal foi meu assombro. Holmes falava em sua voz natural, um pouco fraca, talvez, porém a mesma que eu tão bem conhecia. Seguiu-se uma longa pausa, e tive a sensação de que Culverton Smith fitava meu companheiro, imobilizado de espanto.

— Que significa isso? — ouvi-o dizer por fim, em tom seco e rouco.

— O melhor meio de representar com êxito um papel é identificar-se com ele — disse Holmes. — Dou-lhe minha palavra de honra que há três dias não provava nem comida nem bebida, até o momento em que teve a gentileza de me dar aquele copo de água. Entretanto, foi do fumo que senti mais falta! Ah! Cá estão os cigarros!

Ouvi o ruído de um fósforo sendo riscado.

— Assim está muito melhor. Parece-me distinguir os passos de um amigo.

De fato, ouviu-se um rumor de passos do lado de fora; a porta abriu-se e o vulto do inspetor Morton surgiu no limiar.

— Está tudo em ordem, e aí tem seu homem… — disse Holmes.

O policial fez os avisos de costume e concluiu:

— O senhor está preso sob a acusação de homicídio de Victor Savage.

— E poderá acrescentar: de tentativa de morte de Sherlock Holmes — observou meu amigo com uma risadinha. — A fim de evitar trabalho a um inválido, o sr. Culverton Smith teve a bondade de dar nosso sinal convencionado, aumentando a chama do gás. A propósito, o prisioneiro tem uma caixinha no bolso direito do casaco, a qual seria melhor retirar. Obrigado. Se eu fosse o senhor, teria mais cuidado ao pegá-la. Ponha-a aqui. Poderá ser útil no processo.

Houve um rumor súbito de luta, acompanhado de um tilintar de metais e de um grito de dor.

— O senhor quer se machucar? — perguntou o inspetor. — Faça o favor de ficar quieto.

Chegou a meus ouvidos o estalido das algemas que se fechavam.

— Bela armadilha! — gritou a voz aguda e zombeteira de Smith. — Isso o levará à cadeia, Holmes, não a mim. Ele pediu-me que viesse aqui para tratar dele. Compadeci-me dele e vim. Agora, certamente, irá afirmar que eu disse alguma coisa inventada por ele, a fim de corroborar suas suspeitas insensatas. Pode mentir quanto quiser, Holmes. Minha palavra vale o mesmo que a sua.

— Santo Deus! — exclamou Holmes. — Tinha-o esquecido completamente. Meu caro Watson, devo-lhe mil desculpas. E pensar que pude esquecer-me dele! Não tenho necessidade de apresentá-lo ao sr. Culverton Smith, pois já se encontraram há algumas horas. Há um carro à espera lá embaixo? Eu o acompanharei assim que me vestir, pois talvez minha presença seja necessária no posto policial.

— Jamais senti tanta falta disto — continuou Holmes, enquanto se reconfortava, nos intervalos de sua toalete, com um copo de clarete e alguns biscoitos. — Todavia, como sabe, meus hábitos são irregulares, e esse acontecimento significa muito menos para mim do que para a maioria dos homens. Era-me essencial impressionar a sra. Hudson, dando a meu estado imaginário uma aparência efetiva de realidade, a fim de que você, por sua vez, o transmitisse a Smith. Não ficou ofendido, não é mesmo, Watson? Deve reconhecer perfeitamente que, entre seus numerosos dotes, não se encontra a dissimulação, e que, se lhe revelasse meu segredo, jamais seria capaz de convencer Smith da urgente necessidade de sua presença aqui, circunstância de vital importância para meu plano. Sabendo de sua natureza vingativa, tinha plena certeza de que viria, a fim de verificar pessoalmente o êxito de sua obra.

— Mas seu aspecto, Holmes… aquele rosto espectral?

— Três dias de jejum absoluto não melhoram a beleza de ninguém, Watson. Quanto ao resto, não há nada que uma boa esponja não possa limpar. Com um pouco de vaselina na testa, beladona nos olhos, carmim nas faces e crostas de cera nos lábios obtêm-se efeitos satisfatórios. A simulação de doenças é assunto a respeito do qual, mais de uma vez, já pensei em escrever uma monografia. E certas divagações ocasionais a propósito de meias-coroas, ostras ou outra coisa qualquer produzem uma aceitável aparência de delírio.

— Mas por que não deixou que eu me aproximasse de você, quando na realidade não havia perigo de infecção?

— Ainda o pergunta, Watson? Imagina que não tenho respeito pelo seu talento médico? Acha que você, com seu astuto raciocínio, se deixaria enganar por um moribundo que, apesar de fraco, não apresenta alteração alguma no pulso ou na temperatura? A três metros de distância, era-me fácil iludi-lo. Se não o conseguisse, quem iria fazer com que meu Smith caísse na armadilha? Não, Watson, eu não tocaria nessa caixinha. Poderá ver, se a observar de lado, o ponto em que a agulha se projeta para fora, como um dente de víbora. Creio que foi por meio de um estratagema análogo que o pobre Savage, único obstáculo entre esse monstro e uma herança, encontrou a morte. Minha correspondência, porém, como sabe, é muito variada, e estou sempre em guarda contra todos os pacotes que me vêm ter às mãos. Compreendi, todavia, que se fingisse que ele obtivera êxito em seu intento poderia talvez obter uma confissão dele. Minha simulação foi realizada com a perícia de um verdadeiro artista. Obrigado, Watson, ajude-me a vestir o casaco. Depois de cumprida nossa missão no posto policial, creio que qualquer coisa nutritiva no Simpson não seria verdadeiramente fora de propósito.

1917
Seu último adeus

1. Vila glicínia § 2. O círculo vermelho
3. Os planos do submarino Bruce-Partington § 4. O detetive agonizante
5. O desaparecimento de Lady Frances Carfax § 6. O pé do diabo
7. Seu último adeus

Ilustrações: Frederic Dorr Steele e Walter Paget, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock