Os planos do submarino Bruce-Partington

Arthur Conan Doyle

Os planos do submarino Bruce-Partington

Título original: The Bruce-Partington Plans
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine
em Dezembro de 1908 e com 6 ilustrações de Arthur Twidle
e na Collier´s Weekly, em Dezembro de 1908,
com 5 ilustrações de Frederic Dorr Steele.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Bruce-Partington Plans publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume V,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Álvaro Pinto de Aguiar.

Na terceira semana de novembro de 1895, um denso e escuro nevoeiro abateu-se sobre a cidade de Londres. De segunda a quinta-feira, duvido que se pudesse avistar de nossas janelas da Baker Street o perfil das casas fronteiras. Holmes passara o primeiro dia conferindo o índice de seu enorme livro de referências. No segundo e terceiro, ocupara-se do assunto que se transformara, nos últimos tempos, em seu passatempo favorito: a música medieval. Porém, no quarto dia, depois de termos afastado nossas cadeiras da mesa onde tomamos a refeição matinal, vimos a untuosa e espessa névoa passar ainda em pesada massa compacta diante de nossos olhos e condensar-se em gotas oleosas nas vidraças, e o temperamento impaciente e enérgico de meu amigo começou a dar sinais de já não poder suportar aquela existência monótona. Pôs-se a andar de um lado para outro em nossa sala de estar, invadido por uma febre de energia sufocada, mordiscando as unhas, tamborilando nos móveis, enfurecido com aquela inação.

— Nada interessante no jornal, Watson? — perguntou-me por fim.

Sabia perfeitamente que, para Holmes, algo interessante significava acontecimento ou fato ligado à criminologia. Havia notícias de revolução, falava-se numa eventualidade de guerra e na iminência da mudança de governo, mas nada disso entrava na esfera de interesse de meu companheiro. Nas colunas dedicadas à crônica criminal não via coisa alguma que não fosse vulgar e fútil. Holmes resmungou, desapontado, e recomeçou seu incessante peregrinar entre as quatro paredes da sala.

— O criminoso londrino é incontestavelmente desprovido de imaginação — observou, com a voz lamentosa do caçador que vê fugir-lhe a caça. — Espreite por essa janela, Watson. Repare como surgem os vultos dos transeuntes, quase invisíveis, para desaparecerem novamente no aluvião de névoa. Como o tigre pela brenha, o ladrão ou o assassino pode vaguear livremente por Londres, num dia como este, sem ser pressentido, até o momento de dar o golpe, perceptível apenas para sua vítima.

— Houve somente alguns furtos sem importância — comentei.

Holmes teve um gesto de desprezo.

— Este cenário vasto e sombrio está reservado para algo muito mais importante — replicou. — É uma verdadeira ventura para a comunidade que eu não seja um criminoso.

— De fato! — exclamei, convicto.

— Suponhamos que eu fosse Brooks ou Woodhouse, ou qualquer um dos cinqüenta homens que possuem justificados motivos para me tirar a vida; por quanto tempo conseguiria sobreviver à minha própria perseguição? Um chamamento, uma emboscada, e tudo estaria acabado. Ainda bem que nos países latinos, onde há tantos assassinatos, não há dias de nevoeiro como este: Salve! Eis finalmente uma coisa que pode quebrar esta insipidez mortal.

Era a criada com um telegrama. Holmes abriu-o e caiu na gargalhada.

— Ora, ora! Qual será a última? — exclamou. — Meu irmão Mycroft vem por aí.

— E o que há de extraordinário nisso? — perguntei.

— É como se víssemos um bonde numa estradazinha de campo. Mycroft tem seus caminhos habituais, por onde corre inexoravelmente. O apartamento na Pall Mall, o Clube Diógenes, Whitehal… eis sua esfera. Aqui só apareceu uma única vez. Que cataclismo o terá feito sair dos trilhos?

— Ele não o explica?

Holmes passou-me o telegrama do irmão.

“Preciso falar com você acerca de Cadogan West. Sigo imediatamente para sua casa.

Mycroft.”

— Cadogan West? Já ouvi esse nome.

— A mim não ocorre nada, mas para fazer Mycroft sair assim de seus hábitos… É o mesmo que um planeta desviar-se de sua órbita. E por falar em Mycroft, sabe o que ele é?

Lembrava-me vagamente de ter ouvido falar dele por ocasião da aventura do intérprete grego.

— Você me disse que ele desempenhava uma pequena função a serviço do governo britânico.

Holmes deu uma risadinha.

— Nessa época ainda não conhecia bem você, Watson, e é necessária uma certa discrição quando se trata de altos assuntos de Estado. Tem razão em pensar que Mycroft trabalha para o governo britânico. E em certo sentido ainda teria mais razão se dissesse que ele às vezes é o próprio governo britânico.

— Meu caro Holmes!

— Já esperava seu assombro. Mycroft embolsa quatrocentas e cinqüenta libras por ano, permanece em posição subalterna, não nutre ambições de nenhuma espécie, recusa-se a receber honrarias ou títulos, mas nem por isso deixa de ser o homem mais indispensável do país.

— Mas como?

— Ora, a posição dele é única; criou-a especialmente para si. Nunca houve coisa parecida, nem jamais haverá. Possui o cérebro mais metódico e preciso deste mundo, com insuperável capacidade de registrar fatos. Os mesmos dotes poderosos que dediquei à elucidação de crimes ele tem utilizado em seu trabalho especial. Vão ter-lhe às mãos as conclusões de cada departamento, e ele é o centro polarizador, a caixa de compensação que contribui para nosso equilíbrio político. Todos os outros funcionários são especialistas; sua especialidade, porém, é a onisciência. Suponhamos, por exemplo, que certo ministro necessite de uma informação sobre uma questão que envolva a marinha, a Índia, o Canadá e o bimetalismo. Poderá obter pareceres isolados de vários departamentos sobre cada assunto. No entanto, somente Mycroft estará em condições de focalizá-los ao mesmo tempo, e dizer com facilidade como cada um deles pode exercer influência sobre o outro. Começaram por utilizá-lo a fim de facilitar o serviço, por comodidade; hoje, tornou-se indispensável. Naquele grande cérebro tudo está riassificado, pronto para ser usado a qualquer momento. Em muitíssimos casos, sua palavra decidiu a política nacional. Vive exclusivamente para isso e não pensa em mais nada, exceto quando, a título de exercício intelectual, se digna atender-me quando vou procurá-lo, a fim de lhe pedir a opinião a respeito de alguns de meus modestos problemas. Contudo, Júpiter hoje resolveu descer à terra. Que diabo terá acontecido? Quem será Cadogan West, e o que ele significa para Mycroft?

— Heureca! — gritei, mergulhando na pilha de jornais sobre o sofá. — Sim, sim, cá está ele, não há dúvida! Cadogan West é o jovem encontrado morto, terça-feira de manhã, na estação de metro.

Holmes endireitou-se na poltrona, subitamente interessado, o cachimbo a meio caminho dos lábios.

— Isso deve ser grave, Watson, para fazer meu irmão desviar-se de seus hábitos. Tem de ser algo extraordinário. Que motivo o ligará a este incidente? Se bem me lembro, o caso nada tinha de especial. A impressão era a de um jovem que se tinha suicidado, atirando-se do trem. Não houve roubo, nem existia o menor fundamento para se pensar em violência. Não é assim?

— Foi aberto um inquérito — respondi —, no qual surgiram muitos detalhes novos. Examinando-os mais atentamente, diria tratar-se com toda a certeza de um caso suspeito.

— A julgar pelo efeito produzido em meu irmão, estou propenso a acreditar que se trata mesmo dos mais estranhos — comentou Holmes, acomodando-se melhor na poltrona. — Vejamos então os fatos, Watson.

— O jovem chamava-se Arthur Cadogan West, tinha vinte e sete anos de idade, era solteiro e funcionário do Arsenal de Woolwich.

— Emprego público. Note a relação com meu irmão Mycroft!

— Desapareceu de Woolwich repentinamente, segunda-feira à noite. Foi visto pela última vez por sua noiva, srta. Violet Westbury, a quem deixou de súbito, no meio do nevoeiro, às sete e meia daquela noite. Não houve nenhuma discussão entre eles, e a jovem não sabe explicar o motivo de sua atitude. Depois disso, a única notícia a seu respeito foi o encontro do cadáver por um operário de nome Mason, encarregado da conservação da linha, pouco depois da Estação de Aldgate, ao longo da rede subterrânea de Londres.

— Quando?

— O corpo foi descoberto às seis horas da manhã de terça-feira. Estava atravessado sobre os trilhos, do lado esquerdo da linha que vai para o leste, num ponto próximo da estação, à saída do túnel. A cabeça estava esmigalhada, o que poderia ser atribuído à queda do trem. Só podia ter atingido a linha dessa maneira. Se tivesse sido transportado de alguma rua das vizinhanças, deveria ter passado pelas cancelas da estação, onde fica sempre um cobrador de bilhetes. Quanto a isso, parece não haver dúvida.

— Muito bem. O caso parece-me bastante definido. O homem, morto ou vivo, caiu ou foi atirado do trem. Até aí está tudo muito claro. Continue.

— Os trens que atravessam as linhas ao lado das quais o corpo foi encontrado correm de oeste para leste, alguns exclusivamente metropolitanos, e outros de Willesden e ramais adjacentes. Não há dúvida de que aquele jovem, quando encontrou a morte, viajava nessa direção, a uma hora avançada da noite, apesar de ser impossível determinar o lugar de seu embarque.

— O bilhete naturalmente deveria indicá-lo.

— Não havia nenhum bilhete em seus bolsos.

— Nenhum bilhete! Caramba! Isso é realmente estranho, Watson. Se minha experiência pessoal não falha, não é possível chegar à plataforma do trem subterrâneo sem exibir a respectiva passagem. É de presumir, portanto, que o jovem a tivesse. Será que ela lhe foi tirada do bolso a fim de ocultar o nome da estação de onde provinha? É provável. Ou a teria deixado cair no vagão? Também é possível. De qualquer modo, é um pormenor muito interessante. Você disse que não houve roubo?

— Aparentemente, não. Eis aqui uma lista do que foi encontrado no corpo. A carteira continha duas libras e quinze xelins. Tinha também no bolso um talão de cheques da filial de Woolwich do Banco Capital and Counties, devido ao qual se pôde estabelecer sua identidade. Havia ainda dois bilhetes para o Teatro Woolwich, datados daquela mesma noite, e, além disso, um pequeno rolo de documentos técnicos.

Holmes soltou uma exclamação de júbilo.

— Aí está finalmente, Watson! Governo britânico… Arsenal de Woolwich… documentos técnicos… meu irmão Mycroft… tudo se encadeia com perfeição. Mas, se não me engano, ele está chegando para nos contar tudo de viva voz.

Dali a um momento, a figura alta e corpulenta de Mycroft Holmes era introduzida na sala. De compleição robusta e maciça, havia nele algo que sugeria uma incrível inércia física. Contudo, sobre o corpo desajeitado surgia uma cabeça tão autoritária na vastidão da fronte, tão viva na expressão dos olhos profundos de um cinzento de aço, tão firme no contorno dos lábios e tão sutil no conjunto da fisionomia, que, após a primeira impressão, esquecíamo-nos do corpo volumoso para nos lembrarmos apenas da mente dominadora.

Acompanhava-o nosso velho amigo Lestrade, da Scotland Yard, magro e austero. A gravidade emanada do rosto de ambos pressagiava um assunto de alta relevância. O policial apertou-nos a mão sem dizer palavra. Mycroft Holmes desvencilhou-se do sobretudo e deixou-se cair pesadamente numa poltrona.

— Um caso desagradabilíssimo, Sherlock — disse. — Detesto profundamente ter de alterar meus hábitos, mas as altas esferas não quiseram ouvir desculpas. Na situação atual em que se encontra o Sião, é desairoso para mim ter de me ausentar do ministério. Todavia, trata-se de verdadeira crise governamental. Nunca vi o primeiro-ministro tão transtornado. Quanto ao Almirantado… parece-me uma colmeia alvoroçada. Já leu as notícias a respeito do caso?

— Acabamos de lê-las. Quais eram os documentos técnicos de que fala o jornal?

— Ah! Eis a questão! Felizmente, nada transpirou, do contrário a imprensa faria um escarcéu dos diabos. Os papéis que aquele desgraçado rapaz levava no bolso eram os planos do submarino Bruce-Partington.

Mycroft Holmes expressara-se com uma solenidade que bem demonstrava a importância que atribuía ao fato. Seu irmão e eu permanecemos sentados, em ansiosa expectativa.

— Você já ouviu falar nisso, não? Pensei que toda gente o soubesse.

— Apenas de maneira vaga.

— Seu enorme valor mal pode ser exagerado se eu disser ter sido esse, dos segredos de Estado, o mais ciosamente guardado. Posso até assegurar-lhe que se torna impossível uma batalha naval dentro do raio de ação de um Bruce-Partington. Há dois anos, conseguimos introduzir às escondidas uma avultada soma na previsão orçamentaria, a qual foi despendida na aquisição do monopólio da invenção. Envidaram-se todos os esforços no sentido de manter o segredo. Os planos, extremamente complicados, compreendem cerca de trinta patentes autônomas (cada uma das quais essencial para a execução do todo), que são conservadas na caixa-forte especial de um departamento secreto, perto do Arsenal, com portas e janelas à prova de arrombamento. Sob nenhum pretexto os planos deveriam ser retirados dali. Se o construtor-chefe da marinha quisesse consultá-los, precisaria dirigir-se ao Departamento de Woolwich para esse fim. Contudo, eis que os encontramos nos bolsos de um jovem funcionário subalterno morto no coração de Londres. A nosso ver, é simplesmente espantoso.

— Mas recuperaram-nos, então?

— Não, Sherlock, não! Aí está a tragédia. Não conseguimos reavê-los. Dez documentos foram subtraídos de Woolwich. Nos bolsos de Cadogan West só havia sete. Os três mais importantes estão desaparecidos… roubados, evaporados. Você tem de abandonar tudo o que tiver em mãos, Sherlock. Não vêm ao caso, nesta altura, seus pequenos quebra-cabeças policiais de sempre. Cabe resolver agora um problema de magna influência internacional. Por que se teria apoderado Cadogan West dos documentos, onde estão os que faltam, como morreu ele, como veio ter seu cadáver ao lugar onde foi descoberto, de que maneira poderá remediar-se essa desgraça? Procure dar a resposta a todas essas perguntas e você terá prestado ao país um inestimável serviço.

— Por que não lhes responde você mesmo, Mycroft? É tão inteligente como eu.

— É provável, Sherlock; mas trata-se de obter pormenores. Consiga-os, e, de minha poltrona, fornecerei uma excelente opinião de perito. Você sabe, pôr-me a correr daqui para ali para interrogar guardas do metrô e deitar-me de bruços com uma lente encaixada no olho… não, não é essa minha especialidade. Você é a única pessoa capaz de esclarecer tal mistério. E se lhe interessa ver seu nome na próxima lista de honrarias…

Meu amigo sorriu e sacudiu a cabeça.

— Meu interesse é meramente esportivo — retrucou. — No entanto, o problema apresenta certos aspectos interessantes, e terei muito prazer em estudá-lo. Preciso, porém, de mais alguns dados.

— Anotei nesta folha de papel os mais necessários, bem como alguns endereços que lhe serão úteis. Presentemente, o guarda oficial dos documentos é o famoso perito do Estado, Sir James Walter, cujos títulos e condecorações enchem duas linhas do anuário de referência. Envelheceu ao serviço da pátria, é um perfeito cavalheiro, hóspede favorito das famílias mais eminentes e, sobretudo, um homem cujo patriotismo paira acima de qualquer suspeita. É uma das duas pessoas que possuem a chave da caixa-forte. Posso ainda afirmar que os documentos se encontravam no departamento na segunda-feira, nas horas do expediente, e que Sir James partiu para Londres, por volta das três horas, levando a chave consigo. Quando se verificou o incidente, ele estava na Barclay Square, em casa do almirante Sinclair, e ali ficou até tarde.

— Esse pormenor foi averiguado?

— Sim; seu irmão, o coronel Valentine Walter, comprovou a partida de Woolwich, e o almirante Sinclair, a chegada a Londres. Sir James, por conseguinte, deixa de constituir um fator direto no problema.

— Quem possui a segunda chave?

— O sr. Sidney Johnson, funcionário de categoria e desenhista do Arsenal, homem de quarenta anos, casado e pai de cinco filhos. É taciturno e rabugento, mas empregado exemplar. Não goza de popularidade entre os colegas, não obstante ser um trabalhador incansável. Segundo as próprias declarações corroboradas unicamente pela mulher, permaneceu em casa durante toda a noite de segunda-feira, após o trabalho, e sua chave não deixou nem um momento a corrente do relógio, na qual se encontra pendurada.

— Fale-nos a respeito de Cadogan West.

— Trabalhava há dez anos nesse departamento, ao qual vinha prestando bons serviços. Tinha fama de irascível e violento, mas era considerado um rapaz de caráter e honesto. Nada temos contra ele. No departamento, estava subordinado diretamente a Sidney Johnson. Suas funções punham-no diariamente em contato pessoal com os planos. Ninguém mais tocava neles.

— Quem os guardou na caixa-forte aquela noite?

— Sidney Johnson.

— Bem, torna-se evidente quem os tirou de lá. Foram encontrados no corpo de Cadogan West. Não lhe parece que é bastante claro?

— À primeira vista parece, Sherlock; no entanto, muitos pontos continuam inexplicáveis. Para começar, por que razão ele faria isso?

— Presumo tratar-se de documentos de grande valor — insistiu Holmes.

— Poderia obter facilmente com eles alguns milhares de libras.

— Você consegue imaginar outro motivo plausível que o induzisse a levar os documentos a Londres, a não ser o intuito de vendê-los?

— Não, francamente não.

— Temos então de tomar essa hipótese como ponto de partida. O jovem West subtraiu os documentos, o que, entretanto, só seria possível mediante uma chave falsa….

— Várias chaves falsas, pois precisaria abrir também a porta do prédio e a da sala.

— Suponhamos, portanto, que possuísse diversas chaves falsas. Levou os documentos a Londres a fim de vender o segredo, certamente com a intenção de repô-los no lugar, na manhã seguinte, antes que dessem pela falta. Todavia, em Londres, no decurso de sua desprezível missão, encontrou o próprio destino.

— De que maneira?

— Podemos supor que regressava a Woolwich quando foi morto e atirado para fora do vagão.

— Aldgate, onde o corpo foi encontrado, fica muito distante da Estação da Ponte de Londres, lugar em que deveria descer a fim de seguir para Woolwich.

— Poderíamos imaginar inúmeras circunstâncias que o tivessem feito ultrapassar a Ponte de Londres. Talvez houvesse no carro uma pessoa com quem se tivesse entretido em animada palestra, que degenerou em cena violenta, na qual veio a perder a vida. Ou talvez, ao tentar saltar do metro, caísse na linha e assim morresse. A tal pessoa fechou a porta; o nevoeiro estava muito espesso e nada foi visto.

— Em face de nossos atuais conhecimentos sobre o assunto, não é possível melhor explicação; no entanto, Sherlock, veja quanta coisa você deixou de considerar. Suponhamos, para argumentar, que Cadogan West tivesse de fato resolvido levar esses documentos a Londres. Naturalmente, teria combinado um encontro com o agente estrangeiro, a quem deveriam ser vendidos, e ficaria com a noite livre. Em vez disso, comprou duas entradas para o teatro, acompanhou a noiva até o meio do caminho, e depois desapareceu repentinamente.

— Um estratagema para despistar — interveio Lestrade, que ouvia a conversa com certa impaciência.

— Aliás, muito estranho. Essa é a primeira objeção. Segunda: imaginemos que ele tenha chegado a Londres e visto o agente estrangeiro. Precisa repor os documentos antes do amanhecer, sob pena de darem pela falta dele. Levara consigo dez. Em seus bolsos foram encontrados ape- nas sete. O que teria acontecido aos outros três? Certamente não os teria perdido de propósito e, além disso, onde está o pagamento por sua traição? Era de supor que se encontrasse uma grande soma de dinheiro em seu poder.

— A mim tudo parece claro — observou Lestrade.

— Não tenho dúvidas em relação ao ocorrido. Ele tirou os documentos para vendê-los. Avistou-se com o agente. Não chegaram a um acordo quanto ao preço. Dirigiu-se novamente para casa, mas o agente acompanhou-o. No metro, o espião assassinou-o, apoderando-se dos papéis mais importantes, e atirou o cadáver para fora do vagão. Isso explicaria tudo, não lhe parece?

— E por que ele não estava com o bilhete?

— Talvez indicasse a estação mais próxima da casa do agente. Por isso, este teve o cuidado de subtraí-lo do bolso da vítima.

— Muito bem, Lestrade, ótimo! — comentou Holmes. — Sua hipótese é bastante viável. Entretanto, se for verdadeira, o caso está terminado. Por um lado, o traidor encontra-se morto; por outro, os planos do submarino Bruce-Partington já se encontram com toda a certeza no continente. O que nos resta fazer?

— Agir, Sherlock… agir! — gritou Mycroft, saltando da cadeira. — Todos os meus instintos se rebelam contra essa explicação. Ponha em ação suas faculdades! Vá ao local do crime! Fale com as pessoas implicadas nos acontecimentos! Pesquise tudo! Jamais, durante toda a sua carreira, se apresentou melhor ocasião de servir seu país.

— Está bem, está bem! — disse Holmes, encolhendo os ombros. — Vamos, Watson! E você, Lestrade, pode acompanhar-nos por uma ou duas horas? Iniciaremos nossas buscas com uma visita à Estação de Aldgate. Até logo, Mycroft. Trarei fatos novos antes do anoitecer, mas pressinto que você terá pouco a esperar.

Uma hora mais tarde, Holmes, Lestrade e eu nos encontrávamos sobre os trilhos do trem subterrâneo, no ponto em que emergem do túnel, pouco antes de Aldgate. Um cavalheiro idoso, cortês, de faces rubicundas, representava a companhia ferroviária.

— Aqui jazia o corpo do rapaz — explicou ele, indicando um lugar a cerca de um metro da via férrea. — Não podia ter caído lá de cima, pois, como vêem, estas paredes são inacessíveis. Só poderia, portanto, ter sido atirado de um trem, que, até onde nos é dado supor, deve ter passado aqui por volta da meia-noite de segunda-feira.

— Verificaram se os vagões tinham algum sinal de violência?

— Não, nem foi encontrado qualquer bilhete.

— Alguma porta, por acaso, foi encontrada aberta?

— Não.

— Obtivemos hoje de manhã novos indícios — disse Lestrade. — Um passageiro que passou por Aldgate num metro comum, cerca das onze e quarenta da noite de segunda-feira, declarou ter ouvido um pesado baque, como o de um corpo ao cair na linha, pouco antes de o trem entrar na estação. O nevoeiro, porém, estava muito denso, e ele não pôde ver nada. Na ocasião não deu grande importância ao fato… Mas o que diabo estará acontecendo ao sr. Holmes?

Com uma expressão de vivíssimo interesse estampada no rosto, meu amigo fixava os trilhos no ponto em que estes, fazendo uma curva, saem do túnel. Aldgate constitui um entroncamento, e ali se entrecruza uma vasta e emaranhada rede de desvios. Era neles que se fixavam seus olhos vigilantes, perscrutadores, e eu lhe notei na face ativa e sagaz o contrair dos lábios, o tremor das narinas e a curvatura típica das espessas sobrancelhas, tudo o que eu conhecia tão bem.

— Os desvios — murmurou —, os desvios!

— O que têm eles? O que quer dizer?

— Suponho que não haja grande número de desvios num sistema ferroviário como este.

— De fato, existem muito poucos.

— E além disso uma curva. Desvios e curva. Por Deus! Se assim fosse!

— O que é, sr. Holmes? Encontrou algum indício?

— Uma idéia… mera suposição. Mas, sem dúvida nenhuma, o caso aumenta de interesse. Único, absolutamente único, e, todavia, por que não? Não vejo o menor sinal de sangue na linha.

— Quase não havia nenhum.

— Segundo eu soube, o ferimento era bastante grande.

— O osso estava esmagado, porém externamente a ferida não parecia grave.

— E, no entanto, era de esperar que tivesse havido sangue. Poderia inspecionar o trem no qual viajava o passageiro que ouviu o baque de um corpo?

— Receio que não, sr. Holmes. A composição do trem já foi desfeita, e os vagões foram redistribuídos.

— Posso garantir-lhe, sr. Holmes — afirmou Lestrade —, que todos os vagões foram cuidadosamente examinados. Tratei disso pessoalmente.

Fazia parte das fraquezas mais características de meu amigo certa impaciência indomável ao defrontar-se com inteligências menos penetrantes que a sua.

— É provável — disse, afastando-se. — Na verdade, não eram os vagões o que eu desejava examinar. Não nos resta mais nada a fazer aqui, Watson. Não o importunaremos mais, Lestrade. Julgo que nossas investigações nos devem conduzir agora a Woolwich.

Na Ponte de Londres, mandou um telegrama a seu irmão, estendendo-o a mim antes de expedi-lo.

“Vislumbro certa luz no meio das trevas, mas é provável que venha a extinguir-se. Entretanto, queria que você fizesse chegar às minhas mãos, na Baker Street, a lista completa de todos os espiões estrangeiros ou agentes internacionais cuja residência na Inglaterra é conhecida, com os respectivos endereços por extenso.

Sherlock.”

— Isso poderá ser-nos útil, Watson — observou ele ao tomarmos lugar no trem de Woolwich. — Devemos sem dúvida a meu irmão Mycroft ter-nos posto em contato com um caso que promete revelar-se fora do comum.

Seu rosto inteligente trazia ainda aquela expressão de energia intensa e concentrada que demonstrava que alguma circunstância nova e sugestiva lhe abrira estimulante campo para exercer seus notáveis dotes de raciocínio. Compare-se O cão de caça, de orelhas pendentes e cauda baixa, a vaguear em torno do canil, com o mesmo animal que, com olhos brilhantes e músculos tensos, fareja a caça próxima, e ter-se-á uma idéia da mudança operada em Holmes no decorrer daquela manhã. Que diferença do homem inerte e abatido que, em roupão cor de rato, andava ainda há poucas horas, de um lado para outro, na saleta isolada pela névoa!

— Aqui há um excelente material, um objetivo — disse-me. — Fui tolo por não ter visto desde o princípio suas possibilidades.

— Ainda agora ele se apresenta para mim mais confuso que nunca.

— Mesmo para mim a conclusão é confusa, mas aferrei-me a uma hipótese que poderá nos levar longe. O homem encontrou a morte em outro lugar, e seu corpo estava na capota do vagão.

— Na capota?

— Extraordinário, não acha? Reflita, porém, nos fatos. Será mera coincidência ter sido encontrado no ponto onde o irem se agita e oscila ao passar nos desvios? Não é esse o local onde se pode esperar que um objeto colocado na capota devesse cair? Os desvios não poderiam influir no que se encontrava dentro do trem. Ou o cadáver caiu da capota ou encontramo-nos diante de uma coincidência muito singular. Mas vejamos agora a questão do sangue. Naturalmente, não deveria haver sangue na linha se o corpo tivesse sangrado em outro lugar. Os fatos são sugestivos por eles próprios; reunidos, adquirem uma força cumulativa.

— E o bilhete também! — exclamei.

— Exatamente. Não conseguíamos explicar-lhe a ausência, e essa hipótese justifica-a. Tudo se articula com justeza.

— Mas, supondo que tivesse sido assim, ainda nos encontramos muito longe de poder decifrar o mistério de sua morte. De fato, as coisas não se simplificam; tornam-se mais estranhas.

— Talvez — murmurou Holmes com ar pensativo —, talvez.

Meu amigo emudeceu e concentrou-se em seus pensamentos até a Estação de Woolwich. Ali chamou um carro de praça, e ao entrar nele tirou do bolso o papel que Mycroft lhe entregara.

— Temos de fazer várias visitas esta tarde — disse. — Creio que Sir James Walter deverá ser o primeiro a merecer a nossa atenção.

A residência do famoso perito era uma vivenda belíssima, rodeada de relvados verdes, que se estendiam até as margens do Tamisa. Ao chegarmos lá, a névoa começava a dissipar-se, e os raios pálidos e débeis do sol surgiam lentamente através da bruma. Um mordomo veio atender-nos.

— Sir James! — exclamou com ar solene. — Sir James faleceu esta manhã.

— Santo Deus! — bradou Holmes, estupefato. — Como ele morreu?

— Os senhores desejam entrar e falar com o coronel Valentine, irmão dele?

— Sim, é melhor.

Fomos introduzidos numa sala fracamente iluminada, onde, instantes depois, nos recebeu um homem alto, aparentando cinqüenta anos, de feições delicadas e barba pouco espessa — o irmão mais novo do cientista morto. O olhar desvairado, o rosto sulcado de lágrimas e o cabelo despenteado descreviam com eloqüência o rude golpe desferido sobre aquela casa. Quase não conseguia articular palavra.

— Foi esse horrível escândalo — disse. — Meu irmão era muito sensível em questões de honra, e não pôde sobreviver a tamanha vergonha. Perdeu completamente o ânimo. Sempre se orgulhou da eficiência de seu departamento, e semelhante catástrofe aniquilou-o.

— Esperávamos que ele pudesse dar-nos certas indicações úteis para o esclarecimento do caso.

— Asseguro-lhes que constituía para ele um mistério tão impenetrável como para os senhores e para todos nós. Já tinha posto à disposição da polícia tudo quanto sabia. Naturalmente, estava certo da culpabilidade de Cadogan West, mas todo o resto lhe parecia inconcebível.

— O senhor não seria capaz de nos sugerir qualquer indício útil?

— Pessoalmente nada sei, exceto o que li ou ouvi. Não desejo passar por indelicado, sr. Holmes, mas deve compreender o abalo que acabamos de sofrer, e por isso peço-lhe licença para terminar este nosso colóquio.

— Eis uma coisa pela qual não esperava — observou Holmes ao regressarmos ao carro. — Fico com dúvidas sobre se a morte foi natural, ou se o pobre velho se suicidou. Nesta última hipótese, isso não poderia ser tomado como sinal de remorso por negligência no cumprimento do dever? Deixe-mos essa pergunta para o futuro. E agora tratemos da família Cadogan West.

A inconsolável mãe do morto habitava uma pequenina mas bem-cuidada casa nos arrabaldes da cidade. Estava demasiado abatida pela dor para que nos fosse de qualquer utilidade. Contudo, encontrava-se a seu lado uma jovem pálida, que se apresentou a nós como a noiva do rapaz, a srta. Violet Westbury, a última pessoa que o vira naquela noite fatal.

— Não consigo compreender, sr. Holmes — disse ela. — Não consigo mais dormir desde que se deu a tragédia; vivo pensando, pensando incessantemente, noite e dia, no verdadeiro significado de tudo isso. Arthur era um rapaz simples, cavalheiresco e patriota como poucos. Preferiria cortar a mão direita a vender um segredo de Estado confiado à sua guarda. Para quem o conhecia bem, é a coisa mais absurda, impossível e fora de propósito.

— Mas e os fatos, srta. Westbury?

— Sim, sim; reconheço minha impossibilidade de explicá-los.

— Ele estava necessitando de dinheiro?

— Não; seus gastos eram mínimos, e ele ganhava um ótimo ordenado. Já tinha economizado algumas centenas de libras, e devíamos casar-nos pelo Ano-Novo.

— Não lhe notou nenhuma perturbação ultimamente? Vamos, srta. Westbury, use da máxima franqueza conosco.

O olhar penetrante de meu amigo notara certa mudança nas maneiras da jovem. Ela corou, indecisa.

— Realmente — disse por fim. — Tinha a impressão de que qualquer coisa o preocupava.

— Há muito tempo?

— Mais ou menos há uma semana. Tornara-se pensativo e inquieto. Em certa ocasião, insisti com ele para que se abrisse comigo. Admitiu ter qualquer coisa que o perturbava com referência ao serviço. “É um assunto grave demais para que ouse falar, mesmo a você”, respondeu. Nada mais consegui arrancar-lhe.

A atitude de Holmes tornou-se grave.

— Prossiga, srta. Westbury. Prossiga, mesmo se tiver a impressão de estar depondo contra ele. Não podemos saber a que isso nos pode conduzir.

— Francamente, nada mais tenho a dizer. Uma ou duas vezes pareceu-me estar a ponto de me confiar qualquer coisa. Falou-me uma noite acerca da importância dos documentos secretos, e tenho uma vaga idéia de me ter dito que sem dúvida os espiões estrangeiros pagariam uma fortuna para obtê-los.

A fisionomia de meu amigo tornou-se ainda mais severa.

— Nada mais?

— Disse-me que éramos negligentes a respeito de tais assuntos… que seria fácil a um traidor apoderar-se dos planos.

— Ele fez essas observações recentemente?

— Sim, nestes últimos dias.

— Agora, fale-nos da última noite em que o viu.

— Tínhamos combinado ir ao teatro. O nevoeiro estava tão espesso que era inútil tomar um carro. Pusemo-nos a andar, e nosso caminho levou-nos às proximidades de sua repartição. De súbito, ele começou a correr, desaparecendo no nevoeiro.

— Sem uma palavra?

— Soltou uma exclamação; foi tudo. Esperei-o, mas não voltou. Regressei então a casa. Na manhã seguinte, quando a repartição abriu, vieram interrogar-nos. Por volta do meio-dia, soubemos da horrível notícia. Oh! sr. Holmes, se fosse possível ao menos salvar-lhe a honra! Ele a prezava tanto!

Holmes sacudiu a cabeça tristemente.

— Vamos, Watson — disse-me. — Ainda temos muito o que fazer. Em primeiro lugar devemos ir à seção de onde foram subtraídos os documentos.

— Os indícios contra aquele rapaz já eram desfavoráveis, e nossas investigações os tornam ainda piores — observou Holmes, enquanto o carro se punha em movimento. — Seu casamento iminente fornece um motivo para o crime. Naturalmente, precisava de dinheiro, e essa idéia dominava-o, pois falou com a noiva a respeito disso. Quase chegou a torná-la cúmplice da traição, revelando-lhe seus projetos. A conjuntura apresenta-se muito má para ele.

— Todavia, Holmes, não acha que o caráter da pessoa deve ser levado em conta? Além disso, por que haveria de abandonar a noiva no meio da rua e desaparecer daquele modo?

— Exatamente! Há de fato várias objeções; contudo, os fatos que a elas se opõem são ponderáveis.

O sr. Sidney Johnson, funcionário-chefe, veio a nosso encontro no átrio, e recebeu-nos com o respeito que o cartão de Holmes sempre suscitava. Era um homem de meia-idade, encovado, e as mãos tremiam-lhe com a emoção resultante dos últimos acontecimentos.

— Que desastre, sr. Holmes, que desastre! Já soube do falecimento de nosso chefe?

— Acabamos de sair de sua casa.

— Tudo aqui está caótico. O chefe, morto, Cadogan West, morto, os documentos, roubados. Entretanto, quando encerramos o expediente na noite de segunda-feira, constituíamos o departamento mais eficiente do governo. Santo Deus! É horroroso pensar que justamente West fosse cometer tal desatino!

— O senhor tem certeza, então, de que ele foi o culpado?

— Não vejo quem mais possa ter sido. E, contudo, confiava nele como em mim próprio.

— A que horas fecharam a repartição na segunda-feira?

— Às cinco.

— Foi o senhor quem fechou as portas?

— Sou sempre o último a sair.

— Onde estavam os planos?

— Naquela caixa-forte. Coloquei-os lá pessoalmente.

— Não fica ninguém de guarda no prédio?

— Fica; mas há também outras seções para vigiar. É um antigo soldado, pessoa de inteira confiança. Nada viu naquela noite. O nevoeiro, sem dúvida, era muito denso.

— Se Cadogan West quisesse entrar no edifício fora de hora, teria necessidade de três chaves para poder alcançar os documentos, não é certo?

— Exatamente. A chave da porta da rua, a do escritório e a da caixa-forte.

— Só o senhor e Sir James possuíam essas chaves?

— Eu não tinha as das portas… apenas a da caixa-forte.

— Sir James era um homem de hábitos regulares?

— Sim; creio que era. No tocante a essas três chaves, sei que ele as trazia sempre juntas no mesmo chaveiro. Eu próprio as vi muitas vezes.

— E ele costumava levar esse chaveiro a Londres?

— Assim dizia.

— E o senhor nunca se separou de sua chave?

— Nunca.

— Então, West, se ele é de fato o culpado, devia ter uma duplicata. No entanto, nenhuma foi encontrada em seus bolsos. Outra coisa: se um funcionário deste departamento tivesse intenção de vender os planos, não lhe seria mais fácil copiá-los em vez de subtrair os originais, como foi feito?

— Seriam necessários profundos conhecimentos técnicos para poder fazê-lo de maneira eficiente.

— Creio, porém, que tanto Sir James como o senhor ou West possuíam essa competência técnica, não é verdade?

— Sem dúvida; peço-lhe, no entanto, que não me envolva nessa questão, sr. Holmes. De que servem as especulações abstratas, quando os planos originais foram encontrados em poder de West?

— Contudo, é estranho que ele fosse correr o risco de roubar os originais, quando teria podido copiá-los sem dificuldade, com resultados igualmente vantajosos para seu fim.

— É esquisito, sem dúvida… No entanto, foi o que ele fez.

— Todas as pesquisas relativas a este caso revelam algo de inexplicável. Quanto a esses documentos que ainda se encontram desaparecidos, segundo me disseram, são os de maior importância.

— Sim, de fato.

— Acredita que alguém pudesse, com esses três documentos, mas sem os outros sete, construir um submarino Bruce-Partington?

— Foi o que declarei ao Almirantado. Entretanto, estive hoje revendo os desenhos e já não estou tão certo disso. As válvulas duplas, que se fecham automaticamente, estão desenhadas num dos papéis recuperados. Enquanto o país estrangeiro que se apoderou dos planos não as tiver inventado, não poderá construir o submarino. Essa dificuldade, é claro, poderá ser facilmente superada.

— De qualquer modo, os três desenhos desaparecidos são os mais importantes?

— Sem a menor dúvida.

— Agora, se me permite, gostaria de dar uma volta pelo prédio. Que me lembre, nada mais me resta perguntar-lhe.

Holmes inspecionou a fechadura da caixa-forte, a porta da sala e, finalmente, as folhas de ferro da janela. Somente quando nos encontrávamos na parte externa do edifício é que ele deu mostras de um vivo interesse. Havia um grande loureiro abaixo da janela, e vários de seus ramos mostravam sinais evidentes de terem sido torcidos ou quebrados. Examinou-os cuidadosamente com uma lente, e fez outro tanto com alguns vestígios pouco nítidos rio terreno em redor. Por fim, pediu ao sr. Johnson que fechasse as folhas de ferro da janela e chamou-me a atenção para o vão que elas deixavam ao centro, o que facilitava a qualquer pessoa de fora ver o que se passava no interior da sala.

— Estas marcas foram prejudicadas pêlos três dias de demora. Podem significar alguma coisa, mas também é possível que não tenham nenhum valor. Bem, Watson, penso que nada mais temos a fazer em Woolwich. Nossa colheita aqui foi bem magra. Vejamos se em Londres temos mais sorte.

Todavia, antes de deixarmos a Estação de Woolwich, acrescentamos mais um feixe à nossa ceifa. O bilheteiro informou-nos confidencialmente que tinha visto Cadogan West — que conhecia bem de vista — na noite de segunda-feira, e garantiu-nos que ele embarcara para a Ponte de Londres, no trem das oito e quinze. Estava só, e comprou uma passagem de terceira classe. O empregado surpreendeu-se com seu aspecto nervoso e agitado. Estava de tal modo trêmulo que não conseguiu recolher o troco, no que foi auxiliado pelo bilheteiro. Uma rápida consulta ao horário dos trens revelou-nos ser o das oito e quinze o primeiro que West poderia ter apanhado, depois de ter se despedido da noiva às sete e trinta.

— Procuremos reconstituir os fatos, Watson — disse-me Holmes ao cabo de meia hora de silêncio. — Não acredito que tenhamos, em toda a nossa longa série de investigações em conjunto, defrontado caso mais difícil do que este. A cada passo encontramos um novo obstáculo. Apesar de tudo, é certo que realizamos um apreciável progresso. O resultado de nossas pesquisas em Woolwich foi na maior parte desfavorável ao jovem Cadogan West; entretanto, os sinais da janela prestam-se a uma hipótese mais propícia. Suponhamos, por exemplo, que ele tenha sido sondado por algum agente estrangeiro. Isso pode ter sido feito mediante uma promessa que o teria impedido de falar sobre o assunto, a qual, apesar de tudo, exerceu influência em seu espírito, conforme se depreende das observações feitas por ele à noiva. Ora, muito bem. Imaginemos agora que, quando se dirigia ao teatro com a jovem, tivesse distinguido subitamente, através da névoa, o vulto desse mesmo agente caminhando na direção do departamento. Rapaz impetuoso e de decisões rápidas, todas as suas outras preocupações desapareceram diante do dever. Acompanhou o homem, chegou junto à janela, presenciou a subtração dos documentos e lançou-se no encalço do ladrão. Deste modo superamos a objeção de que ninguém tiraria os originais, quando lhe seria mais fácil copiá-los. A esse estranho, porém, não restava outra alternativa senão apoderar-se deles. Até aqui, o raciocínio está bem concatenado.

— E depois?

— Depois começam a surgir as dificuldades. É lógico conceber que, em tais circunstâncias, o primeiro gesto de Cadogan West fosse o de agarrar o meliante e dar o alarme. Por que não o fez? Tratar-se-ia de funcionário de categoria elevada? Isso explicaria a conduta de West. Ou o ladrão teria logrado escapar protegido pelo denso nevoeiro, e West embarcou para Londres a fim de apanhá-lo na própria residência, presumindo-se que ele sabia onde morava? O caso devia exigir a máxima urgência, em vista de ele ter abandonado a jovem sozinha no nevoeiro e não ter feito o mínimo esforço para se comunicar com ela. Nesse ponto, nossa pista se perde e defrontamo-nos com uma imensa lacuna entre cada uma dessas hipóteses e o encontro do cadáver de West, com sete documentos no bolso, sobre a capota de um vagão do metro. O instinto sugere-me que trabalhe, daqui em diante, começando pelo lado oposto. Se Mycroft nos mandou a lista de endereços, talvez consigamos descobrir nosso homem e seguir assim duas pistas em vez de uma.

Havia realmente um bilhete à nossa espera na Baker Street. Fora trazido em caráter de urgência por um mensageiro do governo. Holmes passou os olhos por ele rapidamente e o entregou a mim.

“O cardume de espiões é grande; no entanto, poucos são os peixes de bom porte capazes de levar a cabo golpe de tal monta. Os únicos dignos de nota são os seguintes: Adolph Meyer, Great George Street, 13, Westminster; Louis La Rothiere, Campden Mansions, Notting Hill, e Hugo Oberstein, Caulfield Gardens, 13, Kensington. Deste último sabe-se que esteve segunda-feira na cidade e que a deixou agora, com destino ignorado. Sinto-me satisfeito com a notícia de que finalmente você conseguiu vislumbrar alguma luz. O gabinete aguarda com impaciência seu relatório final. As altas esferas insistem na máxima urgência. Todas as forças do Estado se encontram à sua disposição, caso você venha a necessitar delas.

Mycroft.”

— Receio — disse Holmes, sorrindo — que todos os cavalheiros da rainha e todos os seus homens não nos possam valer neste assunto.

Estendeu sobre a mesa seu grande mapa topográfico de Londres, e pôs-se a estudá-lo minuciosamente.

— Muito bem! — exclamou dali a instantes, dando mostras de satisfação. — O vento, por fim, começa a soprar a nosso favor. Ora, viva, Watson, acredito piamente que, no fim de contas, seremos bem sucedidos — acrescentou, dando-me uma palmada no ombro, num súbito acesso de bom humor. — Agora vou dar um giro. É um simples reconhecimento. Nada farei de importante sem estar acompanhado de meu fiel camarada e ilustre biógrafo. Espere-me aqui, pois, na pior das hipóteses, dentro de uma ou duas horas estarei de volta. Se o tempo lhe parecer demasiado longo, pegue papel e tinta e inicie a narrativa de como salvamos a pátria.

Senti-me invadido pelo seu bom humor, pois sabia perfeitamente que Holmes jamais abandonaria a habitual austeridade de maneiras sem ter boas razões para isso. Aguardei com impaciência seu regresso durante toda aquela infindável tarde de novembro. Finalmente, pouco depois das nove, apareceu-me um mensageiro com o seguinte bilhete:

“Janto no Goldini, na Gloucester Road, Kensington. Peço-lhe para vir ter comigo imediatamente. Traga um pé-de-cabra, uma lanterna furta-fogo, um escopro e um revólver.

S. H.”

Belos apetrechos para um cidadão respeitável levar consigo através de ruas escuras, encobertas pelo nevoeiro! Ocultei-os debaixo do sobretudo e dirigi-me sem demora para o endereço indicado. Meu amigo estava sentado a uma mesinha redonda, junto à porta do bizarro restaurante italiano.

— Já jantou? Então, faça-me companhia no café e num cálice de curaçau. Experimente os charutos da casa. São menos mortíferos que os habituais. Trouxe os utensílios?

— Estão aqui, no sobretudo.

— Ótimo. Deixe-me apresentar-lhe um resumo do que já fiz, acompanhado de certas instruções a respeito do que ainda vamos fazer. Primeiro, é preciso lembrar que o cadáver do jovem foi colocado na capota do vagão. Isso tornou-se evidente desde o instante em que compreendi que o corpo tinha caído dela, e não do interior da carruagem.

— Não poderia ter sido atirado de uma ponte?

— Sou capaz de jurar que isso seria impossível. Se você reparar nas capotas dos vagões, verá que são ligeiramente abauladas e não há o menor anteparo em redor. Podemos afirmar, portanto, que o corpo de Cadogan West foi colocado sobre a parte superior de um dos vagões.

— E como isso foi feito?

— Essa é a pergunta a que devemos responder. Só existe uma possibilidade. Você sabe que os trens do metro correm fora das galerias subterrâneas em certos pontos do West End. Recordo-me vagamente de ter observado, ao percorrer esses lugares, algumas janelas pouco acima de minha cabeça. Imaginando, pois, que um trem parasse exatamente debaixo de uma dessas janelas, haveria qualquer dificuldade em depositar um cadáver sobre um dos vagões?

— A idéia parece-me de todo inverossímil.

— Não devemos esquecer-nos do velho axioma de que, quando todas as outras hipóteses falham, a que resta, mesmo que seja improvável, deve traduzir a verdade. No caso presente, todas as demais hipóteses são falhas. Quando descobri que o principal agente internacional, que acabava de deixar Londres, morava numa fila de casas à margem da linha do metro, fiquei tão satisfeito que você se surpreendeu com minha leviandade extemporânea.

— Ah! Era esse o motivo?

— Exatamente. O sr. Hugo Oberstein, da Caufield Gardens, 13, tornou-se meu objetivo. Iniciei minhas operações na Estação de Gloucester Road, onde um funcionário muito amável me acompanhou ao longo da linha e me permitiu verificar não somente que as janelas da escada de serviço da Caulfield Gardens se abrem sobre os trilhos, mas também que, fato ainda mais essencial, devido à intersecção de uma das linhas mais importantes, os trens às vezes ficam retidos, durante vários minutos, exatamente naquele ponto.

— Magnífico, Holmes! O caso está resolvido!

— Calma, calma, Watson. Fizemos progressos; a meta, no entanto, ainda se encontra distante. Ora, depois de ter estudado os fundos da casa na Caulfield Gardens, dirigi-me à parte da frente e convenci-me de que o pássaro tinha realmente batido a linda plumagem. A casa é espaçosa, mas, pelo que pude ver, está vazia no andar superior. Oberstein morava ali com um único criado, provavelmente cúmplice de inteira confiança. Devemos lembrar-nos de que Oberstein partira para o continente com o fito de negociar sua presa, não com a idéia de fugir. Não tinha razões para temer um mandado de prisão, nem jamais lhe teria passado pela cabeça a possibilidade de uma busca domiciliar por parte de um policial amador. Contudo, é precisamente isso o que vamos fazer.

— Não poderíamos obter um mandado e legalizar a busca?

— Impossível, diante da falta de provas.

— Que esperanças podemos alimentar?

— Talvez a correspondência que houver lá dentro…

— A coisa não me cheira bem, Holmes.

— Caro companheiro, você ficará de guarda à rua. Eu me encarregarei da parte delituosa. Não é ocasião para hesitar diante de ninharias. Pense no bilhete de Mycroft, no Almirantado, no ministério, na alta personalidade que aguarda notícias. Precisamos agir.

Minha resposta foi erguer-me da mesa.

— Tem razão, Holmes, devemos agir.

Ele levantou-se de súbito e apertou-me a mão.

— Sabia que não iria abandonar-me no último momento — disse-me.

Por um instante vi em seus olhos algo insólito, que chegava a parecer ternura; quase imediatamente, porém, voltou a ser o homem prático e autoritário de sempre.

— Temos cerca de oitocentos metros de caminho, mas não há pressa. Vamos a pé. Cuidado para não deixar cair os instrumentos. Sua prisão como pessoa suspeita traria complicações desastrosas!

A Caulfield Gardens era constituída de uma dessas fileiras de casas de fachada lisa, com pórtico e pilares, produto característico dos meados da época vitoriana, no coração do West End de Londres. Na casa vizinha à que procurávamos parecia haver uma festa de crianças, pois através da noite ressoavam um alegre burburinho de vozes infantis e os acordes de um piano. O nevoeiro continuava espesso e protegia-nos como sombra amiga, Holmes acendeu a lanterna e dirigiu o jato de luz para a pesada porta.

— Eis um obstáculo difícil de transpor — disse. — Além de fechada à chave, deve ter uma tranca. Creio que (seremos mais bem sucedidos nos fundos da casa. Há uma excelente arcada lá embaixo, sob a qual poderemos ocultar-nos no caso de um policial demasiado zeloso vir interromper-nos. Ajude-me a saltar o muro, Watson, e farei o mesmo por você.

Um minuto depois, encontrávamo-nos no pátio. Mal alcançáramos a sombra, ouvimos os passos de um policial ecoarem na névoa. Logo que o ritmo cadenciado morreu ao longe, Holmes tentou abrir a porta inferior. Vi-o curvar-se e empurrar até que esta, com um estalido seco, se escancarou. Precipitamo-nos através da escura passagem, fechando a porta do pátio atrás de nós. Holmes precedia-me na escada curva e desprovida de passadeira. O pequeno jorro de luz amarelada da lanterna projetou-se sobre uma janela baixa.

— Aqui está, Watson… deve ser esta.

Abriu-a, e ouvimos de súbito um murmúrio abafado, áspero, que foi aumentando progressivamente até se transformar num estrondo fragoroso: era um trem que passava por nós na escuridão. Holmes percorreu com a luz da lanterna o peitoril da janela- Estava coberto de fuligem vomitada pelas locomotivas em trânsito. Contudo, a superfície negra estava apagada e raspada em alguns pontos.

— Pode se ver onde apoiaram o cadáver. Veja, Watson! O que é isto? Trata-se, sem dúvida, de manchas de sangue — afirmou, apontando para leves sinais descoloridos ao longo do caixilho da janela. — Ficaram impressas também na pedra da escada. A demonstração é completa. Esperemos aqui até que um trem pare.

A demora não foi grande. O trem seguinte surgiu com estrondo na galeria, como o outro, mas retardou a marcha no espaço aberto e, em seguida, com um ranger de freios, parou exatamente debaixo de nós. Do parapeito da janela até a capota dos vagões a distância não chegava a um metro e vinte. Holmes cerrou a janela sem fazer ruído.

— Até aqui nossa hipótese está comprovada — observou. — Que pensa de tudo isso, Watson?

— É sua obra-prima. Jamais você se elevou a maior altura.

— Nesse ponto discordo de você. Desde o momento em que deduzi que o corpo fora colocado sobre a capota, intuição, aliás, fácil de compreender, o resto era inevitável. Se não fossem os graves interesses que o envolvem, o caso até aqui seria insignificante. Nossas dificuldades, porém, ainda não foram superadas. Todavia, talvez encontremos nesta casa algo que nos possa auxiliar.

Tínhamos subido a escada de serviço e entráramos no apartamento do primeiro andar. Era constituído de uma série de aposentos: a sala de jantar, sobriamente mobiliada, nada continha de interessante. O segundo aposento, um quarto, apresentava-se nas mesmas condições. A sala restante, porém, parecia mais prometedora, e meu companheiro preparou-se para fazer ali uma busca em regra. Estava repleta de livros e papéis, e evidentemente era utilizada como escritório. Rápida e meticulosamente, Holmes revistou o conteúdo de todas as gavetas e armários, mas nenhuma luz indicadora de êxito veio iluminar-lhe o rosto austero. Ao cabo de uma hora de trabalho, não tinha feito progresso algum.

— Aquele velhaco apagou todos os rastros — disse. — Nada deixou que o incriminasse. Destruiu ou removeu toda a correspondência comprometedora. Esta é nossa última esperança.

Era um pequeno cofre de ferro que se encontrava sobre a escrivaninha. Holmes abriu-o com o auxílio do escopro. Continha vários rolos de papel cobertos de cifras e cálculos, sem a menor indicação, porém, do assunto a que se referiam. A repetição das palavras “pressão da água” e “pressão por polegada quadrada” sugeria uma possível relação com um submarino. Holmes pô-las de lado com ar impaciente. Restava apenas um envelope que encerrava pequenos recortes de jornal. Deixou-os cair sobre a mesa e, de súbito, compreendi pela expressão de seu rosto que suas esperanças se haviam reavivado.

— O que é isto, Watson? Hem? O que é isto? Recortes de uma série de mensagens insertas na seção de anúncios de um jornal. Os tipos e o papel parecem indicar o Daily Telegraph. Ângulo superior direito da página. Nenhuma data… mas é fácil pô-los em ordem. Este deve ser o primeiro:

“Esperava receber notícias mais cedo. Concordo com as exigências. Escreva pormenorizadamente para o endereço contido no cartão. — Pierrot”.

— Eis o seguinte:

“Demasiado complexo para descrevê-lo. Necessito relatório completo. O pagamento ser-lhe-á feito logo após a entrega da mercadoria. — Pierrot”.

— Agora vem este:

“Negócio urgente. Preciso retirar oferta, a não ser que o contrato seja inteiramente executado. Marque encontro por carta. Confirmarei por anúncio. — Pierrot”.

— E finalmente:

“Segunda-feira, à noite, depois das nove. Duas pancadas. Apenas nós dois. Não seja tão desconfiado. Pagamento à vista na entrega da mercadoria. — Pierrot”.

— Uma cadeia absolutamente sem falhas, Watson! Se conseguíssemos ao menos descobrir quem está na outra ponta!

Sentou-se, mergulhado em seus pensamentos, tamborilando com as pontas dos dedos na mesa. Pôr fim, levantou-se epentinamente.

— Ora, afinal de contas, talvez não seja assim, tão difícil. Nada mais nos resta a fazer aqui, Watson. Acho melhor darmos um pulo até o Daily Telegraph e encerrarmos nosso dia de trabalho.

Mycroft Holmes e Lestrade compareceram no dia seguinte, após a refeição matinal, ao encontro que tínhamos marcado, e Sherlock Holmes os pôs a par de nossas atividades do dia anterior. O homem da Scotland Yard sacudiu a cabeça ao ouvir o relato de nossa violação de domicílio.

— Não podemos usar esses meios, sr. Holmes — resmungou. — Não admira que obtenha resultados superiores aos nossos. Entretanto, qualquer dia o senhor pode ultrapassar os limites e meter-se em apuros, juntamente com seu amigo.

— Pela Inglaterra, a terra natal e a beleza. Que tal, Watson? Imolados no altar da pátria! Mas o que você pensa de tudo isso, Mycroft?

— Ótimo, Sherlock! Simplesmente admirável! Mas o que pretende fazer?

Holmes apanhou o Daily Telegraph de cima da mesa.

— Viu a mensagem de hoje de Pierrot?

— Como?! Outra?

— Sim, ei-la.

“Hoje à noite. Mesma hora. Mesmo lugar. Duas pancadas. Assunto de importância vital. Sua própria segurança em jogo. — Pierrot.”

— Por Deus! — exclamou Lestrade. — Se ele for, nós o apanharemos!

— Assim pensei ao mandar publicar o anúncio. Creio que, se puderem acompanhar-nos, por volta das oito horas, à Caufield Gardens, poderemos aproximar-nos de uma solução.

Uma das características mais notáveis de Sherlock Holmes era a faculdade de afastar as preocupações e fixar o espírito em coisas de menor monta, quando se convencia de que não lhe era possível continuar a trabalhar com proveito. Lembro-me de que ele passou todo aquele memorável dia absorvido numa monografia, a qual se propusera escrever, sobre os Motetos polifônicos de Lassus [1]. Quanto a mim, era completamente desprovido desse poder de abstração e, por conseguinte, as horas pareciam intermináveis. A enorme importância nacional do fato, a ansiedade reinante nos mais elevados círculos governamentais, a própria natureza da experiência que íamos tentar — tudo concorria para me pôr os nervos em frangalhos.

Senti um grande alívio quando, finalmente, após uma ligeira refeição, nos lançamos em nossa expedição. Encontramo-nos com Mycroft e Lestrade em frente à Estação de Gloucester Road. A porta dos fundos da residência de Oberstein tinha sido aberta na noite anterior, e eu fui obrigado a entrar e abrir-lhes a do vestíbulo, pois Mycroft recusara-se, irredutível e indignado, a pular a grade de ferro. Às nove horas, estávamos todos sentados no escritório, esperando pacientemente o nosso homem.

Duas horas decorreram lentamente. Ao soar das onze, as badaladas vagarosas do grande relógio da igreja próxima pareciam fazer submergir todas as nossas esperanças. Lestrade e Mycroft agitavam-se impacientes em suas cadeiras e consultavam os próprios relógios duas vezes por minuto. Holmes mostrava-se silencioso e calmo, as pálpebras semicerradas, mas com todos os sentidos de sobreaviso. De repente, levantou a cabeça.

— Está chegando — murmurou.

Passos furtivos ecoaram através da porta. Foram um pouco adiante e voltaram. Ouvimos um arrastar de pés do lado de fora e, logo em seguida, dois golpes secos da aldrava. Holmes ergueu-se e fez-nos sinal para permanecermos sentados. O bico de gás do vestíbulo estava restringido ao mínimo. Abriu a porta da rua e, quando o vulto escuro deslizou à sua frente, voltou a fechá-la e trancou-a. “Por aqui”, ouvimo-lo dizer, e, logo em seguida, o homem encontrava-se diante de nós. Holmes seguira-o de perto, e enquanto ele se voltava com um grito de espanto, agarrou-o pelo pescoço e atirou-o para dentro da sala. Antes que o prisioneiro pudesse recuperar o equilíbrio, a porta estava fechada, e Holmes, postado diante dela. O homem lançou um olhar em torno de si, cambaleou e caiu sem sentidos no soalho. Com o choque, o chapéu de abas largas voou-lhe da cabeça e o cachecol deslocou-se, apresentando a nossos olhos a barba longa e rala e as feições suaves e delicadas do coronel Valentine Walter.

Holmes soltou um assobio de surpresa.

— Desta vez, você pode considerar-me um asno, Watson — disse-me. — Não era este o pássaro que eu esperava.

— Quem é? — perguntou, ansioso, Mycroft.

— O irmão mais novo do falecido Sir James Walter, chefe do Departamento de Embarcações Submarinas. Sim, sim; agora começo a entender. Ele está recuperando os sentidos. Acho melhor deixarem o interrogatório a meu cargo.

Tínhamos transportado o corpo exânime para o sofá. Um momento depois, nosso prisioneiro sentou-se, relanceou o olhar aterrorizado em redor e passou a mão pela testa, como se não pudesse acreditar nos próprios olhos.

— O que é isso? — perguntou. — Vim aqui fazer uma visita ao sr. Oberstein.

— Já sabemos de tudo, coronel Walter — respondeu Holmes. — Não posso compreender como um cidadão inglês tenha procedido dessa forma. No entanto, toda a correspondência e as relações que manteve em Oberstein são do nosso conhecimento. Sabemos também das circunstâncias relativas à morte do jovem Cadogan West. Permita-me aconselhá-lo a atenuar sua falta, arrependendo-se e fazendo uma confissão completa, pois ainda restam certas minúcias que só podemos obter de sua própria boca.

O homem soltou um gemido e escondeu o rosto nas mãos. Esperamos algum tempo, mas ele se manteve silencioso.

— Posso garantir-lhe — insistiu Holmes — estar de posse de todos os elementos essenciais. Sabemos que tinha urgente necessidade de dinheiro; que tirou o molde das chaves de seu irmão e entrou em contato com Oberstein, que respondia às suas cartas por intermédio da seção de anúncios do Daily Telegraph. Estamos informados de que o senhor se dirigiu ao departamento de seu irmão, na noite de segunda-feira, protegido pelo nevoeiro, quando foi visto e seguido pelo jovem Cadogan West, que provavelmente tinha sérias razões para desconfiar de sua pessoa. Ele assistiu ao roubo, mas não pôde dar o alarme, pois suspeitava que o senhor estivesse encarregado de levar os documentos a seu irmão, em Londres. Pondo de parte todas as suas preocupações particulares, como bom cidadão que era, seguiu-o de perto através do nevoeiro e não o perdeu de vista até o senhor ter alcançado esta casa. Nessa ocasião ele interveio, e foi assim, coronel Walter, que o senhor juntou à traição o crime ainda mais abominável do assassinato.

— Não! Não fui eu! Diante de Deus, juro que não fui eu! — gritou nosso desgraçado prisioneiro.

— Conte-nos então como Cadogan West encontrou a morte e como colocaram o cadáver sobre a capota de um vagão.

— Contarei tudo. Prometo fazê-lo. Eu me encarreguei do resto, confesso-o. Foi exatamente como o senhor disse. Precisava pagar um débito na Bolsa, e urgia obter o dinheiro. Oberstein ofereceu-me cinco mil libras para me salvar da ruína. Quanto ao assassinato, porém, estou tão inocente como os senhores.

— Que aconteceu então?

— West suspeitava de mim e seguiu-me, como o senhor disse. Não o notei senão ao encontrar-me diante da porta desta casa. A névoa estava demasiado densa, e não se distinguia nada a dois metros de distância. Eu tinha dado as duas pancadas convencionais na porta, e Oberstein viera abri-la. West aproximou-se subitamente de nós e perguntou-nos o que pretendíamos fazer com os papéis. Oberstein tinha na mão um cassetete pesado e curto, que sempre o acompanhava. West, ao tentar penetrar à força na casa, em nosso encalço, foi atingido com um golpe na cabeça desferido por Oberstein. A pancada foi fatal. Dali a cinco minutos, o rapaz estava morto. Jazia inerte no vestíbulo, e não sabíamos que decisão tomar. Oberstein lembrou-se então dos trens que paravam debaixo da janela dos fundos. Antes disso, porém, examinou os documentos que eu trouxera. Afirmou-me que precisava apenas de três, os de maior valor, e que ia ficar com eles. “Impossível”, protestei; “haverá um tremendo escândalo em Woolwich se não forem restituídos.” “Preciso ficar com eles”, insistiu, “pois são de tal modo técnicos que é impossível copiá-los em pouco tempo.” “Mas devo levá-los de volta esta noite”, repliquei. Oberstein refletiu por alguns momentos e, depois, disse ter encontrado uma solução. “Fi-carei com os três de que preciso. Poremos os outros nos bolsos deste rapaz. Quando for encontrado, certamente lhe atribuirão a culpa de tudo.” Eu não via outra saída, e por isso fizemos como ele tinha sugerido. Aguardamos meia hora à janela até que um trem parasse. A densidade do nevoeiro punha-nos a salvo de olhares indiscretos, e não tivemos a menor dificuldade em depositar o corpo de West sobre o vagão. Aí terminou o caso, no que me diz respeito.

— E seu irmão?

— Nada disse, mas já me surpreendera uma vez mexendo em suas chaves, e creio que desconfiava de mim. Percebi-lhe a suspeita nos olhos. Como sabem, o escândalo deixou-o acabrunhado.

Fez-se na sala um longo silêncio, interrompido afinal por Mycroft Holmes.

— Não poderia reparar o mal que fez? Isso lhe aliviaria a consciência e possivelmente atenuaria seu castigo.

— Como poderia fazer essa reparação?

— Onde se encontra Oberstein com os documentos?

— Não sei.

— Não lhe deu nenhum endereço?

— Disse-me que, se lhe escrevesse para o Hotel du Louvre, em Paris, as cartas, com toda a probabilidade, lhe chegariam às mãos.

— Então ainda há remédio — observou Sherlock Holmes.

— Farei tudo o que puder. Não nutro a menor simpatia por Oberstein, que foi o causador de minha desgraça.

— Aqui tem papel e tinta. Sente-se a essa mesa e escreva o que vou ditar. Preencha o envelope com o endereço indicado. Muito bem. Vamos agora ao texto da carta:

“Prezado senhor:

Com referência à nossa transação, sem dúvida já terá notado que ainda falta nos planos um pormenor de grande importância. Possuo um desenho que os tornará completos. Para obtê-lo, porém, vi-me envolvido em ulteriores complicações, o que me força a pedir-lhe um novo adiantamento de quinhentas libras. Não confio na remessa do desenho pelo correio, e só aceitarei ouro ou notas como pagamento. Poderia ir ao seu encontro; todavia, minha ausência do país, neste momento, suscitaria suspeitas. Espero, portanto, encontrá-lo no salão de fumar do Charing Cross Hotel, sábado, ao meio-dia. Lembre-se de que aceitarei unicamente papel-moeda inglês ou ouro”.

— Isso será o bastante. Ficarei deveras surpreso se essa carta não trouxer nosso homem de volta.

E trouxe-o de fato! É um episódio que já faz parte da história — da história secreta de uma nação, que é freqüentemente muito mais interessante do que suas crônicas públicas. Oberstein, ansioso por levar inteiramente a cabo o golpe mais brilhante de sua carreira, caiu na armadilha e acabou por cumprir uma pena de quinze anos numa prisão britânica. Em sua mala foram encontrados os inestimáveis planos do Bruce-Partington, que ele pusera a leilão em: todos os centros navais da Europa.

O coronel Walter morreu no cárcere, ao final do segundo ano de sua sentença. Quanto a Holmes, regressou com novas forças à monografia sobre os Motetos polifônicos de Lassus, a qual foi lançada em edição limitada, e julgada pêlos conhecedores como a última palavra a respeito do assunto. Soube incidentalmente, algumas semanas mais tarde, que meu amigo tinha passado um dia em Windsor, de onde voltou com um alfinete de gravata que ostentava uma magnífica esmeralda. Quando lhe perguntei se o tinha comprado, respondeu-me que lhe fora dado de presente por uma nobre dama [2], em cujo interesse tivera a fortuna de levar a bom termo uma delicada missão. Não disse mais nada; creio, porém, ter adivinhado o nome da augusta senhora, e estou certo de que aquele alfinete de esmeralda trará eternamente à memória de meu amigo a aventura dos planos do submarino Bruce-Partington.
[1] Orlandus Lassus, compositor belga, cujo verdadeiro nome era Roland Delaltre, um dos maiores músicos do século XVI (N. do T.)
[2] A rainha Vitória. (N. do E.)

1917
Seu último adeus

1. Vila glicínia § 2. O círculo vermelho
3. Os planos do submarino Bruce-Partington § 4. O detetive agonizante
5. O desaparecimento de Lady Frances Carfax § 6. O pé do diabo
7. Seu último adeus

Ilustrações: Arthur Twidle, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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