Vila Glicínia

Arthur Conan Doyle

Vila Glicínia

Título original: Wisteria Lodge
Publicado pela primeira vez na Collier’s Weekly,
em Agosto de 1908, com 6 ilustrações de Frederic Dorr Steele
e na Strand Magazine, em Setembro e Outubro de 1908,
com 10 ilustrações de Arthur Twidle.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de Wisteria Lodge publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume V,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Álvaro Pinto Aguiar.

I — A estranha aventura do sr. John Scott Eccles

Vejo anotado em meu bloco que se tratava de um dia muito frio e ventoso, em fins de março de 1892. Holmes recebera um telegrama, enquanto almoçávamos, e rabiscara às pressas uma resposta. Apesar de nada ter dito, percebia-se que o assunto ainda o preocupava, pois fora postar-se em seguida diante da lareira com ar pensativo, fumando o cachimbo e lançando ocasionalmente um olhar para o telegrama que tinha nas mãos. Subitamente, voltou-se para mim com um brilho malévolo no olhar.

— Suponho, Watson, que você pode ser considerado um homem de letras. Como definiria a palavra “grotesco”?

— Ridículo, extravagante… — sugeri.

— Há certamente mais alguma coisa além disso — observou Holmes abanando a cabeça. — Uma sugestão dissimulada do trágico e do terrível. Se procurar recordar-se de algumas dessas narrativas com que tem atormentado um público paciente, verificará como é tênue a fronteira entre o grotesco e o criminoso. Lembre-se do incidente dos homens ruivos. Era bastante grotesco na aparência, e todavia terminou numa audaciosa tentativa de roubo. Ou então daquele outro, mais grotesco ainda, das cinco sementes de laranja, que terminou numa conspiração homicida. Essa palavra põe-me sempre de sobreaviso.

— Tem-na aí? — perguntei.

Holmes leu o telegrama em voz alta:

“Acaba de me suceder algo de terrível e grotesco. Posso consultá-lo? — Scott Eccles, Repartição dos Correios, Charing Cross”.

— Homem ou mulher? — indaguei.

— Homem, naturalmente. Nenhuma mulher enviaria um telegrama com resposta paga. Teria vindo pessoalmente.

— Vai recebê-lo?

— Meu caro Watson, você sabe que vida aborrecida levo desde que conseguimos meter o coronel Carruthers na prisão. Meu cérebro é uma espécie de máquina veloz, que se reduz a pedaços quando não é aplicada no trabalho para o qual foi construída, A vida é uma sucessão de fatos corriqueiros, e os jornais andam fastidiosos; parece que a audácia e o espírito de aventura desapareceram para sempre do mundo do crime. Como, então, você pode me perguntar se estou disposto a examinar qualquer novo problema, por mais trivial que possa parecer? Mas, se não me engano, aí vem nosso cliente.

Ouviram-se passos cadenciados na escada e, instantes depois, era introduzido na sala um homem alto e corpulento, de suíças e bigodes grisalhos e ar solene e respeitável. A história de sua vida revelava-se na fisionomia grave e nos modos circunspectos. Das polainas aos óculos de aros de ouro, era a figura típica do conservador, homem religioso, bom cidadão, ortodoxo e intransigente respeitador dos preceitos sociais. Entretanto, algo de extraordinário devia ter-lhe alterado a natural compostura e deixado vestígios nos cabelos revoltos, no rosto rubro e encolerizado e nos gestos nervosos e agitados. Entrou sem mais delongas no assunto que o preocupava:

— Aconteceu-me algo extremamente esquisito e desagradável, sr. Holmes — principiou. — Jamais me encontrei em situação semelhante. É positivamente indecorosa… ultrajante. Tenho o direito de exigir uma explicação!

Estava de tal modo enraivecido que bufava de cólera e tinha o rosto tumefacto.

— Queira sentar-se, sr. Scott Eccles — disse Holmes em tom brando. — Antes de mais nada, permita-me que lhe pergunte por que resolveu procurar exatamente a mim.

— Porque não me pareceu que o caso pudesse interessar à polícia. Todavia, quando lhe tiver exposto os fatos, verá que eu não poderia deixar as coisas como estavam. Nunca simpatizei com a classe dos detetives particulares. Não obstante, como ouvi falar do senhor…

— Perfeitamente. Mas, em segundo lugar, por que não veio imediatamente?

— O que quer dizer?

Holmes consultou o relógio.

— São duas e um quarto — disse. — Seu telegrama foi-me expedido por volta da uma hora. Contudo, quem olhar para seu aspecto e seu traje não poderá deixar de notar que sua inquietação data do momento em que se levantou.

Nosso cliente alisou o cabelo despenteado com as mãos e tocou com os dedos o rosto, que estava com a barba por fazer.

— Tem razão, sr, Holmes. Nem sequer pensei em me arrumar. Nunca mais chegava a hora de deixar aquela casa. Antes, porém, de vir para cá, andei por diversos lugares em busca de informações. Falei com os agentes do proprietário da casa, e eles disseram-me que o sr. Garcia tinha pago pontualmente o aluguel e que tudo estava em ordem com relação à Vila Glicínia.

— Calma, calma, meu caro — disse Holmes, rindo. — O senhor até parece o meu amigo, dr. Watson, que tem o mau hábito de contar suas histórias começando pelo fim. Queira ordenar as idéias e contar-me, na devida seqüência, quais foram de fato os acontecimentos que o fizeram sair de casa despenteado, com a roupa por escovar, as botinas e o colete mal-abotoados, à procura de conselho e auxílio.

Nosso cliente lançou um compungido olhar à sua própria aparência em desalinho.

— Devo ter-lhe causado uma péssima impressão, sr. Holmes, e não me recordo de, em toda a minha vida, me ter sucedido tal coisa. Mas vou contar-lhe tudo o que aconteceu, e, quando tiver terminado, estou certo de que encontrará razão de sobra para me desculpar.

Não chegou, porém, a iniciar a narrativa. Ouviu-se um ruído do lado de fora, e dali a instantes a sra. Hudson abria a porta para fazer entrar dois indivíduos robustos que, pelo aspecto, pareciam pertencer à polícia, um dos quais era, na verdade, nosso bem conhecido inspetor Gregson, da Scotland Yard, funcionário enérgico, brioso e, dentro de suas possibilidades, capaz. Apertou a mão de Holmes e apresentou seu companheiro, o inspetor Baynes, do comissariado de Surrey.

— Estamos ambos empenhados numa caça, sr. Holmes, e nossa pista trouxe-nos até aqui. — Ao dizer isso, voltou para nosso visitante seus olhos de buldogue. — É, por acaso, o sr. John Scott Eccles, da Popham House, Lee?

— Exatamente.

— Andamos em seu encalço toda a manhã.

— Sem dúvida, foi o telegrama que lhes deu o rastro — interpôs Holmes.

— Precisamente. Farejamos a pista na agência postal de Charing Cross, e ela conduziu-nos até sua casa.

— Mas por que me seguem? O que querem de mim?

— Queremos ouvi-lo, sr. Scott Eccles, a respeito dos acontecimentos que redundaram na morte, ontem à noite, do sr. Aloysius Garcia, na Vila Glicínia, nos arredores de Esher.

Nosso cliente endireitou-se na cadeira com os olhos esbugalhados, enquanto as cores lhe fugiam do rosto atônito.

— Morto? O senhor diz que ele está morto?

— Sim, ele está morto.

— Mas como? Um acidente?

— Assassinato, sem a menor sombra de dúvida.

— Santo Deus! Isso é horrível! O senhor quer dizer… que eu sou suspeito?

— Foi encontrada uma carta no bolso do morto, e por ela ficamos sabendo que o senhor tencionava passar a noite de ontem em casa dele.

— É verdade.

— Oh! Deveras?

O inspetor tirou prontamente do bolso seu caderno de notas.

— Espere um pouco, Gregson — disse Sherlock Holmes. — Tudo o que você deseja é ouvir-lhes as declarações, não é verdade?

— E é meu dever prevenir o sr. Scott Eccles de que elas podem ser usadas contra ele.

— O sr. Eccles ia contar-nos sua história quando você entrou. Creio, Watson, que um uísque com soda não lhe faria mal. E agora, caro sr. Eccles, aconselho-o a que não se importe com esse aumento de auditório e nos conte tudo, exatamente como o faria se não tivesse sido interrompido.

Nosso visitante ingeriu de um trago a bebida, e a cor voltou-lhe às faces. Lançando um olhar indeciso ao caderno de notas do inspetor, deu início, sem mais demora, a seu extraordinário depoimento.

— Sou solteiro — disse — e, como tenho um temperamento sociável, possuo largo círculo de amizades. Entre estas, encontra-se a família de um antigo fabricante de cerveja chamado Melville, residente na Albemarle Mansion, em Kensington. Foi à sua mesa que conheci, há algumas semanas, um rapaz de nome Garcia. Era, ao que soube, de origem espanhola, e tinha uma ligação qualquer com a embaixada. Falava perfeitamente o inglês e, além de muito afável no trato, era um dos homens mais belos que já vi em toda a minha vida.

“Entre mim e esse rapaz manifestou-se imediatamente uma sincera amizade. Ele parecia ter simpatizado comigo desde aquele primeiro encontro, e, dali a dois dias, foi visitar-me em Lee. Uma coisa puxa outra, e acabou por me convidar para passar alguns dias em sua residência — a Vila Glicínia —, situada entre Esher e Oxshott. Ontem à noite dirigi-me a Esher a fim de atender ao convite.

“Antes de minha ida, ele me falara sobre o pessoal a seu serviço. Morava com um criado dedicado, seu compatriota, que cuidava de todas as suas necessidades. Esse homem, que sabia falar inglês, tomava conta da casa. Contou-me que tinha também um magnífico cozinheiro, um mestiço que encontrara em suas viagens, capaz de servir excelentes jantares. Lembro-me de me ter chamado a atenção para a singularidade de tal criadagem em pleno coração de Surrey, e de eu ter concordado, embora viesse a verificar que era muito mais singular do que havia imaginado.

“Fui de carro para lá… cerca de três quilômetros ao sul de Esher. A casa era de bom tamanho, um pouco distante da estrada, e tinha-se acesso a ela por uma sinuosa vereda, ladeada de arbustos. Tratava-se de um velho edifício, em péssimo estado de conservação. Quando o carro parou no caminho coberto de mato, diante da porta manchada e escurecida pelo tempo, tive dúvidas quanto a meu bom senso em visitar um homem que afinal só conhecia superficialmente. Ele próprio veio me abrir a porta, e recebeu-me com provas de grande cordialidade. Fui entregue aos cuidados do criado, indivíduo de tez escuríssima e ar melancólico, que me conduziu a meu quarto, levando minha maleta. Todo o ambiente era desalentador. Jantamos sós, e, apesar de o dono da casa fazer o possível por se mostrar amável, o curso de seus pensamentos parecia interromper-se de vez em quando, e sua conversa era tão vaga e desconexa que eu tinha dificuldade em segui-la. Tamborilava constantemente com os dedos na mesa, mordiscava as unhas e dava outros tantos sinais de inquietação nervosa. Quanto ao jantar, não foi nem bem servido, nem bem preparado, e a sombria presença do taciturno criado não contribuía decerto para nos alegrar. Afianço-lhes que muitas vezes, durante aquela noite, desejei poder inventar qualquer desculpa que me permitisse regressar a Lee.

“Recordo-me de um fato que talvez tenha certa relação com o caso que esses cavalheiros estão investigando. Naquela ocasião, não lhe dei grande importância. Quase no fim do jantar, o criado apareceu com um bilhete. Notei que, depois de lê-lo, Garcia tornou-se ainda mais distraído e nervoso. Renunciando a qualquer pretexto de conversação, recostou-se numa cadeira, fumando cigarros consecutivos, absorto em seus próprios pensamentos, sem fazer o menor comentário ao conteúdo do bilhete. Senti-me satisfeito quando, por volta das onze horas, nos fomos deitar. Algum tempo depois, Garcia apareceu à porta do meu quarto (o quarto estava às escuras nessa ocasião) e perguntou-me se eu tinha tocado a campainha. Disse-lhe que não. Pediu-me desculpas por me ter incomodado a hora tão avançada, dizendo já ser quase uma da madrugada. Adormeci depois disso, e dormi profundamente o resto da noite.

“E agora chego à parte mais espantosa de minha história. Quando acordei, já era dia claro. Consultei o relógio e verifiquei serem quase nove horas. Insistira na véspera para que me chamassem às oito, e por isso tal esquecimento surpreendeu-me muitíssimo. Saltei da cama e toquei a campainha para chamar o criado, mas não obtive resposta. Voltei a tocá-la repetidas vezes, com o mesmo resultado. Cheguei então à conclusão de que estava avariada. Vesti-me às pressas, e de péssimo humor desci rapidamente a escada, a fim de pedir um pouco de água quente. Poderão imaginar minha surpresa ao ver que não havia ninguém. Pus-me a gritar no vestíbulo, sem obter resposta. Percorri, então, todos os aposentos. Não encontrei ninguém. O dono da casa, na véspera, mostrara-me seu quarto. Bati-lhe à porta. Nada. Dei volta à maçaneta e entrei. O aposento estava vazio, e a cama não fora ocupada. Tinha-se ido com os outros. O patrão estrangeiro, o criado estrangeiro, o cozinheiro estrangeiro, todos tinham desaparecido durante a noite! Assim terminou minha visita à Vila Glicínia.”

Sherlock Holmes esfregou as mãos e sorriu satisfeito, diante da perspectiva de acrescentar mais esse estranho incidente à sua coleção de episódios fantásticos.

— Sua aventura, pelo que vejo, é positivamente excepcional. Poderá dizer-me, sr. Eccles, o que fez depois?

— Estava furioso. Minha primeira impressão foi ter sido vítima de qualquer brincadeira de mau gosto. Arrumei minhas coisas, bati a porta atrás de mim e pus-me a caminho de Esher, carregando minha maleta. Dirigi-me ao escritório dos irmãos Allan, os mais importantes corretores de imóveis da cidade, e soube que a vila tinha sido alugada por intermédio deles. Parecia-me difícil acreditar que aquilo constituísse um simples plano para me fazer passar por tolo, e comecei a pensar que o principal objetivo fosse fugir ao pagamento do aluguel. Estamos no fim de março, e o vencimento trimestral está próximo. Essa hipótese, porém, logo caiu por terra. O agente agradeceu-me a informação, mas disse-me que o aluguel havia sido pago adiantado. Tomei, então, o caminho de Londres, e procurei a embaixada espanhola. Ninguém ali conhecia o homem. Depois disso, fui procurar Melville, em cuja casa eu fora apresentado a Garcia. No entanto, averiguei que, na realidade, ele o conhecia ainda menos do que eu. Finalmente, quando recebi sua resposta a meu telegrama, vim para cá, pois sei que o senhor é pessoa capaz de dar bons conselhos em casos difíceis. Entretanto, inspetor, vejo agora pelo que disse quando entrou que a história não termina aqui e deve ter ocorrido uma tragédia. Posso afirmar-lhe que minhas palavras correspondem à pura verdade e que, além do relatado por mim, nada mais sei sobre o destino desse homem. Meu único desejo é auxiliar a justiça em tudo quanto me for possível.

— Estou certo disso, sr. Scott Eccles, estou certo disso — proferiu o inspetor Gregson, em seu tom mais cordial.

— Sinto-me na obrigação de lhe dizer que tudo o que acaba de nos referir está em perfeito acordo com os fatos chegados a nosso conhecimento. Por exemplo, aquele bilhete entregue durante o jantar. Notou, por acaso, o que foi feito dele?

— Sim, Garcia amarrotou-o e atirou-o ao fogo.

— Que diz a isso, sr. Baynes?

O detetive provinciano era um homem gordo, rubicundo, sempre bufando, e seu rosto de aspecto grosseiro era suavizado por dois olhos de extraordinária vivacidade, quase ocultos entre as saliências das bochechas e da testa. Com um lento sorriso, tirou do bolso um pedaço de papel descolorido e amarrotado.

— Havia uma grade diante da lareira, sr. Holmes, e ele deve ter errado a pontaria. Apanhei-o do lado de fora, sem que as chamas o tivessem atingido.

Holmes sorriu com ar de aprovação.

— O senhor deve ter examinado a casa com muito cuidado para encontrar uma bola de papel como essa.

— De fato, é meu sistema. Quer que o leia, sr. Gregson?

O inspetor londrino acenou afirmativamente com a cabeça.

— O bilhete está escrito em papel pautado comum, sem filigrana. É a quarta parte de uma folha, e foi cortado em dois sentidos com uma tesoura de lâmina curta. Foi dobrado três vezes e selado com lacre vermelho, colocado às pressas e comprimido com um objeto chato e oval. Está endereçado ao sr. Garcia, Vila Glicínia, e diz: “Nossas cores, verde e branco. Verde aberto, branco fechado. Escada principal, primeiro corredor, sétima à direita, estofo verde. Boa sorte. D.” A letra é de mulher, e foi escrita com pena de ponta fina, mas o endereço foi feito com outra pena ou por outra pessoa. Como pode ver, trata-se de uma caligrafia mais grossa e firme.

— O bilhete é deveras extraordinário — comentou Holmes, examinando o papel. — Devo cumprimentá-lo, sr. Baynes, pela atenção que dispensou aos pormenores na análise feita. Poderíamos talvez acrescentar algumas minudências sem importância. O sinete oval é, sem dúvida, uma abotoadura de punho; que outro objeto pode ter tal formato? A tesoura usada deve ter sido uma tesourinha de unha, de ponta recurva, pois, apesar de os cortes serem curtos, nota-se distintamente em cada um deles a mesma ligeira curvatura.

O detetive deu uma risadinha.

— Julguei ter espremido todo o suco desse bilhete, mas vejo que ainda sobrou alguma coisa — disse. — Confesso que não compreendo nada dele, a não ser que nos encontramos diante de um caso grave, cuja figura central, como de costume, é uma mulher.

Durante essa conversa, Scott Eccles estivera em contínua agitação em sua cadeira.

— Alegra-me que tenha encontrado o bilhete, pois ele vem corroborar meu depoimento — disse. — Tomo, porém, a liberdade de observar que ainda não me contaram o que aconteceu ao sr. Garcia e a seus criados.

— Quanto a Garcia — disse Gregson —, é fácil responder. Foi encontrado morto esta manhã em Oxshott Common, a cerca de um quilômetro e meio de distância de sua casa. Reduziram-lhe a cabeça a um amontoado informe de carne sangrenta, mediante golpes violentíssimos desferidos com um saco de areia ou outro objeto semelhante, que, mais do que feri-lo, esmigalhou literalmente seu crânio. O lugar é deserto, e a casa mais próxima fica a quatrocentos metros. Aparentemente, recebeu o primeiro golpe pelas costas; de qualquer modo, o assaltante continuou a golpeá-lo muito tempo depois de ele já estar morto. Deve ter sido uma agressão inesperada e brutal. Não havia pegadas no local, nem o menor indício que nos pudesse pôr na pista dos assassinos.

— Houve roubo?

— Não; não se trata de tentativa de roubo.

— É muito doloroso… doloroso e terrível — comentou Scott Eccles em voz trêmula. — Mas, para mim, a situação é particularmente trágica. Nada tenho a ver com o fato de meu amigo ter saído para uma excursão noturna que o fez encontrar tão triste fim. Como posso estar implicado neste caso?

— Por um motivo muito simples — respondeu o inspetor Baynes. — O único documento encontrado no bolso do morto era uma carta sua, na qual o senhor dizia que iria fazer-lhe uma visita exatamente na noite em que ele morreu. Foi o envelope dessa carta que nos revelou o nome e o endereço da vítima. Já passava das nove da manhã quando chegamos à casa dele, onde não encontramos nem o senhor nem mais ninguém. Telegrafei a Gregson para procurá-lo em Londres, enquanto examinava a Vila Glicínia. Vim então para a cidade, reuni-me a Gregson, e aqui estamos.

— Creio que agora — disse Gregson, levantando-se — é melhor darmos a esse assunto um caráter oficial. Faça o favor de nos acompanhar até o posto policial, sr. Scott Eccles, a fim de tomarmos suas declarações por escrito.

— Perfeitamente; estou às ordens. Mas ainda necessito de seus serviços, sr. Holmes, e peço-lhe que não poupe dinheiro nem trabalho para descobrir a verdade.

Meu amigo voltou-se para o detetive de Surrey.

— Espero que não se oponha a que lhe dê minha colaboração, sr. Baynes.

— Pelo contrário, eu me sentirei muito honrado, sr. Holmes.

— O senhor parece ter sido muito pronto e eficiente em tudo o que fez. Poderia informar-me se havia algum indício quanto à hora em que se deu a morte desse homem?

— Ele estava desde uma hora da madrugada no lugar em que o encontramos. Tinha chovido mais ou menos a essa hora, e sua morte deve ter ocorrido antes da chuva.

— Mas isso é absolutamente impossível, sr. Baynes — exclamou nosso cliente. — A voz de Garcia era inconfundível e posso jurar-lhes que foi ele próprio que falou comigo, em meu quarto, a essa mesma hora.

— É esquisito, mas não de todo impossível — comentou Holmes, sorrindo.

— O senhor já tem alguma idéia? — perguntou Gregson.

— À primeira vista, o caso não me parece muito complexo, se bem que apresente inegavelmente alguns aspectos novos e interessantes. Todavia, é preciso que eu tenha melhor conhecimento dos fatos antes de poder aventurar uma opinião definida. A propósito, sr. Baynes, encontrou alguma outra coisa digna de nota, além do bilhete, quando examinou a casa?

O detetive fixou meu amigo de maneira estranha.

— Sim; descobri uma ou duas coisas muito singulares. Talvez, depois de terminado meu serviço no posto policial, o senhor possa se encontrar comigo e dar sua opinião a esse respeito.

— Estou inteiramente à sua disposição — disse Sherlock Holmes, tocando a campainha. — Queira acompanhar estes senhores até a porta, sra. Hudson, e fazer o favor de mandar o rapaz expedir este telegrama. Deve ser enviado com resposta paga de cinco xelins.

Permanecemos sentados, em silêncio, durante algum tempo, depois de nossos visitantes se terem retirado. Holmes fumava incessantemente, as sobrancelhas contraídas sobre os olhos penetrantes, a cabeça inclinada para diante, na atitude de intensa concentração que lhe era característica.

— Então, Watson — perguntou, voltando-se subitamente para mim —, que pensa de tudo isso?

— Não consigo compreender nada dessa trapalhada em que Scott Eccles se meteu.

— Mas e o crime?

— Bem, se tomarmos em consideração o desaparecimento dos companheiros da vítima, diria que eles devem estar de algum modo comprometidos com o assassinato, e que fugiram da justiça.

— Esta é, sem dúvida, uma hipótese viável. Por outro lado, deve convir que é muito estranho que os dois criados tivessem conspirado contra Garcia e o tivessem atacado justamente numa noite em que ele tinha um hóspede. Tinham-no sozinho, à sua mercê, qualquer outra noite da semana.

— Então, por que fugiram?

— Precisamente. Por que fugiram? É um fato importante; outro fato muito importante é a singular aventura de nosso cliente Scott Eccles. Ora, meu caro Watson, estará fora dos limites do engenho humano atinar com uma explicação para esses dois fatos importantes? Se se pudesse com tal explicação desvendar também o mistério daquele bilhete enigmático, com sua extravagante fraseologia, então valeria a pena aceitá-la como hipótese provisória. E se os fatos ulteriores, que chegarem a nosso conhecimento, se adaptarem ao esquema, nossa hipótese, então, pode pouco a pouco tornar-se uma solução.

— Mas qual é essa hipótese?

Holmes recostou-se na cadeira, os olhos semicerrados.

— Como deve concordar, meu caro Watson, a idéia de uma brincadeira é inaceitável. Algo de grave estava para acontecer, como muito bem o demonstra a seqüência dos fatos, e o convite feito a Scott Eccles para ir à Vila Glicínia deve ter qualquer relação com isso.

— Mas qual é a possibilidade dessa relação?

— Sigamos nossa argumentação ponto por ponto. De início, existe alguma coisa irreal nessa amizade súbita e estranha entre o jovem espanhol e Scott Eccles. Foi o primeiro que a forçou, visitando Eccles no outro extremo de Londres logo no dia seguinte àquele em que o conheceu, e mantendo-se em estreito contato com ele até conseguir fazê-lo ir a Esher. Ora, o que pretendia esse homem com relação a Eccles? O que Eccles poderia oferecer-lhe? Não vejo nessa personagem nenhum atrativo; não é particularmente dotado de inteligência, nem possui gênio capaz de agradar ao espírito vivaz de um latino. Então, por que foi escolhido, entre tantos outros que Garcia conheceu, como especificamente útil a seu propósito? Terá ele alguma qualidade relevante? Creio que sim. É o protótipo da convencional respeitabilidade britânica, e justamente o homem suscetível de impressionar, com o próprio testemunho, um outro britânico. Você próprio acabou de verificar que nenhum dos inspetores sequer sonhou em pôr em dúvida seu depoimento, por mais extraordinário que pareça.

— Mas o que deveria ele testemunhar?

— Nada, como as coisas se deram; tudo, porém, se elas tivessem corrido diversamente. É assim, pelo menos, que interpreto a situação.

— Percebo; ele talvez pudesse servir para provar um álibi.

— Exatamente; poderia servir para provar um álibi. Suponhamos, para argumentar, que os ocupantes da Vila Glicínia estivessem metidos em alguma empresa suspeita. Esta, fosse qual fosse, deveria ser executada, digamos, antes da uma hora. Adiantando os relógios, é perfeitamente possível que tivessem feito Scott Eccles recolher-se mais cedo do que pensava; de qualquer modo, é provável que, quando Garcia se deu ao incômodo de lhe dizer que era uma hora, não fosse realmente mais de meia-noite. Se Garcia pudesse fazer o que pretendia antes da hora mencionada, teria evidentemente uma poderosa defesa contra qualquer acusação. Ele teria sempre esse inglês irrepreensível, pronto a jurar perante qualquer tribunal que o acusado se encontrava em sua residência na ocasião do crime. Era uma precaução contra a adversidade.

— Sim, sim, compreendo; mas como explica o desaparecimento dos outros?

— Ainda não tenho todos os elementos na mão. Entretanto, não creio que existam dificuldades insuperáveis para a elucidação desse ponto. Todavia, é um grave erro alimentar idéias preconcebidas, pois, insensivelmente, a pessoa procura torcer os fatos a fim de adaptá-los às próprias teorias.

— E o bilhete?

— Quais são seus termos? “Nossas cores, verde e branco.” Parece referir-se a corridas de cavalos. “Verde aberto, branco fechado.” Trata-se, evidentemente, de um sinal, “Escada principal, primeiro corredor, sétima à direita, estofo verde.” Isso não pode deixar de ser um encontro marcado. Quem sabe se, no fundo de tudo isso, não iremos topar com um marido ciumento? Indubitavelmente, a expedição era perigosa, pois, de outro modo, não teria acrescentado “Boa sorte. D.” Esta inicial seria uma orientação.

— O homem era espanhol. Por isso, talvez “D” signifique Dolores, nome de mulher muito comum na Espanha — sugeri.

— Ótimo, Watson, perfeito… mas absolutamente inadmissível. Uma espanhola escreveria a um espanhol em sua própria língua. A autora desse bilhete é certamente inglesa. Mas, por enquanto, nosso único recurso é munirmo-nos de paciência até que esse excelente inspetor esteja de volta. Enquanto isso, podemos dar graças à nossa boa estrela por nos ter libertado durante algumas horas do insuportável tédio da ociosidade.

A resposta ao telegrama de Holmes chegou antes do regresso do detetive de Surrey. Meu amigo leu-a e ia guardá-la entre as páginas de seu bloco, quando notou a expressão de curiosidade em meu rosto. Passou-o a mim por cima da mesa, com uma risada.

— Estamos nos movendo em altas esferas — disse.

O telegrama era uma lista de nomes e endereços: “Lorde Harringby, The Dingie; Sir George Foiliot, Oxshott Towers; sr. Hynes Hynes, J. P., Purdiey Place; sr. James Baker Williams, Forton Old Hall; sr. Henderson, High Gable; reverendo Joshua Stone, Nether Waisling”.

— Este é um modo muito simples de limitar nosso campo de operações — comentou Holmes. — Sem dúvida Baynes, com seu espírito metódico, já adotou algum processo análogo.

— Não percebo bem o que quer dizer.

— Ora, meu caro amigo, já chegamos à conclusão de que o bilhete recebido por Garcia, durante o jantar, devia servir para marcar um encontro ou indicar-lhe um lugar. Se a interpretação desse bilhete está certa, para se chegar ao lugar indicado é preciso subir uma escada principal e procurar a sétima porta de um corredor, e é evidente que a casa deve ser muito grande. É igualmente certo que essa casa não pode distar mais do que dois ou três quilômetros de Oxshott, pois Garcia caminhava naquela direção e esperava, segundo minha interpretação dos fatos, estar de volta à Vila Glicínia a tempo de aproveitar de um álibi, válido apenas até uma hora da madrugada. Como o número de casas grandes nas proximidades de Oxshott deve ser limitado, recorri ao expediente de telegrafar aos agentes mencionados por Scott Eccles e obter uma lista dessas residências. Ei-la neste telegrama; a outra ponta de nossa embaraçada meada deve encontrar-se aí.

Eram quase seis horas quando chegamos à graciosa vila de Esher, no Surrey, na companhia do inspetor Baynes. Holmes e eu tínhamos trazido o necessário para passar a noite, e arranjamos aposentos confortáveis no Buli Hotel. Partimos finalmente com o detetive para nossa visita à Vila Glicínia. Era uma escura e frígida noite de março. Feriam-nos o rosto um vento cortante e uma chuva miúda, moldura condizente com a região desolada que o trem atravessava, e com a trágica meta a que nos destinávamos.

II — O Tigre de San Pedro

Depois de uma fria e melancólica caminhada de cerca de três quilômetros, alcançamos o alto portão de madeira que dava acesso a uma alameda de castanheiros. Esse caminho sinuoso, envolto em sombras, conduzia a uma casa escura e baixa, cujo vulto negro se destacava no céu cinza. De uma janela da frente, ao lado esquerdo da porta de entrada, coava-se uma luz bruxuleante.

— Há um policial de guarda — explicou Baynes. — Vou bater à janela.

Atravessou o canteiro de relva e bateu com os nós dos dedos na vidraça. Através do vidro embaciado, vi vagamente um homem saltar de uma cadeira ao lado do fogo, e ouvi um grito agudo vindo do interior da sala. Logo em seguida, um policial pálido e ofegante, com uma vela na mão trêmula, abria a porta.

— Que aconteceu, Walters? — perguntou Baynes secamente.

O homem enxugou a testa e soltou um suspiro de alívio.

— Alegro-me de vê-lo aqui, chefe. A noite pareceu-me interminável, e creio que já não possuo nervos tão bons como antigamente.

— Nervos, Walters? Nunca supus que você tivesse nervos.

— Ah!, sr. Baynes, é esta casa vazia e fúnebre e aquela coisa esquisita na cozinha que me põem assim. Além disso, quando o senhor bateu na janela julguei que fosse ele outra vez.

— Ele quem?

— O Demônio, chefe, não podia ser outro. Apareceu na janela.

— Quem apareceu na janela e quando foi isso?

— Foi há cerca de duas horas. Principiava a escurecer. Eu estava lendo sentado na cadeira. Não sei o que me fez levantar a cabeça, e, repentinamente, vi uma cara que me fitava através ao vidro inferior da janela. E que cara, Deus meu! Estou certo de que a verei sempre em meus sonhos.

— Calma, calma, Walters! Isso é maneira de um policial falar?

— Bem sei, chefe, bem sei; todavia, não posso negar que ela me assustou. Não era preta nem branca, mas de uma cor que jamais vi; parecia feita de argila, sobre a qual tivessem esborrifado um pouco de leite. E o tamanho, então, chefe! Era o dobro da sua. E que olhar… dois olhos esbugalhados, fixos, e duas fileiras de dentes brancos como os de uma fera faminta. Garanto-lhe, chefe, que não fui capaz de me mover, nem ao menos de respirar, até ela desaparecer. Precipitei-me para fora e dei uma busca entre as moitas, mas, graças a Deus, não encontrei ninguém.

— Se eu não soubesse que você é um homem como deve ser, Walters, seu nome ficaria marcado por causa disso. Ainda que fosse o Diabo em pessoa, um policial em serviço nunca deveria dar graças a Deus por não lhe poder pôr as mãos em cima. Tem certeza de que tudo isso não foi apenas uma visão ou produto dos nervos?

— Isso, pelo menos, é fácil verificar — interveio Holmes, acendendo sua lanterna portátil. — De fato — prosseguiu, depois de um rápido -exame ao canteiro de relva —, as pegadas são de quem calça número 45, posso quase afirmar. Se o corpo for proporcional ao tamanho do pé, deve ser por certo um gigante.

— O que teria sido feito dele?

— Parece ter pulado a sebe de arbustos e fugido para a estrada.

— Bem — sentenciou o inspetor com ar grave e pensativo —, fosse quem fosse e o que tivesse pretendido, está por enquanto fora de nosso alcance, e temos coisas mais urgentes a tratar. E agora, sr. Holmes, se me permite, lhe mostrarei a casa.

Apesar da cuidadosa pesquisa, os vários quartos e salas não revelaram nada notável. Aparentemente, os ocupantes da vila tinham trazido muito pouca coisa consigo, e toda a mobília, até as mais insignificantes peças, tinha sido alugada com a casa. Grande quantidade de roupas com a marca Marx & Co., High Holborn, fora abandonada por eles. Já tinham sido feitas indagações telegráficas, que revelaram que Marx nada sabia de seu freguês, exceto que pagava bem. Diversas miudezas, como cachimbos, alguns ro-mances, dois dos quais em espanhol, um revólver de modelo antiquado e um violão, constituíam os poucos objetos de uso pessoal encontrados.

— Até aqui, nada interessante — disse Baynes, passando cautelosamente de quarto em quarto com a vela na mão. — Mas, agora, sr. Holmes, quero chamar sua atenção para a cozinha.

Era um compartimento alto e sombrio, nos fundos da casa, onde se via, num dos cantos, um enxergão de palha, que devia ter servido de cama para o cozinheiro. A mesa estava coberta de pratos sujos e restos do jantar da noite anterior.

— Veja isto — disse Baynes. — O que lhe parece?

Dizendo isso, aproximou a vela de um estranho objeto que se encontrava atrás do armário. Era uma coisa de tal modo enrugada, murcha e seca, que se tornava difícil dizer o que poderia ter sido. Apenas era possível verificar que era preta, e tinha o aspecto de couro, assemelhando-se a uma figura humana em miniatura. Ao examiná-la, pensei a princípio tratar-se de um negrinho mumificado; depois pareceu-me um macaco muito velho e encarquilhado. Finalmente, fiquei na dúvida, sem saber se era animal ou ser humano. Tinha pendurada ao redor uma fileira de conchas brancas.

— Muito interessante… realmente, muito interessante! — exclamou Holmes, observando a sinistra relíquia.

— Mais alguma coisa?

Baynes aproximou-se em silêncio da pia e iluminou-a com a vela. Viam-se ali os membros e o corpo de uma ave branca de grandes dimensões, reduzida brutalmente a pedaços, com as penas ainda agarradas à pele. Holmes indicou com o dedo as barbelas da cabeça cortada.

— Um galo branco — disse. — Interessantíssimo! É, de fato, um caso muito curioso.

Baynes, entretanto, reservara para o fim o pormenor mais sinistro. Extraiu da parte de baixo da pia um balde de zinco contendo uma grande quantidade de sangue. Depois, de cima da mesa, agarrou uma bandeja em que se amontoavam fragmentos de ossos queimados.

— Algo foi morto e queimado. Retiramos tudo isto do fogo. Esteve aqui, hoje de manhã, um médico que afirmou não se tratar de restos humanos.

Holmes sorriu e esfregou as mãos.

— Devo felicitá-lo, inspetor, pela maneira perspicaz e inteligente com que está agindo neste caso. Sua capacidade, se me permite dizê-lo sem ofensa, parece-me superior às suas oportunidades.

Os olhinhos do inspetor Baynes cintilaram de prazer.

— Tem razão, sr. Holmes. Vegeta-se aqui no interior. Um caso como este pode oferecer grandes possibilidades para quem saiba aproveitá-lo, e eu espero não deixar fugir a ocasião. O que pensa destes ossos?

— Diria serem de cordeiro ou de cabrito.

— E o galo branco?

— Curioso, sr. Baynes, muito curioso, e diria quase único.

— Sim; esta casa deve ter sido habitada por pessoas muito estranhas, com hábitos esquisitíssimos. Uma delas morreu. Terá sido seguida e morta pêlos seus companheiros? Se for isso, nós os apanharemos, pois todos os portos estão sendo vigiados. No entanto, minha opinião a esse respeito é diferente. Sim, sr. Holmes, a minha opinião pessoal é muito diferente.

— Já formulou, então, uma hipótese?

— Trabalharei nela por minha conta, sr. Holmes. Se for bem sucedido, isso redundará em crédito para mim. Seu nome está feito; eu, porém, ainda preciso fazer o meu. Eu me sentiria satisfeito se pudesse dizer mais tarde que resolvi este problema sem sua ajuda.

Holmes riu gostosamente.

— Está bem, inspetor — disse. — Siga seu caminho; eu seguirei o meu. Em todo caso, meus resultados estarão sempre à sua disposição se, por acaso, quiser servir-se deles. Penso ter visto tudo o que desejava ver nesta casa, e meu tempo poderá ser melhor aproveitado em outro lugar. Até a vista e boa sorte!

Percebi por inúmeros pequenos indícios, que poderiam ter escapado a outra pessoa, que Holmes já tinha descoberto nova pista. Embora pudesse parecer impassível a qualquer observador casual, havia em seus olhos brilhantes e nos gestos vivos uma ansiedade, uma tensão contida que me faziam compreender que ele pressentira a proximidade de caça grossa. Como de costume, não me disse nada, nem eu lhe fiz perguntas. Bastava-me participar das emoções da aventura e prestar-lhe meu insignificante auxílio na captura, sem perturbar com inúteis interrupções aquele cérebro em contínua efervescência. Em tempo oportuno, eu seria inteirado de tudo.

Esperei, portanto, mas, para meu sempre crescente desapontamento, esperei em vão. Sucediam-se os dias, e meu amigo não dava o menor passo em frente. Esteve certa manhã na cidade e soube depois, por uma casual alusão de sua parte, que visitara o Museu Britânico. Exceto por essa única ausência, consumia o tempo em longas e assíduas caminhadas solitárias, ou tagarelando com certo número de bisbilhoteiros da vila, cuja amizade cultivara.

— Estou certo, Watson — observou um dia —, de que uma semana no campo lhe faria muito bem. É agradável ver despontar os primeiros rebentos verdes nas sebes e as aveleiras cobrindo-se de delicadas florinhas. Com uma pazinha, uma caixinha de lata e um livro elementar de botânica, pode-se passar horas muito instrutivas.

Ele próprio fazia suas excursões pêlos arredores com esse equipamento, mas era muito escassa a quantidade de plantas que trazia para casa à noite.

Às vezes, em nossos giros, encontrávamos o inspetor Baynes. Seu rosto corado e rechonchudo desfazia-se em sorrisos, e os olhos miúdos cintilavam ao saudar meu companheiro. Falava pouco sobre o caso, mas desse pouco depreendia-se não estar descontente com o curso dos acontecimentos. Confesso, contudo, ter ficado algo surpreso quando, cinco dias após o delito, ao abrir o jornal da manhã, deparei com estes dizeres em letras garrafais:

SOLUÇÃO DO MISTÉRIO DE OXSHOTT.

PRISÃO DO SUPOSTO ASSASSINO.

Quando li em voz alta esse título, Holmes deu um pulo na cadeira como se tivesse sido picado por uma tarântula.

— Com os diabos! — exclamou. — Será possível que Baynes o tenha apanhado?

— É o que parece — respondi, passando a ler a seguinte notícia:

“Causou grande sensação em Esher e em toda a zona circunvizinha a notícia de que, às últimas horas da noite de ontem, foi efetuada uma prisão relacionada com o crime de Oxshott. Como todos devem estar lembrados, o sr. Garcia, da Vila Glicínia, foi encontrado morto na região de Oxshott. O corpo apresentava sinais de violenta agressão, e, na mesma noite, desapareceram seus dois criados, o que faz supor que ambos sejam participantes do delito. Presumiu-se, embora sem provas, que a vítima tivesse em sua casa objetos de grande valor e o motivo do crime fosse o roubo. Foram despendidos todos os esforços pelo inspetor Baynes, em cujas mãos se encontra este caso, no sentido de descobrir o paradeiro dos fugitivos, pois ele tinha fundados motivos para crer que não se tinham afastado muito do lugar e se encontravam em qualquer esconderijo previamente preparado. Todavia, tinha-se como certo, desde o princípio, que eles mais cedo ou mais tarde seriam descobertos, porquanto o cozinheiro, segundo o testemunho de um ou dois fornecedores que o tinham avistado através da janela, era homem de aparência extraordinária — um mulato gigantesco, de catadura repelente, tez amarelada e acentuado tipo negróide. Esse indivíduo foi visto depois do crime, tendo sido encontrado e perseguido naquela mesma noite pelo agente Walters, ao ter a audácia de voltar à Vila Glicínia. O inspetor Baynes, considerando que tal visita deveria ter algum objetivo e que, portanto, podia se repetir, abandonou a casa e preparou uma emboscada entre as moitas do jardim. O homem caiu na armadilha e foi capturado ontem à noite, após violenta luta, durante a qual o agente Downing recebeu uma feroz dentada do selvagem. Sabemos que, quando o prisioneiro comparecer perante os magistrados, a polícia pedirá sua prisão. Esperam-se grandes revelações relacionadas com essa captura”.

— Claro que precisamos ver Baynes o quanto antes — exclamou Holmes, pegando o chapéu. — Temos o tempo necessário para apanhá-lo antes de partir.

Descemos apressadamente a rua do vilarejo e, como havíamos previsto, encontramos o inspetor pronto para sair.

— Já leu o jornal, sr. Holmes? — indagou, apresentando-lhe um exemplar.

— Sim, Baynes, já o li. Peço-lhe que não se ofenda, mas quero dar-lhe um conselho de amigo.

— Um conselho, sr. Holmes?

— Examinei a fundo este caso e não estou convencido de que o senhor esteja na pista certa. Não queria que se expusesse demasiado, a não ser que esteja realmente seguro.

— O senhor é muito gentil, sr. Holmes.

— Afirmo-lhe que falo unicamente para seu próprio bem.

Pareceu-me vislumbrar, por um rápido instante, um malicioso brilho nos minúsculos olhos do inspetor Baynes.

— Concordamos em trabalhar cada um por seu lado, sr. Holmes. É o que estou fazendo.

— Oh, muito bem! Não me queira mal por isso.

— De forma nenhuma, sr. Holmes; estou certo de que suas intenções são as melhores possíveis. Mas todos nós temos nosso próprio sistema. O senhor tem o seu, e eu talvez tenha o meu.

— Não falemos mais nisso.

— Terei sempre o maior prazer em informá-lo do que souber. O tal cozinheiro é um perfeito selvagem, forte como um touro e feroz como o Diabo. Quase arrancou o polegar de Downing com uma dentada, antes de conseguirmos subjugá-lo. Praticamente não fala uma palavra de inglês, e não pudemos arrancar-lhe nada, exceto grunhidos.

— E julga ter provas de que foi ele o assassino?

— Eu não disse isso, sr. Holmes; não disse isso. Cada um de nós tem os próprios métodos. Siga os seus, e eu seguirei os meus. Foi essa a combinação.

Quando nos afastamos, Holmes disse-me, encolhendo os ombros:

— Não consigo compreender esse homem. Tenho a impressão de que está se precipitando num abismo. Bem, como ele próprio diz, cada um de nós deve pôr à prova seu método e ver o que acontece. Há, porém, qualquer coisa na atitude do inspetor Baynes que ainda não consegui entender bem.

— Sente-se naquela cadeira, Watson — disse Sherlock Holmes quando chegamos a nosso apartamento no Buli Hotel.

— Quero pô-lo a par da situação, pois talvez precise de seu auxílio hoje à noite. Vou expor-lhe a evolução desse problema, tanto quanto me foi dado segui-la. Embora simples nas linhas principais, tem, contudo, apresentado surpreendentes empecilhos com referência à prisão dos culpados. Existem falhas nesse sentido, as quais precisamos remediar.

“Voltemos ao bilhete entregue a Garcia na noite de sua morte. Podemos desprezar a idéia de Baynes de que os criados da vítima estavam implicados no crime. A prova disso está no fato de que o próprio Garcia fez com que Scott Eccles estivesse presente naquela noite na vila, o que só poderia ter o propósito de criar um álibi. Era, portanto, Garcia quem tinha um plano em mente, e, aparentemente, um plano criminoso, em cuja execução encontrou a morte. Digo criminoso, porque somente quem nutre um desígnio dessa espécie tem necessidade de estabelecer um álibi. Quem, pois, lhe tirou a vida? Certamente a pessoa contra a qual fora arquitetado o plano. Até aqui, parece-me que estamos pisando terreno seguro.

“Portanto, agora podemos perceber o motivo do desaparecimento dos criados de Garcia. Estavam todos associados na mesma empresa misteriosa. Se ela fosse coroada de êxito, Garcia então voltaria, e toda a eventual suspeita seria afastada com o testemunho do inglês, o que faria com que tudo acabasse bem. Contudo, o empreendimento era perigoso, e, se Garcia não regressasse até determinada hora, era muito provável que sua vida tivesse sido sacrificada. Ficou por isso combinado que, se tal acontecesse, seus subordinados se refugiariam num esconderijo determinado, onde pudessem escapar às investigações e estar depois em condições de renovar o atentado. Não lhe parece que isso daria uma total explicação dos acontecimentos?”

Como por encanto, todo aquele inexplicável emaranhado de fatos pareceu esclarecer-se diante de meus olhos. Admirei-me, como sempre, de que tal explicação não me tivesse acudido mais cedo.

— Mas por que um dos criados teria voltado?

— Podemos supor que, na confusão da fuga, tivesse esquecido qualquer coisa preciosa, da qual não pudesse separar-se. Isso explicaria sua insistência, não lhe parece?

— Bem, e depois?

— Depois temos o bilhete recebido por Garcia à hora do jantar, o que indica a existência de um cúmplice na outra ponta da meada. Nesse caso, onde se encontra essa outra ponta? Já lhe mostrei que só poderia encontrar-se em qualquer casa grande e que o número de casas grandes nestas redondezas é limitado. Meus primeiros dias aqui neste vilarejo foram dedicados a uma série de passeios, durante os quais, nos intervalos de minhas pesquisas botânicas, fiquei conhecendo as casas grandes dos arredores e a história das famílias de seus respectivos ocupantes. Uma casa, apenas uma, me atraiu a atenção. Trata-se da famosa e antiga granja jacobita de High Gable, a um quilômetro e meio de Oxshott e a menos de oitocentos metros do local da tragédia. As outras pertenciam a gente prosaicamente respeitável, que se mantém afastada de toda atmosfera romanesca. O sr. Henderson, da High Gable, porém, é inegavelmente um homem curioso, a quem podem suceder estranhas aventuras. Eis por que concentrei minha atenção sobre ele e seus familiares.

“É um grupo de pessoas bastante singular, Watson, e o chefe da casa é, sem dúvida, a mais singular. Procurei vê-lo sob um pretexto plausível, mas pareceu-me ler em seus olhos escuros, profundos, pensativos, que estava perfeitamente a par de meu verdadeiro objetivo. É um homem de seus cinqüenta anos, forte, enérgico, de cabelos grisalhos, sobrancelhas negras e espessas. Possui o andar imponente de um cervo, e a majestade de um imperador… uma figura, em suma, indômita e autoritária, cujo espírito candente se oculta por trás da pele pergaminácea do rosto. Deve ser estrangeiro ou, pelo menos, deve ter vivido muito tempo nos trópicos, pois é moreno-escuro e ressequido, mas rijo como um chicote. Seu amigo e secretário, o sr. Lucas, é indubitavelmente estrangeiro: tez cor de chocolate, ardiloso, melífiuo e felino, com uma venenosa suavidade no falar. Como vê, Watson, já entramos em contato com dois grupos de estrangeiros: um na Vila Glicínia, outro na High Gable. Nossas falhas, portanto, principiam a ser remediadas.

“Esses dois homens, amigos íntimos e inseparáveis, constituem o núcleo da casa; há, no entanto, outra pessoa que, para nosso fim imediato, talvez seja ainda mais importante. Henderson tem duas filhas… uma de onze e outra de treze anos de idade, cuja governanta, a sra. Burnet, é uma inglesa quarentona. Existe também um criado de confiança. Esse pequeno grupo compõe toda a família, que viaja sempre reunida, pois Henderson viaja muito e está continuamente mudando de ares. Há muito pouco tempo regressou à High Gable, após um ano de ausência. Posso ainda acrescentar que ele é muito rico e lhe é fácil satisfazer qualquer capricho, por mais extravagante que seja. Quanto ao resto, sua casa está cheia de mordomos, lacaios, criadas e o habitual magote de criados, bem alimentados e com pouco serviço, como sucede em todas as grandes casas de campo inglesas.

“Vim a saber de tudo isso, em parte através dos bisbilhoteiros da vila, em parte por observação própria. Não existe ninguém melhor como informador do que criados despedidos, irritados com os patrões, e eu tive a sorte de encontrar um nessas condições. Digo sorte; contudo, ela não viria a meu encontro se eu não fosse procurá-la. Como observa Baynes, cada um de nós possui seu próprio método. E foi graças ao meu que tive a oportunidade de encontrar John Warner, antigo jardineiro da. High Gable, despedido, num momento de cólera, por seu arrogante patrão. Ele, por seu turno, possuía amigos entre os outros criados da casa, os quais nutriam pelo patrão o mesmo temor e ódio. Essa foi a chave que me permitiu penetrar nos segredos da High Gable.

“Gente curiosa, Watson! Ainda não tenho a pretensão de conhecê-la bem. Posso, porém, afirmar-lhe que é muito estranha. A construção é dividida em duas alas; os criados moram numa, a família, na outra. Não há entre eles nenhuma ligação, a não ser o criado pessoal de Henderson, que serve as refeições da família. Tudo é levado até certa porta, que constitui o único meio de comunicação. A governanta e as crianças raramente saem, salvo -ao jardim. Henderson jamais se afasta da casa sozinho. O secretário acompanha-o por toda parte, como uma sombra. Os criados comentam que o patrão anda apavorado com qualquer coisa. “Vendeu a alma ao Diabo por amor ao dinheiro”, diz Warner, “e receia que o credor venha buscar o que lhe pertence.” Ninguém sabe de onde vieram, nem quem são. Possuem um gênio muito violento. Já por duas vezes, Henderson agrediu pessoas às chicotadas, e unicamente sua bolsa bem-provida o conseguiu livrar de ser processado pêlos tribunais.

“Por conseguinte, Watson, julguemos agora a situação à luz dessas novas informações. Podemos supor que a carta tenha partido dessa casa estranha, e que era um convite a Garcia para pôr em ação um plano premeditado. Quem pode ter escrito o bilhete? Naturalmente, alguém de dentro da cidadela e, com toda a certeza, uma mulher. Quem poderia ser senão a sra. Burnet, a governanta? Nosso raciocínio parece conduzir-nos nessa direção. Seja como for, tomemos isso como hipótese viável, e vejamos que conseqüências acarreta. Posso acrescentar que a idade e o temperamento da sra. Burnet afastam definitivamente minha primeira idéia, a de que pudesse haver um interesse amoroso nessa história.

“Se ela escreveu o bilhete, presume-se que fosse amiga e cúmplice de Garcia. Qual seria, pois, sua provável reação ao saber que ele fora assassinado? Se tivesse perecido em alguma empresa criminosa, ela permaneceria calada. Em todo caso, conservaria no fundo do coração rancor e ódio aos que o tivessem morto, e provavelmente faria o possível para se vingar deles. Poderíamos, então, ir vê-la e procurar utilizar esse ódio em nosso proveito? Tal foi meu pensamento. No entanto, apresenta-se agora uma circunstância sinistra. Desde a noite do crime, a sra. Burnet desapareceu. Estará ainda viva, ou terá encontrado a morte na mesma noite, como o amigo que ela havia chamado? Ou encontra-se apenas prisioneira? Este é um ponto que ainda precisamos esclarecer.

“Você certamente já percebeu a dificuldade da situação, Watson. Não temos pretexto algum em que nos possamos apoiar para um mandado de prisão. Toda a nossa história parecerá fantástica, exposta a um magistrado. O desaparecimento da mulher não prova nada, pois naquela casa é comum que alguém fique invisível por uma semana. Todavia, ela poderá estar neste instante em perigo de vida. Tudo o que posso fazer é vigiar a casa e postar Warner de guarda no portão. Mas não podemos deixar que tal situação continue, e, visto que a lei é impotente para agir, devemos correr o risco sozinhos.”

— Que sugere então?

— Sei qual é o quarto da sra. Burnet; é acessível do alto de um telhado que fica abaixo de sua janela. Proponho que estejamos lá esta noite, para ver se conseguimos penetrar no fundo do mistério.

Devo confessar que a perspectiva não me era muito tentadora. Aquela velha mansão com atmosfera de crime, seus habitantes estranhos e temíveis, os perigos desconhecidos que iríamos arrostar e o fato de, agindo assim, nos colocarmos em posição legalmente comprometedora, tudo contribuía para esmorecer meu ardor. No entanto, havia algo no frio raciocínio de Holmes que me impedia de recusar qualquer aventura para que ele me convidasse. Sabia que assim, e só assim, era possível encontrar a solução. Apertei-lhe a mão em silêncio e selei minha sorte.

Estava decidido, porém, que nossa investigação não teria um fim tão rocambolesco. Eram cerca de cinco horas, e as sombras daquela tarde de março principiavam a adensar-se, quando irrompeu em nosso quarto um aldeão profundamente emocionado.

— Eles se foram, sr. Holmes. Partiram no último trem. A senhora conseguiu fugir deles, e eu a trouxe comigo. Está num carro lá embaixo.

— Bravo, Warner! — exclamou Holmes, pondo-se de pé. — As falhas estão sendo sanadas rapidamente, Watson.

No carro encontrava-se uma mulher semidesfalecida pela exaustão nervosa. Trazia nas feições aquilinas e pálidas os vestígios da recente tragédia. A cabeça pendia-lhe inerte sobre o peito, mas, quando a levantou para nos fitar com os olhos embaciados, vi que suas pupilas eram dois pontos negros no centro das enormes íris cinzentas. Estava evidentemente sob a ação de uma forte dose de ópio.

— Fiquei de guarda ao portão, como o senhor me recomendou — explicou nosso emissário, que era na verdade o jardineiro despedido. — Quando a carruagem saiu, segui-a até a estação. Esta senhora parecia sonâmbula. Todavia, quando pretenderam pô-la no trem, voltou a si e lutou com todas as forças. Quiseram empurrá-la para dentro de um vagão; ela, porém, ofereceu resistência e conseguiu escapar-lhes. Tomei-lhe a defesa, coloquei-a num carro, e aqui estamos. Jamais esquecerei o rosto que me fitou da janela do vagão, quando a trouxe. Poucos dias me restariam de vida se aquele demônio amarelo de olhos negros me pusesse as mãos em cima.

Levamos a mulher para dentro, colocamo-la no sofá, e em breve duas xícaras de café bem forte lhe aclararam o cérebro das névoas do alcalóide. Baynes fora chamado por Holmes, e em breves palavras lhe explicamos a situação.

— Caramba! O senhor obteve justamente a prova de que eu necessitava — gritou o inspetor, apertando entusiasticamente a mão de meu amigo. — Eu estava na mesma pista desde o princípio.

— Como! O senhor também suspeitava de Henderson?

— Exatamente, sr. Holmes. Enquanto o senhor se arrastava entre as moitas da High Gable, eu estava em cima de uma das árvores do pomar observando-o. Tratava-se apenas de saber quem obteria a prova primeiro.

— Então, por que prendeu o mulato?

Baynes solou uma gargalhada.

— Tinha a certeza de que Henderson, como ele próprio se chama, sabia que desconfiavam dele, e se manteria quieto em seu esconderijo enquanto se julgasse em perigo. Por isso prendi o pobre-diabo para fazer crer que ninguém se ocupava de sua pessoa. Estava convencido de que ele, com toda a certeza, procuraria afastar-se daqui o mais depressa possível, e nos daria a oportunidade de nos apoderarmos da sra. Burnet.

Holmes pôs a mão no ombro do inspetor.

— O senhor irá longe em sua profissão. Tem o instinto e a intuição necessários a um bom policial — disse.

Baynes corou de satisfação.

— Deixei um agente à paisana na estação durante toda a semana. Para onde quer que se dirijam os moradores da High Gable, ele não os perderá de vista. Mas que teria ele pensado, quando a sra. Burnet fugiu? Seja como for, seu homem apanhou-a e tudo acabou bem. No entanto, não podemos prender ninguém sem o testemunho dela, é claro. Portanto, quanto mais depressa ouvirmos suas declarações, melhor.

— Ela está readquirindo as forças pouco a pouco — disse Holmes, observando a governanta. — Mas diga-me, Baynes, quem é esse Henderson?

— Henderson — respondeu o inspetor — é dom Murillo, outrora chamado o “Tigre de San Pedro”.

O Tigre de San Pedro! Toda a história daquele homem me veio à mente como um relâmpago. Esse indivíduo celebrizara-se como o tirano mais cruel e sanguinário que jamais havia governado um país com a aparência de civilizado. Forte, destemido e enérgico, possuía uma capacidade que lhe permitiu impor durante dez ou doze anos seu jugo odioso sobre um povo aterrorizado. Seu nome era temido em toda a América Central, mas, no fim daquele tempo, houve uma revolta geral contra ele. Entretanto, tão astucioso como cruel, ao pressentir o perigo iminente fez transportar secretamente seus tesouros para um navio tripulado por correligionários fiéis. Foi apenas um palácio vazio que os revoltosos assaltaram no dia seguinte. O ditador e suas duas filhas, o secretário e as riquezas, tinham escapado. Desde essa época desapareceram dos olhos do mundo, e sua identidade era objeto freqüente de comentários na imprensa européia.

— Sim senhor, dom Murillo, o Tigre de San Pedro — repetiu Baynes. — Se procurar recordar-se, verá que as cores de San Pedro são o verde e o branco, as mesmas citadas no bilhete. Adotara o nome de Henderson, mas consegui seguir-lhe as pegadas, em sentido inverso, através de Paris, Roma e Madri, até Barcelona, onde seu navio aportou em 1886. Seus inimigos procuraram-no durante todo esse tempo com o intuito de se vingarem. No entanto, só agora conseguiram encontrá-lo.

— Descobriram-no há um ano — interveio a sra. Burnet, que se tinha sentado e acompanhava atentamente a conversa. — Já uma ocasião haviam atentado contra sua vida, mas há um espírito demoníaco que parece defendê-lo. E agora, mais uma vez, é o nobre e cavalheiresco Garcia que cai abatido, enquanto o monstro consegue escapar impune. Mas outro virá, e ainda outro, até um dia ser feita justiça; isso é tão certo como o nascer do sol.

Suas mãos finas contraíram-se, e o rosto cansado empalideceu sob o domínio do ódio de que se achava possuída.

— Mas de que maneira a senhora se envolveu neste caso? — perguntou Holmes. — Como poderia uma inglesa tomar parte em semelhante atentado homicida?

— Aderi à conspiração porque não havia outro meio no mundo de fazer justiça. Que importa à magistratura inglesa os rios de sangue que esse homem fez correr há alguns anos pelas ruas de San Pedro, ou o navio abarrotado de ouro que ele roubou? Para os senhores, são como crimes cometidos em outro planeta. Nós, porém, sabemos o que isso representa. Descobrimos a verdade no sofrimento e na dor. Para nós, não há no inferno demônio mais perverso que Juan Murillo, e não teremos paz nesta vida enquanto suas vítimas clamarem por vingança.

— Inegavelmente — observou Holmes —, ele é tudo quanto a senhora diz. Estou a par de suas atrocidades. Mas, que mal esse homem poderia ter-lhe causado?

— Vou explicar-lhe tudo. A política desse bandido era liquidar, sob qualquer pretexto, todo homem que, pêlos seus dotes, demonstrasse a possibilidade de um dia vir a transformar-se num rival perigoso para ele. Meu marido, sim, meu verdadeiro nome é sra. Victor Durando, exercia as funções de ministro de San Pedro em Londres. Ali nos conhecemos e casamos. Jamais existiu sobre a terra homem melhor do que ele. Desgraçadamente, Murillo ouviu falar de sua competência, chamou-o sob uma desculpa qualquer e mandou-o fuzilar. Pressentindo seu destino, recusara-se a levar-me com ele. Foram-lhe confiscadas as propriedades e eu fiquei na miséria, com o coração despedaçado.

“Ocorreu, então, a queda do tirano. Ele conseguiu fugir da maneira que o senhor acaba de descrever. Mas o número infindo de pessoas cuja existência ele arruinou, e cujos parentes mais caros e mais próximos sofreram atrozes torturas e encontraram a morte em suas mãos, não poderiam deixar a coisa cair no esquecimento. Congregaram-se numa sociedade destinada a permanecer indissolúvel até que a missão estivesse cumprida. Coube a mim, logo após termos descoberto no falso Henderson o déspota caído, unir-me à sua família e manter os outros informados de seus passos. Alcancei meu intento tornando-me governanta de suas filhas. Mal sabia ele que a mulher que se sentava à sua frente a cada refeição era a mesma cujo marido ele despachara para o outro mundo sem a menor piedade. Eu sorria-lhe, cumpria minha obrigação para com suas filhas e esperava o momento oportuno. Um atentado foi levado a efeito contra ele em Paris, mas falhou. Andamos aos ziguezagues por toda a Europa, a fim de despistar os perseguidores, e finalmente regressamos a esta casa, que ele havia alugado ao chegar, pela primeira vez, à Inglaterra.

“Entretanto, também aqui seus inimigos o aguardavam, sequiosos de justiça. Sabendo que ele voltaria a este lugar, Garcia, filho de um antigo alto dignitário em San Pedro, esperava-o com dois companheiros fiéis, de origem humilde, absorvidos os três por idêntico desejo de vingança. Pouco podia ele fazer durante o dia, pois Murillo cercava-se de precauções e não saía nunca sem ser acompanhado de sua sombra, Lucas, ou López, como era conhecido na época de seu fastígio. À noite, porém, Murillo dormia só, e o vingador poderia colhê-lo de surpresa. Certa noite, de antemão determinada, enviei a meu amigo instruções definitivas, porquanto nosso homem vivia de sobreaviso e mudava constantemente de quarto. Competia-me ver se as portas estavam abertas e, por sinais feitos com luz verde ou branca, através de uma janela fronteira à estrada, informá-lo se tudo corria em ordem ou se seria melhor adiar o atentado.

“Tudo, porém, nos saiu às avessas. Não sei por que motivo, eu havia provocado as suspeitas de López, o secretário. Aproximou-se de mim sorrateiramente e, mal acabei de escrever o bilhete, saltou sobre mim. Ele e seu amo arrastaram-me para meu quarto e submeteram-me a julgamento como traidora. Ter-me-iam apunhalado ali mesmo, se tivessem encontrado meio de escapar depois às conseqüências desse ato. Finalmente, após longa discussão, decidiram que meu assassinato era demasiado perigoso. Resolveram, contudo, livrar-se para sempre de Garcia. Haviam-me amarrado, e Murillo torceu-me o braço até eu lhes dar o endereço de meu companheiro. Juro-lhes que preferia que o tivessem arrancado de mim, se soubesse o que isso iria significar para Garcia. López endereçou o bilhete que eu havia escrito, fechou-o com lacre, colocou sobre este sua abotoadura de punho e enviou-o por intermédio do criado José. Como o mataram não lhes sei dizer, salvo que foi a mão de Murillo que o abateu, pois López ficara de guarda junto a mim. Acredito que o esperou entre as moitas que ladeiam o caminho, e saltou sobre ele no momento em que passava. A princípio, pensaram em deixá-lo penetrar na casa e abatê-lo como se se tratasse de um ladrão apanhado em flagrante. Todavia, refletindo melhor, acharam que, se fossem envolvidos num inquérito, sua verdadeira identidade seria revelada publicamente, e ficariam expostos a novos ataques, ao passo que, com a morte de Garcia, a perseguição talvez cessasse, pois tal morte certamente assustaria os outros conjurados e os faria desistir da empresa.

“Tudo correria bem para eles agora, se não fosse meu testemunho do que tinham feito. Não tenho a menor dúvida de que houve ocasiões em que minha vida esteve pendente de um fio. Achava-me prisioneira em meu quarto, apavorada com as mais terríveis ameaças, maltratada de maneira cruel com o fito de me perturbarem o intelecto. Vejam este golpe aqui no ombro, e as manchas que me recobrem os braços. Quando, em certo momento, tentei chamar por socorro da janela, puseram-me uma mordaça na boca. Essa prisão intolerável durou cinco dias, durante os quais me deixaram praticamente sem alimento. Hoje à tarde trouxeram-me uma boa refeição, mas, mal a tinha ingerido, percebi que lhe tinham adicionado algum narcótico. Lembro-me, como num sonho, de ter sido arrastada para a carruagem no mesmo estado fui conduzida para um trem. Só então, quando as rodas já estavam quase em movimento, compreendi subitamente que minha liberdade dependia apenas de meu próprio esforço. Atirei-me para fora do vagão; eles tentaram fazer-me voltar e, se não fosse a intervenção deste bom homem, que me conduziu para um carro, jamais teria escapado. Agora, graças a Deus, estou definitivamente fora do alcance deles.”

Todos tínhamos ouvido atentamente aquela extraordinária declaração. Holmes foi o primeiro a quebrar o silêncio:

— Nossas dificuldades ainda não terminaram — observou, abanando a cabeça. — Finda aqui nosso trabalho policial. Inicia-se, contudo, o trabalho legal.

— Precisamente — disse eu. — Qualquer advogado hábil poderá justificar o fato sob a alegação de legítima defesa. Ainda que existam centenas de delitos anteriores a reclamar justiça, só por este eles poderão ser julgados.

— Qual!… — exclamou Baynes alegremente. — Faço um conceito melhor de nossos juízes. Uma coisa é legítima defesa, outra é atrair um homem a sangue-frio com o intuito de matá-lo, por mais perigoso que ele possa ser. Não, não; verão que poderemos provar a boa razão de nosso procedimento, quando virmos os habitantes da High Gable no próximo júri de Guilford.

Pertence à história o fato de que, apesar de tudo, algum tempo ainda deveria decorrer antes que o Tigre de San Pedro recebesse o castigo merecido. Astutos e audazes, ele e seu companheiro conseguiram despistar os perseguidores, entrando num prédio de apartamentos pela porta principal da Edmonton Street e saindo pela porta dos fundos na Curzon Square. Desde esse dia, jamais foram vistos na Inglaterra. Cerca de seis meses mais tarde, o marquês de Montalva e o sr. Rulli, seu secretário, foram encontrados assassinados em seus quartos no Hotel Escoriai, em Madri. O delito foi imputado aos niilistas, e os criminosos jamais foram presos.

O inspetor Baynes foi visitar-nos na Baker Street com um jornal em que vinham descritos o rosto trigueiro do secretário e os traços dominadores, os olhos negros e magnéticos e as sobrancelhas espessas de seu patrão. Não tivemos dúvidas de que a justiça, embora tardia, chegara finalmente.

— Um caso muito confuso, amigo Watson — comentou Holmes mais tarde, no meio de sua cachimbada noturna. — Não lhe será possível apresentá-lo sob aquele aspecto coerente e compacto, que lhe é tão caro. Ele abrange dois continentes, atinge dois grupos misteriosos de indivíduos e complica-se ulteriormente diante da presença respeitável de nosso amigo Scott Eccles, cuja inclusão nos acontecimentos me vem demonstrar que Garcia possuía uma imaginação fértil e um bem-desenvolvido instinto de conservação. É notável unicamente pelo fato de que, no meio de um verdadeiro caudal de possibilidades, nós, com nosso digno colaborador Baynes, soubemos cingir-nos aos fatos essenciais, e desse modo orientar-nos em nosso obscuro e tortuoso caminho. Há algum ponto que não lhe tenha ficado bem claro?

— Qual o motivo do regresso do cozinheiro mulato?

— Creio que pode ser atribuído àquele estranho objeto encontrado na cozinha. O homem era um selvagem primitivo das florestas de San Pedro, e aquilo era seu fetiche. Quando ele e o companheiro fugiram para algum esconderijo previamente arranjado, sem dúvida já ocupado por outro cúmplice, o companheiro devia tê-lo persuadido a abandonar um traste tão comprometedor. Todavia, o coração do mulato ficara preso ao fetiche, e por isso voltou no dia seguinte para reavê-lo, ocasião em que, espreitando pela janela, viu que o compartimento estava ocupado pelo agente Walters. Aguardou durante mais três dias, mas, depois, sua religiosidade ou superstição o levou a realizar nova tentativa. O inspetor Baynes, com a astúcia que lhe é peculiar, tinha, em minha presença, fingido dar pouca importância ao incidente, mas, na realidade, percebera-lhe todo o significado, e, por essa razão, armou uma emboscada na qual o pobre-diabo caiu. Mais alguma coisa, Watson?

— E o galo despedaçado, o balde de sangue, os ossos carbonizados e todo o mistério daquela fantástica cozinha?

Holmes sorriu, enquanto procurava uma anotação em seu bloco.

— Passei uma manhã no Museu Britânico procurando elucidar esse e outros pontos. Eis uma citação extraída do livro de Eckermann, O vodu e as religiões dos negros:

“O verdadeiro praticante do vodu não empreende nada de importante sem efetuar certos sacrifícios destinados a tornar propícios seus imundos deuses. Em casos extremos, esses ritos assumem aspectos de imolação de entes humanos, seguidos de canibalismo. Contudo, de ordinário, a vítima comum é um galo branco, esquartejado vivo, ou uma cabra preta, cujo pescoço é cortado e cujo corpo é queimado”.

— Portanto, como você vê, nosso selvático amigo era muito ortodoxo em seus ritos religiosos. É um caso grotesco, Watson — acrescentou Holmes, fechando lentamente o bloco —, mas, como já tive ocasião de lhe fazer notar, do grotesco ao horrível vai apenas um passo.

1917
Seu último adeus

1. Vila glicínia § 2. O círculo vermelho
3. Os planos do submarino Bruce-Partington § 4. O detetive agonizante
5. O desaparecimento de Lady Frances Carfax § 6. O pé do diabo
7. Seu último adeus

Ilustrações: Arthur Twidle, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock