Um estudo em vermelho – Primeira parte, Capítulo 1

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Primeira parte: Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo primeiro: O Sr. Sherlock Holmes

No ano de 1878, formei-me em medicina pela Universidade de Londres e logo parti para Netley, a fim de seguir o curso exigido aos médicos militares. Terminados os meus estudos, fui designado para o Quinto Regimento de Fuzileiros de Northumberland, como cirurgião assistente. Nessa época, o Quinto estava acantonado na Índia, e antes que eu pudesse me apresentar eclodiu a Segunda Guerra Afegã. Ao desembarcar em Bombaim, soube que o meu regimento já havia atravessado os desfiladeiros e se achava embrenhado em território inimigo. Tomei o mesmo caminho, com muitos outros oficiais que estavam em idêntica situação, e consegui chegar são e salvo a Kandahar, onde encontrei minha unidade e imediatamente assumi minhas novas funções.

Richard Gutschmidt, 1902

A campanha trouxe honras e promoções para muitos, mas a mim só proporcionou infortúnios e desastres. Fui transferido da minha brigada para as tropas de Berkshire, com as quais tomei parte na fatídica Batalha de Maiwand. Ali, a bala de um mosquete afegão atingiu-me o ombro, fraturando o osso e raspando a artéria subclávica. Teria caído nas mãos dos ferozes ghazis, se não fosse a devoção e a coragem do ordenança Murray, que me pôs num cavalo de carga e conseguiu levar-me são e salvo para as linhas britânicas.

Combalido pelo sofrimento e pelas contínuas privações que havia suportado, fui removido, numa longa composição de feridos, para o hospital central de Peshawar. Ali fui me restabelecendo, e já tinha melhorado o suficiente para andar um pouco pelas enfermarias, ou estender-me ao sol na varanda, quando apanhei uma gastrenterite, essa praga das nossas possessões indianas. Durante meses, tive a vida por um fio, e quando, finalmente, voltei a mim e entrei em convalescença, estava de tal modo fraco e macilento que uma junta médica foi de parecer que deviam me fazer regressar imediatamente à Inglaterra. Conseqüentemente, fui recambiado no vapor Orontes e um mês depois desembarquei no cais de Portsmouth, com a saúde irremediavelmente arruinada, mas com a permissão, dada por um governo paternal, de tentar melhorá-la nos nove meses seguintes.

Não tendo relações nem parentes na Inglaterra, achava-me tão livre como o ar… ou pelo menos tão livre quanto pode ser um homem cujo rendimento não passa de onze xelins e seis pence por dia. Em tais circunstâncias, fui naturalmente atraído por Londres, essa grande fossa a que irresistivelmente vão ter todos os vadios e desocupados do império. Ali fiquei algum tempo, instalado num hotel do Strand, levando uma existência sem conforto nem sentido, e gastando, com mais largueza do que devia, todo o dinheiro que me vinha às mãos. Tão alarmante se tornou o estado das minhas finanças que em breve me vi na contingência de deixar a metrópole e ir viver no campo, ou alterar completamente o meu modo de vida. Escolhendo esta última alternativa, resolvi sair do hotel e alojar-me num domicílio mais barato e menos pretensioso.

Exatamente no dia em que cheguei a essa conclusão, encontrava-me no Bar Criterion quando alguém me bateu no ombro. Voltando-me, reconheci Stamford, um jovem que fora meu assistente no Barts. Ver um rosto amigo no imenso deserto londrino é coisa deveras agradável para um homem solitário. Nos velhos tempos da universidade, não tínhamos lá grande intimidade, mas cumprimentei-o com entusiasmo, e ele, por sua vez, pareceu feliz de me ver. Na exuberância daquele momento, convidei-o para almoçar comigo no Holborn, e juntos tomamos uma carruagem.

— Que diabo você tem feito, Watson? — perguntou-me ele, sem esconder o seu espanto, enquanto passávamos pelas ruas apinhadas de Londres. — Vejo-o magro como um sarrafo e escuro como uma castanha.

Fiz-lhe um breve relato das minhas aventuras e mal o concluíra chegamos ao nosso destino.

— Coitado! — exclamou ele, condoído pêlos infortúnios que acabava de ouvir. — E que faz agora?

— Procuro alojamento — respondi. — Tento resolver o problema de encontrar quartos confortáveis a preços razoáveis.

— É curioso — disse o meu companheiro. — Você hoje é a segunda pessoa que fala dessa maneira.

— E quem foi a primeira? — perguntei.

— Um sujeito que trabalha no laboratório químico do hospital. Estava se queixando, ainda esta manhã, de não encontrar com quem dividir o aluguel de uns ótimos aposentos que tinha descoberto, mas que eram demasiado caros para a sua bolsa.

— Magnífico! — exclamei. — Se ele procura alguém para compartilhar dos quartos e das despesas, sou exatamente essa pessoa. Prefiro ter um companheiro a morar sozinho.

Stamford olhou-me de um modo estranho, por cima do seu copo de vinho.

— Você ainda não conhece Sherlock Holmes — disse ele. — Não sei se lhe agradará como companheiro permanente.

— Por quê? Haverá alguma coisa que não o recomende?

— Oh! Eu não disse isso. Ele é um pouco esquisito…. tem paixão por certos ramos da ciência. Que eu saiba, é uma pessoa muito correta.

— Estudante de medicina?

— Não. E não tenho a menor idéia a respeito da carreira que pretende seguir. Creio que entende muito de anatomia, e é um químico de primeira ordem. Mas, ao que me consta, nunca fez um curso sistemático de medicina. Estuda sem método, de uma maneira excêntrica, e já acumulou uma série de conhecimentos pouco vulgares que espantariam os seus professores.

— Nunca lhe perguntou qual o ramo da ciência em que deseja especializar-se?

— Não — respondeu Stamford. — Não é dado a confidências, embora seja bastante comunicativo quando lhe dá na telha.

— Pois eu gostaria de conhecê-lo. Visto que preciso morar com alguém, agrada-me que seja um homem tranqüilo e estudioso. Ainda não estou bastante forte para suportar ruídos ou balbúrdias. Já tive muito dessas duas coisas no Afeganistão … e estou provido delas para o resto da existência. Como poderei travar relações com esse seu amigo?

— Ele deve estar no laboratório — respondeu o meu companheiro. — Às vezes passa semanas inteiras sem aparecer, mas noutras ocasiões não sai de lá o dia todo e boa parte da noite. Se quiser, vamos procurá-lo depois do almoço.

— Combinado — respondi, e a conversação passou a outros assuntos.

Quando nos dirigíamos para o hospital, ao sairmos do Holborn, Stamford deu-me mais algumas informações sobre o cavalheiro com quem eu me propunha morar.

— Se você não se der bem com ele, não me culpe — disse o meu ex-assistente. — Tudo quanto sei a respeito dele vem dos encontros ocasionais no laboratório. Esse acordo é idéia sua, e eu não me responsabilizo por nada.

— Se não nos entendermos — respondi —, será fácil separarmo-nos. Parece-me, Stamford — acrescentei encarando o meu companheiro —, que você tem algum motivo para lavar as mãos sobre esse assunto. O temperamento do homem é assim tão temível, ou que outra coisa poderá ser? Vamos lá, não tenha papas na língua.

— Não é fácil exprimir o inexprimível — respondeu ele, rindo. — Holmes talvez seja demasiado científico para o meu gosto… quase cruelmente científico. Posso até imaginá-lo capaz de administrar a um amigo uma pitada do último alcalóide vegetal, não por malvadez, compreenda-me, mas simplesmente por espírito de pesquisa e para ter uma idéia precisa dos efeitos. Faço-lhe, porém, a justiça de admitir que ele próprio a tomaria com a mesma desenvoltura. Ao que me parece, a sua paixão é o conhecimento exato e completo.

— Não vejo mal nisso.

— Sim, mas é preciso respeitar certos limites. Quando se trata, por exemplo, de retalhar cadáveres na sala de dissecação, esse espírito assume sem dúvida uma forma estranha.

— Retalhar cadáveres?!

— Sim, para verificar até onde as escoriações podem ser produzidas depois da morte. Vi com os meus próprios olhos quando ele fazia essa experiência.

— E ainda me diz que ele não estuda medicina?

— Não. Sabe Deus qual é o objetivo dos seus estudos! Mas estamos chegando, e você deve formar uma opinião por si próprio.

Entramos por um beco estreito e descemos do carro diante de uma pequena porta lateral, que se abria para uma ala do grande hospital. Eu conhecia perfeitamente aquelas dependências, e, ao subirmos a gelada escadaria de pedra, não precisava de guia; desembocamos no comprido corredor de paredes caiadas e portas escuras. Quase ao fundo, sob as arcadas baixas, havia uma passagem que levava ao laboratório químico.

Este era uma vasta sala, guarnecida de prateleiras atulhadas com toda espécie de recipientes. Aqui e ali havia mesas baixas e largas eriçadas de retortas, tubos de ensaio e pequenos bicos de Bunsen com as suas trêmulas chamas azuis. Via-se apenas um estudante na sala, curvado sobre uma das mesas, absorto no seu trabalho. Ao ruído dos nossos passos, olhou para trás e levantou-se com uma exclamação de alegria.

— Encontrei! Encontrei! — gritou ele para o meu companheiro, correndo para nós com um tubo de ensaio na mão. — Encontrei um reagente que é precipitado pela hemoglobina, e por nada mais!

Tivesse ele descoberto uma mina de ouro, suas feições não denotariam maior satisfação.

Richard Gutschmidt, 1902

— Dr. Watson, sr. Sherlock Holmes — disse Stamford, apresentando-nos.

— Como está? — disse ele cordialmente, apertando-me a mão com uma força de que não o julgaria capaz. — Vejo que andou pelo Afeganistão.

— Como sabe? — perguntei-lhe, atônito.

— Isso não vem ao caso — disse com um risinho. — Agora o que interessa é a hemoglobina. Já percebeu, sem dúvida, o significado desta minha descoberta?

— Sim, quimicamente é muito interessante — respondi. — Mas praticamente…

— Ora, meu amigo, é a descoberta mais prática de toda a medicina legal nestes últimos anos. Não compreende que isto nos permitirá obter uma prova infalível quanto às manchas de sangue? Venha aqui!

Na sua sofreguidão, segurou-me pela manga do casaco e puxou-me para a mesa na qual estivera trabalhando.

— Peguemos um pouco de sangue fresco — disse ele, cravando no dedo um comprido punção e recolhendo uma gota de sangue com uma pipeta. — Agora, ponho esta pequena quantidade de sangue num litro de água. Veja que a mistura resultante tem toda a aparência de água pura. A proporção de sangue não pode ser superior a um para um milhão. Contudo, não tenho a menor dúvida de que poderemos obter a reação característica.

E, assim falando, introduziu no frasco alguns cristais brancos, adicionando depois algumas gotas de um fluido transparente. Num instante o conteúdo assumiu uma cor escura de mogno, e um pequeno depósito pardacento formou-se no fundo do recipiente.

— Ah! Ah! — exclamou Holmes, batendo as mãos e parecendo tão satisfeito quanto um menino com um brinquedo novo. — Que pensa disso?

— É uma prova muito delicada — observei.

— Esplêndida! Esplêndida! A velha prova do guáiaco era pouco prática e incerta. O mesmo acontece com o exame microscópico dos glóbulos vermelhos, que é absolutamente sem valor quando as manchas têm poucas horas. A minha reação, pelo contrário, parece verificar-se da mesma forma quando o sangue é fresco ou quando é velho. Se essa prova já tivesse sido feita, centenas de homens que andam agora livremente passeando pelas ruas já há muito que estariam pagando pêlos seus crimes.

— É mesmo? — murmurei.

— Muitos processos por homicídio esbarram continuamente nesse ponto. Às vezes um homem torna-se suspeito quando já decorreram meses após o crime. As suas roupas são examinadas e nelas se encontram manchas pardacentas. Serão manchas de sangue, de lama, de ferrugem, de fruta, ou de quê? Eis aí uma pergunta que tem intrigado mais de um perito. E por quê? Simplesmente porque não havia nenhuma prova de laboratório que fosse irrefutável. Agora temos a “reação Sherlock Holmes”, e acabaram-se todas as dificuldades.

Com os olhos quase cintilantes, levou a mão ao peito e fez uma reverência, como se agradecesse o aplauso de uma multidão imaginária.

— Meus parabéns — disse eu, muito surpreso ante o seu entusiasmo.

— No ano passado, em Frankfurt, houve o caso de Von Bischoff. Ele não teria escapado à forca, se já houvesse esta reação. E houve também Mason, em Bradford, e o famigerado Müller, e o Lefèvre de Montpeilier, e Samson, de Nova Orléans. Poderia enumerar toda uma série de casos nos quais essa prova teria sido decisiva.

— Você parece uma enciclopédia ambulante do crime — disse Stamford rindo. — Está habilitado a fundar um jornal dedicado ao assunto. Chame-o de Notícias Policiais do Passado.

— E seria uma leitura muito interessante — observou Sherlock Holmes, pondo um pequeno esparadrapo na picada que fizera no dedo. — Preciso precaver-me — explicou, voltando-se para mim com um sorriso —, pois lido continuamente com venenos.

Assim falando, estendeu a mão; notei que estava toda sarapintada de esparadrapos semelhantes, e descorada pela ação de ácidos fortes.

— Viemos aqui a negócios — disse Stamford, sentando-se num tripé e empurrando outro para mim. — O meu amigo está à procura de aposentos; e como você andava se queixando de que não encontrava ninguém com quem dividir as despesas, achei que convinha apresentá-los um ao outro.

Sherlock Holmes pareceu encantado com a idéia de alugarmos aposentos em comum.

— Estou interessado num apartamento da Baker Street — disse ele. — Seria ótimo para nós. Espero que você não se incomode com o cheiro do tabaco forte.

— Eu fumo sempre tabaco de marinheiro — respondi.

— Tanto melhor. Geralmente tenho em casa produtos químicos, e às vezes faço experiências. Isso o incomoda?

— De forma alguma.

— Deixe-me ver quais são os meus outros defeitos… De vez em quando fico de mau humor e não abro a boca durante dias inteiros. Não pense que estou zangado, quando isso acontecer. Esqueça-se de mim, e eu em breve estarei recomposto. E você, que tem a confessar? É muito conveniente que dois sujeitos, antes de irem morar juntos, conheçam as suas piores características.

Ri daquele interrogatório.

— Tenho um filhote de cão fila — disse eu —, e oponho-me a qualquer barulho porque os meus nervos estão abalados. Levanto-me a horas absurdas e sou terrivelmente preguiçoso. Tenho outra série de vícios quando estou de boa saúde, mas atualmente esses são os principais.

— Inclui o som de violino na categoria dos barulhos? — perguntou ele com certa ansiedade.

— Depende de quem o toca — respondi. — Um violino bem tocado é uma melodia para os deuses, mas quando é arranhado…

— Isso basta — disse Holmes, interrompendo-me com uma risada jovial. — Acho que podemos considerar o assunto resolvido… Isto é, se os aposentos lhe agradarem.

— Quando os veremos?

— Procure-me aqui amanhã ao meio-dia, e iremos juntos para tratar de tudo.

— Perfeitamente… ao meio-dia em ponto — disse eu, apertando-lhe a mão.

Nós o deixamos trabalhando com os seus produtos químicos e voltamos a pé para o meu hotel.

— A propósito — perguntei de repente, detendo-me e olhando para Stamford —, como diabo soube ele que eu tinha vindo do Afeganistão?

O meu companheiro sorriu enigmaticamente.

— Essa é precisamente uma das suas pequenas particularidades — disse ele. — Muitos outros têm desejado saber como é que ele descobre as coisas.

— Oh! Trata-se de um mistério, não? — exclamei, esfregando as mãos. — Muito interessante. Não sei como lhe agradecer essa excelente apresentação. Você não ignora que o homem é o melhor assunto a estudar.

— Pois comece a estudá-lo — disse Stamford, ao despedir-se de mim. — Encontrará nele um problema bastante intrincado. Aposto que ele há de descobrir mais coisas a seu respeito do que você a respeito dele. Até a vista, Watson.

— Até a vista — respondi, e entrei no hotel grandemente interessado no meu novo conhecido.

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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