Um estudo em vermelho – Primeira parte, Capítulo 3

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Primeira parte: Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo terceiro: O mistério de Lauriston Gardens

Confesso que fiquei bastante desconcertado ante aquela nova prova quanto à utilidade prática das teorias do meu companheiro. O meu respeito pelas suas faculdades analíticas aumentou enormemente. Todavia, ainda me restava no espírito a desconfiança de que aquilo poderia ter sido arranjado previamente a fim de me deslumbrar, embora eu não pudesse atinar por que motivo ele se daria ao trabalho de assim comprovar as suas asserções. Quando tornei a olhar para ele, tinha terminado a leitura da carta. Seus olhos, vagos e mortiços, indicavam que estava absorto em meditação.

— Como diabo pôde deduzi-lo? — perguntei.

— Deduzir o quê? — disse ele com um tom irritado.

— Ora, que o homem era sargento aposentado da marinha.

— Não tenho tempo para futilidades — respondeu bruscamente. Depois, com um sorriso, acrescentou: — Desculpe-me a brusquidão. Você interrompeu o fio dos meus pensamentos; mas talvez fosse melhor assim. Então não percebeu que o homem era sargento da marinha?

— Não.

— Pois era mais fácil sabê-lo do que explicar agora por que motivo eu o sabia. Se lhe pedissem para provar que dois e dois são quatro, talvez encontrasse alguma dificuldade, e apesar disso estaria certo de que não se enganava. Até do alto da nossa janela se via, na calçada em frente, que o homem tinha uma grande âncora azul tatuada nas costas da mão. Isso, de certo modo, cheirava a maresia. Tinha, além disso, um porte militar e as suíças típicas da marinha. Tratava-se, evidentemente, de um marujo. Possuía, ainda, um certo ar de importância, de quem está habituado a comandar. Você deve ter observado o aprumo com que ele mantinha a cabeça e o modo de manobrar a bengala. No rosto, via-se que era um homem respeitável, decidido e maduro… fatos esses que me levaram a crer que tivesse sido sargento das forças navais.

— Extraordinário! — exclamei.

— Banal — disse Holmes, mas a sua expressão parecia indicar-me que a minha evidente surpresa e minha admiração lhe eram agradáveis. — Ainda há pouco eu lhe dizia que já não há crimes. Agora parece-me que estava enganado… veja isto!

E passou-me a carta que o estafeta acabara de lhe trazer.

— Com os diabos! — exclamei ao correr os olhos pelo papel. — É horrível!

— Parece um pouco fora do comum — observou ele calmamente. — Peço-lhe que leia alto, para eu ouvir.

Eis a carta que li a seguir:

“Estimado sr. Holmes:

Esta noite aconteceu um fato grave no número 3 de Lauriston Gardens, nas proximidades da Brixton Road. O nosso guarda, cerca das duas da madrugada, viu ali uma luz e, como a casa está desabitada, suspeitou que houvesse algo de anormal. Encontrou a porta aberta e, na sala da frente, inteiramente vazia, topou com o cadáver de um homem bem-vestido, cujos cartões de visita, encontrados num dos bolsos, traziam o nome de ‘Enoch J. Drebber, Cleveland, Ohio, EUA’. Não houve roubo, e não há nenhum indício da maneira como o homem encontrou a morte. Há sinais de sangue na sala, mas o cadáver não apresenta nenhum ferimento. Não podemos compreender como foi parar naquela casa vazia; em suma, todo o assunto é um verdadeiro enigma. Se o amigo puder dar um pulo à casa de Lauriston Gardens antes das doze horas, lá me encontrará. Deixei tudo tal e qual foi encontrado, à espera da sua chegada. Se não puder vir, mandar-lhe-ei todos os pormenores, e ficarei imensamente grato se quiser favorecer-me com a sua opinião.

Cordialmente

Tobias Gregson”.

— Gregson é o melhor elemento da Scotland Yard — observou o meu amigo. — Ele e Lestrade são os únicos que valem alguma coisa no meio de toda aquela turbamulta. São rápidos e enérgicos, mas têm métodos convencionais… terrivelmente convencionais. Além disso, há entre eles uma grande rivalidade profissional. O caso promete ser muito divertido, se ambos forem designados para resolvê-lo.

Espantava-me a calma com que ele se detinha nesses pormenores.

— Por certo não há um momento a perder! — exclamei. — Desço para lhe chamar um carro?

— Não estou muito certo se irei. Sou o mais incurável preguiçoso na face da Terra… isto é, quando me falta disposição, porque às vezes posso ser muito ativo.

— Mas se é esta justamente a oportunidade que você esperava!

— Meu caro amigo, que importância terá esse assunto para mim? Supondo-se que eu consiga desvendar tudo, fique certo de que o mérito irá todo para Gregson, Lestrade e companhia. É o que acontece a um detetive particular.

— Mas ele pede o seu auxílio.

— Sim, é verdade. Sabe que eu sou superior a ele e reconhece-o perante mim, mas cortaria a língua antes de confessá-lo a uma terceira pessoa. Contudo, bem podemos dar uma olhadela. Esclarecerei a coisa à minha maneira. E, quanto mais não seja, podemos rir deles. Vamos!

Enfiou o sobretudo e pôs-se a andar pela sala, demonstrando, pelos seus modos, que um acesso de energia acabava de substituir o de apatia.

— Pegue o seu chapéu — disse ele.

— Deseja que eu também vá?

— Sim, se não tem nada melhor a fazer.

Um minuto depois estávamos numa carruagem, correndo a trote largo para a Brixton Road.

Era uma manhã úmida, e uma neblina escura, que parecia o reflexo da superfície lamacenta das ruas, pairava acima dos telhados. O meu companheiro mostrava a melhor das disposições, tagarelando sobre violinos de Cremona e explicando a diferença entre um Stradivarius e um Amati. Quanto a mim, não dizia palavra, pois o mau tempo e o assunto melancólico que nos chamava me deprimiam o espírito.

— Parece-me que o caso que temos em mãos não o preocupa muito — disse eu finalmente, interrompendo a dissertação musical de Holmes.

— Ainda não há dados — respondeu-me. — É um erro capital teorizar antes de possuir todos os indícios. Isso distorce o raciocínio.

— Pois já vai ter todos os dados — observei-lhe, apontando com o indicador. — Esta é a Brixton Road, e aquela é a casa, se não estou enganado.

— É verdade. Pare, cocheiro, pare!

Ainda estávamos a uma centena de metros de distância, mas ele insistiu em descer ali mesmo. Fizemos o resto do caminho a pé.

A casa número 3 de Lauriston Gardens tinha um aspecto agourento e ameaçador. Juntamente com outras três, ficava um pouco recuada: duas delas estavam ocupadas e duas, vazias. Nestas últimas, duas filas de janelas, tristes e abandonadas, olhavam para a rua como outros tantos olhos vagos e mortiços, exceto nas vidraças turvas em que um papel com o “Aluga-se” fazia o efeito de uma catarata. Um pequeno jardim, salpicado aqui e ali de plantas mirradas, separava da calçada cada uma das quatro construções, e era atravessado por uma vereda estreita, amarelada, que parecia uma mistura de saibro e argila. Todo o terreno estava muito mole em conseqüência da chuva caída durante a noite. O jardim era fechado por um pequeno muro, com cerca de um metro de altura, rematado por grades de madeira. Apoiado a esse muro via-se um bravo policial, rodeado por um grupo de desocupados, que espichavam o pescoço e aguçavam o olhar na vã esperança de ver o que acontecia no interior da casa.

Eu imaginara que Sherlock Holmes, logo ao chegar diante da casa, entrasse rapidamente a fim de esclarecer o mistério. Nada, porém, parecia mais longe da sua intenção. Com um ar indiferente, que, naquelas circunstâncias, raiava a afetação, pôs-se a passear de cá para lá pela calçada, olhando distraidamente o chão, o céu, as casas vizinhas e a linha das grades de madeira. Terminado esse escrutínio, avançou lentamente pela vereda, ou antes pela faixa de grama que a flanqueava, sempre com os olhos pregados no chão. Duas vezes se deteve, e numa delas vi-o sorrir com uma exclamação satisfeita. Havia muitas pegadas no solo úmido e argiloso; mas como a polícia tinha andado por ali, eu não via de que maneira o meu companheiro poderia deduzir qualquer coisa à vista delas. Não obstante, após a recente e extraordinária prova da rapidez das suas faculdades perceptíveis, não duvidei de que pudesse ver muitas coisas invisíveis para mim.

À porta da casa, fomos recebidos por um homem de tez muito branca, ruivo, com um caderno de anotações na mão, que se precipitou apertando efusivamente a mão do meu companheiro.

— Foi muita bondade sua ter vindo — disse ele. — Deixei tudo intacto.

— Com exceção disto! — respondeu o meu amigo, apontando para a vereda. — Se uma manada de búfalos tivesse passado por aí, não ficaria em pior estado. Mas, sem dúvida, você já tinha tirado as suas conclusões, Gregson, antes de ter permitido tal coisa.

— Tive muito o que fazer dentro da casa — disse evasivamente o detetive. — O meu colega, o sr. Lestrade, também está aqui. Calculei que ele cuidasse disso.

Holmes relanceou-me os olhos e ergueu ironicamente as sobrancelhas.

— Com dois homens como você e Lestrade na pista, não haverá muito o que fazer para um terceiro.

Gregson esfregou as mãos com ar satisfeito.

— Creio que já fizemos tudo o que devia ser feito — respondeu ele. — Contudo, é um caso estranho, e sei que é esse o seu gênero preferido.

— Você veio de carruagem? — perguntou Sherlock Holmes.

— Não.

— Nem Lestrade?

— Não.

— Então vamos dar uma olhadela pela sala.

E com essa observação inconseqüente o meu companheiro penetrou na casa, seguido por Gregson, cujas feições exprimiam espanto.

Um pequeno corredor, de soalho nu e empoeirado, levava à cozinha e às peças de serviço. Havia nele duas portas, uma para a direita e outra para a esquerda. Uma delas estava evidentemente fechada havia muitas semanas. A outra dava para a sala de jantar, onde havia ocorrido o fato misterioso. Holmes entrou, e eu o acompanhei com o sentimento de respeito que a presença da morte sempre inspira. Era uma ampla sala retangular, que a ausência de mobília tornava ainda maior. Um papel vulgar, de cores gritantes, revestia as paredes, mas aqui e ali estava manchado de bolor e, em alguns pontos, pendia em longas tiras, deixando à mostra o reboco amarelado. Diante da porta havia uma lareira pretensiosa, cuja escarpa imitava o mármore branco. Num dos lados dela havia um toco de vela de cera vermelha. A única janela existente estava tão suja que a luz era brumosa e incerta, dando a tudo um tom cinzento, a não ser a espessa camada de poeira que cobria o aposento.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

Todos esses pormenores eu observei mais tarde. Inicialmente, a minha atenção concentrou-se na figura inerte e macabra que jazia estendida no soalho e olhava para o teto desbotado com olhos vazios e sem vida. Era um homem de quarenta e três ou quarenta e quatro anos, de estatura mediana, ombros largos, cabelos pretos e crespos, barba curta e pontuda. Vestia fraque e colete de uma fazenda pesada, calças claras, e os punhos e o colarinho eram imaculadamente brancos. Um chapéu alto, bem-cuidado, estava caído no chão, a seu lado. O homem tinha os punhos cerrados e os braços abertos, ao passo que os membros inferiores, pela posição retorcida, pareciam indicar que a agonia fora muito penosa. No rosto hirto havia uma expressão de horror e, ao que me parecia, de ódio, como jamais vi num semblante humano. Aquela contração malévola e terrível, aliada à testa baixa, ao nariz chato e ao queixo saliente do morto, davam-lhe um aspecto singularmente simiesco, ainda mais acentuado pela sua postura contorcida e fora do natural. Já vi a morte sob muitas formas, mas nunca a encontrei com tão medonho aspecto como naquela sala escura e macabra, que dava para uma das principais artérias suburbanas de Londres.

Lestrade, com o seu habitual ar de furão, estava junto da porta, e cumprimentou ao meu companheiro e a mim.

— Este caso vai dar o que falar — observou ele. — Bate todos os precedentes que conheço… e não nasci ontem.

— Há algum indício? — perguntou Gregson.

— Absolutamente nenhum — respondeu Lestrade.

Sherlock Holmes aproximou-se do cadáver e, ajoelhando-se, examinou-o atentamente.

— Estão certos de que não há qualquer ferimento? — perguntou ele, apontando para as inúmeras manchas e salpicos de sangue que se viam em torno.

— Certíssimos! — responderam em coro os dois investigadores.

— Então é evidente que este sangue pertence a um segundo indivíduo… provavelmente ao assassino, se é que foi assassinato. Isso me recorda as circunstâncias que rodearam a morte de Van Jansen, em Utrecht, no ano de 1834. Lembra-se do caso, Gregson?

— Não, senhor.

— Pois leia-o… é do seu interesse. Não há nada de novo debaixo do sol. Tudo já foi feito antes.

Enquanto falava, os seus dedos ágeis iam correndo por aqui e ali, tateando, apertando, desabotoando, examinando, ao passo que os seus olhos mostravam aquela mesma expressão distante que já mencionei. O exame foi realizado com tamanha rapidez que ninguém o teria adivinhado tão minucioso. Finalmente, cheirou os lábios do morto, e depois olhou para os seus sapatos de verniz.

— Não mexeram nele? — perguntou.

— Apenas o suficiente para examiná-lo.

— Então podem levá-lo para o necrotério — concluiu Holmes. — Não há mais nada que ver.

Gregson tinha quatro homens com uma padiola à espera. Logo que os chamou, entraram na sala e levaram o cadáver do desconhecido. Quando o levantaram, um anel caiu no chão e rolou pelo soalho. Lestrade apanhou-o, rápido, e ficou fitando-o de olhos arregalados.

— Esteve aqui uma mulher! — exclamou ele. — Isto é uma aliança de mulher!

Dizendo isso, mostrava-a na palma da mão. Reunimo-nos todos em volta dele e olhamos para o anel. Sem dúvida alguma aquela simples argola de ouro já adornara o anelar de uma noiva.

— Isto complica o assunto — disse Gregson. — E sabe Deus que já era bastante complicado.

— Está certo de que não o simplifica? — observou Holmes. — De nada nos valerá ficarmos a contemplá-lo. O que encontrou nos bolsos?

— Temos tudo aqui — disse Gregson, apontando para alguns objetos, num dos últimos degraus da escada. — Um relógio de ouro, número 97163, da Casa Barraud, de Londres. Uma corrente de ouro maciço. Um anel de ouro com o símbolo maçónico. Um pregador de ouro em forma de cabeça de buldogue com olhos de rubi. Um estojo de couro da Rússia com os cartões de visita de Enoch J. Drebber, de Cleveland, o que combina com as iniciais E. J. D. encontradas na roupa-branca. Nenhuma carteira, dinheiro espalhado pelos bolsos, somando sete libras e treze xelins. Uma edição de bolso do Decamerão, de Boccaccio, com o nome de Joseph Stangerson no frontispício. Duas cartas… uma dirigida a E. J. Drebber e outra a Joseph Stangerson.

— Qual o endereço?

— American Exchange, Strand, Londres, para serem entregues quando procuradas pêlos destinatários. Ambas provêm da Companhia de Navegação Guion, e referem-se à partida dos seus vapores de Liverpool. É claro que o pobre diabo se dispunha a regressar a Nova York.

— Fez algumas indagações sobre esse tal Stangerson?

— Assim que cheguei — respondeu Gregson. — Mandei pôr anúncios em todos os jornais, e um dos meus homens foi até o American Exchange, mas ainda não voltou.

— Pediu informações a Cleveland?

— Telegrafamos esta manhã.

— Em que termos?

— Expusemos simplesmente as circunstâncias, dizendo que agradeceríamos quaisquer informações disponíveis.

— Não pediu pormenores sobre qualquer ponto especial, sobre algo que lhe parecesse importante?

— Solicitei informações sobre Stangerson.

— Nada mais? Não há nenhuma circunstância sobre a qual este caso lhe pareça repousar? Não vai telegrafar novamente? — insistiu Holmes.

— Já disse tudo o que tinha a dizer — replicou Gregson, em tom ofendido.

Sherlock Holmes riu consigo mesmo, parecendo prestes a fazer uma observação, quando Lestrade, que ficara na sala da frente enquanto conversávamos no corredor, entrou em cena, esfregando as mãos com ar satisfeito e pomposo.

— Sr. Gregson — disse ele. — Acabo de descobrir algo muitíssimo importante, e que passaria despercebido se eu não tivesse procedido a um minucioso exame das paredes.

Os olhos do homenzinho cintilavam. Evidentemente, exultava por ter lavrado um tento contra o seu colega.

— Venham — disse ele, voltando apressadamente para a sala, cuja atmosfera parecia aliviada pós a remoção do seu macabro inquilino. — Fiquem agora onde estão.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

Riscou um fósforo na sola do sapato e ergueu-o contra a parede.

— Vejam isto! — anunciou, triunfante.

Já observei que o papel que forrava as paredes estava rasgado e pendente em vários lugares. Naquele canto da sala faltava um largo pedaço, e havia um retângulo de reboco amarelo a descoberto. Nesse espaço desnudado via-se, garatujada com sangue, uma única palavra:

RACHE

— Que pensa disso? — perguntou o funcionário, com o ar de um pregoeiro que anuncia o espetáculo de sua barraca. — Não havíamos reparado porque estava no canto mais escuro da sala, e ninguém pensou em olhar para cá. O assassino, ou a assassina, escreveu esta palavra com o próprio sangue. Vejam esta mancha que escorreu pela parede! Seja como for, isto anula a hipótese de suicídio. E por que foi escolhido este canto? Vou lhes dizer. Vejam esta vela sobre a lareira. Estava acesa naquele momento, e, sendo assim, este canto seria a parte mais iluminada e não a mais escura da sala.

— E que significam essas letras, agora que as encontrou? — perguntou Gregson em tom depreciativo.

— Que significam? Ora, que alguém ia escrever o nome Rachel quando foi interrompido, ou interrompida, antes de terminar. Guardem o que lhes digo: quando este caso for esclarecido, verificarão que uma mulher chamada Rachel está ligada a ele. O senhor pode rir como quiser, sr. Sherlock Holmes, Pode ser muito astuto e penetrante, mas um velho cão de caça, afinal de contas, tem melhor faro.

— Peço-lhe humildemente perdão! — disse o meu companheiro, que havia irritado o homenzinho com a sua explosão de riso. — Sem dúvida alguma, cabe-lhe o mérito de ter sido o primeiro a ver essa inscrição, que, conforme observou justamente, tem toda a aparência de ter sido obra do outro participante deste mistério noturno. Eu ainda não tinha tido tempo de examinar esta sala, mas, com a sua permissão, fá-lo-ei agora,

Assim falando, tirou de súbito uma fita métrica e uma grossa lente de aumento que trazia no bolso. Armado desses dois instrumentos, começou a andar rápida e silenciosamente pela sala, detendo-se às vezes, ajoelhando-se de quando em quando, e, em dados momentos, estendendo-se a todo o comprimento no soalho. Tão embebido se achava nessas ocupações, que parecia esquecido da nossa presença, pois não cessava de falar sozinho, a meia voz, soltando toda uma série de exclamações, resmungos, assobios e pequenos gritos, que pareciam de júbilo e esperança. Ao observá-lo, foi-me impossível deixar de compará-lo a um cão de caça bem ensinado e de puro-sangue quando corre de cá para lá atrás da presa, ganindo de ansiedade, até que encontra o rastro certo. Durante vinte minutos ou mais, continuou as suas investigações, medindo com o máximo cuidado as distâncias entre marcas inteiramente invisíveis para mim, e ocasionalmente aplicando o seu metro à parede, de maneira também incompreensível. Num determinado ponto, recolheu cuidadosamente um montículo de poeira cinzenta e guardou-a num envelope. Finalmente, examinou com a sua lente a palavra escrita na parede, verificando cada letra com o maior rigor. Feito isso, pareceu dar-se por satisfeito, e meteu no bolso a lente e a fita métrica.

— Dizem que o gênio não é mais que uma infinita paciência — observou ele com um sorriso. — E uma péssima definição, mas aplica-se perfeitamente ao trabalho de um detetive.

Gregson e Lestrade haviam observado aquelas manobras do seu colega amador com muita curiosidade e certo desprezo. Era evidente que não podiam compreender o fato de que os menores gestos de Sherlock Holmes, conforme eu começava a perceber, tinham em mira alguma coisa prática e definida.

— Qual é a sua opinião? — perguntaram-lhe ambos.

— Seria roubar-lhes o mérito das pesquisas, se eu pretendesse ajudá-los — observou o meu amigo. — Estão fazendo tantos progressos que a interferência de alguém seria lamentável — acrescentou com imensa ironia. — Se tiverem a bondade de pôr-me ao corrente das suas investigações — continuou Holmes —, terei a maior satisfação em prestar-lhes todo o auxílio ao meu alcance. Entretanto, gostaria de falar com o policial que encontrou o corpo. Podem dar-me o seu nome e endereço?

Lestrade consultou seu caderno de anotações.

— John Rance — disse ele. — Está de folga agora. Poderá encontrá-lo no 46 da Audley Court, em Kennington Park Gate.

Holmes tomou nota do endereço.

— Venha, doutor — disse ele. — Vamos nos encontrar com Rance. Posso dizer-lhes uma coisa que talvez os ajude neste caso — continuou ele, voltando-se para os dois investigadores. — Aqui houve um assassinato, e o autor do crime foi um homem. Ele tem mais de um metro e oitenta de altura, ainda é relativamente jovem, usa sapatos um tanto grosseiros, de bico quadrado, e, quando chegou aqui, fumava um charuto Trichinopoly. Veio a esta casa com a sua vítima, numa carruagem de quatro rodas, puxada por um cavalo com três ferraduras velhas e uma nova, na pata dianteira esquerda. Com toda a certeza, o assassino tem o rosto vermelho e as unhas da mão direita bastante compridas. São apenas algumas indicações, mas talvez possam servir-lhes.

Lestrade e Gregson entreolharam-se com um sorriso incrédulo.

— Se o homem foi assassinado, com que teria sido? — perguntou o primeiro.

— Veneno — respondeu Sherlock Holmes laconicamente, e encaminhou-se para a porta. — Outra coisa, Lestrade — acrescentou, voltando-se para dentro da sala: — “Rache” significa “vingança” em alemão, e por isso não perca tempo em procurar a jovem Rachel.

E com essa rajada final se afastou, deixando os dois rivais boquiabertos.

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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