Um estudo em vermelho – Primeira parte, Capítulo 5

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Primeira parte: Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo quinto: Nosso anúncio traz um visitante

A atividade da manhã fora demasiado intensa para a minha saúde, e a tarde encontrou-me exausto. Depois que Holmes saiu para o concerto, estendi-me no sofá e procurei dormir algumas horas. Inútil tentativa! Tudo o que acontecera tinha de tal modo estimulado a minha mente que ela agora estava povoada pelas mais estranhas hipóteses e fantasias. Cada vez que fechava os olhos, via diante de mim o rosto contraído e simiesco do homem assassinado. Tão sinistra impressão me causara essa face, que eu tinha dificuldade em sentir outra coisa senão gratidão por aquele que a suprimira deste mundo. Se alguma vez as feições humanas já denunciaram o vício sob o seu pior aspecto, foi certamente no rosto de Enoch J. Drebber, de Cleveland. Contudo, eu admitia que era necessário fazer justiça, e que a depravação da vítima não constituía uma atenuante perante os olhos da lei.

Quanto mais eu pensava nisso, mais extraordinária me parecia a hipótese, formulada pelo meu companheiro, de que o homem fora envenenado. Lembrava-me bem de como ele lhe cheirara os lábios, e não tinha dúvidas de que Holmes sentira qualquer coisa que lhe inspirara semelhante idéia. Por outro lado, se não fosse o veneno, que mais poderia ter causado a morte do homem, visto que não havia ferimentos nem sinais de estrangulamento? Ainda assim, de quem era o sangue que tão profusamente manchava o soalho? Não havia indícios de luta, nem a vítima possuía qualquer arma com a qual tivesse ferido o seu antagonista. Enquanto essas perguntas continuassem sem resposta, parecia-me que nem Holmes nem eu poderíamos conciliar o sono.

As suas maneiras tranqüilas e confiantes asseguravam-me que ele já havia elaborado uma teoria que explicava todos os fatos, embora eu de forma alguma pudesse conjecturar qual fosse.

Ele regressou muito tarde… tão tarde que só o concerto não bastava para explicar semelhante demora, O jantar estava na mesa antes que ele tivesse aparecido.

— Foi magnífico — disse ele ao sentar-se. — Lembra-se do que diz Darwin a respeito da música? Afirma que a capacidade de produzi-la e apreciá-la existia no gênero humano muito antes da faculdade da linguagem. Talvez seja por esse motivo que ela exerce em nós uma influência tão sutil. Deve haver em nossas almas vagas memórias desses séculos nevoentos em que o mundo estava na sua infância.

— Ë uma idéia um tanto vasta — observei.

— As nossas idéias devem ser tão vastas quanto a natureza, se quisermos interpretá-la — sentenciou Holmes. — Mas que acontece? Você não parece o mesmo. Estará perturbado com esse caso da Brixton Road?

— Para falar a verdade, estou. Depois das minhas experiências  no Afeganistão, eu deveria ser menos sensível. Vi os meus camaradas serem massacrados na Batalha de Maiwand, e não perdi a calma.

— Compreendo perfeitamente. No caso presente há um mistério que estimula a imaginação; onde não há imaginação há horror. Já viu o jornal da tarde?

— Não.

— Traz uma notícia bastante pormenorizada sobre o ocorrido. Não menciona, porém, o fato de que, ao erguerem homem, caiu no chão uma aliança de mulher. Tanto melhor.

— Por quê?

— Veja este anúncio — disse ele à guisa de resposta. — Esta manhã, imediatamente após o fato, mandei publicá-lo em todos os jornais.

Atirou-me o jornal por cima da mesa, e eu relanceei os olhos pelo lugar indicado. Era o primeiro anúncio da seção de Objetos Achados. Dizia:

“Na Brixton Road, esta manhã, foi encontrada uma aliança de ouro no caminho entre a White Hart Tavern e Holland Grove. Procurar o dr. Watson, Baker Street, 221-B, entre oito e nove horas desta noite.”

— Desculpe-me por ter usado seu nome — disse ele. — Se tivesse posto o meu, qualquer desses policiais tontos seria capaz de reconhecê-lo e querer se intrometer no assunto.

— Não tem importância — respondi-lhe. — Mas, se aparecer alguém, não terei qualquer anel a entregar.

— Terá, sim — redargüiu ele, passando-me uma aliança de ouro. — Esta servirá perfeitamente. É quase uma réplica da verdadeira.

— E quem você espera que venha buscá-la?

— Ora, o homem do sobretudo castanho… o nosso rubicundo amigo de sapatos de bicos quadrados. Se ele não vier em pessoa, mandará um cúmplice.

— Será que ele não vai achar perigoso?

— De modo algum. Se a minha reconstrução dos fatos for exata, e tenho todas as razões para acreditar que assim seja, esse homem preferirá correr qualquer risco a perder o anel. Segundo penso, ele o deixou cair ao inclinar-se sobre o corpo de Drebber, e só depois é que deu pela sua falta. Após deixar a casa, viu que o tinha perdido, voltou apressadamente e topou com a polícia já no local, devido à sua rematada tolice de ter deixado a vela acesa. Teve de fingir- se de bêbado a fim de evitar as suspeitas que a sua presença no portão poderia causar. Ponha-se agora no lugar desse homem. Ao refletir sobre o assunto, deve ter-lhe ocorrido que talvez houvesse perdido o anel na rua, depois de sair da casa. Que deve ter feito ele então? Procurado sofregamente os jornais da tarde, na esperança de vê-lo entre os objetos achados. Sem dúvida os seus olhos brilharam ao ver isto. Por que temeria ele uma armadilha? A seu ver não haveria nenhuma razão ligando o anel encontrado ao crime. Nada o impediria de vir, como aliás virá. Dentro de uma hora tê-lo-emos aqui.

— E depois?

— Oh! Deixe, que eu me encarrego de falar com ele. Tem armas?

— Tenho o meu velho revólver de serviço e alguns cartuchos.

— É melhor limpá-lo e carregá-lo. O homem deve estar desesperado; e, mesmo que eu o apanhe de surpresa, convém estar preparado para o que der e vier.
Fui até o meu quarto e segui o seu conselho. Quando voltei com o revólver, a mesa já fora arranjada, e Holmes estava entregue à sua ocupação favorita, arranhando as cordas do violino.

— Os acontecimentos se precipitam — disse ele. — Acabo de receber a resposta ao meu telegrama para a América. A minha opinião sobre o caso estava certa.

— E qual é?

— O meu violino está precisando de cordas novas — observou ele, sem me responder. — Ponha o seu revólver no bolso. Quando o sujeito chegar, fale normalmente com rk. Deixe o resto comigo Não o assuste com um olhar imito fixo.

— São oito horas — disse eu, olhando para o meu relógio.

— Sim. Provavelmente estará aqui dentro de poucos minutos. Deixe a porta entreaberta. Assim. Agora ponha a chave por dentro. Muito obrigado. Já viu este livro? E um volume curioso, que encontrei ontem numa prateleira. De jure inter gentes… publicado em latim, em Liège, nos Países Baixos, em 1642. Carlos I ainda tinha a cabeça no lugar quando este livrinho de lombada marrom foi impresso.

— Quem é o impressor?

— Filipe de Croy.. . um nome que nunca ouvi. No frontispício , em tinta quase apagada, lê-se: “Ex libris Gulielmi Whyte”. Quem terá sido esse Gulielmi Whyte? Algum jurisconsulto do século XVII, suponho. A letra tem um formato oficial. Mas aí vem o nosso homem, se não me engano.

Enquanto ele falava, soou fortemente a campainha. Sherlock Holmes levantou-se sem ruído e colocou a sua cadeira diante da porta. Ouvimos a criada passar pelo corredor o estalido seco do trinco.

— O dr. Watson mora aqui? — perguntou uma voz clara mas um tanto áspera. Não pudemos ouvir a resposta lia criada, mas a porta se fechou e alguém começou a subir as escadas. Os passos eram incertos e arrastados. Uma expressão de surpresa assomou ao rosto do meu companheiro, ao escutá-los. Os passos se aproximaram lentamente pelo corredor, e seguiu-se uma leve pancada na porta.

— Entre — gritei.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

A esse convite, em lugar do homem violento que esperávamos, uma velha encarquilhada entrou manquejando no aposento. Parecia ofuscada pela brilhante luz da sala, e, depois de fazer uma curvatura desajeitada, ficou piscando para nós os seus olhos turvos, remexendo nos bolsos com dedos trêmulos e nervosos. Olhei para o meu companheiro: o seu rosto mostrava agora uma expressão tão desconsolada que mal pude me manter sério.

A velha desembolsou finalmente um jornal vespertino e apontou para o nosso anúncio.

— Vim por causa disto, meus bons senhores — disse ela, fazendo outra reverência. — Uma aliança de ouro na Brixton Road. Pertence à minha filha Sally, que está casada só há doze meses, O marido é camareiro de um vapor da Union, e sabe lá o que irá dizer quando descobrir que ela no tem mais a aliança. Sóbrio, ele já não é muito delicado, mas quando bebe… Ontem à noite Sally foi ao circo com…

— E esta a aliança dela? — perguntei.

— Deus seja louvado! — exclamou a velhota. — Sally ficará muito contente esta noite. É essa mesma!

— E qual é o seu endereço? — perguntei, pegando um lápis.

— Duncan Street, 13, em Houndsditch. Fica muito longe daqui.

— Para ir de Houndsditch a qualquer circo que seja — observou Sherlock Holmes bruscamente —, não se passa pela Brixton Road.

A velha voltou-se e encarou-o penetrantemente com os seus olhinhos orlados de vermelho.

— Este senhor perguntou pelo meu endereço — disse ela. — SaIly mora numa pensão em Peckham. Fica em Mayfield Place, 3.

— Qual é o seu sobrenome?

— Sawyer… o dela é Dennis, depois que se casou com Tom Dennis. Ele é um bravo rapaz, muito decente, quando está trabalhando. Não há melhor camareiro na companhia. Mas em terra, com mulheres e bebidas…

— Eis aqui a sua aliança, sra. Sawyer — atalhei, obedecendo a um sinal do meu companheiro. — E evidente que pertence à sua filha, e tenho muito prazer em devolvê-la à legítima dona.

Mastigando bênçãos e protestos de gratidão, a velha meteu-a no bolso e arrastou-se escada abaixo. Sherlock Holmes pôs-se em pé no momento em que ela se retirou e precipitou-se para o seu quarto. Voltou poucos segundos depois, envolto no seu impermeável e com um cachecol no pescoço.

— Vou segui-la — anunciou ele rapidamente. — Ela é a cúmplice que me conduzirá ao homem. Espere-me.

A porta do corredor mal se fechara nas costas da nossa visitante, quando Holmes desceu as escadas. Da janela, avistei-a na calçada em frente, andando tropegamente e acompanhada a pouca distância pelo seu furtivo perseguidor.

“Ou toda a sua hipótese é incorreta”, pensei comigo, “ou ele vai ser levado ao âmago do mistério”.

Ele não precisava ter me pedido que o aguardasse, pois decerto eu não conseguiria dormir sem saber o resultado da sua aventura.

Eram quase nove horas quando saiu. Eu não fazia a menor idéia a respeito do tempo que levaria para voltar, nas enchi-me de paciência e sentei-me, fumando o meu cachimbo e folheando as páginas da Vie de bohème, de Henri Murger. Quando deram dez horas, ouvi os passos da criada, que se recolhia à cama. Às onze, reconheci as passadas mais dignas da senhoria, que tomava o mesmo destino. Era quase meia-noite quando ouvi o ruído seco de uma chave que girava na fechadura. No momento em que Holmes entrou, vi-lhe no rosto que não fora bem-sucedido. Hilaridade e pesar pareciam debater-se na sua fisionomia, até que a primeira venceu, e ele começou a rir sonoramente.

— Por nada deste mundo eu gostaria que os meus amigos da Scotland Yard soubessem o que aconteceu — disse ele, jogando-se numa poltrona. — Tenho zombado tanto deles que nunca mais deixariam de falar nisso. Posso dar-me ao luxo de rir porque sei que, no fim de contas, levarei a melhor.

— De que se trata, afinal? — perguntei.

— Oh! Não hesito em contar uma história pouco abonadora para mim. Aquela criatura não tinha andado muito quando começou a coxear e dar sinais de cansaço. Finalmente parou e chamou uma carruagem que passava. Consegui me aproximar o bastante para ouvir o endereço, mas poderia ter-me poupado essa sofreguidão, porque ela o gritou com voz suficiente para ser ouvida na calçada em frente. “Leve-me ao número 13 da Duncan Street, em Houndsditch”, disse ela. Achei que aquilo começava a parecer verdadeiro, e, após certificar-me de que ela entrara na carruagem, empoleirei-me na traseira. Essa é uma arte na qual todo detetive deveria se aprimorar. Muito bem. Lá fomos nós, sem parar, até a rua em questão. Saltei antes de chegarmos diante da porta, e comecei a descer a rua descansadamente. Vi a carruagem parar. O cocheiro desceu da boléia, abriu a porta e ficou à espera. Mas não saiu ninguém. Quando me aproximei dele, o homem estava examinando freneticamente o assento vazio, pronunciando a mais bela coleção de pragas que já ouvi. Não havia o menor sinal da sua passageira, e receio que passe muito tempo antes que ele receba o preço da corrida. Pedindo informações no número 13, soubemos que a casa pertencia a um respeitável tapeceiro chamado Keswick, e que ali ninguém ouvira falar em pessoas com o sobrenome de Sawyer ou Dennis.

— Não vai me dizer — exclamei, atônito — que aquela velha débil e trôpega foi capaz de saltar do carro em movimento, sem ser vista por você ou pelo cocheiro!

— Velha coisa nenhuma! — disse Sherlock Holmes asperamente. — Nós é que parecemos duas velhas fáceis de enganar. Deve ter sido um homem moço, muito desempenado, e excelente ator, O disfarce era perfeito. Ele sem dúvida reparou que estava sendo seguido e empregou aquele recurso para me despistar. Isso prova que o homem procurado por nós não é tão só quanto imaginei, tem amigos dispostos a arriscar-se por ele. Mas parece-me exausto, doutor. Aceite o meu conselho: vá para a cama.

Sentia-me realmente muito fraco, de forma que obedeci àquela ordem. Deixei Holmes sentado diante de um fogo bruxuleante, e, tarde da noite, eu ainda ouvia os gemidos abafados e melancólicos do seu violino, certo de que ele continuava a meditar sobre o estranho problema que se propunha resolver.

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock