Um estudo em vermelho – Segunda parte, Capítulo 2

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Segunda parte: A terra dos santos

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo segundo: A flor do Utah

Não é este o lugar para evocarmos as fadigas e privações sofridas pelos migrantes mórmons antes de chegarem ao seu paraíso final. Das margens do Mississípi aos flancos ocidentais das montanhas Rochosas, eles lutaram com uma constância quase sem precedentes na história. Homens e animais selvagens, fome, sede, cansaço e doenças… todos os obstáculos que a natureza podia lhes opor no caminho foram superados com a tenacidade anglo-saxônica. Todavia, a longa viagem e as terríveis emoções tinham debilitado os mais fortes deles. Não houve um só que não caísse de joelhos numa sentida prece quando avistaram o largo vale do Utah, inundado de sol, e ouviram dos lábios de seu chefe que aquela era a terra prometida, que aqueles hectares virgens seriam dos mórmons para todo o sempre.

Logo Brigham Young se revelou tão hábil administrador quanto chefe resoluto. Mapas e planos foram traçados para a construção da futura cidade. Por toda a redondeza, as terras foram divididas e doadas a cada um segundo a sua importância, Os comerciantes foram chamados aos seus negócios, os artesãos, aos seus labores. Na cidade, as ruas e praças surgiam como que por um passe de mágica. No campo, amanhava-se a terra, plantava-se e colhia-se, e já no verão seguinte toda a região se cobria do ouro das messes. Tudo prosperava na estranha colônia, e o grande templo que tinham erigido no centro da cidade tornava-se maior e mais alto. Dos primeiros alvores da manhã até as últimas luzes do crepúsculo, os golpes de martelo e o tinir das serras jamais silenciavam no monumento que os migrantes erguiam àquele que os havia conduzido sãos e salvos através de tantos perigos.

Os dois viajantes extraviados, John Ferrier e a menininha, que compartilhava da sua sorte e fora adotada como filha, acompanharam os mórmons até o fim da sua grande peregrinação. A pequena Lucy Ferrier deu-se bastante bem na carroça de Stangerson, um dos anciãos, em companhia das suas três mulheres e do seu filho, um cabeçudo e precoce menino de doze anos. Tendo-se refeito, com a elasticidade da infância, do golpe causado pela morte da mãe, logo se tornou a predileta das mulheres e habituou-se à sua nova vida naquela casa ambulante coberta de lona. Entretanto, Ferrier recuperara as forças e distinguia-se como um guia útil e um caçador infatigável. Tão rapidamente conquistou a estima dos seus novos companheiros, que, ao chegarem ao fim da sua jornada errante, foi determinado unanimemente que ele receberia um pedaço de terra tão grande e fértil quanto o de todos os outros pioneiros, com exceção do próprio Young e dos quatro anciões, que eram Stangerson, Kemball, Johnston e Drebber.

Na terra assim adquirida, John Ferríer construiu para si uma sólida casa de troncos de árvores, que foi sendo ampliada, nos anos sucessivos, até se transformar numa espaçosa vivenda. Ferrier tinha senso prático, habilidade manual, e sabia tratar dos negócios. Uma férrea constituição permitia-lhe trabalhar de sol a sol na lavra e melhoria de suas terras. Aconteceu então que a fazenda e tudo o que lhe pertencia prosperou grandemente. Em três anos, era o mais bem instalado dos seus vizinhos, em seis, era um homem de recursos, em nove, já estava rico, e, em doze, não havia em toda a Salt Lake City meia dúzia de colonos que pudessem rivalizar com ele. Do grande mar interior até as distantes montanhas Wasatch, não se sabia de nome mais conhecido do que o de John Ferrier.

Havia um ponto, e somente um, no qual ele feria as suscetibilidades dos seus correligionários. Nenhum argumento ou exortação jamais o tinham levado a estabelecer um harém, à maneira dos seus companheiros. Nunca explicara os motivos da sua obstinada recusa, contentando-se apenas em manter inflexivelmente a sua resolução. Alguns o acusavam de tibieza na religião que adotara, e outros lhe atribuíam essa relutância ao temor das despesas, fruto da sua sede de ouro, Ainda outros falavam de um velho amor, de uma moça loira que morrera na costa do Atlântico. Fosse qual fosse o motivo, Ferrier permanecia estritamente celibatário. Em tudo o mais ele seguia a religião da jovem comunidade, e gozava a reputação de homem reto e ortodoxo.

Lucy Ferrier cresceu na casa de troncos, e, quando maiorzinha, começou a ajudar o pai adotivo nos seus afazres. O ar puro das montanhas e o perfume balsâmico dos pinheiros fizeram-lhe as vezes de mãe e governante. Com o passar dos anos, foi se tornando mais alta, mais forte, de passo mais elástico e faces mais coradas. Muitos viajantes, ao passarem pela estrada que cortava os campos de John Ferrier, sentiam reviver na mente pensamentos havia muito esquecidos quando avistavam aquela delicada figura de menina-moça, correndo pelos trigais ou galopando no bravo cavalo do seu pai com a graça e a desenvoltura de uma verdadeira filha do oeste. Assim, o botão se transformou em flor, e o ano que viu o seu pai como o mais rico dos fazendeiros deixou-a uma jovem americana mais bela do que qualquer outra em toda a costa do Pacífico.

Não foi contudo o pai o primeiro a descobrir que a menina se tornara mulher. Raramente o é. A misteriosa transformação é demasiado sutil e gradativa para ser medida por datas. E muito menos a própria donzela o sabe, até que o tom de uma voz ou a pressão de uma mão lhe alvoroça o coração, e ela sente, com medo e orgulho, que uma nova e mais ampla natureza acaba de despertar dentro de si. Poucas são as que não se podem lembrar desse dia e evocar o pequeno incidente que lhes anunciou a aurora de uma nova vida. No caso de Lucy Ferrier, a ocasião foi em si mesma bastante séria, além da futura influência que teria nela e em muitas outras pessoas.

Era uma cálida manhã de junho, e os santos dos últimos dias trabalhavam como abelhas, cuja colméia, aliás, tinham escolhido como emblema. Nos campos e nas ruas ouvia-se o mesmo burburinho do labor humano. Pelas estradas poeirentas desciam longas filas de mulas sobrecarregadas, todas rumando para oeste, visto que a febre do ouro irrompera na Califórnia e o caminho terrestre passava pela cidade dos eleitos. Havia também rebanhos de ovelhas, manadas de bois que vinham das pastagens distantes e comitivas de migrantes cansados, de homens e cavalos igualmente exaustos pela longa jornada. Através de toda essa confusão, abrindo caminho com a habilidade de um consumado cavaleiro, galopava Lucy Ferrier, com o belo rosto afogueado pelo exercício e os compridos cabelos castanhos flutuando ao vento. Levava um recado do pai para a cidade, e corria a incumbir-se dele como já tantas outras vezes fizera, com todo o destemor da juventude, pensando apenas no que tinha a fazer e em como ia fazê-lo. Os aventureiros empoeirados fitavam-na atônitos, e até os índios impassíveis, envoltos nas suas peles, despertavam da costumeira apatia ao se maravilharem com a beleza da jovem cara-pálida.

Lucy chegava à entrada da cidade quando encontrou a estrada impedida por uma grande manada de bois, tangida por meia dúzia de vaqueiros de aspecto selvagem, vindos das planícies. Na sua impaciência em transpor aquele obstáculo, a moça tentou levar o cavalo por onde lhe parecia haver uma passagem. Mas, apenas o animal dera alguns passos, o gado fechou o estreito vão, e Lucy achou-se em pleno centro daquela torrente de bois de longos chifres e olhos em brasa. Habituada a lidar com o gado, não se alarmou com a situação, aproveitando todas as oportunidades para enfiar o cavalo, na esperança de abrir caminho pela manada. Infelizmente, os chifres de uma rês, por acaso ou não, colheram violentamente a ilharga do cavalo, assustando-o. O animal empinou-se com um relincho de dor e pôs-se a corcovear de tal modo, que teria arremessado da sela qualquer outro cavaleiro menos experimentado. A situação era perigosíssima. Cada cabriola do animal excitado o atirava novamente contra os chifres e exasperava-o ainda mais. A moça fazia tudo para se manter firme na sela, pois a menor escorregadela significaria uma morte horrível sob os cascos dos animais comprimidos e aterrorizados. Pouco afeita às emergências súbitas, ela já sentia a cabeça rodar e começava a afrouxar a rédea. Sufocada pela nuvem de poeira e pelo odor da manada suada e em disparada, teria abandonado os seus esforços se uma voz amiga não lhe indicasse, junto dela, que alguém viera em seu auxílio. No mesmo instante, uma mão bronzeada e musculosa segurou o cavalo assustado pelo freio e, abrindo caminho entre a manada, em pouco o livrava dela.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

— Espero que a senhora não esteja ferida — disse o seu salvador respeitosamente.

Ela fitou-lhe o rosto bronzeado e enérgico e riu desembaraçadamente.

— Levei um grande susto — confessou ingenuamente.

— Quem diria que Poncho se assustaria com meia dúzia de vacas.

— A sua sorte foi manter-se firme na sela — disse o outro em tom sério. Era um jovem alto, de aspecto rude, montado num vigoroso cavalo ruano, vestido de couro como um caçador e trazendo uma comprida carabina a tiracolo.

— Creio que é a filha de John Ferrier — observou ele. — Vi-a sair da casa dele a galope. Dê-lhe lembranças da parte de Jefferson Hope, de St. Louis. Se ele é o Ferrier que eu penso, foi muito amigo de meu pai.

— Por que não lhe pergunta o senhor mesmo?

O jovem pareceu comprazer-se com aquela proposta, pois os seus olhos negros brilharam de satisfação.

— Irei, com certeza — disse ele. — Mas passamos dois meses nas montanhas e não estamos em condições de fazer uma visita. Ele tem de nos aceitar como somos.

— O meu pai tem muito que lhe agradecer, e eu também — respondeu ela. — Se essa manada me espezinhasse, ele nunca mais seria o mesmo homem.

— Nem eu! — acrescentou o seu companheiro.

— O senhor? Não vejo motivo para isso… se nem ao menos é nosso amigo.

O rosto bronzeado do jovem caçador fez-se tão melancólico ante essa observação que Lucy Ferrier se pôs a rir.

— Ora — disse ela —, não tive a intenção de ofendê-lo. É claro que agora é nosso amigo. Venha nos visitar. Bem, tenho de ir andando, senão meu pai nunca mais me manda fazer nada. Até a vista.

— Até a vista — respondeu ele, tirando o seu largo chapéu e curvando-se sobre a mãozinha dela.

Lucy fez o seu cavalo rodopiar, chicoteou-o, e arremeteu pela vasta planície, em meio a uma nuvem de pó. O jovem Jefferson Hope continuou tangendo o gado com os seus companheiros. Ia sério e taciturno. Ele e os demais tinham estado nas montanhas de Nevada em busca de prata e voltavam agora para Salt Lake City esperando conseguir capital suficiente para explorar alguns veios que haviam descoberto. Tanto como os outros, ele só falava nesse assunto, mas agora aquele súbito incidente parecia ter desviado o rumo dos seus pensamentos. A vista da bela moça, tão franca e saudável como a brisa da serra, tinha revolvido profundamente o seu coração vulcânico e indômito. Quando ela desapareceu dos seus olhos, o jovem sentiu que a sua existência entrava numa fase crítica, e que nem a mineração da prata nem quaisquer outros assuntos jamais seriam de tanta importância para ele como aquele novo e absorvente fato. O amor que lhe brotava no coração não era o súbito e volúvel capricho de um rapazola, mas a paixão veemente e bravia de um homem dotado de vontade férrea e de caráter imperioso. Hope estava habituado a triunfar em tudo o que empreendia. Assim, jurou que sairia vitorioso naquela empresa, até onde ela dependesse da vontade e da perseverança humanas.

Nessa mesma tarde, foi visitar John Ferrier; e voltou muitas vezes, até que a sua figura se tornou familiar na fazenda. Ferrier, isolado no vale e absorvido no seu trabalho, tivera poucas ocasiões de saber o que acontecia pelo mundo, exceto durante aqueles últimos doze anos. E de tudo isso Jefferson Hope podia informá-lo, fazendo-o de tal modo que interessava tanto ao pai como à filha. Fora um dos pioneiros da Califórnia, e tinha muitas histórias estranhas para narrar sobre fortunas acumuladas e perdidas, naquela terra que pululava de aventureiros. Também fora explorador, caçador, mineiro e vaqueiro. Para onde quer que soprasse o vento da aventura, lá estivera Jefferson Hope. Em pouco se tornava o preferido do velho fazendeiro, que lhe gabava eloqüente- mente as virtudes. Em tais ocasiões, Lucy ficava silenciosa, mas o rubor das faces e o brilho dos seus olhos felizes demonstravam claramente que o seu jovem coração já não era seu, O honesto pai talvez não observasse aqueles sintomas, mas eles de forma alguma passavam despercebidos ao homem que havia conquistado o seu afeto.

Numa tarde de verão, ele surgiu galopando na estrada e sofreou o cavalo diante do portão. Lucy, que estava nas proximidades, adiantou-se para recebê-lo. Hope atirou a rédea na cerca e aproximou-se a pé.

— Estou de partida, Lucy — disse ele, tomando-lhe as duas mãos nas suas e fitando-a ternamente no rosto. — Agora não lhe pedirei que venha comigo, mas, da próxima vez, estará disposta a vir?

— E quando será? — perguntou ela, com as faces ruborizadas, rindo.

— Daqui a dois meses. Voltarei para buscá-la, minha querida. Não há ninguém que possa nos separar.

— E que dirá meu pai?

— Ele já deu o seu consentimento, sob a condição de que as minas produzam alguma coisa. Não tenho o menor receio a esse respeito.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

— Então, está tudo bem. Se você e meu pai já trataram de tudo, não há mais nada a dizer — sussurrou ela, apoiando a face contra o largo peito do seu apaixonado.

— Graças a Deus! — exclamou ele, com voz um tanto embargada e baixando a cabeça para beijá-la. — Tudo está resolvido. Quanto mais eu ficar aqui, mais difícil será ir embora. Estão à minha espera lá no canyon. Adeus, minha querida … adeus! Dentro de dois meses, você me verá de novo.

Dizendo isso, o jovem se desvencilhou dos braços de Lucy e pulou na sela, afastando-se em vertiginoso galope, sem olhar para trás uma só vez, como se temesse que a sua resolução fraquejasse à vista do que ali deixava. Ela ficou no portão, acompanhando-o com o olhar até ele desaparecer no horizonte, e depois voltou para casa. Era a moça mais feliz do Utah.

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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