Um estudo em vermelho – Segunda parte, Capítulo 7

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Segunda parte: A terra dos santos

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo sétimo: Conclusão

Todos nós tínhamos sido citados para comparecer perante os magistrados na quinta-feira; mas, quando chegou o dia, não tivemos ocasião de prestar os nossos depoimentos. Um juiz mais importante tomara conta do assunto, e Jefferson Hope fora chamado a um tribunal onde seria julgado com a mais estrita justiça. Na noite que se seguiu à sua captura, o aneurisma rebentou, e de manhã o encontraram estatelado no chão de sua cela, com um plácido sorriso nos lábios, como se durante a agonia tivesse podido recapitular toda a sua vida, achando-a útil e vendo que cumprira bem a sua missão.

— Gregson e Lestrade ficarão furiosos com a morte dele — observou Holmes, quando a comentávamos na noite seguinte.

— Lá se foi o estardalhaço que esperavam.

— Não vejo qual possa ter sido a contribuição deles para desvendar o mistério — repliquei.

— Neste mundo, o que vale não é o que se faz — retorquiu ele acerbamente —, mas o que os outros pensam que fizemos. Não tem importância prosseguiu, mais tranqüilo, depois de uma pausa. — Por coisa alguma eu teria renunciado a essa investigação. Que eu me lembre, ainda não houve um caso melhor. Embora simples, teve alguns pontos muito instrutivos.

— Simples! — exclamei.

— Francamente, seria difícil classificá-lo de outra maneira — disse Sherlock Holmes, sorrindo do meu espanto. — A prova da sua simplicidade intrínseca é que eu, ajudado apenas por deduções muito comuns, pude agarrar o criminoso em três dias.

— Isso é verdade — admiti.

— Já lhe expliquei que as circunstâncias fora do comum constituem mais uma orientação do que um obstáculo. Ao resolver um problema desse gênero, o essencial é saber raciocinar retrospectivamente. E um processo muito útil, e muito fácil, mas poucos se servem dele. Nos assuntos cotidianos, é mais útil raciocinar para a frente, na direção do tempo, de maneira que o processo inverso vai sendo esquecido. Há cinqüenta pessoas que raciocinam sinteticamente para cada uma capaz de raciocinar analiticamente.

— Confesso que não o compreendo muito bem — disse eu.

— Já esperava por isso. Vejamos se me faço entender melhor. A maioria das pessoas, depois de você descrever uma série de acontecimentos, dir-lhe-ão quais as suas conseqüências. Como podem concatená-los mentalmente, são capazes de deduzir o que provavelmente vai ocorrer. Mas há alguns que, conhecendo apenas as conseqüências, são capazes de deduzir os acontecimentos que as provocaram. Refiro-me a essa capacidade, quando falo em raciocinar retrospectivamente, ou analiticamente.

— Compreendo, agora.

— O caso em questão era precisamente um desses em que são dadas as conseqüências e nada mais, O resto, os acontecimentos causais, tinham de ser deduzidos. Tentarei agora expor-lhe as fases do meu raciocínio. Comecemos pelo princípio. Como sabe, aproximei-me da casa a pé, e com o espírito livre de qualquer suposição. Naturalmente, comecei examinando a rua e, como já lhe expliquei, vi nitidamente as marcas de um coche, o qual, a julgar pelo que me informaram a respeito daquela manhã, deveria ter estado ali durante a noite. Observei que era um carro de aluguel e não uma carruagem particular, devido à bitola das rodas. A carruagem comum de Londres é bem mais estreita do que o cupê de um cavalheiro.

“Esse foi o primeiro ponto esclarecido. Depois, caminhei vagarosamente pela vereda do jardim, cujo terreno barrento era dos melhores para reter marcas ou pegadas. Não tenho dúvidas de que aquilo deve ter lhe parecido apenas um terreno enlameado, mas para os meus olhos experimentados cada marca na sua superfície tinha uma significação. Não há nenhum ramo da ciência da investigação tão importante e tão negligenciado como a arte de identificar as pegadas. Felizmente sempre lhe dediquei a maior atenção, e a prática tornou-a em mim uma segunda natureza. Reconheci as pegadas profundas dos policiais, mas também vi as marcas deixadas por dois homens que ali tinham passado em primeiro lugar. Era fácil dizer que antecediam as demais porque em certos lugares estavam completamente apagadas pelas subseqüentes. Dessa maneira, o meu segundo elo estava formado, e dizia-me que os visitantes noturnos eram em número de dois, um de grande estatura (conforme calculei pela largura dos seus passos) e outro, elegantemente vestido, a julgar pela marca nítida e bem-torneada deixada pelos seus sapatos.

“Ao entrar na casa, essa última suposição foi confirmada. O homem bem calçado estava diante de mim. O alto, por conseguinte, havia cometido o crime, se é que houvera crime. Não havia nenhum ferimento no cadáver, mas a expressão dramática do seu rosto asseverou-me que ele tinha previsto o seu destino.

“As pessoas que morrem de um ataque do coração, ou de qualquer outra causa natural e súbita, jamais apresentam as feições contraídas. Cheirando os lábios do defunto, notei um ligeiro odor azedo, e cheguei à conclusão de que ele fora compelido a tomar veneno. Deduzi que fora obrigado a isso ainda baseado no aspecto das suas feições, que denotavam ódio e pavor. Cheguei a semelhante resultado pelo processo de exclusão, porque nenhuma outra hipótese enquadraria todos os fatos. Não imagine que tal hipótese seja inaudita. A administração compulsória do veneno não é de modo algum uma coisa nova nos anais do crime. Os casos de Dolski, em Odessa, e de Leturier, em Montpellier, não deixariam de ocorrer imediatamente a um toxicologista.

“E agora vinha o problema central: o motivo. O roubo não fora o motivo do crime, visto que nada fora tirado do morto. Tratava-se de política, então, ou de uma mulher? Eis aí o dilema que se me deparava. Desde o começo, eu estava inclinado para a segunda suposição. Assassinos políticos fazem o que têm a fazer e desaparecem. Esse crime, ao contrário, fora cometido com a maior deliberação, e seu autor deixara marcas por toda a sala, demonstrando que ali permanecera longo tempo. Devia ser um caso pessoal, e não político, exigindo, assim, uma vingança tão metódica. Quando se descobriu a inscrição na parede, fiquei ainda mais tentado por essa minha opinião. Aquilo era evidentemente um falso indício. E, quando se achou o anel, não tive mais dúvidas. Era evidente que o assassino o tinha usado para lembrar à sua vítima alguma mulher morta ou ausente. Foi nessa altura que perguntei a Gregson se, no seu telegrama a Cleveland, tinha pedido informações sobre algum ponto determinado da vida passada do sr. Drebber. Como deve estar lembrado, ele me respondeu pela negativa.

“Realizei, então, um cuidadoso exame da sala, que confirmou a minha opinião quanto à estatura do assassino e me forneceu pormenores adicionais sobre o charuto Trichinopoly e o comprimento das suas unhas. Eu já chegara à conclusão, por não haver sinais de luta, de que o sangue que manchava quase todo o soalho tinha jorrado do nariz do assassino, em conseqüência da sua excitação. Observei que o rastro de sangue coincidia com as suas pegadas. É raro que um homem, não sendo de compleição sangüínea, sofra semelhante hemorragia num momento de grande tensão, e por isso aventurei a opinião de que o criminoso fosse uma pessoa robusta e de rosto vermelho. Os acontecimentos provaram que a minha dedução estava correta.

“Ao deixar a casa, fui imediatamente fazer o que (Jregson tinha descurado. Telegrafei ao chefe dc polícia de Cleveland, limitando o meu pedido de informações às circunstâncias relacionadas com o casamento de Enoch Drehber. A resposta foi conclusiva. Dizia-me que Drehber já havia pedido a proteção da lei contra um antigo rival em amor, chamado Jefferson Hope, e que esse mesmo Hope se encontrava na Europa. Eu tinha nas mãos, portanto, o fio da meada, e nada mais restava senão localizar o assassino.

“Já tinha enraizada no espírito a convicção de que o homem com o qual Drebber entrara na casa não era outro senão o cocheiro. As marcas das rodas demonstravam-me que o cavalo tinha caminhado de um modo que seria impossível, se alguém tivesse ficado na boléia. Conseqüentemente, onde poderia estar o cocheiro senão no interior da casa? Também aí era absurdo supor que um homem, não estando louco, fosse cometer um crime quase sob os olhos de uma terceira pessoa, que facilmente poderia traí-lo. Finalmente, admitindo-se que um homem quisesse seguir outro através de toda a cidade de Londres, o que poderia fazer de melhor do que disfarçar-se de cocheiro dc praça? Todas essas considerações me levaram à conclusão definitiva de que Jefferson Hope devia ser procurado entre os cocheiros da metrópole.

“Se ele o fora, não havia razão para supor que tivesse deixado de o ser. Pelo contrário, sob o seu ponto de vista, qualquer mudança súbita de atividade com certeza chamaria a atenção sobre ele. Provavelmente, ao menos por algum tempo, continuaria a exercer o seu trabalho. Não havia razão para imaginar que tivesse mudado de nome. Por que fazê-lo num país onde ninguém conhecia a sua verdadeira identidade? Organizei então o meu grupo de detetives, composto de garotos desocupados, e mandei-os sistematicamente atrás de todos os cocheiros de Londres, até encontrarem o homem que eu queria. Não preciso lhe dizer o quanto eles se saíram bem nessa missão e como tirei rapidamente partido disso. O assassínio de Stangerson foi um incidente inteiramente inesperado, mas, de qualquer modo, teria sido muito difícil de evitar. Em conseqüência desse segundo crime, como bem sabe o meu caro doutor, vieram às minhas mãos as pílulas de cuja existência eu já suspeitava. Como vê, tudo isso não passa de um encadeamento lógico dos elos, sem a menor solução de continuidade.”

— E maravilhoso! — exclamei. — Os seus méritos deviam ser reconhecidos publicamente. Você devia publicar um relato do caso. Se não o fizer, faço-o eu.

— Pode fazer o que entender, doutor — respondeu ele. Mas veja isto! — E passou-me um jornal. Leia o que dizem aí!

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

Era o último exemplar do Echo, e o parágrafo que ele me indicava comentava o caso em foco.

“O público perdeu a ocasião de assistir a um julgamento sensacional devido à morte súbita de Hope, o autor da morte de Enoch Drebber e de Joseph Stangerson. Os pormenores do caso provavelmente nunca virão à tona, embora estejamos seguramente informados de que o crime foi o resultado de uma antiga disputa na qual o amor e o mormonismo tinham a sua parte. Consta que ambas as vítimas pertenceram, na mocidade, à Igreja dos Santos dos Ultimos Dias, e Hope, o acusado que morreu na prisão, era oriundo de Salt Lake City. Se o caso não teve maior repercussão, serviu ao menos para evidenciar de maneira notável a eficiência da nossa organização policial, além de constituir uma lição para os estrangeiros, que, tendo as suas desavenças, doravante tratarão de liquidá-las nos seus países e não em solo britânico. Não é segredo que o mérito dessa brilhante captura cabe inteiramente a dois conhecidos investigadores da Scotland Yard, os senhores Lestrade e Gregson. O homem, ao que parece, foi capturado no apartamento de um certo sr. Sherlock Holmes, que, como amador, mostrou algum talento para o mister de detetive e que, com tais instrutores, poderá talvez aperfeiçoar-se, adquirindo, com o tempo, parte da sua consumada habilidade. Espera-se que alguma distinção especial seja conferida aos dois funcionários como justo reconhecimento pelos seus serviços.”

— No foi isso o que eu lhe disse desde o princípio? — observou Sherlock Holmes rindo. — E esse o resultado do nosso Estudo em vermelho: arranjar-lhes uma distinção especial!

— Pouco importa — respondi. — Tenho todos os f atos no meu diário, e o público tomará conhecimento deles. Entretanto, contente-se com a íntima certeza de que venceu, e diga como o avarento romano:

Populus me sibilat, at mihi plaudo Ipse domini simulat ac nummos contemplar ia arca” [1].

[1] “Vaiam-me na rua, mas eu em casa me aplaudo ao contemplar o meu dinheiro no cofre.” (N. do T.)

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock