Um estudo em vermelho – Primeira parte, Capítulo 2

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Primeira parte: Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo segundo: A ciência da dedução

Encontramo-nos no dia seguinte, conforme o combinado, e fomos ver o apartamento no número 221-B da Baker Street, que consistia em dois confortáveis quartos de dormir e uma espaçosa sala de estar, alegremente mobiliada e iluminada por duas amplas janelas. Ele preenchia tão bem as nossas necessidades e seu preço era tão módico, dividido por dois, que imediatamente o alugamos e recebemos a chave. Nessa mesma tarde mandei vir do hotel as minhas coisas, e na manhã seguinte Sherlock chegou com as suas várias caixas e maletas. Durante um dia ou dois estivemos ocupados com a arrumação dos nossos objetos pessoais. Feito isso, começamos, pouco a pouco, a nos adaptar ao nosso novo ambiente.

Evidentemente, a convivência com Holmes não era difícil. Tinha hábitos tranqüilos e regulares. Era raro vê-lo em pé depois das dez horas da noite, e invariavelmente já preparara o seu café da manhã e saíra quando eu me levantava da cama. Às vezes passava o dia no laboratório químico, outras, na sala de dissecação e ocasionalmente em longos passeios, que pareciam levá-lo aos bairros mais sórdidos da cidade. Nada era capaz de ultrapassar a sua energia quando tomado por um acesso de atividade.

À medida em que as semanas passavam, o meu interesse por ele e a minha curiosidade quanto aos seus objetivos na vida iam gradualmente aumentando em extensão e profundidade. Até o seu físico era tal que despertava a atenção do mais descuidado observador. Quanto a sua estatura, passava de um metro e oitenta, mas era tão magro que parecia mais alto ainda. Seus olhos eram agudos e penetrantes, e seu nariz delgado, aquilino, acrescentava às suas feições um ar de vigilância e decisão. Também o queixo, quadrado e forte, indicava nele o homem resoluto. Suas mãos andavam invariavelmente salpicadas de tinta e manchadas por substâncias químicas, mas possuíam uma extraordinária delicadeza de tato, como freqüentemente tive ocasião de notar ao vê-lo manipular os seus frágeis instrumentos de alquimista.

Sob pena de ser considerado um grande intrometido, confesso que aquele homem instigava a minha curiosidade, e que muitas vezes procurei vencer as reticências com que guardava tudo o que era pessoal. Todavia, tenho a meu favor a circunstância de que a minha vida era inteiramente desprovida de objetivo, e, conseqüentemente, bem poucas eram as coisas que podiam me atrair a atenção. A minha saúde me impedia de me aventurar a sair de casa, a menos que o tempo estivesse excepcionalmente benigno, e não tinha amigos que, visitando-me, quebrassem a monotonia da minha existência cotidiana. Em tais circunstâncias, o pequeno mistério que cercava o meu companheiro constituía para mim uma rara oportunidade de interesse, e eu passava a maior parte do tempo procurando resolvê-lo.

Holmes não estudava medicina. Ele próprio, em resposta a uma pergunta minha, confirmara a opinião de Stamford sobre esse ponto. Também não parecia ter feito qualquer curso regular que o habilitasse a integrar-se em algum ramo da ciência ou a penetrar nos umbrais do mundo erudito. Contudo, o seu zelo por outros estudos era notável, e, dentro de limites excêntricos, o seu conhecimento era tão extraordinariamente amplo e minucioso, que as suas observações me causavam grande espanto. Evidentemente, nenhum homem trabalharia tanto para adquirir informações tão precisas se não tivesse em vista um objetivo bem definido. Leitores desorganizados dificilmente se fazem notar pela exatidão dos seus conhecimentos. E ninguém sobrecarrega o cérebro com minudências especiais, a menos que tenha um bom motivo para fazê-lo.

Por outro lado, a sua ignorância era tão notável quanto a sua cultura. Sobre literatura, filosofia e política contemporâneas, parecia saber pouco ou nada. Ouvindo-me citar Thomas Carlyle, perguntou-me com a maior ingenuidade quem era ele e o que tinha feito. A minha surpresa atingiu o máximo, no entanto, quando verifiquei por acaso que ignorava a teoria de Copérnico e a composição do sistema solar. Ver uma pessoa civilizada, em pleno século XIX, desconhecer que a Terra girava em torno do Sol parecia-me um fato tão extraordinário que eu mal podia acreditar nele.

— Você parece atônito — disse ele, sorrindo ante a minha expressão de surpresa. — Pois, agora que sei disso, tratarei de esquecê-lo o mais depressa possível.

— Esquecê-lo?!

— Veja — explicou-me: — Considero o cérebro de um homem como sendo inicialmente um sótão vazio, que você deve mobiliar conforme tenha resolvido. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando à mão, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados, ou, na melhor das hipóteses, tão escondidos entre as demais coisas que lhe é difícil alcançá-los. Um trabalhador especializado, pelo contrário, é muito cuidadoso com o que leva para o sótão da sua cabeça. Não quererá mais nada além dos instrumentos que possam ajudar o seu trabalho; destes é que possui uma larga provisão, e todos na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o dito quartinho tem paredes elásticas e pode ser distendido à vontade. Segundo as suas dimensões, há sempre um momento em que para cada nova entrada de conhecimento a gente esquece qualquer coisa que sabia antes. Conseqüentemente, é da maior importância não ter fatos inúteis ocupando o espaço dos úteis.

— Mas o sistema solar! — protestei.

— Que importância tem para mim? — interrompeu-me ele com impaciência. — Você diz que giramos em torno do Sol. Se girássemos em volta da Lua, isso não faria a menor diferença para o meu trabalho.

Estive a ponto de perguntar-lhe qual era esse trabalho, mas qualquer coisa na sua maneira me indicava que a pergunta não seria bem recebida. Refleti, no entanto, sobre a nossa breve conversação, e esforcei-me por tirar algumas deduções. Ele dissera procurar exclusivamente os conhecimentos que se relacionassem com o seu objetivo. Por conseguinte, todos os conhecimentos que possuía eram-lhe necessariamente úteis. Enumerei mentalmente todos os diversos pontos sobre os quais se revelara excepcionalmente bem-informado. Servi-me mesmo de um lápis e fui anotando-os. Não posso deixar de sorrir ao ver o documento resultante das minhas observações. Ei-lo:

CONHECIMENTOS DE SHERLOCK HOLMES

1. Literatura: zero.

2. Filosofia: zero.

3. Astronomia: zero.

4. Política: escassos.

5. Botânica; variáveis. Conhece a fundo a beladona, o ópio e os venenos em geral. Nada sabe sobre jardinagem e horticultura.

6. Geologia: práticos, mas limitados. Reconhece à primeira vista os diversos tipos de solo. No regresso dos seus passeios, mostra-me manchas nas calças, e diz-me, pela sua cor e consistência, em que parte de Londres as conseguiu.

7. Química: profundos.

8. Anatomia: exatos, mas pouco sistemáticos.

9. Literatura sensacionalista: imensos. Parece conhecer todos os pormenores de todos os horrores perpetrados neste século.

10. Toca bem o violino.

11. É habilíssimo em boxe, esgrima e bastão.

12. Tem um bom conhecimento prático das leis inglesas.

Quando cheguei a esse ponto da minha lista, perdi o ânimo e atirei-a no fogo. “Se a única maneira de descobrir o objetivo deste homem consiste em conciliar tais qualidades e depois buscar uma profissão que as exija”, disse comigo, “mais vale renunciar de uma vez a semelhante tentativa.”

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

Já me referi aos seus dotes de violinista. Eram, com efeito, notáveis, mas tão excêntricos quanto as suas demais habilidades. Que ele tocava peças difíceis sabia-o eu, pois a meu pedido havia executado alguns Lieder de Mendelssohn e outras músicas da minha preferência. Todavia, quando entregue a si próprio, raramente interpretava alguma peça ou melodia conhecidas. Recostado na sua poltrona, ao cair da tarde, fechava os olhos e ficava passando o arco no violino, que colocava nos joelhos. Às vezes os acordes eram sonoros e melodiosos, outras vezes, fantásticos e vivazes. Refletiam, evidentemente, os pensamentos que o ocupavam, mas se a música ajudava esses pensamentos, ou se tocar era apenas o resultado de um capricho ou de fantasia, eis o que eu não podia determinar. Teria os meus motivos para protestar contra semelhantes solos, não fosse a circunstância de ele geralmente acabar por tocar, em rápida sucessão, toda uma série das minhas peças prediletas, como que para recompensar a minha paciência.

Durante uma ou duas semanas, não recebemos visitas, e eu começava a pensar que o meu companheiro tinha tão poucos amigos como eu. Mas pouco depois descobri que ele possuía muitas relações, e nas mais diferentes classes da sociedade. Havia, por exemplo, um homenzinho pálido, de olhos escuros, com cara de rato, que apareceu três ou quatro vezes numa semana, e me foi apresentado como sr. Lestrade. Certa manhã surgiu uma jovem, elegantemente vestida, que se demorou cerca de meia hora ou mais. Na mesma tarde veio um homem grisalho, cansado, com tipo de negociante judeu, que parecia muito alvoroçado, e foi imediatamente seguido de uma senhora idosa e malvestida. Noutra ocasião, um senhor de cabelos brancos teve uma entrevista com o meu companheiro; e, ainda noutra, um chefe de estradas de ferro com o seu uniforme de belbutina.

Quando surgia algum desses estranhos visitantes, Sherlock Holmes costumava pedir-me a sala de estar, e eu me recolhia ao quarto. Nunca deixava de pedir-me desculpas por tal inconveniente.

— Tenho de usar esta sala como escritório — dizia-me ele. — Todas essas pessoas são minhas clientes.

Era uma excelente oportunidade para lhe fazer uma pergunta direta, mas a minha discrição novamente me impedia de forçá-lo a ter confiança em mim. Parecia-me, então, que devia ter fortes motivos para não aludir à sua profissão, mas rapidamente dissipou semelhante idéia ao referir-se espontaneamente ao assunto.

Estávamos no dia 4 de março (e tenho bons motivos para me lembrar). Levantei-me um pouco mais cedo do que de costume e encontrei Sherlock Holmes a tomar o seu café. A nossa criada estava tão habituada aos meus hábitos de dorminhoco que ainda não se preocupara com o meu lugar à mesa nem preparara o meu café. Com a desarrazoada petulância do gênero humano, toquei a campainha e anunciei que a esperava. Depois, tirei uma revista de cima da mesa e tentei passar o tempo com ela, enquanto o meu companheiro mastigava silenciosamente a sua torrada. Um dos artigos tinha o cabeçalho sublinhado a lápis, e eu, naturalmente, comecei a percorrê-lo com os olhos.

O título, um tanto pretensioso, era “O livro da vida”, e ali se procurava demonstrar o quanto um homem observador podia aprender por intermédio do exame apurado e sistemático de tudo o que encontrasse. Aquilo me dava a impressão de uma curiosa mistura de argúcia e absurdo. O raciocínio era denso e penetrante, mas as deduções pareciam-me rebuscadas e cheias de exagero. O autor pretendia que uma expressão momentânea, o repuxar de um músculo ou um volver de olhos, fosse o bastante para que se pudesse sondar os pensamentos mais íntimos de um homem. Na sua opinião, era impossível iludir a observação e a análise de quem nelas se exercitasse com método e afinco. As conclusões de tal pessoa seriam tão infalíveis como outras tantas proposições de Euclides. E os resultados seriam de tal maneira surpreendentes para os leigos que, antes de saberem os processos pêlos quais o observador os obtivera, haveriam de considerá-lo um adivinho.

“De uma gota de água”, afirmava o autor, “um raciocinador lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou de um Niágara, sem ter visto ou ouvido um ou outro. Assim, toda a vida é uma grande cadeia cuja natureza se revela ao examinarmos qualquer dos elos que a compõem. Como todas as outras artes, a ciência da dedução e análise só pode ser adquirida por meio de um demorado e paciente estudo, e a vida não é tão longa que permita a um mortal aperfeiçoar-se ao máximo nesse campo. Antes de passar aos aspectos morais e mentais de um assunto que apresenta as maiores dificuldades, o pesquisador deve principiar por se assenhorear dos problemas mais elementares. Ao encontrar um semelhante, deve aprender a distinguir imediatamente qual a história do homem e o mister ou profissão que exerce. Por mais pueril que esse exercício possa parecer, aguça as faculdades de observação e ensina para onde se deve olhar e o que procurar. Pelas unhas de um homem, pela manga do seu casaco, pêlos seus sapatos, pelas joelheiras nas calças, pelas calosidades de seu indicador e de seu polegar, pela sua expressão, pêlos punhos da camisa… em cada uma dessas coisas a profissão de um homem é claramente indicada. Que o conjunto delas deixe de esclarecer um indagador competente, em qualquer caso, é virtualmente inconcebível.”

— Que grande aldrabice! — exclamei, batendo com a revista na mesa. — Nunca li tamanha tolice em toda a minha vida.

— De que se trata? — perguntou Sherlock Holmes.

— Ora, deste artigo — respondi, indicando-o com a colher, ao sentar-me para comer o meu ovo. — Vejo que já o leu, pois está sublinhado. Não nego que esteja escrito com inteligência. Contudo, irrita-me. Trata-se, evidentemente, das teorias de algum desocupado, que elabora todos esses paradoxos sem deixar a poltrona do seu gabinete. Não têm aplicação prática. Eu gostaria de vê-lo encerrado num vagão de terceira classe do metro e perguntar-lhe quais as profissões de todos os demais passageiros. Apostaria mil por um contra ele.

— Perderia o seu dinheiro — observou Holmes calmamente.— Quanto ao artigo, fui eu que o escrevi.

— Você?!

— Sim, tenho certa queda tanto para a observação como para a dedução. As teorias que expus aí, e que lhe parecem tão quiméricas, são na verdade muitíssimo práticas… tão práticas que dependo delas para viver.

— Como? — perguntei involuntariamente.

— Eu tenho o meu ofício. Suponho, aliás, que seja único em todo o mundo. Sou um detetive de consultas, se compreende o que estou dizendo. Aqui em Londres, temos uma grande quantidade de detetives oficiais e particulares. Quando esses cavalheiros ficam desorientados, vêm à minha procura, e eu trato de pô-los na pista certa. Expõem-me todos os indícios, e eu, geralmente, com a ajuda dos meus conhecimentos da história criminal, aponto as suas falhas e esclareço-os. Entre os delitos há um acentuado ar de parentesco, e quem possui todos os pormenores a respeito de mil deles dificilmente falhará ao desvendar o milésimo primeiro. Lestrade é um detetive muito conhecido. Recentemente ficou às cegas num caso de falsificação, e foi isso o que o trouxe aqui.

— E as outras pessoas?

— Na maior parte são mandadas por agências particulares de detetives. Trata-se de gente que tem uma dificuldade qualquer e precisa de esclarecimentos. Ouço-lhes as histórias, elas ouvem os meus comentários, e depois embolso os meus emolumentos.

— Em outras palavras, você afirma que, sem sair do seu quarto, é capaz de desatar certos nós que outros homens não conseguem desfazer, apesar de terem visto todos os pormenores com os seus próprios olhos?

— Exatamente. Tenho uma certa intuição nesse sentido. De quando em quando surge um caso mais complexo do que os outros. Só então é que preciso andar um pouco por aí a fim de ver as coisas de perto. Como vê, disponho de conhecimentos especiais que aplico aos problemas surgidos, conhecimentos que facilitam maravilhosamente a minha tarefa. Essas regras de dedução expostas no artigo que provocou o seu desprezo são-me preciosas, e eu as aplico praticamente no meu trabalho. A observação é uma segunda natureza em mim. Você pareceu surpreso quando eu lhe disse, ao vê-lo pela primeira vez, que voltara do Afeganistão.

— Foi informado, sem dúvida.

— Nada disso. Eu vi que você voltava do Afeganistão. Devido a um longo hábito, a concatenação do raciocínio é tão rápida no meu espírito que cheguei àquela conclusão sem ter consciência dos elos intermediários. Mas esses elos lá estavam. E o fio que o meu raciocínio seguiu foi mais ou menos este: “Eis aqui um cavalheiro com ar de médico, mas ao mesmo tempo com gestos de militar. É evidentemente um médico do exército. Acaba de chegar dos trópicos, porque tem o rosto amorenado, e essa não é a cor natural da sua pele, visto que os punhos são brancos. Sofreu privações e enfermidades, conforme o demonstra o rosto emaciado. Além do mais, recebeu um ferimento no braço esquerdo, visto que o mantém numa posição rígida e pouco natural. Em que lugar dos trópicos um médico do exército inglês poderia ter passado por tantas dificuldades e ser ferido no braço? No Afeganistão, naturalmente”. Toda essa série de raciocínios não ocupou mais do que um segundo. Observei-lhe, conseqüentemente, que você regressava do Afeganistão e vi a sua surpresa.

— Explicada dessa forma, a coisa parece bastante simples — disse eu, sorrindo. — Você me faz lembrar Dupin, de Edgar Allan Poe. Não fazia a menor idéia de que tais pessoas existissem na vida real.

Sherlock Holmes levantou-se e acendeu o seu cachimbo.

— Julga, sem dúvida, fazer-me um cumprimento comparando-me a Dupin — observou. — Pois, na minha opinião, Dupin era um tipo medíocre. Aquele seu estratagema de intervir nos pensamentos do seu amigo, depois de um quarto de hora de silêncio, é pretensioso e superficial. Concedo-lhe, sem dúvida, certa capacidade analítica, mas não era de modo nenhum o fenômeno que Poe parecia imaginar.

— Já leu as obras de Gaboriau? — perguntei. — Lecoq corresponde à sua concepção de detetive ideal?

Sherlock Holmes fungou ironicamente.

— Lecoq era um grande trapalhão — disse com veemência. — Só uma coisa o recomendava: a sua energia. A leitura de M. Lecoq causou-me náuseas. O problema consistia em identificar um prisioneiro desconhecido. Eu o teria feito em vinte e quatro horas. Lecoq precisou de mais ou menos seis meses. Esse livro bem poderia ser um manual para ensinar aos detetives o que não devem fazer.

Senti-me um tanto indignado ao ver tratados dessa maneira rude duas personagens que eu admirava. Caminhei até a janela e fiquei olhando para o movimento da rua. Talvez aquele homem fosse muito arguto, pensava eu, mas não havia dúvida de que era pretensioso.

— Não há mais crimes nem criminosos nos nossos dias — disse ele em tom queixoso. — De que serve possuir inteligência na nossa profissão? Sei perfeitamente que tenho qualidades para tornar o meu nome famoso. Não há nem houve até agora no mundo um homem que tenha dedicado à investigação criminológica tanto estudo e vocação natural quanto eu. E qual é o resultado? Não há nenhum crime a desvendar, ou, quando muito, só alguma vilania grosseira e com um motivo tão transparente que até um funcionário da Scotland Yard é capaz de enxergá-lo.

Aborrecia-me também aquela sua maneira presunçosa de falar, e por isso resolvi mudar de assunto.

— Que estará procurando aquele tipo? — perguntei, apontando para um homem forte, modestamente vestido, que caminhava vagarosamente pela calçada em frente, examinando os números das casas. Trazia na mão um grande envelope azul e era evidentemente o portador de uma mensagem.

— Refere-se àquele sargento aposentado da marinha? — perguntou-me Sherlock Holmes.

“Grande fanfarrão!”, pensei com os meus botões. “Ele sabe perfeitamente que não posso verificar semelhante afirmação.”

Tal pensamento mal me havia passado pela mente quando o homem que estávamos a observar, vendo o número da nossa porta, atravessou a rua rapidamente. Ouvimos pancadas enérgicas no rés-do-chão, uma voz grave e em seguida um ruído de passos decididos na escada.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

— Para o sr. Sherlock Holmes — disse ele ao entrar na sala, entregando a carta ao meu amigo.

Ali estava uma oportunidade para lhe desmascarar a presunção. Ele certamente não a previra ao fazer aquela observação a esmo.

— Posso perguntar-lhe; meu amigo — disse eu com a maior brandura possível —, qual é a sua profissão?

— Estafeta, senhor — respondeu ele de maus modos. — Uniforme em conserto.

— E antes disso, que fazia? — perguntei, lançando um olhar malicioso para o meu companheiro.

— Era sargento, senhor, sargento de infantaria da marinha. Não tem resposta, sr. Holmes? Perfeitamente, senhor.

Bateu os calcanhares, fez uma continência enérgica e saiu.

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock