Um estudo em vermelho – Primeira parte, Capítulo 4

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Primeira parte: Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo quarto: O que John Rance tinha a contar

Era uma hora da tarde quando deixamos a casa número 3 de Lauriston Gardens. Sherlock Holmes levou-me à agência telegráfica mais próxima, de onde expediu um longo telegrama. Chamou depois uma carruagem e ordenou ao cocheiro que nos conduzisse ao endereço fornecido por Lestrade.

— Não há nada como as informações em primeira mão — observou ele. — Para dizer a verdade, a minha opinião sobre o caso já está formada, mas sempre é conveniente recolher todos os dados possíveis.

— Você me surpreende, Holmes — observei. — Não creio que esteja tão certo como se mostra a respeito dos pormenores que acaba de fornecer.

— Não há possibilidade de erro — replicou ele. — A primeira coisa que observei ao chegar lá foi que uma carruagem fizera dois sulcos com as rodas, junto à esquina. Ora, até ontem à noite, tivemos uma semana sem chuva, de maneira que esses sulcos assim tão fundos datam de ontem à noite. Também havia marcas dos cascos do cavalo, uma das quais mais nítida do que as outras três, o que indicava uma ferradura nova. Visto que uma carruagem parou ali depois de ter começado a chover, e nenhuma durante a manhã (sobre esse ponto tenho o testemunho de Gregson), segue-se que chegou durante a noite e que, por conseguinte, trouxe os dois desconhecidos à casa número 3.

— Isso parece muito simples — murmurei. — Mas como sabe a altura do outro homem?

— Ora, a altura de um homem, em nove casos em dez, pode ser deduzida pelo comprimento dos seus passos. É um cálculo muito simples, mas será inútil aborrecê-lo com cifras. O homem deixou os seus passos tanto no barro do jardim como na poeira da sala. Além disso, tive possibilidades de verificar a exatidão dos meus cálculos. Quando um homem escreve numa parede, o instinto leva-o a escrever  à altura dos olhos. Pois bem, aquela inscrição estava a cerca de um metro e oitenta do chão. Uma brincadeira de criança.

— E a idade? — perguntei ainda.

— Bem, se um homem pode dar uma passada de um metro e vinte sem o menor esforço, é impossível que tenha as articulações duras. Era essa a largura de uma poça de água no jardim que ele evidentemente atravessou. O homem dos sapatos de verniz contornou-a, e o dos sapatos de bico quadrado saltou-a. Não há nenhum mistério nisso. Estou simplesmente aplicando à vida normal alguns daqueles preceitos de observação e dedução que advoguei no meu artigo. Há mais alguma coisa que o intrigue?

— A história das unhas e do charuto Trichinopoly — confessei.

— Aquela palavra na parede foi escrita com um indicador masculino molhado em sangue. A lente permitiu-me observar que o reboco fora ligeiramente arranhado, o que não teria acontecido se o homem tivesse as unhas curtas. Quanto ao charuto… juntei um pouco da cinza espalhada pelo soalho. Era escura e escamada… tal qual a cinza que só um Trichinopoly produz. Fiz um estudo especial sobre as cinzas de charutos… até escrevi uma monografia a esse respeito. Gabo-me de poder distinguir à primeira vista a cinza de qualquer marca conhecida de charuto ou tabaco. É exatamente nesses pormenores que um detetive especializado difere do tipo representado por Gregson e Lestrade.

— E o rosto vermelho?

— Ah! Esse foi um golpe temerário, embora eu não duvide que tenha acertado. Na atual fase da investigação, não me interrogue sobre esse ponto.

Passei a mão pela testa.

— Minha cabeça está rodando — observei. — Quanto mais penso, mais o caso me parece misterioso. Como é que esses dois homens, se realmente eram dois homens, puderam entrar numa casa vazia? Que foi feito do cocheiro que os levou? De que maneira um homem poderia obrigar outro a tomar veneno? Como explicar o sangue? Qual foi o motivo do crime, visto que não houve roubo? Como foi parar ali aquele anel de mulher? E, acima de tudo, por que teria o segundo homem escrito a palavra alemã “Rache” antes de se safar? Confesso que não compreendo como se poderão conciliar todos esses fatos.

O meu companheiro teve um sorriso de aprovação.

— Você acaba de resumir, clara e sucintamente, as dificuldades da situação — disse ele. — Mas ainda há muita coisa obscura, apesar de eu já ter um conceito definido dos fatos principais. Quanto à descoberta do pobre Lestrade, trata-se simplesmente de uma pista falsa, deixada para que a polícia visse o caso como obra de socialistas ou sociedades secretas. O “A”, conforme você terá notado, dava certa impressão de gótico, mas um verdadeiro alemão, quando escreve em letras de forma, o faz invariavelmente em caracteres latinos. Dessa maneira, podemos seguramente concluir que a palavra não foi escrita por um alemão, mas por um grosseiro imitador que exagerou o seu papel. Aquilo foi simples astúcia para desviar a investigação. E não lhe direi mais sobre este caso, meu caro doutor, pois você não ignora que o prestidigitador perde o mérito quando explica os seus truques. Se eu o puser muito ao corrente do meu método de trabalho, você chegará à conclusão de que, afinal de contas, sou um indivíduo como outro qualquer.

— Isso nunca acontecerá — repliquei. — Os seus estudos conduziram a investigações à altura de uma ciência exata, e jamais serão superados.

O meu companheiro corou de satisfação ante essas palavras e o tom convicto com que eu as pronunciara. Não me havia escapado que ele fosse tão sensível aos elogios feitos à sua arte quanto uma menina a respeito da sua beleza.

— Dir-lhe-ia outra coisa — volveu Holmes. — O homem dos sapatos de verniz e o dos sapatos de bico quadrado, digamos Verniz e Quadrado, vieram na mesma carruagem e caminharam juntos pela vereda do jardim da maneira mais amistosa possível… de braço dado, provavelmente. Depois de entrarem naquela sala, começaram a andar de cá para lá, isto é, Verniz ficou no mesmo lugar e Quadrado pôs-se a andar de cá para lá. Li tudo isso no pó do soalho; e também pude ler que ele ia se acalorando enquanto andava. Demonstra-o a largura crescente dos passos. Ele não cessava de falar durante todo o tempo, e, sem dúvida, ia ficando cada vez mais colérico. Ocorreu então a tragédia. Acabo de lhe dizer tudo quanto sei, pois o resto não passa de suposições e conjecturas, Temos, no entanto, um bom ponto de partida. Agora devemos nos apressar, porque esta tarde desejo ir ao concerto de Norman Neruda, no Hallé.

Essa conversa efetuou-se enquanto a nossa carruagem passava por uma tortuosa série de ruas sujas e vielas melancólicas. Na mais suja e melancólica de todas, o nosso cocheiro parou subitamente.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

— Ali está Audley Court — disse ele, apontando para a entrada de uma rua, que era pouco mais que uma fenda entre duas paredes de tijolos escuros. — Espero-os aqui.

Audley Court não era um lugar atraente. A estreita passagem levou-nos a um pátio retangular, calçado de lajes, e delimitado por casas miseráveis. Fomos abrindo caminho através de um bando de crianças sujas, com roupas desbotadas, até chegarmos ao número 46, cuja porta ostentava uma pequena placa de latão com o nome de Rance gravado nela. Disseram-nos que o guarda estava na cama, e fizeram-nos entrar numa saleta, onde ficamos à espera dele.

Rance surgiu pouco depois, parecendo um tanto irritado por lhe terem perturbado o sono.

— Já apresentei o meu relatório no posto — disse.

Holmes tirou meio soberano do bolso e começou a brincar distraidamente com a moeda.

— Achamos que era melhor ouvir a história toda dos seus próprios lábios — disse ele.

— Terei o maior prazer em contar-lhes tudo o que desejarem — respondeu o policial, sem tirar os olhos da moeda de ouro.

— Conte-nos apenas o que aconteceu, e à sua maneira.

Rance sentou-se no sofá de crina e enrugou a testa como se estivesse resolvido a não omitir qualquer pormenor na sua narrativa.

— Vou começar pelo princípio — disse ele. — A minha ronda é das dez da noite às seis da manha. As onze horas houve uma briga no White Hart, mas, exceto por isso, tudo estava calmo na minha zona. Â uma, começou a chover, e eu me encontrei com Harry Murcher, o colega que faz a zona de Holland Grove. Ficamos conversando um pouco na esquina da Henrietta Street. Mais tarde… aí pelas duas horas ou pouco mais, resolvi dar uma olhadela pela Brixton Road, para ver se tudo estava em ordem. Ia andando devagar, pensando com os meus botões o quanto me cairia bem um copo de gim quente, quando repentinamente vi uma luz na janela daquela casa. Ora, eu sabia que as duas casas de Lauriston Gardens estavam vazias, porque o proprietário não quer mandar limpar os esgotos, apesar de o último inquilino de uma delas ter morrido de tifo. Vendo aquela luz na janela, fiquei estupefato, e desconfiei logo que havia algo de anormal. Quando cheguei à porta…

— Deteve-se e depois voltou até o portão do jardim — interrompeu-o o meu companheiro. — Por que fez isso?

Rance deu um pulo no sofá e arregalou os olhos para Sherlock Holmes.

— Exatamente! — exclamou ele. — Mas como é que pode saber tal coisa? Quando cheguei à frente da porta, estava tudo tão calmo e solitário que pensei que não seria mau ter alguém comigo. Não tenho medo de nada que pertença a este mundo… mas o inquilino que morrera de tifo bem podia andar inspecionando os esgotos que o levaram desta para a melhor. Essa idéia me arrepiou. Foi por isso que voltei ao portão, esperando avistar a lanterna de Murcher. Mas não vi sinal dele nem de ninguém mais.

— Não havia ninguém na rua?

— Vivalma, nem um cachorro sequer. Bem, enchi-me de coragem, voltei e abri a porta. Lá dentro tudo estava silencioso, e penetrei na sala, onde ardia uma luz. Lá estava uma vela bruxuleando sobre a lareira… uma vela vermelha de cera… e à luz dela vi…

— Sim, sei tudo o que viu. Você deu várias voltas pela sala, ajoelhou-se junto do cadáver, depois atravessou a casa para ver se a porta da cozinha estava fechada, e então…

John Rance pôs-se de pé, com a cara assustada e um olhar desconfiado.

— Onde é que estava escondido para ver tudo isso? — perguntou ele. — Parece-me que o senhor sabe mais do que devia.

Holmes riu e atirou o seu cartão de visita em cima da mesa do policial.

— Não queira prender-me pelo assassinato -— disse ele. — Sou um dos cães de fila e não o lobo. Gregson e Lestrade lhe darão todas as garantias. Continue, então. Que fez depois?

Rance tornou a sentar-se, mas ainda parecia desorientado.

— Voltei ao portão e apitei. Murcher e mais dois colegas vieram imediatamente.

— E nessa ocasião a rua estava deserta?

— Bem, quanto a pessoas que pudessem servir para alguma coisa, estava praticamente deserta.

— Como assim?

Um largo sorriso apareceu no rosto do agente.

— Já vi muitos bêbedos na minha vida — disse ele —, mas nenhum como aquele sujeito. Estava no portão, encostado às grades, quando eu saí, e não parava de cantar a Newfangled banner, ou coisa parecida. Não conseguia ficar em pé, quanto mais ajudar, fosse no que fosse.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

— Que tipo de homem era? — perguntou Sherlock Holmes.

John Rance pareceu um tanto irritado por essa digressão.

— Era um grandessíssimo beberrão — respondeu o policial. — E teria ido parar no posto se não tivéssemos coisa mais importante a fazer.

— Mas não lhe notou o rosto, a roupa? — interrompeu Holmes, com impaciência.

— Pois claro, se até tive de pô-lo em pé, com o auxílio de Murcher! Era um sujeito alto, de cara vermelha, com uma manta que lhe cobria o queixo…

— É o suficiente! — exclamou Holmes. — Que foi feito dele?

— Tínhamos mais o que fazer do que cuidar dele — respondeu o policial, num tom ofendido. — Garanto que acabou por encontrar o caminho de casa.

— Como estava vestido?

— Tinha um sobretudo castanho.

— Com um chicote na mão?

— Um chicote?… Não.

— Deve tê-lo deixado em qualquer lugar — murmurou a meia voz o meu companheiro. — Não viu ou ouviu um carro afastar-se, logo depois?

— Não.

— Aqui tem meia libra — disse Holmes, levantando-se e pegando o chapéu. — Parece-me que você não vai subir muito como policial, Rance. A sua cabeça devia ser mais que um ornamento. Ontem à noite poderia ter ganho as suas divisas de sargento. O homem que você teve nas mãos é precisamente o que possui a chave deste mistério e está sendo procurado por nós. Agora é inútil falar a esse respeito, mas repito que foi assim. Vamos, doutor.

Voltamos para a carruagem que nos esperava, deixando o nosso informante incrédulo, mas evidentemente perturbado.

— Que grande idiota! — exclamou Holmes severamente, quando voltávamos para casa. — Pensar que teve uma sorte incrível e não soube aproveitá-la!

— Ainda estou no escuro — confessei. — É verdade que o tipo desse homem combina com a sua idéia a respeito da segunda personagem deste mistério. Mas por que voltaria ele àquela casa, depois de ter fugido? Um criminoso não faria isso.

— O anel, homem de Deus, o anel: foi por isso que ele voltou. Mas eu o apanho, doutor… aposto dois contra um em como o apanho. E fico-lhe muito agradecido por tudo isso. Se não fosse a sua insistência, eu talvez não tivesse ido a Lauriston Gardens, perdendo assim o estudo mais interessante que já encontrei: um estudo em vermelho, não? Por que não usarmos um pouco a linguagem artística? Na meada incolor da vida, corre o fio vermelho do crime, e o nosso dever consiste em desenredá-lo, isolá-lo e expô-lo em toda a sua extensão. E agora vou almoçar, e depois ao concerto de Norman Neruda. A sua arcada e as suas execuções são estupendas. Como é aquela peça de Chopin que ele interpreta tão bem? Trá-lá-lá-lirá-lá.

O detetive amador recostou-se no assento da carruagem e continuou a cantar como uma cotovia, enquanto eu meditava sobre a versatilidade do espírito humano.

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock