Um estudo em vermelho – Segunda parte, Capítulo 1

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Segunda parte: A terra dos santos

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo primeiro: No deserto do Colorado

Na parte central do grande continente norte-americano, estende-se um árido e medonho deserto que por muitos anos foi uma barreira contra o avanço da civilização. Da serra Nevada ao Nebraska, e do rio Yellowstone, ao norte, até o rio Cobrado, ao sul, tudo é desolação e silêncio. Mas nessa região sinistra a natureza não se apresenta sob um aspecto uniforme, pois abrange altas montanhas cobertas de neve e vales profundos e tenebrosos. Há rios impetuosos que correm através dos canyons, e há vastas planícies que no inverno alvejam de neve e no verão ficam cinzentas de areia salitrosa e alcalina. Em tudo, porém, prevalece a característica comum de uma terra nua, inóspita e miserável.

Não há habitantes nesse país do desespero. Ocasionalmente uma horda de pawnees ou de blackfeet o atravessa a fim de atingir outros campos de caça, mas até os mais bravos e ousados desses índios se alegram ao perder de vista aquelas horrendas planuras, voltando enfim às suas pradarias. O coiote esgueira-se entre as touceiras ralas, o bútio espadana pesadamente o ar e o urso pardo arrasta-se pelas grutas sombrias à procura de alimento. São esses os únicos moradores do deserto.

Em todo o mundo não pode haver panorama mais tétrico do que aquele que se avista na vertente setentrional da serra Branca. Até onde o olhar alcança estende-se uma planície imensa, toda polvilhada de manchas cinzentas e entrecortada aqui e ali por chaparrais enfezados. No extremo limite do horizonte ergue-se uma cadeia de picos montanhosos cujos cimos escarpados são cobertos de neve. Nessa enorme região não há qualquer sinal de vida, nem coisa que a sugira. Nenhum pássaro no céu da cor do aço, nenhum movimento na terra árida e cinzenta… e, por toda parte, um silêncio absoluto. Por muito que se apure o ouvido, não há o mais ligeiro rumor naquele vastíssimo deserto; nada mais que o silêncio, um silêncio mortal e opressivo.

Dissemos que nessa larga planície nada havia sequer que lembrasse a vida, mas talvez isso não seja exato. Olhando-se do alto da serra Branca, divisa-se uma vereda que serpenteia através do deserto até se perder na distância. Está sulcada de rodas e batida pelos pés de muitos aventureiros. Aqui e ali, espalhados ao longo dela, vêem-se objetos brancos que brilham ao sol e se destacam contra o cinzento da poeira alcalina. Aproximem-se e examinem! São ossos: alguns grandes e grosseiros, outros menores e mais delicados. Os primeiros pertenceram a bovinos, os últimos, a seres humanos. Por dois mil e quinhentos quilômetros, pode-se rastrear essa rota macabra de caravanas seguindo os restos esparsos daqueles que tombaram no caminho.

Olhando para esse desolado cenário, lá estava, no dia 4 de maio de 1847, um viajante solitário. Tal era o seu aspecto, que ele bem poderia ter sido o gênio ou o demônio daquela região. Quem o observasse acharia difícil dizer se estava mais perto dos quarenta ou dos sessenta anos. Seu rosto era esquálido e descarnado; a pele escura, parecendo pergaminho, repuxava-se nos ossos salientes; seus compridos cabelos castanhos, bem como a barba, estavam estriados de branco; os olhos, no fundo das órbitas, ardiam num brilho anormal, ao passo que a mão, aferrada à carabina, tinha pouco mais carne que a de um esqueleto. Apoiava-se à arma para ficar em pé, mas a sua elevada estatura e seu arcabouço maciço denotavam uma constituição vigorosa. No entanto, o rosto emaciado e as roupas, que de tão folgadas lhe pendiam frouxas sobre os membros mirrados, proclamavam o motivo da sua aparência senil e decrépita. O homem estava morrendo… morrendo de fome e de sede.

Tinha se arrastado penosamente pelo barranco, e prosseguira até aquela pequena elevação, na vã esperança de avistar algum sinal de água. Agora a imensa planície salitrosa estendia-se diante dos seus olhos, delimitada por uma remota cadeia de montanhas inóspitas, sem um traço sequer de vegetação que indicasse a presença de umidade. Em toda aquela vasta paisagem não havia um laivo de esperança. Para norte e leste, para oeste, voltou ele os olhos investigadores e esbugalhados, e então compreendeu que a sua jornada sem rumo tinha chegado ao fim, que ali, sobre aquele penhasco desnudo, iria morrer. “E por que não aqui, em vez de num leito de plumas, há vinte anos?”, resmungou para si mesmo, sentando-se ao abrigo de uma lapa.

Antes de se sentar, tinha posto no chão a sua carabina inútil, e também um volumoso fardo envolto num xale cinzento, que carregava pendente do ombro direito. Parecia muito pesado para as suas forças, tanto que, ao retirá-lo, não pôde evitar que batesse no chão com certa violência. Imediatamente rompeu da trouxa cinzenta um ligeiro gemido, e dela surgiu um rostinho assustado, de olhos castanhos e vivazes, seguidos de dois minúsculos punhos sardentos.

— Machucou-me queixou-se uma vozinha infantil, em tom de reprovação.

— Machuquei? — disse o homem, penitenciando-se.

— Não foi de propósito.

Dizendo isso, abriu o xale e descobriu uma graciosa garotinha de uns cinco anos, cujos sapatinhos e um belo vestidinho cor-de-rosa, com seu pequeno avental branco, denotavam cuidados maternos. A criança parecia pálida e abatida, mas seus rosados braços e pernas mostravam que tinha sofrido menos do que o seu companheiro.

— Ainda dói? — perguntou ele, ansioso, pois a garotinha continuava a esfregar os cachos dourados e crespos que lhe cobriam a nuca.

— Dê um beijo que passa — disse ela, com a maior gravidade, indicando-lhe o lugar dolorido. — E assim que a mamãe faz. Onde está a mamãe?

— A sua mãe foi embora. Acho que em breve você irá se encontrar com ela.

— Foi embora? — perguntou a garotinha. — Por que será que ela não me disse adeus? Ela sempre me diz adeus, até  mesmo quando sai só para tomar chá com a titia. E agora já faz três dias que não vem. Não está com sede? Eu estou. Onde tem água e comida?

— Não temos nada, minha querida, nem água, nem comida. Tenha um pouco de paciência, que depois tudo se arranjará. Encoste a cabeça aqui, assim, e não tenha medo. Não é fácil falar com os lábios secos como couro, mas é melhor você saber tudo. Que é isso?

— Uma coisa bonita! Muito bonita! — exclamou a menina, entusiasmada, apertando nas mãos dois pedaços cintilantes de mica. — Quando eu chegar em casa, vou dar estes brilhantes ao meu irmão Bob.

— Daqui a pouco você vai ver coisas mais bonitas do que essas — disse o homem com segurança. — Espere um momentinho só. Eu ia lhe dizer que… lembra-se de quando nós partimos do rio?

— Lembro, sim.

— Pois é. Nós pensávamos encontrar outro rio. Mas houve um erro qualquer… na bússola, no mapa, não sei em quê, e o  rio não apareceu. A água que trazíamos se acabou. Ficaram só umas gotas para crianças como você e… e…

— E o senhor não pôde se lavar — interrompeu gravemente a menina, olhando para o rosto sombrio do homem.

— Não, nem beber. E o sr. Bender foi o primeiro a ir para o céu, e depois o índio Pete, e depois a sra. McGregor, e depois Johnny Hones, e depois, querida, a sua mãezinha.

— Então a mamãe também morreu! — exclamou a menina, escondendo o rosto no avental e começando a soluçar perdidamente.

— Sim, todos se foram, menos eu e você. Depois pensei que pudesse encontrar água nesta direção, e vim me arrastando com você no ombro. Mas parece que a nossa situação não melhorou. Agora não nos resta mais nada!

— Será que também vamos morrer? — perguntou a criança, dominando os soluços e erguendo o rostinho molhado de lágrimas.

— Parece que sim.

— Ora, por que não me disse mais cedo? — perguntou ela, rindo alegremente. — O senhor me deu um susto! Agora sim, já sei que morreremos e vamos para junto da mamãe.

— É verdade, você vai, minha querida.

— E o senhor também. Vou dizer a ela que foi muito bom para mim. Garanto que ela nos espera na porta do céu, com um enorme jarro de água na mão, e uma porção de bolinhos bem quentes, queimadinhos dos dois lados, como eu e Bob gostamos. Falta muito para irmos?

— Não sei… não muito.

Os olhos do homem estavam fixos no horizonte, ao norte. Na abóbada azul do céu tinham aparecido três pontos que aumentavam de tamanho a cada momento, tão rapidamente se aproximavam. Em pouco se revelaram três grandes pássaros escuros, que esvoaçaram acima das cabeças dos dois extraviados, e depois se empoleiraram numa rocha próxima. Eram bútios, os abutres do oeste, cujo aparecimento é o prenúncio da morte.

— Olhe as galinhas! — exclamou a garotinha alegremente, apontando para os vultos de mau agouro e batendo palmas para espantá-los. — Escute, foi mesmo Deus que fez este lugar?

— Sim, querida, foi ele — respondeu o homem, um pouco desconcertado com aquela pergunta inesperada.

— Ele também fez tudo lá em Illinois, e no Missouri — continuou a menina. — Mas parece que este lugar foi feito por outro. Porque não está tão bem-feito. Esqueceram a água e as árvores.

— Não quer começar a rezar? — perguntou o homem, titubeando.

— Mas ainda não é de noite!

— Não importa. E fora de hora, mas Nosso Senhor não repara nisso. Repita as rezas que dizia todas as noites na carreta, quando estávamos nas planícies.

— Por que não reza comigo? — perguntou a criança, arregalando os olhos.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

— Já não me lembro — respondeu ele. — Eu não rezo desde o tempo em que era da altura desta arma. Acho que nunca é tarde demais. Vá rezando que eu repito tudo.

— Então ajoelhe-se como eu — replicou a menina, estendendo o xale no chão. — Ponha as mãos assim. . . que é bom.

Era um estranho espetáculo… se houvesse alguém para observá-lo, além dos abutres. Lado a lado, no xale estreito, ajoelharam-se os dois viajantes, a menina tagarela e o rijo e temerário aventureiro. A carinha rechonchuda e o rosto anguloso e descarnado estavam ambos voltados para o céu sem nuvens, numa sentida prece ao ser temido com o qual se viam face a face, enquanto as duas vozes, uma fina e clara, a outra profunda e áspera, se uniam no mesmo pedido de misericórdia e perdão. Terminada a oração, voltaram a sentar-se à sombra da lapa, e pouco depois a criança adormecia, aninhada no largo peito do seu protetor. O homem ficou velando o seu sono por algum tempo, mas a natureza foi mais forte do que ele. Havia três dias e três noites que não tinha um único momento de repouso. Lentamente suas pálpebras desceram sobre os olhos cansados e a cabeça foi tombando para o peito, até que a barba grisalha se juntou às tranças de ouro da menina, e ambos caíram no mesmo sono profundo e sem sonhos.

Se o viajante continuasse acordado por outra meia hora, um espetáculo estranho teria se apresentado aos seus olhos. Longe, no extremo limite da planície arenosa, uma mancha de pó, muito difusa a princípio, e apenas visível entre as brumas da distância, foi aumentando, subindo, até se transformar numa nuvem grande e bem definida. Essa nuvem continuou a crescer, assumindo tais dimensões, que evidentemente só poderia ser levantada por uma grande multidão de criaturas em marcha. Em região mais fértil, o observador teria chegado à conclusão de que uma dessas grandes manadas de búfalos que pastam nas pradarias estava se aproximando. Mas tal coisa não era possível naquela desolada aridez. À medida em que o turbilhão de pó se avizinhava da escarpa solitária onde repousavam os dois viajantes, toldos de carroções e figuras de cavaleiros armados começaram a se desenhar na poeira, e a aparição revelou-se uma grande caravana em marcha para o oeste. E que caravana! Quando a frente dela atingiu o sopé das montanhas, a retaguarda ainda não era visível no horizonte. Através de toda a imensa planura, estendia-se o sinuoso cortejo de carroções, de homens a cavalo e a pé. Mulheres sem conta cambaleavam sob fardos, crianças marchavam ao lado das carretas ou espiavam por entre os toldos brancos. Evidentemente não se tratava de um grupo comum de migrantes, mas antes de um povo nômade que pela força das circunstâncias se vira compelido a procurar outras terras. Ouvia-se, no ar límpido, um confuso clamor de vozes e de rodas, produzido por aquela grande massa humana. Cavalos relinchavam, os carros guinchavam. Mas semelhante estrondo, conturbando a planície inteira, não foi suficiente para acordar os dois fatigados viajantes que dormiam no penhasco próximo.

A testa da coluna cavalgavam cerca de vinte homens de rostos graves e ferrenhos, vestidos de panos sombrios, tecidos  em casa, e armados de carabinas. Ao chegarem ao sopé do monte escarpado, fizeram alto e formaram um breve conselho.

— Os poços ficam para a direita, meus irmãos — disse um deles, de cabelos grisalhos, barba raspada e lábios duros.

— À direita da serra Branca… depois alcançaremos o rio Grande — disse um outro.

— Não receiem a falta de água! — exclamou um terceiro. — Aquele que a fez brotar da rocha não abandonará agora o seu povo escolhido.

— Amém! Amém! — respondeu o grupo em coro.

Recomeçavam a sua jornada, quando um dos mais jovens, que tinha melhor vista, deixou escapar uma exclamação e apontou para a pedra acima deles. Contra a rocha cinzenta, qualquer coisa rosada se recortava com viva nitidez. Vendo-a, todos puxaram a rédea dos cavalos e desprenderam as armas, ao passo que outros cavaleiros avançaram a galope para reforçar a frente. A palavra “peles-verrnelhas” andava em todos os lábios.

— Não pode haver índios aqui — disse o homem idoso que parecia ser o comandante. — Já atravessamos a região dos pawnees, e não encontraremos outras tribos antes de chegarmos às grandes montanhas.

— Posso fazer um reconhecimento, irmão Stangerson? — perguntou um deles.

— Eu também, eu também! — gritaram muitas vozes.

— Deixem os cavalos aqui embaixo e nós os esperaremos — respondeu o ancião.

Um momento depois, os jovens tinham desmontado e, puxando os seus cavalos, subiam a falda íngreme que levava ao  objeto da sua curiosidade. Avançavam rápidos e silenciosos, com a destreza e a confiança de exploradores experimentados. Os outros, da planura subjacente, viram-nos saltar de rocha em rocha, até que as suas figuras se destacaram contra o céu liso. O jovem que fora o primeiro a dar o alarme ia à frente. De repente, os que o acompanhavam viram que ele erguia as mãos para o céu, como tomado de espanto, e, ao chegarem, mostraram a mesma emoção ante o espetáculo que tinham sob os olhos.

No pequeno planalto que encimava a penedia, erguia-se uma lapa solitária, e contra ela jazia um homem de elevada estatura, barba comprida, feições duras, e extremamente magro. O seu rosto plácido e a respiração regular mostravam que dormia profundamente. Ao lado dele repousava a menininha, cujos braços roliços e brancos lhe enlaçavam o pescoço musculoso, e cuja cabecinha dourada descansava sobre a sua túnica de belbute. A criança tinha os lábios rosados entreabertos e mostrava uma linha regular de dentes alvíssimos, com um sorriso adorável no rosto inocente. As perninhas gorduchas, com as meias brancas e os sapatos limpos, de fivelas brilhantes, contrastavam com os membros compridos e descarnados do seu companheiro. Sobre o rochedo que ficava acima desse estranho par, empoleiravam-se três solenes abutres, que, à vista dos recém-chegados, grasnaram roucamente o seu desapontamento e desapareceram em vôo súbito.

Os grasnidos das horrendas aves despertaram os adormecidos, que olharam atônitos em volta. O homem levantou-se cambaleando e alongou a vista para a planície que se mostrara tão desolada antes que o vencesse o sono, e que era agora atravessada por aquela enorme massa de homens e animais. O seu rosto assumiu uma expressão de incredulidade, e ele passou a mão ossuda pelos olhos.

— Deve ser aquilo a que chamam delírio — balbuciou.

A criança, a seu lado, agarrava-se à aba da sua túnica e não dizia palavra, mas olhava em torno, com os olhos atônitos e interrogativos da infância.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

A expedição de socorro não tardou a convencer os dois extraviados de que a sua presença não era uma alucinação. Um deles pegou a menina e colocou-a ao ombro, enquanto dois outros amparavam o seu exausto companheiro, ajudando-o a descer até as carroças.

— Chamo-me John Ferrier — explicou o viajante. — Eu e a garotinha somos os únicos sobreviventes de uma caravana de vinte e uma pessoas. Os outros morreram de fome e sede lá embaixo, no sul.

— Ela é sua filha? — perguntou alguém.

— De agora em diante é como se fosse — respondeu o homem, em tom de desafio. — É minha porque fui eu que a salvei.  Ninguém jamais a tirará de mim. A partir de hoje, será Lucy Ferrier. Mas quem são os senhores? — continuou ele, olhando com curiosidade para os seus rijos e bronzeados salvadores. — Parecem não ter fim.

— Quase dez mil — respondeu um dos jovens. — Somos os filhos de Deus perseguidos… os escolhidos do anjo Merona.

— Nunca ouvi falar nele — disse o viajante. — Parece que ele escolheu muita gente.

— Não zombe do que é sagrado — replicou o outro, gravemente. — Somos aqueles que acreditam nas Sagradas Escrituras gravadas em letras egípcias, em lâminas de ouro batido, e que foram entregues ao santo Joseph Smith em Palmira. Viemos de Nauvoo, no Estado de Illinois, onde tínhamos erguido o nosso templo. Estamos à procura de um refúgio contra os homens violentos e ímpios, ainda que seja no coração do deserto.

O nome de Nauvoo, evidentemente, despertou algumas recordações em John Ferrier.

— Compreendo — disse ele. — São mórmons.

— Somos mórmons — responderam os outros, a uma voz.

— E para onde vão?

— Não sabemos. A mão de Deus nos guia na pessoa do nosso profeta. Agora vamos levá-lo à sua presença. Ele dirá o que se deve fazer com você.

Já haviam atingido o sopé do monte e estavam cercados por uma multidão de peregrinos… mulheres de rosto pálido e aspecto submisso, crianças robustas e sorridentes, homens ansiosos e de olhar sério. Muitas foram as exclamações de espanto e comiseração, quando viram aquele par errante: ela tão pequena e ele tão depauperado. A escolta, todavia, não se deteve, e continuou a avançar, acompanhada por uma grande multidão de mórmons, até chegar a uma carreta que se distinguia das outras pelas dimensões e pelo aspecto suntuoso. Seis cavalos estavam atrelados a ela, ao passo que as outras tinham apenas uma parelha ou, no máximo, duas. Ao lado do boleeiro estava sentado um homem que não poderia ter mais de trinta anos de idade, mas cuja cabeça maciça e expressão resoluta revelavam um chefe. Estava lendo um livro de couro escuro, mas colocou-o de lado, quando a multidão se aproximou, e ouviu atentamente a narração do episódio. Depois, voltou-se para os dois extraviados.

— Se os levarmos conosco — disse ele em tom solene —, só poderá ser como crentes da nossa fé. Não queremos lobos no nosso rebanho. Melhor será que seus ossos fiquem embranquecendo neste deserto do que serem o minúsculo ponto de impureza que mais tarde pode corromper toda a fruta. Querem vir conosco sob essas condições?

— Por mim, vou sob quaisquer condições — respondeu Ferrier com tal veemência que os solenes anciãos não puderam reprimir um sorriso. Somente o chefe manteve a sua expressão grave e impressionante.

— Leve-o, irmão Stangerson — disse ele. — Dê-lhe de beber e de comer, e à criança também. Será sua a tarefa de instruí-lo na nossa santa religião. Já nos atrasamos demasiado. Avante! Avante para o Sião!

— Avante para o Sião! — repetiu a multidão de mórmons, e as palavras foram ecoando pela comprida caravana, passando de boca em boca, até se perder num confuso murmúrio, à distância. Sob o estalo dos chicotes e o rangido das rodas, os grandes carroções puseram-se em movimento, e dentro em pouco toda a caravana começou novamente a serpentear pelo deserto. O ancião sob cujos cuidados tinham ficado os dois viajantes perdidos levou-os para a sua carroça, onde uma lauta refeição já os esperava.

— Vocês ficarão aqui — disse ele. — Em poucos dias recuperarão as forças. No entanto, lembrem-se de que para todo o sempre pertencerão à nossa religião, Brigham Young assim o disse, e ele falou pela voz de Joseph Smith, que é a voz de Deus.

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock