Um estudo em vermelho – Segunda parte, Capítulo 3

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Segunda parte: A terra dos santos

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo terceiro: John Ferrier fala com o profeta

Três semanas tinham se passado desde que Jefferson Hope e seus companheiros haviam partido de Salt Lake City. John Ferrier sentia um aperto no coração quando pensava no regresso do jovem e na iminente perda da sua filha adotiva. Mas a expressão radiante de Lucy, o seu rosto feliz, reconciliavam-no com semelhante idéia mais do que qualquer outro argumento. No fundo do seu coração resoluto, sempre abrigara o firme propósito de que nada o levaria a consentir no casamento de sua filha com um mórmon. Aos seus olhos, um matrimônio dessa ordem não era um sacramento, mas vergonha e desonra. Quaisquer que fossem as suas idéias a respeito da doutrina dos mórmons, era inflexível quanto a esse ponto. Tinha, no entanto, que selar os lábios, pois naqueles dias era coisa muito perigosa expressar uma opinião herética na terra dos santos.

Sim, uma coisa deveras perigosa… tão perigosa, que até os mais piedosos apenas ousavam sussurrar as suas opiniões religiosas em voz velada, por temor de que suas palavras fossem mal interpretadas e lhes trouxessem um rápido castigo. As vítimas da perseguição tinham se transformado agora em perseguidores da pior espécie. A Inquisição de Sevilha, o Femgericht alemão, as sociedades secretas da tália… nenhuma organização jamais conseguira pôr em movimento máquina mais formidável do que aquela que estendia a sua sombra sobre o Estado de Utah.

O caráter invisível e misterioso dessa organização tornava-a duplamente terrível. Parecia onipotente e onisciente, mas ninguém a via nem a ouvia. O homem que se erguesse contra a Igreja desaparecia sem que ninguém soubesse para onde fora ou o que lhe sucedera. Sua mulher e seus filhos esperavam-no em casa, mas nenhum pai jamais regressou para lhes contar como se agüentara nas mãos dos seus juízes secretos. Uma palavra imprudente ou um gesto precipitado eram seguidos pela aniquilação, e no entanto ninguém sabia qual era a natureza daquele poder que pairava sobre todos. Não admira então que os homens andassem tremendo de medo, e que nem no coração do deserto ousassem cochichar as dúvidas que os oprimiam.

A princípio, esse vago e terrível poder era exercido somente sobre os recalcitrantes, que, tendo abraçado o credo dos mórmons, quisessem mais tarde pervertê-lo ou abandoná-lo. Mas cedo se ampliou o seu raio de ação. A provisão de mulheres adultas escasseava, e a poligamia sem uma população feminina para a qual apelar era uma doutrina mexeqüível. Estranhos rumores começaram a circular. . . falava-se de migrantes assassinados e de campos devastados em regiões onde nunca se haviam visto índios. Novas mulheres apareciam nos haréns dos anciãos… mulheres que definhavam e choravam, e que traziam no rosto a marca indelével do terror. Viajantes retardatários referiam-se a bandos de homens armados e mascarados, que furtiva e silenciosamente passavam por eles nas trevas. Esses boatos e histórias tomavam forma e substância, e eram repetidamente corroborados, até que se resumiram num nome bem definido. Até hoje, nos ranchos solitários do oeste, o nome do Bando de Danite ou dos Anjos Vingadores é sinistro e de mau agouro.

Um conhecimento mais amplo da organização que produzia tão terríveis resultados aumentava, ao invés de diminuir, o terror que ela inspirava aos habitantes do Utah. Ninguém sabia quem eram os componentes dessa impiedosa sociedade. Os nomes dos participantes das façanhas sangrentas e brutais, cometidas em nome da religião, eram mantidos em profundo segredo. O próprio amigo a quem confiássemos as nossas dúvidas quanto ao profeta e à sua missão poderia ser um dos que à noite viriam buscar uma reparação com ferro e fogo. Por isso, cada homem temia o próximo, e ninguém falava das coisas que abrigava no seu coração.

Uma bela manhã, John Ferrier dispunha-se a partir para os seus trigais, quando ouviu ranger o portão, e, olhando pela janela, viu um homem de meia-idade, ruivo e corpulento, que avançava pela vereda do jardim. O coração pulou- lhe no peito, pois não era outro senão o grande Brigham Young em pessoa. Tremendo, pois sabia que semelhante visita não lhe era de bom augúrio, Ferrier correu a dar as boas-vindas ao chefe mórmõn. Este, porém, recebeu com frieza os seus cumprimentos e de rosto grave o acompanhou até a sala de visita.

— Irmão Ferrier — disse ele, sentando-se e encarando penetrantemente o fazendeiro sob os cílios claros —, os verdadeiros crentes têm sido bons amigos seus. Nós o recolhemos quando morria de fome no deserto, dividimos com você o nosso pão e o levamos são e salvo para o Vale Sagrado, demos-lhe um bom quinhão de terra e permitimos que enriquecesse sob a nossa proteção. Não é assim?

— É — respondeu John Ferrier.

— Em troca de tudo isso, pedimos-lhe apenas uma condição: que abraçasse a verdadeira fé e respeitasse todos os seus mandamentos. Foi isso o que prometeu fazer, e é isso o que não tem cumprido, se é verdade o que se diz.

— E de que modo não o cumpri? — perguntou John Ferrier, erguendo as mãos para o céu à guisa de protesto. — Não tenho contribuído para o fundo comum? Não tenho freqüentado o templo? Não tenho…

— Onde estão as suas mulheres? — perguntou Brigham Young, olhando em torno. — Chame-as, para que eu as saúde.

— É verdade que não me casei — respondeu Ferrier.

— Mas as mulheres eram poucas, e havia muitos que tinham maiores direitos do que eu. Além disso, eu não estava só: tinha a minha filha, que cuidava de mim.

— É a respeito dessa filha que desejo falar — disse o chefe dos mórmons. — Ela se tornou a flor do Utah e tem agradado aos olhos de muitos, que estão entre os primeiros da nossa terra.

John Ferrier gemeu consigo mesmo.

— Correm histórias sobre ela em que eu não gostaria de acreditar… histórias que a dão como noiva de um incrédulo. Sem dúvida são conversas de línguas ociosas. Qual é o décimo terceiro mandamento do Santo Joseph Smith? “Toda donzela pertencente à verdadeira fé deve desposar um dos eleitos para não cometer o pecado mortal de unir-se a um pagão.” Assim sendo, como você professa a verdadeira religião, não deve permitir que ela cometa um sacrilégio.

John Ferrier permaneceu mudo, brincando distraidamente com o chicote.

— Nesse único ponto é que toda a sua fé será posta à prova… assim foi decidido pelo Sagrado Conselho dos Quatro. Sua filha é moça, e não queremos que se case de cabelos grisalhos, nem desejamos privá-la de escolha. Nós, os anciãos, temos muitas vitelas [1], mas nossos filhos precisam ter as suas. Stangerson tem um rapaz e Drebber, outro. Qualquer desses rapazes receberia de bom grado sua filha em casa deles. São jovens, ricos, e pertencem à verdadeira fé. Que diz a isso?

Ferrier permaneceu longo tempo em silêncio, com a fronte enrugada.

— Dê-nos mais algum tempo — disse ele por fim. — Minha filha é muito moça… mal chegou à idade de se casar.

— Ela terá um mês para escolher —  disse Young, levantando-se —  Findo esse prazo, deverá dar-nos a sua resposta.

No momento de transpor o limiar da porta, o profeta voltou-se. Tinha o rosto vermelho, e os seus olhos cintilavam.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

— Seria melhor, John Ferrier — trovejou ele —, que você e sua filha fossem agora dois esqueletos perdidos na serra Branca do que opor a sua débil vontade às ordens do Sagrado Conselho dos Quatro!

Com um gesto ameaçador, deixou a porta, e Ferrier ouviu a areia do jardim ranger sob os seus pesados passos.

Ainda estava sentado, com um cotovelo nos joelhos, pensando em como falar à filha sobre aquele assunto, quando uma mão suave lhe pousou no ombro. Volvendo a vista, achou-a a seu lado, e um simples olhar para aquele pálido e assustado rosto lhe demonstrou que Lucy tinha ouvido o que se passara.

— Era impossível não ouvir — disse ela, em resposta ao seu olhar. — A voz dele reboava em toda a casa. Oh! Meu pai, meu pai, que faremos?

— Não tenha medo — disse ele, puxando-a para si e acariciando os seus cabelos castanhos com a mão larga e calosa. — De um modo ou de outro, haveremos de encontrar uma saída. Não mudou de idéia a respeito daquele rapaz, não?

Um soluço e uma pressão dos dedos foi a única resposta.

— Sei bem que não. Nem eu gostaria de ouvi-la dizer o contrário. É um belo rapaz e um bom cristão, coisa que não direi quanto a esta gente aqui, apesar de todas as suas
rezas e sermões. Amanhã parte uma expedição para Nevada, e arranjarei um modo de lhe mandar uma mensagem com todos os pormenores da nossa triste situação. Se não me engano a respeito desse rapaz, ele há de chegar aqui mais depressa que o telégrafo.

Lucy riu por entre as lágrimas ante a comparação do pai.

— Quando ele vier, vai nos aconselhar sobre o que fazer. Mas é pelo meu querido pai que tenho medo. Ouvem-se… ouvem-se histórias medonhas a respeito dos que se opõem ao profeta: acontece-lhes sempre qualquer coisa de horrível.

— Mas ainda não nos opusemos a ele — redargüiu-lhe o pai. — Ë inútil nos abrigarmos antes da chuva. Há um mês inteiro pela frente, mas antes de findar esse prazo acho que teremos de sair daqui.

— Deixar o Utah?

— Não vejo outra solução.

— E a fazenda?

— Reuniremos todo o dinheiro que pudermos e abandonaremos o resto. Para dizer a verdade, Lucy, não é a primeira vez que penso nisso. Não gosto de andar rastejando diante de um homem, como éssa gente faz com o seu profeta dos diabos. Sou um livre cidadão americano e não me habituo a essas coisas. Acho que estou demasiado velho para isso. Se ele começar a se meter nesta fazenda, é bem provável que encontre uma carga de chumbo pela frente.

— Mas ele não nos deixará ir embora — observou a moça.

— Espere até que Jefferson chegue, e então trataremos disso. Por enquanto, não se aflija, minha querida, nem fique de olhos vermelhos, senão ele pode me pedir contas disso. Não é preciso ter medo, e ainda não há perigo algum.

John Ferrier pronunciou essas consoladoras palavras num tom muito confiante, mas ela não deixou de notar que, nessa noite, ele dispensou maior atenção às trancas das portas e limpou cuidadosamente e carregou a velha espingarda de caça pendente da parede do seu quarto.

[1] Herber C. Kemball, num dos seus sermões, aludia às suas cem mulheres com esse afetuoso epíteto. (N. do A.)

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock