Um estudo em vermelho – Segunda parte, Capítulo 4

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Segunda parte: A terra dos santos

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo quarto: Fuga desesperada

Na manhã seguinte ao colóquio com o profeta mórmon, John Ferrier foi a Salt Lake City, encontrou-se com o seu conhecido que partia para a serra Nevada e confiou-lhe uma mensagem para Jefferson Hope. Nessa mensagem, expunha ao jovem o iminente perigo que os ameaçava, encarecendo-lhe a urgência do seu regresso. Feito isso, sentiu-se aliviado e voltou para casa com o ânimo mais sereno.

Ao aproximar-se da fazenda, viu com surpresa dois cavalos imarrados em cada moirão da porteira. Ainda mais surpreso ficou quando, ao entrar em casa, encontrou dois jovens de posse da sua sala de visita. Um deles, de rosto pálido e comprido, estava recostado na sua cadeira de balanço, com os pés apoiados sobre a estufa. O outro, um rapaz de pescoço taurino, feições congestionadas e grosseiras, achava-se de pé junto à janela e assobiava uma canção popular. Ambos saudaram Ferrier com um aceno de cabeça, e o que estava sentado iniciou a conversa.

— Talvez o senhor não nos conheça — disse ele. — Este é o filho do ancião Drebber, e eu sou Joseph Stangerson. Viajamos juntos pelo deserto, quando o Senhor estendeu a sua mão e o acolheu no verdadeiro rebanho.

— Como fará com todas as nações quando soar a sua hora — disse o outro numa voz nasal. — Ele mói devagar, mas a sua farinha é finíssima.

Ferrier inclinou a cabeça com certa frieza. Já tinha uma idéia de quem fossem os seus visitantes.

— Viemos aqui — prosseguiu Stangerson — a conselho dos nossos pais, a fim de pedir-lhe a mão de sua filha para aquele de nós que pareça preferível a ela ou ao senhor. Como tenho apenas quatro esposas e o irmão Drebber tem sete, creio ter mais direito.

— Nada disso, irmão Stangerson! — exclamou o outro. — O importante não é o número de mulheres que temos, mas quantas podemos sustentar. Meu pai acaba de dar-me os seus moinhos, e sou mais rico do que você.

— Mas as minhas perspectivas são melhores — objetou o outro vivamente. — Quando o Senhor chamar o meu pai, serei o dono do seu curtume e do seu empório de couros. Além disso, sou o mais velho-e tenho um cargo mais alto na Igreja.

— Deixaremos a escolha para a jovem — concluiu Drebber, sorrindo afetadamente diante do espelho. — Sim, ela é quem deverá decidir.

Durante esse diálogo, John Ferrier ficara espumando de raiva no limiar da porta, contendo a custo o ímpeto de lançar o chicote sobre os seus dois visitantes.

— Ouçam bem — disse por fim, avançando para eles.

— Quando a minha filha mandar chamá-los, podem vir aqui, mas antes disso não quero ver a cara de vocês.

Os dois jovens mórmons fitaram-no atônitos. Aos seus olhos, aquela competição entre eles pela mão da donzela era uma grande honra, tanto para ela como para o pai.

— Há duas maneiras de sair desta sala — bradou Ferrier. — Pela porta ou pela janela. Qual preferem?

Tão feroz era a sua expressão e ameaçadoras as suas mãos, que os visitantes, pondo-se imediatamente em pé, bateram em rápida retirada. O velho fazendeiro seguiu-os até a porta.

— Avisem-me quando tiverem resolvido qual dos dois será o noivo — disse ele ironicamente.

— Pagará caro por isso — gritou Stangerson, pálido de raiva. — Desafiou o profeta e o Conselho dos Quatro. Há de se arrepender até o fim dos seus dias.

— A mão do Senhor cairá sobre você — gritou o jovem Drebber. — Ela se erguerá e o destruirá.

— Pois eu começo a destruição! — exclamou Ferrier, furioso, e teria corrido em busca de sua espingarda se Lucy não o impedisse, agarrando-lhe um braço.

Antes que o velho pudesse se desvencilhar dela, o tropel dos cavalos anunciou-lhe que ambos já estavam fora do seu alcance.

— Grandessíssimos hipócritas! — exclamou ele, enxugando o suor da testa. — Prefiro vê-la morta, minha filha, a vê-la casada com um deles.

— E também eu prefiro a morte, meu pai — respondeu Lucy com firmeza. — Mas Jefferson há de voltar.

— Sim, ele não tardará muito em chegar. Quanto mais cedo melhor, porque não sabemos o que eles farão agora.

Era na verdade a ocasião propícia para que alguém capaz de dar conselho e ajuda se unisse ao velho e rijo agricultor e sua filha adotiva. Em toda a história da colônia nunca houvera um caso de franca desobediência à autoridade dos anciãos. Se culpas menores eram punidas tão seriamente, qual não seria o destino daquele arqui-rebelde? Ferrier sabia que sua riqueza e sua posição de nada lhe valeriam. Outros, tão conhecidos e ricos como ele, já tinham sido suprimidos, e os seus bens dados à Igreja. Ferrier era um homem corajoso, mas tremia ante os horrores sombrios e indefinidos que pairavam sobre ele. Teria afrontado qualquer perigo manifesto sem piscar os olhos, mas aquela incerteza era enervante. Todavia, escondeu da filha os seus temores, fingindo encarar aquilo com despreocupação, mas Lucy, com o olhar penetrante do afeto, via claramente as suas apreensões.

John Ferrier esperava receber alguma mensagem ou admoestação, da parte de Young, quanto à sua conduta; e realmente recebeu, mas de modo imprevisto. Ao levantar-se na manhã seguinte, encontrou, com grande surpresa, um pequeno retângulo de papel preso por um alfinete nas cobertas da sua cama, exatamente à altura do peito. Em letras de fôrma, grandes e tortas, podia-se ler:

RESTAM VINTE E NOVE DIAS PARA QUE VOCÊ SE
EMENDE, ANTES DE…

As reticências eram mais assustadoras do que qualquer ameaça explícita. De que maneira aquela advertência chegara ao seu quarto, eis o que deixava Ferrier bastante perplexo, pois os seus criados dormiam numa construção isolada e todas as portas e janelas tinham sido trancadas. O velho amarrotou o papel e jogou-o fora, nada dizendo à filha, mas o incidente gelou-lhe o sangue nas veias. Os vinte e nove dias eram, evidentemente, os restantes do mês que Young lhe havia dado. De que poderia valer a força ou a coragem contra um inimigo armado de tais poderes misteriosos? A mão que enfiara aquele alfinete poderia tê-lo golpeado no coração, sem lhe dar tempo para saber quem o assassinava.

Ainda mais abalado ficou na manhã seguinte. Apenas tinham se sentado à mesa para o café, quando Lucy, com uma exclamação de surpresa, apontou para cima. No meio do teto estava garatujado, talvez com a ponta de um tição, o número 28. Para a filha aquilo era ininteligível, e ele nada lhe disse a esse respeito. Nessa noite, pegou na espingarda e ficou de guarda até o raiar do dia. Não viu nem ouviu coisa alguma, mas um grande 27 apareceu pintado do lado de fora da sua porta.

Assim se seguiram os dias; e todas as manhãs, tão certo como o alvorecer, ele verificava que os seus inimigos invisíveis mantinham o registro, assinalando de modo patente quantos dias de graça lhe restavam. Às vezes os números fatais apareciam nas paredes, outras, no soalho, ocasionalmente, em pequenos cartazes enfiados no portão do jardim ou nas grades da cerca. Apesar de toda a sua vigilância, John Ferrier não podia descobrir de onde procediam aquelas advertências diárias. Um terror quase supersticioso o invadia à vista de cada uma delas. Tornou-se macilento, inquieto, e os seus olhos tinham a expressão desorientada do animal acossado. Restava-lhe agora apenas uma esperança na vida, que era a chegada do jovem caçador de Nevada.

Os vinte dias haviam se tornado quinze, e os quinze, dez, mas não havia notícias do ausente. Um a um os números iam diminuindo, e nem sinal dele. Quando um cavaleiro galopava pela estrada, ou um carreteiro gritava às suas parelhas, o velho fazendeiro acorria ao portão, pensando que chegava finalmente o auxílio esperado. Por fim, quando viu os cinco dias se reduzirem a quatro e os quatro a três, perdeu o ânimo e toda esperança de salvação.

Sozinho, mal conhecendo as montanhas que cercavam a colônia, sabia que nada podia fazer. As estradas mais freqüentadas eram severamente vigiadas e guardadas, e ninguém podia passar sem uma ordem do conselho. Para qualquer lado que se voltasse, não lhe parecia haver meios de aparar o golpe que pairava sobre ele. Todavia, o velho nunca vacilou na sua resolução de antes perder a vida do que consentir naquilo que considerava a desonra de sua filha.

Uma noite estava sentado em casa, sozinho, meditando profundamente sobre as suas aflições e procurando inutilmente um meio de afastá-las. Naquela manhã, o número 2 aparecera na parede de sua casa, e o dia seguinte seria o último do prazo concedido. Que aconteceria então? Toda espécie de vagos e terríveis pressentimentos lhe assoberbavam a imaginação. E a filha… que seria dela após a sua morte? Não haveria como fugir da rede invisível que os envolvia? Deixando cair a cabeça sobre a mesa, pôs-se a soluçar ante a sua impotência.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

Mas que era aquilo? No silêncio, ouvira um leve rumor, como se alguém arranhasse a porta… um som fraco, mas muito distinto na quietude da noite. Ferrier esgueirou-se pelo corredor e apurou o ouvido. Houve uma pausa de alguns instantes, e depois o rumor leve e insidioso recomeçou. Alguém estava evidentemente batendo muito de leve nas folhas da porta. Seria algum assassino vindo no meio da noite para executar as ordens cruéis do tribunal secreto? Ou algum emissário assinalando que tinha soado o último dia de graça? John Ferrier sentiu que a morte instantânea seria melhor do que semelhante ansiedade, que lhe abalava os nervos e gelava o sangue no seu coração. De um salto, tirou a tranca e abriu a porta.

Lá fora, tudo quieto e silencioso. A noite era límpida, as estrelas cintilavam na amplidão. O pequeno jardim cercado estava diante dos seus olhos, mas nem ali nem na estrada se enxergava vivalma. Com um suspiro de alívio, Ferrier olhou para a direita e para a esquerda, até que, olhando para os próprios pés, viu com espanto um homem estendido por terra, com os braços e as pernas abertos.

Tão sobressaltado ficou diante daquilo, que se encostou na parede, levando a mão à garganta, como para sufocar um grito involuntário. O seu primeiro pensamento foi de que a figura prostrada era um homem ferido ou moribundo, mas logo notou que ele se arrastava no chão, e em pouco o viu entrar em sua casa com a rapidez e o silêncio de uma serpente. Sob o seu teto, o homem pôs-se de pé, fechou a porta e, ante o fazendeiro atônito, descobriu o rosto audaz e resoluto de Jefferson Hope.

— Deus do céu! — exclamou John Ferrier. — Que susto! Por que cargas d’água entrou desse modo?

—  Dê-me de comer — disse o outro em voz rouca. — Há quarenta e oito horas que não ponho nada na boca.

Dizendo isso, atirou-se ao pão e à carne fria que desde o jantar ainda estavam na mesa, e devorou-os vorazmente.

— Lucy tem-se mostrado corajosa? — perguntou ele, depois de aplacar a sua fome.

— Tem, sim. Ela ignora todo o perigo — respondeu o velho.

—  Tanto melhor. A casa está vigiada por todos os lados. Foi por isso que vim rastejando. Eles podem ser muito espertos, mas não o bastante para apanharem um caçador washoe.

John Ferrier sentia-se outro homem ao ver que contava agora com um fiel aliado. Tomando a áspera mão do jovem, apertou-a cordialmente.

— Você merece a minha admiração — disse ele. — Não são muitos os homens que se arriscariam a vir compartilhar do nosso perigo e das nossas dificuldades.

— Não digo que não — respondeu o jovem. — Respeito-o muito, mas, se o senhor estivesse sozinho, eu pensaria duas vezes antes de entrar. E Lucy que me traz aqui, e, antes que lhe aconteça qualquer coisa, desconfio que haverá um homem a menos na família Hope do Utah.

— Que devemos fazer?

— Amanhã é o último dia, e, se não agirmos esta noite, estaremos perdidos. Tenho uma mula e dois cavalos à nossa espera, no Barranco da Aguia. De quanto dinheiro dispõe?

— Dois mil dólares em ouro e cinco mil em dinheiro.

— Isso é o suficiente. Tenho outro tanto comigo. Podemos alcançar Carson City através das montanhas. É melhor acordar Lucy. A sorte é que os criados não dormem dentro de casa.

Enquanto Ferrier foi chamar sua filha, Jefferson Hope fez um pequeno volume de todos os víveres que pôde encontrar e encheu um garrafão de água, pois sabia, por experiência, que os mananciais da montanha eram poucos e distantes. Mal tinha feito essas provisões, e o fazendeiro já estava de volta com a sua filha, vestida e pronta para partir. Os namorados trocaram cumprimentos calorosos mas breves, porque os minutos eram preciosos e havia muito que andar.

— Devemos partir imediatamente — disse Jefferson Hope, falando em voz baixa mas resoluta, como quem avalia a extensão do perigo e está resolvido a enfrentá-lo. — As portas da frente e de trás estão sendo vigiadas, mas podemos sair pela janela do lado e atravessar o campo. Chegando à estrada, estaremos apenas a três quilômetros do barranco onde se encontram os cavalos. O romper do dia nos encontrará em plena montanha.

— E se formos detidos? — perguntou Ferrier.

Hope bateu no cabo do revólver, que sobressaía à frente da sua túnica. — Se forem muitos para nós, levaremos dois ou três conosco disse ele com um sorriso sombrio.

As luzes do interior da casa foram apagadas, e Ferrier, pela janela escura, espreitou os campos que tinham sido seus e que agora ia abandonar para sempre. Todavia, já estava preparado para aquele sacrifício, e a honra e a felicidade da filha contrabalançavam qualquer pesar ante a sua fortuna arruinada. Tudo parecia tão sossegado e feliz, nas árvores que rumorejavam docemente à brisa e na quieta extensão do trigal, que era difícil crer que em tudo pairasse uma ameaça de morte. Mas o rosto pálido e apreensivo do jovem caçador demonstrava que, ao aproximar-se da casa, ele vira o suficiente para saber o que podiam esperar.

Ferrier levava a bolsa com o dinheiro e o ouro, Jefferson, as escassas provisões e a água, e Lucy, uma trouxa na qual reunira os seus pertences mais valiosos. Abrindo a janela devagar e com o maior cuidado, esperaram até que uma nuvem escurecesse um pouco mais o céu, e depois, um a um, desceram ao jardim. Curvados, com a respiração suspensa, atravessaram-no e assim chegaram ao abrigo de sebe, junto ao qual andaram até alcançar uma abertura que dava para os campos de trigo. Estavam nesse ponto, quando o jovem, segurando os seus dois companheiros, os puxou para a sombra, onde ficaram trêmulos e calados.

Por sorte, a vida nas pradarias tinha dado a Jefferson um ouvido agudíssimo. Ele e os seus amigos mal se haviam abaixado, quando se ouviu, a poucos passos de distância, o pio melancólico de um mocho da montanha, que foi imediatamente seguido de outro, não muito distante. No mesmo instante, um vulto escuro e indefinido emergiu da abertura para a qual havia pouco eles se dirigiam, e emitiu novamente aquele grito queixoso. A esse sinal, um segundo homem surgiu da escuridão.

— Amanhã, à meia-noite — disse o primeiro, num tom de quem está habituado a mandar. — Quando o mocho piar três vezes.

— Está bem — tornou o outro. — Aviso o irmão Drebber?

— Passe-lhe a senha, e ele que a passe aos outros. Nove por sete!

— Sete por cinco! — respondeu o outro, e as duas sombras desapareceram em direções opostas.

As últimas palavras eram sem dúvida uma espécie de senha e contra-senha. Assim que os seus passos se perderam na distância, Jefferson Hope pôs-se em pé, auxiliou os companheiros a passar pela abertura da sebe e, correndo quanto lhe permitiam as pernas, guiou-os através dos campos, auxiliando e quase carregando a jovem, quando as forças pareciam lhe faltar.

— Depressa, depressa! repetia ele de quando em quando. — Estamos passando a linha das sentinelas. Tudo depende da rapidez. Apressem-se!

Chegando à estrada, puderam prosseguir mais rapidamente. Só uma vez encontraram alguém, mas conseguiram dissimular-se no trigal, evitando ser reconhecidos. Pouco antes da cidade, o caçador tomou uma bifurcação que levava às montanhas. Era uma senda estreita e áspera. Dois picos negros e denteados assomavam nas trevas, acima; por entre eles passava o desfiladeiro que levava ao Barranco da Aguia, que era onde tinham ficado os cavalos. Com certeiro instinto, Jefferson Hope foi abrindo caminho entre as lapas gigantescas e pelo leito de um rio seco, até chegar ao desvão distante, protegido pelas rochas, onde os fiéis animais os esperavam. A jovem foi içada para a mula, o velho Ferrier montou num cavalo com a sua bolsa de dinheiro, e Jefferson Hope pulou na sela do outro, tomando a dianteira para guiá-los através do passo alcantilado e perigoso.

Para quem não estivesse habituado a lidar com a natureza sob os seus piores aspectos, aquele caminho seria desesperante e inacessível. De um lado erguia-se uma enorme parede de rocha, com mais de trezentos metros de altura, negra, sinistra, ameaçadora, atravessada por longas colunas de basalto que surgiam na superfície anfractuosa como as costelas de um monstro petrificado. Do outro, havia um caos de rochas e pedregulhos caídos que barravam completamente o caminho. No meio corria a senda irregular, tão estreita que em certos lugares os obrigava a irem em fila indiana, e tão áspera que somente cavaleiros experimentados seriam capazes de andar por ela. Mas, a despeito de todos os perigos e dificuldades, os fugitivos sentiam o coração leve, porque cada passo aumentava a distância entre eles e o terrível despotismo do qual fugiam.

Bem cedo, no entanto, tiveram uma prova de que ainda se encontravam dentro da jurisdição dos mórmons. Haviam alcançado a parte mais inóspita e desolada do desfiladeiro, quando a jovem sufocou um grito de surpresa, apontando para cima. Num rochedo que dominava a passagem, e que se recortava escuro e liso contra o céu, uma sentinela solitária montava guarda. E como esta os avistara ao mesmo tempo que eles, a sua interpelação militar de “Quem vem lá!”  imediatamente reboou no silêncio da ravina.

— Viajantes para Nevada — disse Jefferson Hope, com a mão na carabina que lhe pendia da sela.

Os três viram nitidamente que a sentinela assestava a arma, olhando-os como se a resposta não a tivesse satisfeito.

— Com licença de quem? perguntou ela.

— Dos Quatro Santos respondeu Ferrier, cuja experiência com os mórmons lhe ensinara que essa era a mais alta autoridade a quem se podia referir.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

— Nove por sete! — gritou a sentinela.

— Sete por cinco! — tornou prontamente Jefferson Hope, lembrando-se da contra-senha que ouvira no jardim.

— Passem, e que o Senhor esteja convosco — disse a voz lá de cima.

Além do posto, a vereda alargava-se e os cavalos puderam romper a trote. Olhando para trás, os fugitivos viram o guarda solitário inclinado sobre a sua carabina, e assim tiveram certeza de que tinham passado o último posto do povo eleito e que a liberdade estava à sua frente.

 

 

 

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock