Um estudo em vermelho – Segunda parte, Capítulo 6

Arthur Conan DoyleUm estudo em vermelho

Segunda parte: A terra dos santos

Título original: A Study in Scarlet
Publicado em Beeton’s Christmas Annual, Londres, 1887.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de A Study in Scarlet publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo sexto: Continuação das memórias do dr. John Watson

A furiosa resistência oposta pelo nosso prisioneiro não parecia indicar qualquer animosidade para conosco, tanto que, ao  ver-se impotente, sorriu de maneira afável e disse esperar que não nos tivesse ferido durante a luta.

— Suponho que queiram me levar à chefatura de polícia — observou ele para Sherlock Holmes. — O meu coche está à porta. Se me desamarrarem as pernas, posso descer sozinho. Não sou tão leve como antigamente.

Gregson e Lestrade entreolharam-se, como se achassem aquela proposta um tanto ousada, mas Holmes imediatamente aceitou a palavra do prisioneiro, e afrouxou a toalha que o prendia pelos tornozelos. Hope levantou-se e estendeu as pernas, como que para se certificar de que estavam novamente livres. Lembro-me de que, ao vê-lo de pé, pensei nunca ter visto um homem de compleição tão vigorosa como a sua. Seu rosto, queimado pelo sol, tinha uma expressão resoluta, enérgica, que era tão intimidante como a sua força física.

— Se houver uma vaga para chefe de polícia, acho que você é o homem indicado — observou ele, olhando com indisfarçada admiração para o meu companheiro de casa. — A maneira como me seguiu o rastro já é uma garantia.

— E melhor virem comigo — disse Holmes para os dois investigadores.

— Posso guiar o coche — disse Lestrade.

— Ótimo! E Gregson irá comigo. Você também, Watson. Já que está interessado no caso, pode vir conosco.

Aceitei de bom grado, e todos descemos juntos.

Nosso prisioneiro não fez nenhuma tentativa para fugir, entrando calmamente no coche que fora seu, e nós o imitamos. Lestrade subiu na boléia, fustigou o cavalo e levou- nos em pouco tempo ao nosso destino. Fomos introduzidos num pequeno gabinete, onde um inspetor de polícia anotou o nome do preso e os nomes dos homens de cuja morte 14:36 29/8/2007era acusado. A autoridade era um homem de rosto pálido, fleumático, que cumpria a sua obrigação como um autônomo.

— O detido comparecerá perante os magistrados no decurso desta semana — disse ele. — Entretanto, sr. Jefferson Hope, tem alguma coisa a declarar? Devo adverti-lo de que as suas palavras serão registradas e poderão ser usadas contra o senhor.

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

— Tenho muita coisa a dizer — respondeu o nosso prisioneiro, falando devagar. — Quero contar-lhe toda a história.

— Não é melhor deixar isso para o julgamento? perguntou o inspetor.

— Talvez eu não seja julgado — respondeu Hope — Não precisa se alarmar. Não é em suicídio que estou pensando. O senhor não é médico?

Ao fazer essa pergunta, tinha se voltado para mim, e olhava-me com os seus olhos escuros e cintilantes.

— Sou médico, sim — respondi-lhe.

— Então ponha a mão aqui — disse ele com um sorriso, acenando para o peito com as suas mãos algemadas.

Assim fiz, e imediatamente notei uma extraordinária palpitação na região cardíaca. As paredes do peito pareciam vibrar como uma frágil construção dentro da qual funcionasse um poderoso motor. No silêncio da sala, eu ouvia distintamente um sopro constante que procedia da mesma fonte.

— Diacho! — exclamei. — Você tem um aneurisma na aorta.

— É assim que os médicos o chamam — disse ele placidamente. Ainda na última semana fui ao médico, e ele me disse que a coisa estava para rebentar dentro de poucos dias. Nestes últimos anos tenho piorado muito. Apanhei-o vivendo como um animal selvagem nas montanhas do Lago Salgado. Mas agora o meu trabalho está feito, e pouco me importa morrer. Contudo, gostaria de deixar um relato do que aconteceu. Não quero ser lembrado como um assassino comum.

O inspetor e os dois investigadores dialogaram rapidamente sobre a conveniência de lhe permitirem que contasse a sua história.

— O doutor acha que há perigo imediato? perguntou o primeiro.

— Sem a menor dúvida — respondi.

— Nesse caso, é nosso dever, no interesse da justiça, aceitar o seu depoimento — disse o inspetor. — Autorizo-o, sr. Hope, a fazer as suas declarações, mas torno a avisá-lo de que as suas palavras serão registradas.

— Com a sua permissão, vou sentar-me — disse o prisioneiro, acompanhando as palavras com a ação. — Este aneurisma me deixa cansado por qualquer coisa, e a briga que tivemos há meia hora não ajudou muito a situação. Estou à beira da cova, e não tenho nenhum interesse em lhes mentir. Todas as palavras que vou dizer são a pura verdade, e o que delas farão não tem a menor importância para mim.

Assim dizendo, Jefferson Hope recostou-se na cadeira e começou a extraordinária narrativa que se segue. Falava de maneira calma e metódica, como se os acontecimentos por ele narrados fossem muito comuns. Posso garantir a exatidão do que transcrevo, porque utilizei o caderno de anotações de Lestrade, no qual as palavras do prisioneiro foram estenografadas.

— Pouco lhes interessa o quanto eu odiava aqueles homens — começou ele. — Basta saberem que eles eram culpados da morte de dois seres humanos… pai e filha… e que conseqüentemente deviam pagar por esse crime com a vida. Como já fazia muito tempo que o tinham cometido, eu não poderia conseguir que nenhum tribunal os condenasse. Sabia, no entanto, que eles eram culpados, e resolvi ser o juiz, os jurados e o verdugo ao mesmo tempo. No meu lugar, como homens de brio, os senhores teriam feito o mesmo.

“Há vinte anos, essa jovem de quem falei ia se casar comigo. Mas foi obrigada a se casar com esse tal Drebber, e morreu de desgosto. Tirei-lhe a aliança do dedo quando ela estava no caixão, e jurei que Drebber morreria olhando para essa aliança, que os seus últimos pensamentos seriam para o crime pelo qual era punido. Levei-a sempre comigo, e segui Drebber e o seu cúmplice através de dois continentes, até que os apanhei. Eles pensaram que eu desistiria, mas isso não aconteceu. Se eu morrer amanhã, como é muito provável, morro sabendo que cumpri o meu dever na terra, e muito bem cumprido. Eles estão mortos, e pelas minhas mãos. Já não tenho mais nada a esperar nem desejar.

“Eles eram ricos e eu, pobre, de modo que não me era fácil segui-los. Quando cheguei a Londres, estava com os bolsos vazios, e vi que precisava trabalhar em qualquer coisa para viver. Guiar cavalos ou montá-los foi sempre tão natural para mim como andar, de maneira que me apresentei ao dono de uma cocheira e logo consegui emprego. A minha obrigação era levar todas as semanas uma certa quantia ao proprietário, e o que excedesse ficaria para mim. Quase nunca sobrava grande coisa, mas consegui me manter. O mais difícil, para mim, era orientar-me nas ruas de Londres, porque, de quantos labirintos já fizeram, acho que este é o mais complicado. Eu tinha, contudo, o mapa da cidade, e, depois de conhecer os principais hotéis e estações, saí-me bastante bem.

“Levei muito tempo para descobrir onde moravam aqueles dois cavalheiros. Mas continuei a perguntar a torto e a direito, até que os encontrei. Estavam ambos numa pensão, em Camberwell, do outro lado do rio. Depois disso, eu sabia que eles estavam nas minhas mãos. Eu tinha deixado crescer a barba, e não havia possibilidade de que eles me reconhecessem. Haveria de rastreá-los como um cão, seguindo-os por toda parte, até que chegasse a minha oportunidade. Dessa vez, eles não haveriam de me escapar.

“Mas por pouco não o conseguiram. Aonde quer que fossem pelas ruas de Londres, eu estava sempre no seu encalço. As vezes, seguia-os com o meu coche, outras, a pé, mas do primeiro modo era melhor, porque assim eles não podiam fugir. Era somente de madrugada ou noite avançada que eu podia trabalhar para ganhar alguma coisa, de maneira que comecei a ficar atrasado com o dono da cocheira. Mas isso pouco me importava, se eu conseguisse pôr a mão nos meus homens.

“Acontece que eles eram muito espertos. Devem ter pensado que havia certa possibilidade de estarem sendo seguidos, porque nunca saíam sozinhos, nem depois de anoitecer. Durante duas semanas segui-os todos os dias, e eles nunca se separaram. Drebber passava bêbado metade do tempo, mas Stangerson não descansava. Eu continuava a vigiá-los de manhã à noite, sem encontrar a menor oportunidade. Mas não desanimei, porque qualquer coisa me dizia que a hora tinha chegado. O meu único receio era isso que tenho no peito. Se eu morresse de um momento para outro, deixaria meu trabalho por fazer.

“Finalmente, uma noite, eu estava descendo a Torquay Terrace, a rua onde eles moravam, quando vi um coche parar à porta da pensão. Dali a pouco trouxeram uma bagagem, e logo depois apareceram Drebber e Stangerson e embarcaram. Chicoteei o meu cavalo e os segui, muito preocupado, com medo de perdê-los de vista, porque eles estavam se mudando. Saltaram na Euston Station e eu também. Deixei um garoto tomando conta do meu cavalo e segui-os até a plataforma. Ouvi perguntarem pelo trem de Liverpool e o guarda responder-lhes que tinha partido naquele instante e só dentro de algumas horas haveria outro. Stangerson parecia aborrecido com aquele contratempo, mas Drebber dava a impressão de estar muito satisfeito. Aproximei-me, dissimulado pelo movimento de passageiros, e pude ouvir todas as palavras que trocaram. Drebber disse que tinha um pequeno assunto particular a tratar e pediu ao outro que o esperasse na estação. Stangerson protestou, lembrando-lhe que tinham resolvido andar sempre juntos. Drebber retorquiu que se tratava de um assunto delicado, e que precisava ir sozinho.

“Não pude ouvir o que Stangerson respondeu a isso, mas o outro começou a praguejar, lembrando-lhe que ele não era mais do que um empregado, pago para servi-lo e não para lhe dar ordens. O secretário acabou se conformando e o máximo que arranjou foi a promessa de que o outro, se por acaso perdesse o último trem, iria encontrá-lo no Halliday Hotel. Drebber afirmou que estaria de volta antes das onze, e retirou-se da estação.

“O momento pelo qual eu tanto havia esperado chegara, finalmente. Tinha os meus inimigos na mão. Juntos, podiam proteger-se, mas separados estavam à minha mercê. Contudo, não agi precipitadamente. Os planos já estavam formados. Não há qualquer satisfação na vingança se o inimigo não tem tempo de saber quem o golpeia e por que motivo. Mas eu tinha preparado os meus planos de tal modo que ele não deixaria de compreender que pagava pelo que me fizera e pelo seu próprio pecado. Por acaso, um cavalheiro, que se servira do meu coche para ir ver algumas casas na Brixton Road, tinha esquecido a chave de uma delas. Na mesma tarde, porém, mandou reclamá-la, e eu devolvi-a, não sem ter aproveitado o intervalo para tirar o molde e mandar fazer outra igual. Dessa maneira, eu contava pelo menos com um lugar nesta grande cidade onde não correria o risco de ser interrompido. Como levar Drebber àquela casa era um problema difícil, que eu tinha de resolver.

“Ele desceu a rua a pé e entrou em dois ou três bares, demorando-se cerca de meia hora em cada um. Ao sair do último, tinha evidentemente passado da conta, porque não caminhava muito firme. Logo adiante do meu coche ia um cupê, e Drebber mandou-o parar. Segui-o tão de perto que o focinho do meu cavalo nunca se afastou mais de um metro da traseira do outro carro. Passamos pela Ponte de Waterloo, percorrendo quilômetros e quilômetros de ruas, até que, para meu espanto, nos encontramos diante da pensão de Camberwell. Eu não podia imaginar o que o fazia voltar ali. Avancei mais um pouco e parei o meu carro a uns cem metros da casa. Ele entrou, despedindo o seu cupê. Dêem-me um copo de água, por favor. Estou com a boca seca de tanto falar.”

Servi-lhe um copo e ele bebeu com avidez.

— Assim é melhor — disse. — Pois, como ia dizendo, esperei um quarto de hora ou mais, quando de repente ouvi um ruído de luta no interior da casa. Em seguida, a porta abriu-se e apareceram dois homens, um dos quais era Drebber, e o outro, um rapaz que eu nunca tinha visto. Trazia Drebber seguro pelo colarinho, e, quando chegou ao patamar da escada, deu-lhe um empurrão e um pontapé que o lançou quase no meio da rua. “Canalha!”, gritou ele brandindo a bengala. “Vou  ensiná-lo a não insultar uma moça honesta!” Estava tão furioso que o teria moído a bengaladas, se aquele velhaco não tivesse desaparecido. Correu até a esquina e, vendo o meu carro, acenou-me e entrou. “Leve-me ao Halliday Hotel”, disse ele.

“Quando entrou finalmente no coche, o coração pulou- me no peito com tamanha alegria, que por um instante receei que o aneurisma rebentasse. Andei lentamente pela rua, refletindo sobre a tática que me conviria seguir. Eu podia conduzi-lo aos arredores da cidade, e lá, num lugar deserto, ter com ele a minha última entrevista. Estava quase decidido a isso, quando ele próprio resolveu o meu problema. O desejo de beber dominou-o outra vez, e mandou parar diante de uma cervejaria. Entrou e recomendou-me que o esperasse. Lá ficou até a hora de fechar, e quando saiu estava tão bêbado que não podia me escapar.

“Não pensem que eu pretendia matá-lo a sangue-frio. Não seria mais do que pura justiça se o fizesse, mas não pude conformar-me com isso. Havia muito que tinha decidido dar-lhe uma oportunidade de salvar a vida, se pudesse. Entre os muitos ofícios que tive na América, durante a minha existência errante, fui certa vez porteiro e varredor do laboratório da Universidade de York. Um dia o professor estava dando uma aula sobre venenos e mostrou aos estudantes certo alcalóide, como ele o chamava, que tinha extraído do veneno de flechas da América do Sul, dizendo ser tão potente que a mínima dose causava morte instantânea. Marquei o frasco em que esse preparado estava guardado, e, quando todos se retiraram, recolhi uma pequena quantidade. Eu me saía bastante bem como farmacêutico, de modo que preparei o tal alcalóide em duas pílulas solúveis em água. Pus cada uma delas numa caixinha igual, juntamente com outra pílula sem veneno. Resolvi, então, que, quando chegasse a ocasião, os meus homens escolheriam uma pílula cada um e eu tomaria a restante. Era um meio igualmente fatal e menos barulhento que um revólver disparado através de um lenço. Desde esse dia, trouxe sempre comigo as duas caixinhas com as pílulas, e então chegara o momento de utilizá-las.

“Era quase uma hora. A noite estava feia; ventava muito e chovia a cântaros. Mas por triste que fosse o tempo lá fora, eu me sentia feliz por dentro, tão feliz que tinha vontade de gritar de alegria. Se algum dos senhores já desejou ardentemente uma coisa durante vinte anos, e de repente a encontra ao alcance da mão, então será capaz de compreender o que eu sentia. Acendi um charuto e tirei umas baforadas para acalmar os nervos, mas as minhas mãos tremiam e minhas têmporas latejavam. Na escuridão da noite, parecia-me ver o velho John Ferrier e a doce Lucy sorrindo para mim, tão itidamente como agora vejo os senhores. Durante todo o caminho eles foram à minha frente, um de cada lado do cavalo, até que parei diante da casa da Brixton Road.

“Não havia vivalma, e tudo estava silencioso. Só a chuva não cessava de cair. Quando olhei pela janelinha do carro, encontrei Drebber encolhido numa modorra de bêbado.

“‘Está na hora de ir’, disse eu, sacudindo-o por um braço.

“‘Muito bem, cocheiro’, disse ele.

“Com certeza pensava que tínhamos chegado ao hotel indicado por ele, porque desceu sem uma palavra e seguiu- me pelo jardim. Tive de caminhar ao lado dele, amparando-o, visto que não se mantinha muito bem nas pernas. Quando chegamos à porta, abri-a e o fiz entrar na sala da frente. Dou-lhes a minha palavra que, durante todo o caminho, pai e filha iam andando conosco.

“‘Está escuro como o diabo’, disse ele, arrastando os pés.

“‘Já teremos luz’, disse eu, riscando um fósforo e acendendo uma vela que trazia comigo. ‘E agora, Enoch Drebber’,  continuei, voltando-me para ele, ‘quem sou eu?’

Richard Gutschmidt, 1902

Richard Gutschmidt, 1902

“Ele olhou-me um instante com seus olhos turvos de bêbado, e depois uma expressão de terror contorceu-lhe as feições. Tinha me reconhecido. Recuou cambaleante, com o rosto lívido, e o suor lhe brotava na testa. Seus dentes batiam. Ante aquele espetáculo, encostei-me à porta e durante algum tempo ri às gargalhadas. Eu sabia que a vingança seria doce, mas nunca tinha esperado tamanha satisfação na alma.

“‘Cão maldito!’, exclamei. ‘Andei no seu rastro desde Salt Lake City até São Petersburgo, e você sempre me escapou. Agora as suas andanças chegaram ao fim, porque um de nós não verá o dia de amanhã. — O sangue me martelava as têmporas, e creio que teria tido um ataque qualquer se ele não me esguichasse pelo nariz, aliviando-me.

“‘Que pensa agora de Lucy Ferrier?’, gritei-lhe, fechando a porta e sacudindo-lhe a chave na cara. ‘O castigo demorou, mas chegou.’

“Os seus lábios tremiam covardemente enquanto eu falava. Ele teria suplicado que lhe poupasse a vida, se não soubesse que isso seria inútil.

‘Vai me assassinar?’, balbuciou.

“‘Não se trata de assassinato’, respondi. ‘Quem fala em matar um cão hidrófobo? Por acaso você teve piedade da minha pobre noiva, quando a arrancou do túmulo de seu pai trucidado para levá-la àquele seu harém imundo?’
“‘Não fui eu que matei o pai dela’, gritou ele.

“‘Mas foi você que lhe despedaçou o coração inocente!’, trovejei, tirando a caixinha do bolso. ‘Deus é que será o nosso juiz. Tire uma e engula. Eu engolirei a que ficar. Vejamos se há justiça na terra ou se tudo é obra do acaso.’

“Implorando piedade, Drebber tentou fugir covarde- mente, mas eu saquei a faca e apontei-a para a sua garganta, até que ele me obedeceu. Engoli a pílula restante, e os dois ficamos face a face, em silêncio, durante um minuto ou mais, esperando para ver quem deveria morrer e quem viveria. Jamais esquecerei a cara dele quando as primeiras dores anunciaram que o veneno estava no seu corpo e não no meu. Comecei a rir, e pus-lhe sob os olhos a aliança de Lucy. Foi apenas um breve instante, porque a ação daquele alcalóide é rápida. Um espasmo de dor contraiu-lhe as feições; ele estendeu as mãos para a frente, cambaleou, e depois, com um grito rouco, caiu pesadamente no chão. Virei-o com o pé e pus a mão no seu coração. Nada. Drebber estava morto!

“O sangue continuava a correr do meu nariz, mas eu não o notava. Não sei como me veio à cabeça a idéia de escrever com ele na parede. Talvez a tentação maliciosa de deixar uma pista falsa para a polícia, porque estava de bom humor. Lembrei-me de um alemão encontrado morto em Nova York com a palavra Rache escrita no peito. Os jornais diziam que o crime fora cometido, sem dúvida, por alguma sociedade secreta. Pareceu-me que o que havia desorientado os nova-yorkinos bem podia desorientar os londrinos, de modo que molhei o dedo no meu sangue e escrevi a tal palavra num lugar conveniente da parede. Depois voltei para o meu coche e não encontrei ninguém na rua, porque fazia uma noite horrível. Já tinha percorrido uma certa distância, quando, pondo a mão no bolso onde habitualmente guardava a aliança de Lucy, não a encontrei. Sofri um golpe tremendo, porque era a única lembrança que tinha dela. Julgando que talvez a tivesse deixado cair quando me inclinara sobre o corpo de Drebber, voltei, parei o carro numa travessa e dirigi-me ousadamente para a casa… pois estava disposto a tudo, menos a perder o anel. Quando cheguei lá, dei de cara com um policial que vinha saindo, e só consegui afastar as suas suspeitas fingindo-me de bêbado.

“Foi assim que Enoch Drebber chegou ao fim dos seus dias. Restava-me então fazer o mesmo com Stangerson, cobrando a dívida que ele tinha para com o velho Ferrier. Sabia que ele estava hospedado no Halliday Hotel, e andei rondando o lugar durante todo o dia, mas o homem não apareceu. Talvez estivesse desconfiado, vendo que Drebber não voltara. Que era esperto, isso era, e nunca se descuidava. Mas, se achava que podia me escapar ficando lá dentro, estava muito enganado. Descobri logo qual era a janela do seu quarto, e, na manhã seguinte, muito cedo, aproveitei uma escada que estava nos fundos do hotel, e por ela entrei, quando mal raiava o dia. Acordei-o e anunciei-lhe que havia chegado a hora de ele responder pela vida que tinha roubado tantos anos antes. Contei-lhe como Drebber tinha morrido e ofereci-lhe as pílulas, para que escolhesse uma. Em vez de se agarrar à oportunidade de salvação que eu lhe dava, pulou da cama e saltou no meu pescoço. Em legítima defesa, prostrei-o com uma punhalada no coração. De qualquer maneira, o seu fim tinha chegado, porque a Providência jamais permitiria que aquela mão culpada tirasse outra pílula a não ser a venenosa.

“Pouco me resta dizer, e felizmente, porque estou exausto. Continuei a trabalhar por mais um dia ou dois, pretendendo juntar dinheiro até que pudesse voltar para a América. Estava hoje no meu quarto, quando um garoto maltrapilho chegou, perguntando por um cocheiro chamado Jefferson Hope e dizendo que um cavalheiro pedia o meu carro no 221-B da Baker Street. Fui lá sem suspeitar de nada, e, antes que eu tivesse tempo de pensar, este jovem algemou meus pulsos com uma rapidez que eu nunca vira! E esta é toda a minha história, senhores… Talvez me considerem um assassino, mas eu me considero um instrumento da justiça tanto quanto os senhores.”

Tão emocionante fora a narrativa daquele homem, e tão impressionantes as suas maneiras, que ficamos calados durante todo o tempo em que ele falou. Até os detetives profissionais, habituados a todos os aspectos do crime, pareciam vivamente interessados na história de Jefferson Hope. Quando ele terminou, ainda permanecemos alguns minutos em silêncio, apenas interrompido pelo correr do lápis de Lestrade, que dava um toque final às suas notas esteno- gráficas.

— Há apenas um ponto sobre o qual eu desejava maiores esclarecimentos — disse por fim Sherlock Holmes. — Quem era o seu cúmplice, que veio procurar o anel anunciado por mim?

O prisioneiro piscou maliciosamente os olhos para o meu amigo.

— Posso revelar os meus segredos — disse ele —, mas não ponho ninguém em dificuldades. Vi o seu anúncio e achei que poderia ser uma cilada ou podia ser mesmo o anel. Um amigo meu ofereceu-se para ir ver. E não diga que ele não fez um bom serviço.

— Esplêndido respondeu Holmes com entusiasmo.

— Agora, cavalheiros — observou gravemente o inspetor —, devemos cumprir as formalidades legais. Na quinta- feira, o detido será conduzido ao tribunal, e a presença dos senhores será necessária. Até então serei responsável por ele.

Dizendo isso, tocou uma sineta, e Jefferson Hope foi levado por dois guardas, enquanto meu amigo e eu nos retirávamos da chefatura e tomávamos um coche para voltar à Baker Street.

Primeira Parte
Reimpressão das memórias do dr. John H. Watson, ex-oficial médico do exército britânico

Capítulo 1 – O sr. Sherlock Holmes § Capítulo 2 – A ciência da dedução
Capítulo 3 – O mistério de Lauriston Gardens § Capítulo 4 – O que John Rance tinha a contar
Capítulo 5 – Nosso anúncio traz um visitante § Capítulo 6 – Tobias Gregson mostra o que pode fazer
Capítulo 7 – Uma luz nas trevas

Segunda Parte
A terra dos santos

Capítulo 1 – No deserto do Colorado § Capítulo 2 – A flor do Utah
Capítulo 3 – John Ferrier fala com o profeta § Capítulo 4 – Fuga desesperada
Capítulo 5 – Os anjos vingadores § Capítulo 6 – Continuação das memórias do dr. John Watson
Capítulo 7 – Conclusão

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock