Abbey Grange

Arthur Conan Doyle

Abbey Grange

Título original: Abbey Grange
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Setembro de 1904 e com 8 ilustrações de Sidney Paget
e na Collier´s Weekly, em Dezembro de 1904,
com 6 ilustrações de Frederic Dorr Steele.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de Abbey Grange publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume V,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Álvaro Pinto de Aguiar.

Numa fria e nevoenta manhã de inverno, em 1897, acordei com um puxão em meu ombro. Era Holmes. A vela que ele segurava iluminava-lhe o rosto ansioso, e eu soube imediatamente que acontecera alguma coisa.

— Venha, Watson, venha! O jogo começou! Nem uma palavra! Vista-se e venha!

Dez minutos mais tarde, estávamos numa carruagem, atravessando ruas silenciosas a caminho da Estação de Charing Cross. Os primeiros sinais da madrugada apareciam, e víamos de vez em quando um vulto de operário. Holmes estava silencioso, encolhido em seu vasto sobretudo, e eu também, pois o frio era cortante e nenhum de nós tomara café antes de sair. Só depois de termos tomado um chá bem quente na estação, e já sentados no trem, é que ele se sentiu disposto a falar, e eu, a ouvir. Holmes tirou um papel do bolso e leu em voz alta:

“Abbey Grange, Marsham, Kent, 3:30 h.

Caro sr. Holmes — Ficaria muito satisfeito se pudesse vir imediatamente em meu auxílio, num caso que promete ser realmente extraordinário. É algo de sua especialidade. A não ser para libertar a dama, farei com que tudo fique exatamente como foi encontrado, e peço-lhe que não perca um instante, pois é difícil deixar Sir Eustace lá.

Sinceramente,
Stanley Hopkins”.

— Hopkins pediu meu auxílio sete vezes, e todas elas se justificaram — disse Holmes. — Creio que os casos de nosso amigo fazem parte de sua coleção, Watson, e devo confessar que você tem um dom de seleção que desculpa muita coisa deplorável, a meu ver, em suas narrativas. Seu hábito fatal de olhar para tudo como uma história, em vez de um exercício científico, arruinou o que poderia ter sido uma instrutiva e até mesmo clássica série de demonstrações. Refere-se por alto a um trabalho de grande astúcia e delicadeza, e apoia-se em pormenores sensacionalistas, que podem excitar mas não instruir o leitor.

— Por que não escreve você mesmo seus casos? — repliquei, um tanto azedamente.

— Escreverei, caro Watson, escreverei. No momento presente, estou muito ocupado, como sabe, mas pretendo dedicar a velhice à composição de um livro que focalizará toda a arte detetivesca num único volume. Nosso caso presente parece ser de assassinato.

— Acha, então, que Sir Eustace está morto?

— Creio que sim. A letra de Hopkins denota grande agitação, e ele é emotivo. Sim, acho que houve violência, e que o corpo está à nossa espera para um exame. Um simples suicídio não faria com que Hopkins me chamasse. Quanto a dizer que libertou a dama, parece que ela esteve presa no quarto durante a tragédia. Estamos nos movendo na alta sociedade. Veja, Watson, o papel, o monograma E. B., o brasão, o pitoresco endereço. Creio que nosso amigo Hopkins estará à altura da situação, e que vamos ter uma manhã interessante. O crime foi cometido antes da meia-noite de ontem.

— Como sabe?

— Por um exame dos trens e uma avaliação do tempo. A polícia local foi chamada, mas comunicou-se com a Scotland Yard. Hopkins foi para lá e, por sua vez, chamou-me. Tudo isso leva bem uma noite de trabalho. Bem, cá está a Estação de Chislehurst, e já o saberemos.

Um trajeto de três quilômetros, por estreitas azinhagas, levou-nos a um portão grande, aberto por um homem que parecia aflito, provavelmente por causa da tragédia. A alameda cortava um parque antigo, no meio de velhos olmos, e ia acabar diante de uma casa baixa, esparramada, com pilares na frente. A parte central era, evidentemente, muito antiga, coberta de hera, mas as janelas largas indicavam que houvera reforma, e uma ala da casa parecia completamente nova. O inspetor Stanley Hopkins, com seu vulto jovem e expressão viva, esperava-nos à porta.

— Estou muito satisfeito por ter vindo, sr. Holmes. E também o senhor, dr. Watson! Mas, se pudesse voltar atrás, não os teria incomodado, pois a dona da casa, depois que voltou a si, fez-nos uma descrição tão clara do incidente que não nos resta muito o que fazer. Lembra-se daquele grupo de ladrões de Lewisham?

— Refere-se aos três Randalls?

— Exatamente: o pai e os dois filhos. É obra deles, não tenho a menor dúvida. Fizeram um trabalhinho em Sydenham, há quinze dias, e foram vistos e descritos. É uma audácia fazer outro logo em seguida, mas foram eles. Desta vez, é a forca que os espera.

— Quer dizer que Sir Eustace morreu?

— Sim, esmagaram-lhe a cabeça com o atiçador da lareira de sua própria casa.

— O cocheiro disse-me que se trata de Sir Eustace Brackenstall.

— Realmente, era um dos homens mais ricos de Kent. Lady Brackenstall está na saleta. Pobre senhora, passou por uma terrível prova. Parecia mais morta do que -viva quando cheguei. Creio que é melhor ouvi-la contar os fatos. Depois, iremos examinar a sala de jantar.

Lady Brackenstall não era uma pessoa vulgar. Raras vezes tenho visto mulher tão graciosa, tão feminina, tão bela. Loura, com cabelos dourados, olhos azuis; teria, naturalmente, a tez perfeita que geralmente acompanha esse tipo, se a experiência daquela noite não a tivesse deixado tão desfeita. Os sofrimentos eram tanto físicos como mentais, pois um lado da testa estava roxo e inchado, e era constantemente banhado com água e vinagre por uma criada alta e austera. A dona da casa estava estendida, exausta, num divã, mas o olhar vivo, observador, a expressão alerta no belo rosto indicavam que nem o intelecto nem a coragem tinham ficado prejudicados com a terrível experiência. Vestia uma camisola solta, azul e prateada, mas havia a seu lado um vestido preto de jantar.

— Já lhe contei tudo o que aconteceu, sr. Hopkins — disse ela, com voz cansada. — Se posso repetir? Bem, se achar necessário, repetirei para esses senhores. Já estiveram ‘na sala de jantar?

— Achei melhor ouvirem primeiro sua história.

— Ficarei satisfeita assim que o senhor tomar todas as providências. É horrível pensar nele lá. — Estremeceu, escondendo o rosto nas mãos. Ao fazê-lo, a manga solta caiu, mostrando o antebraço, Holmes soltou uma exclamação.

— Tem outros ferimentos, minha senhora! O que é isso?

Duas manchas vermelhas marcavam o braço claro e roliço. A jovem ocultou-as imediatamente.

— Não é nada — disse ela. — Nada tem a ver com o horrível acidente de ontem à noite. Façam o favor de se sentar, e eu contarei o que houve.

“Sou esposa de Sir Eustace Brackenstall. Casei-me há um ano. É inútil querer ocultar o fato de ter sido um casamento infeliz. Todos os vizinhos poderiam informá-lo, senhor, mesmo que eu tentasse negar. Talvez a culpa seja, em parte, minha. Fui educada na atmosfera mais livre, menos convencional do sul da Austrália, e adapto-me mal à vida na Inglaterra, com seus preconceitos e tabus. Mas a razão principal estava num fato de todos conhecido, isto é, Sir Eustace era um bêbado inveterado. Conviver com um homem assim, mesmo por uma hora, é desagradável. Pode imaginar o que era, para uma mulher sensível e voluntariosa, viver presa a ele dia e noite? É um sacrilégio, um crime, dizer que tal casamento é indissolúvel. Essas leis monstruosas trarão maldição ao país. Deus não permitirá que tanta maldade persista.”

Ela sentou-se por um momento, de rosto corado, os olhos brilhando sob a marca na fronte. Depois, a mão forte e macia da criada fez com que se deitasse de novo, e a cólera foi substituída por soluços. Finalmente, continuou:

— Vou contar-lhes o que aconteceu a noite passada. Talvez saibam que todos os empregados dormem na ala nova. Neste bloco central ficam os dormitórios, com a cozinha atrás e nosso quarto em cima. Minha empregada, Theresa, dorme num quarto acima do meu. Não há mais ninguém, e nenhum som perturbaria os que dormem na outra ala. Isso devia ser do conhecimento dos ladrões, pois de contrário não teriam agido como agiram.

“Meu marido foi para o quarto às dez e meia, mais ou menos. Os empregados já tinham se recolhido. Somente minha criada estava acordada, e ela costuma ficar em seu quarto, em cima, aguardando que eu a chame. Fiquei aqui nesta sala até depois das onze horas, absorta num livro. Depois dei uma volta para ver se estava tudo em ordem, antes de subir. Era meu hábito fazê-lo pessoalmente, pois não se podia confiar em Sir Eustace. Fui à cozinha, à copa, à sala de armas, à sala de bilhar, à sala de visitas e, finalmente, à sala de jantar. Ao aproximar-me da porta-janela, coberta por uma cortina pesada, senti de repente um golpe de vento no rosto, o que indicava que estava aberta. Abri a cortina e dei com um homem idoso, de ombros fortes, que acabara de entrar na sala. A porta-janela é larga e dá para um relvado. Eu tinha na mão minha vela de quarto e, à luz dela, vi atrás do homem outros dois, que iam entrando. Recuei, mas o primeiro sujeito avançou. Agarrou-me primeiro pelos pulsos, depois pelo pescoço. Abri a boca para gritar, mas recebi um soco no olho e caí. Devo ter ficado inconsciente por alguns minutos, pois, quando dei por mim, vi que tinham rebentado o cordão da campainha e que me tinham amarrado na cadeira de carvalho que fica à cabeceira da mesa. Estava tão bem presa que não podia mover-me, e uma mordaça impedia-me de gritar. Foi nesse momento que meu pobre marido entrou na sala. Evidentemente, ouvira sons e viera preparado para o que quer que fosse. Estava de calça e camisa, e tinha na mão sua bengala favorita. Correu para um dos ladrões, mas o outro, o sujeito de idade, inclinou-se, apanhou o atiçador da lareira e desferiu-lhe um terrível golpe. Meu marido caiu sem um gemido, e não mais se moveu. Desmaiei de novo, mas deve ter sido apenas por alguns minutos. Quando abri os olhos, vi que tinham tirado as pratas de cima do aparador e uma garrafa de vinho que lá estava. Cada um deles tinha um copo na mão. Já lhe disse que um era idoso, com barba, e os outros dois, rapazinhos imberbes. Poderiam ser pai e filhos. Falavam por murmúrios, Depois, aproximaram-se, verificando se eu estava bem amarrada. Finalmente saíram, fechando a janela. Só um quarto de hora depois consegui fazer com que a mordaça caísse. Gritei, e minha criada acudiu. Depois vieram os outros empregados e mandaram chamar a polícia, que alertou Londres imediatamente. É só o que posso dizer-lhes, senhores, e espero que não me seja necessário repetir história tão dolorosa.”

— Alguma pergunta, sr. Holmes? — disse Hopkins.

— Não quero abusar do tempo e da paciência de Lady Brackenstall — declarou meu amigo, — Mas, antes de ir para a sala de jantar, gostaria de ouvir o que a criada tem a dizer — continuou, voltando-se para ela.

— Vi os homens antes de entrarem em casa — contou ela. — Sentada à minha -janela, vi três homens ao luar, perto do portão de entrada, mas não dei importância a isso, na ocasião. Somente uma hora depois é que ouvi minha patroa gritar, e corri para baixo, encontrando-a, coitadinha, como ela já lhes contou, e ele caído no chão, todo ensangüentado. Era de deixar uma mulher louca, ali amarrada, o vestido manchado com o sangue do próprio marido, mas nunca lhe faltou coragem, à srta. Mary Fraser, de Adelaide… e Lady Brackenstall, de Abbey Grange, não é diferente. Já a interrogaram bastante, senhores, e agora ela vai para o quarto, com sua velha Theresa, à procura do descanso que necessita.

Com ternura de mãe, a mulher magra e abatida pôs os braços à volta da patroa e levou-a.

— Está com ela desde criança — contou Hopkins. — Foi sua ama, e veio com Lady Brackenstall para a Inglaterra, quando deixaram a Austrália há dezoito meses. Chama-se Theresa Wright, e é o tipo de empregada que não se encontra hoje em dia. Por aqui, sr. Holmes, por favor!

A expressão de interesse desaparecera do rosto de Holmes, e percebi que, uma vez que não existia mistério, o caso não o atraía. Ainda precisava ser efetuada uma prisão, mas quem eram aqueles malandros vulgares, para que Holmes sujasse suas mãos na tarefa de capturá-los? Um grande especialista que fosse chamado para um caso de sarampo teria a mesma expressão aborrecida que vi no rosto de meu amigo. Mas a cena na sala de jantar foi suficientemente estranha para lhe chamar a atenção e reavivar-lhe o interesse.

Era uma sala grande e de pé-direito alto, com teto e lambris de carvalho, uma bela coleção de cabeças de veado e armas antigas nas paredes. Na parede oposta à porta de entrada, vimos a porta-janela de que nos tinham falado. Três janelas menores, do lado direito, deixavam entrar o pálido sol de inverno. A esquerda, havia uma lareira grande, funda, com um pesado tampo de carvalho. Ao lado da lareira, uma pesada cadeira de carvalho, de braços e com pés cruzados embaixo. Na madeira trabalhada, via-se enrolada uma corda vermelha, amarrada embaixo, nos pés cruzados. Ao soltarem a dona da casa, a corda escorregara, mas ficaram os nós que a tinham prendido. Esses pormenores só nos chamaram a atenção mais tarde, pois nossos olhos fixaram-se no terrível espetáculo oferecido pelo homem estendido no chão, sobre uma pele de tigre.

Era o corpo de um homem alto, bem-feito, de mais ou menos quarenta anos de idade. Estava de costas, o rosto para cima, os dentes brancos como que arreganhados no meio da barba preta. As duas mãos contraídas estavam erguidas acima da cabeça, e no meio delas via-se uma pesada bengala. O rosto escuro, aquilino, estava convulso, num espasmo de cólera vingativa, dando-lhe um ar diabólico. Evidentemente estava deitado quando ouviu o barulho, pois usava um camisolão de dormir pretensioso, bordado, e os pés que saíam das calças estavam nus. A cabeça estava horrivelmente machucada, e toda a sala indicava a ferocidade do golpe que lhe fora desferido. A seu lado estava o atiçador, dobrado, devido ao impacto. Holmes examinou-o e ao terrível ferimento por ele causado.

— Deve ser um homem muito forte, o tal Randall — observou.

— É, sim — disse Hopkins. — Sei muito bem quem é, um sujeito perigoso.

— Não lhe será difícil apanhá-lo.

— Claro que não. Temos andado à sua procura, e ouvíramos dizer que fugira para a América. Agora que sabemos que o bando está aqui, não poderá escapar-nos. Mandamos aviso para todos os portos, e será oferecida uma recompensa antes que caia a noite. O que me admira é como podem ter feito tal loucura, sabendo que Lady Brackenstall os descreveria e que não poderíamos deixar de reconhecer a descrição.

— Exatamente, Seria de esperar que tivessem também procurado obter o silêncio de Lady Brackenstall.

— Talvez não tenham percebido que ela voltara a si.

— Provavelmente. Estando ela inconsciente, não lhe tirariam a vida. Que me diz deste infeliz, Hopkins? Lembro-me de ter ouvido estranhas histórias a seu respeito.

— Era um bom homem, quando sóbrio, mas um demônio quando bêbado, ou antes, meio bêbado, pois raramente se embriagava por completo. O demônio parecia tomar conta dela, nessas ocasiões, e era capaz de tudo. Pelo que ouvi dizer, apesar da fortuna e do título, uma ou duas vezes quase se meteu com a polícia. Houve um escândalo, pois dizem ter derramado gasolina num cão, ateando-lhe fogo… o cão da esposa, o que é pior, e só com dificuldade o caso foi abafado. Depois, atirou uma jarra na cabeça da criada, Theresa. Também isso lhe trouxe aborrecimentos. Cá entre nós, a atmosfera aqui ficará mais leve sem ele. O que está procurando agora?

Holmes estava de joelhos, examinando com grande atenção os nós da corda vermelha que tinham prendido a dona da casa. Depois examinou o cordão da campainha, que fora arrancado.

— Quando tiraram o cordão, a campainha deve ter tocado alto na cozinha — disse ele.

— Ninguém poderia ter ouvido. A cozinha fica muito no fundo.

— Como o ladrão poderia saber que ninguém ouviria? Como ousou arrancar um cordão de campainha dessa maneira temerária?

— É verdade, sr. Holmes, é verdade. O senhor formula a pergunta que, mais de uma vez, fiz a mim próprio. Não há dúvida de que esse sujeito conhecia a casa e seus hábitos. Devia saber que os criados estariam deitados àquela hora da noite, e que ninguém ouviria a campainha na cozinha. Deve, portanto, ter tido algum criado como cúmplice. Mas são oito, e todos com boas referências.

— Em princípio, a suspeita recairia sobre a criada em quem o patrão atirou a jarra. Mas isso seria trair a patroa, a quem ela parece tão dedicada. Bem, bem, isso não tem importância, e, quando Randall estiver preso, você não terá dificuldade em saber o nome dos cúmplices. A história contada pela dona da casa parece corroborada pelo que vemos diante de nós. — Holmes foi até a porta-janela e abriu-a. — Aqui não há pegadas; mas o chão é duro e não seria o caso de esperar encontrá-las. Vejo que as velas sobre a lareira foram acesas.

— Sim, foi por esta luz e pela vela que a senhora trazia que os ladrões puderam orientar-se.

— E o que foi que levaram?

— Oh, não roubaram grande coisa. Apenas algumas peças de prata, de cima do aparador. Lady Brackenstall acha que ficaram tão perturbados com a morte de Sir Eustace, que não fizeram a limpeza que pretendiam fazer.

— Deve ser verdade. Apesar disso, beberam vinho, pelo que vejo.

— Para retemperar os nervos.

— Exatamente. Ninguém tocou nesses três copos sobre o aparador, não é?

— Não. E também a garrafa está como foi deixada.

— Vamos ver. Ora, ora, o que é isso?

Os três copos estavam agrupados, todos tintos de vinho, e um deles continha borra. A garrafa estava perto, três quartos cheia, e, ao lado, uma rolha longa, manchada. Sua aparência e o pó na garrafa indicavam que os ladrões não tinham aberto uma garrafa comum. A atitude de Holmes mudou. Perdeu a expressão distraída, e vi de novo uma luz de interesse em seus olhos profundos. Ergueu a rolha e examinou-a atentamente.

— Como a tiraram? — perguntou.

Hopkins apontou para uma gaveta aberta pela metade. Havia ali roupa de mesa e um grande saca-rolhas.

— Lady Brackenstall disse que o saca-rolhas foi usado?

— Não. O senhor deve lembrar-se de que ela estava inconsciente no momento em que a garrafa foi aberta.

— Isso mesmo. Por falar nisso, o saca-rolhas não foi usado. A garrafa foi aberta com um saca-rolhas de bolso, provavelmente desse tipo que vem junto com um canivete e que não tem mais de quatro centímetros de comprimento. Se examinar a parte de cima da rolha, verá que foi furada três vezes, até que conseguissem tirá-la. Não foi trespassada. Esse saca-rolhas grande teria trespassado a rolha, que sairia com um só arranco. Quando encontrar o ladrão, verá que possui um desses canivetes.

— Ótimo! — disse Hopkins.

— Mas confesso que estes copos me deixam perplexo. Lady Brackenstall viu os homens beberem, não é verdade?

— Sim, foi clara a esse respeito..

— Então, está acabado. Que mais se pode dizer? Apesar de tudo, deve reconhecer que os três copos são extraordinários, Hopkins! Ora, não vê nada estranho? Bem, bem, vá lá. É possível que, quando um homem possui dons e poderes extraordinários, como eu, seja levado a procurar uma explicação complexa quando tem uma simples à mão. Talvez seja coincidência a respeito dos copos. Pois bem, até logo, Hopkins. Não creio que possa ajudá-lo, e parece-me que o caso está bem claro. Avise-me quando Randall for preso, ou se houver qualquer outra novidade. Espero poder dar-lhe logo os parabéns por uma feliz conclusão. Venha, Watson, creio que poderemos aplicar melhor nosso tempo em casa.

Na viagem de regresso percebi, pela expressão de Holmes, que ele estava muito preocupado com algo que observara. De vez em quando, com esforço, procurava desfazer essa impressão e conversar como se o caso estivesse liquidado, mas depois ficava de novo pensativo. Finalmente, com súbito impulso, assim que nosso trem saiu de uma estação de subúrbio, pulou para a plataforma e puxou-me.

— Desculpe-me, caro amigo — disse, quando vimos o trem virar a curva. — Sinto torná-lo vítima do que talvez seja apenas um capricho, mas, por Deus, Watson, não posso deixar o caso como está. Todos os meus instintos gritam contra isso. Está errado, está errado, está tudo errado. E, no entanto, a história da dona da casa está completa, foi corroborada pela empregada, cada pormenor parece absolutamente exato. Que tenho eu a opor a isso? Três copos de vinho, apenas. Mas, caso eu não tivesse tomado as coisas como certas, se tivesse examinado tudo com o cuidado de quem começa uma investigação com a cabeça fresca, sem ter ouvido uma história, não teria encontrado algo mais definido? Claro que teria. Sente-se neste banco, Watson, até que chegue um trem de Chislehurst, e permita-me que ponha os indícios diante de você, implorando-lhe, em primeiro lugar, que afaste do pensamento a idéia de que os fatos contados pela dona da casa e pela criada sejam necessariamente verdadeiros. A encantadora personalidade da dama não deve influir em nosso julgamento.

“Na história de Lady Brackenstall existem certamente pormenores que, examinados a sangue-frio, excitariam nossas suspeitas. Esses ladrões cometeram um considerável roubo em Sydenham, há quinze dias. Saiu nos jornais a descrição do pai e dos filhos, e ela logo ocorreria a quem desejasse inventar uma história na qual bandidos imaginários tomassem parte. Em geral, os ladrões que fizeram um bom negócio dão-se por felizes de aproveitar em paz as vantagens do roubo, em vez de se meterem em outra perigosa aventura. Além disso, não é natural que atuem tão cedo, no princípio da noite; em geral não espancam uma mulher para evitar que grite, pois seria esse o meio mais fácil de fazê-la gritar; não é comum assassinarem um homem, quando são em número suficiente para dominá-lo; é extraordinário que se contentem com pouca coisa, quando têm muita a seu alcance; e, finalmente, asseguro-lhe que é estranho que tais homens deixem uma garrafa de vinho pela metade. Que acha, Watson?”

— O efeito acumulado de tudo isso é de fato considerável, mas cada um dos pontos em separado é admissível — respondi. — O mais estranho, para mim, é que ela tenha sido amarrada.

— Pois bem, isso não é assim tão estranho, Watson, pois é evidente que teriam de matá-la, ou amarrá-la, para que não desse imediatamente o alarme da fuga. E, acima de tudo, vem o incidente dos três copos de vinho.

— Que têm eles?

— Não pode se recordar deles?

— Claro que posso.

— Disseram-nos que os três homens beberam. Acha isso provável?

— Por que não? Havia vinho em todos os copos.

— Exatamente. Mas havia borra num apenas. Deve ternotado essa particularidade. O que lhe sugere?

— O último copo servido provavelmente foi o que recebeu a borra.

— Claro. A garrafa estava cheia dela, e é inconcebível que dois copos estivessem sem nada, e o outro, cheio dela. Há duas explicações, e apenas duas. Uma, que a garrafa foi violentamente agitada depois de ser servido o segundo copo, de modo que o terceiro apanhou a borra. Isso não parece provável. Não, não, tenho certeza de que tenho razão.

— Então, qual é sua suposição?

— De que somente dois copos foram usados, e que os restos dos dois foram vertidos no terceiro copo, para dar a impressão de que havia três pessoas. Dessa maneira, toda a borra iria para o terceiro copo, não é verdade? Sim, estou convencido de que foi isso. Mas, se acertei na explicação desse pequeno pormenor, então o caso passa do comum para o extraordinário, pois significa apenas que Lady Brackenstall e sua criada tentaram deliberadamente mentir-nos, e não devemos acreditar numa só palavra de sua história; elas têm motivos para ocultar o verdadeiro criminoso, e devemos investigar nosso caso sem o auxílio delas. É esta a nossa missão, Watson, e aqui esta o trem.

O pessoal da casa ficou muito admirado com nossa volta, mas Holmes, vendo que Hopkins saíra para fazer seu relatório, tomou conta da sala de jantar, fechou a porta por dentro e dedicou-se, durante duas horas, à minuciosa investigação que era a base em que se firmava o brilhante edifício de suas deduções. Sentado a um canto, como o estudante interessado que observava a demonstração do professor, acompanhei todos os passos de sua extraordinária busca. A janela, as cortinas, o tapete, a cadeira, a corda — cada objeto foi examinado minuciosamente, e seu valor, ponderado.

O corpo do infeliz baronete fora removido, mas o resto continuava em seus lugares. Depois, com espanto, vi Holmes subir na maciça lareira. Acima de sua cabeça, pendiam alguns centímetros de corda, ainda presa ao arame. Durante muito tempo ele olhou para cima, e, tentando chegar mais perto, apoiou o joelho na mão-francesa da parede. Isso permitiu que sua mão chegasse muito perto da ponta da corda, mas foi a mão-francesa o que mais lhe prendeu a atenção. Finalmente, desceu com uma exclamação satisfeita.

— Está certo, Watson — disse ele. — Este caso é um dos mais extraordinários de nossa coleção. Mas, Deus do céu, como fui inepto, quase chegando a cometer a maior falta de minha vida! Acho, agora, que os poucos elos que faltam à corrente estão quase à nossa mão.

— Sabe quem são os homens?

— O homem, Watson, o homem. Apenas um, mas uma formidável criatura. Forte como um touro, basta ver a violência com que o atiçador foi dobrado. Um metro e noventa de altura, ágil como um esquilo, e de dedos hábeis. Finalmente, homem de muito sangue-frio, pois esta história engenhosa é de sua autoria. Sim, Watson, temos aqui o trabalho de um sujeito extraordinário. Mas com a corda ele nos dá uma pista que não deixa dúvidas.

— Que pista?

— Pois bem, se você tivesse de puxar aquela corda, Watson, onde esperaria que ela rebentasse? Certamente no ponto onde se prende ao arame. Por que haveria de partir-se a oito centímetros da extremidade de cima, como aconteceu com esta aqui?

— Pelo fato de estar gasta?

— Exatamente. Esta ponta aqui está gasta. Ele teve a inteligência de cortá-la com uma faca, mas a outra parte não está desfiada. Não se podia observar isso daqui de baixo, mas subindo na lareira pude ver que a ponta da parte superior está cortada firmemente, sem sinais de desgaste. Podemos reconstituir os fatos. O homem precisava da corda. Não quis arrancá-la, com medo do alarme da campainha. O que fez, então? Pulou para a lareira, não pôde alcançar a corda, pôs o joelho na mão-francesa, como você pode ver pela marca na poeira, e cortou a corda com a faca. Faltam oito centímetros para que eu alcance a extremidade, de modo que calculo que ele seja oito centímetros mais alto do que eu. Veja esta marca na cadeira de carvalho! O que é?

— Sangue.

— Claro que é sangue. Só isso desmente a história da dona da casa. Se ela estava sentada nesta cadeira, quando o crime foi cometido, como pode haver aqui esta marca? Não, não, ela foi posta na cadeira após a morte do marido. Garanto que há uma marca correspondente em seu vestido preto. Ainda não encontramos nosso Waterloo, mas isso aqui é nossa Marengo, pois começa com derrota e termina com vitória. Gostaria de trocar uma palavra com Theresa, a criada. Temos de nos acautelar, a princípio, se quisermos a informação que desejamos.

Era interessante aquela australiana de ar severo. Taciturna, desconfiada, pouco amável. Holmes levou tempo para, com sua amabilidade e aceitação de tudo o que ela dizia, conseguir que se abrisse. A mulher não tentou ocultar seu ódio pelo antigo patrão.

— Sim, senhor, é verdade que ele arremessou a jarra contra mim. Quando o ouvi chamar minha patroa por certo nome, eu lhe disse que ele não ousaria falar assim se o irmão dela estivesse presente. Foi então que ele a atirou. Poderia atirar uma dúzia, contanto que deixasse minha menina em paz. Ele estava sempre maltratando-a, e ela era orgulhosa demais para se queixar; ela nunca vai chegar a me contar tudo o que o marido lhe fez. Não me falou sobre aquelas marcas no braço que o senhor viu esta manhã, mas eu sei que foram feitas com um alfinete de chapéu. O miserável! Deus me perdoe por falar assim, agora que está morto, mas jamais existiu demônio igual na terra. Era todo mel, quando o conhecemos, há dezoito meses apenas, mas parece que foram dezoito anos. Ela acabara de chegar a Londres. Era sua primeira viagem, nunca saíra da Austrália. Ele conquistou-a com seu título, seu dinheiro e suas falsas maneiras londrinas. Se a coitada cometeu um erro, pagou caro. Em que mês o conhecemos? Logo que chegamos. Chegamos em junho, e ela conheceu-o em julho. Casaram-se em janeiro do ano passado. Sim, ela está na saleta agora, e creio que o receberá, mas o senhor deve poupá-la, pois já agüentou o máximo que uma criatura pode agüentar.

Lady Brackenstall estava reclinada no mesmo divã, mas parecia mais animada. A criada entrou conosco e recomeçou a pôr compressas na mancha da testa da patroa.

— Espero que não tenham vindo interrogar-me de novo — disse a dona da casa.

— Não — respondeu Holmes com sua voz mais suave. — Não quero incomodá-la desnecessariamente, Lady Brackenstall. O meu desejo é facilitar-lhe as coisas, pois estou convencido de que sofreu muito. Se quiser tratar-me como amigo e confiar em mim, creio que não se arrependerá dessa confiança.

— O que quer que eu faça?

— Conte-me a verdade.

— Sr. Holmes!

— Não, não, Lady Brackenstall, não adianta. Talvez conheça minha reputação. Pois renuncio a ela se sua história não for pura invenção.

Patroa e empregada olharam para Holmes, pálidas e amedrontadas.

— O senhor é ousado! — exclamou Theresa. — Está querendo dizer que minha patroa mentiu?

Holmes ergueu-se.

— Nada tem a dizer-me? — perguntou.

— Já lhe disse tudo.

— Pense um pouco, Lady Brackenstall. Não seria melhor ser franca?

Por um instante, houve hesitação no belo rosto. Depois, um pensamento mais forte fez com que ele se transformasse numa máscara.

— Contei-lhe tudo o que sabia.

Holmes pegou o chapéu e encolheu os ombros.

— Sinto muito, minha senhora — disse ele. E, sem mais palavras, saiu da sala e da casa.

Havia um tanque no jardim, e foi para lá que meu amigo me conduziu. Estava gelado, mas no centro havia uma abertura cômoda para um cisne solitário. Holmes fitou-o, e em seguida atravessou o portão de entrada. Escreveu um bilhete a Hopkins e entregou-o ao porteiro.

— Pode ser que acerte, pode ser que não, porém temos de fazer alguma coisa pelo amigo Hopkins, a fim de justificar esta segunda visita — disse ele. — Mas ainda não quero fazer-lhe confidências. Nosso próximo centro de operações vai ser o escritório da agência de navegação da linha Adelaide—Southampton, que fica na extremidade da Pall Mall, se bem me lembro. Há outra linha de vapores que liga a Austrália à Inglaterra, mas primeiro investigaremos a mais importante.

O cartão de Holmes, mandado ao gerente, fez com que fosse atendido imediatamente, e não tardou em obter a informação que desejava. Em junho de 1895, somente um navio daquela linha aportara na Inglaterra. Era o Rock of Gibraltar, o maior e melhor da companhia. O exame da lista de passageiros, revelou-nos o nome da srta. Fraser, de Adelaide, que viajava com sua criada. A tripulação ainda era a mesma de 1895, com uma exceção. O primeiro-oficial, o sr. Jack Croker, fora feito capitão, e devia assumir o comando de novo navio, o Bass Rock, que sairia dali a dois dias de Southampton. Morava em Sydenham, mas talvez tivesse vindo receber instruções. Desejávamos falar com ele?

Não, o sr. Holmes não desejava vê-lo, mas gostaria de saber alguma coisa a respeito de sua carreira e seu caráter.

Sua filha era magnífica. Não havia, na frota, oficial que se lhe comparasse. Quanto ao caráter, ele era digno de confiança quando em seu posto; fora do navio era um sujeito violento, exaltado, facilmente excitável, mas leal, honesto e de bom coração. Foram essas as informações que Holmes colheu na companhia de navegação. Dali foi para a Scotland Yard, mas, em vez de entrar, ficou sentado na carruagem, mergulhado em seus pensamentos. Finalmente, foi ao telégrafo da Charing Cross e mandou um telegrama. Dali a pouco púnhamo-nos a caminho da Baker Street.

— Não, não pude fazê-lo, Watson — disse ele. — Uma vez expedido o mandado de prisão, nada mais o salvaria. Uma ou duas vezes durante minha carreira, achei que o mal que eu tinha feito, ao revelar o criminoso, era maior do que o que ele próprio fizera. Aprendi a ser cauteloso, e prefiro prejudicar a lei inglesa a prejudicar minha consciência. Precisamos saber mais alguma coisa antes de agir.

Ao anoitecer, recebemos a visita do inspetor Hopkins. As coisas não lhe corriam bem.

— Creio que o senhor é um feiticeiro, sr. Holmes. Às vezes acho realmente que tem poderes sobrenaturais. Como pôde saber que as pratas roubadas estavam no fundo do tanque?

— Não sabia.

— Mas aconselhou-me a verificar.

— Encontrou-as, então?

— Encontrei-as, sim.

— Fico muito satisfeito por tê-lo ajudado.

— Mas não me ajudou. Tornou o caso mais difícil ainda. Que espécie de bandidos são esses, que roubam pratas para atirá-las ao tanque?

— Não há dúvida de que é uma excentricidade. Calculei apenas que, se as pratas tivessem sido roubadas por pessoas que não as quisessem, e que as tivessem levado apenas para despistar (como foi o que aconteceu), essas pessoas ficariam desejosas de se ver livres delas.

— Mas por que lhe ocorreu tal idéia?

— Pois bem, achei possível. Quando eles saíram pela porta-janela, viram o tanque com um buraco bem no meio. Poderia haver melhor esconderijo?

— Ah, esconderijo, isso é outra coisa! — exclamou Hopkins. — Sim, sim, agora vejo tudo! Era cedo, havia gente nas estradas, eles tiveram medo de ser vistos com as pratas, de modo que as atiraram ao tanque, pretendendo voltar quando as coisas se acalmassem. Excelente, sr. Holmes, melhor do que sua idéia da pista falsa.

— Isso mesmo. Tem aí uma admirável teoria. Reconheço que minhas idéias são fantásticas, mas levei-o a descobrir as pratas.

— Sim, sim, foi graças ao senhor. Mas tive um contra-tempo.

— Um contratempo!?

— Sim, sim, sr. Holmes. O bando de Randall foi preso em… Nova York, hoje de manhã.

— Que diabo, Hopkins, isso vai contra sua teoria de que eles teriam cometido um assassinato em Kent na noite passada.

— É um golpe, sr. Holmes, um golpe fatal. Enfim, sempre há outras quadrilhas, ou talvez se trate de uma que a polícia não conheça.

— É muito possível. O quê, já vai embora?

— Sim, sr. Holmes. Não descansarei enquanto não chegar ao fim deste caso. Suponho que não tem nenhuma pista a dar-me!

— Já lhe dei uma.

— Qual?

— Pois bem, falei em pista falsa.

— Ora, sr. Holmes, ora!

— É essa a questão, naturalmente. Mas dou-lhe a sugestão. Talvez perceba que tem algum fundamento. Não quer jantar? Então adeus, e dê-me notícias.

O jantar terminara quando Holmes aludiu de novo ao Caso. Acendeu o cachimbo e aproximou os pés do fogo. De repente, olhou para o relógio.

— Estou à espera de novidades, Watson.

— Quando?

— Daqui a alguns minutos. Acha que agi mal com Hopkins, agora há pouco?

— Confio em você.

— Resposta muito sensata, Watson. Pode encarar o caso desta maneira: o que sei não é oficial; posso, portanto, agir à minha moda, mas ele… mas ele, não. Hopkins tem de revelar tudo, para ser leal a seu emprego. Havendo dúvidas, eu não gostaria de deixá-lo em posição difícil, de modo que reservo minha informação até ter absoluta certeza.

— Mas quando será?

— Chegou a hora. Vai presenciar a última cena de um dramazinho extraordinário.

Ouvimos passos na escada, e nossa porta abriu-se para dar entrada ao mais belo tipo de homem que jamais vi. Era um rapaz muito alto, de bigode louro, olhos azuis, pele queimada pelo sol dos trópicos e um andar que indicava ser ele ágil e forte. Fechou a porta, ficou de mãos contraídas e peito ofegante, parecendo profundamente emocionado.

— Sente-se, capitão Croker. Vejo que recebeu meu telegrama.

Nosso visitante caiu numa poltrona, olhando-nos com ar interrogador.

— Recebi e vim à hora que o senhor marcou. Soube que esteve na companhia de navegação. Não havia maneira de lhe escapar. Ouçamos o pior. Que vai fazer de mim? Prender-me? Fale, homem! Não pode ficar aí sentado, brincando de gato e rato comigo.

— Tome um charuto — disse Holmes. — Fume, e não se deixe dominar pêlos nervos, capitão Croker. Eu não estaria aqui sentado, fumando, se o considerasse um criminoso vulgar, pode estar certo disso. Seja franco comigo, e talvez resolvamos o caso. Mas se procura enganar-me, liquido-o.

— Que deseja que eu faça?

— Conte-me exatamente o que aconteceu em Abbey Grange, a noite passada… a história verdadeira, sem nada acrescentar ou diminuir. Se o senhor se desviar da verdade um centímetro que seja, tocarei este apito de polícia à janela, e o caso sairá para sempre de minhas mãos. O marinheiro pensou um momento. Depois bateu na perna, com a grande mão queimada de sol.

— Arrisco-me. Acredito que o senhor seja um homem honrado e de palavra, e vou contar-lhe a história. Mas direi uma coisa em primeiro lugar. Pelo que me diz respeito, de nada me arrependo e nada temo. Maldita seja aquela fera; se tivesse dezenas de vidas, de todas elas teria de me prestar contas! Mas existe aquela senhora, Mary, Mary Fraser, pois nunca a chamarei pelo maldito sobrenome do marido. Quando penso que posso prejudicá-la, eu, que daria a vida só para vê-la sorrir, fico com o coração partido. E no entanto, no entanto, o que eu poderia ter feito? Vou contar-lhes a história, senhores, e depois lhes perguntarei de homem para homem se poderia ter feito outra coisa.

“Tenho de retroceder um pouco. Parece que sabem tudo, de modo que com certeza não ignoram que a conheci quando era primeiro-oficial, a bordo do Rock of Gibraltar. Desde o primeiro dia, não existiu no mundo outra mulher para mim. Cada dia a amava mais, e muitas vezes, desde então, ajoelhei-me no tombadilho, na escuridão da noite, e beijei o chão, por saber que ela passara por ali. Ela tratou-me com toda a lealdade. Não tenho do que me queixar. Era amor de meu lado e camaradagem e amizade do lado dela. Quando nos despedimos, Mary era livre, mas eu nunca mais seria um homem livre.

“Quando regressei de minha última viagem, soube que ela estava casada. Por que não haveria de se casar com quem quisesse? Título e dinheiro, quem mais do que ela mereceria ser feliz? Nasceu para as coisas bonitas e caras. Não lamentei o casamento dela, não era egoísta até esse ponto. Alegrei-me por ter tido sorte, em vez de desperdiçar a vida com um marinheiro sem vintém. Era assim que eu amava Mary Fraser.

“Pois bem, pensava nunca mais tornar a vê-la, mas quando cheguei fui promovido, de modo que tive de esperar meu navio alguns meses, em Sydenham. Um dia, no campo, encontrei-me com Theresa, a criada de Mary. Ela contou-me tudo sobre Mary, o marido, tudo. Garanto-lhes, senhores, que fiquei como louco. Aquele bêbado miserável ousar erguer a mão para a mulher cujos sapatos ele não merecia beijar! Encontrei Theresa de novo. E encontrei Mary várias vezes. Depois, ela não quis voltar a ver-me. Há alguns dias, recebi a comunicação de que meu navio ia partir dentro de uma semana, e resolvi ir vê-la mais uma vez. Theresa sempre foi minha amiga, pois era afeiçoada a Mary e detestava aquele vilão tanto como eu. Por ela, fiquei conhecendo a casa e seus hábitos. Mary costumava ler embaixo, na saleta. Fui de mansinho até lá, ontem à noite, e bati na janela. A princípio, ela não quis abrir, mas no fundo do coração eu sabia que ela me amava e que não me deixaria fora de casa, numa noite gélida. Ela disse-me que fosse até a porta grande da frente. Entrei na sala de jantar. Ouvi de novo, de seus próprios lábios, coisas que me fizeram ferver o sangue, e amaldiçoei o bandido que assim maltratava a mulher que eu amava. Pois bem, senhores, estava ali com ela, inocentemente, tomo a Deus por testemunha! Quando ele entrou como louco na sala, chamou-a pelo nome mais baixo que um homem pode atirar a uma mulher e deu-lhe no rosto com a bengala que tinha na mão. Eu agarrei o atiçador, e houve uma luta leal entre nós dois. Veja aqui em meu braço o ponto onde ele me feriu em primeiro lugar. Chegou então minha vez e avancei, como se ele fosse um verme. Pensam que estou arrependido? Nunca! Era minha vida ou a dele, e, mais do que isso, era a dele ou a dela, pois como eu poderia deixá-la em poder daquele louco? Pois bem, o que os senhores teriam feito se estivessem no meu lugar?”

O capitão Croker continuou:

— Ela gritou quando ele lhe bateu, e isso fez com que Theresa acorresse. Havia uma garrafa de vinho no aparador. Abri-a, fiz Mary tomar um gole, pois estava mais morta do que viva. Depois, também tomei um gole. Theresa conservara absoluto sangue-frio, e o plano foi tanto dela como meu. Tínhamos de dar a impressão de que houvera ladrões em casa. Theresa repetia a história à patroa, enquanto eu subia na lareira para cortar a corda. Amarrei Mary a uma cadeira, desfiando a corda para que parecesse gasta, pois do contrário pensariam: como poderia um ladrão subir para cortá-la? Depois, apanhei algumas peças de prata para reforçar a idéia de roubo, e saí, recomendando que dessem o alarme um quarto de hora após minha partida. Atirei as pratas no tanque e dirigi-me a Sydenham, achando que, ao menos uma vez na vida, agira com justiça. É esta a verdade e toda a verdade, sr. Holmes, mesmo que eu tenha de ir para a forca.

Holmes fumou em silêncio durante algum tempo. Depois atravessou a sala e apertou a mão do visitante.

— É isso o que penso — disse ele. — Sei que cada palavra sua é verdadeira, pois não disse uma única que eu já não conhecesse. Ninguém a não ser um acrobata, ou marinheiro, poderia ter alcançado a corda apoiando-se na mão-francesa; e ninguém, a não ser um marinheiro, teria feito aqueles nós na corda. Somente uma vez Lady Brackenstall estivera em contato com marinheiros, isto é, naquela viagem, e devia ser alguém de sua classe, pois ela fazia tudo para protegê-lo, mostrando assim que o amava. Bem vê como foi fácil descobri-lo, uma vez que me pus na pista certa.

— Calculei que a polícia nunca pudesse descobrir a trama.

— E não descobriu nem descobrirá, ao que penso. Agora, escute, capitão, esse assunto é sério e estou pronto a reconhecer que o senhor agiu sob grande provocação. Não sei se, alegando legítima defesa, seria ou não absolvido. Isso compete ao júri. Mas simpatizo tanto com seu caso que, se o senhor desaparecer dentro de vinte e quatro horas, prometo que ninguém o impedirá de fazê-lo.

— E depois tudo virá a público?

— Claro que sim.

O marinheiro ficou vermelho de cólera.

— Que espécie de proposta é essa para se fazer a um homem? Conheço bastante a lei para saber que Mary seria considerada cúmplice. Acha que a deixaria só para enfrentar tudo, enquanto eu fugisse? Não, senhor, que me façam o pior, mas, pelo amor de Deus, sr. Holmes, arranje uma forma de deixar Mary fora de tudo isso.

Pela segunda vez, Holmes estendeu-lhe a mão.

— Eu estava pondo-o à prova e, também agora, cada uma de suas palavras soou verdadeira. Pois bem, é uma grande responsabilidade que tomo, mas fiz uma alusão a Hopkins e, se ele não a aproveitar, paciência. Ouça, capitão Croker, vamos fazer isso a exemplo da lei. O senhor é o prisioneiro. Watson, você é o júri britânico…. e jamais encontrei pessoa mais apta para representá-lo. Eu sou o juiz. Agora, senhores jurados, conhecem o processo. Consideram o réu culpado ou inocente?

— Inocente, meritíssimo juiz — respondi.

— Vox populi, vox Dei. Está absolvido, capitão Croker. Enquanto a lei não encontrar outra vítima, o senhor poderá ficar tranqüilo. Venha buscar sua dama dentro de um ano, e que o futuro de ambos justifique a sentença que hoje pronunciamos.

1905
A volta de Sherlock Holmes

1. A casa vazia § 2. O construtor de Norwood
3. Os dançarinos § 4. A ciclista solitária
5. A escola do priorado § 6. Pedro Negro
7. Charles Augustus Milverton § 8. Os seis bustos de Napoleão
9. Os três estudantes § 10. O pincenê dourado
11. O atleta desaparecido § 12. Abbey Grange § 13. A segunda mancha

Ilustrações: Frederic Dorr Steele e Sidney Paget, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

Anúncios