O problema final

Arthur Conan Doyle

O problema final

Título original: The Final Problem
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Dezembro de 1893 e com 9 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Final Problem publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

É com o coração pesado que pego a pena para escrever estas últimas e poucas palavras, com que registrarei os dotes singulares que sempre distinguiram meu amigo Sherlock Holmes. Num estilo incoerente e, sinto-o bem, profundamente inadequado, esforcei-me por fazer a narrativa de minhas estranhas experiências em sua companhia, desde o acaso que primeiro nos reuniu na época de Um estudo em vermelho até a altura de sua interferência no caso do “Tratado naval” — interferência que teve o mérito de evitar um grave conflito internacional. Era minha intenção parar por aqui e nada mais dizer a respeito desse acontecimento que criou um vazio em minha vida, vazio esse que o lapso de dois anos pouco fez para preencher. Entretanto, foram publicadas recentemente as cartas em que o coronel James Moriarty defende a memória de seu irmão. Não tive outra alternativa senão apresentar perante o público os fatos exatamente como ocorreram. Só eu conheço a verdade precisa da questão, e sinto-me feliz por ter chegado o momento em que não se serve uma causa boa com sua supressão. Até onde me é dado saber, houve apenas três crônicas na imprensa: a do Journal de Genève de 6 de maio de 1891, o despacho da Reuter de 7 de maio nos jornais ingleses e, finalmente, as recentes cartas a que aludi. Destas, a primeira e a segunda são extremamente lacônicas, e a última é, como tentarei demonstrar agora, uma perfeita subversão dos fatos. Cabe-me, pois, revelar pela primeira vez o que realmente se passou entre o professor Moriarty e Sherlock Holmes.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

O leitor deve lembrar-se de que, logo após meu casamento e minha conseqüente estréia na clínica particular, as íntimas relações que havia entre mim e Holmes se modificaram muito. Ele me procurava apenas de tempos em tempos, quando queria minha companhia em suas investigações. Mas essas ocasiões tornaram-se cada vez mais raras; em 1890, houve apenas três casos, de que conservo registro. Durante o inverno desse ano e o começo da primavera de 1891, tomei conhecimento pêlos jornais de que o governo francês solicitara os serviços de meu amigo num caso de extrema importância. Recebi então dois postais de Holmes, datados de Narbonne e Nímes, pêlos quais concluí que sua permanência na França devia prolongar-se.

Foi, portanto, com grande surpresa que o vi entrar em meu consultório na noite de 24 de abril. Chocou-me sobretudo o seu aspecto mais pálido e mais magro que o habitual.

— Sim, tenho me esforçado demais — observou, mais em resposta a meu olhar do que a minhas palavras. — Tenho estado um pouco oprimido ultimamente. Importa-se que eu corra as persianas?

A única luz da sala provinha do candeeiro sobre a mesa a que eu estivera lendo. Holmes dirigiu-se para a janela, fechou a persiana e colocou-lhe os ferrolhos como segurança.

— Está com receio de alguma coisa? — perguntei.

— Estou.

— De quê?

— De armas aéreas.

— Meu caro Holmes, o que quer dizer com isso?

— Creio que me conhece o suficiente, Watson, para saber que não sou, de modo algum, um homem nervoso; mas também sei que não é coragem, mas estupidez, recusar-mo-nos a reconhecer o perigo iminente. Tem um fósforo? Tragou a fumaça de seu cachimbo como se tivesse um efeito calmante.

— Devo desculpar-me por vir visitá-lo tão tarde — continuou —, e ainda por lhe pedir que deixe, por momentos, de ser convencional, e permita que eu saia daqui escalando o muro dos fundos.

— Mas o que significa tudo isso?

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Estendeu a mão e vi, à luz do candeeiro, que duas de suas articulações estavam feridas e sangravam.

— Não é nada aéreo — explicou sorrindo. — Pelo contrário, é bastante sólido para nos quebrar a mão. Sua mulher está em casa?

— Não. Foi fazer uma visita.

— Então você está sozinho?

— Completamente.

— Nesse caso, fica mais fácil propor-lhe que venha comigo ao continente, por uma semana.

— Aonde?

— Oh! Para qualquer lugar. Tanto faz.

Havia algo estranho em tudo aquilo. Não era da índole de Holmes sair em férias sem um objetivo. E seu rosto pálido e encovado dizia-me que seus nervos estavam sob grande tensão. Holmes reparou em meu ar interrogativo; juntou as pontas dos dedos, colocou os cotovelos sobre a mesa e explicou a situação.

— Presumo que nunca ouviu falar no professor Moriarty.

— Nunca.

— Ora, aí está o gênio e a maravilha da coisa! — exclamou. — O homem invade Londres, e ninguém ouviu falar nele. É o que o coloca no pináculo dos registros do crime. Afirmo-lhe, Watson, com toda a sinceridade, que, se eu pudesse derrotar esse homem, se conseguisse livrar a sociedade de tal criatura, sentiria que minha carreira teria alcançado o ápice, e estaria pronto a dedicar-me a um gênero de vida mais sossegado. Aqui entre nós, os casos recentes em que prestei auxílio à família real da Escandinávia e à República Francesa proporcionaram-me uma situação que me permitiria continuar a viver tranqüilamente e entregar-me até, com todo o vagar, às pesquisas químicas. Mas eu não conseguiria descansar, Watson, não seria capaz de me sentar repousado em minha cadeira e saber que um homem como o professor Moriarty anda pelas ruas de Londres, inocentemente, sem ser apanhado.

— Mas então, o que fez ele?

— Sua carreira tem sido extraordinária. É um homem de origem nobre e excelente educação, dotado, pela natureza, de uma fenomenal faculdade matemática. Aos vinte e um anos, escreveu um tratado sobre a teoria binominal, que alcançou fama na Europa. Conseguiu assim uma cadeira de matemática numa de nossas universidades menores, e tinha, com todas as probabilidades, uma brilhante carreira à sua frente. Mas o homem possui, também, tendências hereditárias da mais diabólica espécie. Um fluido criminoso corre-lhe nas veias, e seus extraordinários poderes mentais, em vez de o modificarem, tornaram-no ainda mais perigoso. Negros boatos corriam sobre ele, na cidade universitária. Por fim, foi obrigado a demitir-se, e veio para Londres, onde se fixou como instrutor do exército. Isso é tudo o que o mundo sabe, mas o que vou lhe contar agora é o que eu próprio descobri.

“Como sabe, Watson, ninguém melhor do que eu conhece o submundo mais elevado de Londres. Ora, nestes últimos anos fortaleceu-se em mim a convicção de que existe, por trás do delinqüente, algum poder profundo de organização que se coloca sempre no caminho da lei, protegendo, como um escudo, aquele que procede mal. Em casos da mais variada espécie — falsificações, roubos, assassínios —, senti constantemente a presença dessa força, e deduzi sua ação em muitos desses casos que ficaram por descobrir, ou em que não fui especialmente consultado. Durante anos, esforcei-me por levantar o véu que a ocultava; afinal, surgiu o momento em que segurei a linha, e ao segui-la, palmo a palmo, depois de milhares de voltas astutas, ela conduziu-me ao ex-professor Moriarty, celebridade matemática.

“É o Napoleão do crime, Watson. É o organizador de metade do que é mau, e de quase tudo o que está escondido nesta grande cidade. Ele é um gênio, um filósofo, um pensador abstrato. Tem um cérebro de primeira ordem. Senta-se imóvel como a aranha em sua teia, mas sua teia tem milhares de ramificações. Além disso, conhece perfeitamente os pontos sensíveis de cada uma delas. Ele próprio pouco faz; apenas planeja. Mas seus agentes são numerosos e magnificamente organizados. Há um crime a cometer, um documento a subtrair, uma casa a roubar ou um homem a eliminar… passe-se a palavra ao professor Moriarty, e a coisa será feita. O agente pode ser preso, mas aparece o dinheiro para sua fiança ou defesa. E o poder central que o arregimentou nunca é apanhado… nem uma suspeita, sequer. Foi a existência dessa organização que deduzi, Watson. E foi à tarefa de denunciá-la e destruí-la que devotei toda a minha energia.

“Mas nosso homem cercou-se de salvaguardas tão inteligentemente planificadas que, fizesse o que fizesse, parecia impossível arranjar uma única prova susceptível de inculpá-lo e levá-lo ao tribunal. Você conhece minhas aptidões, Watson, e todavia, ao fim de três meses, fui obrigado a admitir que tinha finalmente encontrado um adversário de meu nível intelectual. Meu horror por seus crimes perdeu-se perante a admiração de sua habilidade. Mas, por fim, ele acabou por cometer um erro, um pequeno erro, apenas, mas de grande importância, estando eu tão perto dele. Tive então minha oportunidade e, partindo desse ponto, teci minha teia ao redor dele, estando agora tudo a postos para que eu a feche. Dentro de três dias, quer dizer, na próxima segunda-feira, as coisas estarão maduras, e o professor, com todos os principais membros do bando, cairá nas mãos da polícia. Seguir-se-á então o maior julgamento criminal ao século, o esclarecimento de mais de quarenta mistérios, e a corda para todos eles. No entanto, se agirmos prematuramente, compreende, podem ainda escapar-nos, até o último instante.

“Se eu pudesse ter agido sem o conhecimento do professor Moriarty, tudo teria saído bem. Mas ele foi demasiado sagaz; viu todos os passos que dei para capturá-lo em minha armadilha. Lutou sempre, e eu sempre o interceptei. A tal ponto que, meu amigo, se se escrevesse a história deste duelo silencioso, ela ocuparia o lugar da mais brilhante série de golpes e contragolpes da crônica do detetivismo. Nunca me elevei a tal altura, e nunca fui tão duramente cercado por um adversário. Ele golpeia fundo, mas eu, por minha vez, também já o golpeei baixo. Dei, esta manhã, os derradeiros passos, e são necessários apenas mais três dias para concluir o assunto. Estava sentado em minha cadeira a pensar em tudo isso, quando a porta se abriu e o professor Moriarty apareceu diante de mim.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“Meus nervos agüentam razoavelmente qualquer prova, Watson, mas não posso deixar de confessar que senti um sobressalto quando vi, no limiar de minha porta, o homem que tanto me ocupara o pensamento. Sua aparência era-me inteiramente familiar: muito alto e magro, a fronte alongada numa curva branca e os olhos profundamente enterrados no rosto. Tem o rosto raspado, é pálido, de aparência ascética, e conserva, nas feições, qualquer coisa de professor. Os ombros descaíram com as horas de estudo, e a cara projeta-se para a frente e oscila devagar, de um lado para o outro, num curioso jeito de réptil. Olhou para mim com grande curiosidade nos olhos contraídos.

“— O senhor tem um desenvolvimento frontal menor do que eu imaginava — disse ele por fim. — É um hábito perigoso dedilhar armas de fogo carregadas, no bolso do roupão.

“A verdade é que, à sua entrada, reconheci num instante o extremo perigo pessoal a que estava exposto. A única fuga concebível consistia em manter-me calado. Num relâmpago, retirei o revólver da gaveta e meti-o no bolso, apontado, por trás da roupa, para ele. Â sua observação, tirei a arma e coloquei-a em cima da mesa com o gatilho levantado. Ele ainda sorriu e pestanejou, mas havia algo em seus olhos que me deixava satisfeito por tê-lo ali.

“— O senhor evidentemente não me conhece — disse ele.

“— Pelo contrário — respondi —, receio que seja até evidente que o conheço. Sente-se, por favor. Posso dispensar-lhe cinco minutos, se o senhor tem alguma coisa a dizer.

“— Tudo o que tenho a dizer com certeza já lhe atravessou a mente.

“— Então possivelmente minha resposta também atravessou a sua — ripostei.

“— Mantém-se portanto inabalável — insistiu.

“— Inteiramente.

“Ele meteu a mão no bolso e eu levantei o revólver da mesa. Mas ele tirou apenas uma agenda, onde escrevera algumas linhas.

“— O senhor atravessou-se em meu caminho a 4 de janeiro — começou. — No dia 23 incomodou-me; em meados de fevereiro, fui seriamente embaraçado pelo senhor; no fim de março fui definitivamente prejudicado em meus planos; agora, em fins de abril, encontro-me numa situação tal, devido à sua perseguição contínua, que corro o risco de perder minha liberdade. A situação está se tornando insuportável.

“— Tem alguma sugestão a fazer? — perguntei.

“— Basta, basta! — respondeu. — Tenho absoluta certeza de que um homem com sua inteligência verá que não pode haver senão um desfecho para este assunto. É necessário que o senhor se retire. O senhor tem trabalhado de tal maneira que só me resta um recurso. Tem sido aliás para mim um prazer intelectual observar o modo como se agarrou a este assunto, e digo-lhe sem afetação que me seria doloroso ser forçado a tomar medidas extremas. O senhor sorri, mas afirmo-lhe que não hesitarei.

“— O perigo é um dos ingredientes de minha profissão — observei.

“— Não se trata de perigo. É a destruição inevitável. O senhor não se interpôs no caminho de um indivíduo apenas, mas de toda uma poderosa organização, cuja extensão nem o senhor, com sua famosa perspicácia, pode, de longe, imaginar. Afaste-se, sr. Holmes, ou será esmagado.

“— Receio — disse eu, levantando-me — que o prazer desta conversa prejudique uns negócios que me esperam em outra parte.

“Moriarty levantou-se também, fitou-me, silencioso, e sacudiu a cabeça com tristeza.

“— Bem, bem — disse por fim. — É pena, mas fiz o que pude. Conheço todos os lances de seu jogo. Até segunda-feira, nada poderá fazer. Isto tem sido um duelo entre nós dois, sr. Holmes. O senhor espera levar-me ao tribunal; digo-lhe que não irei ao tribunal. O senhor espera derrotar-me; digo-lhe que nunca me derrotará. Se o senhor for bastante inteligente para me levar à destruição, fique descansado que lhe farei o mesmo.

“— O senhor lisonjeou-me com vários cumprimentos, sr. Moriarty — disse eu. — Permita-me, pois, que lhe retribua dizendo que, no capítulo das destruições, estou firmemente certo da primeira eventualidade, mas quero, no interesse do público, aceitar livremente a última.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— Prometo-lhe uma delas — resmungou, voltando-me as costas e saindo vacilante, com um ar profundamente triste.

“Eis minha estranha entrevista com o professor Moriarty, Watson. Confesso que me deixou um sentimento desagradável. Sua maneira suave e precisa de falar é sinal de uma sinceridade que um mero insolente estaria longe de expressar. Você dirá, por certo: por que não tomou precauções policiais contra ele? A razão é que estou plenamente convencido de que é de seus agentes que virá o golpe. Tenho a melhor prova de que assim será.”

— Já foi assaltado?

— Meu caro Watson, o professor Moriarty não é homem para deixar que a relva lhe cresça debaixo dos pés. Saí por volta do meio-dia para tratar de uns negócios na Oxford Street, e quando dobrava a esquina que vai da Bentinck Street para a Weibeck Street um carroção de transporte de mobília, com uma parelha furiosamente dirigida, sibilou ao redor e veio sobre mim como um relâmpago. Saltei para a calçada e salvei-me por uma fração de segundo. O pesado carro guinou com violência e desapareceu na Marylebone Lane. Depois disso, andei sempre pela calçada, Watson, mas quando descia a Vere Street, um tijolo caiu do telhado de uma casa e espatifou-se a meus pés. Chamei a polícia, e o local foi examinado. Havia pedras e tijolos empilhados no telhado como preparativo para alguma obra, e tentaram fazer-me acreditar que fora o vento que fizera tombar um deles. Eu tinha, é claro, outra opinião, mas nada podia provar. Tomei então um trem e fui para a casa de meu irmão, onde passei o resto do dia. E agora, quando vinha para cá, fui atacado no caminho, à cacetada, por um facínora qualquer. Dominei-o, e a polícia já o tem sob custódia. Mas posso dizer-lhe, com a mais firme confiança, que jamais será feita qualquer ligação entre o cavalheiro em cujos dentes descasquei os nós dos meus dedos e o matemático aposentado que está, suponho, resolvendo problemas numa lousa, a dezesseis quilômetros de distância. Agora já não deve estar achando estranho, Watson, que meu primeiro cuidado ao chegar aqui fosse fechar as persianas e pedir-lhe que me permitisse sair de sua casa por um lugar menos conspícuo do que a porta da frente.

Admirei muitas vezes a coragem de meu amigo, mas nunca como naquele momento, quando se sentou, muito calmo, desfiando aquela série de incidentes ideais para compor um dia de horror.

— Vai passar a noite aqui, Holmes?

— Não, meu amigo. Seria um hóspede perigoso. Já tracei meus planos, e tudo correrá bem. As coisas já foram tão longe, que podem agora prosseguir sem mim até a prisão do bando, embora minha presença seja necessária para a prova de culpabilidade. É pois evidente que o melhor que tenho a fazer é ausentar-me por uns dias, precisamente os que restam para a polícia ter liberdade de ação. Entretanto, seria para mim um grande prazer se você pudesse vir comigo para o continente.

— Estou com pouco trabalho — respondi —, e tenho um vizinho prestativo. Ser-me-ia muito agradável ir com você.

— Acha que podemos partir amanhã de manhã?

— Se for necessário…

— Sim, é mais que necessário. Vou dar-lhe algumas instruções que peço, meu caro Watson, cumpra à risca, porque você está agora representando comigo um duplo jogo contra o bandido mais inteligente e o sindicato do crime mais poderoso da Europa. Ouça: esta noite, despachará para Victoria, por um moço de confiança, toda a bagagem que quiser levar. Amanhã, logo de manhã, peça ao moço que chame um carro de praça, recomendando-lhe que não aceite o primeiro, nem sequer o segundo, que se apresentar. Suba para esse carro e corra para o Strand, ao fim da Lowther Arcade, entregando o endereço ao cocheiro numa tira de papel com a especial recomendação de que ele não o jogue fora. Tenha já seu bilhete consigo e, logo que o carro parar, meta-se pela Árcade, de modo a chegar ao outro lado às nove e quinze. Encontrará perto da guia um carro pequeno e fechado, conduzido por um indivíduo com uma pesada capa preta e gola guarnecida de vermelho. Utilizando esse carro, dirija-se para Victoria a tempo de apanhar o expresso continental.

— E onde me encontro com você?

— Na estação. O segundo vagão de primeira classe, a contar da frente, está reservado para nós.

— Então o vagão é nosso ponto de reunião?

— Exatamente.

Em vão insisti para que ficasse durante a noite. Não tinha dúvidas de que ele pensava trazer complicações ao lugar onde se encontrava, e que era esse o motivo que o fazia partir. Com mais algumas palavras apressadas sobre nosso plano para o dia seguinte, levantou-se e saiu comigo para o jardim. Escalou então o muro que dá para a Mortimer Street e assobiou para um carro de praça. Passados instantes, ouvi-o partir.

Na manhã seguinte, cumpri ao pé da letra as instruções de Sherlock Holmes. Teve-se a preocupação de procurar um carro de modo a evitar tomar um preparado de antemão para nós e, depois do desjejum, segui imediatamente para a Lowther Árcade, a qual, mal chegado, atravessei a correr. Um carro fechado esperava-me com efeito, o maciço cocheiro enrolado numa capa preta. Assim que entrei, chicoteou o cavalo e rodamos para a estação de Victoria. Assim que me apeei, ele virou rápido o carro e disparou sem sequer olhar em minha direção.

Até ali, tudo correra admiravelmente. Minha bagagem estava à espera, e não tive dificuldade em encontrar o vagão que Holmes indicara, visto ser o único da composição que tinha o letreiro “Reservado”. Minha ansiedade, porém, era causada pela ausência de Holmes. Pelo relógio da estação, faltavam apenas sete minutos para partirmos, e em vão eu procurava a figura esguia de meu amigo por entre os grupos dos que partiam e dos que se despediam. Nem sinal dele. Gastei alguns minutos a observar um venerável sacerdote italiano que se esforçava por explicar, ao moço de fretes, em seu inglês estropiado, que sua bagagem devia ser enviada para Paris. Então, tendo lançado outro olhar em redor, voltei para o vagão, onde verifiquei que o moço de fretes, a despeito de nossa reserva, me havia dado o decrépito amigo italiano como companheiro de viagem. Foi-me inútil tentar fazer-lhe ver que sua presença era uma intrusão, já que meu italiano era ainda pior do que o inglês dele. Não havendo esperanças, encolhi resignado os ombros, e continuei a esperar, com ansiedade, meu amigo. Um arrepio de pavor perpassou por mim ao ocorrer-me que sua ausência podia significar que fora atacado durante a noite. As portas já haviam sido fechadas e o apito soara quando…

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Meu caro Watson — disse uma voz —, você não condescende nem mesmo em dar-me bom-dia?

Voltei-me sem conseguir dominar o espanto. O idoso eclesiástico encarou-me e, num instante, as rugas de seu rosto se alisaram, o nariz se afastou do queixo, o lábio inferior abandonou a posição pendente, a boca deixou seu lento mascar, os olhos estúpidos adquiriram um brilho que me era familiar e sua figura encolhida endireitou-se. Em seguida, toda aquela armação se desfez e Holmes surgiu, rápido, triunfante.

— Meu Deus! — exclamei. — Que susto me pregou…

— É ainda necessária toda a precaução — cochichou. — Tenho razões para pensar que eles estão em nossa pista. Olhe, lá está Moriarty em pessoa.

O trem já começara a mover-se quando Holmes falou. Olhando para trás, vi um homem alto tentando furiosamente abrir caminho por entre as pessoas, e acenando como se desejasse fazer parar a composição. Mas já era demasiado tarde, porque esta ganhou velocidade e, como uma flecha, deixou para trás a estação.

— Está vendo? Com toda a nossa precaução, safamo-nos por um triz — disse Holmes com uma risada.

Levantou-se e tirou a batina e o chapéu que haviam constituído seu disfarce e guardou-os, com cuidado, numa pequena mala de mão.

— Viu o jornal da manhã, Watson?

— Não. Passou-se alguma coisa?

— Então não sabe nada da Baker Street?

— Baker Street?

— Puseram fogo à casa, a noite passada.

— Céus, Holmes! É intolerável.

— Devem ter perdido a pista depois de o homem do cacete ter sido preso, mas não devem ter cometido o erro de pensar que eu voltaria a casa. Entretanto, é possível que a tenham revistado de alto a baixo, e foi isso que trouxe Moriarty a Victoria. Você cometeu algum erro em sua vinda para a estação?

— Fiz exatamente o que você me recomendou.

— Encontrou o carro fechado?

— Sim, estava lá à espera.

— Reconheceu o cocheiro?

— Não.

— Era meu irmão Mycroft. É uma vantagem não recorrer a mercenários, em certos casos. Mas agora precisamos estudar bem o que vamos fazer de Moriarty.

— Como este trem é expresso e o barco tem o horário combinado com o dele, parece-me que nos safamos.

— Meu caro Watson, é evidente que você não alcançou o sentido completo de minhas palavras quando lhe disse que esse homem pode considerar-se do mesmo nível intelectual que eu. Espero que me faça a justiça de não supor que, se fosse eu o perseguidor, me deixaria frustrar por um obstáculo tão fácil. Por que faz de Moriarty uma idéia tão pobre?

— Mas então que fará ele?

— O que eu faria.

— E que faria você?

— Fretaria um trem especial.

— Mas seria tarde.

— De modo nenhum. Este pára em Canterbury, e demora-se sempre cerca de quinze minutos por causa do barco. Qualquer trem especial nos alcançaria.

— Parece até que somos nós os criminosos! Prenda-mo-lo assim que chegue.

— Isso seria a ruína de três meses de trabalho. Pescaríamos o peixe grande, mas deixaríamos escapar os pequeninos pêlos lados de nossa rede. Segunda-feira nós os apanharemos todos. Não, uma prisão só é inadmissível.

— Então o que faremos?

— Desembarcaremos em Canterbury.

— E depois?

— Depois, é necessário fazer uma viagem pelo interior até Newhaven, e daí para Dieppe. Moriarty fará o que eu faria; chegará a Paris, marcará nossa bagagem e esperará dois dias. Entretanto, nós nos divertiremos com um bom par de alforjes, encorajaremos as pequenas fábricas de província por onde passarmos e seguiremos, com todo o vagar, para a Suíça, via Luxemburgo e Basiléia.

Sou um velho viajante para me dar ao luxo de me incomodar com a perda da bagagem, mas confesso que me aborrecia a idéia de ter de fugir por causa de um homem cujo prontuário estava negro de indizíveis infâmias. Por outro lado, era evidente que Holmes via a situação com mais clareza do que eu.

Descemos portanto em Canterbury, e verificamos que tínhamos de esperar mais de uma hora pelo trem para Newhaven.

Eu estava ainda olhando tristemente para o vagão de bagagens que se afastava com minha mala, quando Holmes me puxou pela manga e apontou para a linha.

— Está vendo? — murmurou.

Ao longe, por entre os bosques de Kentish, surgiu um novelo tênue de fumaça. Um minuto depois, podia ver-se uma locomotiva puxando apenas um vagão, em corrida vertiginosa sobre a curva aberta que conduzia à estação. Mal tivemos tempo de nos esconder atrás de uma pilha de malas, e ele já passava por nós com um estrondo, vomitando em nossas caras um jato de ar quente.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Lá vai ele — disse Holmes, quando observamos o vagão oscilando sobre os trilhos. — Como vê, há limites para a inteligência de nosso amigo. Teria sido um golpe de mestre se tivesse deduzido o que eu deduzi e agisse de acordo.

— E o que ele teria feito se nos alcançasse?

— Não me resta a menor dúvida de que teria feito um ataque homicida. Trata-se de um jogo a dois. Mas a questão agora é decidir se vamos almoçar antecipadamente por aqui ou se vamos correr o risco de passar fome até chegarmos ao restaurante de Newhaven.

Viajamos para Bruxelas naquela noite, onde passamos dois dias, seguindo no terceiro para Estrasburgo. Na segunda-feira de manhã, Holmes telegrafou para a polícia de Londres. À noite, ao chegarmos ao hotel, a resposta já esperava por nós. Holmes rasgou o envelope e, com uma amarga maldição, lançou no fogo o telegrama.

— Eu devia saber — gemeu. — Escapou.

— Moriarty?

— Prenderam o bando todo, exceto ele. Deixaram-lhe uma saída. Por certo, quando parti, não ficou ninguém para enfrentá-lo. E eu estava convencido de que havia colocado a presa nas mãos da polícia. Acho que seria melhor você voltar para a Inglaterra, Watson.

— Por quê?

— Porque agora me tornei um companheiro extremamente perigoso. A atividade desse homem chegou ao fim. Se voltar a Londres, estará perdido. E, se li a verdade de seu caráter, sua única preocupação será vingar-se de mim. Vai empregar nisso todas as suas energias. Durante nossa curta conversa disse muita coisa, mas o mais grave é precisamente o que deixou no ar. E eu imagino o que ele queria dizer. Por isso, recomendo-lhe que volte à sua clínica.

Tratava-se de um apelo que dificilmente seria atendido, quando feito a um velho batalhador e amigo íntimo. Sentamo-nos na sala de jantar de nosso hotel em Estrasburgo e falamos sobre o assunto durante uma boa meia hora. Nessa mesma noite, seguimos viagem a caminho de Genebra, Durante uma semana encantadora, erramos pelo vale do Ródano, deixando o Gemmi ainda afundado na neve quando nos dirigimos para Meiringen, via Interlaken. Maravilhosa viagem: a nossos pés, o verde delicado da primavera; no alto, o branco virginal do inverno. Mas era-me perfeitamente visível que Holmes nem por um instante esquecia a sombra que se derramara sobre ele. Nos humildes lugares alpinos ou nas passagens solitárias das montanhas, eu notava, por seus rápidos relances e pelo exame penetrante de todas as pessoas que cruzavam conosco, que Holmes estava convencido de que, para onde quer que fôssemos, o perigo nos espreitava.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Uma vez, lembro-me como se fosse hoje, passado o Gemmi, caminhamos ao longo das margens do melancólico Daubensee quando um enorme penedo desprendeu-se do cume à nossa direita e caiu reboando no lago atrás de nós. Num ápice, Holmes galgou a encosta e, de pé, no altaneiro cimo do morro, alongou o pescoço em todas as direções. Em vão nosso guia lhe assegurou que a queda de pedras naquele lugar era muito comum, durante os degelos da primavera. Sherlock nada disse, mas sorriu para mim como alguém que verifica a atuação do que chamamos de fatalidade.

Todavia, a despeito de toda a sua necessidade de vigilância, nunca se deprimia. Pelo contrário; não me recordo de tê-lo jamais visto com tal disposição de espírito. Referia-se constantemente ao fato de ter livrado a sociedade da organização de um homem como Moriarty.

— Creio, Watson, que posso dizer que minha vida não foi inteiramente vã — observou. — Se minha ação se acabasse esta noite mesmo, ainda poderia avaliá-la com equanimidade. O ar de Londres é mais doce devido à minha presença: tenho a consciência de não ter utilizado meus poderes do lado errado, em mais de mil casos. Ultimamente, tenho sido tentado a preferir os problemas da natureza aos outros, mais superficiais, a cuja responsabilidade imputo o estado artificial da sociedade. Suas crônicas, Watson, chegarão a seu termo no dia em que eu coroar minha carreira com a captura ou eliminação do mais perigoso e hábil criminoso da Europa.

Serei breve mas exato no pouco que me resta dizer. Não é assunto em que me queira demorar voluntariamente; estou porém convencido de que me cabe o dever de não omitir nenhum pormenor.

Foi no dia 3 de maio que alcançamos a pequena aldeia de Meiringen, e alojamo-nos no Englischer Hof, mantido então pelo velho Peter Steiler, homem inteligente e que falava um excelente inglês, já que servira no Grosvenor Hotel em Londres. A seu conselho, saímos, na tarde do dia 4, com o objetivo de atravessar as montanhas e passar a noite no lugarejo de Rosenlaui. Tínhamos entretanto estritas recomendações para não passarmos as quedas do Reichenbach, mais ou menos a meio caminho da montanha, sem fazermos um pequeno desvio para admirá-las.

É, com efeito, um lugar assombroso. A torrente, engrossada pelas neves derretidas, mergulha num tremendo abismo, de onde se eleva uma névoa espessa, em novelos, como a fumaceira de uma casa incendiada. O sorvedouro para onde o rio se despenha é um imenso precipício, circundado de rochas cintilantes e negras como carvão, estreitando-se numa apertada garganta, abismo fervente de incalculável profundidade que aperta e atira a corrente para sua orla denteada. A longa voragem da água verde caindo, em seu eterno rugir, e a densa cortina tremulante daquela nuvem que eternamente se eleva põem um homem atordoado com seu constante redemoinho e clamor. Paramos à beira do abismo, olhando, muito abaixo de nós, a cintilação da água que se dilacera contra as rochas negras, e escutando o grito meio humano que se dilata, bramindo, com a espuma do abismo.

O caminho, uma espécie de miradouro, foi aberto, em semicírculo, ao redor da cachoeira, para proporcionar uma visão completa, mas termina abruptamente, e o viajante é obrigado a regressar pelo mesmo lugar. Estávamos voltando quando vimos um rapaz suíço correndo com uma carta na mão. Trazia o carimbo do hotel onde nos havíamos hospedado, e era-me dirigida pelo proprietário. Uma senhora inglesa, dizia, chegara logo após nossa partida e estava em estado grave; passara o inverno em Davos-Platz e viajava para se reunir a seus amigos em Lucerna quando uma hemorragia repentina lhe sobreveio. Pensava que não teria mais do que umas horas de vida, e seria uma grande consolação se um médico inglês fosse vê-la. Portanto, se eu regressasse, etc…

O bom Steiler acrescentava no pós-escrito que ele próprio consideraria minha anuência como um grande favor pessoal, visto que a senhora se recusara a mandar chamar um médico suíço, e ele não podia deixar de sentir que incorria numa grande responsabilidade.

Era impossível ignorar tal apelo. Uma concidadã estava morrendo em terra estrangeira. Mas eu também tinha receio de abandonar Holmes. Depois de muito considerar, combinou-se que o mensageiro suíço serviria de guia a meu amigo enquanto eu regressava a Meiringen. Holmes demorar-se-ia um pouco mais na cachoeira e escalaria então a montanha, sem pressa, para Rosenlaui, onde eu o encontraria à noite.

Quando me pus a caminho, vi Holmes, as costas contra as rochas, os braços cruzados, olhando o ímpeto das águas, embaixo. Era a última vez que me estava destinado vê-lo neste mundo.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Quando cheguei quase ao fim da ladeira, olhei para trás; era-me impossível ver a cachoeira, daquela posição, mas podia ver o caminho sinuoso que serpenteia sobre os cumes da montanha. Ao longo desse caminho, lembro-me bem, reparei num homem alto que quase corria. Distingui-lhe a figura negra recortada sobre o fundo verde. Observei-o uma vez mais, mas esqueci-o em breve, preocupado em chegar a tempo para o cumprimento de minha missão.

Devo ter gasto pouco mais de uma hora para chegar a Meiringen. O velho Steiler estava à porta de seu pequeno hotel.

— Bem — disse eu correndo —, espero que ela não esteja pior.

Uma expressão de surpresa perpassou pelo rosto enrugado do velho e, ao vê-lo contrair as sobrancelhas, o coração começou a saltar-me no peito.

— O senhor não me escreveu esta carta? — perguntei-lhe, tirando o papel do bolso. — Não há uma inglesa doente neste hotel?

— Não, não há — exclamou Steiler. — Mas tem o carimbo do hotel. Ah! Deve ter sido escrita por aquele inglês alto que entrou logo depois de os senhores terem saído. Disse até…

Não esperei pelas explicações do proprietário. No zunir do terror desci correndo a rua da aldeia, precipitando-me pelo caminho que acabara de descer. Até Meiringen, sempre descendo, levara uma hora, mas, apesar de todos os meus esforços, já se haviam passado mais de duas quando me encontrei de novo junto às cachoeiras de Reichenbach. Lá estava o bordão de alpinista encostado à rocha, no mesmo lugar em que eu o vira ao deixar Holmes. Mas dele, nem sinal. Em vão gritei; a única resposta era minha própria voz, repercutida num eco rolante pêlos penhascos em redor.

A presença daquele bordão gelou-me o sangue: provava-me que Holmes não seguira para Rosenlaui. Estava naquele lugar, numa ladeira de um metro de largura, com um paredão a pique de um lado e um precipício a pique do outro, quando o inimigo o alcançara. O jovem suíço desaparecera também. Tinha provavelmente sido pago por Moriarty, e deixara os dois homens juntos. E o que teria então acontecido? Quem estava lá para nos dizer o que teria acontecido?

Atordoado pelo terror, só depois de um ou dois minutos consegui recobrar o ânimo. Comecei então a pensar nos moldes de Holmes, e tentei praticar seu método na leitura daquela tragédia. Foi fácil. Durante nossa conversa, não tínhamos chegado ao fim do caminho; o bordão marcava o lugar até onde tínhamos avançado. O solo enegrecido mantinha-se constantemente mole por ação da espuma, e até mesmo os pássaros imprimiam nele suas pisadas. Duas linhas de pegadas estavam marcadas claramente ao longo do extremo do caminho, afastando-se de mim. Para aquele lado não havia saída. A poucos metros do abismo, o chão estava todo revolvido, e as sarças e os fetos que formavam a fímbria do precipício, despedaçados e salpicados de lama. Meu rosto contraiu-se e espreitei, envolto na espuma densa. Mas escurecera desde que tinha chegado, e agora só se podia ver, aqui e acolá, o brilho da umidade nas paredes negras e, muito embaixo, a cintilação da água que se quebrava. Gritei; mas apenas o bramir meio humano da cascata chegou a meus ouvidos, como resposta.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

No entanto, estava destinado, apesar de tudo, a encontrar ainda uma última palavra de saudação de meu amigo e camarada. Junto do bordão de alpinista, apoiado sobre uma rocha que se projetava no caminho, algo brilhante chamou a atenção de meus olhos. Aproximando-me, descobri que se tratava da cigarreira de prata que Holmes trazia sempre consigo. Apanhei-a, e um pequeno retângulo de papel esvoaçou para o solo. Desdobrei-o, ansioso; eram três páginas arrancadas à sua agenda e dirigidas a mim. Mas eram também o espelho fiel do caráter de um homem que conseguia, no limiar do inferno, manter uma ordem de pensamento tão precisa e uma caligrafia tão firme e clara como se aquelas linhas tivessem sido escritas, placidamente, em seu escritório.

“Meu caro Watson,

Se lhe escrevo estas poucas linhas, devo-o à cortesia do sr. Moriarty, que, muito delicadamente, me espera para a discussão final das questões que existem entre nós. Deu-me um esboço dos métodos de que se utilizou para evitar a polícia inglesa e se manter informado de todos os nossos movimentos. Sem sombra de dúvida, confirma a elevada opinião que eu formava de suas aptidões. Alegra-me pensar que livrarei a sociedade, de ora em diante, dos atos do professor Moriarty, embora receie que seja à custa de algo que afligirá meus amigos, muito em especial a você, meu caro Watson. Mas eu já lhe expliquei que minha carreira chegou a uma encruzilhada, e que nenhuma outra conclusão me poderia ser mais lógica do que esta. Com efeito, quero fazer-lhe uma confissão completa: eu tinha certeza de que a carta de Meiringen era uma mistificação, e fiquei feliz por você ter partido na missão que supunha verdadeira, visto ter a certeza de que um fato como este teria de suceder. Diga ao inspetor Patterson que os papéis de que ele necessita para provar a culpabilidade da quadrilha estão na repartição M do fichário, dentro de um envelope azul com a inscrição ‘Moriarty’. Já tratei de tudo o que diz respeito às minhas posses, que deixei a meu irmão Mycroft antes de partir da Inglaterra. Transmita, por favor, meus cumprimentos à sra. Watson, e creia em mim, para sempre, meu caro amigo.

Muito sinceramente seu,

Sherlock Holmes.”

Apenas algumas palavras bastam para o que me resta dizer. O exame dos peritos deixou poucas dúvidas de que houvera uma luta entre os dois homens e que o desfecho fora, como não podia deixar de ser em tal situação, a queda de ambos no abismo, nos braços um do outro. Qualquer tentativa para a recuperação dos corpos seria vã; no fundo daquele caldeirão de águas redemoinhantes e de ferventes escumas repousarão, para todo o sempre, os corpos do mais temível criminoso e do maior campeão da lei de sua geração. O jovem suíço jamais foi descoberto, mas não restam dúvidas de que era mais um dos numerosos agentes que Moriarty mantinha a seu serviço. Quanto à quadrilha, ficará para sempre na memória do público o modo como lhe caiu em cima, pesadamente, a mão do morto, por intermédio das provas que Holmes acumulara e que denunciavam sua terrível organização. De seu diabólico chefe, poucos foram os pormenores que surgiram durante o processo. E se fui agora compelido a fazer uma exposição clara de sua carreira, isso deve-se a certos propagandistas injustos, que se têm esforçado por lhe apagar a memória pelo processo sinuoso de atacar aquele que sempre considerei como o melhor e o mais sábio homem que jamais conheci.

1894
Memórias de Sherlock Holmes

1. Estrela de Prata § 2. A caixa de papelão
3. A face amarela § 4. O escriturário da corretagem
5. A tragédia do “Gloria Scott” § 6. O ritual Musgrave
7. O enigma de Reigate § 8. O corcunda
9. O paciente internado § 10. O intérprete grego
11. O tratado naval § 12. O problema final

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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