O homem da boca torta

Arthur Conan Doyle

O homem da boca torta

Título original: The Man with the Twisted Lip
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Dezembro de 1891 e com 10 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Man with the Twisted Lip publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume II,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

O falecido Elias Whitney, reitor do Colégio Teológico de St. George, tinha um irmão, Isa Whitney, que era muito dado ao uso do ópio. O hábito aumentou, e fiquei sabendo que, devido a um capricho extravagante quando estava no colégio, depois de haver lido a descrição que De Quincey dá dos seus efeitos e sensações, impregnou fortemente o tabaco que usava com láudano, para ver se conseguia o mesmo resultado. Verificou, como tantos outros têm feito, que a prática é mais fácil de se adquirir do que de deixar, e continuou durante muitos anos a ser escravo da droga, tornando-se alvo do horror e do pesar de seus amigos e parentes. Parece que o vejo agora, o rosto amarelo e inchado, sobrancelhas caídas e as pupilas miudinhas, encolhido numa cadeira, verdadeiro naufrágio e ruína de um homem honrado.

Uma noite, foi em junho de 1889, tocaram a campainha de minha casa, mais ou menos à hora em que a gente começa a bocejar, olha para o relógio e quer recolher-se à cama. Estremeci na cadeira. Minha mulher largou a costura em que estava ocupada e olhou-me desapontada.

— Um cliente! — disse ela. — Vai ter de sair.

Suspirei com enfado, porque havia poucos minutos que chegara do trabalho, após um dia atarefado.

Ouvimos abrir a porta, algumas palavras apressadas e depois uns passos ligeiros pelo corredor. A porta da sala abriu-se, e uma senhora de vestido escuro e véu preto entrou.

— Hão de me desculpar por vir incomodá-los tão tarde — começou a dizer, mas depois, perdendo repentinamente o controle, correu para onde minha mulher estava sentada e lançou-lhe os braços em redor do pescoço, chorando sobre seu ombro.

— Oh! Estou tão aflita! — exclamou. — Preciso tanto que me ajude!

— Por quê? — perguntou minha mulher, erguendo o véu da outra. — É Kate Whitney! Como me assustou, Kate! Não tinha idéia de que fosse você quando entrou.

— Não sabia o que fazer, por isso vim diretamente ter com vocês.

Era sempre assim, as pessoas aflitas procuravam minha mulher como os pássaros buscam o farol.

— Fez bem em ter vindo. Agora vai tomar um copo de refresco e sentar-se confortavelmente para nos contar tudo, ou prefere que eu mande James para a cama?

— Oh, não, não. Preciso do conselho do doutor e do seu auxílio também. É a respeito de Isa. Não voltou para casa nestes dois últimos dias. E tenho muito receio quanto ao local onde deve estar.

Era a primeira vez que ela nos falava da desgraça de seu marido, a mim como médico e à minha mulher como amiga de sempre e colega de escola. Procuramos acalmá-la e mostramos a nossa simpatia por meio de palavras de conforto. Perguntamos se não sabia onde estava o marido e se não nos seria possível levá-lo para casa.

Parecia que sim. Ela tinha a certeza de que ultimamente, desde que o vício o atacara, ele tinha o hábito de ir a uma adega chinesa na parte leste da cidade, para ali utilizar o ópio. Mas já haviam passado mais de quarenta e oito horas, e ele sem dúvida continuava lá, deitado entre os homens mais baixos das docas, respirando aquele terrível veneno e dormindo sob seus efeitos. Tinha a certeza de que ele estava no Golden Bar, na Upper Swandam Lane. Mas o que poderia ela fazer? Como poderia ela, mulher jovem e tímida, ir a um lugar daqueles arrancar o marido do meio dos bandidos que o freqüentavam?

Era essa a dificuldade, e sem dúvida havia apenas um recurso. Não poderia eu acompanhá-la àquele lugar? Então perguntei-lhe por que haveria ela de ir. Eu era médico da família, e, como tal, tinha influência sobre ele. Certamente seria mais bem sucedido se fosse sozinho. Prometi-lhe que o mandaria para casa num carro dentro de duas horas, se de fato ele estivesse no endereço que ela me dava.

E assim, dez minutos depois, deixei minha boa poltrona e minha confortável sala de estar, e corri num carro em direção à parte leste da cidade, para um estranho empreendimento, conforme me parecia ser, mas que só pouco depois revelaria quão estranha era toda aquela situação. Não surgiram grandes dificuldades na primeira parte da aventura. A Upper Swandam Lane é uma viela perto da Ponte de Londres. Entre uma loja de roupas feitas, baratas, e uma casa de bebidas, seguindo por uma escadaria íngreme que levava a uma abertura ou buraco lá embaixo, como se fosse a entrada de uma verdadeira caverna, achei-me dentro do antro onde estava a pessoa que procurava. Mandei o cocheiro esperar, desci a escadaria gasta pêlos pés dos infelizes bêbados que continuamente ali entravam e, à luz fraca de uma lanterna suspensa na porta, avancei e entrei num salão comprido, de teto baixo, com uma atmosfera pesada e cheia de fumaça de ópio como o porão de um navio de imigrantes.

Sidney Paget, 1891

Sidney Paget, 1891

Através da fumaça podia ver os corpos que jaziam em posições fantásticas, ombros curvos, joelhos dobrados, cabeças atiradas para trás, os queixos suspensos, os olhares amortecidos que espiavam o recém-chegado. Na penumbra luziam, ora brilhantes, ora fracos, pequenos círculos de luz vermelha, conforme o veneno aceso se tornasse mais vivo ou apagado no buraco dos cachimbos. Quase todas as pessoas jaziam ali quietas, algumas murmuravam para si próprias e outras falavam em voz baixa e monótona, ninguém se importando com a conversa do vizinho. Na extremidade da sala havia um pequeno braseiro com carvão aceso, ao lado do qual, sentado num banco de três pés, estava um velho alto, com o queixo pousado nas mãos, cotovelos sobre os joelhos, olhando fixamente o fogo.

Quando entrei, um empregado malaio aproximou-se apressadamente e ofereceu-me um cachimbo e um suprimento da droga, indicando-me um dos beliches.

— Obrigado, não vim para ficar — disse-lhe. — Deve estar aqui um amigo meu, o Sr. Isa Whitney, e eu preciso lhe falar.

Houve um movimento e uma exclamação à minha direita e, espiando através da obscuridade, vi Whitney, pálido, desfigurado e despenteado, olhando para mim.

— Meu Deus! É Watson — disse ele.

Estava num estado lastimável de reação, com todos os nervos agitados.

— Diga-me, Watson, que horas são?

— Quase vinte e três horas.

— De que dia?

— De sexta-feira, 19 de junho.

— Céus! Pensei que fosse quarta-feira. É quarta-feira. Por que pretende assustar-me?

Encostou o rosto a um dos braços e começou a chorar convulsivamente.

— Estou lhe dizendo que é sexta-feira. Há dois dias que sua mulher o espera. Você devia ter vergonha.

— E tenho. Mas está enganado, Watson, estou aqui apenas há algumas horas. Fumei três pitadas, aliás, quatro… Já não sei quantas. Mas irei para casa. Não quero assustar Kate. Minha pobre Kate! Dê-me suas mãos. Trouxe um carro?

— Sim, está à espera.

— Então irei nele. Mas devo ter feito despesas aqui. Veja quanto é. Não estou muito bem, Watson, não consigo fazer nada sozinho.

Passei pela ala de beliches contendo a respiração, para não absorver a fumaça da droga, à procura do chefe. Quando passei perto do braseiro, o homem alto que ali estava sentado puxou-me o casaco e, num tom de voz muito baixo, cochichou:

— Passe perto de mim e depois olhe para trás.

Sidney Paget, 1891

Sidney Paget, 1891

Ouvi essas palavras distintamente e baixei o olhar. As palavras só podiam ter sido ditas pelo velho a meu lado, mas ele permanecia tão absorto como dantes, muito magro, muito enrugado, arcado pela idade, um cachimbo de ópio tombado entre os joelhos, como se tivesse caído devido à fraqueza dos dedos. Andei dois passos, olhei para trás e quase não pude me controlar e evitar um grito de admiração. Ele virara-se para que ninguém o pudesse ver a não ser eu. Seu corpo cresceu, as rugas desapareceram, os olhos baços retomaram o brilho e ali sentado, perto do fogo e rindo da minha surpresa, estava alguém que não era outro senão Sherlock Holmes. Fez um leve sinal para que me reaproximasse dele e, virando-se para os companheiros outra vez, transformou-se novamente no homem trêmulo, caduco, de lábio caído.

— Holmes! — cochichei. — O que faz você nesta caverna?

— Fale o mais baixo possível, ouço perfeitamente. Se me fizer o favor de mandar embora aquele seu amigo bêbado, gostaria de conversar com você depois.

— Já tenho um carro lá fora,

— Então faça o favor de mandá-lo embora. Pode deixá-lo ir sozinho, pois parece mole demais para estar em condições de fazer desordem pelo caminho. Seria bom mandar também um bilhete à sua mulher, avisando-a de que vai me ajudar. Espere-me lá fora, dentro de uns cinco minutos estarei lá.

Era difícil recusar; os pedidos de Sherlock Holmes eram sempre definidos, como se fossem ordens. Senti, aliás, que, colocando Whitney no carro, minha missão estava praticamente terminada e, além disso, não podia desejar coisa melhor do que associar-me ao meu amigo numa daquelas singulares aventuras que constituíam a condição normal da sua existência.

Em poucos minutos havia escrito um bilhete à minha mulher e pago a conta de Whitney, que levei até o carro e vi seguir para casa em meio da escuridão reinante. Logo depois, um vulto decrépito emergiu da caverna do ópio e eu acompanhei Sherlock Holmes, que pelas ruas próximas continuava a andar de costas curvas e passos irregulares. Então, depois de olhar para trás, endireitou-se e deu uma grande gargalhada.

— Evidentemente, Watson — disse ele —, você pensa que adquiri ò vício de fumar ópio, além das demais pequenas fraquezas a respeito das quais, como médico, já me tem dado sua opinião.

— Certamente, admirei-me muito de vê-lo ali.

— Mas não mais do que eu quando o vi chegar.

— Vim à procura de um amigo.

— E eu atrás de um inimigo.

— Um inimigo?

— Um dos meus inimigos naturais ou, melhor, uma vítima natural. Enfim, Watson, estou realizando uma investigação admirável, e tenho esperanças de poder encontrar uma pista no meio dos murmúrios incoerentes desses bêbados, como já fiz no passado. Se fosse reconhecido nessa caverna não teria vida por mais de uma hora, porque já utilizei esse estratagema mais de uma vez, e o ignóbil Lascar, dono do negócio, jurou que há de se vingar de mim. Há um alçapão atrás daquele edifício, perto da esquina do cais de St. Paul, que poderia contar algumas histórias estranhas sobre o que ali se tem passado nas noites escuras.

— O quê! Não pretende insinuar que sejam corpos?

— Sim, corpos, Watson. Seríamos homens ricos se ganhássemos mil libras por cada pobre-diabo que tem encontrado a morte naquela caverna. É a mais vil armadilha de todo o cais, e receio que Neville St. Clair tenha entrado para nunca mais sair. Mas deve estar aqui a nossa carruagem.

Colocou dois dedos indicadores entre os dentes e assobiou; um assobio semelhante respondeu à distância, seguido pelo barulho das patas de cavalos e o girar de rodas.

— Agora, Watson — disse Holmes, enquanto uma carruagem se aproximava lançando dois túneis de luz áurea das suas lanternas laterais —, virá comigo, não?

— Se posso ser útil…

— Oh, um companheiro fiel é sempre útil, e um cronista, mais ainda. O meu quarto nos Cedros tem duas camas.

— Nos Cedros?

— Sim, é a casa do Sr. St. Clair. Hospedei-me lá enquanto faço as pesquisas.

— Onde é que fica, então?

— Em Lee, no Kent; temos uma viagem de onze quilômetros à nossa frente.

— Mas não estou entendendo nada.

— É natural, mas daqui a pouco saberá tudo a respeito do caso. Vá, suba! Está bem, John, não precisamos mais de você, tome esta gorjeta. Procure-me amanhã à uma hora. Largue a cabeça do animal. Até logo.

Sidney Paget, 1891

Sidney Paget, 1891

Estalou o chicote, e passamos apressadamente através da sucessão infinda de ruas sombrias e desertas, que se alargavam gradualmente, até que atravessamos uma ponte larga, com balaústres, sob a qual corria uma água suja e vagarosa.

Em seguida, outra grande extensão de casas, onde o silêncio era violado apenas pelos passos irregulares do policial que fazia a ronda.

Nuvens escuras atravessavam o céu, deixando entrever apenas uma ou duas estrelas. Holmes guiava o carro em silêncio, com a cabeça baixa e a fisionomia de quem está perdido em suas próprias meditações, enquanto, ao lado dele, eu me sentia curioso por saber quais eram essas novas investigações que pareciam exigir toda a concentração dos seus pensamentos.

Havíamos andado alguns quilômetros e estávamos chegando à beira das vilas suburbanas, quando ele encolheu os ombros e acendeu o cachimbo, como quem está satisfeito por agir do melhor modo possível e com bom resultado.

— Você tem um dom formidável, Watson: o silêncio — disse ele —, o que faz de você um companheiro de inestimável valor. Palavra, é bom ter alguém com quem não seja obrigatório manter conversa, porque nem sempre os pensamentos são dos mais agradáveis. Estava pensando no que direi a essa mulherzinha tão boa quando ela me vir à porta.

— Esquece-se de que não sei nada dos fatos!

— Terei o tempo necessário para lhe contar tudo por alto antes de chegarmos a Lee. A simplicidade do caso parece ridícula, todavia não há forma de encontrar a menor pista. Há muitas constatações, sem dúvida, mas ainda não pude descobrir a ponta da meada; vou lhe contar o caso concisamente, Watson, e talvez você vislumbre qualquer luz onde para mim é tudo escuro.

— Conte então.

— Há alguns anos atrás, precisamente em maio de 1884, veio para Lee um cavalheiro de nome Neville St. Clair, que parecia rico. Arranjou uma grande casa, cultivou muito bem os terrenos e vivia de maneira elegante. Travou relações na vizinhança e finalmente casou-se com a filha de um fabricante de cerveja local, com quem teve dois filhos. Não trabalhava, mas tinha interesses em diversas companhias, e por isso ia a Londres todas as manhãs, voltando da Cannon Street no trem das dezessete e catorze todas as tardes. O Sr. St. Clair tem agora trinta e sete anos de idade, é homem de hábitos temperados, bom marido, pai bondoso, e todos o apreciam. Suas dívidas, atualmente, não ultrapassam oitenta libras e dez xelins, e tem um capital a seu crédito de duzentas e vinte libras no Capital and Counties Bank. Não há razão, portanto, para se pensar que tivesse dificuldades financeiras que o oprimissem.

“Na segunda-feira passada o sr. Neville St. Clair foi para a cidade um pouco mais cedo que de costume, alegando que tinha duas missões importantes a realizar e que no regresso traria uma caixa de jogos para os filhinhos. Acontece que, por mera coincidência, sua mulher recebeu um telegrama dizendo que um pacotinho de valor inestimável, que ela esperava, estava à sua disposição nos escritórios da Companhia de Navegação de Aberdeen. Ora, saiba que esses escritórios ficam na Fresno Street, que se ramifica com a Upper Swandam Lane, onde me encontrou esta noite. A Sra. St. Clair almoçou, foi à cidade, fez algumas compras e depois seguiu para os escritórios da companhia, onde apanhou o pacote e, justamente às dezesseis horas e trinta e cinco minutos, encontrava-se na Swandam Lane, a caminho da estação. Compreendeu bem?”

— Sim, perfeitamente.

Sidney Paget, 1891

Sidney Paget, 1891

— Não sei se se recorda que segunda-feira foi um dia excessivamente quente, e a Sra. St. Clair andava devagar, olhando de um lado para outro na esperança de arranjar um carro, porque não gostou nada do local onde se encontrava. Ao descer à Swandam Lane, ouviu de repente uma exclamação ou grito e gelou ao ver seu marido, que, ao que parecia, fazia-lhe sinais para que fosse ao segundo andar da casa onde ele se encontrava. A janela estava aberta, e pôde ver-lhe distintamente o rosto, que, diz ela, parecia estar muito agitado. Acenou-lhe freneticamente e depois desapareceu da janela tão rapidamente como se tivesse sido agarrado por trás por uma mão invisível. Numa coisa ela reparou com sua intuição de mulher: que, embora o marido estivesse vestido com o terno escuro com que saíra de casa, estava sem colarinho nem gravata. Convencida de que algo havia acontecido, desceu rapidamente as escadas, porque a casa não era outra senão a caverna onde me encontrou, e, correndo pela sala da frente, experimentou subir as escadas até o primeiro andar, quando encontrou o canalha do Lascar, de quem já lhe falei, que a puxou para trás e, ajudado por um dinamarquês que é ali ajudante, empurrou-a para a rua. Cheia dos mais enlouquecidos receios, ela correu rua abaixo e, por sorte, na Fresno Street, encontrou um inspetor e diversos policiais que se dirigiam às suas rondas.

“O inspetor e dois policiais acompanharam-na, e, apesar da resistência do proprietário, dirigiram-se ao lugar onde o Sr. St. Clair fora visto pela última vez. Não havia sinais dele. De fato, em todo aquele andar não havia ninguém, a não ser um aleijado de aspecto hediondo, que parecia lá morar. Tanto este como Lascar juraram que ninguém havia estado na sala da frente naquela tarde, e tão decisiva era sua negativa que o inspetor teve dúvidas e quase chegou a crer que a Sra. St. Clair tivesse se enganado. De repente, com um grito, ela apanhou uma caixinha de pinho que estava sobre a mesa e arrancou-lhe a tampa. Dela caíram cubinhos de brinquedo. Era a caixa que ele prometera levar para casa.

“Esta descoberta e a confusão em que o aleijado ficou fez ver ao inspetor que a coisa era séria. Todos os aposentos da casa foram cuidadosamente examinados, e os resultados indicavam um crime abominável.

“A sala da frente estava mobiliada como uma sala de estar e dava entrada para um pequeno quarto que se abria para os fundos de um dos cais. Entre o cais e a janela do quarto há uma estreita passagem, que na vazante fica seca, mas que se cobre de água na enchente, pelo menos com um metro e trinta de água. A janela do quarto era larga e abria-se por baixo. Quando o peitoril foi examinado, foram descobertos sinais de sangue no assoalho do quarto. Atiradas para trás de uma cortina na sala da frente, estavam todas as roupas do Sr. St. Clair, menos o casaco; a não ser isso, não havia outro sinal do homem. Ele passara pela janela, sem dúvida, porque não havia outra saída que se pudesse descobrir, e as numerosas manchas de sangue sobre o peitoril davam poucas esperanças de que pudesse ter escapado a nado, dado que a maré estava muito alta no momento da tragédia.

“E, agora, vejamos os canalhas que parecem os mais implicados no caso. Esse Lascar era conhecido como um homem com os mais vis antecedentes, mas, pelas declarações da Sra. St. Clair, sabe-se que ele estava ao pé da escadaria momentos após a aparição de seu marido, sendo portanto provável que seja apenas um comparsa do crime. Defendeu-se, dizendo ignorar tudo, e protestou que não sabia nada do que fazia seu inquilino Hugh Boone, e que não podia fazer declarações a respeito da roupa do cavalheiro desaparecido.

Sidney Paget, 1891

Sidney Paget, 1891

“Quanto ao gerente Lascar, basta. Agora falemos do sinistro aleijado que mora no segundo andar e cujos olhos foram os últimos que viram Neville St. Clair. O nome dele é Hugh Boone, e seu rosto hediondo é conhecido por todos os que freqüentam a City. É mendigo profissional, embora, para evitar a violação dos regulamentos policiais, finja ser vendedor de velas de cera. A pouca distância da Threadneedie Street, do lado direito, há, como você já reparou, um pequeno ângulo no muro. Ali é que ele se senta todos os dias, de pernas cruzadas, com seu pequeno estoque de fósforos no colo, e, como se trata de uma criatura lastimável, uma pequena chuva de níqueis de caridade cai no boné sujo que jaz à sua frente, na calçada. Já tinha reparado naquele sujeito mais de uma vez, muito tempo antes de o ver como ajudante profissional, e fiquei surpreendido da colheita que faz em tão pouco tempo. Sua aparência, como verá, é tão extraordinária que ninguém pode passar sem o notar. Um tufo de cabelo amarelo, o rosto desfigurado por uma cicatriz horrível, que, pelas contrações, lhe fez subir o canto do lábio superior, queixo de buldogue, olhos escuros e penetrantes, que contrastam com a cor dos cabelos, tudo faz com que se destaque da multidão vulgar dos mendigos, bem como pela astúcia, porque tem sempre uma resposta pronta para qualquer pilhéria que se lhe diga ao passar. Eis o homem que era inquilino da caverna de ópio e a última pessoa que viu o cavalheiro que procuramos.”

— Mas, um aleijado? — perguntei eu. — O que poderia ele ter feito sozinho contra um homem no vigor da idade?

— É aleijado porque coxeia, mas fora disso parece ser um homem forte e bem-constituído. Sua experiência de médico, Watson, com certeza lhe dirá que a fraqueza de um membro é freqüentemente compensada nos outros por uma força excepcional.

— Peço-lhe o favor de continuar sua narrativa.

— A Sra. St. Clair desmaiara ao ver o sangue no peitoril; um policial a acompanhou até o carro e ela foi para casa, porque sua presença em nada ajudaria as pesquisas. O inspetor Barton, a cuja responsabilidade foi entregue o caso, fez um exame minucioso do edifício, mas sem descobrir coisa alguma que elucidasse o caso. Foi um grande erro não terem prendido Boone naquela ocasião, porque houve uns minutos durante os quais pôde se comunicar com seu amigo Lascar; porém o erro foi logo remediado: foi preso, embora não se tenha encontrado nada que possa incriminá-lo.

“Havia, é verdade, algumas manchas de sangue na manga direita da camisa, mas ele apontou para o seu dedo anular, que fora cortado perto da unha, e explicou que o sangue viera dali, formando as manchas que vimos, pois, poucos momentos antes, estivera à janela. Negou ter visto Neville St. Clair e disse que o fato de a roupa deste estar no seu quarto era tão misterioso para ele quanto para a polícia. E, quanto ao fato de a Sra. St. Clair ter visto o marido à janela, ou estava doida ou sonhava. Levaram Boone, protestando em altos berros, para o posto policial, enquanto o inspetor permanecia no local para ver se a vazante traria alguma pista nova. E trouxe, porque, embora não tivessem encontrado na lama da margem do rio o que receavam encontrar, foi o casaco de Neville St. Clair e não o corpo dele que apareceu no baixar da maré. E o que foi que lhe encontraram nos bolsos?”

— Não posso imaginar.

— Não, não acertaria. Todos os bolsos estavam cheios de moedas, pennies e half-pennies… quatrocentos e vinte e um pennies e duzentos e setenta half-pennies. Não era de admirar que a maré não o tivesse levado. Mas um corpo é diferente. Há uma forte corrente entre o cais e o edifício. É possível que o casaco tenha permanecido enquanto o corpo era sugado pelo rio.

— Disse-me que as outras roupas foram encontradas no quarto. Será que o corpo estava vestido somente com o casaco?

— Não, mas os fatos podem ser explicados com um pouco de reflexão. Se esse homem, Boone, lançou Neville St. Clair através da janela, não haveria olhares humanos que pudessem ter visto o ato? Que fez ele então?

“Lembrou-se imediatamente de fazer desaparecer as roupas comprometedoras. Pegou então o casaco, mas, quando ia atirá-lo fora, lembrou-se de que boiaria, em vez de se afundar. Teve pouco tempo, porque ouviu o barulho, quando a esposa se esforçava por subir, e talvez já tivesse sido avisado por Lascar da chegada da polícia. Não podia perder um instante. Foi ao depósito secreto de dinheiro que acumulara como resultado da sua mendicidade. Pegou tantas moedas quantas pôde e meteu-as no bolso para que o casaco afundasse. Lançou-o fora e teria feito o mesmo às roupas se a polícia não tivesse chegado, dando-lhe apenas tempo para fechar a janela.”

— É muito acertada essa idéia.

— Bem, daí podemos formar uma hipótese, à falta de melhor. Boone foi preso, mas nada pôde ser provado contra ele. Há muitos anos é conhecido como mendigo profissional, cuja vida parece decorrer calma e inocente.

“Aqui terminam as investigações, e o que falta saber é a razão pela qual Neville St. Clair estava ali, onde se encontra agora, e que papel teve esse Hugh Boone no seu desaparecimento. Tudo isso está, como no início, muito longe de uma solução. Confesso que não me recordo de nenhum caso que no princípio se afigurasse tão simples e que no final apresentasse tantas dificuldades.”

Enquanto me narrava essas coisas, passamos rapidamente por uma cidade grande, e agora atravessávamos um caminho ladeado de sebes. No momento em que ele acabava de contar o caso, havíamos passado por duas aldeias.

— Estamos nos limites de Lee — disse o meu companheiro. — Atravessamos três condados ingleses nesta curta viagem; começamos por Middlesex, cortamos Surrey e terminamos no Kent. Está vendo aquela luz entre as árvores? Ali ficam os Cedros, e ao lado daquela luz está sentada uma senhora cujos ouvidos aflitos já sentiram, sem dúvida, o tinir das ferraduras do nosso cavalo.

— Mas por que não trata do caso na Baker Street? — perguntei-lhe.

— Porque é preciso que se façam muitas investigações aqui. A Sra. St. Clair, amavelmente, pôs ao meu dispor dois quartos, e você pode estar certo de que ela dará cordiais boas-vindas a um amigo e colega meu. Temo encontrá-la sem ter notícias a dar-lhe a respeito do marido. Aqui estamos. Alto! Alto!

Parou o carro em frente de uma casa de campo cercada pêlos prados que lhe pertenciam. Um rapaz, ajudante de cocheiro, correu para pegar na cabeça do cavalo, e, de um pulo, segui Holmes pela estreita vereda que conduzia à casa. Ao chegarmos à porta, esta abriu-se, e apareceu uma senhora loura, trajando um vestido caseiro leve, enfeitado com filó cor-de-rosa na gola e nos punhos. Ficou ali, uma mão segurando a porta e a outra meio suspensa, aflita, o corpo inclinado, olhos vivos e lábios entreabertos.

— Bem? — exclamou ela. — Está bem?

E então, vendo que éramos dois, deu um grito de esperança, que terminou num gemido, quando reparou que meu amigo sacudia a cabeça e encolhia os ombros.

— Não traz boas notícias?

— Nenhuma.

— E más?

— Não.

— Graças a Deus por isso. Mas entrem. Devem estar cansados, pois tiveram um dia longo e fatigante.

— Este é o meu amigo, o Dr. Watson. Tem sido de vital utilidade em vários dos meus assuntos e, por um acaso feliz, fez o possível por me acompanhar e se associar às investigações.

— Estou contente por vê-lo — disse ela, dando-me um aperto de mão caloroso. — O doutor há de desculpar qualquer falta aqui em casa, considerando o golpe que tão repentinamente sofremos.

— Senhora — declarei eu —, sou um velho soldado, e mesmo que não o fosse, vejo que não há necessidade de desculpas. Se for possível ajudá-la, ou a este meu amigo, ficarei deveras contente.

— Agora, Sr. Sherlock Holmes — disse a senhora enquanto entrávamos para a sala de estar, onde, sobre a mesa, já estava posta uma ceia fria —, gostaria de lhe fazer duas perguntas bem claras, e peco-lhe que me dê também respostas claras.

— Certamente, senhora.

— Não faça caso dos meus sentimentos, não sofro de histerismo nem costumo desmaiar, só quero ouvir sua verdadeira opinião.

— Sobre que ponto?

— No fundo do seu coração, acha que Neville esteja ainda vivo?

Sidney Paget, 1891

Sidney Paget, 1891

Sherlock Holmes ficou embaraçado com a pergunta.

— Honestamente — disse ela, pondo-se de pé e olhando para ele.

— Então, senhora, francamente, não.

— Pensa então que está morto?

— Sim.

— Assassinado?

— Não digo tanto. Talvez.

— Em que dia morreu ele?

— Segunda-feira.

— Então, Sr. Holmes, faça o favor de me explicar: como é que recebi esta carta dele hoje?

Sherlock Holmes pulou da cadeira como se tivesse recebido um choque elétrico.

— O quê? — bradou.

— Sim, hoje.

E, rindo, agitou um pedaço de papel.

— Posso vê-lo?

— Certamente.

Ansioso, pegou o, papel e, alisando-o sobre a mesa, puxou o candeeiro para mais perto e examinou-o bem. Abandonei minha cadeira e olhei para o papel por sobre o ombro do meu amigo. O envelope era comum e trazia o carimbo de Gravesend com a data daquele dia, ou, melhor, com a do dia anterior, porque já passava da meia-noite.

— Caligrafia grosseira! — murmurou Holmes. — Certamente essa não é a letra do seu esposo, senhora.

— Não, mas a que está dentro, é.

— Seu nome, veja, está escrito com tinta muito preta, que secou. O resto é de cor cinzenta, o que demonstra que foi usado um mata-borrão. Se tivesse escrito tudo de uma vez e usado o mata-borrão, ficaria igual. A pessoa escreveu o nome e parou antes de escrever o endereço, o que quer dizer que não estava familiarizada com ele. É uma insignificância, claro, mas não há nada tão importante como as pequenas coisas. Vamos ver a carta agora. Ah, havia mais alguma coisa dentro?

— Sim, havia um anel. O seu anel de sinete.

— E a senhora tem a certeza de que essa letra é de seu marido?

— Tenho. É a sua caligrafia quando escreve às pressas. É muito diferente da letra habitual; todavia, conheço-a bem.

“Minha querida, não tenha medo. Tudo correrá bem. Tem havido um grande engano que levará algum tempo para ser retificado. Espere com paciência.

Neville.”

Estava escrita numa folha branca de um livro, formato 8.

— Hum! Foi colocada no correio hoje por um homem com o polegar sujo. Ah, passaram cola na dobra, e, se não me engano, foi um homem que masca tabaco. E a senhora não tem dúvidas de que a letra seja de seu marido?

— Nenhuma dúvida. Neville escreveu essas palavras. — E foi posta hoje em Gravesend. Bem, Sra. St. Clair, as nuvens estão menos escuras, embora eu não ache que o perigo já tenha passado.

— Mas ele deve estar vivo, Sr. Holmes.

— A não ser que isso seja um grande truque para nos fazer perder a pista. O anel, afinal de contas, não quer dizer nada. Pode ter sido roubado.

— Não, não, a letra é mesmo dele.

— Muito bem; ela deve ter sido escrita no domingo, mas foi enviada hoje.

— Isso é possível?

— Se for, muita coisa poderá ter acontecido desde então.

— Oh, não deve desencorajar-me, Sr. Holmes. Estou certa de que tudo corre bem, pois existe tal afinidade entre nós dois, que eu logo saberia se algo de mau lhe acontecesse. No mesmo dia em que o vi pela última vez, ele cortou-se no quarto, mas eu saí da sala e subi às pressas, com a intuição de que havia acontecido qualquer coisa. O senhor acredita que eu, que me preocupei com uma coisa assim tão pequena, não haveria de sentir se ele tivesse morrido?

— Minhas muitas experiências me impedem de desprezar as intuições femininas; são de mais valor do que as conclusões de um investigador analítico. E com esta carta, certamente a senhora tem fortes razões que corroboram o seu ponto de vista. Mas se seu marido está vivo e pôde escrever-lhe, por que permanece ausente?

— Não posso imaginar o motivo.

— Na segunda-feira não disse nada antes de sair?

— Não, nada.

— E a senhora ficou surpresa ao vê-lo na Swandam Lane?

— Muitíssimo.

— A janela estava aberta?

— Sim.

— Um grito de socorro, foi o que pensou?

— Sim. Ele chamou com as mãos.

— Mas poderia ter sido um grito de surpresa. A admiração por vê-la ali podia tê-lo feito levantar as mãos.

— É possível.

— E pareceu-lhe que alguém o tivesse puxado para trás?

— Desapareceu tão repentinamente!…

— Podia ter pulado para trás. Não viu mais ninguém?

— Não, mas aquele homem horrível confessou que se encontrava ali e Lascar estava ao pé da escada.

— Muito bem. Pelo que pôde ver de seu marido, ele estava com a roupa habitual.

— Menos a gravata e o colarinho. Vi distintamente o pescoço.

— Ele jamais lhe falou na Swandam Lane?

— Nunca.

— Muito obrigado, Sra. St. Clair. São esses os pontos principais sobre os quais desejava estar bem esclarecido. Algumas vezes deu sinais de ter tomado ópio?

— Nunca.

— Bem, agora vamos comer qualquer coisa, depois, para a cama; é provável que amanhã tenhamos um dia cheio.

Um quarto com duas camas estava à nossa disposição; meti-me logo entre os lençóis, pois estava fatigado após essa noite de aventuras.

Sidney Paget, 1891

Sidney Paget, 1891

Sherlock Holmes, todavia, era um homem que, enquanto tinha um problema para resolver, passava dias, até semanas, sem descansar, reajustando os fatos, estudando o caso sob todos os pontos de vista, até que se convencesse de que os dados que possuía eram suficientes. Pareceu-me que ia ficar ali sentado a noite toda; tirou o casaco, o colete, vestiu um roupão e andou pelo quarto, tirando os travesseiros da cama e as almofadas do sofá e das cadeiras. Com estas, fez uma espécie de divã oriental sobre o qual se sentou, cruzando as pernas, com uma onça de tabaco e uma caixa de fósforos ao lado. À luz mortiça, vi-o sentado com o cachimbo na boca, olhando para o teto e fazendo subir os caracóis de fumaça azul. Caí no sono e acordei com o sol de verão iluminando o apartamento. Estava tudo como quando adormeci, menos o tabaco, que ele havia consumido todo.

— Está acordado, Watson? — perguntou.

— Estou.

— Com ânimo para um passeio matinal?

— Certamente.

— Então vista-se. Não há nenhum movimento ainda, mas sei onde dorme o cocheiro; num instante estaremos prontos.

Riu para si mesmo enquanto falava, seus olhos brilhavam, e ele parecia outro, sem vestígios daquele homem sombrio da noite anterior. Ao vestir-me, olhei o relógio. Não era de admirar que ninguém estivesse de pé ainda, eram apenas quatro e vinte e cinco. Mal havia acabado de me vestir quando Holmes voltou dizendo que o rapaz estava atrelando o cavalo.

— Quero experimentar uma teoria minha — disse, calçando as botas. — Creio, Watson, que você hoje se encontra na presença de um dos maiores idiotas da Europa. Mereço ser obrigado a voltar para Charing Cross a coices. Mas suponho que tenho agora a chave do problema.

— E onde está ela? — perguntei, rindo.

— No banheiro — respondeu ele. — É verdade, não estou brincando — disse, vendo o meu olhar de incredulidade. — Fui até lá agora, apanhei-a e coloquei-a na minha mala. Vamos, rapaz, e vejamos se serve para abrir a fechadura.

Descemos tão depressa quanto era possível e saímos. Lá estava a nossa carruagem. Entramos e logo iniciamos a viagem para Londres. Algumas carroças, levando verduras para a cidade, já se movimentavam, mas as casas estavam fechadas e silenciosas como se fossem de sonho.

— Sob alguns aspectos, este é um caso singular — disse ele enquanto fustigava o cavalo com o chicote, até fazê-lo galopar. — Confesso que tenho estado tão cego como uma toupeira, mas é melhor aprender tarde a ser sábio do que nunca o conseguir.

Na cidade algumas pessoas sonolentas já olhavam pelas janelas, do lado de Surrey. Passando pela Ponte de Waterloo, atravessamos o rio e, subindo a Weilington Street, fizemos uma curva fechada e encontramo-nos na Bow Street. Sherlock Holmes era muito conhecido da força policial, por isso dois policiais que estavam à porta o saudaram; um deles segurou o cavalo enquanto o outro nos levou para dentro.

— Quem está de serviço? — perguntou.

— O inspetor Bradstreet, senhor.

— Olá, Bradstreet, como vai?

Um oficial alto e forte vinha pelo corredor.

— Quero falar-lhe, Bradstreet.

— Pois não, Sr. Holmes. Venha até o meu gabinete. Era uma sala pequena, com um enorme arquivo e um telefone na parede.

O inspetor sentou-se à secretária.

— Em que lhe posso ser útil, Sr. Holmes?

— Vim para lhe falar a respeito daquele mendigo, Boone, aquele que foi acusado de estar implicado no desaparecimento do Sr. Neville St. Clair, de Lee.

— Sim, está detido até serem feitas mais investigações.

— Assim ouvi dizer. Está aqui?

— Na cela.

— É calmo?

— Oh, sim, não dá trabalho, mas está imundo, é difícil conseguir que lave as mãos e o rosto. Está tão sujo como um caldeirão; porém, quando o caso for resolvido, tomará um bom banho de prisão. Penso que o senhor concordaria comigo se o visse.

— Gostaria muito de vê-lo.

— É muito fácil. Venha por aqui. Deixe aí a sua pasta.

— Não, prefiro levá-la.

— Muito bem. Venha por aqui, faça o favor. — Levou-nos por um corredor, abriu uma porta, que estava trancada, desceu uma escada em espiral, e entramos por outro corredor, bem-caiado, com uma fila de portas de cada lado.

— Aqui está — disse, enquanto puxava para trás um painel na parte superior da porta e olhava para dentro.

— Ele está dormindo, mas o senhor pode vê-lo muito bem.

Sidney Paget, 1891

Sidney Paget, 1891

Olhamos pela grade. O homem estava com o rosto virado para o nosso lado, dormindo e respirando pesadamente. Era de estatura mediana, estava malvestido e extremamente sujo. A cicatriz de uma velha ferida vinha do olho até o queixo, suspendendo assim o lábio superior num canto por onde apareciam três dentes, como se quisesse rosnar a toda hora. Um monte de cabelo avermelhado cobria-lhe quase totalmente a testa.

— É bonito, não é? — perguntou o inspetor.

— Certamente precisa se lavar — disse Holmes. — Tive uma idéia do que precisávamos e tomei a liberdade de trazer os aparelhos necessários para isso. — Abriu a mala e tirou, com grande surpresa minha, uma enorme esponja.

— Ah! Ah! O senhor é formidável — riu o inspetor.

— Agora, se o senhor tiver a bondade de abrir essa porta devagarinho, depressa o faremos apresentar-se como gente.

— Bem, não vejo por que não — disse o inspetor.

— Ele não é grande recomendação para as celas da Bow Street.

Meteu a chave na porta e todos nós entramos muito devagarinho na cela. O homem virou-se e caiu novamente em sono profundo. Holmes molhou bem a esponja no jarro de água e depois esfregou com força, de baixo para cima, todo o rosto do prisioneiro.

— Deixem-me apresentar-lhes o Sr. Neville St. Clair, de Lee, no condado de Kent.

Nunca vi tal coisa. O rosto do homem descascou-se sob a esponja como a casca de uma árvore. Foram-se a tinta, a cicatriz e a boca torta, que lhe davam um ar tão repulsivo. Um puxão fez sair o cabelo vermelho, e, sentado na cama, apareceu um homem pálido, mas de fisionomia delicada e triste, de cabelos pretos e pele limpa, esfregando os olhos e olhando ao redor, desnorteado. Então, subitamente, compreendendo o escândalo, gritou e atirou-se para cima do leito, o rosto contra o travesseiro.

Sidney Paget, 1891

Sidney Paget, 1891

— Céus! — gritou o inspetor. — É o homem que está sendo procurado. Conheço-o pelo retrato.

O prisioneiro virou-se, como quem se abandona ao seu destino.

— Que seja! — disse ele. — De que sou acusado?

— Do desaparecimento do Sr. Neville St. Clair. Oh! Você não pode ser acusado disso, a não ser que digam que é tentativa de suicídio — disse o inspetor com um sorriso.

— Bem, há vinte e sete anos que estou na força policial e nunca vi caso semelhante. É o cúmulo.

— Se sou o Sr. Neville St. Clair, é óbvio que não se cometeu crime algum e que estou detido ilegalmente.

— Nenhum crime, mas um grande erro — disse Holmes. — Teria feito melhor se confiasse em sua esposa.

— Não era só a esposa, eram os filhos — gemia o prisioneiro. — Deus me ajude, não queria que eles ficassem envergonhados do pai. Deus meu! Que vergonha! Que posso fazer?

Sherlock Holmes sentou-se a seu lado na cama e bateu-lhe levemente nos ombros.

— Se deixar que o tribunal de Lee esclareça o caso, não pode evitar a publicidade. Por outro lado, se puder convencer as autoridades policiais de que não há crime contra o senhor, não vejo de que maneira os pormenores possam sair nos jornais. O inspetor Bradstreet, tenho a certeza, tomará nota das suas declarações e submetê-las-á às autoridades competentes. E o caso não irá a nenhum tribunal.

— Deus o abençoe — exclamou o homem. — Eu agüentaria a prisão e até a execução para evitar que meu segredo miserável caísse como uma mancha sobre meus filhos. O senhor é o primeiro que ouve a minha história! Meu pai era professor em Chesterfield, onde recebi boa educação. Viajei durante a mocidade e trabalhei no palco. Finalmente, tornei-me repórter de um jornal vespertino de Londres. Um dia meu editor precisou de uma série de artigos sobre a mendicidade na metrópole e eu me ofereci para a tarefa. E só tornando-me mendigo amador poderia obter os fatos em que basear meus artigos. Quando era ator, havia aprendido todos os segredos da maquilagem e fiquei famoso devido à minha habilidade. Procurei tirar vantagem disso; pintei o rosto e, para ficar tão deplorável quanto possível, arranjei uma boa cicatriz e entortei um dos lábios com o auxílio de uma tira de adesivo. Depois pus o cabelo postiço e vesti-me de acordo. Tomei então posição num dos lugares de maior movimento da City, como vendedor de fósforos, mas realmente era um mendigo. Durante sete horas fiquei no meu lugar, e quando voltava para casa, à tardinha, descobri, para minha surpresa, que já havia recebido nada menos que vinte e seis xelins e quatro pence. Escrevi os meus artigos e não pensei mais no ocorrido até que, dias depois, avalizei uma nota promissória para um amigo, que foi protestada. Teria de pagar vinte e cinco libras. Não sabia para onde me virar a fim de obter o dinheiro, quando me lembrei de repente de uma coisa. Pedi quinze dias de prorrogação aos credores e uma licença aos patrões, e passei o tempo mendigando na City, com o meu disfarce. Em dez dias obtive o dinheiro e paguei a dívida.

“O senhor deve imaginar como era difícil voltar à rotina cotidiana do trabalho ganhando duas libras por semana, quando sabia que poderia ganhar isso num só dia com a minha máscara. Custou-me abater o orgulho, mas o dinheiro venceu e deixei o jornalismo; sentava-me dia após dia no canto que havia escolhido, com aquela cara medonha, causando dó, e enchia os bolsos de níqueis. Só um homem sabia do meu segredo. Era o dono da caverna de ópio onde eu me alojava na Swandam Lane, e de onde emergia todas as manhãs como mendigo sujo, transformando-me à tarde num homem de bem. Pagava-lhe regiamente como inquilino; assim, sabia que meu segredo estava seguro com Lascar. Bem, descobri logo que estava ganhando bastante dinheiro. Isso não quer dizer que um mendigo nas ruas de Londres possa ganhar setecentas libras por ano… mas eu tive vantagens excepcionais devido à minha maquilagem e também a uma facilidade de respostas prontas que melhorou com a prática e que me tornou conhecido na City. Continuava a ganhar uma chuva de moedas, e às vezes mesmo uma moeda de prata, e era um mau dia quando não recebia duas libras.

“Enquanto enriquecia, a ambição aumentava. Consegui uma casa no campo e depois casei-me, sem que ninguém suspeitasse da minha verdadeira ocupação. Minha amada mulher sabia que eu trabalhava, porém mal poderia supor em que serviço.

“Na segunda-feira passada, havia terminado o dia e estava me vestindo no meu alojamento por cima da caverna de ópio, quando olhei pela janela e vi, com horror e admiração, que minha mulher estava ali na rua, olhando fixamente para mim. Dei um grito de surpresa, ergui os braços para o rosto e, correndo para o meu confidente Lascar, roguei-lhe que não permitisse que ninguém subisse ali. Ouvi-lhe a voz lá embaixo, mas sabia que não podia subir. Novamente tirei a roupa e vesti as do mendigo, coloquei a cabeleira e pintei-me. Nem o olho penetrante de minha mulher poderia descobrir aquele disfarce. Lembrei-me de que talvez quisessem examinar o quarto e que a roupa me trairia. Abri a janela e, com violência, reabri um corte que havia feito pela manhã no quarto. Peguei depressa o casaco, pesado devido às moedas que retirara do meu saco de couro onde levava os ganhos, e lancei-o pela janela, de onde caiu no Tamisa e logo desapareceu. O resto da roupa tê-lo-ia seguido, mas naquele momento houve uma correria de policiais pela escada e, poucos minutos depois, descobri para meu alívio que, em vez de ser identificado como Sr. Neville St. Clair, fui aprisionado como se fosse o assassino.

“Não sei se há mais alguma coisa a explicar. Resolvi ficar com minha máscara o tempo que fosse possível, e por isso preferi continuar com o rosto sujo. Sabendo que minha mulher ficaria aflita, tirei o anel e confiei-o a Lascar num momento em que nenhum dos policiais estava olhando, juntamente com um bilhete, dizendo-lhe que não se preocupasse demasiado.”

— Esse bilhete só chegou às mãos dela ontem… — disse Holmes.

— Santo Deus! Que semana horrível ela deve ter passado!

— A polícia tem estado vigiando esse Lascar — disse o inspetor Bradstreet —, por isso imagino como lhe deve ter sido difícil enviar uma carta sem ser visto. Talvez a tenha entregue a qualquer freguês marinheiro, que a esqueceu durante alguns dias.

— Foi isso — concordou Holmes. — Não tenho dúvidas. Diga-me, nunca foi multado por mendigar?

— Muitas vezes, mas o que era uma multa para mim?

— Contudo, terá de pagar agora — disse Bradstreet.

— Se quer que a polícia não dê publicidade a este caso, Hugh Boone tem de acabar.

— Já o jurei tão solenemente como um homem pode jurar.

— Dessa forma, é provável que o caso não vá adiante. Mas se for encontrado outra vez, tudo terá de ser revelado. Estou certo, Sr. Holmes, de que não poderemos pagar os seus esforços no esclarecimento de todo o problema. Daria tudo para saber como chegou às suas conclusões.

— Resolvi-o — disse o meu amigo — sentado sobre cinco travesseiros e fumando um pacote de tabaco. Calculo, Watson, que, se formos depressa para a Baker Street, encontraremos o almoço pronto.

1892
As aventuras de Sherlock Holmes

1. Um escândalo na Boêmia § 2. A liga dos cabeças vermelhas
3. Um caso de identidade § 4. O mistério do vale Boscombe
5. As cinco sementes de laranja § 6. O homem da boca torta
7. O carbúnculo azul § 8. A faixa malhada
9. O polegar do engenheiro § 10. O solteirão nobre
11. A coroa de berilos § 12. As faias cor de cobre

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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