A liga dos cabeças vermelhas

Arthur Conan Doyle

A liga dos cabeças vermelhas

Título original: The Red Headed League
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Agosto de 1891 e com 10 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Red Headed League publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume II,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Fui visitar meu amigo Sherlock Holmes, num dia de outono do ano passado, e encontrei-o numa séria conversa com um senhor idoso, muito corpulento, de rosto corado e cabelos vermelhos.

Pedindo desculpas pela minha intrusão, ia retirar-me quando Holmes me puxou abruptamente para dentro da sala e fechou a porta.

— Não podia ter vindo em melhor hora, caro Watson — disse-me ele cordialmente.

— Receei que estivesse ocupado.

— De fato. E muito.

— Então devo esperá-lo na outra sala.

— Nada disso. Este cavalheiro, sr. Wilson, tem sido meu companheiro e auxiliar em muitos dos meus casos mais bem-sucedidos, e não duvido de que venha ainda a ser útil no seu também.

O cavalheiro gordo levantou-se da cadeira e cumprimentou-me com uma expressão interrogativa nos pequenos olhos meio fechados pela gordura.

— Sente-se no sofá — disse Holmes, ajeitando-se de novo na poltrona e juntando as pontas dos dedos como era seu costume quando estava pensativo. — Eu sei, meu caro Watson, que você é como eu, gosta de tudo o que é bizarro e foge à rotina monótona do convencionalismo da vida cotidiana. Você já demonstrou esse gosto no entusiasmo com que escreve, e, desculpe-me dizê-lo, até no embelezamento de muitas das minhas próprias aventuras.

— Seus casos têm sido realmente do maior interesse para mim — observei.

— Lembra-se de eu ter dito outro dia, quando começamos a estudar o problema apresentado pela srta. Mary Sutherland, que, devido a estranhos efeitos e combinações de circunstâncias extraordinárias, precisávamos nos convencer de que a própria vida tem muito mais ousadia do que se possa imaginar?

— Uma proposição da qual tomei a liberdade de duvidar.

— Sim, doutor, mas mesmo assim tem de aceitar meu ponto de vista, ou continuarei a aborrecê-lo com uma grande quantidade de fatos até que fique desorientado e admita que tenho razão. O sr. Jabez Wilson fez-me o favor de vir aqui hoje e começou uma narrativa que promete ser um dos mais singulares casos de que tenho conhecimento desde há muito tempo. Você já me tem ouvido dizer que as coisas mais estranhas e esquisitas geralmente têm relação não com os maiores crimes, mas com os menores, e, ocasionalmente, há mesmo razão para duvidar se houve crime ou não. Portanto, pelo que ouvi até agora, é-me impossível decidir se o caso atual foi crime perpetrado ou não; todavia, o curso que tomam os acontecimentos é certamente dos mais curiosos. Talvez o sr, Wilson queira ter a bondade de recomeçar sua narrativa. Não lhe faço esse pedido apenas porque meu amigo, o dr. Watson, não a ouviu; mas também porque a natureza peculiar da história faz-me ansioso por não perder o mínimo pormenor. Quase sempre, quando ouço as primeiras notícias de um caso, sigo-lhes o fio devido à experiência de milhares de outros semelhantes e dos quais vou me lembrando. Mas neste caso, sou obrigado a admitir que os fatos são, segundo creio, únicos no gênero.

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

O cliente corpulento aprumou-se com visível orgulho e tirou do bolso do sobretudo um jornal sujo e amarrotado. Enquanto lia a coluna da primeira página, com o jornal estendido sobre o joelho, olhei bem para o homem e esforcei-me, seguindo o hábito do meu companheiro, por ler as indicações que pudessem estar contidas em seu vestuário e aparência geral. Não lucrei muito, no entanto, com minha inspeção. Nosso visitante tinha apenas as características de um negociante britânico comum, obeso, pomposo e lento. Vestia calças cinza axadrezadas e largas, como as usadas pêlos pastores de ovelhas nos campos; a sobrecasaca estava desabotoada na frente e não muito limpa, e do colete escuro pendia uma pesada corrente de ouro com uma medalha como ornamento. Uma cartola gasta e um sobretudo castanho com uma gola de veludo enrugada jaziam numa cadeira a seu lado. Ao todo, pelo que pude observar, não havia nada de extraordinário nem de estranho no homem, a não ser a cabeça flamejante e uma expressão de extrema mortificação e descontentamento no rosto.

O olhar perscrutador de Sherlock Holmes percebeu minha preocupação, e ele sacudiu a cabeça, sorrindo perante o meu olhar inquiridor.

— Além dos fatos evidentes de que já foi operário, tomava rapé, é maçom, esteve na China e tem escrito muito ultimamente, não deduzi mais nada O sr. Jabez Wilson pulou da sua cadeira com o dedo indicador sobre o jornal, porém com os olhos fixos no meu amigo.

— De que modo mágico descobriu tudo isso, sr. Holmes? — perguntou ele. — Como adivinhou por exemplo que fui operário? É verdade como o Evangelho, e comecei como carpinteiro a bordo de um navio.

— Suas mãos, meu caro senhor. Sua mão direita é muito maior do que a esquerda. Usou-a muito, e os músculos estão mais desenvolvidos.

— Bem, e o rapé, e a maçonaria?

— Não quero insultar sua inteligência dizendo-lhe como notei tudo isso, principalmente porque, contra as regras da sua ordem, o senhor usa um arco e um compasso no alfinete da gravata.

— Ah! é certo, esqueci-me disso. Mas, e os inúmeros escritos?

— O que se há de pensar quando se vê a manga direita tão brilhante e gasta na extensão de umas cinco polegadas, e a manga esquerda puída perto do cotovelo que o senhor apoia na secretária?

— Bem, e a respeito da China?

— O peixe que o senhor traz tatuado logo acima do pulso direito só pode ter sido feito na China. Estudei um pouco a respeito de tatuagem e até contribuí com alguma literatura sobre o assunto. Aquele truque de colorir as escamas de peixe com um delicado cor-de-rosa é peculiar da China. Quando, ainda por cima, vejo uma moeda chinesa pendurada na corrente do seu relógio, torna-se fácil descobrir tudo.

Jabez Wilson riu-se a bandeiras despregadas.

— Bem, nunca vi! — declarou. — Pensei que o senhor tivesse feito uma coisa de muito valor, mas vejo, enfim, que não houve nada de extraordinário.

— Estou pensando, Watson — disse Holmes —, que cometi um erro explicando tudo. Omne ignotum pro magnifico, você bem sabe, e minha pobre e pequena reputação soçobrará se eu continuar a ser tão ingênuo. Não encontrou o anúncio, sr. Wilson?

— Sim, já o tenho — respondeu ele, com o dedo vermelho e grosso colocado no meio da coluna. — Aqui está. Foi isto o que deu início a tudo. Leia-o, senhor.

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Tirei-lhe o jornal da mão e li o seguinte:

“Liga dos Cabeças Vermelhas

Devido ao recente falecimento de Ezequias Hopkins, da Pensilvânia, EUA, está aberta uma vaga que dá direito a outro membro da liga a receber o salário de quatro libras semanais por serviços puramente nominais. Todos os homens de cabelos vermelhos que estejam em perfeita saúde mental e física, com mais de vinte e um anos, são elegíveis. Tratar pessoalmente na segunda-feira, às onze horas; falar com Duncan Ross, nos escritórios da liga, em Pope’s Court, Fleet Street”.

— Que vem a ser isso? — exclamei, depois de ler duas vezes o extraordinário anúncio.

Holmes riu e mexeu-se na cadeira, como era seu costume quando estava entusiasmado.

— Nada comum, não é verdade? E agora, sr. Wilson, deixe de brincadeiras e conte-nos tudo sobre sua vida, sua família, e o efeito deste anúncio sobre suas posses. Doutor, tenha a bondade de tomar nota da data do jornal e do nome do mesmo.

— É o Morning Chronicle de 27 de abril de 1890, justamente há dois meses passados.

— Muito bem. E agora, sr. Wilson?

— Bem, foi como acabei de lhe contar, sr. Sherlock Holmes — disse Jabez Wilson, enxugando o suor da testa. — Tenho um pequeno negócio de penhores na Saxe-Coburg Square, perto da City. É pequeno, e ultimamente mal dá para me sustentar. Antigamente podia pagar a dois ajudantes, mas agora tenho um só, e teria dificuldade em pagar mesmo a esse se não aceitasse metade do ordenado, visto a outra metade custear a aprendizagem do negócio.

— Qual é o nome desse jovem tão compreensivo? — perguntou Holmes.

— Chama-se Vincent Spaulding, e não é tão jovem como pensa. É difícil dizer a idade dele. Não podia desejar ajudante mais ativo, sr. Holmes; e eu sei que ele poderia ganhar duas vezes mais do que lhe posso pagar. Mas, em todo caso, se está satisfeito, por que haveria eu de lhe encher a cabeça com outras idéias?

— Claro! O senhor parece ter sorte; um empregado que não exige ordenado além do regulamentar não é muito comum nestes tempos. Não sei se seu ajudante não será tão estranho como este anúncio.

— Oh, ele tem também as suas falhas — disse o sr. Wilson. — Nunca houve outro igual para bater fotos. Bate fotos quando devia estar trabalhando, e desce logo em seguida para a adega, como um coelho que procura a toca, para revelar os negativos. É a principal falha dele, mas em geral trabalha bastante. Não tem vícios.

— Continua em serviço, suponho?

— Sim, senhor. Ele e uma mocinha de treze anos, que cozinha um pouco e faz a limpeza. É só o que tenho em casa, porque sou viúvo; somos só os três, e nos arranjamos para pagar o aluguel, sem contrairmos dívidas, mesmo que não façamos mais nada. A primeira coisa que nos chamou realmente a atenção foi este anúncio. Spaulding desceu para o escritório justamente há dois meses com este jornal na mão e disse:

“— Gostaria que Deus me tivesse dado cabelos vermelhos, sr. Wilson”.

“— Por quê? — perguntei-lhe.

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

“— Porque há outra vaga na Liga dos Cabeças Vermelhas, e creio que há mais vagas do que homens para ocupá-las; por isso os depositários estão preocupados, sem saber onde encontrar as pessoas que devem receber o dinheiro. Se o meu cabelo fizesse o favor de mudar de cor, aqui estaria um bom negociozinho para mim.

“— Mas de que se trata? — perguntei eu. O senhor compreende, sr. Holmes, sou um homem caseiro, e como o meu negócio vem ter comigo e não é necessário eu procurá-lo, passam-se semanas sem que eu saia de casa; e, assim, gosto de ouvir as notícias.

“— O senhor nunca ouviu falar da Liga dos Cabeças Vermelhas? — perguntou ele, abrindo muito os olhos.

“— Nunca.

“— Admiro-me, porque o senhor próprio é elegível para uma das vagas.

“— E quanto valem? — perguntei.

“— Oh, apenas umas duzentas libras por ano, mas o trabalho é pequeno, e pouco tempo é necessário roubar às suas outras ocupações. — Bem, como deve calcular, aquilo me interessou, porque meu negócio não corre bem há alguns anos, e umas duzentas libras extras seriam bem-vindas.

“— Conte-me tudo a respeito disso — pedi eu.

“— Bem — continuou ele, mostrando-me o anúncio —, como vê, há uma vaga na liga, e está aqui o endereço onde obter as informações. Por tudo o que pude descobrir, a liga foi fundada por Ezequias Hopkins, milionário americano, que tinha idéias muito esquisitas. Ele próprio tinha cabelos vermelhos e sentia grande simpatia por todos aqueles que o tinham da mesma cor. Assim, quando morreu, descobriram que deixara sua enorme fortuna nas mãos de depositários, com instruções para empregarem os juros na criação de empregos para homens que tivessem o cabelo daquela cor. Pelo que ouvi dizer, o trabalho é pouco e bem pago.

“— Mas — retruquei — devem inscrever-se multidões de homens.

“— Não tantos como pensa — respondeu. — Bem vê que o negócio é limitado aos londrinos que sejam adultos. O tal americano saiu de Londres quando jovem, e queria deixar um benefício à sua cidade. Ouvi dizer também que o cabelo não pode ser apenas ruivo ou mesmo vermelho carregado. Tem de ser vermelho mesmo. Como fogo brilhante, como fogo. Se pretende o lugar, sr. Wilson, creio que o conseguiria, mas talvez nem valha a pena incomodar-se por causa de duzentas libras. — Como os senhores podem ver, meu cabelo é, de fato, de cor exuberante, e pareceu-me que, se houvesse realmente alguma concorrência, teria tanta possibilidade como qualquer outro homem, e talvez mais. Vincent Spaulding parecia saber tanto a respeito do assunto, que achei que me poderia ser útil. Mandei-o fechar a loja naquele dia, para que fosse comigo imediatamente. Gostou de ter um feriado. Fechamos tudo e saímos à procura do endereço que vinha no anúncio. Espero nunca mais ver semelhante horror outra vez, sr. Holmes. De norte, sul, leste ou oeste, qualquer homem que tivesse um fio de cabelo vermelho na cabeça tinha vindo para a cidade em resposta ao anúncio. Nem se podia passar na Fleet Street por causa deles, e Pope’s Court mais parecia a carroça de um vendedor de laranjas. Nunca imaginei que houvesse tantos em todo o país como os que se reuniram por causa daquele anúncio. Havia cabelos de todas as tonalidades. Cor de palha, de limão, de laranja, tijolo, cor de bílis e de barro, mas, como observou Spaulding, poucos com cabelos vermelhos, cor de terra. Quando vi tanta gente à espera, quis desistir, desanimado, mas Spaulding não concordou. Como ele o conseguiu, não sei, mas empurrou alguns e puxou outros, dando cotoveladas, até que atravessamos a multidão e subimos os degraus que levavam ao escritório.”

— Sua experiência foi divertida — disse Holmes enquanto o cliente fazia uma pausa e, para refrescar a memória, tomava uma pitada de rapé. — Tenha a bondade de continuar.

— Não havia nada no escritório, a não ser duas cadeiras de madeira e uma mesa de pinho atrás da qual estava sentado um homem com cabelos ainda mais vermelhos do que os meus. Dizia poucas palavras a cada candidato que subia e depois encontrava alguns defeitos que o desclassificavam. Obter uma vaga não parecia assim tão fácil; enfim, quando chegou a nossa vez, o homenzinho tratou-me melhor do que aos outros, e fechou a porta quando entramos para que pudesse falar-nos em particular.

“— Este é o sr. Jabez Wilson — disse o meu ajudante —, e ele quer preencher uma vaga na liga.

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

“— É admiravelmente adequado ao lugar — respondeu o outro. — Nunca vi nada tão perfeito. — Deu um passo para trás, inclinou a cabeça de lado, e olhou meu cabelo até que fiquei embaraçado. De repente adiantou-se, sacudiu-me a mão e deu-me parabéns pelo êxito. — Seria uma injustiça hesitar. Com certeza o senhor me desculpará por tomar uma precaução óbvia. — Dito isto, agarrou-me pêlos cabelos e puxou-os até que gritei de dor. — Há lágrimas nos seus olhos — disse ele, soltando-me. — Vejo que tudo está em ordem, mas temos de tomar cuidado, porque fomos duas vezes enganados com chinos e uma vez com tintas. Podia contar-lhe histórias de farsas que enojariam sua natureza humana. — Deu um passo até a janela e gritou que a vaga já estava preenchida. Um gemido de desapontamento subiu lá de fora, e todos se dispersaram em diversas direções, até que não ficou ninguém. Quanto a cabeças vermelhas à vista, só a do agente e a minha.

“— Meu nome — disse ele — é Duncan Ross, e eu próprio sou um dos beneficiários do dinheiro deixado pelo nosso benfeitor. É casado, sr. Wilson? Tem família?

“Disse-lhe que não, e sua fisionomia modificou-se.

“— Deveras — disse ele com voz grave. — Isso é muito sério! E custa-me ouvi-lo declarar tal coisa. O auxílio em dinheiro tem como objetivo a propagação dos cabelos vermelhos, tanto quanto possível. É uma infelicidade ser solteiro.

“Fiquei desanimado quando ele disse aquilo, sr. Holmes, pois pensei que não obteria a vaga; porém, depois de pensar no caso um instante, ele disse que não fazia mal.

“— No caso de outro qualquer, a objeção poderia ser fatal, mas devemos ser tolerantes no caso de um homem com a cabeça coberta de cabelos como os seus. Quando é que poderá começar suas novas obrigações?

“— Bem, é um pouco difícil, porque já tenho um negócio — disse-lhe eu.

“— Oh, não se incomode com isso, sr. Wilson — respondeu Vincent Spaulding —, posso substituí-lo.

“— Qual seria o horário? — perguntei.

“— Das dez às catorze horas.

“Agora os negócios nas casas de penhores são feitos mais à noite, especialmente às quintas e sextas à tarde, pouco antes dos dias de pagamento. Sendo assim, seria bom para mim poder ganhar um pouco de manhã; além disso, sabia que meu ajudante era um homem correio e resolveria qualquer problema que aparecesse.

“— Para mim, está bem — disse eu. — E o pagamento?

“— É de quatro libras por semana.

“— E o trabalho?

“— É puramente nominal.

“— O que quer dizer puramente nominal?

“— Bem, o senhor terá de estar no escritório, ou pelo menos no edifício, durante todo o tempo. Se sair, perderá para sempre todas as vantagens, O testamento é muito claro quanto a este ponto. Se sair durante o horário de trabalho, estará faltando a suas obrigações.

“Como eram apenas quatro horas, eu não precisaria sair antes.

“— Nenhuma desculpa terá valor — disse o sr. Duncan Ross. — Nem doença, nem negócios, nem qualquer outra coisa. Terá de ficar aqui ou perderá a colocação.

“— E o trabalho?

“— É copiar a Encyclopædia Britannica. O primeiro volume está dentro daquele armário. Tem de trazer sua própria tinta, penas e mata-borrão, mas nós lhe fornecemos esta mesa e esta cadeira. Pode vir amanhã?

“— Certamente — respondi.

“— Então adeus, sr. Jabez Wilson, e permita-me que lhe dê os parabéns mais uma vez pela feliz aquisição deste importante cargo.

“Conduziu-me para fora do escritório e segui para casa com meu ajudante, mal sabendo o que dizer e fazer, tão satisfeito estava com a minha sorte. Pensei no caso o dia inteiro, e à tarde já estava de novo triste porque me convencera de que tudo aquilo não passava de mistificação ou fraude, embora não pudesse imaginar qual o objetivo. Parecia incrível que alguém pudesse dedicar tal soma para se fazer uma coisa tão simples como copiar a Encyclopædia Britannica. Vincent Spaulding fez o que pôde para me animar. Mas à hora de me deitar já tinha esquecido tudo.

De manhã, todavia, resolvi ir ver do que se tratava, e por isso comprei um vidro de tinta, uma pena de ganso, sete folhas de papel almaço e fui para Pope’s Court. Fiquei alegre ao ver que tudo se achava em ordem. A mesa estava à minha espera, e o sr. Duncan Ross permaneceu até verificar que eu tinha começado o trabalho. Fez-me iniciar com a letra A e depois deixou-me, vindo de vez em quando para ver se tudo corria bem. As catorze horas disse-me adeus, perguntando quanto já copiara, e fechou a porta do escritório.

“Isto aconteceu dia após dia, sr. Holmes, e no sábado o chefe entrou e atirou para cima da mesa as quatro libras de ouro que eu havia ganho naquela semana. Na semana seguinte e na outra aconteceu a mesma coisa. Todas as manhãs chegava às dez horas e todas as tardes saía às catorze horas. A pouco e pouco o sr. Duncan Ross foi deixando de aparecer. Vinha somente uma vez de manhã, e por fim deixou mesmo de comparecer. Todavia, nunca ousei sair do escritório por um só instante, porque não tinha certeza se ele viria ou não e o emprego era tão bom que não podia arriscar-me a perdê-lo.

“Passaram-se oito semanas assim. Eu já havia copiado ‘abade’, ‘arma’, ‘arqueiro’, ‘arquitetura’ e ‘ática’, e esperava que, com diligência, pudesse passar à letra B dentro de algum tempo.

“Gastei um bom bocado de papel almaço, e já quase um terço da prateleira estava cheio das minhas cópias, quando de repente todo o negócio se desvaneceu.”

— Como se desvaneceu?

— Vai ouvir. Hoje de manhã fui para o trabalho como de costume, às dez horas, mas a porta estava fechada à chave e tinha um cartão afixado no centro do painel com um preguinho. Aqui está ele, e o senhor pode lê-lo.

Mostrou um pedaço de cartolina, do tamanho mais ou menos de um memorando, sobre o qual estava escrito:

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

A LIGA DOS CABEÇAS VERMELHAS

ESTÁ DISSOLVIDA

9 DE OUTUBRO, 1890

Sherlock Holmes e eu examinamos o lacônico aviso e o rosto triste do homem. Ao lado cômico do caso acrescentei qualquer outra consideração, e ambos desatamos a rir.

— Não vejo nada de engraçado — exclamou o nosso cliente, corando até a raiz dos cabelos. — Se não puderem fazer melhor do que rir de mim, terei de procurar outra pessoa.

— Não, não — disse Holmes, fazendo-o sentar-se de novo na cadeira de onde se havia levantado. — Eu não perderia o seu caso por nada deste mundo. É uma original novidade, mas permita-me que lhe diga que tem qualquer coisa de cômico. Diga-me que passos deu quando encontrou o cartão pregado à porta.

— Fiquei atônito e vacilei, não sabendo o que fazer. Depois fui aos escritórios da vizinhança, mas não pareciam saber de coisa alguma. Finalmente fui falar com o senhorio, que é funcionário e mora no andar térreo, e perguntei-lhe se podia informar-me para onde tinha ido a Liga dos Cabeças Vermelhas. Disse-me que nunca ouvira falar de tal liga. Perguntei-lhe quem era o sr. Duncan Ross e ele respondeu-me que nunca ouvira falar nesse nome.

“— Bem — disse-lhe eu —, e o cavalheiro da sala número 4?

“— Oh! Aquele homem de cabeça vermelha?

“— Sim.

“— Ah! Segundo me informou, o nome dele é William Morris. É advogado e ocupou aquela sala temporariamente, até que seus escritórios ficassem prontos. Mudou-se ontem.

“— Onde é que eu o poderia encontrar?

“— Só nos escritórios novos. Ele deu-me o endereço. É no número 17 da King Edward Street, perto da Catedral de São Paulo.

“Saí, sr. Holmes, mas ao chegar àquele endereço deparei com uma fábrica de protetores artificiais para joelhos, e ninguém lá conhecia William Morris, nem tampouco Duncan Ross.”

— E que fez o senhor então? — perguntou Holmes.

— Voltei para minha casa na Saxe-Coburg Square e consultei meu ajudante. Mas ele não pôde auxiliar-me. Disse apenas que, se eu esperasse, talvez recebesse qualquer coisa pelo correio. Mas aquilo não era suficiente, sr. Holmes. E eu não queria perder semelhante emprego sem lutar por ele. Por isso, ouvindo dizer que o senhor atende aos pobres que necessitam do seu auxílio, vim falar-lhe diretamente.

— E fez muito bem — disse Holmes. — Seu caso é deveras extraordinário, e terei muito prazer em investigá-lo. Pelo que o senhor me contou, penso que se trata de coisa mais séria do que à primeira vista pode parecer.

— Séria a valer! Pois perdi quatro libras por semana — disse Jabez Wilson.

— Quanto a isso, não vejo muita razão para se queixar dessa liga extraordinária. Pelo contrário, o senhor ganhou mais umas trinta libras, para não falar dos grandes conhecimentos que adquiriu de todos os assuntos mencionados sob a letra A. Por isso não teve prejuízo.

— Não, senhor, mas desejo descobrir quem eles são, e qual foi o objetivo ao pregarem-me essa peça, porque foi uma armadilha, e só para mim. Custou-lhes caro a brincadeira, porque tiveram de gastar umas trinta e duas libras.

— Vamos nos esforçar por lhe esclarecer todos os pontos. Mas, primeiramente, uma ou duas perguntas, sr. Wilson. Há quanto tempo estava no emprego esse seu ajudante, quando lhe chamou a atenção para o anúncio?

— Cerca de um mês.

— Como foi que ele apareceu?

— Em resposta a um anúncio.

— Era o único candidato?

— Não, entrevistei pelo menos uma meia dúzia.

— Por que o escolheu?

— Porque tinha boa aparência e estava disposto a me servir por um ordenado baixo.

— Meio ordenado até.

— Sim.

— Que espécie de pessoa é esse Vincent Spaulding?

— É pequeno, gordo, ligeiro nos seus movimentos, não tem pêlos no rosto, embora tenha quase trinta anos de idade, e tem na testa uma mancha branca que parece ter sido produzida por algum ácido.

Holmes endireitou-se na cadeira, nervoso.

— Já calculava isso — ripostou ele. — O senhor também me disse que as orelhas eram furadas como para colocar brincos?

— Sim, senhor, contou-me que um cigano lhe fez aquilo quando era pequeno.

— Hum! — Holmes recostou-se de novo na cadeira, pensativo. — Ele esteve com o senhor até agora?

— Oh, sim. Foi agora mesmo que o deixei.

— E seus negócios correram bem enquanto o senhor esteve ausente?

— Não posso me queixar, senhor. Nunca há muito o que fazer de manhã.

— Basta, sr. Wilson, terei a satisfação de lhe dar mais algumas informações sobre o caso dentro de um ou dois dias. Hoje é sábado, e espero que até segunda-feira tenhamos chegado a alguma conclusão.

— Bem, Watson — disse Holmes quando nosso visitante saiu. — O que você pensa de tudo isso?

— Não sei o que pensar, é um caso misterioso.

— Em regra, e por mais estranho que pareça, o caso é menos misterioso quando evidente, e os crimes comuns é que são verdadeiramente difíceis de decifrar, assim como um rosto comum é mais difícil de se identificar. Mas preciso andar depressa com este assunto.

— Que vai fazer então?

— Fumar — respondeu ele. — Vou precisar de três boas pitadas antes de chegar a uma conclusão. Espero que você não fale comigo durante uns cinqüenta minutos.

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Enroscou-se na poltrona, os joelhos quase tocando o nariz pontudo como o de um gavião, fechou os olhos e pôs o cachimbo de barro na boca, de forma a parecer o bico de um pássaro exótico.

Eu estava certo de que ele tinha caído no sono, e cheguei a dormitar quando de repente ele se levantou da cadeira com a gesticulação de um homem que já decidiu o que fazer, tirou o cachimbo e o atirou na pedra da lareira.

— Sarasate está se apresentando no St. James’s Hall esta tarde — disse ele. — O que é que acha, Watson? Seus doentes poderão dispensá-lo por algumas horas?

— Não tenho quase nada que fazer hoje, e minha clientela nunca me absorve muito tempo.

— Então, ponha o chapéu e vamos até lá. Vou passar pela City e podemos almoçar no caminho. Reparei que há bastante música alemã no programa, que aprecio mais do que a italiana ou a francesa. É introspectiva, e preciso de introspecção. Vamos!

Fomos pelo metro até Aldersgate; um breve passeio levou-nos à Saxe-Coburg Square, ao lugar onde tinham ocorrido os fatos da singular história que ouvíramos de manhã. Era um largo pequeno, medíocre e maltratado; havia quatro carreiras de casas de tijolos de frente para um terreno cercado, onde um conjunto de arbustos se esforçava por viver numa atmosfera carregada de fumaça e poluição. Três bolas douradas e uma tábua castanha com “Jabez Wilson” escrito em letras brancas numa casa de esquina indicavam que era ali que nosso cliente tinha o seu negócio. Sherlock Holmes postou-se diante da casa, olhando, a cabeça de lado e os olhos brilhando entre as pálpebras. Subiu a rua vagarosamente e depois desceu-a até a outra esquina, examinando as casas. Finalmente, voltou à casa de penhores e, depois de bater três vezes com força na calçada, foi até a porta e bateu. A porta foi imediatamente aberta por um rapaz bem-barbeado e esperto, que o convidou a entrar.

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

— Obrigado — disse Holmes —, desejava apenas perguntar-lhe como é que se vai para o Strand.

— Vire na terceira esquina à direita, e depois na quarta à esquerda — respondeu prontamente o empregado, fechando a porta.

— Rapaz vivo, aquele — observou Holmes quando saímos. — A meu ver, é a quarta pessoa mais esperta de Londres, e pela sua ousadia talvez mereça o terceiro lugar. Já sei alguma coisa a seu respeito.

— Claro que é o ajudante do sr. Wilson, e tem grande importância nesse mistério da Liga dos Cabeças Vermelhas. Tenho certeza de que você pediu a informação apenas para que pudesse vê-lo.

— Não a ele.

— Então o quê?

— Os joelhos das calças dele.

— E o que foi que você viu?

— O que esperava ver.

— Por que bateu na calçada?

— Meu caro doutor, é hora de observação, não de prosa. Somos espiões na terra do inimigo. Já conhecemos a Saxe-Coburg Square, vamos agora explorar as ruas que ficam por trás dela.

A rua em que entramos depois que viramos a esquina da praça fazia um perfeito contraste com a outra, tal como a frente de um quadro em relação ao verso. Era uma das principais artérias por onde passava o tráfego da cidade para norte e oeste. Estava bloqueada por uma imensa fila dupla de veículos comerciais, em ambos os sentidos, e as calçadas estavam escuras devido à multidão de passantes. Era difícil crer que os fundos daquelas lojas e daqueles majestosos edifícios dessem na feia praça onde tínhamos desembocado.

— Deixe-me ver — disse Holmes parando na esquina e olhando a fila de prédios —, gostaria de fixar a ordem destas casas. É um passatempo meu este de obter um conhecimento exato das ruas de Londres. Mais adiante fica a loja de Mortimer, o vendedor de tabaco, a lojinha de jornais, o restaurante vegetariano, o depósito de McFarlane, o fabricante de carros. Isso nos leva até o outro quarteirão. E agora, doutor, que já acabamos nosso trabalho aqui, vamos nos divertir um pouco. Vamos tomar uma chávena de café e comer um sanduíche, e depois seguir para a terra dos violinos, onde tudo é doçura, delicadeza e harmonia, e onde não há clientes de cabeça vermelha a nos incomodar com suas histórias.

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Meu amigo era um músico entusiástico, e não só sabia tocar instrumentos como também era um compositor de mérito, acima do comum. Ficou toda a tarde sentado, perdido na mais perfeita alegria, agitando os dedos ao compasso da música, enquanto o rosto sorridente e os olhos lânguidos e sonolentos não pareciam ser os mesmos do Holmes caçador, do impiedoso, do esperto agente criminal. No seu temperamento a natureza dupla alternava-se, e sua extrema exatidão e astúcia representavam, como muitas vezes tenho pensado, uma reação contra a tendência poética e contemplativa que ocasionalmente predominava nele. A transição rápida de sua natureza levava-o do extremo langor a uma energia devorante, e eu sabia que nunca era tão temível como quando, durante alguns dias sem interrupção, ficava na poltrona rodeado pelas suas pesquisas e notas. Era então que, repentinamente, suas faculdades arrasadoras demonstravam um tão, alto nível de intuição que aqueles que não estavam habituados aos seus métodos o olhavam, atônitos, considerando quase sobre-humanos seus conhecimentos. Quando o vi naquela tarde, tão entretido com a música no St. James’s Hall, senti que aqueles que ele resolvera caçar corriam perigo.

— Com certeza quer regressar a casa, não, doutor? — perguntou ele ao sairmos do St. James’s Hall.

— Sim, seria bom.

— E eu tenho um assunto que me ocupará algumas horas. Este caso da Saxe-Coburg Square é coisa séria.

— Por que séria?

— Um crime hediondo está sendo planejado. Tenho os melhores motivos para crer que estamos a tempo de o impedir. Como hoje é sábado, isto complica um pouco os movimentos. Esta noite precisarei do seu auxílio.

— A que horas?

— Às vinte e duas horas seria conveniente.

— Estarei na Baker Street a essa hora, então.

— Muito bem. E olhe, doutor! Pode ser que haja um certo perigo, é bom prevenir-se levando seu revólver do exército no bolso. — Agitou a mão, rodou nos calcanhares e desapareceu rapidamente no meio da multidão.

Espero não ser menos inteligente que os demais homens, porém, fiquei oprimido com a consciência da minha própria insensatez em comparação com Sherlock Holmes. Tinha ouvido e visto o mesmo que ele, e pelas suas palavras era evidente que ele sabia não só o que acontecera, mas até o que ia acontecer, ao passo que para mim tudo era apenas confusão. Pensava no assunto enquanto ia de carro para a minha residência, em Kensington, na história esquisita do copiador da Encyclopædia, na Saxe-Coburg Square e nas palavras sinistras com que ele se despedira de mim. Que expedição noturna seria essa, e por que haveria eu de ir armado? Onde iríamos e o que teríamos de fazer? Calculei, pela atitude de Holmes, que o sujeito insinuante, ajudante do homenzinho da loja de penhores, era um indivíduo temível, capaz de tudo. Quis desvendar qualquer coisa, mas parei descoroçoado, e deixei de pensar no caso até que a noite trouxesse alguma explicação. Eram vinte e uma e quinze quando saí de casa e me dirigi através do parque e da Oxford Street à Baker Street. Havia dois carros à porta, e quando entrei no corredor ouvi o som de vozes lá em cima. Ao entrar no aposento, vi Holmes numa animada conversa com dois homens, um dos quais reconheci ser Peter Jones, o agente da polícia; o outro era um homem de rosto comprido e magro, com um chapéu lustroso e metido numa respeitável sobrecasaca.

— Oh! Nosso grupo agora está completo — disse Holmes, abotoando sua jaqueta e pegando seu chicote de cabo grosso de caçador que estava pendurado no bengaleiro. — Watson, creio que você já conhece o sr. Jones, da Scotiand Yard. Deixe-me apresentar-lhe o sr. Merryweather, que vai nos acompanhar nas aventuras desta noite.

— Vamos caçar dois a dois outra vez, doutor, como está vendo — disse Jones. — Nosso amigo é muito bom para inventar uma caça. Só precisa de mais um cão para ajudá-lo a farejar.

— Espero que nossa caçada não seja em vão — observou tristemente o sr. Merryweather.

— Pode confiar inteiramente no sr. Holmes — disse o policial arrogantemente. — Ele tem os seus próprios metodozinhos, os quais são a meu ver um pouco teóricos e fantásticos demais, mas tem jeito para detetive. Não é demais admitir isso uma ou duas vezes, como no caso do assassino de Sholto e no do tesouro de Agra, em que os seus cálculos foram mais exatos do que os da polícia.

— Oh, se fala assim, então está tudo bem, sr. Jones! — disse o estranho com deferência, — Todavia, confesso que sinto perder hoje o meu joguinho. Nos últimos dois anos, é a primeira noite de sábado que não vou jogar.

— Creio que hoje achará as apostas mais importantes do que jamais o fez, e de maior interesse — exclamou Holmes. — Para o sr. Merryweather, as apostas valerão mais do que trinta mil libras, e para o sr. Jones, será um homem a quem deseja deitar as mãos.

— John Clay, o assassino, ladrão, estrangulador e falsário, é jovem, sr. Merryweather, mas é perito na sua profissão; eu gostaria mais de lhe pôr as algemas do que a qualquer outro criminoso de Londres. É extraordinário esse tal Clay; o avô era um duque da casa real, e ele próprio estudou em Eton e Oxford. Tem um cérebro tão agudo como os dedos, e, embora encontremos sinais dele a cada passo, nunca sabemos onde se encontra. Faz um roubo na Escócia numa semana e na outra já está arranjando dinheiro para fundar um orfanato na Cornualha, no extremo sul. Há anos que o persigo, mas nunca o vi.

— Espero ter o prazer de apresentá-lo ao senhor esta noite. Eu também já andei atrás dele uma ou duas vezes e concordo que é perito na profissão. Já se passaram duas horas e devíamos estar a caminho. Vocês dois seguem no primeiro carro, e Watson e eu seguimos no outro.

Sherlock Holmes manteve-se calado durante o longo percurso e encostou-se para trás, cantarolando baixo as músicas que havia escutado à tarde. Atravessamos o labirinto de ruas iluminadas a gás até desembarcarmos na Farringdon Street.

— Agora estamos pertinho — disse o meu amigo. — Aquele sujeito chamado Merryweather é diretor de um banco e está pessoalmente interessado no assunto. Achei melhor trazer o Jones conosco, não é mau rapaz, embora absolutamente imbecil quanto à sua profissão. Tem uma virtude: é tão corajoso como um buldogue e teimoso como uma lagosta, desde que põe a mão a alguém. Aqui estamos, e lá estão eles à nossa espera.

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Tínhamos chegado às mesmas ruas onde estivéramos de manhã. Despachamos os coches e, seguindo no encalço do sr. Merryweather, passamos por um estreito corredor e por uma porta lateral, que ele nos abriu. Dentro havia outro pequeno corredor, que terminava num enorme portão. Merryweather parou para acender a lanterna e então conduziu-nos através de uma passagem escura e úmida e, depois de abrir a segunda porta, entramos num porão onde estavam empilhados caixotes gradeados e grandes caixões.

— Não são vulneráveis lá de cima — disse Holmes, enquanto suspendia a lanterna e olhava em redor.

— Nem de baixo — disse Merryweather, dando uma leve pancada com sua bengala nas lajes que forravam o chão. — Ora essa, então não é que parece oca? — disse ele, surpreso.

— Peço-lhe que fique calmo — disse Holmes severamente. — O senhor está pondo em risco o êxito da nossa expedição. Peco-lhe o favor de se sentar sobre um daqueles caixotes e de não interferir.

Com a expressão de quem fora humilhado, o sr. Merryweather sentou-se solenemente em cima de um caixote gradeado, enquanto Holmes, de joelhos e com a lanterna na mão e uma lente de aumento, começou a examinar cuidadosamente as frestas entre as lajes. Poucos segundos depois ficou satisfeito, porque se pôs de pé novamente e colocou a lente no bolso.

— Temos pelo menos uma hora de espera — disse ele.

— Não podem trabalhar enquanto o bom penhorista estiver na cama. Depois não perderão um instante, porque, quanto mais depressa fizerem o trabalho, mais tempo terão para fugir antes de serem descobertos. Nós, como talvez tenha adivinhado, doutor, estamos nos subterrâneos de um dos principais bancos de Londres. O sr. Merryweather é um dos diretores, e explicará as razões por que os ousados criminosos devem ter atualmente grande interesse por este porão.

— É por causa do nosso ouro francês… — cochichou o diretor. — Fomos avisados diversas vezes de que iam tentar um assalto.

— Ao ouro francês?

— Sim. Tivemos ocasião, há poucos meses atrás, de aumentar nossos recursos, e fizemos um empréstimo de trinta mil napoleões ao Banco de França. Sabem que ainda não tivemos necessidade de desempacotar o dinheiro e que ele continua aqui no porão. Este caixote onde estou sentado contém dois mil napoleões encerrados entre duas chapas de chumbo. Nossas reservas de dinheiro são atualmente muito maiores do que as que costumamos guardar em qualquer agência do banco, e os diretores já estão receosos.

— E esses receios são muitos justificados — observou Holmes. — E agora devemos executar nossos planos. Penso que dentro de uma hora as coisas chegarão ao auge. Entretanto, sr. Merryweather, devemos cobrir a luz daquela lanterna.

— E ficaremos sentados no escuro?

— Temo que seja necessário. Eu tinha trazido um baralho de cartas para que o senhor não perdesse o seu joguinho, visto que somos quatro, mas vejo que os preparativos do inimigo estão adiantados demais para nos arriscarmos a ter luz. E, em primeiro lugar, devemos escolher nossas posições. Aqueles homens são ousados e, embora estejam em desvantagem, podem ferir-nos, a não ser que tomemos todas as precauções. Ficarei atrás deste caixote e você fica atrás daquele. Quando eu os focar com a luz, rodeiem-nos depressa, e se eles fizerem fogo, Watson, não tenha receio de abatê-los a tiro.

Coloquei meu revólver automático em cima de um dos caixotes gradeados atrás dos quais estava escondido. Holmes fechou a chapa escura de um dos lados da lanterna e deixou-nos em escuridão completa. O cheiro de metal quente permaneceu e assegurou-nos que a luz ainda estava acesa, pronta para brilhar de um momento para outro. Para mim, cujos nervos já estavam excitados, havia algo de deprimente nessa escuridão e no ar frio e úmido do porão.

— Eles só têm uma saída — cochichou Holmes —, através da casa da Saxe-Coburg Square. Espero que faça o que pedi, Jones.

— Tenho um inspetor e dois policiais à espera na porta da frente.

— Então as saídas estão fechadas e agora devem ficar quietos e esperar.

Quanto tempo parecia passar! Mais tarde, ao comparar minhas anotações, descobri que esperamos apenas uma hora e quinze minutos, todavia pareceu-me que a noite acabara e o dia estava prestes a raiar por cima de nós. Fiquei com as pernas hirtas e cansadas porque receei mudar de posição, e tinha os nervos na mais alta tensão e o ouvido tão atento que não só pude ouvir o respirar dos meus companheiros, como pude discernir o respirar mais forte do obeso Jones em contraste com o fino suspirar do diretor do banco.

Da minha posição, pude olhar de cima do caixote em direção ao sol, e subitamente meus olhos perceberam um raio de luz.

Pareceu-me primeiramente uma faixa lúgubre sobre a laje, depois alastrou-se até se tornar uma linha amarela, e então, sem aviso nem ruído, abriu-se um vão por onde uma mão branca que parecia de mulher surgiu no centro da área iluminada. Por um minuto, a mão de dedos retorcidos ficou por cima da laje, e depois desapareceu tão ligeiramente como veio e tudo ficou no escuro, a não ser a faixa lúgubre que marcava uma brecha entre as lajes. A mão voltou logo, e houve um som de quebrar e partir. Uma das largas lajes brancas caiu para o lado e deixou um buraco quadrado através do qual brilhou a luz de uma lanterna. Por ele surgiu o rosto liso de um rapaz, que olhou ansiosamente em redor e depois, com uma mão em cada lado da abertura, suspendeu-se até a cintura e com um joelho atingiu a borda; mais um instante e ele deu um salto, colocando-se ao lado do buraco para ajudar o companheiro a subir, um homem ligeiro e pequeno como ele, de rosto pálido e abundante cabelo vermelho.

— Está ok — murmurou ele. — Trouxe o formão e os sacos? Céus! Suba, Archibald, suba que eu me responsabilizo!

Sherlock Holmes deu um pulo e pegou o intruso pela gola. O outro ergueu-se pela abertura, e ouvi o rasgar de roupa quando Jones o agarrou. A luz brilhou sobre a coronha de um revólver, mas o cabo do chicote de Holmes caiu sobre o pulso do homem, fazendo a pistola rolar na laje.

Sidney Paget, cortesia The Camden House

Sidney Paget, cortesia The Camden House

— Não adianta, John Clay — disse Holmes suavemente. — Já não pode fugir.

— Estou vendo — disse o outro com a maior calma —, creio que meu companheiro está bem, embora estejam aqui as costas do casaco.

— Há três homens à espera dele à porta — disse Holmes.

— Oh, deveras! Você parece ter preparado tudo muito bem. Devo dar-lhe os parabéns.

— E eu a você — respondeu Holmes. — Sua idéia do cabelo vermelho é nova e de grande efeito.

— Verá seu companheiro em outra ocasião — disse Jones. — Ele é mais ágil para passar buracos do que eu. Estenda as mãos enquanto lhe ponho as algemas.

— Espero que não me toque com suas mãos imundas — disse o prisioneiro no momento em que lhe ajustavam as algemas nos pulsos. — Pode ser que o senhor não saiba, mas tenho sangue real nas veias. Tenha a bondade, quando falar comigo, de dizer “sir” e “faça o favor”.

— Muito bem — disse Jones com um olhar de escárnio. — Então queira fazer o favor, sir, de marchar e de subir a escada, para arranjarmos um carro que leve Vossa Alteza até o posto policial.

— Assim está melhor — disse John Clay serenamente. Fez-nos uma profunda vênia e avançou.

— Realmente, sr. Holmes — disse Merryweather quando os viu presos fora do porão —, não sei como o banco lhe poderá agradecer ou recompensá-lo. Não há dúvida de que descobriu e derrotou, da maneira mais completa, um dos mais audaciosos e bem-arquitetados roubos de banco de que até agora se ouviu falar.

— Eu também tenho uma ou duas coisas a resolver com este sr. John Clay — disse Holmes. — Tive muitas despesas com o caso, que espero que o banco me reembolse, mas além disso estou satisfeito por ter tido uma experiência tão rara e por ter ouvido a extraordinária narrativa da Liga dos Cabeças Vermelhas.

— Como vê, Watson — explicou-me ele de madrugada, enquanto tomávamos um uísque com soda na Baker Street —, era evidente desde o princípio que o único objetivo possível desse fantástico negócio de copiar a enciclopédia era afastar o penhorista durante algumas horas todos os dias. Foi um modo curioso de arranjar as coisas, mas seria difícil sugerir melhor. Com certeza foi produto da mentalidade de Clay, sugerido pela cor do cabelo do seu companheiro. As quatro libras por semana eram a isca para o atrair, e o que representava isso para aqueles que tinham milhares de libras em jogo? Publicam o anúncio, o outro malandro incita o homem a ir candidatar-se ao lugar, e juntos conseguem que ele se ausente durante algumas horas todas as manhãs. Desde que ouvi o penhorista dizer que o empregado trabalhava por metade do salário, convenci-me de que tinha forte motivo para conservar o emprego.

— Mas como pôde descobrir qual era o motivo?

— Se houvesse mulheres na casa, eu suspeitaria de uma intriga comum. Mas isso estava fora de questão. A casa de penhores era pequena, e não tinha nada que justificasse tão grandes preparativos e tantas despesas. Devia então ser alguma coisa alheia à casa. O que seria? Lembrei-me da grande paixão que o rapaz tinha por fotografias e do seu hábito de se meter na adega. A adega! Era ali que estava o fulcro deste caso intrincado. Fiz algumas indagações a respeito do ajudante e descobri que lidava com um dos criminosos mais frios e audazes de Londres. Estava portanto querendo fazer qualquer coisa na adega, coisa que levava horas durante dias, meses sem fim. Que podia ser? Ocorreu-me que estaria abrindo um túnel até outro edifício. Tinha chegado a esta conclusão, quando fomos visitar o local da ação. Surpreendi-o quando bati na calçada com a bengala. Tentava saber se a adega ficava na frente ou fundos da casa. Toquei a campainha e, como esperava, foi o empregado que veio abrir a porta. Já tivemos os dois algumas lutas, mas indiretamente, e mal olhei para ele. Queria ver os joelhos dele, e até você deve ter reparado como as calças estavam rotas e sujas justamente nos joelhos. Falavam daquelas horas passadas cavando o chão. Só restava descobrir o motivo por que cavavam. Virei a esquina e percebi que o City and Suburban Bank se ligava à casa do nosso amigo. Achei que estava ali a solução do meu problema. Quando você foi para casa depois do concerto, procurei a Scotland Yard e o presidente da diretoria do banco, obtendo o resultado que já conhece.

— E como adivinhou que iam tentar o assalto hoje? — perguntei-lhe.

— Bem, quando fecharam o escritório da liga, era sinal de que já não se incomodavam com a presença do sr. Jabez Wilson. Em outras palavras, tinham completado o túnel, mas era essencial que o utilizassem logo, porque podia ser descoberto ou o dinheiro ser transferido de lugar. Sábado seria melhor que qualquer outro dia, porque proporcionava dois dias para a fuga. Foi por todas essas razões que os esperei hoje.

— Calculou maravilhosamente — exclamei eu cheio de admiração. — A corrente é longa, mas todos os elos se ligam fielmente.

— Serviu para me divertir — respondeu ele, bocejando. — Sinto chegar o aborrecimento. Passo a vida procurando escapar às coisas vulgares e corriqueiras, e estes problemas ajudam-me a consegui-lo.

— E é um benfeitor da raça — comentei.

Encolheu os ombros.

— Bem, no fim talvez seja de alguma utilidade — disse ele. — “L’homme c’est rien — l’oeuvre ces’t tout“, [1] como escreveu Gustave Flaubert a George Sand.

[1] “O homem não é nada — a obra é tudo.” Em francês no original. (N. do E.)

1892
As aventuras de Sherlock Holmes

1. Um escândalo na Boêmia § 2. A liga dos cabeças vermelhas
3. Um caso de identidade § 4. O mistério do vale Boscombe
5. As cinco sementes de laranja § 6. O homem da boca torta
7. O carbúnculo azul § 8. A faixa malhada
9. O polegar do engenheiro § 10. O solteirão nobre
11. A coroa de berilos § 12. As faias cor de cobre

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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