A pedra Mazarino

Arthur Conan Doyle

A pedra Mazarino

Título original: The Mazarin Stone
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Outubro de 1921, com 3 ilustrações de A. Gilbert
e na Hearst´s International Magazine em Novembro de 1921
com 4 ilustrações de Frederic Dorr Steele.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Mazarin Stone publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VII,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Para o dr. Watson era agradável encontrar-se mais uma vez no desarrumado aposento do primeiro andar da Baker Street, que tinha sido o ponto de partida de tantas aventuras notáveis. Ele relanceou os olhos pêlos certificados científicos colocados na parede, pela bancada de produtos químicos enegrecida pela ação da queimadura dos ácidos, pela caixa do violino encostada num canto, pelo balde de carvão, que em outros tempos continha os cachimbos e o tabaco. Finalmente, seus olhos voltaram-se para a cara nova e sorridente de Billy, o criado jovem mas muito discreto e jeitoso que ajudara um pouco a preencher a solidão e o isolamento que se formara em torno da figura taciturna do grande detetive.

— Parece que não houve nenhuma modificação, Billy. Você também não muda. Espero que dele se possa dizer o mesmo.

Billy lançou um olhar um pouco inquieto para a porta fechada do quarto de dormir.

— Creio que ainda está dormindo — disse.

Eram sete horas da noite de um belo dia de verão, mas o dr. Watson não se surpreendeu com o fato, porque conhecia de longa data o seu amigo e sabia que ele tinha noção do tempo.

— Isso significa que temos um novo caso?

— Sim, senhor, e, por sinal, neste momento ele está vivamente interessado em solucioná-lo. Chego a recear pela sua saúde. Está ficando macilento, e não quer comer nada. “Quando é que quer jantar, sr. Holmes?”, perguntou-lhe a sra. Hudson. “Depois de amanhã, às sete e meia”, respondeu ele. O senhor sabe como ele é quando toma alguma coisa a peito.

— Sim, Billy, sei muito bem.

— Está seguindo alguém. Ontem saiu disfarçado de operário à procura de trabalho. Hoje transformou-se numa velha. Até a mim enganou, a mim, que já devia estar habituado ao seu feitio. — Sorrindo, Billy indicou uma bojuda sombrinha, apoiada contra o sofá. — Aquilo faz parte da indumentária da velha — disse o rapaz.

— Mas para que é tudo isso, Billy?

Billy baixou a voz, como quem discute grandes segredos de Estado.

— Não me importo de lhe dizer, doutor, mas a coisa não deve sair daqui. É esse tal caso do diamante da coroa.

— O quê? O roubo de cem mil libras?

— Exatamente. Tem de ser recuperado. Se eu lhe disser que o primeiro-ministro e o ministro do Interior estiveram ambos sentados nesse mesmo sofá! O sr. Holmes tratou-os com muita distinção. Pôs logo os dois à vontade e prometeu fazer o que pudesse. Depois foi Lorde Cantlemere…

— Ah!

— Sim, senhor doutor; o senhor sabe o que isso significa. Ele para mim não passa de um emproado. Não desgosto do primeiro-ministro e nada tenho contra o ministro do Interior, que me pareceu homem cortês e bondoso, mas o tal lorde é que não tolero. O sr. Holmes também o detesta. É que ele não acredita no sr. Holmes, e foi contrário a que lhe entregassem o caso. Preferiria que Holmes falhasse.

— E ele sabe disso?

— O sr. Holmes sempre sabe tudo o que é preciso saber.

— Bem, esperemos que ele não falhe e que Lorde Cantlemere fique envergonhado. Mas diga-me, Billy, por que aquela cortina está atravessada na janela?

— O sr. Holmes mandou suspendê-la ali há já três dias. Ela está encobrindo uma coisa interessante.

Billy avançou e correu o pano que tapava a cavidade da sacada.

O dr. Watson não pôde reprimir um grito de espanto. Havia ali um autêntico fac-símile do seu velho amigo, de roupão e tudo o mais, com o rosto virado uns três quartos para a janela e para baixo, como se estivesse lendo um livro invisível, ao passo que o corpo estava bem enterrado numa poltrona. Billy descolou a cabeça e segurou-a no ar.

— Nós a colocamos em ângulos diferentes, de modo a dar mais a impressão de realidade. Eu não ousaria tocá-la se o estore não estivesse descido. Mas quando está erguido, pode-se vê-la do outro lado da rua.

— Já uma vez usamos um estratagema parecido.

— Antes de eu vir para cá, não é verdade? — comentou Billy. Abriu as cortinas da janela e olhou para a rua. — Há pessoas a nos observar lá longe. Vejo mesmo um sujeito à janela. Venha verificar por si mesmo.

Watson dera um passo à frente, quando a porta do quarto se abriu e apareceu o vulto esguio de Holmes, com o rosto pálido e desfeito, mas o passo e o porte firmes como de costume. Com um salto, já estava junto à janela e correra de novo o estore.

— Basta, Billy — disse. — Você agora esteve em perigo de vida, meu rapaz, e no momento o seu auxílio me é imprescindível. Bem, Watson, é agradável vê-lo novamente nos seus velhos aposentos. Chegou numa ocasião crítica.

— É o que acabo de saber.

— Pode ir, Billy. Esse rapaz é um problema, Watson. Até que ponto terei desculpa para expô-lo assim ao perigo?

— Perigo de quê, Holmes?

— De morte súbita. Estou esperando alguma coisa para esta noite.

— Esperando o quê?

— Ser assassinado, Watson.

— Que ideia, Holmes! Pare de gracejar.

— Até mesmo o meu limitado senso de humor seria capaz de inventar um gracejo melhor do que esse. Mas, enquanto isso, fiquemos à vontade. É permitido o uso do álcool? O gasogênio e os charutos estão no mesmo lugar de sempre. Quero vê-lo de novo na sua cadeira de braços habitual. Espero que não tenha aprendido a desprezar o meu cachimbo e o meu lamentável tabaco, não? É o que nos últimos dias tem me substituído a comida.

— Mas por que não come?

— Porque as faculdades se apuram quando se é deixado a pão e água. Como médico, meu caro Watson, há de convir que o que a digestão ganha para abastecer o sangue fica perdido para o cérebro. E eu sou cérebro, Watson. O resto da minha pessoa é um mero apêndice. Portanto, é o cérebro que importa para mim.

— Mas, e esse perigo, Holmes?

— Ah, é verdade. Se isso vier a se concretizar, convém que você retenha na memória o nome e o endereço do assassino. Pode dá-lo à Scotland Yard, com recomendações e uma bênção de despedida. O nome é Sylvius: conde Negretto Sylvius. Vamos, homem, tome nota! Moorside Gardens, 136, W. Escreveu?

O rosto franco de Watson mostrava contrações de ansiedade. Ele sabia perfeitamente os imensos perigos a que Holmes se expunha, e não ignorava que o que ele dizia talvez pecasse por falta e não por excesso. Watson era sempre o homem de ação, e mostrou-se à altura das circunstâncias.

— Pode contar comigo, Holmes. Estou de folga durante um ou dois dias.

— As suas qualidades não melhoram, Watson. Pois não é verdade que agora acrescentou o vício da mentira aos seus outros vícios? Traz todos os sinais do médico atarefado com chamadas de hora em hora.

— Não são chamadas assim tão importantes. Mas você não pode mandar prender esse indivíduo?

— Sim, Watson, eu realmente poderia. É isso o que o preocupa tanto.

— Mas, então, por que não manda prendê-lo?

— Porque não sei onde está o diamante.

— Ah! Billy contou-me… a pedra preciosa que falta à coroa!

— Sim, a grande pedra amarela conhecida por “Pedra Mazarino”. Lancei a minha rede e apanhei os meus peixes. Contudo, não tenho a pedra. Então, para que apanhá-los? Podemos limpar um pouco o mundo metendo-os no xadrez. Mas não é esse o meu propósito. O que quero é a pedra.

— E esse conde Sylvius, é um dos peixes?

— Sim, é um tubarão. E morde. O outro é Sam Merton, o boxeur. Sam não é mau sujeito, mas o conde tem se servido dele. Sam não é um tubarão. É um grande e tolo cadoz com cabeça de touro. Mas mesmo assim está se debatendo na minha rede.

— Por onde anda esse conde Sylvius?

— Estive toda a manhã ao lado dele. Você devia ter me visto disfarçado de matrona, Watson. Nunca representei melhor um papel. Ele chegou até a apanhar-me uma vez a sombrinha. “Com licença, senhora”, disse, meio italiano que é, como você deve ter percebido, com a maneira graciosa dos povos do sul quando está bem disposto, mas um demónio em figura de gente quando o sangue lhe ferve. A vida, Watson, está cheia de caprichosos sucessos.

— Podia ter sido uma tragédia.

— Podia. Segui-o até a oficina do velho Straubenzee, os Minories. Foi Straubenzee que fez a espingarda de ar comprimido, uma perfeição, segundo ouço dizer, e acho que neste momento ele está na janela fronteira. Você viu o boneco? Billy com certeza o mostrou a você. Pois bem, ele pode, a qualquer instante, receber uma bala na formosa cabeça. Ah, Billy, o que é?

O rapaz entrava de novo na sala, trazendo um cartão sobre uma salva. Holmes relanceou os olhos pelo cartão, ergueu as sobrancelhas e sorriu, divertido.

— O homem em carne e osso. Eu esperava por isso. É hora de demonstrar coragem e sangue-frio, Watson. Talvez você tenha ouvido falar na fama do homem como exímio atirador de caça grossa. Seria um remate condigno da sua excelente folha de atividades cinegéticas se ele pudesse me juntar à sua caçada. Isto é uma prova de que ele sente o meu pé tocando-lhe no calcanhar.

— Mande chamar a polícia.

— É o que provavelmente vou fazer. Mas não exatamente neste momento. Quer dar uma olhadela pela janela lá para fora, Watson, e ver se há alguém na rua, rondando a casa?

— Sim, perto da porta há um tipo de aparência rude.

— Deve ser Sam Merton, o fiel mas um tanto imbecil Sam. Onde está o tal cavalheiro, Billy?

— Na sala de espera.

— Mande-o aqui quando eu tocar.

— Sim, senhor.

— Se eu não estiver aqui, mande-o entrar de qualquer forma.

— Sim, senhor.

Watson esperou que a porta se fechasse, e então voltou-se muito sério para o seu companheiro.

— Cuidado, Holmes, é muito perigoso. Aquele homem é um aventureiro sem nenhuma espécie de escrúpulo. Ele pode muito bem ter vindo aqui para assassiná-lo.

— Isso não me causaria surpresa.

— Insisto em ficar aqui com você.

— Você atrapalharia muito.

— A você ou a ele?

— A mim, meu caro, a mim.

— Mas não posso de maneira nenhuma deixá-lo.

— Sim, Watson, pode. E vai fazê-lo, porque você nunca me falhou. Aquele homem veio com interesses próprios, mas acabará por se resignar aos meus. — Holmes tirou do bolso o seu caderno de notas e rabiscou algumas linhas. — Apanhe um trem e vá até a Scotland Yard, onde entregará isto a Youghal, do Departamento de Investigação criminal. Volte com a polícia. Então se dará a prisão do indivíduo.

— Fá-lo-ei com prazer.

— Antes de você voltar, talvez eu tenha tempo suficiente para descobrir onde está a pedra. — Tocou a campainha. — Creio que é melhor sairmos pelo quarto de dormir. Essa segunda saída é extremamente útil. Prefiro ver o meu tubarão sem que ele me veja, e tenho, como você deve estar lembrado, a minha maneira própria de conseguir isso.

Foi, portanto, numa sala vazia que Billy, um minuto depois, introduziu o conde Sylvius. O famoso caçador, esportista e mundano elegante era um sujeito alto e moreno, com um formidável bigode preto que encobria uma boca cruel, de lábios finos, encimada por um nariz comprido e curvo, semelhante ao bico de uma águia. Vestia-se bem, mas a sua gravata brilhante, alfinete fulgurante e anéis rutilantes faziam um efeito espaventoso. Quando a porta se fechou depois da sua passagem, ele olhou em redor com olhos ferozes e assustados, como quem desconfia de uma armadilha emcada canto. Teve um violento sobressalto ao ver a impassível cabeça e a gola do chambre que se destacavam acima da poltrona na janela. A princípio, sua expressão foi de puro espanto. Depois, o clarão de uma horrível esperança lampejou-lhe nos olhos negros e assassinos. Deitou um olhar em redor para ver se não havia testemunhas, e depois, na ponta dos pés, com a grossa bengala meio levantada, aproximou-se da silenciosa figura. Curvava-se já para o pulo e o golpe final quando uma voz fria e zombeteira o saudou da porta aberta do quarto de dormir.

— Não o quebre, conde! Não o quebre.

O assassino recuou, com o semblante transtornado pelo assombro. Por um instante, tornou a erguer um pouco a poderosa bengala, como se quisesse transferir da efígie para o original a sua violência; mas havia naqueles olhos cinzentos e firmes e naquele sorriso sardônico qualquer coisa que fez baixar a mão daquele agressor.

— É uma bela obra — disse Holmes, avançando para a imagem. — Foi feita por Tavernier, o modelador francês. É tão hábil em obras de cera como o é o seu amigo Straubenzee em espingardas de ar comprimido.

— Espingardas de ar comprimido!? Que quer dizer com isso?

— Ponha o seu chapéu e a sua bengala em cima da mesinha. Queira sentar-se. Quem sabe se o senhor não quererá também pôr de lado o seu revólver. Oh, muito bem, prefere sentar-se em cima dele. A sua visita é muito oportuna, porque preciso muitíssimo ter com o senhor dois dedos de conversa.

O conde franziu a testa e as pesadas sobrancelhas ameaçadoras.

— Eu também desejava dizer-lhe algumas palavras, Holmes. É por isso que estou aqui. Não nego que há pouco estivesse quase para agredi-lo.

Holmes balançou a perna pendente da beira da mesa.

— Efetivamente, concluí que o senhor tinha essa ideia na cabeça — disse. — Mas a que devo essas atenções pessoais?

— Deve-as ao fato de pôr os seus homens no meu encalço.

— Os meus homens? Garanto-lhe que não!

— A mim não me engana. Olhe que eu mandei acompanhá-los. Pelo menos dois estão no jogo, Holmes.

— Trata-se de um pequeno pormenor, conde Sylvius, mas talvez o senhor quisesse fazer o obséquio de me tratar pelo meu título quando se dirige a mim. O senhor deve compreender que, com a minha rotina de trabalho, costumo tratar familiarmente metade da galeria dos patifes, e há de concordar em que as exceções são odiosas.

— Está bem, sr. Holmes.

— Ótimo! Mas asseguro-lhe que está enganado a respeito dos meus sonhados agentes.

O conde riu desdenhosamente.

— Não é só o senhor que observa. Ontem foi um velho esportista. Hoje era uma matrona. Não me perdem de vista durante o dia todo.

— Realmente, cavalheiro, o senhor me lisonjeia. O velho barão Dowson disse, na noite anterior ao seu enforcamento, que, no meu caso, o palco perdera o que a lei ganhara. E agora o senhor confere os seus bondosos elogios aos meus modestos disfarces!

— Então, era o senhor… em pessoa?

Holmes encolheu os ombros.

— O cavalheiro pode ver naquele canto a sombrinha que tão cortesmente me entregou nos Minories, antes de ter começado a ficar com a pulga atrás da orelha.

— Se eu tivesse sabido, o senhor nunca mais…

— Teria voltado a este humilde lar. Percebi isso muito bem. Todos nós temos de deplorar oportunidades perdidas. Da mesma maneira, o senhor não o percebeu, e eis-nos aqui!

As sobrancelhas do conde franziram-se ainda mais sobre os seus olhos ameaçadores.

— O que o senhor acaba de dizer só serve para piorar a situação. Com que então não eram os seus agentes, mas o senhor em pessoa, disfarçado de comediante! Confessa que e perseguiu. Por quê?

— Ora, vamos lá, conde. O senhor já caçou leões a tiro na África.

— Sim, e daí?

— Por que o fez?

— Por quê? Era o esporte em si… a excitação de uma caçada… o perigo!

— E, sem dúvida, para livrar a região de uma peste, não?

— Exatamente!

— Pois aí estão, em duas palavras, as minhas razões.

O conde pôs-se de pé, como se acionado por uma mola, e involuntariamente sua mão escorregou até o bolso traseiro.

— Sente-se, cavalheiro, sente-se! Havia uma outra razão, mais prática. Quero aquele diamante amarelo!

O conde Sylvius tornou a sentar-se na cadeira, com um sorriso malicioso.

— Palavra de honra! — disse ele.

— O senhor sabia que era por isso que eu andava no seu encalço. O verdadeiro motivo de sua vinda aqui esta noite é descobrir até onde chega o meu conhecimento do assunto e até que ponto é absolutamente essencial a minha eliminação. Pois bem, eu diria que, do seu ponto de vista, ela é absolutamente essencial, porque eu sei tudo, menos uma coisa, que o senhor me vai dizer ainda esta noite.

— Oh, deveras? Diga-me, por favor, qual é esse pormenor?

— Onde está agora o diamante da coroa?

O conde olhou atentamente para o seu interlocutor.

— Oh, então o senhor quer realmente saber? Como diabos estaria eu em condições de lhe dizer?

— O senhor está em condições de me informar e vai fazê-lo.

— Realmente!

— O senhor não me ilude, conde. — Os olhos de Holmes, cravados em Sylvius, contraíram-se e iluminaram-se até se transformarem em dois ameaçadores pontos de aço. — O senhor, diante de mim, é como um espelho. Vejo até mesmo o avesso da sua alma.

— Então também vê onde está o diamante!

Holmes bateu palmas, divertindo-se, e apontou um dedo escarninho.

— Então o senhor sabe. Acaba de reconhecer!

— Não reconheço coisa nenhuma.

— Agora, conde, se quer ser razoável, poderemos negociar. Do contrário, o vencido não serei eu.

O conde Sylvius ergueu os olhos para o teto.

— E o cavalheiro ainda fala em iludir! — disse.

Holmes olhou para ele, pensativo, como um exímio jogador de xadrez que planeja o lance final. Nisso, abriu a gaveta da mesa e tirou um livrinho de apontamentos.

— Sabe o que guardo neste livro?

— Não, senhor, não sei!

— Guardo o senhor!

— A mim!?

— Sim, o senhor! O senhor está todo aqui… cada ato da sua existência vil e perigosa.

— Para o diabo, Holmes! — gritou o conde, com os olhos chamejantes. — Minha paciência tem limites!

— Está tudo aqui, conde. Os fatos relativos à morte da velha Sra. Harold, que lhe legou sua propriedade de Blymer, que o senhor tão rapidamente consumiu no jogo.

— O senhor está sonhando!

— E a biografia completa da srta. Minnie Warrender.

— Essa é boa! Que ganha o senhor com isso?

— E muito mais ainda, conde. Está aqui o assalto levado a efeito no trem de luxo que ia para a Riviera no dia 13 de fevereiro de 1892. Está aqui o cheque falsificado no mesmo ano contra o Crédit Lyonnais.

— Não; nisso você não tem razão!

— Então quer dizer que tenho razão nos demais casos! Ora, conde, o senhor é um jogador de cartas. Quando o outro jogador tem todos os trunfos, se o senhor desistir do jogo, poupa-se tempo.

— Que tem a ver toda essa conversa com o diamante de que falou?

— Devagar, conde, tenha um pouco de calma. Deixe-me chegar ao ponto que quero, mas deixe-me agir à minha maneira vagarosa. Tenho tudo isto contra o senhor, mas, acima de tudo, tenho uma acusação séria contra o senhor e seu espadaúdo cúmplice no caso do diamante da coroa.

— Tem, realmente?

— Sei qual foi o cocheiro que o levou a Whitehall e o que de lá o levou para longe. Sei do mensageiro que o viu perto do estojo. Sei de Ikey Sanders, que se recusou a cortá-lo a seu pedido. Ikey abriu o bico, e tudo se acabou.

As veias da fronte do conde pareciam querer saltar. Suas mãos escuras e cabeludas crispavam-se convulsivamente com a emoção contida. Tentou falar, mas não conseguiu articular as palavras.

— Está vendo meu jogo, conde? — disse Holmes. — Ponho-o todo em cima da mesa. Falta-me, porém, um naipe. O de ouros. Não sei onde está a pedra.

— E nunca saberá.

— Não? Ora, seja razoável, conde. Reflita na situação. O senhor vai pegar vinte anos de cadeia. O senhor e Sam Merton. Que partido tirará do seu diamante? Absolutamente nenhum. Mas, se o entregar, poderemos entrar num acordo, ainda que pouco limpo. Não é ao senhor nem a Sam que queremos. Queremos a pedra. Entregue-a e, por mim, pode sair em liberdade, contanto que se porte bem no futuro. Se der mais uma escorregadela, será a última. Mas desta vez minha tarefa é apanhar a pedra e não o senhor.

— E se eu recusar?

— Se recusar, ai! Tem de ser o senhor e não a pedra.

Billy aparecera, atendendo a um toque de campainha.

— Penso, conde, que seria conveniente que seu amigo Sam tomasse parte nesta conferência. Afinal de contas, os interesses dele também devem ser representados. Billy, você vai ver lá fora, à porta, um sujeito feio e enorme. Convide-o a subir.

— E se ele não quiser vir, sr. Holmes?

— Nada de violências, Billy. Não o trate com grosseria. Se lhe disser que o conde Sylvius quer lhe falar, ele certamente virá.

— Que vai fazer agora? — perguntou o conde, depois que Billy se ausentou.

— Meu amigo Watson estava aqui ainda há pouco. Eu lhe disse que tinha na minha rede um tubarão e um cadoz; agora estou puxando a rede, e ambos vão subindo juntos. O conde pusera-se de pé e tinha as mãos atrás das costas. Holmes segurava qualquer coisa que fazia volume no bolso do seu roupão.

— Holmes, você não há de morrer na cama.

— Já tive mais de uma vez a mesma idéia. Será que isso tem grande importância? Afinal, conde, a sua própria saída deste mundo é mais provável que seja perpendicular do que horizontal. Mas essas previsões do futuro são macabras. Por que não aproveitar estritamente a hora presente?

Um súbito clarão de ódio feroz fulgiu nos negros olhos ameaçadores do mestre do crime. O vulto de Holmes pareceu crescer, enquanto ele se empertigava e se preparava para o que desse e viesse.

— Não adianta apalpar o revólver, meu amigo — disse, com voz tranqüila. — O senhor sabe perfeitamente que não tem coragem de utilizá-lo, mesmo que eu lhe desse tempo de pegá-lo. Os revólveres, conde, são coisas desagradáveis e barulhentas. Fique antes com as espingardas de ar comprimido. Ah! Creio que ouço os passos delicados do seu estimável parceiro. Como vai, sr. Merton? Um tanto monótona a rua, não acha?

O lutador, um homem novo, de constituição sólida e cara larga, que denotava estupidez e obstinação, parou desajeitadamente à porta, olhando em redor com ar apalermado. O tom simples de Holmes era uma experiência nova, e embora Sam sentisse vagamente que se achava diante de um inimigo, não sabia como encará-lo. Voltou-se, pois, para o seu camarada, que era mais astuto, em busca de auxílio.

— Que temos agora, conde? Que quer esse sujeito? O que é que há? — A sua voz era grave e rouca.

O conde encolheu os ombros, e foi Holmes quem deu a resposta.

— Se me permite responder à sua pergunta, sr. Merton, digo-lhe que agora não há nada: já houve.

O pugilista continuou a dirigir a atenção para o seu sócio.

— Esse sujeito quer se fazer de engraçado ou o quê? Se quer, eu não estou achando graça nenhuma.

— Acredito — disse Holmes. — E posso lhe prometer que, com o avançar da noite, o senhor ainda achará menos graça nas coisas. Escute, conde Sylvius. Sou um homem ocupado, e não posso perder tempo. Vou para aquele quarto. Na minha ausência, queiram pôr-se à vontade. O senhor pode explicar ao seu amigo, sem o constrangimento da minha presença, em que pé está o negócio. Entretanto, vou ensaiar no meu violino a Barcarola de Hoffmann. Voltarei dentro de cinco minutos para saber a sua resposta definitiva. Creio que o senhor percebeu bem a alternativa, não é verdade? Ou o senhor nos devolve a pedra ou o levamos preso.

Holmes retirou-se, pegando no canto, ao passar, o seu violino. Passados alguns momentos, as notas plangentes da inesquecível melodia atravessavam brandamente as frestas da porta fechada do quarto.

— O que é isso? — perguntou Merton ansiosamente, ao voltar-se para o companheiro. — Ele sabe do caso da pedra?

— Sabe muito mais do que devia saber. E ninguém me assegura que ele já não saiba tudo.

— Céus! — exclamou o pugilista, cujo rosto moreno se tornou um pouco pálido.

— Ikey Sanders deu com a língua nos dentes.

— Deveras? Ele há de me pagar. Nem que tenha de ir para a forca.

— Isso de pouco nos valerá. O que importa é tomarmos uma decisão.

— Um momento — disse o pugilista, olhando com desconfiança para a porta do quarto. — Esse sujeito é fino como um coral. Quem sabe se ele não estará ouvindo?

— Como pode ele ouvir com o barulho da música?

— É verdade. Mas não é impossível que haja alguém atrás de uma cortina. Há cortinas demais nesta sala. — Ao relancear os olhos pelo quarto, viu pela primeira vez a efígie na janela. Parou, de olhos fitos nela, e apontou-a com o dedo, tão embasbacado que não pôde dizer palavra.

— Ora! Aquilo é apenas um boneco — disse o conde.

— Para nos iludir, não é? Sim, senhor. É de se tirar o chapéu! Nem que tivesse saído do museu de cera de Madame Tussaud. É o homem escrito e escarrado, de roupão e tudo. Mas essas cortinas, conde!

— Oh, deixe as cortinas para lá! Estamos desperdiçando tempo, e olhe que é pouco. Ele pode nos mandar para a cadeia por causa daquela pedra.

— Que vá ele para lá!

— Mas deixa-nos escapar se lhe dissermos onde ela está.

— O quê? Entregar a pedra? Perder cem mil libras?

— Ou uma coisa ou outra.

Merton coçou a cabeça de cabelo à escovinha.

— Ele está sozinho ali. Podemos liquidá-lo. Os mortos não falam.

O conde abanou a cabeça.

— O homem está armado e prevenido. Se atirássemos contra ele, dificilmente conseguiríamos fugir de um lugar como este. Além disso, é muito provável que a polícia esteja inteirada das provas que ele tem contra nós. Olhe só! O que é isso?

Ouviu-se um som vago, que parecia vir da janela. Ambos deram um salto, mas tudo estava em sossego. A sala certamente estava deserta. Havia apenas aquela estranha figura sentada na cadeira.

— Foi alguma coisa na rua — disse Merton. — Escute, chefe, o senhor, que tem boa cabeça, com certeza há de achar uma saída. Se não houver violência, então a coisa já não é comigo.

— Já enganei pessoas mais espertas do que ele — respondeu o conde. — A pedra está aqui no meu bolso secreto. Não quero correr o risco de perdê-la, deixando-a em qualquer lugar. Ela pode estar fora da Inglaterra esta noite e ser cortada em quatro pedaços em Amsterdam antes de domingo. Ele não sabe nada a respeito de Van Seddar.

— Pensei que Van Seddar fosse embora a semana que vem.

— Devia ir. Mas agora tem de partir no primeiro vapor. Um de nós tem de ir imediatamente com a pedra à Lime Street, para pô-lo ao corrente.

— Mas o falso esconderijo ainda não está pronto.

— Bem, a coisa tem de ser feita de qualquer maneira, e com qualquer risco. Não há um momento a perder.

Novamente, com o senso do perigo que no esportista se converte em instinto, este fez uma pausa e olhou para a janela. Não havia dúvida: fora da rua que viera aquele débil som.

— Quanto a Holmes — continuou o conde —, podemos enganá-lo facilmente. Como sabe, o idiota não nos prenderá se puder obter a pedra. Pois bem, vamos prometer-lhe a pedra. Podemos pô-lo na pista falsa, e, até que ele descubra que está enganado, a pedra estará na Holanda e nós, fora do país.

— Agora a coisa está cheirando bem! — disse Sam Merton, sorridente.

— Vá dizer ao holandês que se mexa. Eu me encarrego deste pateta e lhe faço uma confissão falsa. Vou lhe dizer que a pedra está em Liverpool. Esta maldita música me dá nos nervos! Quando ele verificar que a pedra não está em Liverpool, ela já estará no seu lugar e nós, sulcando os mares. Você vai e volta o mais depressa possível. Aqui está a pedra.

— Admira-me como tem coragem de trazê-la com o senhor.

— Onde ela poderia estar mais segura? Se fomos capazes de tirá-la de Whitehall, qualquer pessoa podia tirá-la dos meus aposentos.

— Deixe-me vê-la.

O conde Sylvius lançou um olhar não muito lisonjeiro ao seu sócio e não fez caso da mão pouco limpa que ele lhe estendia.

— O quê! Será que o senhor pensa que eu vou roubá-la? Olhe aqui, senhor, já estou ficando cansado dos seus modos!

— Ora, ora, nada de melindres, Sam! Não podemos discutir. Venha até a janela, se quiser apreciar devidamente esta beleza. Agora segure-a contra a luz! Aqui!

— Obrigado!

Com um único salto, Holmes pulara da cadeira do manequim e agarrara a preciosa jóia. Agora segurava-a numa das mãos, enquanto a outra apontava um revólver para a cabeça do conde. Os dois ladrões, completamente atônitos, recuaram cambaleando. Antes que se refizessem do susto, Holmes apertara o botão da campainha elétrica.

— Nada de violências, cavalheiros, nada de violências, é o que lhes peço! Poupem a mobília. Devem ter percebido que a posição de vocês é insustentável. A polícia está lá embaixo, esperando.

A perplexidade do conde foi mais forte que a raiva e o medo que ele sentia.

— Mas como diabos… ? — disse ele, e engasgou-se.

— Sua surpresa é muito natural. O senhor não podia saber que há uma segunda porta no meu quarto que dá atrás daquela cortina. Imaginei que tivessem me ouvido quando desloquei o boneco, mas a sorte estava do meu lado. Isso me deu ensejo de escutar sua substancial conversa, que teria lamentavelmente sido secreta se vocês tivessem notado a minha presença.

O conde fez um gesto de resignação.

— Damos a mão à palmatória, Holmes, Creio que você é o diabo em pessoa.

— Pelo menos, pareço-me com ele, hem? — respondeu Holmes, com um sorriso delicado.

A inteligência retardada de Sam Merton somente aos poucos foi compreendendo a situação. Apenas quando o som de passos pesados fez-se ouvir na escada exterior é que ele resolveu quebrar o silêncio.

— Um tira e tanto! — exclamou ele. — Mas o que me diz daquela viola do inferno? Se eu ainda a ouço agora.

— Sim, senhor! — tornou Holmes. — Tem toda a razão. Deixe-a tocar! Estes gramofones modernos não são uma invenção admirável!?

Houve uma irrupção da polícia, as algemas deram o clássico estalido, e os criminosos foram conduzidos ao carro que os aguardava. Watson deixou-se ficar muito tempo com Holmes, congratulando-se com ele por mais aquele louro acrescentado à sua coroa de vitórias. A conversa dos dois foi outra vez interrompida pelo imperturbável Billy com a sua bandeja de cartões de visita.

— Lorde Cantlemere, sr. Holmes.

— Faça-o subir, Billy, É esse o eminente par do reino, representante dos mais altos interesses — disse Holmes. — É uma pessoa excelente e leal, mas pertence mais à velha guarda. Convirá fazê-lo perder a calma? Poderemos arriscar-nos a tomar certas liberdades com ele? Temos razões para supor que ele nada sabe do que se passou.

A porta foi aberta para dar passagem a uma figura austera e magra, de traços angulosos, de suíças pendentes, daquelas que alguns homens usavam lá pêlos meados da época vitoriana, de um negrume luzidio, características que mal se adaptavam aos seus ombros arredondados e ao andar incerto. Holmes adiantou-se com afabilidade e apertou a mão pouco amigável do fidalgo.

— Como está, Lorde Cantlemere? Faz frio para esta época do ano, mas aqui dentro está bastante quente. Quer que eu lhe guarde o capote?

— Não, obrigado. Não vou tirá-lo.

Holmes conservava insistentemente a mão sobre a manga do capote do cavalheiro.

— Por favor! Meu amigo, o dr. Watson, pode lhe garantir que essas mudanças de temperatura são bastante traiçoeiras.

Mas Sua Excelência, um tanto impaciente, libertou-se do importuno.

— Cavalheiro, estou bem. A demora é pouca. Passei apenas para saber em que ponto vai a incumbência que o senhor próprio se impôs.

— É difícil, muito difícil.

— Eu já receava que o senhor fosse achá-la muito difícil.

Sentia-se distintamente, nas palavras e nos modos do velho cortesão, uma ponta de escárnio.

— Qualquer homem compreende as suas deficiências, sr. Holmes, mas pelo menos isso nos cura das fraquezas do amor-próprio.

— É verdade. Tem-me deixado perplexo.

— Sem dúvida.

— Especialmente a respeito de um ponto. Quem sabe se o senhor pode me ajudar?

— Recorre aos meus conselhos já um tanto tarde. Pensei que tivesse seus métodos infalíveis. Em todo caso, estou pronto a ajudá-lo.

— Não há dúvidas quanto à possibilidade de intentarmos um processo contra os verdadeiros ladrões, não é verdade?

— Sim, depois que o senhor os tiver agarrado.

— Exatamente. Mas a questão é esta: como proceder em relação ao receptador?

— Isso não é um tanto prematuro?

— Faz parte do plano de ação. Agora, o que o senhor consideraria como prova cabal contra o receptador?

— A posse real e efetiva da pedra.

— Em tal hipótese o senhor o prenderia?

— Sem dúvida alguma.

Holmes raramente ria, mas chegou quase a fazê-lo, como o seu velho amigo Watson bem se recorda.

— Nesse caso, meu caro senhor, sinto-me na dura contingência de lhe dar voz de prisão.

Lorde Cantlemere ficou vivamente irritado. Um vislumbre da antiga chama afluiu às suas faces descoradas.

— É muita liberdade sua, sr. Holmes. Em cinqüenta anos de vida pública, não me recordo de nenhum caso semelhante. Sou um homem atarefado, cavalheiro, com a mente voltada para negócios de importância, e não tenho tempo nem gosto para brincadeiras. Posso dizer-lhe com franqueza que nunca acreditei nos seus poderes, e que fui sempre de opinião que o negócio estaria mais seguro nas mãos da força policial regular. Seu procedimento vem confirmar todas as minhas conclusões. Passe muito bem, cavalheiro.

Holmes trocara rapidamente de lugar e achava-se agora entre o par do reino e a porta.

— Um momento, cavalheiro — disse ele. — Realmente, retirar-se com a Pedra Mazarino seria um delito mais grave do que ser encontrado na sua posse temporária.

— Cavalheiro, isto é intolerável! Deixe-me passar.

— Meta a mão no bolso direito do capote.

— Que significa isso, sr. Holmes?

— Vamos, vamos; faça o que eu digo.

No instante seguinte, o estupefato dignitário estava ali, gaguejando e piscando, tendo na palma da mão trêmula a grande pedra amarela.

— O quê? Como! Que é isto, sr. Holmes?

— Muito mal, Lorde Cantlemere, péssimo! — exclamou Holmes. — O meu velho amigo lhe dirá que tenho um hábito inveterado de pregar peças. E também que não posso resistir a uma situação dramática. Tomei a liberdade… a grande liberdade, reconheço-o, de pôr a pedra no seu bolso no começo da nossa entrevista.

O velho par do reino volvia os olhos da pedra para o rosto risonho do brincalhão.

— Cavalheiro, estou pasmo. Mas… sim, não há sombra de dúvida, é de fato a Pedra Mazarino. Ficamos muito agradecidos, sr. Holmes. Seu senso de humor pode, como o senhor reconhece, ser um pouco exagerado, e sua demonstração, bastante inoportuna, mas pelo menos devo retirar, como retiro, qualquer referência que fiz às suas maravilhosas faculdades profissionais. Mas como…

— O caso está apenas meio concluído; os pormenores podem aguardar um pouco. Sem dúvida, Lorde Cantlemere, o prazer que o senhor terá em falar a respeito deste feliz resultado no círculo brilhante ao qual regressará há de atenuar até certo ponto o seu desagrado pela minha brincadeira. Billy, queira acompanhar Sua Excelência até a porta, e depois diga à sra. Hudson que eu gostaria que ela mandasse aqui para cima, o mais depressa possível, um jantar para dois.

1927
Histórias de Sherlock Holmes

1. A pedra Mazarino § 2. A ponte de Thor
3. O homem que andava de rastos § 4. O vampiro de Sussex
5. Os três Garridebs § 6. O cliente ilustre
7. As três empenas § 8. O rosto lívido
9. A juba do leão § 10. Josiah Amberley
11. A inquilina do rosto coberto § 12. O velho solar de Shoscombe

Ilustrações: Alfred Gilbert, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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