O rosto lívido

Arthur Conan Doyle

O rosto lívido

Título original: The Blanched Soldier
Publicado pela primeira vez na Liberty,
Outubro de 1926, com 5 ilustrações de Frederic Dorr Steele
e na Strand Magazine, em Novembro de 1926,
com 5 ilustrações de Howard K. Elcock.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Blanched Soldier publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VII,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Embora limitadas, as idéias do meu amigo Watson valem pela sua pertinácia pouco vulgar. Há muito tempo que ele insiste comigo para que eu escreva a respeito de uma aventura exclusivamente minha. Talvez eu próprio haja provocado sua insistência, visto que freqüentemente tenho tido ocasião de lhe fazer ver como suas narrativas são superficiais, e de acusá-lo de condescender com o gosto do público em vez de se restringir rigorosamente aos fatos e às personagens. “Tente-o, você mesmo, Holmes!”, retorquiu-me ele, e agora, de caneta na mão, começo a compreender que a coisa tem de ser apresentada de modo que interesse o leitor. A história seguinte não deixa de ser sugestiva, e figura entre os casos mais estranhos de minha coleção, embora Watson não a tenha registrado em suas notas. Por falar no meu velho amigo e biógrafo, aproveito a oportunidade para observar que, se em minhas pequenas averiguações me faço acompanhar de Watson, não procedo assim por qualquer sentimento ou por capricho, mas porque ele possui certas características notáveis, a que, por modéstia, dá pouca atenção em seus exagerados relatos de minhas façanhas. Um aliado que prevê nossas conclusões e o curso de nossas ações é sempre perigoso, mas aquele para quem cada fase surge como uma perpétua surpresa, e para quem o futuro é sempre um livro fechado, é na realidade um auxiliar ideal.

Leio em meu caderno de apontamentos que, em janeiro de 1903, logo depois do final da Guerra dos Bôeres, recebi a visita do sr. James M. Dodd, um inglês enorme, airoso, queimado de sol e muito empertigado. Naquela ocasião, o bom Watson tinha me abandonado por uma esposa, sua única ação egoísta de que me recordo durante o tempo de nossa sociedade. Eu estava só.

Costumo sentar-me com as costas para a janela e colocar meus visitantes na cadeira em frente, onde a luz bate em cheio sobre eles. O sr. James M. Dodd parecia um tanto embaraçado no início da entrevista. Não fiz qualquer tentativa para ajudá-lo porque seu silêncio me proporcionou mais tempo para observá-lo. Acho de boa tática impressionar meus clientes com um ar de poder, e por isso lhe transmiti algumas de minhas conclusões.

— O senhor vem, segundo percebo, da África do Sul.

— Sim, senhor — respondeu ele, algo surpreso.

— Da Guarda Imperial, creio eu.

— Exato.

— Do Corpo de Middlesex, sem dúvida.

— Isso mesmo, sr. Holmes, o senhor é um adivinho.

Sorri, vendo o ar de espanto do meu visitante.

— Quando um cavalheiro de aparência varonil entra nos meus aposentos com a tez tostada por um sol que não é da Inglaterra e com o lenço metido na manga, em vez de no bolso, não é difícil conjeturar sua procedência. O senhor usa barba curta, e isso prova que não foi um soldado regular. Tem o porte de um cavalheiro. Quanto a Middlesex, seu cartão já me prevenira de que é corretor na Throgmorton Street. Em que espécie de outro regimento poderia o senhor ter estado?

— O senhor percebe tudo.

— Não percebo mais do que o senhor. O que fiz foi treinar-me em reparar no que vejo. Todavia, sr. Dodd, não foi para discutir a ciência da observação que o senhor veio me visitar hoje. O que está acontecendo em Tuxbury Old Park?

— Sr. Holmes…!

— Meu caro senhor, não há mistério. Esse nome veio no cabeçalho de sua carta, e como o senhor marcou a presente entrevista em termos muito insistentes, é claro que ocorrera repentinamente alguma coisa importante.

— Sim, é verdade. Mas a carta foi escrita depois do meio-dia, e muita coisa aconteceu dali para cá. Se o coronel Emsworth não tivesse me enxotado a pontapés…

— Será possível>

— Bem, vem a dar quase no mesmo. Esse coronel Emsworth é duro de roer. No seu tempo, não havia no exército um militar mais inflexível. Discutimos bastante naquele dia, e, se eu o aturei, foi por consideração para com Godfrey.

Acendi o cachimbo e recostei-me na cadeira.

— Espero que se explique.

Meu cliente riu com malícia.

— Já estava me habituando à idéia de que o senhor sabe tudo sem que lhe digam — respondeu. — Mas vou lhe expor os fatos, e espero em Deus que o senhor consiga me dizer o que eles significam. Passei a noite em claro, dando tratos à bola, e quanto mais penso, mais incrível me parece a coisa.

“Quando me alistei, em janeiro de 1901, há justamente dois anos, o jovem Godfrey Emsworth se alistara no mesmo esquadrão. Era o filho único do coronel Emsworth. Este último foi condecorado durante a Guerra da Criméia. Godfrey tem nas veias sangue de combatente, não sendo pois de admirar que se apresentasse como voluntário. Não havia no regimento rapaz mais bonito. Tornamo-nos amigos… aquela espécie de amizade que só pode existir quando se vive a mesma vida e se partilham as mesmas alegrias e as mesmas tristezas. Ele era meu camarada, o que no exército significa alguma coisa. Durante todo um ano de luta árdua, experimentamos juntos as mesmas asperezas e os mesmos gostos. Depois, ele foi ferido durante o combate travado no morro do Diamante, nas cercanias de Pretória. Recebi uma carta procedente do hospital da Cidade do Cabo e outra de Southampton. Daí para cá, nem mais uma palavra, sr.Holmes, já faz seis meses, e isso sendo ele o meu melhor amigo.

“Terminada a guerra, e depois de todos termos voltado, escrevi ao pai dele indagando do seu paradeiro. Não recebi resposta. Esperei algum tempo e tornei a escrever. Dessa vez, obtive uma resposta lacônica e ríspida. Segundo ela, Godfrey tinha empreendido uma viagem de volta ao mundo, sendo pouco provável que regressasse antes de decorrido um ano. E foi tudo.

“Não fiquei satisfeito, sr. Holmes. Aquilo me pareceu pouco natural. Tratava-se de um bom rapaz, e não era possível que cortasse assim as relações com um amigo. Isso não era de seu feitio. Vim ainda a saber que ele herdara um dinheirão, e também que ele e o pai não se entendiam muito bem. O velho às vezes se mostrava violento, e o jovem Godfrey era demasiado brioso para suportá-lo. Não, não fiquei satisfeito, e resolvi tirar a coisa a limpo. Sucedeu, entretanto, que eu precisava regularizar meus negócios, que andavam um tanto embrulhados após dois anos de ausência; por isso, só esta semana é que consegui me ocupar novamente do caso de Godfrey. Mas, uma vez que me encarreguei desse caso, é minha intenção abandonar tudo o mais até vê-lo esclarecido.

O sr. James M. Dodd parecia ser daquelas pessoas que é melhor ter como amigas do que como inimigas. Seus olhos azuis eram severos, e, enquanto falava, cerrava com força a mandíbula quadrada.

— E então o que o senhor fez?

— A primeira providência que tomei foi dirigir-me à casa dele, em Tuxbury Old Park, perto de Bedford, e ver com meus próprios olhos o que teria acontecido. Escrevi então à sua mãe (do egoísta do pai eu não queria mais saber), e entrei diretamente no assunto. Disse-lhe que Godfrey era meu amigo, que eu me interessava muito por ele porque tínhamos tido aventuras comuns de que lhe poderia falar. Perguntei-lhe se, dado que estava perto do lugar, não haveria inconveniente, etc. Ela me respondeu com grande amabilidade e ofereceu-me hospedagem naquela noite. Foi isso o que me levou lá na segunda-feira.

“Tuxbury Old Park é inacessível, e fica a oito quilômetros de qualquer outro lugar. Como na estação não havia carro algum, tive de ir a pé, carregando minha mala, e já estava quase escuro quando cheguei. A casa, enorme, de construção irregular, fica no meio de um parque imenso. Dir-se-ia pertencer a todas as épocas e estilos, desde o madeiramento elizabetano até o pórtico vitoriano. O interior era formado de painéis e tapeçarias, e de quadros antigos meio descorados; uma mansão de sombras e mistério. O mordomo, o velho Ralph, parecia ter a mesma idade da casa, e sua mulher parecia ser ainda mais velha. Ela fora ama de Godfrey, e este se referia a ela com o maior carinho, colocando-a afetivamente logo abaixo de sua mãe. Foi o que me fez gostar dela, apesar de seu ar antipático. Gostei também da mãe, uma mulher delicada, pequena e muito branca. Só o coronel é que não pude tragar.

“Tivemos uma escaramuça logo de início, e só não voltei imediatamente para a estação por ter desconfiado de que isso fazia parte do jogo dele. Fui diretamente introduzido em seu escritório, onde deparei com um homem alto, meio curvo, de pele crestada e barba grisalha e rala, sentado atrás de uma escrivaninha em desordem. Um nariz de veias vermelhas sobressaía como o bico de um abutre, e dois olhos cinzentos e ferozes fitavam-me sob espessas sobrancelhas. Naquele instante, compreendi por que razão Godfrey quase não falava no pai.

“— Então, cavalheiro — disse ele com voz rouca — Gostaria de saber os verdadeiros motivos desta visita.

“Respondi que já os tinha declarado em minha carta a sua esposa.

“— Sim, sim; o senhor disse que conheceu Godfrey na África. Como pode prová-lo?

“— Tenho cartas dele.

“— Deixe-me vê-las, por favor.

“Relanceou os olhos pelas duas cartas que lhe entreguei, e logo restituiu-as a mim, com certa dureza.

“— Bem. O que pretende? — indagou.

“— Eu gostava muito de seu filho Godfrey. Estávamos unidos por muitos laços e recordações. Não é natural que eu estranhe seu repentino silêncio e deseje saber que fim levou?

“— Tenho uma vaga lembrança de que já troquei correspondência com o senhor e lhe disse o que foi feito de Godfrey. Está fazendo uma viagem de volta ao mundo. Sua saúde ficou combalida depois daquelas aventuras na África, e tanto eu como sua mãe fomos de opinião que um repouso completo e uma mudança de ares eram necessários. Faça o favor de transmitir essa explicação a quaisquer outros amigos que se interessem por Godfrey.

“— Sem dúvida — respondi. — Mas talvez o senhor me faça a fineza de dizer qual o vapor que ele tomou e em que data foi isso. Tenho a certeza de que poderei então fazer-lhe chegar às mãos uma carta minha.

“Tive a impressão de que meu pedido causou certo embaraço e irritação no dono da casa. Suas grossas sobrancelhas baixaram sobre os olhos, e ele tamborilou impacientemente com os dedos na mesa. Ergueu por fim os olhos com ar de quem viu o adversário fazer um lance perigoso no tabuleiro de xadrez, e decidiu neutralizá-lo.

“— Qualquer pessoa, sr. Dodd — disse —, se ofenderia com sua infernal obstinação e pensaria que sua insistência atingiu as raias da impertinência.

“— O senhor deve atribuí-la à grande amizade que dedico ao seu filho.

“— É exato. Tendo isso em vista, já dei o devido desconto. Devo, entretanto, pedir-lhe que desista dessas investigações. Todas as famílias têm seus casos íntimos e seus motivos particulares, que não devem ser revelados a estranhos, ainda que bem-intencionados. Minha mulher está ansiosa por ouvir alguma coisa do passado de Godfrey, e sobre isso o senhor está em condições de falar, mas rogo-lhe que deixe de lado o presente e o futuro. São indagações ociosas, que nos colocam numa posição delicada e difícil.

“Perante isso tive de me calar, sr. Holmes. Não havia outra solução. Pude apenas fingir que aceitava a situação e intimamente jurei não descansar enquanto não descobrisse o que acontecera com meu amigo. Foi uma noite triste. Jantamos tranqüilamente os três, numa vetusta sala lúgubre e desbotada. A senhora, muito interessada, fez-me várias perguntas sobre o filho, mas o velho parecia mal-humorado e deprimido. O ambiente tornou-se tão pesado para mim, que, apresentando uma desculpa assim que pude fazê-lo decentemente, retirei-me para o meu quarto. Era um aposento muito grande e simples, no andar térreo, tão sombrio como o resto da casa, mas, depois de se passar um ano no veldt, sr. Holmes, uma pessoa já não é muito exigente em relação a alojamentos. Abri as cortinas e fiquei contemplando o jardim, verificando que estava uma bela noite de lua em quarto crescente. Em seguida, sentei-me junto à lareira crepitante com o lampião colocado sobre uma mesa ao meu lado, e procurei distrair o espírito lendo um romance. Contudo, fui interrompido por Ralph, o velho mordomo, que veio renovar a provisão de carvão.

“— Calculei que seu combustível podia acabar durante a noite. O tempo está terrível, e estes quartos são frios.

“Hesitou um pouco antes de sair, e, ao voltar-me, dei com ele de pé, na minha frente, com uma expressão de curiosidade estampada no rosto cheio de rugas.

“— Desculpe, senhor, mas não pude deixar de ouvir o que disse do nosso jovem patrão Godfrey à hora do jantar. Como sabe, minha mulher foi ama-de-leite de Godfrey, pelo que me sinto quase seu segundo pai. É natural que nos interessemos por ele. Diz o senhor que ele sempre se portou bem, não é assim?

“— Não havia no regimento homem mais valente. Uma vez tirou-me de sob o tiroteio dos bôeres. Se não fosse ele, talvez eu não estivesse aqui.

“O velho mordomo esfregou as mãos descarnadas.

“— Sim, meu senhor, esse é o nosso patrão Godfrey sem tirar nem pôr. Foi sempre corajoso. Não há aqui no parque uma árvore que não tenha trepado. Não o detinha. Era um belo rapaz, um belo homem.

“Pus-me de pé de um salto.

“— Alto lá! — exclamei. — O senhor diz que ele era. Fala como se o rapaz tivesse morrido. Que mistério é esse? Que fim levou Godfrey Emsworth?

“Agarrei o velho pelo ombro, mas ele se esquivou.

“— Não sei o que o senhor quer dizer. Pergunte ao patrão. Ele sabe o que aconteceu ao nosso jovem. Não me compete intervir na questão.

“Ele ia sair, mas retive-o pelo braço.

“— Ouça — tornei eu. — Antes de se retirar, o senhor vai responder a uma pergunta, ainda que eu o mantenha aqui a noite toda. Godfrey morreu?

“O homem não ousou me encarar. Estava como que hipnotizado. A resposta foi-lhe arrancada dos lábios. Foi uma resposta terrível e inesperada.

“— Provera a Deus que tivesse morrido! — exclamou, e, livrando-se do meu pulso, saiu precipitadamente do quarto.

“O senhor deve calcular, sr. Holmes, em que estado de espírito regressei à minha cadeira. As palavras do velho admitiam apenas uma interpretação. Era evidente que meu pobre amigo se envolvera em alguma transação criminosa ou, pelo menos, equívoca, que atingia a honra da família. O velho pai severo tinha enviado o filho para longe, escondendo-o do mundo para que não ocorresse algum escândalo. Godfrey era bastante estouvado e se deixava influenciar facilmente pelos que o rodeavam. Metera-se sem dúvida com gente ruim, que o desencaminhara, arrastando-o para a ruína. Tratava-se de um caso lamentável, se era certa minha suposição, mas mesmo assim eu me sentia na obrigação de descobrir onde estava e ver se podia ajudá-lo. Achava-me completamente embrenhado nesses pensamentos quando, erguendo os olhos, vejo Godfrey Emsworth diante de mim.”

Meu cliente deteve-se, como alguém que se sente tomado de viva emoção.

— Queira continuar — disse eu. — Seu problema apresenta alguns aspectos inéditos.

— Ele estava do lado de fora da janela, sr. Holmes, com o rosto colado ao vidro. Eu lhe disse que estivera à janela, contemplando a noite. Ao voltar, deixei as cortinas meio abertas. Seu vulto ficou como que emoldurado nessa brecha. A janela ia até o chão, e pude vê-lo de corpo inteiro, mas foi seu rosto que me prendeu o olhar. Era de uma lividez cadavérica. Nunca vi uma pessoa tão pálida! Suponho que os fantasmas devem ter a mesma aparência; mas seus olhos cruzaram com os meus, e eram olhos de um homem vivo. Godfrey deu um salto para trás, quando viu que eu o olhava, e sumiu no escuro.

“Havia qualquer coisa de horroroso naquele homem, sr. Holmes. Não era apenas o rosto espectral, brilhando com a alvura de um queijo na escuridão. Era mais sutil do que isso… qualquer coisa de esquivo, de fugidio, de culposo… qualquer coisa muito diferente do rapaz franco e viril que eu conhecera. Aquilo deixou em meu espírito um sentimento de pavor. Porém, quando um homem guerreia durante um ano ou dois, tendo como parceiro o irmão bôer, sabe dominar os nervos e procede com presteza. Mal Godfrey desapareceu, e já eu estava junto da janela. O trinco estava emperrado, e levei algum tempo até poder abri-lo. Então, pulei para fora e corri pelo jardim, na direção que, conforme julguei, ele seguira.

“O caminho era comprido e a luz, escassa, mas pareceu-me ver qualquer coisa mover-se à minha frente. Corri mais e chamei-o pelo nome, mas em vão. Tendo chegado ao fim do caminho, vi que havia vários outros, que se ramificavam em diferentes sentidos, levando a várias dependências da casa. Parei, hesitante, e nisso ouvi distintamente a pancada de uma porta que se fechava. O som vinha da frente, de algum lugar no escuro. Isso foi o suficiente, sr. Holmes, para me garantir que o que eu tinha visto não era uma alucinação. Godfrey fugira de mim e fechara aquela porta. Disso eu estava certo.

“Nada mais havia que eu pudesse fazer, e passei uma noite inquieta, revolvendo no espírito aquele caso e tentando encontrar alguma teoria que explicasse os fatos. No dia seguinte achei o coronel um pouco mais conciliatório, e, como sua esposa me falasse na existência de alguns lugares interessantes nas vizinhanças, isso me deu ocasião para perguntar se minha presença ali mais uma noite os incomodaria. O velho aquiesceu com certa relutância, e eu dispus de um dia livre para fazer minhas pesquisas. Já então estava perfeitamente convencido de que Godfrey se escondia por ali, mas onde e por que motivo eram questões ainda por resolver.

“A casa era tão grande e de construção tão irregular que nela se poderia ocultar um regimento sem que ninguém o notasse. Mas a porta que eu tinha ouvido fechar certamente não fazia parte da casa. Eu precisava examinar bem o jardim, para ver se descobria alguma coisa. Não me seria difícil fazê-lo, porque os criados estavam entregues às suas próprias tarefas domésticas e deixavam-me ampla liberdade de ação.

“Havia várias pequenas dependências, mas na extremidade do jardim existia uma construção separada, suficientemente espaçosa para servir de moradia a um jardineiro ou caseiro. Seria aquele o lugar de onde partira o som da porta que se fechara? Aproximei-me do lugar, simulando indiferença, como se andasse espairecendo por aqueles arredores. Nisso, um homem de barba, baixo, muito vivo, de casaco preto e chapéu-coco, sem o menor aspecto, portanto, de jardineiro, abriu a porta e saiu. Antes, porém, para minha surpresa, fechou-a à chave e colocou-a no bolso. Depois olhou para mim um tanto admirado.

“— Está aqui de visita? — perguntou.

“Respondi afirmativamente, e acrescentei que era amigo de Godfrey.

“— Que pena ele estar viajando, pois gostaria muito de me ver! — continuei.

“— Isso mesmo. É verdade — confirmou o outro, com um ar de quem não está muito certo do que diz. — O senhor devia voltar numa ocasião mais propícia.

“Dito isso, o homem seguiu seu caminho, mas, ao voltar-me, percebi que me observava, meio escondido pêlos loureiros da extremidade do jardim.

“Olhei detidamente para a pequena casa ao passar por ela, mas havia pesadas cortinas diante das janelas, e, tanto quanto me era dado ver, estava vazia. Qualquer indiscrição minha poria tudo a perder, e eu podia até ser expulso dali, se me mostrasse muito atrevido, pois sabia que continuava a ser vigiado. Por isso, regressei para a casa principal e esperei anoitecer, a fim de prosseguir em minhas observações. Quando estava tudo em silêncio e imerso em trevas, resvalei para fora de minha janela e encaminhei-me silenciosamente para o misterioso pavilhão.

“Eu disse que havia pesadas cortinas diante das janelas, mas verifiquei naquele momento que elas também tinham venezianas. Contudo, por uma delas filtrava-se um pouco de claridade e para lá voltei toda a minha atenção. Tive sorte, porque a cortina não tinha sido bem fechada e havia uma fenda na veneziana, de modo que pude ver o interior do quarto. Era um lugar bastante alegre, com bom fogo e luz forte. Bem em frente a mim, estava sentado o homenzinho que eu vira de manhã. Fumava um cachimbo e lia um jornal…”

— Que jornal? — perguntei.

Pareceu-me que meu cliente se aborreceu um pouco com minha interrupção.

— Isso tem importância? — perguntou.

— É essencial.

— Para falar a verdade, nem reparei.

— Talvez o senhor tenha observado se se tratava de um jornal de grande formato ou de outro, de tamanho menor, como o que é usado nas publicações semanais.

— Agora me lembro, já que o senhor me chamou a atenção para esse pormenor, que não era de formato grande. Provavelmente, seria o Spectator. Todavia, não tive tempo de pensar nessas particularidades, porque um outro homem estava sentado de costas para a janela, e eu seria capaz de jurar que esse outro era Godfrey. Não pude ver seu rosto, mas reconheci a inclinação familiar de seus ombros. Estava apoiado sobre o cotovelo, em atitude de profunda melancolia, com o corpo virado para o fogo. Hesitava sobre o que deveria fazer, quando senti uma rude pancada no ombro, e quem é que estava ao meu lado? O coronel Emsworth!

“— Por aqui, cavalheiro! — disse, em voz baixa. Foi andando em silêncio para casa, e segui-o até entrar no meu quarto. Ao passar pela sala de entrada, ele pegara um horário de trens. — Há um trem para Londres às oito e meia da manhã — disse ele. — O carro estará à porta às oito. “O homem estava fulo de raiva, e, na verdade, eu me vi numa posição tão difícil que apenas pude balbuciar umas palavras incoerentes, procurando desculpar-me com a ansiedade de ter notícias de meu amigo.

“— O assunto não tem discussão — disse ele abruptamente. — O senhor se intrometeu culposamente na intimidade de nossa família. Entrou aqui como hóspede e sai como espião. Não tenho mais nada a acrescentar, a não ser que não desejo tornar a vê-lo.

“Ao ouvir isso, perdi a calma, sr. Holmes, e falei com certa veemência.

“— Eu vi seu filho, e estou convencido de que, por alguma razão particular, o senhor o esconde do mundo. Ignoro quais são os motivos de tal procedimento, mas tenho certeza de que ele já não é mais senhor de si. Previno-o, coronel Emsworth, de que, enquanto eu não estiver certo da segurança e do bem-estar de meu amigo, não pouparei esforços para deslindar o mistério, e não me intimidarei com o que o senhor possa dizer ou fazer.

“O velho mostrou-se irritadíssimo, e cheguei a crer que iria me agredir. Como já disse, ele é um gigante, e, apesar de magro, é feroz; e, embora eu não seja nenhum fracalhão, teria de reunir todas as minhas energias para enfrentá-lo. Entretanto, depois de me olhar com profundo ódio, girou nos calcanhares e saiu do quarto. De minha parte, tomei pela manhã o trem indicado, com a firme resolução de vir diretamente me encontrar com o senhor para pedir sua opinião e sua ajuda na entrevista que já lhe solicitara por escrito.”

Tal era o problema que meu visitante me propôs. Esse problema apresentava, como o leitor sagaz já terá percebido, poucas dificuldades de solução, pois são limitadas as alternativas para se chegar ao âmago da questão. Contudo, apesar de tão elementar, oferecia pontos de interesse e de novidade, capazes de justificar minha decisão de divulgá-lo por escrito. Então, usando meu método familiar de exame lógico das circunstâncias, tratei de delimitar as soluções possíveis.

— Com referência a criados — perguntei —, quantos existiam na casa?

— Segundo suponho, havia somente o velho mordomo e sua mulher. Pareciam viver na maior simplicidade.

— Então, no pavilhão não havia nenhum criado?

— Nenhum, a não ser que o homenzinho da barbicha tivesse tal categoria. Contudo, parecia homem de posição bastante superior.

— Isso me parece bastante sugestivo. Não percebeu se levavam comida de uma casa para a outra?

— Já que fala nisso, lembro-me de ter visto o velho Raph carregando um cesto, pelo caminho do jardim, em direção à tal casinha. No momento, não me ocorreu que aquilo pudesse ser comida.

— Não procurou se informar na vizinhança?

— Procurei. Falei com o chefe da estação e também com o estalajadeiro da aldeia. Perguntei-lhes simplesmente se tinham alguma notícia de meu velho camarada Godfrey Emsworth. Ambos me garantiram que ele empreendera uma viagem de volta ao mundo. Logo depois de regressar a casa, tornara a partir. Ficou patente que aquela versão era universalmente aceita.

— O senhor não disse nada a respeito de suas desconfianças?

— Nada.

— Isso foi bom. Esse assunto deve, sem dúvida alguma, ser posto em pratos limpos. Vou a Tuxbury Old Park com o senhor.

— Hoje mesmo?

Aconteceu que, naquela altura, eu estava ocupado em esclarecer o que, na descrição de meu amigo Watson, é denominado “O caso da Abbey School”, no qual o duque de Greyminster se encontrava bastante envolvido. Eu recebera também uma incumbência do sultão da Turquia que exigia solução imediata, porquanto, se fosse descuidada, podia ter conseqüências políticas de suma gravidade. Visto isso, somente no começo da semana seguinte, conforme o registra o meu diário, pude viajar para Bedfordshire em companhia do sr. James M. Dodd. Quando nossa carruagem passou por Euston, agregou-se ao nosso grupo um cavalheiro grave e taciturno, de terno cinzento, cor de ferro, com o qual eu antecipadamente entrara em contato.

— Este é um velho amigo — disse eu a Dodd. — É possível que sua presença seja inteiramente desnecessária, mas, por outro lado, pode se tornar imprescindível. Por ora, é a única informação que tenho a dar.

As narrativas de Watson habituaram sem dúvida o leitor ao fato de que não desperdiço palavras nem revelo minhas idéias enquanto um caso ainda está em andamento. Dodd pareceu surpreso, mas nada mais se disse, e continuamos os três nossa viagem. No trem, fiz mais umas perguntas a Dodd, que eu desejava que nosso companheiro ouvisse.

— O senhor diz que viu claramente na janela o rosto de seu amigo, tão claramente que não tem dúvidas quanto à sua identidade, não é assim?

— Nenhuma dúvida. Ele achatou o nariz contra o vidro. A claridade da lâmpada caía em cheio sobre Godfrey.

— Não podia ser alguém parecido com ele?

— Não, não; era ele e não outro.

— Mas se o senhor diz que seu amigo estava mudado!

— Apenas na cor. Seu rosto era… Como poderei descrevê-lo?… de uma brancura de barriga de peixe. Era um rosto lívido.

— A palidez era uniforme?

— Creio que não. Foi sua testa que vi claramente quando a colou à janela.

— O senhor não o chamou?

— No momento, fiquei muito assustado e horrorizado. Depois, persegui-o, como já disse, mas sem resultado.

Meu caso estava suficientemente esclarecido, só faltando um pequeno incidente para rematá-lo. Quando, após uma longa viagem de carro, chegamos ao estranho e vetusto casarão já descrito por meu cliente, foi Ralph, o idoso mordomo, que nos abriu a porta. A carruagem que nos trouxera tinha ficado à minha disposição naquele dia, e eu pedira ao meu amigo já mencionado que permanecesse nela, a menos que nós o convocássemos. Ralph, homem de certa idade e cheio de rugas, trajava a roupa convencional, isto é, casaco preto e calça preta e branca, mas com uma curiosa variante. Usava luvas cor de couro, e, assim que nos viu, descalçou-as instantaneamente, deixando-as em cima da mesa do vestíbulo, enquanto éramos introduzidos. Tenho, como meu amigo Watson já deve ter dito, sentidos anormalmente aguçados; meu olfato, nesse momento, acusava um cheiro débil mas incisivo. Parecia emanar da mesa do vestíbulo. Virei-me, coloquei lá meu chapéu, derrubei-o, abaixei-me para apanhá-lo e fiz o possível para aproximar o nariz uns vinte ou trinta centímetros das luvas. Sim, vinha delas, sem dúvida alguma, aquele estranho cheiro de alcatrão. Quando penetrei no escritório, meu caso já tinha o derradeiro remate. Quem dera eu não precisasse revelar meu jogo quando conto eu mesmo minha história! Ocultando cuidadosamente esses elos da cadeia é que Watson conseguia produzir aqueles seus efeitos finais tão maravilhosos.

O coronel Emsworth não estava na sala, mas, tendo recebido o recado de Ralph, veio imediatamente. Ouvimos-lhe o passo rápido e pesado no corredor. A porta foi aberta com ímpeto, e ele entrou, com a barba rija e as feições transtornadas. Não me recordo de ter visto um velho tão terrível. Trazia nas mãos nossos cartões de visita. Rasgou-os em pedacinhos e pisou-os.

— Eu já não lhe disse, grandessíssimo intrometido, que não tornasse a entrar em minha casa nem em suas dependências? Não ouse aparecer aqui outra vez. Se o senhor torna a entrar sem minha permissão, estou no meu direito de utilizar a violência. Cavalheiro, eu lhe dou um tiro! Por Deus que o faço! Quanto ao senhor — disse, dirigindo-se a mim —, torno-lhe extensiva minha advertência. Conheço sua ignóbil profissão, mas aconselho-o a dirigir para outro lado seu gabado talento. Aqui não há lugar para ele.

— Não sairei daqui — disse com firmeza o meu cliente — enquanto não ouvir da boca do próprio Godfrey que ele não se encontra sob coação.

O dono da casa tocou a campainha.

— Ralph — ordenou ele —, telefone para a polícia do condado e peça ao inspetor que mande dois guardas. Diga-lhe que há ladrões em casa.

— Um momento — disse eu. — O senhor deve compreender, sr. Dodd, que o coronel Emsworth está no seu direito e que nossa situação nesta casa não é legal. Por outro lado, ele devia reconhecer que seu gesto é inteiramente ditado pela solicitude do senhor em relação ao filho dele. Ouso esperar que, se me fossem concedidos cinco minutos para conversar com o coronel Emsworth, certamente conseguiria modificar seu ponto de vista sobre o assunto.

— Não é com essa facilidade que modifico meu ponto de vista — volveu o velho soldado. — Ralph, faça o que eu disse. Que diabo está esperando? Vamos, telefone para a polícia!

— Nada disso — disse eu, encostando as costas à porta. — Qualquer intervenção da polícia provocaria exatamente a catástrofe que o senhor tanto receia. — Peguei meu bloco e rabisquei uma palavra sobre uma folha solta. — Isto — continuei, entregando a folha ao coronel Emsworth — é o que nos trouxe aqui.

Ele cravou os olhos no que estava escrito no papel. Desvanecera-se de seu rosto qualquer outra expressão, exceto a de espanto.

— Como é que o senhor sabe? — disse ele, atônito, sentando-se pesadamente na cadeira.

— É meu ofício saber as coisas.

Ficou absorvido em profunda meditação, cofiando a barba rala com a mão descarnada. Depois, fez um gesto que denotava resignação.

— Bem, se desejam ver Godfrey, vão vê-lo. Não haverá interferência de minha parte. Os senhores me forçaram a isso. Ralph, vá dizer ao sr. Godfrey e ao sr. Kent que dentro de cinco minutos estaremos lá.

Decorrido esse tempo, fomos andando pelo caminho do jardim até nos determos em frente da casa misteriosa, que ficava na extremidade. Um homem barbado, de baixa estatura, estava de pé, junto à porta, com um ar de assombro estampado no semblante.

— Que reviravolta foi essa tão súbita, coronel Emsworth? — perguntou ele. — Isso atrapalhará todos os nossos planos.

— Não há outro remédio, sr. Kent. Fomos forçados a isso. O sr. Godfrey pode nos ver?

— Pode. Ele está esperando lá dentro. — Voltou-se, e conduziu-nos até um espaçoso aposento, na frente, mobiliado com simplicidade. Estava ali um homem, de pé, de costas para o fogo, e, ao vê-lo, meu cliente avançou apressadamente, estendendo-lhe a mão.

— Então, Godfrey, meu caro amigo, como vai?

O outro, porém, fez um gesto como que para detê-lo.

— Não me toque, Jimmie. Conserve-se à distância. Sim, fite-me bem! Já não pareço mais o elegante soldado Emsworth, do Esquadrão B, não é verdade?

Seu aspecto era de fato extraordinário. Podia-se ver que realmente fora um belo homem, de feições delicadas, queimado pelo sol da África, mas, nas áreas mais escuras, viam-se manchas esbranquiçadas, que davam à tez uma estranha alvura.

— É por isso que não quero receber visitas — disse ele. — Se fosse só você, Jimmie, ainda vá lá, mas podia ter dispensado a presença de seu amigo. Suponho que haja para isso alguma razão de peso, mas, como vê, estou em más condições.

— Queria me certificar de que você estava bem, Godfrey. Vi-o naquela noite em que você encostou o rosto à minha janela, e não podia descansar enquanto não esclarecesse tudo.

— O velho Raph me disse que você estava aqui, e não pude deixar de tentar vê-lo. Esperava que você não me visse, e tive de correr para minha toca quando ouvi a janela se abrir.

— Mas, pelo amor de Deus, diga-me o que significa tudo isto!

— A história não é muito longa — disse ele, acendendo um cigarro. — Recorda-se daquele combate matinal em Buffeisspruit, fora de Pretória, na linha da estrada de ferro do leste? Soube que fui ferido?

— Sim, soube, mas faltaram-me pormenores.

— Três de nós se perderam dos restantes. Era um terreno muito irregular, como você deve se lembrar. Os três eram: Simpson, o tal que chamávamos Baldy Simpson, Anderson e eu. Íamos passando incólumes por um bôer, mas ele se fingia de morto e agarrou-nos. Os outros dois foram mortos. Eu levei uma pancada no ombro. Colei-me no entanto, ao meu cavalo, e ele galopou vários quilômetros antes que eu desfalecesse e rolasse sela abaixo.

“Quando voltei a mim, a noite caía. Levantei-me, sentindo-me muito fraco e doente. Fiquei surpreso ao ver uma casa muito próxima, um casarão com uma grande varanda e com muitas janelas. Fazia um frio de rachar. Você deve se lembrar daquele frio entorpecedor que costumava fazer à tardinha, um frio terrível, abominável, muito diferente da geada áspera mas saudável. Eu estava enregelado até os ossos, e minha única esperança parecia estar naquela casa.

“Tentei ficar de pé, e fui me arrastando, quase sem consciência do que fazia. Tenho uma vaga lembrança de ter subido lentamente os degraus, transposto uma porta aberta de par em par, entrado num enorme salão com várias camas e de ter me atirado em cima de uma delas. A cama estava por fazer, mas isso não me perturbou. Puxei as cobertas sobre o corpo enregelado e logo adormeci profundamente.

“Quando acordei, era de manhã, e pareceu-me que, em vez de ter chegado a um mundo são e normal, tinha entrado num extraordinário pesadelo. O sol africano penetrava livremente pelas janelas amplas e sem cortinas, e cada pormenor do imenso dormitório, caiado de branco, e vazio, destacava-se com toda a clareza. De pé, diante de mim, estava um homem de baixa estatura, que parecia anão, com uma cabeça volumosa, falando nervosamente em holandês e meneando duas mãos horrendas, que me pareceram duas esponjas castanhas. Atrás dele estava um grupo de pessoas que pareciam muito divertidas com a situação, mas senti um arrepio de terror ao olhar para elas. Nenhuma daquelas criaturas era um ser humano normal. Todas eram tortas ou inchadas ou disformes de alguma maneira estranha, O riso daqueles mostrengos era uma coisa medonha de se ouvir.

“Parecia que nenhum deles sabia falar inglês, mas a situação era clara, porque o tal da cabeça grande ia ficando cada vez mais furioso e dava berros selvagens, pondo as mãos disformes em cima de mim, e puxando-me para fora da cama, sem fazer caso do sangue que saía da minha ferida. O pequeno monstro era forte como um touro, e não sei o que ele teria feito de mim se um homem já maduro, que dispunha claramente de mais autoridade que os presentes, não tivesse chegado ao local atraído pela algazarra. O recém-chegado disse algumas palavras severas em holandês, e meu perseguidor desistiu de seu propósito. Então, o outro voltou-se para mim, olhando-me com verdadeiro assombro.

“— Como foi possível que o senhor viesse parar aqui? — perguntou-me. — Espere um pouco. Vejo que está cansado e que seu ombro ferido precisa ser tratado. Sou médico, e logo lhe farei o curativo necessário. Mas, homem de Deus, o senhor aqui corre um perigo muito maior do que no campo de batalha! Está num hospital de leprosos, e dormiu na cama de um leproso.

“Será preciso acrescentar mais alguma coisa, Jimmie? Parece que, com a batalha iminente, aqueles infelizes tinham sido evacuados na véspera. Depois, enquanto os britânicos avançavam, tinham sido reconduzidos para lá por aquele homem, superintendente médico do hospital, o qual me garantiu que, embora se acreditasse imunizado contra a moléstia, jamais ousaria fazer o que eu tinha feito. Pôs-me num quarto particular, tratou-me com bondade, e, decorrida mais ou menos uma semana, fui enviado para o Hospital Geral de Pretória.

“Essa é a minha tragédia. Aguardei cheio de esperança, mas só depois de chegar a casa é que os terríveis sinais que vê em meu rosto me disseram que eu não tinha escapado. Que havia de fazer? Encontrava-me nesta casa solitária. Tínhamos dois criados de absoluta confiança. Havia um pavilhão onde eu podia viver. Sob juramento de segredo total, o sr. Kent, que é médico, dispôs-se a ficar comigo. Posta nesses termos, a coisa pareceu bastante fácil. A alternativa é que era terrível.. isolamento perpétuo entre estranhos, sem nenhuma esperança de libertação. Mas era necessário absoluto sigilo, do contrário até mesmo nesta sossegada zona rural se ergueria um clamor público, e eu teria de ser atirado ao meu horroroso destino. Até você, Jimmie, até mesmo você teve de ficar alheio ao caso. Não posso imaginar por que motivo meu pai quebrou meu isolamento.

O coronel Emsworth apontou para mim.

— Foi este cavalheiro que me obrigou. — O velho militar desdobrou o pedaço de papel no qual eu escrevera a palavra “lepra”. — Pareceu-me que, já que ele sabia tanto, era preferível que soubesse o resto.

— Assim é — confirmei. — E quem sabe se daí não pode resultar algum bem? Segundo me consta, somente o sr. Kent examinou o doente. Permita-me indagar, cavalheiro, se o senhor é alguma autoridade nessas doenças, que são, conforme estou informado, de natureza tropical ou semi-tropical.

— Possuo os conhecimentos correntes de todos os homens formados em medicina — respondeu o interpelado, formalizando-se um pouco.

— Não tenho a menor dúvida, doutor, quanto à sua competência, mas também não duvido que o senhor concordará em que, num caso destes, uma segunda opinião é valiosa. Sei que evitou esse alvitre receando que insistissem no sentido de isolar o paciente.

— É exato — disse o coronel Emsworth.

— Prevendo tal situação — expliquei —, trouxe comigo um amigo com cuja absoluta discrição se pode contar. Prestei-lhe uma vez um serviço profissional, e ele se prontificou a emitir sua opinião mais como amigo do que como especialista. Seu nome é Sir James Saunders. A expectativa de uma entrevista com lorde Roberts não teria causado maior deslumbramento e satisfação a um rude subalterno do que a que se via estampada agora no rosto do sr. Kent.

— Será para mim uma honra conhecê-lo — murmurou o médico.

— Vou então pedir a Sir James que dê um pulo até aqui. Ele está na carruagem, que ficou lá fora. Entretanto, coronel Emsworth, talvez possamos nos reunir em seu escritório, onde me seria possível dar as necessárias explicações.

E aqui é que vejo a falta que me faz o meu Watson. Mediante perguntas astutas e exclamações de pasmo, ele saberia enaltecer a minha arte comezinha, que não é mais que bom senso sistematizado, e elevá-la às alturas de prodígio. Quando sou eu que conto a história, fico sem essa ajuda. Todavia, vou transmitir ao leitor meu processo mental da mesma forma que o fiz ao meu reduzido auditório, que incluía também a mãe de Godfrey, no gabinete do coronel Emsworth.

— Este meu processo — principiei — parte da suposição de que, uma vez eliminado tudo o que é impossível, o restante, por pouco provável que pareça, deve ser a verdade. Também pode ocorrer que várias explicações fiquem de pé, e nesse caso tenta-se uma experiência, e logo outra, até que uma delas tenha uma base convincente. Vamos agora aplicar esse princípio ao caso presente. Tal como primeiro me foi apresentado, havia três. explicações possíveis a respeito da reclusão ou encarceramento daquele cavalheiro numa dependência da mansão paterna. Havia a explicação de que se mantivesse oculto por causa de um crime, ou de que estivesse louco e os seus desejassem evitar seu internamento num manicômio, ou de que tivesse alguma doença que motivara o isolamento. Não pude descobrir outras soluções adequadas. Estas, portanto, tinham de ser analisadas e postas em contraste.

“A solução criminal não resistiu ao exame. Não havia, naquele distrito, notícia de nenhum crime cuja solução preocupasse as autoridades. Disso eu estava certo. Se se tratasse de algum crime ainda não descoberto, então é claro que seria de interesse para a família desembaraçar-se do delinqüente, e não conservá-lo oculto em casa. Não pude achar explicação para tal procedimento.

“A loucura era mais plausível. A presença da segunda pessoa no pavilhão sugeria um guarda. O fato de essa pessoa, ao sair, ter fechado a porta à chave corroborava a hipótese e dava a idéia de detenção. Por outro lado, essa detenção não podia ser severa, do contrário o jovem não teria escapado nem teria ido espiar seu amigo. O senhor deve se recordar, sr. Dodd, que eu sondava o terreno aqui e ali, perguntando-lhe, por exemplo, qual o jornal que o sr. Kent estava lendo. Se fosse o Lancet ou o British Medical Journal, isso teria me ajudado. Entretanto, não é ilegal conservar um doido numa casa particular, uma vez que ele esteja sob os cuidados de uma pessoa capaz e que as autoridades tenham sido devidamente notificadas. Por quê, pois, tanto mistério? Mais uma vez não pude ajustar a teoria aos fatos.

“Restava a terceira possibilidade, com a qual, apesar de insólita e pouco verossímil, tudo parecia condizer. Não é rara na África do Sul a lepra. Por alguma casualidade extraordinária, o jovem podia tê-la contraído. As pessoas da família se veriam numa situação angustiosa, visto que desejariam salvá-lo do isolamento. Seria necessário grande segredo para evitar que a coisa transpirasse, seguindo-se então a interferência das autoridades. Facilmente se encontraria um médico devotado, o qual, sendo bem pago, se encarregaria do enfermo. Não havia motivos para se proibir este último de sair depois do escurecer. O embranquecimento da pele é um sintoma comum da moléstia. Tratava-se de um caso notável, tão notável que deliberei agir como se estivesse realmente provado. Quando, ao chegar aqui, notei que Raph, que é quem leva as refeições, usava luvas impregnadas de desinfetante, minhas últimas dúvidas se dissiparam. Uma única palavra lhe mostrou, coronel, que seu segredo fora descoberto, e, se preferi escrevê-la a dizê-la, foi para lhe provar que podia confiar na minha discrição. Estava eu terminando esta ligeira análise do caso quando a porta se abriu e apareceu a austera figura do grande dermatologista. Desta vez, porém, suas feições rígidas estavam suavizadas, e via-se nos seus olhos uma cálida expressão de humanidade. Encaminhou-se diretamente para o coronel Emsworth e apertou-lhe a mão.

— Acontece-me freqüentemente ser portador de más novas, e raramente de boas — disse ele. — Mas, na presente ocasião, mereço um prêmio. Não é lepra.

— Como?

— Um caso bem marcado de falsa lepra ou ictiose, uma afecção escamosa da pele, desagradável à vista, obstinada, mas possivelmente curável e certamente nao-infecciosa. Sim, sr. Holmes, a coincidência é notável. Mas será realmente coincidência? Não estarão em ação forças sutis das quais pouca coisa sabemos? Quem nos assegura que a apreensão, que aquele rapaz sem dúvida sofreu de maneira terrível desde que esteve exposto ao contágio, não tenha produzido um efeito físico que simula aquilo que ele teme? Seja como for, empenho minha reputação profissional…. mas a senhora teve um desmaio! Creio que o sr. Kent deve cuidar da sra. Emsworth até que ela se restabeleça de um choque tão feliz.

1927
Histórias de Sherlock Holmes

1. A pedra Mazarino § 2. A ponte de Thor
3. O homem que andava de rastos § 4. O vampiro de Sussex
5. Os três Garridebs § 6. O cliente ilustre
7. As três empenas § 8. O rosto lívido
9. A juba do leão § 10. Josiah Amberley
11. A inquilina do rosto coberto § 12. O velho solar de Shoscombe

Ilustrações: Howard K. Elcock, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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